sexta-feira, julho 31, 2009

Recusado

A quem interessar, recebi a resposta da bolsa para o meu mestrado em Londres:

[...]we regret to inform you that your application was not successful on this occasion.

Feliz ou infelizmente, parece que ficarei aqui mais um ano tentando conseguir dinheiro para essa aventura. Estou tentando colocar as coisas em perspectiva, apesar da tristeza. Tentando me convencer de que ficar por aqui terá seus prazeres. Fico para ver o nascimento de Aurora em Outubro. Fico para aprender a ser um artista de verdade, aprender a me organizar e produzir agora que saí da publicidade. Fico para aprender a sobreviver. Fico para ver a formatura da Lexy no ano que vem.

sexta-feira, julho 24, 2009

Patrícia Piccinini

Há um truque simples porém muito eficaz na arte moderna que consiste em trabalhar com conceitos específicos isolados de seus contextos. A artista australiana Patrícia Piccinini entende bem do assunto. Interessada por assuntos de bioética e manipulação genética, ela participou da Bienal de Veneza em 2003 com algumas das suas criaturas mais orgânicas. São esculturas que lembram muito o trabalho de outro escultor hiperrealista contemporâneo, Ron Mueck. Mas as de Patrícia têm uma característica diferente: não são pessoas reais como as de Mueck. É como se ela tivesse escolhido apenas trabalhar com o conceito da pele, que figura no seu trabalho de uma forma perturbadoramente realista, com pintas, pelos, verrugas e todas as imperfeições randômicas de pessoas reais. Só que em vez de vesti-la em pessoas, ela deu-lhes as formas de seres estranhos, com suas próprias lógicas genéticas. Às vezes, como no Still Life with Stem Cells, as criaturas nem fazem sentido. São apenas orgânicas, com uma pele que respira. Todos os outros conceitos que poderiam ser atrelados a isso são evitados.
Piccinini levanta duas questões que muito me interessam e já tentei começar a escrever um daqueles meu contos que nunca termino a respeito (com a colaboração do Piero, um ótimo biólogo). Primeiramente, aquele assunto místico e indefinível: o que é vida? No conto que eu tentei escrever, chamado Fleshcraft, uma empresa de engenharia genética criava ferramentas e máquinas com partes orgânicas que precisavam de circulação e respiração ou morriam e o produto deixava de funcionar. Ao longo da história, as perguntas eram repetidas: esses objetos estão vivos? O que define a vida? A imagem que eu tinha em mente dos aparelhos era bem parecida com as formas em Still Life with Stem Cells ou as coisas do eXistenZ do David Cronenberg [1][2][3]
que são todos elementos que levantam essas questões sobre o orgânico.
A segunda questão levantada abertamente pelos trabalho da Patrícia Piccinini tem a ver com bioética. Como a nossa sociedade vai lidar com criaturas genéticamente projetadas do zero? Onde vai estar o limiar entre considerar aquilo uma forma de vida digna de respeito, uma máquina orgânica ou mesmo uma coisa com alma (outro assunto místico...)? E como estas respostas mudam a forma como nós pensamos sobre nós mesmos (afinal, não somos também até certo ponto máquinas orgânicas?)?

quarta-feira, julho 15, 2009

Dia Internacional do Homem

Nem eu sabia, mas hoje é o Dia Internacional do Homem por aqui. Digo "por aqui", porque segundo a ONU, UNESCO e outras fontes, o dia oficial é 19 de Novembro. A data foi inicialmente proposta pelo doutor Jerome Teelucksingh, de Trinidad e Tobago, com o objetivo de "melhorar a saúde dos homens (especialmente dos mais jovens), melhorar a relação entre gêneros, promover a igualdade entre gêneros e destacar papéis positivos de homens. É uma ocasião em que homens se reúnem para combater o sexismo e, ao mesmo tempo, celebrar suas conquistas e contribuições na comunidade, na famílias e no casamento, e na criação dos filhos."
Hoje a data de Novembro é oficialmente comemorada na Jamaica, Austrália, Índia, Estados Unidos, Cingapura, Reino Unido e Malta. Ainda não descobri porque comemoramos a ocasião em uma data diferente por aqui. Provavelmente pelo mesmo tipo de razão local que nos leva a comemorar o Dia dos Namorados em uma data diferente do resto do mundo.

A data, claro, levanta alguma polêmica. Alguns consideram que um Dia do Homem é desnecessário, sendo que supostamente todo dia é Dia do Homem e o Dia da Mulher é a única excessão. A discussão me faz lembrar da cômica "Parada do Orgulho Hetero" que acontece no dia seguinte à Parada Gay. Como se celebrar a escolha pela heterossexualidade fosse uma espécie de preconceito contra os homossexuais e celebrar o bom e o ruim de ter nascido homem fosse preconceito contra quem nasceu mulher.

O Dia Internacional do Homem é masculista antes de ser machista. Ainda que para muitos, incluindo alguns homens, a diferença não seja muito clara.

Termino o posto linkando para algumas coisas interessantes que achei recentemente sobre o assunto todo. Tenho que dizer que não concordo com todos os pontos de vista expostos neles, mas começar a discutir essas coisas já é um avanço. Qualquer opinião é bem vinda.
www.papodehomem.com.br
A nova geração de homens mimados (www.papodehomem.com.br) [1]
Why Men Earn More - The Startling Truth Behind the Pay Gap (Palestra de Warren Farrell no YouTube em 8 partes) [1][2][3][4][5][6][7][8]
A Gathering of Men (Robert Bly, autor do João de Ferro, sendo entrevistado pelo Bill Moyers) [1]

quinta-feira, julho 09, 2009

Sophie Calle no SESC

Começa nesse sábado a exposição da Sophie Calle no SESC Pompéia.

[Vergonha: apesar de ser grande fã do seu trabalho, ainda não sei como se pronuncia o sobrenome. "CallÉ"? "CallÊ"? "CAlli"? "Cal", com "e" muda?]

Estou xingando a organização da FLIP deste ano por continuar fazer um evento tão elitista que só vende ingressos para parentes e conhecidos dos organizadores e patrocinadores. Calle esteve no evento, onde reencontrou seu ex-amor,o escritor Grégoire Bouillier. Eles haviam terminado o relacionamento por uma carta dele anos atrás, que terminava com a expressão "cuide de você". A artista, incapaz de lidar com o enorme peso do rompimento, transformou-o em obra de arte, convidando 107 mulheres para ler e interpretar a carta, criando suas próprias expressões sobre o assunto. Bouillier, por sua vez, escreveu o livro O Convidado Surpresa, que acaba de ser publicado no Brasil, e faz referência ao ritual de Calle de convidar um número de pessoas igual à sua idade em cada festa de aniversário e pedir que alguém traga um convidade supresa para ela conhecer, representando o ano seguinte.
Os trabalho de Sophie Calle inspiram em mim tudo que eu não posso ser por causa das amarras sociais. Por causa das pessoas que se entristecem, enraivecem, brigam e reclamam toda vez que escrevo por aqui ou pinto alguma coisa que mostre o que realmente penso. Imagino que não teria tantos fantasmas de relacionamentos passados se me fosse permitido fazer de cada um deles uma pintura decente, mais que um mero retrato. E mais do que isso: se pudesse não ter medo de escrever, pintar e fotografar todos os detalhes perversos e doentios que eu, como todo mundo, tenho sobre meu relacionamento com os outros e sou educado a esconder. As obssessões, os desvios de personalidade, as imoralidades, as amoralidades. Depois de tanto tempo de blog e de arte, eu sei que essas coisas são superadas e ninguém briga pra sempre. Mas ainda me acovardo diante do desgaste emocional e do desperdício de tempo que elas causam. E principalmente diante da culpa que a tristeza e raiva dos outros me fazem sentir. Vale a pena passar por tudo isso pra viver uma vida mais verdadeira e poética? Quisera ter a coragem de levar tudo às últimas consequências como ela.

Já cheguei a comentar por aqui que uma das coisas que mais me interessam do trabalho de Calle é a visão que ela tem do carater catárdico da arte. Da capacidade que o status de arte tem de sublimar o aspecto negativo das perversões e da loucura, transformando-as em coisas respeitáveis, apreciáveis. Em vez da artista esconder seu hábito de stalkear pessoas e seu gosto por escarafunchar a intimidade dos outros, que normalmente seriam considerados desvios de carater, ela os transforma em performances, pesquisa de arte. E assim todo mundo acha lindo e se identifica. Porque no fundo, todo mundo tem um pouco disso mas não admite. É considerado menos doentio espiar a vida dos outros pelo Orkut do que segui-los pela rua no escuro da noite. Mas a rigor, os dois são a mesma coisa e todo mundo gostaria de fazer isso com esta ou aquela pessoa.

Comente. Me diga: quem você stalkearia para fazer um trabalho de arte?

A exposição Cuide de você acontece de 10 de Julho a 7 de Setembro de 2009, no SESC Pompéia (R. Clélia, 93. Pompéia, zona oeste. Tel. (11) 3871-7700). Entrada franca!

terça-feira, julho 07, 2009

Decapitator

A @perseph0ne lançou este no Twitter há alguns dias.

O Flickr do Decapitator mostra intervenções urbanas um pouco inusitadas com um forte teor de crítica contra a indústria da publicidade.
A técnica é simples: ele provavelmente fotografa mídia externa (outdoors, cartazes em pontos de ônibus, publicidade em shoppings), trata as imagens no Photoshop para decapitar alguma das pessoas retratadas da forma mais sangrenta possível, incluíndo o sangue espalhado nas outras pessoas da foto, e imprime a edição em folhas que são coladas por cima da imagem original.
Certamente é uma ação com mais raciocínio e sabor estético do que a pichação, o grafite tradicional ou até a arte de sticker, normalmente preocupados mais em marcar território do que ativamente questionar alguma coisa. E facilmente ganha a simpatia de pessoas que consideram a publicidade desnecessariamente apelativa, inpiradora dessa atitude de nariz empinado que diz "eu posso te tratar como lixo porque visto roupas mais caras ou tenho um celular com mais funções". Tem um gosto delicioso de vingança: a arte de rua atacando o design de grife com uma tirada de humor negro.
Tem ainda algumas sacadas pósmodernas: a apropriação sem dó ou consideração por direitos autorais de imagens da mídia de massa e a elevação de algo mundano para o status de arte por um gesto simples do artista.

Acho que não demora muito até ele ser abordado por uma Choque Cultural da vida e começar a de fato divulgar isso como arte.

[P.S.: a Lexy vai achar este daqui particularmente terrível...]

sexta-feira, julho 03, 2009

Ruffles sexista

Não pude deixar de colocar um comentário por aqui sobre a nova campanha da Ruffles.
Parece que eles desenvolveram um sabor para meninos e um sabor para meninas. O mais legal da página do Comunicadores sobre essa campanha são os comentários dos leitores. Um deles escreve (com toda a razão) que essa coisa de segmentar de acordo com o sexo é típica dos anos 80, como se a campanha fosse um gigantesco retrocesso.
Mas o mais revoltante da coisa toda é a forma como cada um dos comerciais de 30 segundos "analisa" cada um dos sexos. As meninas aparecem com aquela imagem de fúteis que pensam em sapatos, fofocas e gatos (ambos os animais: humanos e felinos...). Já os meninos são ainda mais estereotipadamente ridículos e pensam em uma única coisa: meninas. Preferencialmente de calcinha ou bikini. Se tivessem ao menos colocado futebol e videogames seria um pouco menos estereotipado, embora ainda terrivelmente simplista.
Outra questão também apontada pelos leitores do Comunicadores é o tiro no pé que a Ruffles dá segmentando um produto dirigido a uma faixa etária que já tem problemas suficientes com a definição de sua sexualidade para ficar paranóica com a escolha de um salgadinho. Já imaginou o coitado do moleque que tem um gosto mais vegetariano e adora o sabor cream cheese da Ruffles para meninas? Até que seria inspirador ver um rapaz não se importar com os amigos fazendo chacota de sua masculinidade por essa simples escolha, mas poucos adolescentes têm essa maturidade.

Concordando com o comentário do leitor do Comunicadores, eu já acho que o cerne dessa campanha é um tremendo pisar em ovos. Mas apenas como um relativamente polêmico exercício mental, lanço a pergunta: o que poderia ser considerada como uma análise mais realista e menos estereotipada de meninos e meninas?