domingo, abril 30, 2006

A Grande Viagem - Milao 2

Antes de voltar a Perugia, resolvi passar por Milao novamente, ja que eu estava la por perto mesmo. O sr. Zeller tinha escrito um e-mail perguntando se eu nao ia aparecer mais em Milao, entao resolvi visita-lo novamente. Mas também ia a Milao falar com Enrico Camerini. Amigo de minha avo, conheci-o em Sao Paulo mesmo: deu-me suas impressoes sobre a minha pintura. Foi um critico duro, mas muito inspirador. Soube qe seu filho trabalhava em publicidade em Milao.

No trem, dormindo e acordando diversas vezes, me dei conta de um novo nivel de semi-consciencia. Porque quando voce dorme em um trem ou onibus, ha muito estimulo no mundo real, entao voce nao consegue realmente se desligar dele. A mente vaga para dentro do sonho, mas nao completamente, como quando se dorme em uma cama. Fica ciente das duas existencias: aquela do mundo real, onde o corpo tenta encontrar a posiçao mais confortavel para relaxar e, quem sabe, desligar completamente do mundo real; e aquela do sonho, que é mais ou menos como se a mente estivesse contando uma historia.
Em um dos momentos de consciencia, comecei a pensar em como eu estava, talvez pela primeira vez, vivendo uma vida que era minha e so minha. Porque admito, em Sao Paulo, eu tentava copiar a vida de outras pessoas que me inspiravam. Minha historia acabava sendo uma versao genérica da historia dos outros. Mesmo minha vinda para a Europa tinha sido inspirada na viagem de amigos, que tinham escolhido a Inglaterra ou a França, por razoes proprias. Talvez escolher a Italia e ir atras do meu passado tenha sido uma das primeiras açoes tomadas no sentido de viver minha propria historia, com minhas proprias conclusoes e meu proprio estilo. Antes disso, apenas açoes superficiais: jogar bumerangue no parque aos sabados ou fazer circo como esporte. Daria pra continuar com isso quando eu voltasse ao Brasil? Continuar procurando viver minha propia historia e nao copiar a dos outros?

A visita a Milao foi uma coleçao de pequenos momentos particulares.
Eu so tinha um objetivo: ver a Ultima Ceia do Da Vinci. Mas quando cheguei la, me disseram que os ingressos estavam esgotados até o fim de Maio. Efeitos do livro do Dan Brown...
O resto, como disse, eram detalhes particulares. Meu reflexo nas maçanetas polidas das portas de lojas fechadas para a Pascoa. Os mendigos vociferando contra os estrangeiros na rua. O habito do sr. Zeller de tomar um bloody mary antes do almoço. Ser apresentado a seus netos e me interessar pela neta.
Na rua, seguindo uma menina trajada de preto e cheia de pinduricalhos, acabo encontrando a fiera di senegalli, que Livio mencionara. Um reduto gotico-punk escondido em Milao, cheio daquelas pessoas vestidas de modo interessante. Um rapaz passa por mim, vestindo terno e calça social ajustados perfeitamente para ele, tudo preto. No rosto, maquiagem gotica. Percebo o quao pouca atençao eu presto ao modo como os rapazes se vestem: saberia dizer perfeitamente o que eu gostaria que uma garota minha vestisse desse estilo, mas nao sei o que ficaria bem em mim, por falta de referencias. Compro algumas coisas pequenas, entre elas um broche com a bandeira do Brasil, so de farra.
Naquela noite, Livio me leva a uma festa. Outra, alias. Suponho que, nas minhas memorias da Europa, sempre terei o senhor Livio Zeller como um velhinho simpatico e muito festeiro, que ia cada noite a uma festa diferente, ora com a turma de antropologos, ora com os artistas plasticos, ou com quem quer que conhecesse. Sempre feliz.
A festa era de um escultor, Wolmer Canton, que tinha peças que misturavam o organico de rostos e corpos, com partes duras, geometricas, quase roboticas, revestindo alguns membros do corpo. Em um canto do atelie, me esforço para isolar de um bando de traços a figura de uma esfinge. Wolmer se impressiona, porque poucos conseguem ver. Eu, como sempre, acabo sendo o mascote da festa, o mais jovem. Converso com uma senhora egipcia, dois ou tres outros artistas, e com uma outra hospede do sr. Zeller que nos acompanha, Luisa. Nao entendo muito bem, mas suponho que seu pai tenha sido brasileiro. De qualquer modo, depois de um tempo ela resolve relembrar o portugues, e o faz sem muito esforço. A festa termina do modo como suponho terminem todas as festas às quais o sr. Zeller atende: velhinhos dançando. Lembro da minha primeira visita.

Sonho naquela noite que meu irmao dirige um carro na estrada que beira o mar em Trieste. Vou no banco do passageiro e no de tras, Uly (de Floripa) e uma amalgama entre Gabe e Rochelle (a australiana conhecida em Veneza) me perguntam qual foi a melhor idade da minha vida. Acordo impressionado com o fato de que nunca percebi a semelhança entre as duas meninas.

Na manha seguinte, Luisa ainda dorme no sofa. Tem um rosto belo e sabe se cuidar. Daquele tipo de pessoa que envelhece bem. Passeio pela casa, pela coleçao de memorias do sr. Zeller. Na mesa, um folheto contem reflexoes sobre pintura de um certo Giuseppe Bonura. Me demoro a ler, encontrando tanta coisa com a qual concordo. Até o fim do dia, terei feito uma copia xerox no cybercafé da esquina e devolvido o folheto a seu lugar original, sorrateiramente. Em outro lugar, entre as pastas com documentos de carreira e detalhes da vida pessoal, encontro uma com folhas impressas contendo todos os e-mails relvantes mandados à minha avo e suas respostas. Todo o cuidado e atençao de uma paixao de adolescente que nunca foi levada a cabo. Percebo-me um stalker perscrutando os achados de outro stalker. E descubro que sim, eles chegaram a ter algo, um desses primeiros relacionamentos, imaturo e terminado prematuramente com a partida dela.
Penso que algumas pessoas achariam estranho ou levemente perverso eu ser o convidado do primeiro namorado de minha avo. Para mim, outra vez uma sensaçao de identidade. Sera que eu seria assim aos 80, tendo mantido um contato tenue com todos os meus ex-amores, apenas uma presença observando-as de longe? Mas entao percebo que estou contradizendo o pensamento que tive no trem.

Finalmente telefono para Camerini. O filho teve que viajar, mas de qualquer jeito nao trabalha mais com publicidade. Quando lhe digo dos meus planos de encontrar algum trabalho decente por aqui e talvez ficar na Italia, ele me pergunta porque que eu faria uma coisa dessas. Naquele momento, minha convicçao fraqueja. Realmente: porque que eu queria vir morar na Italia. Depois de tres meses por aqui, eu nao estava mais tao absolutamente certo de que a Italia era minha Terra Prometida. A aventura tinha sido linda, mas a utopia de uma terra européia onde tudo funcionava tinha sofrido uma leve erosao. Claro, ainda era melhor do que o Brasil, na minha opiniao. Mas talvez houvesse outros lugares melhores, com mais oportunidades. Desligo o telefone pensativo.

sexta-feira, abril 28, 2006

A Grande Viagem - Trieste [Dia Final]

Me despedi da funcionaria simpatica do albergue e montei toda a Armadura de Viajante. Devia sair de Trieste no trem do meio-dia, mas ainda tinha uma manha inteira de ultimas tentativas desesperadas. No e-mail de minha avo, ela mencionava Enzio Volli, um amigo de infancia que tornara-se advogado e que talvez poderia ajudar com os documentos. Fui encontra-lo no centro da cidade, em seu escritorio, bem ciente da coisa surreal que era eu aparecer do nada, proclamando-me neto de minha avo, e ainda por cima coberto de mochilas. Recebido na porta do escritorio de advocacia por uma secretaria depois de entrar com dificuldade pela porta estreita cheio de mochilas, perguntei pelo senhor Volli, apos explicar quem eu era. E este senhor que passava por acaso ao meu lado, sem toda a pinta de um grande advogado, apresentou-se prontamente como Enzio. Felicissimo por me encontrar, levou-me até sua sala. No caminho, passando pela secretaria, comentou que tinha acabado de escrever um e-mail à minha avo, que tinha lhe perguntado sobre os documentos, e pediu à secretaria que agregasse algumas linhas comentando da minha chegada ao escritorio.
Uma sensaçao estranha. Minha avo estendia braços virtuais até aqui em Trieste, atras do que precisava. Repentinamente, minha importancia como cavaleiro desta cruzada por documentos antigos era diminuida. Queria ser eu a conseguir todos estes documentos. Eu a portar o Graal. E no entanto, o fato dela ter outros recursos e nao depender de mim me trazia algum alivio, frente às derrotas que eu tivera nesse ambito, às escolas fechadas. Ao menos alguém podia continuar o trabalho quando as festividades de Pascoa acabassem.
Alias, era dia de Pascoa. Enzio ofereceu-me um café que veio com dois minimos ovinhos para festejar. Lembrou-me de minha mae que tinha me telefonado e dito que sentia pena porque eu passaria uma Pascoa sem a familia. Respondi que eu estava atualmente morando na cidade da Perugina, e que estaria bem quanto a isso...
Enzio explicou-me também o porque de eu nao conseguir minha carta de identidade. De como eu precisaria efetivamente ter um endereço fixo na Italia, coisa que eu nao tinha. No entanto, o passaporte servia para as exatas mesmas coisas que a carta de identidade, exceto pelas eleiçoes, às quais eu nao tinha nenhum interesse em participar. Dando-me ainda todos os seus contatos, despediu-se de mim, deixando-me um pouco mais tranquilo quanto a toda a parte da cruzada por documentos.

Ainda assim, eu estava decidido a nao sair de Trieste sem ao menos uma vitoria. Lutaria até o fim, por orgulho. Marchei com mochilas e tudo até o Dante, em um dia belissimo. Largando a mochila maior em um gesto violento e chamativo, pedi para falar com alguém que me ajudasse a achar documentos de uma aluna antiga. E fui atendido por uma senhora que, de inicio, ja mostrava toda a preguiça da burocracia italiana, muito similar à brasileira, que inflamava ainda mais minha persistencia. Em uma coisa ao menos, ela tinha razao: a escola nao podia atualmente assinar documentos que dissessem que determinado aluno teve que sair da escola pelas leis raciais. Nao havia documentos especificos que provassem isso, e a escola ja nao tinha funcioarios que estivessem vivos naquela época para servirem de testemunha. Uma idéia: encontrar o ultimo boletim de notas de minha avo. Isso, junto com boletins ou documentos que provassem que ela começou a estudar na escola hebraica no ano seguinte, provariam que ela teve que deixar o Dante. Seria um começo.
Nos guiamos pelo e-mail de minha avo: queria um documento que dissesse que ela saiu da escola no ano de 38 e nao pode fazer o 3° ginnasio. Primeiro problema: o 3°ginnasio era um ano escolar de um sistema antigo que nao existia mais. "Irrelevante", respondi. Queria ver as notas de alunos de 38. Solicita, embora um pouco incomodada, ela pediu alguns minutos e voltou com um grosso livro dos alunos de 38. La estavam todas as classes. Em algum lugar devia estar o equivalente ao 3° ginnasio de minha avo. Alias, logo descobri que haviam varios. Ao menos quatro turmas de cada ano. Mas nada do nome de minha avo. E entao, um momento de inspiraçao: ela saira em 38. Traga-me o livro de 37!
Eis que estava la, a turma anterior ao 3°ginnasio: Nidia Pincherle. Escrito sem o "Y" caracteristico dela, mas era ela. Meu sorriso nao podia ser maior. A pagina continha as notas altas de uma boa estudante, além do registro de que ela professava a religiao israelita e... até que tinha sido a "Piccola Italiana"! O detalhe estava na autobiografia de minha avo, dizendo que participara de desfiles patrioticos protagonizados pelo Dante na década de 30. Era isso, um dos documentos! Afirmando que ela era judia facilitava ainda mais. Minha alegria contagiara até a secretaria, que nao se opos a fazer-me uma copia o mais rapido possivel e até chegou a encontrar um dos diretores do colégio, para obter uma assinatura que validasse o documento. Em meio à operaçao, até lembrou-se do sobrenome, e da ligaçao com o Pineta del Carso!

Sai da secretaria com o documento envelopado em maos. Nao resisti: alcei-o ao ar no gesto comico dos personagens de videogame recompensados pelas façanhas com itens valiosos. Era uma vitoria, embora uma vitoria parcial. Se tivesse mais tempo, infernizaria da mesma forma a escola hebraica, até conseguir o que queria. Mas entao o meio dia estava chegando. Triste, despedi-me do centro da cidade, das motos e dos jovens lindos e frios.
No trem, vendo a placa da estaça de Trieste Centrale correr cada vez mais longe, despedi-me de Trieste. A Trieste delle belle donne, como dissera o Sr. Zeller de Milao, onde eu estava indo agora. A Trieste dos prédios de arquitetura cheia de sharpness dos anos 50, que me fazia sentir dentro de um film noir a cores. A Trieste do estranho mar verde-agua similar àquele de Veneza, mas muito mais transparente e frio. A Trieste que me inspirara uma estranha sensaçao de identidade, como se fosse feita de acordo com o estilo de estética que definia o meu personagem nesse filme: a minha cidade. Ainda que tivesse me tratado com certa hostilidade.

quinta-feira, abril 27, 2006

A Grande Viagem - Trieste [Dia 3]

Miramare, o Faro e o Sanatorio de Aurisina

Desculpem a demora: estava esperando revelar e escanear as fotos. E agora, na minha ultima semana por aqui, o lugar com o Photoshop ficara fora de serviço, entao vai ter que ser assim, na marra e em baixa qualidade mesmo...

Acordei no terceiro dia de Trieste com uma idéia fixa na cabeça. Na verdade, ja tinha pensado nisso dias antes, mas naquele dia, acordei com vontade de realizar. Reservei as primeiras horas da manha, para nao ter pressa. Sai do albergue e encontrei a escadinha mais proxima que desse acesso ao mar. E la, tentando arranjar alguma posiçao confortavel, tirei a foto de um beijo para fazer uma pequena homenagem (vovo, clique na palavra em vermelho!).

Castelo de MiramareCom o gosto de sal ainda na boca e os fundilhos meio molhados, me dirigi ao Castelo de Miramare, para fazer a liçao de casa. Afinal, vir a Trieste sem visitar o Castelo era como ir a Roma sem visitar o Vaticano.
O Castelo de Miramare ficava em uma zona ambiental protegida. Havia uma zona de proteçao mais intensa no centro, onde estava o Castelo, e uma zona mais leve, denominada zona de buffer. Dentro da zona mais intensa,o silencio era quebrado apenas pela voz dos visitantes e pelo gemido das arvores que, movidas pelo vento, rangiam em coro.
Deixando o Castelo em si para depois, fui dar uma olhada no jardim. Sentia-me no século XIX, deixando o tempo passar com sutil negligencia em meio àquela paisagem cuidadosamente arrumada.
O cisne belo e traiçoeiroDepois de um jardim florido de multiplas cores (ainda preciso escrever da primavera na Europa...), encontrei um pequeno lago com patos. De algum canto escondido numa curva do lago, crianças vieram correndo, chamando atras de si um enorme cisne que as seguia atras de pedaçoes de pao. Que bicho maravilhoso: sutil, leve sobre a agua, gracioso nos movimentos. Até que esticou a cabeça por entre a cerca que rodeava o lago e mordeu a perna de um dos garotos que, assustado, deixou o pao cair. Era um bicho ao mesmo tempo belo e traiçoeiro, como qualquer expoente de vida palaciana da época em que o Castelo fora construido. Nao aceitava o pao deixado nas pedras que rodeavam o lago ou caido na agua: queria pegar da mao. Queria mesmo morder os dedos. Deu-me uma bicada, mas nao me feriu. E com alguma pratica, consegui achar a distancia certa para oferecer-lhe um bocado.
Mais ao fundo do jardim, um pequeno mirante sobre o mar abrigava um pequeno grupo de canhoes, para defender o Castelo de invasores. Um deles, virado em dieçao ao proprio Castelo, me fazia pensar cenas tragi-comicas. Perto do mirante, um castelinho menor abrigava hoje uma associaçao de preservaçao da area do Castelo, ao lado de uma fonte no minimo peculiar: um garotinho que segurava a força uma cegonha maior do que ele, esticando-lhe o pescoço em direçao ao céu. Podia-se ver que a agua brotaria do bico aberto da cegonha, se a fonte estivesse ligada. Fazia-me rir. Parecia coisa de desenho da Disney.
Tendo visto os jardins, voltei e entrei no Castelo, para terminar a visita. O Castelo de Miramare foi construido entre 1856 e 1860, para ser a residencia de verao do arquiduque Maximiliano de Habsburgo. Até hoje é conservado nos minimos detalhes, incluindo a disposiçao da mobilia e objetos de uso doméestico, sendo uma visita didatica ao estilo de vida da nobreza daquela época. Podia-se ver os quartos, escritorios e salas onde Maximiliano vivia, durante o verao, com sua mulher Carlota, da Bélgica. Ele, um almirante, tinha os quartos decorados de forma a parecerem aposentos de um navio, e as janelas viradas para o mar, de modo a sentir-se sempre a navegar. Ela, tinha quartos dedicados à musica, pintura e outras prendas de damas daquela época, além de passagens secretas para a capela no interior do Castelo. A visita faz um otimo trabalho de contar a cronologia de Maximiliano, sobre como ele casou-se com Carlota em um tempo de muita prosperidade e alegria, conseguindo diversos titulos nobiliarquicos com o casamento e eventualmente sendo apontado imperador das colonias no México. Varias pinturas mostram imperadores de diversos impérios, incluindo Dom Pedro II, que o ajudaram na empreitada, e uma pintura épica representando sua partida para a América. As ultimas salas visitadas, no entando, contam um desfecho tragico da novela: salas de conferencia, onde foram assinados tratados importantes, decoradas de modo a portarem simbolos da vitoria no México e da vida de conquistas, gradualmente assumem um tom de derrota, à medida em que o narrador do audioguia conta como as revoltas camponesas na América se intensificaram, dificultando a vida para o imperador. Carlota retorna à Bélgica para pedir ajuda financeira e exércitos, mas ja começa a mostrar sinais de problemas mentais e nao consegue levar a cabo a missao. Maximiliano morre fuzilado no México, e Carlota termina seus dias encarcerada em um asilo, louca.
Na ultima das salas, uma pintura de teto mostra Maximiliano rodeado por tres belas mulheres, cada uma representando um dos continentes onde ele triunfara: a Africa de sua juventude como almirante, a Europa de seu casamento e a América de sua coroaçao. Em mim, uma sensaçao tragica do que poderia ter sido e nunca aconteceu, de esperança derrotada.

Ja era tarde quando terminei meu almoço e resolvi passar no Sanatorio do meu bisavo. Tinha feito bem em visitar a casa da familia no dia anterior. O Sanatorio, conhecido como Pineta del Carso pelo bosque de pinheiros onde os tuberculosos tratados no Sanatorio tomavam ar fresco como parte do tratamento, fora fundado pelo meu bisavo, Pino Pincherle (o nome, junto com o apelido do Sanatorio, vem a calhar, nao?), junto com outros doutores. Na época, passou a ser o maior centro de tratamento de doenças respiratorias da regiao, devido à boa localizaçao geografica e ao clima. Pino teve que abandonar o sanatorio durante a Guerra, vender sua parte a um preço irrisorio, e vir para o Brasil. Verdadeira tragédia familiar e financeira na época, pelo que eu soube. Mas eram tempos dificeis para todos.
No começo da empreitada, uma duvida: onde ficava o Sanatorio? Segurando em maos as fotos que minha avo me dera do lugar, dizendo-me para levar para os atuais administradores, encontrei uma pista: a foto de um altar falava da capela do sanatorio em Aurisina. Bingo.
Tomei o onibus para Aurisina, uma pequena cidade fora de Trieste. De fato, imaginava como meu bisavo fazia esse trajeto todos os dias, morando no coraçao de Trieste. Tinha carro? Tomava onibus todo o dia? Detalhes pequenos que nunca me passaram pela cabeça até entao. Pela janela do onibus, eu via uma paisagem de arvores secas e retorcidas, em vastas extensoes de terra entrecortadas por muretas de pedra que nao faziam sentido algum. Delimitavam propriedades improvaveis e nao conseguiam sequer impedir a entrada de invasores. O visual ia ficando cada vez mais alheio à minha realidade, cada vez mais campones-europeu, com as casinhas pequenas e mulheres de saia e lenço na cabeça. As placas, por aqui, começavam a serem escritas em italiano e esloveno, uma lingua infernal, com mais acentos estranhos do que o portugues ou mesmo o suéco de Linnea. Pelo que eu soube no onibus, o Sanatorio tinha ficado tao famoso, que vinham pessoas da Austria e da Eslovenia para fazer tratamentos. Era facil encontra-lo: todo mundo conhecia o Sanatorio de Aurisina.
Sanatorio de Aurisina, a Pineta del CarsoDesci do onibus em uma pequena rua de duas maos. E logo, uma sensaçao completamente surreal de familiaridade. A mesma que eu tinha sentido ao visitar a casa da familia. Eu tinha visto esse lugar. Fotos e mais fotos dele. Todas naquele mar amarelo-ambar. De fato, segurava uma delas nas maos. Parecia nao ter mudado muito, a nao ser por um ou outro detalhe que mostrava a chegada do século XXI: portoes automaticos, cameras de segurança. Tirei a maquina descartavel da mochila e tive uma enorme dificuldade para enquadrar a foto do mesmo jeito da foto antiga. Devia ser a diferença entre as cameras.
Depois de um pouco de perguntas e burocracia, consegui falar com um dos atuais administradores. Era um senhor simpatico que deve ter achado completamente surreal esse moleque aparecer segurando quatro fotos do antigo Sanatorio e dizendo-se bisneto de Pino Pincherle. Por isso que, no começo, tratou-me com certa frieza. Aquele era um lugar sério, de trabalho. Notava-se a diferença entre um ambiente assim e toda a coisa de arte e religiao na qual eu estava imerso ha quase tres meses. Em pouco tempo, apresentou-me também uma outra doutora, bisneta de um dos socios do bisavo. Impressionante notar um detalhe: o bisavo e o socio tinham la seus poucos anos de diferença, mas as diferenças nas idades com as quais as geraçoes seguintes tiveram filhos resultaram em uma diferença de uns vinte anos ou mais entre eu e a doutora. Os dados que eu trazia na cabeça, assim como as fotos, comprovaram para eles a minha decendencia. Mas pediram-me encarecidamente de falar com minha avo, para que ela escrevesse algo sobre suas memorias do Sanatorio, quem ela conheceu, o que ela lembra do lugar, e manda-las junto com as fotos. Assim, elas seriam guardadas como documentos historicos do estabelecimento.

Pedi permissao para fotografar o local. Consentiram sem hesitar, depois de me darem um bando de folhetos explicativos do hospital, cartoes com todos os contatos, enfim, toda a parafernalia publicitaria. Dava pra ver que o hospital tinha crescido. As pessoas ainda chegavam da Austria e Eslovenia, mas hoje para fazer os mais diversos tratamentos para todos os males possiveis e imaginaveis.
Quando o senhor me acompanhou até o lado de fora, para que eu pudesse começar meu bando de fotos, explicou-me que o hospital estava um pouco diferente de como era, e que eles tinham construido bastante coisa, apesar de nao poderem tocar nas partes principais da estrutura, por razoes de preservaçao historica. Pra começar, mostrou-me que haviam construido mais dois andares do prédio principal: eis porque eu tive tanta dificuldade de enquadrar a foto! E nem tinha percebido.
O altar da capela estava totalmente modificado. De fato, nada restara do original a nao ser a figura da Virgem ao centro. Infelizmente, a foto que tirei nao saiu, por ser um lugar muito escuro. Era uma capelinha simples, adoravel, com arte de artistas locais. A parede ao fundo, com a dita Virgem, era pintada de azul hoje.
No fundo do hospital, duas outras alas tinham sido construidas. Serviam, em grande parte, como quartos para abrigar os pacientes em recuperaçao. Mas também faziam alguns exames. No entanto, a localizaçao das alas impedia de enquadrar algumas outras fotos, sendo que o fotografo estaria bem no meio de onde hoje esta uma delas.
Terminei a visita andando pela Pineta. Trazia ainda mais sensaçoes de nostalgia, porque me lembrava vividamente do bosque na fazenda de um amigo meu na Colombia. De como eu era pequeno na época e tudo era mais mistico. Eram arvores altas, cortando a visao do Sanatorio em tiras verticais. Chutei uma pinha: eram diferentes das que eu conhecia no Brasil. Coloquei uma menor no bolso pra levar como lembrança.

Me despedi do Sanatorio e peguei o onibus de volta, em uma daquela tardes douradas que estavam ficando célebres na minha memoria da Europa. Sentia que esta visita ao Sanatorio tivera menos importancia simbolica para mim do que a visita à casa. Mas começava a entender que, na historia da minha familia, assim como na historia da familia Buendia de Cién anos de soledad, as coisas aconteciam aos pares, intercalando-se entre geraçoes de artistas e de médicos que se repetiam. Bisavo médico, avo artista, mae médica (com o particular de pesquisar tuberculose, como o bisavo...) e eu artista. Quem sabe o Sanatorio teria mais significado para a geraçao de meus filhos.

Faro della VitoriaNo caminho de volta para o albergue, um momento de inspiraçao caotica, daqueles que chegam e voce tem que agir no ato antes que a preguiça e o comodismo entrem em açao. Apertei o botao para pedir pra descer do onibus. Estava bem no meio do caminho. Mas diante de mim, esticando-se para o céu, o Faro della Vitoria exibia-se em toda sua gloria, sob a luz alucinante daquele entardecer europeu. Tinha que passar por aqui e parar um pouco. Nem que fosse neste momento, no fim da odisséia e depois que os horarios de visita tinham acabado, para me despedir. Ele olhava para o horizonte, naquela metafora batida de olhar para o futuro, além dos limites que Trieste representava.
Honrei-o com uma foto final, que representaria a minha Trieste, aquela que eu tinha conhecido, em cima da Trieste de minha avo. Nem que para isso, tenha precisado invadir um jardim... Na foto, o Faro em toda sua grandeza, sobrepoe-se ao Castelo de Miramare de minha avo, ao fundo, no pedaço de terra avançando sobre o mar. E com uma sensaçao gostosa de missao completa, tomei o onibus de novo.

quarta-feira, abril 26, 2006

A Grande Viagem - Trieste [Dia 2]

A Casa

Eu tinha imaginado aquela cena milhares de vezes, em cada noite que eu deitava pra dormir na minha cama em Sao Paulo planejando minha vinda à Italia, e desde que vovo tinha me explicado como chegar em sua casa em Trieste. Imaginava-me subindo o morro, um sol de entardecer, como fundo de cena o mar triestino ao longe. Algumas diferenças: ela me dissera para pegar o bonde para subir o morro, que a vista era linda, mas o bonde estava em reformas e desativado; e quanto ao mar, aparecia sim aqui e ali, mas a profusao de prédios escondia a maior parte da cena. Ainda assim, o sol de entardecer estava la, assim como uma sensaçao gostosa de vitoria, de ter chegado a um destino depois de uma longa viagem. Enquanto eu subia ao lado dos trilhos do bonde, sentia que faltava apenas a trilha sonora pra terminar a cena. Alguma coisa leve, como James Newton Howard ou Mahler. Satie seria perverso demais, mas serviria também.
Quando cheguei na curva que eu reconhecia no mapa que minha avo desenhara em linhas tremulas, comecei a procurar a casa vermelha. Era entre as poucas indicaçoes que eu tinha: uma casa vermelha na via Virgilio 15. Mas era suficiente. Eu tinha visto aquelas ruas em fotos que minha avo tirara em sua ultima visita. Estavam impressas no fundo da minha mente como lembrança de vida passada, imersas em um mar amarelo-ambar habitado por gente com roupas dos anos 70 ou 80. Logo depois da esquina, uma casa vermelha. Mas algo errado: o numero era 9 e o estilo da casa era um pouco diferente. Mas o mapa de vovo me dizia que era aquela mesmo. Nas pequenas placas sobre os botoes de campainha que mostram os nomes dos habitantes (um belo habito italiano que evidencia o orgulho que ainda tem pela linhagem familiar), nao encontrei o nome da senhora Romano. Confuso, resolvi andar um pouco mais até o numero 15 da Virgilio. O que era este ultimo teste antes de chegar no meu destino? A casa do numero 15 era uma casa feia, cinza, em nada semelhante à casa vista nas fotos. As placas de campainha também nao diziam nada de Romano. Toquei mesmo assim: ninguém atendeu. Na numero 9, um senhor com jeito austriaco me respondeu nao haver nenhuma senhora com aquele nome por la. Tao perto, tao longe... Mais confuso ainda, tornei a ligar. A senhora Romano me explicou: a casa estava atras da casa cinza, no numero 15/1.
Vovo tinha errado o mapa e a exatidao do numero? Tinham mudado a vizinhança?
Como interpretar tudo isso? Precisava ser interpretado?

Cheguei no pequeno portao da casa. Esta era um pouco abaixo no nivel na rua, na descida da colina: por isso que nao tinha visto a lendaria casa vermelha, escondida por um muro. Desci as escadas para um jardim belissimo, embora um pouco negligenciado, começando a florir com a primavera que chegava. Imagino que vovo saberia até o nome das flores.
E entao, fui recebido por um cao negro. Latia feroz ao ver-me entrar no terreno da casa. Nao estava preso. Na minha cabeça, flashes de diversas lendas mitologicas, onde sempre havia um guardiao para as portas de céu e do inferno. Mantive a calma, negociei a passagem com o bicho. E ao levantar a vista, vi a senhora Romano, dizendo-me para nao ter medo da cachorra.

A senhora Romano era pequena, um pouco encolhida e curvada pelos 91 anos de idade. Recebeu-me com um sorriso que tinha suas semelhanças com o sorriso de minha avo, mas suponho fosse o biotipo da gente daquela regiao. Sharpness. Convidou-me para entrar e, nos primeiros momentos, tratou-me pelo italiano formal, usando o "Lei" (terceira pessoa do singular, feminino: nosso "voce" também vem dessa conjugaçao, "vossa merce" ou "sua merce"), enquanto me mostrava toda a casa. Depois nos sentamos na cozinha para uma conversa mais informal, usando o "tu". Ela era um pouco surda, mas ainda conservava um fisico invejavel para a idade. Subia as escadas com alguma dificuldade, mas gabava-se de ir à cidade sem bengala e sem ajuda, e dizia que se ela conseguia fazer isso, minha avo deveria conseguir vir visitar a casa também. A forma fisica viera de uma vida dedicada a ensinar ginastica. Tornara-se professora de ginastica, depois de decidir-se entre o esporte e a arte, pois também pintava. Em algum lugar da memoria, pensei em Marcela Tiboni, minha colega do curso de artes, que queria ser professora de ginastica e acabou sendo a nossa artista de maior sucesso. De fato, toda a familia dos Romano fora dedicada à ginastica. Seu pai, sua irma e até Orieta, a senhora que eu deveria encontrar aqui, mas que falecera ha pouco tempo (acabei esquecendo de perguntar como...). E entre albuns de familia e relatos de parentes no Brasil, anotei discretamente o nome de parentes a procurar em Sao Paulo: proximos passos dessa historia. Por fim, depois que expliquei que fim tinha levado minha avo e os anteriores habitantes da casa, ela lembrou-se da visita de algum Pincherle, anos atras. Minha avo?

E a casa? Estranho que um lugar assim, tao simples, pudesse evocar sensaçoes tao fortes e significativas. Era uma espécie de centro do meu mundo, apesar de estar no limite dele. Era um lugar lendario, mitologico. Valhalla, o Monte Olimpo, Eden. Segui aquela senhorinha por quarto apos quarto, todos decorados de forma muito simples, muito "Europa antiga", papel de parede florido, mobilhas de madeira com detalhes esculpidos, chao de madeira. Claro que a decoraçao, a disposiçao dos moveis, o uso dado a cada aposento, era tudo diferente da época de minha avo. Mas evocava o mesmo respeito historico. Me perguntava constantemente qual teria sido o quarto de minha avo? Seria aquele no segundo andar, com a pequena varandinha para o jardim? E o do seu irmao? Tinham transformado o sotao em uma espécie de escritorio, um terceiro andar, mas imagino que um menino adoraria ter o quarto naquele lugar. Tinham dividido a casa em duas, com duas cozinhas, para duas familias da linhagem dos Romano, nesta época em que todos eram ja acostumados a viver em casas menores.
Tinha também o jardim. Nas memorias de minha avo, o jardim era importantissimo. Tinha sido extenso, mas compraram uma parte da propriedade e fizeram um prédio no que antes era o vasto jardim. Péssima idéia: desvalorizaram a casa. Sem mencionar o fato de que transformaram o vasto jardim da infancia de vovo em alguns metros de cimento e cascalho. Ainda tinha o poço: ha alguns metros da casa, fechado por grades de madeira, como nas fotos de vovo, com a escultura de pedra de um sapo no canto. Senhora Romano explicou-me que os donos anteriores da casa tiveram problemas com canos de calefaçao estourados e jogaram todo o material que usaram para limpar o vazamento de oleo dentro do poço, arruinando-o para sempre.

Tentei fotografar a casa. Dificil. Nao havia angulos bons, faltavam-me lentes, recursos decentes. Lembro-me de Hannah Shipley, uma inglesa do curso em Perugia, que me viu deixar uma aquarela pra depois por nao ter os pincéis adequados e me disse "the bad worker always blames his tools". Dias depois, a aquarela terminada, mostrei-lhe o que o bad worker fazia com as ferramentas certas...
E por falar em fotos, a senhora Romano deu-me, no fim da visita, uma belissima foto da casa no inverno, coberta de neve, as luzes acesas. Insistiu para que eu a levasse à minha avo. Fiquei de fazer uma copia e devolve-la por correio.
Quis fazer uma foto da senhora Romano. Timida, ela pediu licensa para ir pentear-se. Dizia-se feia, mas eu respondia, sinceramente, que até o mais simples dos italianos era belo para os brasileiros. Infelizmente, sem as ferramentas certas, a foto nao saiu.

Sabia que nao tinha documentado a casa o suficiente. Precisaria de mais tempo, de mais recursos, de mais tudo. Mas dane-se: tinha vindo aqui, tinha cumprido minha vontade, tinha visto tudo. Manteria tudo na memoria, que para mim bastava, e quem quizesse saber como era este lugar, que viesse. As fotos teriam mostrado uma casinha simples e insignificante para muitos, e so quem realmente desse a importancia que eu dava a este lugar viria até aqui e enfrentaria o que eu enfrentei.

Descendo ao lado dos trilhos do bonde, a noite ja chegando, tinha aquela sensaçao de ter passado o climax da viagem. A partir daqui, a sensaçao de possibilidade, de novidade e de objetivo morreriam. Ja podiam rolar os créditos do filme, embora de fundo, cenas curtas de uma continuaçao da aventura estivessem rolando: a visita ao sanatorio construido pelo bisavo, a ida a Londres, a volta ao Brasil.

Vale aqui dizer que nao descobri nada sobre os Pincherle antes dos pais de minha avo. Mas nao era minha intençao: este é o começo da minha historia. As geraçoes anteriores sao parte da historia de outras pessoas.
Também sei que nao consegui nada indo à antiga casa de minha avo. Sai de la, no maximo, com uma bela foto da casa e boas sensaçoes. Porém, uma das liçoes mais importantes de uma centena de mitos sobre viagens de herois a terras prometidas é que o verdadeiro premio, a mais valiosa recompensa, nao esta no fim da jornada, mas em todas as mudanças que acontecem ao longo do caminho. O heroi parte uma criança, em busca do Calice Sagrado, e mesmo que nao o encontre, descobre-se um adulto quando volta para casa.

segunda-feira, abril 24, 2006

Lo Scrutatore non Votante

Depois de muito ouvir, resolvi procurar a letra na internet. Achei interessante, porque conheço muita gente assim (vide primas, e às vezes até eu mesmo...):

Lo scrutatore non votante è indifferente alla politica,
ci tiene assai a dire oissa, ma poi non scende dalla macchina,
è come un ateo praticante, seduto in chiesa alla domenica,
si mette a posto un po in disparte per dissentire dalla predica.

Lo scrutatore non votante è solo un titolo un immagine
per cui sarebbe interessante verificarlo in un indagine,
intervistare quel cantante che non ascolta mai la musica,
oltre alla sua in ogni istante sentiamo come si giustifica.

Lo scrutatore non votante è come un sasso che non rotola,
tiene le mani nelle tasche e i pugni stretti quando nevica,
prepara un viaggio ma non parte,pulisce casa ma non ospita,
conosce i nomi delle piante che taglia con la sega elettrica.

Lo scrutatore non votante conserva intatta la sua etica,
e dalle droghe si rinfresca con una bibita analcolica,
ha collegato la stampante ma non spedisce mai una lettera,
si è comperato un mangiacarte per sbarazzarsi dalla verità.

Lo scrutatore non votante è sempre stato un uomo fragile,
poteva essere farfalla ed è rimasto una crisalide,
telefonate al cartomante che non contatta neanche l’aldiqua,
siccome calvo usa il turbante e quando è freddo anche la coppola.

Lo scrutatore non votante come un sapone che non scivola
si fa la doccia dieci volte e ha le formiche sulla tavola,
prepara un viaggio ma non parte,pulisce casa ma non ospita,
conosce i nomi delle piante che taglia con la sega elettrica,
prepara un viaggio ma non parte,pulisce casa ma non ospita,
lo fa svenire un po di sangue,ma poi è per la sedia elettrica….ah!


===============================================

O mesario que nao vota é indiferente à politica,
Gosta de fazer esforço, mas depois nao desce do carro,
é como um ateu praticante, sentado na igreja em um domingo
senta-se um pouco aparte dos outros para discordar do sermao.

O mesario que nao vota é so um titulo, uma imagem
Por isso seria interessante verifica-lo em um inquérito,
entrevistar aquele cantor que nao escuta nunca outra musica
que nao a propria em cada instante, vejamos como se justifica.

O mesario que nao vota é como um seixo que nao rola
mantem as maos dentro dos bolsos e os punhos fechados quando neva,
Prepara uma viagem mas nao parte, arruma a casa mas nao recebe ninguém,
conhece os nomes das plantas que corta com a serra eletrica

O mesario que nao vota conserva intacta sua ética
e das drogas se refresca com uma bebida nao alcoolica
conectou a impressora mas nao envia nunca uma carta
comprou um triturador de papel para desfazer-se da verdade.

O mesario que nao vota sempre foi um homem fragil,
podia ter sido uma borboleta e remaneceu uma crisalida,
telefona à cartomante que nao contata nem as pessoas desse mundo,
ja que é careca usa o turbante e quando faz frio usa por cima o chapéu.

O mesario que nao vota é como um sabao que nao escorrega,
toma banho dez vezes e tem formigas sobre a mesa,
prepara uma viagem mas nao parte, arruma a casa e nao recebe ninguém,
conhece o nome das plantas que talha com a serra elétrica,
prepara uma viagem mas nao parte, arruma a casa e nao recebe ninguém,
desmaia ao ver um pouco de sangue, mas é a favor da cadeira elétrica.

sábado, abril 22, 2006

A Grande Viagem - Trieste [Dia 2]

A cidade, as missoes burocraticas e mais uma vez, a coincidencia"

Abri os olhos e estava naquele quarto militar do albergue. Era dia em Trieste. Eu realmente estava la.

Foram pouquissimos minutos até eu estar no onibus a caminho do centro da cidade. Eu passava pelos pequenos parques à beira-mar no caminho e via os brinquedos dos playgrounds inspirados em temas navais: redes de corda para subir no mastro de navio, barcos sobre molas, desenhos de piratas e peixes. O onibus ia cheio de gente e me dava curiosidade de saber se algum deles teria conhecido minha avo. Ou como ela viveria por aqui se nao tivesse saido da Italia. Ela seria assim, uma senhora italiana de uma beleza mais fria, laconica, educada? Nao deixava no entanto de ver nas senhoras que tomavam o onibus, um pouco da estética e jeito de se vestir que ela tinha, mesmo no Brasil. E eu? Como seria se ela nao tivesse saido da Italia?
Desci na Piazza Oberdan, mais ou menos a Paulista de Trieste, guardadas as devidas proporçoes. Nas ruas, o que me chamou logo a atençao foi a enorme procissao de pequenas motos. Vi muitos carros também, mas as motos eram absoluta maioria. Rapazes, garotas, senhores e senhoras, todos dirigiam aquelas motos de baixa cilindrada. Ai estava a primeira das respostas: se minha avo ainda fosse triestina, eu provavelmente dirigiria uma dessas. Nos lados das ruas estacionaveis, eram delineados com tinta os espaços para estacionar as motos e nao os carros. Passava-se pelas ruas por frotas gigantescas dos mais variados modelos e marcas. Uma verdadeira loucura. Me peguei lembrando de uma mancete de jornal que falava de um acidente entre duas motos, chamando os motoqueiros de "centauros". Achei curioso: realmente, a forma geral parecia aquela de um centauro, pelo modo como as pessoas sentavam para frente, na ponta do banco, segurando o guidao perto da cintura e deixando uma extensa traseira.

Minha primeira missao naquela manha era os documentos. Em primeiro lugar, minha carteira de identidade. Depois, visitaria alguns pontos turisticos a caminho das escolas que minha avo cursara, onde pegaria os documentos que a permitiriam provar que teve que sair do pais por causa das leis raciais da Segunda Guerra e assim receber uma indenizaçao do Estado italiano.

A caminho da comune, o centro social onde estariam os documentos necessarios para a minha carteira, passei pelo Largo Pamfili, uma ruela sem grandes atrativos. Mas um pedaço de arquitetura me chamou a atençao. Dei alguns passos para tras e entrei na rua: era uma pequena igreja em estilo gotico, toda ricamente decorada. Tive que parar por alguns minutos. Me bateu a mesma sensaçao de identificaçao que eu tivera pela Cruz de Sao Benedito que eu estava levando para minha outra avo no Brasil. Aquela igreja tinha um estilo com o qual eu me identificava. Segundos de devaneio forte: se eu me casasse no ritual catolico, queria que fosse la. Inviavel, eu sei, mas nao custa sonhar.

A Piazza Unità d'Italia, onde estava a comune, era um vasto espaço aberto em U, circundado por prédios governamentais. Abria para o mar, do mesmo modo que a Piazza San Marco, em Venezia, com duas colunas como uma espécie de portal, levando no topo o simbolo da cidade: uma ponta de lança com tres pontas, como a Flor-de-Lis. Neste centro de Trieste, a beira do mar era repletas de trapiches, embarcadouros para os pequenos barcos. Sai no que tinha na frente da Piazza e tirei a foto dela. E entao percebi o espetaculo ao meu lado: o mar de Trieste era diferente de muita coisa que eu tinha visto. Era cristalino, mesmo com toda a atividade naval, e nas areas mais profundas, tinha uma cor parecida com a do mar de Venezia, um verde aquoso estranho e lindo. Perto de mim, uma agua viva gigantesca afastava-se do cais. Seduzido, desci alguns degraus e fui saudar o mar, estendendo-lhe a mao. Muito prazer, senhor. Era frio, gélido. Nao evitei a comparaçao com as pessoas que tinha visto até entao: lindas, dotadas de todas as belas cores do mar triestino e o sharpness da arquitetura da cidade, mas gélidas, caladas, imersas em seus proprios mundos.
De volta à Piazza, mergulhei em vez disso na burocracia italiana, atras da minha carteira de identidade. Vou poupa-los dos detalhes tediosos, mas nao tive sucesso: para obter a carteira, eu teria que ter alguma residencia fixa na Italia. Outro detalhe interessante: a embaixada italiana no Brasil tinha emitido meu passaporte, mas meu dados de moradia ainda eram da época em que saimos da Colombia para voltar ao Brasil. Mais de dez anos atras. Lembro vagamente da embaixada me dizendo para corrigir isso, mas depois aparentemente ignoraram o fato. Jeitinho italo-brasileiro?

Depois dos quinze minutos de internet mais caros da viagem, onde postei isso, o almoço. No bar, uma placa na parede tinha dizeres em portugues, exaltando o Rio. O Brasil estava muito na moda por aqui na Europa. Em todo lugar. Ser brasileiro era ser uma pessoa alegre, de bem com a vida, que vivia na praia em uma espécie de realidade onirica onde o trabalho nao existia.

Perto dali, o Teatro Romano, primeiro lugar sugerido pela minha avo. Certo, nao era um quinto do Coliseu. Talvez um décimo. Era um semi-circulo aberto para a cidade, o palco um pouco abaixo do nivel da rua e a arquibancada subindo em degraus até uns dez metros de altura. Mas tinha algo que o Coliseu nao tinha: as ruinas ainda relativamente preservadas permitiam imaginar como funcionava, o palco, os bastidores, as saidas e entradas. E algo de semelhante ao Coliseu: um par de gatos vadios e preguiçosos. Tirei a foto do alto do Teatro, através de uma parte quabrada do muro de tras. Da pra imaginar como era?

Subindo por ruelas labirinticas com um mapa impreciso, consegui eventualmente chegar na Piazza della Cattedrale, no topo do morro, onde estava a Catedral de San Giusto. Mas antes de entrar na Catedral, passei um bom tempo na Piazza. Logo na chegada, avistei um monumento contra a vista panoramica da cidade. Era um memorial aos soldados mortos na Guerra de Liberazione (guerra que restituiu Trieste, capturada pela Austria, à Italia). Circundei-o, deixando-me tomar por aquele efeito que descrevi em Firenze e assistindo enquanto um soldado levantava um escudo redondo para proteger os companheiros que carregavam outro soldado caido de uma saraivada de flechas que nao estavam na escultura. Perto do monumento, pequenos memoriais a brigadas especificas que lutaram na Guerra.
Ao lado daquele lugar, um outro terreno. Parecia um terreno plano cimentado, onde tinham colocado ruinas de colunas romanas, cantos de arquitetura, blocos de marmore roido. Enquanto um grupo de crianças era chamado pela professora, sentei-me em um dos blocos e tomei nota do que tinha visto até ali. De vez em quando, olhava para a paisagem de casas triestinas. A casa de minha avo estava la em algum lugar. Pelo mapa, sabia até mais ou menos a area. So nao sabia que casa era. Sensaçao de procurar por algo que esta bem na minha frente e eu nao consigo ver.
A Catedral de San Giusto foi um passeio curto mas belissimo. Tinha sua imponencia, decoraçoes maciças, fortes, de estilo romanesco. La dentro, um dos padres tocava o orgao da Catedral: musicas daquele jeito gotico que eu gosto, meio lugubre, sombrio. Em uma das paredes, um quadro contava a historia de San Giusto, martir que morreu afogado.
Ao lado da Catedral, um jardim repleto de restos de monumentos antigos e arquitetura romana estava fechado para visitas.
Desci o morro por um parque calmo e bem cuidado. Uma pedra ao meu lado tinha o nome de um soldado, seu cargo, e a data de quando foi morto. A pedra seguinte também. E a outra. Era um parque inteiro. O Parco della Rimemberanza, em memoria aos soldados da Guerra. Tinha uma pedra para cada soldado. Que bom nao achar o sobrenome da minha familia.

Na ultima caminhada antes de chegar ao colégio onde minha avo estudara, passei pela sinagoga. O edificio era robusto, uma fortaleza. O motivo geométrico de enorme vitral redondo principal formava a Estrela de David. Diziam ser esta uma das sinagogas mais belas e modernas da Italia, construida no século XX. O pouco de luz que eu via de dentro vinha em tons dourados, prenunciando um interior maravilhoso que eu jamais chegaria a ver: a sinagoga tinha um aviso na porta, dizendo-se fechada para Pascoa até o 27 de Abril.

Poucos quarteiros ao lado, entrei na Scuola Dante Alighieri. Recebido na porta por dois carabinieri, Disseram-me que a escola tinha aproveitado as eleiçoes, acontecidas no dia 9, para fechar para férias de Pascoa. Abririam novamente na semana depois do feriado religioso. Tarde demais para mim. A secretaria, me disseram, talvez estivesse aberta amanha. De qualquer modo, me deram o telefone e site de internet da instituiçao.
Recebi o mesmo do Istituto Ebraico, onde minha avo tinha continuado os estudos antes de ser obrigada a sair do pais: e-mail e telefone. Fechado para Pascoa, abriria também por volta do 27 de Abril. Ou seja, esta caçada ao Santo Graal continuaria por meios virtuais, mas ao menos era alguma coisa.

Com todos as minhas missoes burocraticas falhadas, andei a passos arrastados até chegar na Piazza Goldoni, onde me sentei em um grande bar para complementar meu almoço ralo. Retomei aquele sentimento do dia anterior, de ter vindo na hora errada. Mas aqui, nao era a respeito de nao estar preparado. Coincidentemente, tinha em maos na hora a pagina impressa do e-mail que minha avo me mandara, com instruçoes sobre os documentos que precisava. Me dei conta de um dado que me escapara completamente: ela precisava de um atestado das escolas que dissesse que ela tinha saido da Italia para ir ao Brasil no dia... 27 de Abril. Mais uma vez, o modo como tudo aqui parecia se encaixar, fazer sentido. Se eu tivesse seguido a risca minha ritualistica, teria tornado à origem na data exata em que minha avo saiu. E como "premiaçao" por isso, teria encontrado a sinagoga e as escolas abertas. Estranho, mas coincidente. Sentia uma frustraçao por nao ter sido fiel ao que eu mesmo acreditava. Mas suprimi o sentimento, dizendo-me apenas feliz por estar aqui.

Tinha subestimado um pouco a cidade. Terminei o itinerario que eu tinha planejado para todo o dia e eram apenas as quatro da tarde. Hora de improvisar.
Senti meu coraçao acelerar o passo quando me passou pela cabeça a idéia de telefonar para a senhora que hoje morava na antiga casa de minha avo e terminar o dia fazendo a derradeira visita. Levantei da cadeira e me apressei ao telefone antes que a hesitaçao pudesse tomar conta. Do outro lado da linha, a senhora Romano atendeu e disse-me para vir, que ela estaria me esperando. Sai do bar e caminhei como se fosse para algum momento decisivo, o climax de toda essa historia que ja durava dois meses e meio.

Mas isso, leitores cansados, fica para o proximo post.

P.S.: estou escaneando fotos...

sexta-feira, abril 21, 2006

E agora, de volta à nossa programaçao normal.
Tenham um pouco de paciencia, porque Trieste [Dia 2] ficou um pequeno tijolo que eu vou precisar de um tempinho pra colocar em ordem.

Quando olhaste bem nos olhos meus...

E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei E te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

(Atras da Porta, de Francis Hime e Chico Buarque)


Parecia até um sinal o fato de que Alessia, a quarta integrante da casa em cujo quarto eu agora habitava, tivesse voltado para passar alguns dias em Perugia, a cuidar de burocracias. Estavam aqui todas as pessoas que ainda nao sabiam que eu ia para Londres em Maio. As unicas pessoas. As ultimas a saber. Essas coisas acontecem.
Eu tinha deliberadamente omitido o fato até agora, porque queria evitar de criar um clima ruim na casa. Resolvi dizer quando fosse o ultimo momento possivel, e era agora, porque ainda tinha tempo de resolver todas as burocracias e colocar alguém no meu lugar.
Comentei assim, antes que a hesitaçao tomasse conta, quando Fabiana comentou sobre o exame de espanhol na metade de Maio, e pediu-me ajuda pra estudar. Mentir agora, dizer-lhe que sim, so iria complicar mais a situaçao. Era de manha, e ela nos pijamas infantis, fez apenas poucos segundos de silencio. Mas logo compreendeu a minha situaçao e, concordando que era mais facil arranjar trabalho em Londres, voltou a ser a garota solicita dos primeiros dias, dizendo-me que nao me preocupasse, que as meninas me ajudariam a resolver as pendencias burocraticas de aluguel e etc. Foi bom ter falado a sos com ela primeiro. Tinha pensado em junta-las todas pra uma conversa, mas percebi que lidar com uma de cada vez teria menor "custo emocional" (copyright do termo é da Nana...). Fabiana me deixou mais tranquilo quanto a tudo.
Naquela noite, nao encontrei Sara em casa. Mary veio me dizer que Alessia tinha chegado, e saudei a garota de dois meses atras, que me perguntou o que eu achava das meninas e me parabenizou pelo italiano melhorado. Havia algo no ar, no modo como ela falava comigo. Ela sabia.
Na cozinha, com Mary, comecei a conversa:
- "Achei que Sara estaria aqui. Queria conversar com voces sobre..."
- "Sim, Fabiana ja nos avisou" ela interferiu, sorrindo aquele sorriso complacente e olhando para a cabeça de Mimmo adormecido sobre suas pernas. E isso encerrou horas de dura conversa. Nao sabia se tinha mais medo de dize-lo a ela ou a Sara. Esta, pelo temperamento mais violento e questionador com o qual poderia reagir: eu nao queria perguntas feitas sobre minha decisao, queria apenas ir. Aquela, pelo fato de ter se apegado mais a mim do que as outras, embora tivesse um sistema emotivo rigidamente estruturado para nao deixar essas coisas acontecerem.
No resto da noite, saimos para beber à volta de Alessia à cidade, e contei-lhe das desventuras e comédias de lava-roupas dos ultimos dois meses. Mas também bebemos de antemao à minha partida. Mary aferrada a mim por boa parte da noite, tentando nao mostrar desapontamento.
Quanto a Sara... acho que a conversa foi bem a seu modo. Tudo indicava que ela ja sabia: o "Fabiana ja nos avisou" de Mary, além de pequenas mudanças de comportamento. Nenhuma violencia. E também, nenhuma confirmaçao de que ela sabia de alguma coisa...

Os habitantes da casa: Sara / Fabiana

Com todos os flashbacks da viagem de Trieste e relatos dos fatos atuais, estou praticando toda a ausencia de cronologia que so o hipertexto pode me dar...

Tenho pouco o que falar destas ultimas habitantes da casa. A convivencia foi menor do que com Mary, sendo elas apenas personagens que pareciam estar por la casualmente, amigas de corredor.

Fabiana (a.k.a. Tatiana, Juliana, Giovana, Mariana, Adriana, Svetlana ou qualquer outro nome terminado em -ana, porque ela respondia a qualquer um...) foi, no começo, a mais sollicita das meninas. Ensinou-me tudo da casa, os pequenos costumes, as pequenas regras. Por um tempo, achei que talvez fosse a coinquilina com a qual eu falaria mais. Mas de fato, quando perdeu o interesse inicial, afundou-se em um mar de pequenos afazeres cotidianos e tornou-se uma presença quase nula. Saudava-me e trocava quatro ou cinco palavras antes de entrar no quarto e dormir, ou saia dele de manha com seus pijamas infantis, fazia um rapido café com cara de quem passou a mais bruta das noites, e se aprontava para a faculdade/trabalho. Na faculdade, estudava letras. Ou a versao de letras daqui, que parece ser mais baseada em aprendizagem de linguas estrangeiras. Fazia espanhol e, pasmem, japones (embora o interesse por desenhos japoneses em geral fosse nulo...). Apesar dela ser a maior das meninas, seu quarto era minusculo, e constantemente bagunçado. Em um dia no qual resolvi entrar nos quartos das meninas e apenas observar, para ver o que compreendia, compreendi pelo dela que era mesmo uma pessoa que nao precisava de espaço em casa, uma pessoa sempre em movimento, na rua.
Mas tinha sua beleza. Era alta, desengonçada e teatral como Gisela, do atelie em Sao Paulo, embora menos caricata. Vestia-se relativamente bem, comparada às outras, e sabia valorizar a propria imagem. Tinha boa musica no quarto, um tanto de Placebo, algumas coisas de outros paises europeus, e bastante pop italiano. E, entre outras coisas, o Beija, beija, ta calor que ela colocou no primeiro dia, dizendo que tinha musica brasileira, so pra me ouvir dizer que aquele era o lixo brasileiro. Gostou da expressao, e mostrou-me o lixo italiano também.
No fim, era a mais empolgada para sair à noite. Colocava a musica em alto volume no quarto antes de sair, para empolgar todo mundo, e entao iamos para o Corso Vannucci, para aqueles lugares que uma vez escrevi por aqui, evitados até pela iluminaçao publica, onde ela me apresentava os italianos verdadeiros e me tirava um pouco do medo e repulsa daqueles locais. Conhecia muita gente, que depois me encontrava na rua, no dia seguinte, e me saudava alegre, embora eu tivesse sérios problemas pra lembrar dos rostos, dos nomes e mesmo em qual idioma conversar.

Conhece-se Sara pelas pequenas ambiguidades. Daquele tipo de pessoa que te deixa suspeitando de muita coisa, mas com muito poucas certezas.
Por ambiguidades, digo coisas do tipo o contraste entre o seu comportamento austero, fechado, de pouquissimas palavras e olhares que expressam um certo desdém, contrapostas aos gritos quase infantis que ela dava pela casa quando algo bom acontecia, com o modo pueril de falar com Mimmo, com a vontade de aprender os palavroes brasileiros.
Mas também falo de ambiguidades no sentido de incertezas. Enquanto as outras meninas vez por outra recebiam rapazes em casa, que ficavam para dormir durante a noite, Sara recebia outra garota, que passou varios dias. Demonstrava afeto por ela, mas nada que confirmasse algo. Disseram-me ser uma colega de trabalho, mas o que fazia la em casa, nunca soube. O quarto era repleto de posters de cantoras italianas parecidas com a Marina Lima ou Ana Carolina, e mesmo o jeito moleque dela, ou o estilo de roupa, ou mesmo o fato dela jamais falar de algum rapaz especifico (embora também nao mencionasse garotas), tudo apontava para um estilo androgino, indefinido, neutro. Um jeito que nunca confirmava nada. Nisso, parecia uma versao soft da Anaisa, minha colega do curso de arte.
Era uma cozinheira incrivel. Cheguei a anotar algumas receitas simples e eficazes que ela fazia da culinaria pugliesa. De molhos de macarrao ridiculamente faceis, a modos de preparar beringelas e outras verduras. Aprendi muito observando-a na cozinha. Digo até que foi graças a ela que superei minha convicçao de ser uma negaçao culinaria e comecei a me virar, a experimentar, a fazer mais do que apenas o basico. Volto para o Brasil com um pouco de gosto por cozinhar, e um paladar um pouco mais refinado.
Mas Sara tinha um defeito irremediavel: a preguiça. Talvez o unico pecado mortal para mim, chegava a me incomodar profundamente. Mas eu nao conseguia encarar toda a austeridade do seu carater e mudar isso. Dava a desculpa de trabalhar à noite, mas Fabiana também o fazia e dormia metade de tudo o que Sara dormia. Nossa cozinheira às vezes se enfurnava no quarto e passava o dia todo, até as cinco da tarde. Desperdiçava os fins de semana.
A preguiça influenciava em muita coisa na casa. Mimmo acabava virando responsabilidade de todos menos ela, a dona. Muitas vezes, quem se compadecia era ou eu, que sentia pena do pequeno, ou Mary. De fato, a pequena grunge era em casa a força antagonista de Sara: com sua mania por limpeza e organizaçao (maior até do que a minha...), acabava limpando muitos dos desastres que Sara fazia, lavando a louça, cuidando do cachorro. Obviamente reclamava. Mas tinha que aguentar a situaçao so mais um pouco, até se formar. Da pra imaginar o desastre que foi Mary ter viajado durante a Pascoa?

quarta-feira, abril 19, 2006

A Grande Viagem - Trieste [Dia 1]

A chegada

Acordei na estaçao de Venezia mestra. Lembro de ter adormecido em Bologna, olhando pela janela para aquela paisagem surreal: no Brasil, temos campos abertos, mas eles nao sao como os da Italia central. Ja tentei cavalgar em campos abertos no Brasil central, mas os pequenos desniveis faziam o cavalo parar para ver onde pisava. Aqui, os gramados eram retos, perfeitos, platonicos. Passaros voavam em grandes bandos, circulando unidos e depois sumindo na grama alta. Até as casas mais simples tinham pequeno cultivos de oliveiras: cercas de arame liso onde as mudas jovens se enroscavam. Era levemente sombrio ver as mudas iniciantes, porque elas subiam pelo poste da cerca e se dividiam em ambas as direçoes do arame, de modo que as plantaçoes lembravam pequenos cemitérios de expresionismo alemao, cheios de cruzes retorcidas. Lembrei das oliveiras crescidas que vi (mas sobre as quais nao escrevi...) na casa dos Seppilli no começo da viagem.
Antes de adormecer em Bologna, lembrei de Hillis, o holandes, que deveria estar por la.
Enfim, Venezia Mestra. Acordei de sobresaslto e tentei pegar a bagagem, mas o aviso do trem soou e começamos a nos mover. Paciencia... O bom é que pude ver novamente a longa ponte que levava a Venezia e a bela cidade sobre a agua dos meus sonhos de infancia. Peguei o trem de Venezia Centrale a Triesnte, em vez do que partiria de Venezia Mestra. Seriam alguns centavos de diferença na passagem, mas quando o fiscal chegou, eu estava muito bem colocado em meio a um bando de crianças que faziam tamanha algazarra, que ele nem leu minha passagem. A garotinha na minha frente me olhava curiosa: percebia que eu nao era daqui. Quando lhe expliquei que era brasileiro, o colega ao lado desatou a cantar os acordes de Aquarela do Brasil, reaçao comum por aqui. So faltou me perguntarem do futebol...
Deixando de vez Venezia, lembrei da primeira vaz que estive por aqui, de um onibus tomado cedo de manha e de ver a placa para Trieste em meio à névoa, em meio à Blankness.
A ultima parte da viagem começou a adquirir aquela atmosfera de sonho. Por ser a ultima cidade italiana (on the Edge), o trem ia quase vazio. No meu vagao, apenas eu e um senhor que dormia. Fez-me lembrar Evangelion, o desenho japones: quando os personagens sonhavam ou estavam em situaçoes metaforicas simbolizando o inconsciente, o cenario era quase sempre um trem vazio, apenas os personagens relevantes viajando, com aquela luz de entardecer que imprimia sombras duras nos rostos e tingia todo o resto de um sépia monocromatico. Lembrei também da garota da primeira viagem a Roma. Impaciente com os infindaveis nomes de cidades jamais ouvidos pronunciados antes de Trieste, fui perguntar quanto faltava ao fiscal. Passava de vagao em vagao procurando-o e todos eram quase vazios, os poucos passageiros dormindo ou lançando-me um olhar estéril de viajante solitario. Tive medo de chegar a Trieste e nao ter tempo de voltar ao meu vagao, tamanha era a procissao de vagoes semi-vazios. Entao voltei e esperei.
Uma meia hora depois, comecei a ver traços de uma cidade portuaria ao longe. Vovo havia avisado para olhar ao lado direito do trem, para o mar, onde veria o Castelo de Miramare. O castelo me saudou timido, de longe, apenas uma torre de marmore despontando por entre as arvores de uma ponta de terra que avançava sobre o mar. O trem fez uma curva e pude ver, por cima dos vagoes la na frente, o colossal Faro della Vittoria, um belo farol esculpido em marmore com uma ponta de ferro que portava uma estatua de uma vitoria alada. Se o castelo fora o guardiao da cidade para minha avo, o Faro fizera as honras para mim.
Chegando na estaçao, liguei para as avos. Minha avo triestina parecia contentissima por eu estar na sua cidade. Falou-me de alguns lugares a visitar e lembrei-me de um final de e-mail no qual ela me pedia: "beije meu mar". No fim do telefonema, deixou escapar um "vai dar tudo certo". Nao soube muito bem como interpretar estas palavras com cor de preocupaçao. O que daria errado? A outra avo fez uma pergunta interessante: se eu começava a entender a religiao, a sacralidade (qual era a palavra que ela usara?) na Europa. A pergunta me pegara de surpresa e tudo que pude responder foi que começava a entender uma religiao minha, que pouco tinha a ver com a catolica, mas era uma coisa muito mais pessoal (de fato, penso que assim deveria ser a religiao para cada um: pessoal, e nao adotada de dogmas pré-estabelecidos). Consegui explicar-lhe que tinha algo a ver com o modo como as coisas aqui estranhamente faziam sentido, se encaixavam. Ainda nao sei explicar. Talvez voces entendam no decorrer destes relatos.
Comecei o longo caminho da estaçao para o albergue, a cabeça a mil por hora. Dos confins (edges) metaforicos vividos em Sao Paulo, eu havia viajado até uma cidade que representava para mim limites mais concretos: eu estava na ultima cidade da Italia. Depois de Trieste, apenas a pequena vila de Muggia, considerada parte da cidade de minha avo, e entao a fronteira com a Eslovenia. Representava assim nao so o fim da Italia, mas o fim do mundo que eu conhecia até entao, expandindo-se do Pacifico colombiano até o Adriatico triestino. Por ultimo, como escrevi por aqui, era um limite no tempo: retrocedendo na historia que eu conhecia da minha familia materna, eu chegava apenas até as geraçoes que tinham vivido aqui, até os pais de minha avo. Nao sentia ainda a necessidade de ir além desses limites. Eu estava aqui, precisava conhece-los e isso por enquanto me bastava.
A caminhada me levava por uma cidade diferente de boa parte do que eu tinha visto até entao na Italia. Tinha uma estética de prédios dos anos 50, como alguns dos vistos em Roma e Milao, mas a proximidade com o mar aliviava o que, em Milao, havia sido uma sensaçao deprimente de decadencia. No mais, as cores da cidade, o design, tudo tinha mais sharpness, aquela qualidade que eu nao sei explicar. Mais contraste, mais foco. Mais sensaçao de realidade.
Em algum ponto da caminhada, fui acometido de uma forte sensaçao de que talvez eu nao estivesse pronto para isso. De que eu tinha vindo para ca de forma apressada e que, se eu fosse fazer ao meu modo, teria esperado mais uma semana e preparado absolutamente tudo para fazer uma viagem sem erros, sem duvidas. Eu nao estava 100% pronto e eu sabia disso. Mas decidi nao deixar isso arruinar a experiencia. Eu estava aqui e era o que importava.

Cheguei ao albergue (agradeço sempre ao Lala's pela dica da carteirinha de alberguista) depois de quase uma hora de caminhada. Era um lugar gostoso, ha uma centena de metros do Castelo de Miramare. Tinha um ambiente de ex-escola primaria: desenhos nas paredes, empregados cordiais e humildes. Sem falar em um grupo de ciranças hospedadas com os professores em visita aos lugares turisticos.
E entao, o primeiro indicio do meu despreparo: o albergue ficava ha 2 quilometros de qualquer comércio, incluindo restaurantes, e nao servia refeiçoes. Meu primeiro jantar em Trieste foi parte dos suprimentos que eu havia trazido de Perugia...
Para afugentar aquela sensaçao ruim de despreparo, sentei-me na sala do albergue com meu caderno, agenda e obviamente o mapa da cidade que eu comprar na estaçao (estava colecionando um de cada cidade visitada), a preparar minuciosamente o dia seguinte. Que lugares visitar, o que fazer, as burocracias a resolver. Um e-mail de minha avo triestina citava lugares interessantes e tracei no mapa um itinerario turistico que me valeria quase um dia inteiro, depois de resolver as burocracias pela manha.
Ouvindo na sala ao lado o professor falando com os alunos, algo me chamou a atençao. Depois de falar de castelos, candelabros e cavernas, mencionaram o enorme prédio da sinagoga triestina... Era o unico ponto que nao estava no meu mapa. Assomei-me à porta: "perdoe-me, professor, mas o Sr. poderia me apontar no mapa onde fica a sinagoga?" O professor, muito solicito, buscou-a no proprio mapa. A conversa durou pelo resto da noite: contei minha historia, a da minha familia, perguntei-lhe sobre a comuna de Perugia, onde eu tentaria fazer minha carteira de indentidade italiana. Apenas um detalhe: disse-me que talvez a sinagoga estivesse fechada para a Pascoa. Claro... Porque eu nao pensara nisso?

Dormi cedo. Nao queria desperdiçar nenhum momento de Trieste. Dormi em um quarto com oito beliches, todos vazios. O quarto so meu. As acomodaçoes eram rigidamente espartanas: armarios de aluminio (daqueles que fazem um estrondo quando abertos), colchoes duros e cobertores simples, sem estampas. Ressaltou em mim o comportamento militar. Organizei tudo da forma mais eficaz que encontrei, esperando até por novos hospedes nos dias seguintes.

E entao, acionando o alarme no celular que Mary me emprestara (o meu ainda estava na assistencia - adorei essa tecnologia de chips!), adormeci na primeira noite em Trieste, embalado por uma sensaçao de dever cumprido por estar aqui.

O ritual de Claire

Sai da pequena igrejinha com a estatua do Moisés do Michelangelo, em Roma, e de repente me lembrei da data: era o dia 8 de Abril. O dia da visita de Claire à igreja dos templarios em Perugia.
A australiana me contara nos primeiros dias do curso de italiano, que seus pais tinham se conhecido em Perugia. Durante o mesmo curso de italiano que ela estava fazendo. Conta a lenda, que eles se conheceram no dia 8 de Abril, na igreja redonda perto da Porta Santangelo. Desde entao, Claire sentia pela data e o lugar, uma espécie de ligaçao religiosa, como se fosse o lugar certo e o dia certo para se estar, onde ela encontraria alguém que a faria esquecer do amor deixado em Adelaide: um rapaz que ela considerava quase perfeito, chamado Charlie. Nao podia deixar de perceber no valor que ela dava a esses acontecimentos, algo de semelhante ao valor que eu dava a Trieste. Obviamente nao fazia sentido: ela nao ia encontrar o amor de sua vida no templo naquele dia especifico. Mas a questao ia além disso. Ela nao se perdoaria se nao estivesse la.

Continua a inda e vinda de SMSs por aqui...
-"E entao, Casooch (apelido derivado do sobrenome dela: Casucci), voce foi até o templo?"
Silencio momentaneo.
-"Sim, mas ele nao estava la." foi resposta suscinta, triste. E depois: "Faz clima pra tomar chocolate quente. Vamos ao Morlacchi?"
Alivio: embora ela desse importancia o suficiente aos rituais para estar la naquele dia, nao se deixava abater assim tao fortemente quando a magia nao acontecia. Uma breve liçao a ser considerada para quando eu fosse a Trieste. Naquele dia, a conversa terminou comigo explicando onde estava.

Hoje, Claire me convidou para passear por Trieste, aproveitando o tempo bom que tem feito. Tinham-se passado quase duas semanas, nas quais ela tinha mantido um contato maior, chamando-me para pequenas coisas, cinema, jantares com as outras australianas (incluindo a despedida de Katie, nossa guia em Norcia, que ia para a Eslovenia com conselhos meus de parar em Trieste no caminho...). Nao sei se era interesse ou apenas gratidao pelo meu gesto naquele fim de semana.
A Torre que domina toda a segunda metade do burgoEnfim, hoje fomos fazer um passeio pelo Corso Cavour. Tinha visto cartazes falando de um itinerario entre arte e botanica no Corso, seguindo entre catedrais e jardins.
A primeira parada tinha la sua importancia simbolica na minha historia de Perugia: a catedral de San Domenico. Sua torre sempre fora uma imagem presente durante o curso de italiano, sendo vista do Palazzo Prosciutti. Quando o entardecer a tingia de laranja em frente à paisagem umbra, era um dos melhores espetaculos da cidade. Cheguei a fotografa-la com o celular e passei muito tempo sem sequer saber o que era, até tentar visita-la em um fim de semana chuvoso (nao, San Domenico nao é a mesma citada naquele fim de semana, eu passei nela depois...). Mas ela estava fechada: nao era o momento. Hoje, a catedral iniciou nosso percurso, mostrando uma das maiores naves centrais da cidade. Embora pouco decorada, tinha seus varios encantos. Mas o maior deles, o vitral atras do altar, estava coberto para restauros.
Saindo de San Domenico, a igreja de San Pietro foi um grato contraponto. A torre de San Pietro podia ser vista ao lado da de San Domenico, mas era menor e nao tao imponente, portanto eu frequentemente a ignorara. San Pietro, de fato, era um monasterio de monges beneditinos, o que significava que, embora menor em altura, era mais vasto em territorio. Interno de San PietroUma das maravilhas do monastério era a nave principal da igreja: cada centimetro era decorado de forma suntuosa, cheia de detalhes. Encontrei muitas copias de coisas que tinha visto na Galeria Nazionale dell'Umbria (incluindo o quadro do Cesare que eu tinha linkado). O ponto alto era o coral da igreja: todo em estilo de 1500, cada assento com animais mitologicos esculpidos em madeira nos encostos.
Jardim medieval de San PietroA segunda maravilha do monastério era o jardim botanico. Nao era apenas um belo jardim: tudo era colocado de forma simbolica. Era um passeio pela evoluçao dos simbolos, a começar pelo circulo e terminando com Yggdrasil, a Arvore da Vida. Quando chegamos, era quase hora de fechar. Mas senti vontade de voltar, com o novo caderno de anotaçoes que eu tinha começado no passeio a Trieste, para anotar algumas das idéias presentes no jardim, escritas em cartazes didaticos espalhados por ai. Porque nao eram idéias iconofilas, adorando Jesus ou qualquer deus especifico. Eram idéias genéricas, universais. Idéias que poderiam servir a qualquer religiao, e talvez àquela coisa embrionaria que eu estava criando aqui na Italia.
Nos fundos do jardim, uma horta enorme abrigava diversos tipos de planatas, para alimentaçao, medicina, beleza e tantos outros usos. O centro da horta tinha uma estranha maquina, com uma esfera de vidro no centro e desenhos no chao, que aparentemente funcionava como alguma espécie de relogio lunar. Uma placa comentava como os monges beneditinos acreditavam que a interferencia dos astros causava mudanças no gosto dos frutos, no aroma e até na eficiencia das plantas medicinais. Um engenhoso (embora antigo) sistema de irrigaçao consistia de uma roda d'agua que jogava agua em canaletas. E bem no fundo da horta, um mirante abria-se para a paisagem umbra, com uma pequena plaqueta explicando onde estavam as diversas cidades. Encontrei Norcia, Assisi, Trevi (de Linnea), Mecca e até... Trieste! A minha Mecca pessoal.

Sai do monastério com Claire pensando que o meu interessepelo seu ritual me valera talvez uma retribuiçao, pelo fato dela me mostrar aquele lugar, onde possivelmente eu poderia entrar em contato com idéias fundamentais para o meu senso de religiao. Agora faltava eu voltar la com mais calma...

A quem interessar possa

As fotos de Norcia ja estao disponiveis no post. Tive que ser um pouco criativo, porque tinha muita foto, pouco texto e o blogspot me da opçoes limitadas de ediçao. Cliquem nas fotos pra ampliar e estejam atentos aos links para outras fotos identificados no começo de alguns paragrafos.

Em outras noticias, estou escrevendo sobre Trieste: nao se preocupem, vou dividir as tijoladas em posts menores, ja que fiquei la por tres dias e tem bastante coisa pra mais de um post. Amanha escrevo sobre a chegada.

terça-feira, abril 18, 2006

Fim de semana 10: Roma (S.P.Q.R.)

Deveria ter ido dormir depois do jantar com Nina e seus divertidissimos coinquilinos. Mas nao resisti ao passar na frente do Morlacchi e acabei indo dormir la pelas tres da manha para acordar às seis e pegar o trem para Roma. Ao pegar o trem, lembrei-me da primeira e inexpressiva viagem a Roma, e de ter ficado olhando por toda a viagem para a menina sentada do outro lado, talvez a mais bela morena que ja vi (perdoe os superlativos, Lala's). Desta vez, no entanto, dormi por boa parte da viagem, até que um casal de alemaes me acordou em Foligno, avisando que era a ultima parada daquele trem e teriamos que mudar. Algo nao fazia sentido: meu bilhete era para os trens simples e o trem que eu deveria pegar para chegar em Roma ainda na manha era um dos mais caros. Pense, rapaz... Acabei descobrindo que teria que pagar a diferença, mas entre a minha letargia sonambula e a fila na bilheteria, perdi o primeiro trem. Uma hora depois, estava no segundo, mais simples e barato. Um pouco mal-humorado pelo começo truculento de viagem. Pra completar, liguei para o albergue onde passaria uma noite e me disseram que nao sabiam se ainda teriam vagas quando eu chegasse, depois do meio-dia. Muita gente estava indo a Roma aproveitar os museus de graça.
Minha sorte, no entanto, mudou completamente ao atender o telefone. Era o Sr. Ascarelli, com quem eu tinha falado alguns dias antes. Pedi desculpas porque chegaria mais tarde do que tinhamos combinado, mas ele respondeu dizendo que tinha um bar-mitzvah e que so poderia me encontrar mais tarde mesmo. Perfeito. Ainda mais perfeito: convidou-me para dormir em sua casa naquela noite, economizando-me os problemas com o albergue. Desliguei o telefone suspeitando interferencias benéficas da minha avo...
Desci em Roma pela segunda vez. Tive, como no meu segundo dia em Firenze, aquela sensaçao de que ja conhecia o lugar e que a grandeza da cidade nao me assustava mais. Esperando pelo horario de encontrar o Sr. Ascarelli, passei na pequena lojinha de uma franquia de sanduiches muito boa, onde também tinha almoçado na minha primeira e inexpressiva visita a Roma. Sanduiches muito bons...
Embora Roma nao me desse mais medo, tinha apenas uma area pela qual eu tinha sérias hesitaçoes: a saida da estaçao. Cheia de mendigos, muitos vestidos com roupas de ciganos, me deixava sempre em estado de alerta. E nao deu outra: fui abordado por uma moça com dois dentes dourados que me pediu alguma moeda e foi me empurrando gentilmente para dentro da estaçao, para comprar-lhe um sanduiche. Prestei atençao na minha carteira no bolso de tras, enquanto lhe dizia que eu era um viajante, que nao tinha nada. E logo a atençao dela voltou-se para outra coisa: meu chapéu veneto. Tirou-o da minha cabeça com um gesto e eu ja estava me despedindo dele, antecipando a cena dela sair correndo com ele. Mas o momento veio e passou... ela devolveu-me o chapéu e se despediu.
Aliviado, tinha meia hora para chegar à sinagoga, onde encontraria o Sr. Ascarelli. Desci o Corso Cavour (tem um em Perugia também...), ja conhecido da viagem anterior, sem medo de me perder, até chegar à avenida dos forums imperiais, onde as ruinas dos antigos forums romanos eram exercicios de imaginaçao: tentar entender onde ficava a entrada, onde sentavam-se os senadores, onde fora assassinado Julio César. Caminhei pela avenida, dando as costas ao Coliseu, até a Piazza Venezia, onde o monumento a Vittorio Emanuele II continuava sendo o meior monumento que ja vi na vida.
Toda cidade italiana que se preze tem um monumento a Vittorio Emanuele II. Normalmente, é o maior da cidade. Mas o de Roma é possivelmente o maior do pais. Vittorio Emanuele II ajudou, junto com Giuseppe Garibaldi, a unificar a Italia no século XIX, transformando o aglomerado de pequenas cidadezinhas em um pais unido.
Deixando o monumento, que naquela hora estava sendo fotografado por uma enorme comitiva de turistas ingleses, loiros, brancos e com filhas entediadas, segui por uma ruazinha até o rio Tevere, que cortava a cidade em um L, como o Pinheiros e o Tiete fazem em Sao Paulo. A sinagoga era à margem do rio. Atras dela, o ghetto da época de Mussolini. Começava a aproximar-se de um de meus objetivos por aqui: entender o lado judeu da minha origem.
Meus pais tinham me ligado. Queriam falar comigo da passagem para Londres que eu estava tentando comprar pela internet, sem conseguir entender o lance do cartao de crédito... Mas como eu tinha que ir atras do Sr. Ascarelli, disse que ligaria um pouco mais tarde. Grande erro. Parado em frente à sinagoga, esperando meu contato romano, comecei a perceber o pequeno inferno que eram os telefones publicos em Roma. Ao longo do Tevere nao havia nenhum. Mais tarde descobriria que os do centro, mais abundantes, estavam geralmente quebrados. De uns quinze que encontrei, dois funcionavam. Somehow, com toda essa incompetencia, I felt right at home....
Piero Ascarelli me encontrou pouco tempo depois, seguido de sua mulher Ida. Eram o que eu esperava ser o estereotipo romano: de temperamento mais forte, daqueles que falam alto, vivaz e enérgicamente. Quando nao concordava com o que a mulher dizia, discutia de um modo que para mim parecia até violento, mas que logo percebi ser o jeito romano mesmo... Ida, ao contrario do marido, nao falava portugues. Mas logo me parabenizou pelo meu italiano, que eventualmente passou a ser a lingua na qual todos nos passariamos a nos comunicar. Lembro-me vagamente de ter visto os dois no Brasil, em algum dos natais de familia. Na época, eu falava muito pouco italiano, tendo apenas começado o curso, e so pude trocar sorrisos com Ida. Era uma mulher reservada, com um jeito de italiana do norte, milanesa talvez, mas muito simpatica.
O Arco de TitoPiero ficou de levar minha mochila para casa enquanto eu visitava os museus durante o dia. Levou-me até a Sistina, que eu nao conseguira ver na primeira viagem, e nao conseguiria ver nesta: fechada durante o fim de semana. Depois deixou-me em frente ao Coliseu, apos uma curta viagem de carro na qual me fez todas as perguntas de praxe: o que eu estudo, quanto tempo estarei por aqui, minha idade, se eu fumo, etc...
Quando desci do carro e peguei minha mochila menor de dentro da maior, ele me contou que na frente do Coliseu, eu podia ver dois arcos: o enorme arco de Costantino e o menor, de Tito. O arco de Tito fora construido quando o dito imperador trouxe os hebreus escravos a Roma. Desde entao, os judeus evitavam passar por debaixo do arco, em protesto contra a injustiça. So recentemente (a data, esqueci...) foi feita uma cerimonia onde se reconheceu a injustiça feita aos judeus e, como ritual, eles voltaram a passar pelo arco.





O Colosseo romano

Apos tentar sem exito telefonar para casa e comprar um par daquelas cameras descartaveis (a preços realmente ridiculos por aqui...), fui ao Coliseu. Na minha primeira visita a Roma, tinha preferido correr até a Sistina pra tentar pega-la aberta em vez de entrar no famoso estadio romano. Fiz bem: poderia entrar de graça hoje. De fora, o Coliseu era menor do que eu esperava. Na verdade, o tamanho era uma coisa bem relativa: visto da avenida dos forums imperiais, parecia enorme, tomando conta do cenario. Mais de perto, encolhia um pouco. Dava a impressao de ter o miolo das paredes feito de uma mistura meio caotica de argamassa e tijolos, enquanto uma camada decorativa de placas de marmore com relevos o revestia por fora.
Entrei (na Vasca!) e paguei qualquer besteira pelo audioguia, um tipo de telefone com um pequeno mapa pontilhado de numeros. Voce discava o numero e uma gravaçao explicava detalhes sobre o ponto.
Nao é possivel compreender como era isso quando estava intacto...Aprendi, além das noçoes comuns sobre os esportes sangrentos realizados no Coliseu, que o nome do estadio é Anfiteatro Flavius. O nome pelo qual é conhecido nao vem de seu tamanho enorme, mas de uma colossal estatua de bronze que ficava ao lado (mais ou menos onde hoje esta o arco de Tito), que inicialmente retratava o imperador Nerone, mas depois foi modificada para retratar o deus sol. Aprendi sobre a rigida divisao dos lugares, baseados nas classes sociais, e sobre a vida dos gladiadores. Enquanto ouvia tudo, assistia os unicos felinos que ainda transitavam pela arena: um par de gatos inofensivos e muito carinhosos. Pedi a um casal de turistas que tirasse uma foto de mim com a camera descartavel: nao resisti à coincidencia de ser mais um Leao do Coliseu.

Moisés de Michelangelo: clique para ver em detalhes maioresSai do Coliseu e o dia ja mostrava sinais de estar terminando. Passei pelo arco de Tito, embora tivesse atualmente um cordao impedindo mais do que so os atuais judeus de passarem por baixo dele, e segui para um lugar particular do mapa: uma pequena igrejinha escondida no meio da cidade, que para muitos seria completamente interessante. Mas so aproveitam uma cidade como Roma (ou Sao Paulo...) os que conhecem os pequenos detalhes. Sr. Ascarelli mencionou aquela igrejinha e o tesouro que abrigava: a escultura do Moisés de Michelangelo! Estava no fundo da igreja, à direita. Achei um insulto a iluminaçao que fizeram: voce colocava €0,50 em uma maquina e as luzes se acendiam por uns tres minutos. Falando em comercializaçao de arte...
A estatua em si, novamente, era menor do que eu esperava. Muito bem polida, a estatua mostrava o profeta supostamente no momento em que avista o falso idolo construido pelo povo hebreu enquanto ele foi receber os dez mandamentos. Notem (clicando na imagem) que Michelangelo coloca dois chifres na cabeça do profeta: contaram-me, embora eu tenha duvidas da informaçao, que a palavra para "luz" em hebraico poderia também ser interpretada como "chifres", sendo que Moisés "recebeu a luz". Hoje em dia, o episodio biblico provavelmente teria outras conotaçoes...

Pantheon: o templo de todos os deusesPara terminar o dia, encontrei algo interessante no mapa. O Pantheon era um enorme templo redondo com uma entrada que simulava os templos gregos. Supostamente, pelo nome, deveria abrigar deuses de todas as religioes, mas obviamente, encontrei mais coisas da religiao catolica e judaica. O interior era incrivel (clique na imagem para ter uma idéia...): uma redoma gigantesca com o topo aberto, permitindo a entrada de sol e mesmo de chuva. A iluminaçao fornecia efeitos realmente divinos. E a mera grandeza do edificio ja fazia qualquer homem sentir-se humilde.

Ao lado do Pantheon, Piazza Navona. Ouvira falar bastante dela. Tanto pelo monumento central, uma fonte que representava os quatro maiores rios do planeta, quanto pelos artistas que diariamente faziam retratos na Piazza ou as estatuas vivas, que se mexiam em gestos de gratidao apenas quando algum transeunte lhes dava alguma moeda. Logo na entrada, dei de cara com um rapaz de terno, andando pela rua em meio à ventania com um enorme sorriso e oculos escuros no rosto. "Andando" nao seria o termo correto: ele estava parado no lugar. O dia ensolarado tinha o ar parado, mas o vento era percebido nas roupas dele que, endurecidas de algum modo, simulavam uma verdadeira ventania, abrindo o terno, levando a gravata por cima do ombro, amassando a camiseta. Alguém parou para tirar uma foto. Eu estava logo atras com a minha camerazinha: a graça de uma foto dessas seria o contraponto entre ele, uma figura em açao, e um transeunte qualquer, que nao sofria os efeitos do mesmo vento.

Com o frio chegando rapido, voltei para a frente do Coliseu para tomar o onibus até a casa dos Ascarelli, do outro lado do rio, em um bairro tranquilo. Mal sabia eu, mas poucas horas depois, estava de volta à Piazza Navona, indo jantar com eles.
Ida acabou me convencendo a experimentar o filé de bacalhau, uma espécie de coisa tradicional judaica daqui. Apesar da minha antipatia por peixes, e principalmente pelo bacalhau, achei que faria sentido comer isso aqui, com eles. Se encaixava, entende? Fomos até um restaurantezinho apertado perto da Piazza Navona, onde os garçons jovens nos serviam falando italiano com sotaque romano: quanto mais ao sul, mais o sotaque parece com embriaguez, misturando as letras, arrastango as vogais. Imagine como falam, entre elas, as meninas da Puglia com as quais vivo...
A fonte da Piazza NavonaO bacalhau foi divino. Sim, é quase um paradoxo eu escrever uma coisa dessas, mas era verdade. Bem diferente daquela coisa salgada e fedida da cozinha portuguesa, o de Roma era leve, crocante, delicioso. Servido com uma espécie de feijao branco com cebola, este servido frio, ou uma salada de gallinela, uma verdura que nunca vi no Brasil, foi um jantar incrivel. De sobremesa, passamos na Navona pra comer tartufo. Me esbaldei. E agradeci os Ascarelli efusivamente. Piero contava-me sobre a fonte. Dizia que o escultor da fonte brigou com o arquiteto do edificio logo à frente dela. O arquiteto dizia que a fonte nao combinava com o edificio, e por isso nao gostava dela. O escultor, como uma pequena vingança, fez uma das estatuas, de frente para o prédio (e vista à esquerda da imagem, clique nela), com uma cara de medo e a mao levantada como se tivesse medo de que o prédio, mal construido, fosse desabar em cima dela.
Passando por um dos becos perto da Navona, Piero contou-me outro fato interessante: Julio César fora assassinado por ali. A historia comum que todos conhecem nao o diz, mas documentos historicos dizem que o forum estava fechado para reformas na época, os senadores tendo que se encontrar em outros lugares para debater. Assim que o conhecido imperador romano foi assassinado fora do forum, na rua.

De barriga cheia e espirito alegre, voltamos para casa. Eu dormia no carro, completamente apaixonado por Roma. Lembrava-me Sao Paulo em design, com as cores da Italia. Eu poderia facilmente me adaptar aqui. Pelas ruas, à noite, via a juventude andar por ai vestida em trajes goticos: tipo de gente que ia ao Atari em Sao Paulo, ou fazia compras na Galeria do Rock. Era surreal: a cidade que de dia transbordava de monumentos catolicos, com o Vaticano logo ao lado, de noite era tomada pela contra-cultura punk e as cores negras.

=======================

No dia seguinte, sentei-me à mesa com Piero para receber dicas sobre o meu segundo dia em Roma. Queria focalizar mais nas memorias do Holocausto e menos nos pontos turisticos comuns. Comentei das Fosse Ardeatine, onde 300 judeus haviam sido massacrados na época da Guerra. Mas o mapa me mostrava que era quase fora da cidade, ao sul. Por la também havia o E.U.R., um bairro criado para abrigar uma exposiçao de arte durante a época do Mussolini e que, segundo me disseram, conservava a estética e arquitetura da época.
Piero fez-me mudar de idéia. Eu podia ir para o norte, para o Foro Italico, um enorme complexo de esportes contruido pelo duce, e depois descer pelos bairros construidos na época, que também conservavam alguma coisa da arquitetura, até chegar no Vaticano. Certo.
Me despedi dos Ascarelli e deixei o bairro tranquilo. Tomei o onibus para a estaçao de trem. La, deixei minha mochila maior no guarda-volumes e tive a brilhante idéia de alugar uma bicicleta. Roma é quase inteiramente plana, com poucos altos e baixos, o que facilita muito. Encontrei um lugar na frente da estaçao, que alugava bicicletas muito simpaticas, estilosas, com cadeado e tudo. O rapaz me pediu um cartao de crédito como deposito: dei-lhe um desativado, que nao funcionava nem para débitos. Ta pensando que eu nasci ontem?
Tomando o rumo do Foro Italico, entrei na Vila Borghese. Se Roma é a Sao Paulo italiana, a Vila Borghese é o Ibirapuera. Um enorme parque, pontilhado de museus aqui e ali. Que delicia: fiquei umas duas horas rodando por la. As pessoas alugavam bicicletas de dois e quatro lugares que pareciam o carro dos Flintstones: quatro rodas e todo mundo pedalava.
No mapa, uma grata surpresa: um museu de arte moderna! Foi um alivio gostoso depois de tanta arte antiga ver um pouco de arte conceitual. Estavam fazendo uma mostra de um grupo italiano dos anos 70 chamado Gruppo T, de arte interativa. Muito interessante. Gianni Colombo tinha o seu Spazio elastico: uma matriz de fios elasticos formando um espaço quadriculado. Motores puxavam um ou outro fio, deformando a matriz. Me lembrou do trabalho com fios que eu fiz na faculdade de arte, criando um cubo virtual flutuando no meio da sala.
Em outra sala, Davide Boriani e Gabriele de Vecchi reproduziam o efeito da camera de Ames, usada em filmagens: os moveis sao deformados de forma a, de um certo ponto de vista, parecerem normais. Mas a deformaçao de perspectiva faz com que, quando voce caminha de um lado ao outro da sala, a pessoa que enxerga daquele ponto de vista ve voce diminuir de tamanho gradualmente. Mas o que realmente me divertiu por bastante tempo foi o Ambiente cronostatico de Boriani e Vecchi: um corredor com paredes pintadas com tinta fluorescente e iluminado por luz negra. No começo, nao entendi do que se tratava. Parei por um momento para entender aquilo. No entanto, quando retomei a caminhada e olhei para tras, percebi que minha sombra tinha ficado na parede! Uma sensaçao de voltar a ser Peter Pan... O que acontecia é que a luz negra ficava constantemente sensibilizando a tinta fluorescente. Quando uma pessoa parava e fazia sombra por tempo suficiente nas paredes, o efeito de sensibilizaçao ia gradualmente diminuindo naquele ponto, imprimindo a sombra na parede. Depois de sair e deixar a sombra impressa, a luz negra iria gradualmente retomando seu trabalho e apagando a sombra. Tive impetos de fazer fotos significativas, de mim tentando beijar minha propria sombra ou costura-la ao pé como Pan. Mas sabia que nenhuma foto sairia naquela semi-escuridao. Pena...

Sai do museu de arte moderna, peguei de volta a bicicleta e retomei meu caminho.
No ultimo trecho até o Foro Italico, enchi minha garrafa d'agua. Todas as cidades italianas tinham essas torneiras aqui e ali, vertendo agua constantemente das fontes naturais locais. Era agua potavel, gelada. Piero aconselhara-me as fontes proximas do Vaticano, pela qualidade da agua. Lembrei-me subitamente dos meus primeiros dias na Italia, de beber a pouca agua nao-gasosa que encontrava (ja que todo mundo aqui bebe agua com gas...) e sentir um gosto esquisito. Eu sei que é paradoxal, mas era um gosto mais seco. Agua seca. Agora, dois meses e meio depois, eu ja nem sentia.


Foro Italico. Clique para imagem maior


Atravessei a ponte sobre o Tevere sendo recebido do outro lado pelo pequeno obelisco com o nome de Mussolini entalhado na vertical. Em ambos os lados, prédios de um estranho vermelho que abrigavam as partes administrativas do enorme complexo esportivo do duce. Nas paredes dos prédios, relevos de bronze de esportistas em diversas modalidades de esporte, com um visual que lembrava muito o estilo de desenho da antiga Roma, onde o ditador facista foi buscar a inspiraçao para seu império. Mesmo na ponte, via-se entalhes mostrando soldados da Segunda Guerra combatendo bravamente, por vezes afrontando seus inimigos com as proprias maos enquanto estes portavam fuzis. Uma ode meio ridicula à guerra, à honra militar.
Passando o obelisco e indo em direçao ao estadio, cheguei em uma area onde fileiras de blocos de marmore ladeavam pela direita e esquerda, cada um com inscriçoes entalhadas das vitorias bélicas do regime facista, derrotas de povos locais e criaçoes de orgaos publicos, leis trabalhistas e afins. Do lado direito, o relato suscinto da entrada da Italia na Segunda Guerra, como se fosse mais uma guerra entre tantas outras que Mussolini venceria. E entao as ultimas pedras eram lisas. A ultima de todas as pedras do lado direito trazia um longo texto glorificando a formaçao do estado totalitario, a vitoria dos soldados italianos em uma guerra especifica e a honra dos que cairam pelo ideal. No chao, mosaicos com aqueles desenhos em estilo romano antigo mostravam no entanto avioes e outras maquinas modernas vencendo a guerra, tratores construindo uma nova Italia e diversos simbolos do regime. Perto do estadio, atletas vencendo competiçoes. Tudo acompanhado de exclamaçoes repetidas em grupos de oito, colocados dois a dois: "DVCE DVCE". Ou ainda "Muitos enemigos".
E no entanto, naquela pracinha, rapazes punks praticavam suas manobras de skate. Eu podia ouvir dentro do estadio uma partida de futebol acontecendo. Os italianos saiam e entravam portando bandeiras coloridas de seus times favoritos e parecia que todo o monumento de Mussolini era apenas um fantasma que eles sequer enxergavam. Uma coisa que eles haviam conseguido esquecer de tal forma, que nem se deram ao trabalho de destruir os monumentos, de tentar apagar o terror, a estupidez. Muito diferentes dos alemaes com os quais eu tinha falado, que se envergonhavam do fato, que baniam qualquer mençao ao nazismo e coravam diante da herança vergonhosa de Hitler.

Tomei a Via delle Olimpiadi, que costeava o vasto complexo de esportes aquaticos, em direçao ao Vaticano. As piscinas eram rodeadas de grandes estatuas, como colossos, representando nao so os diferentes esportes, mas soldados com seus fuzis. Os estacionamentos tinham mais pequenas motos do que carros. E era realmente o costume italiano que os adolescentes tivessem motos de poucas cilindradas. Havia visto por aqui um numero enorme de garotas dirigindo dessas motos, o que me chamara a atençao, porque no Brasil, motoqueiras sao raras. Por aqui, eles andavam em bandos. Vespa, Aprilia, e um sem-numero de outras marcas. Eu estava começando a me apaixonar pela praticidade delas, e a pensar em talvez ir atras de algo similar para Sao Paulo. Seria a soluçao perfeita para o caos que acontece todos os dias entre as tres da tarde e as oito da noite.
No final da Via delle Olimpiadi, o albergue onde eu deveria ter passado a noite. Passei sem dar grandes satisfaçoes. Perderam um cliente.
Segui pelo Viale Angelico, que tinha uma ciclovia muito bem sinalizada e prédios belissimos com uma arquitetura meio anos 50. E percebi que estava no bairro que Piero me falara, construido durante a Guerra. Nao me trazia nada de especial, sendo hoje apenas um bairro tranquilo, com uma arquitetura que, embora meio sombria e gélida, era atenuada pelo dia ensolarado, pelas arvores de primavera que ja começavam a florir rapidamente, e pelas mais empurrando carrinhos de bebe.


A praça em frente à Basilica de S. Pedro


E entao, o Vaticano. De novo.
Na minha primeira vez no Vaticano, ocorreu-me que eu estava no que poderia ser o lugar mais sagrado da religiao catolica hoje. De fato, tinha toda a imponencia. Mas eu nao me sentia mais abençoado por estar ali do que, digamos, quando visitei Assisi. Achei que outros lugares tinha mais senso de sacralidade, sendo este apenas, digamos, o escritorio principal.
Amarrei minha bicicleta em um dos postes, atras de um furgao da policia, e tomei a fila para subir à cupola da Basilica de S. Pedro. A praça que eu observava enquanto a fila progredia era de fato bela. Rodeada por colunas e santos catolicos. Eu ficava tentando identificar os santos, de acordo com os objetos portados. Mas estavam muito altos para estarem ao alcance do meu escrutinio.
Passei por um detector de metais e tive que tirar bem mais da metade de todos os meus pinduricalhos. E na distraçao, passei pela maquina de raios-X a minha mochila, com uma das cameras descartaveis dentro... Paciencia. Veremos como sai.
Visao de dentro da cupola do VaticanoSubir na cupola do Vaticano era um verdadeiro martirio. Anunciaram na entrada que seriam 320 degraus até o topo. Podia-se pegar um elevador, mas a taxa de entrada era obviamente maior. Vamos la, juventude.
Quase meia hora depois, a parte baixa da cupola. Os mosaicos que de la de baixo eram vistos como se fossem pinturas, aqui mostravam sua riqueza de diminutas pedrinhas coloridas. As letras dos dizeres em latim tinham o tamanho de pessoas e evocavam uma certa grandeza mundana da publicidade moderna. Circundamos a parte baixa da cupola observando a missa que ja começava la embaixo. Era como uma sensaçao de estar nos andaimes sobre um palco de teatro, escondido da platéia e tendo uma vista privilegiada do espetaculo. Era muito longe para ver quem presidia a missa. Na minha cabeça, a pergunta obvia: seria o proprio Papa Ratzinger?
Mais corredores. Quanto mais eu subia, mais o espaço ao redor das escadas ia inclinando para o lado, seguindo a forma redonda da cupola e fazendo um circulo cada vez menor. Até que, quando eu achei que seria obrigado a ficar girando em torno de mim mesmo, cheguei em uma pequena escadinha que dava para o alto da cupola.
A vista... Roma inteira, como se eu estivesse vendo um catalogo dos monumentos. Conseguia ver la longe o Coliseu, o enorme monumento de Vittorio Emmanuele II (o maior de todos, obvios...), o Pantheon e tantos outros monumentos. Um insight comico: eu estava tao alto que podia ver toda Roma, mas onde estava minha bicicleta? Tirei fotos, mas suponho que saiam comuns como as que se pode encontrar na internet. A vista é espetacular e voce acaba esquecendo de inventar truques pra fazer fotos legais. So tira as fotos mais abrangentes possiveis pra tentar pegar tudo aquilo. Onde estava minha grande-angular?
E entao, descemos de volta à Basilica. Estranho: no caminho de volta, passa-se por uma area com banheiros, mas também com lojinhas de refresco. Suponho que tenha quem diga que fazer comércio na Basilica de Sao Pedro seja um ultraje.
Dentro da Basilica, fui direto para o fundo. Dois motivos. Primeiro, para poder apreciar um dos efeitos que mais gosto do lugar: ele é tao amplo, que tem até efeitos de perspectiva atmosférica! Sabe aquela coisa de que quanto mais longe voce esta do objeto, mais ele vai ficando azulado, sem contraste, enevoado? Coisa muito explorada em jogos hoje em dia, porque permite ao programa "apagar" partes do cenario enquanto "carrega" outras. O segundo motivo: perto da porta, à direita de quem entra, estava a Pietà do Michelangelo. Das esculturas da religiao crista, talvez a que mais me inspirava pelo simbolismo: o Cristo murcho, esquelético e morto, sendo envolto pelos mantos da mae que aparecia como um enorme vulto de panos, ao mesmo tempo sua mae e uma alegoria de morte encapuzada vindo envolve-lo na escuridao. Dizem que Michelangelo fez tres copias, que estao em diferentes lugares, e uma misteriosa quarta que guardou para si. Também ouvi dizer que, julgando a obra perfeita, deu uma martelada no joelho de uma delas gritando "porque voce nao fala?". Mas das duas copias que vi, nenhuma delas tinha o joelho da Virgem estourado. Esta aqui estava protegida por uma parede de vidro, o acesso restrito. Nao tinha o ultraje da iluminaçao do Moisés, estando talvez em um lugar escuro demais.
Foto ruim do altar, eu sei. Mas é a unica que encontrei... Clique!Com as horas principais da tarde chegando, segui entao para o meu ponto favorito da Basilica: o centro, onde além das belissimas esculturas dos santos, algumas que chegam a ser mais inspiradoras do que as mais famosas (a Pietà, o David, essas coisas...); pode-se ver também o altar da Basilica, onde um vitral colorido com uma pomba branca que recebia a luz do entardecer, emanando um brilho genial. O efeito acontecia durante a missa. Em ambos os lados, as naves secundarias da Basilica recebiam as luzes entrando das janelas em feixes maravilhosos, iluminando a poeira no ar e as estatuas dos santos. A nave da direita, reservada aos confessionarios, era mais vazia e restrita so para quem queria se confessar. Os confessionarios tinham placas com as linguas especificas dos padres, para pessoas de todos os cantos do mundo. Fiquei pensando se o portugues falaria com sotaque de Portugal...

Satisfeito com minha segunda visita ao Vaticano, sai da Basilica. Na saida, nao pude deixar de notar. os seguranças ornamentais da Basilica, vestidos em engraçadas roupas antigas, listadas de amarelo e azul escuro e segurando antigas alabardas. Imagino que seja uma espécia de primeiro nivel de segurança e coisas mais "sérias" venham a seguir, para quem tiver a brilhante idéia de invadir o Vaticano.
Encontrei a bicicleta ainda amarrada no poste. Tenho menos medo dessas coisas aqui na Italia...
Na saida do Vaticano, tentei telefonar para minha avo no Brasil. Ritual que se repetia, ja que tinha feito o mesmo na primeira visita. Sempre lembraria dela neste lugar sacro. Repetia-se também o resultado: ela nao estava em casa.
Tomei meu caminho para a estaçao por uma Roma que ja começava a ficar fria demais rapido demais. No meu caminho, lugares interessantes que eu nao tinha mais tempo de visitar: o Castelo S. Angelo, a Piazza di Spagna, mas a Fontana de Trevi eu tinha visto na visita anterior, com seus imponentes cavalos e a constelaçao de moedinhas jogadas pelos visitantes na esperança de voltar a Roma algum dia.

Entreguei a bicicleta, rasguei a nota do cartao de credito, peguei minha mochila e subi no trem. Tudo com uma precisao quase mecanica e eficiencia de um passeio planejado. O curto caminho até Perugia foi sem incidentes, permitindo-me pensar na viagem que eu acabara de fazer, tomar algumas notas para escrever no blog e planejar a continuaçao da Grande Viagem, para Trieste.
Em dado momento, encontrei no meu caderno uma nota das aulas de cultura italiana. Era a sigla S.P.Q.R. que eu tinha visto sob o nome das estatuas dos senadores romanos , na avenida dos foruns perto do Coliseu. Tinha visto também nas revistinhas do Asterix. A sigla significava Senatus Popolus Quos Romanos (Senado do Povo Romano). Mas pensando nos telefones que nao funcionavam, no pequeno caos de vendedores gritando suas mercadorias nas ruas, nos garçons servindo filé de bacalhau com italiano de bebado e nos ciganos pedindo esmola na porta da estaçao, veio-me à cabeça a interpretaçao deita pelo heroi das revistinhas: Sono Pazzi Questi Romani (Esses Romanos Sao Loucos).