Quando acordei hoje de manhã, havia uma sensação de irrealidade no ar. Ela continuou no ar enquanto eu cruzava Gunnersbury Park e o tempo parecia correr mais lento. Aquele pedaço do parque onde só tem gramado e as casas bem lá longe parecia durar uma eternidade. Daí enveredei pela estrada que corre o lado do cemitério e na cabeça os Beatles cantavam The long and winding road. Antes de dobrar a esquina, parei e respirei fundo. Era o meu último turno no pub.
A sensação de irrealidade vinha do fato de que eu tinha esperado muito por esse dia. Muito mesmo. Tinha antecipado na cabeça centenas de vezes este último turno. E uma parte de mim não acreditava que ele fosse chegar jamais e que eu estaria para sempre preso nesse inferno de mesas a serem servidas e de um trabalho que me consumia completamente. Tão completamente, que eu sonhava com ele. Meus sonhos tinham sido o vinho a ser entregue na mesa 6B e a disposição das mesas de madeira no jardim, os filés de diferentes tipos de peixe todos iguais e que eu tinha que saber qual era qual. Esse lugar, esse trabalho, tinha sido a minha realidade nos três meses que passei em Londres. Daquele tipo de realidade que você chega a odiar até o osso de vez em quando, mas que sabe que vai marcar e que você vai sentir falta daqui a algum tempo.
O turno foi o inferno de sempre. Almoço de domingo: carne assada, famílias inteiras em mesas de nove, dez pessoas, crianças atravessando o seu caminho quando você carrega três pratos de uma vez, o chefe falando pra você ir mais rápido. E eu realmente não conseguia me importar o suficiente. Era meu último turno. Dane-se.
Fim do turno e eu limpei e sequei o último dos talheres. Isso marcava pontualmente o fim do meu turno. Desamarrei o avental, dobrei-o cuidadosa e ritualmente como o fazia todos os dias, desta vez sem as quinquilharias que eu guardava no bolso. E então, pra encerrar de forma simbólica o que eu devia fazer, entreguei-o a Naomi, a gerente do dia. Eu não era mais um funcionário da Ealing Park Tavern. Me abri para Naomi, contei-lhe as similaridades que ela tinha com o Dora e como eu achava que ela seria uma gerente fantástica. Ela me deu um abraço mais apertado que o jeito que eu amarrava meu avental e me desejou toda sorte do mundo.
Os outros se despediram como puderam. Os rapazes da cozinha me pagaram um shandy e um shot de sambuca (licor de aniz). Todo mundo assinou um cartão bonitinho. Muitos apertos de mão, muitos abraços. E eu tentando fixar na memória o rosto de tanta gente linda, o sotaque estranho de escoceses, irlandeses, poloneses, albaneses... Tendo falado com todo mundo, peguei a mochila, meu chapéu veneto, e pisei fora do pub. O futuro adiante. Aquela mistura de uma satisfação enorme por completar todo o tempo que eu achava que devia fazer naquele pub, e uma tristeza por deixar pra trás o que Londres tinha sido para mim nesses três meses.
Ainda voltarei ao pub. Na próxima vez, como cliente. Quero jantar lá antes de partir para o Brasil, tirar fotos com todos os personagens e cenários desse seriado estranho que eu vivi.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
domingo, julho 30, 2006
sexta-feira, julho 28, 2006
E.R. ou E.P.T. (Ealing Park Tavern)?
Me veio à cabeça hoje, no meio do turno, que a composição das coisas no pub era muito similar àquela que se vê no E.R. Você tem esse grupo de gente trabalhando juntos, convivendo, cada um com seu pontos fortes e fracos, suas características de personalidade que influenciam na hora de tomar decisões, na hora do aperto. Cada dia, esse grupo de pessoas se reveza no cuidado de clientes que são eles mesmos personagens com características de personalidade que definem o andamento do serviço.
Tudo tem sempre aquela atmosfera de pressa, de emergência. Nesse redemoinho violento, destacam-se a figura da profissional excelente que é promovida a gerente, do outro que se dedica de corpo e alma ao trabalho porque de fato não tem nada mais na vida, daquele mais medroso ou retraído que prefere evitar os clientes problemáticos a enfrentá-los com a mesma moeda, do outro que sempre tem uma tirada hilária para cada situação.
Sinto como se a composição fosse a mesma, mas o assunto fosse diferente.
Tudo tem sempre aquela atmosfera de pressa, de emergência. Nesse redemoinho violento, destacam-se a figura da profissional excelente que é promovida a gerente, do outro que se dedica de corpo e alma ao trabalho porque de fato não tem nada mais na vida, daquele mais medroso ou retraído que prefere evitar os clientes problemáticos a enfrentá-los com a mesma moeda, do outro que sempre tem uma tirada hilária para cada situação.
Sinto como se a composição fosse a mesma, mas o assunto fosse diferente.
quinta-feira, julho 27, 2006
Hampstead Heath
Eu tinha atravessado Gunnersbury Park todos os dias para chegar ao trabalho. Tinha alimentado os esquilos de Hyde Park e sentido-os colocar as patas nos meus dedos. Tinha assistido a um filme a céu aberto em Greenwich Park. E justo quando eu estava começando a me entediar dos parques ingleses (todos belíssimos, mas iguais...), eis que surge Hampstead Heath. Recomendação do meu gerente Charles.
De fato, eu devia ter vindo a Hampstead Heath antes. Se tivesse conhecido o parque no começo dos meus meses londrinos, teria passado vários dos meus dias livres por lá.
Saí da estação de metrô de Hampstead Heath e dei de cara com o porque. Eram árvores enormes, que davam aquela impressão de filme de fantasia, de que você acaba de entrar em um mundo estranho, onde as proporções são diferentes e você é minúsculo. O parque continuava por quilômetros adentro, com mais de dez lagoas, várias delas abertas para natação. Não perdi tempo, e fui direto para a lagoa mista. A água tinha deliciosos 25 graus, o suficiente para refrescar sem congelar. A lagoa parecia não ter fundo e meu corpo sumia em uma água que permitia um metro de visibilidade, escurecendo depois.
Curioso após lembrar de uma das dicas do Charles, percorri o quilômetro e meio (roughly...) até a lagoa masculina, um pequeno reduto fechado com muros de aluminio onde só entravam homens. Lá dentro, os senhores (bem) mais velhos se expunham alegremente ao ridículo saltando do trampolim e tentando fazer piruetas. Arrisquei meus enferrujados passos da época dos saltos ornamentais, mas a táboa era muito dura para conseguir qualquer coisa decente. Me contentei em sentar em uma das bóias de madeira que flutuavam pelo lago e observar a comédia. Eram senhores muito divertidos, despretensiosos. Terminei minha visita à lagoa masculina tentando nadar atrás de um par de cisnes, até me lembrar da bicada que levei de um deles em Trieste. Animais belos, mas violentos.
Saindo da lagoa, ao lado do vestiário, havia uma área onde os homens podiam tomar sol nus. Mas a vista por lá era menos inspiradora...
Saindo da lagoa masculina, resolvi andar pelo parque. Tinha tirado o dia para isso. Hampstead Heath abria-se diante de mim com campos de gramado alto dourado na luz da tarde e sementes de dente-de-leão flutuando ao vento. Os caminhos de terra me traziam uma nostalgia da fazenda e havia uma espécie de secura, um amarelado no ar, que me lembrava muito do lugar de minha avó. As árvores se juntavam em aglomerados que faziam uma sombra gostosa, mas havia várias daquelas árvores solitárias, projetando sombras pontuais sobre bancos de madeira. Caminhei pelo gramado alto e encontrei no caminho os casais apaixonados, deitados na grama e escondidos como tigres caçando. O sol se escondia no horizonte, acabando com o calor daquele dia e trazendo aquela melancolia gostosa e uma carência de alguém que... deixa pra lá.
Terminei o dia sentando no gramado perto de uma das lagoas e escrevendo no caderno os planos para minhas últimas semanas londrinas. O tempo é curto e ainda tenho algumas coisas pra fazer por aqui. Mas já consigo sentir o chamado da Tartaruga, me dizendo para levantar, sair da rotina e botar o pé na estrada novamente.
De fato, eu devia ter vindo a Hampstead Heath antes. Se tivesse conhecido o parque no começo dos meus meses londrinos, teria passado vários dos meus dias livres por lá.
Saí da estação de metrô de Hampstead Heath e dei de cara com o porque. Eram árvores enormes, que davam aquela impressão de filme de fantasia, de que você acaba de entrar em um mundo estranho, onde as proporções são diferentes e você é minúsculo. O parque continuava por quilômetros adentro, com mais de dez lagoas, várias delas abertas para natação. Não perdi tempo, e fui direto para a lagoa mista. A água tinha deliciosos 25 graus, o suficiente para refrescar sem congelar. A lagoa parecia não ter fundo e meu corpo sumia em uma água que permitia um metro de visibilidade, escurecendo depois.
Curioso após lembrar de uma das dicas do Charles, percorri o quilômetro e meio (roughly...) até a lagoa masculina, um pequeno reduto fechado com muros de aluminio onde só entravam homens. Lá dentro, os senhores (bem) mais velhos se expunham alegremente ao ridículo saltando do trampolim e tentando fazer piruetas. Arrisquei meus enferrujados passos da época dos saltos ornamentais, mas a táboa era muito dura para conseguir qualquer coisa decente. Me contentei em sentar em uma das bóias de madeira que flutuavam pelo lago e observar a comédia. Eram senhores muito divertidos, despretensiosos. Terminei minha visita à lagoa masculina tentando nadar atrás de um par de cisnes, até me lembrar da bicada que levei de um deles em Trieste. Animais belos, mas violentos.
Saindo da lagoa, ao lado do vestiário, havia uma área onde os homens podiam tomar sol nus. Mas a vista por lá era menos inspiradora...
Saindo da lagoa masculina, resolvi andar pelo parque. Tinha tirado o dia para isso. Hampstead Heath abria-se diante de mim com campos de gramado alto dourado na luz da tarde e sementes de dente-de-leão flutuando ao vento. Os caminhos de terra me traziam uma nostalgia da fazenda e havia uma espécie de secura, um amarelado no ar, que me lembrava muito do lugar de minha avó. As árvores se juntavam em aglomerados que faziam uma sombra gostosa, mas havia várias daquelas árvores solitárias, projetando sombras pontuais sobre bancos de madeira. Caminhei pelo gramado alto e encontrei no caminho os casais apaixonados, deitados na grama e escondidos como tigres caçando. O sol se escondia no horizonte, acabando com o calor daquele dia e trazendo aquela melancolia gostosa e uma carência de alguém que... deixa pra lá.
Terminei o dia sentando no gramado perto de uma das lagoas e escrevendo no caderno os planos para minhas últimas semanas londrinas. O tempo é curto e ainda tenho algumas coisas pra fazer por aqui. Mas já consigo sentir o chamado da Tartaruga, me dizendo para levantar, sair da rotina e botar o pé na estrada novamente.
segunda-feira, julho 24, 2006
Na época do Vestibular eu tinha essa idéia fixa de que, depois da prova e uma vez que eu tivesse a confirmação do meu ingresso na faculdade, eu iria levar todos os livros do cursinho para a fazenda e queimar tudo em uma enorme fogueira sob o céu noturno. Despejaria nela toda minha raiva pelo sistema ridículo de avaliação e me sentiria liberado, vingado. A fogueira, é claro, nunca aconteceu. Dei um fim mais nobre aos livros, porque acredito que conhecimento deve ser respeitado e que queimar livros é um ato de pura heresia, e doei tudo para a biblioteca do prédio, para vizinhos que estivessem passando pela mesma situação.
Hoje passei as roupas que tinham secado no varal. E me dei conta de que eu provavelmente estava passando pela última vez as camisetas que usei no pub. A regra por lá era que todos deveriam usar camisetas brancas ou pretas. Era até cômico porque houve uma época na minha vida em que eu só usava isso. Mas recentemente, pela influência de uma namorada que adorava cores e de uma mãe que detestava vestes soturnas, tinha começado a comprar camisetas coloridas. Tinha até começado a gostar da coisa (mas se me perguntarem, eu nego...). Resultado: cheguei em Londres com apenas uma camiseta preta e duas brancas dentre as dez que levei. Agora, depois de três meses de levar e trazer pratos, mostarda, vinho, vinagre e produtos de limpeza, elas estavam um caco. Manchas que já não se abalavam frente ao sabão em pó. Cicatrizes dos meus erros como garçom iniciante. Uma camiseta preta que já podia ser considerada cinza.
Flash de videoclipe na minha cabeça: eu chegando em casa no Brasil e jogando as camisetas diretamente no lixo da área de serviço de casa. Não satisfeito, eu ainda tiraria uma foto do feito, pra me lembrar que fiz. E me sentiria igualmente liberado, vingado. Porque fui ao mesmo tempo vítima e aprendiz do pub que, assim como o Vestibular, marcou minha vida e me ensinou muita coisa, mas doeu e traumatizou.
Hoje passei as roupas que tinham secado no varal. E me dei conta de que eu provavelmente estava passando pela última vez as camisetas que usei no pub. A regra por lá era que todos deveriam usar camisetas brancas ou pretas. Era até cômico porque houve uma época na minha vida em que eu só usava isso. Mas recentemente, pela influência de uma namorada que adorava cores e de uma mãe que detestava vestes soturnas, tinha começado a comprar camisetas coloridas. Tinha até começado a gostar da coisa (mas se me perguntarem, eu nego...). Resultado: cheguei em Londres com apenas uma camiseta preta e duas brancas dentre as dez que levei. Agora, depois de três meses de levar e trazer pratos, mostarda, vinho, vinagre e produtos de limpeza, elas estavam um caco. Manchas que já não se abalavam frente ao sabão em pó. Cicatrizes dos meus erros como garçom iniciante. Uma camiseta preta que já podia ser considerada cinza.
Flash de videoclipe na minha cabeça: eu chegando em casa no Brasil e jogando as camisetas diretamente no lixo da área de serviço de casa. Não satisfeito, eu ainda tiraria uma foto do feito, pra me lembrar que fiz. E me sentiria igualmente liberado, vingado. Porque fui ao mesmo tempo vítima e aprendiz do pub que, assim como o Vestibular, marcou minha vida e me ensinou muita coisa, mas doeu e traumatizou.
I want to be Ferris Bueler
Saí do pub no domingo e fui direto para Greenwich. Queria ter falado com Anna e os amigos de Faride, mas não deu.
O festival de cinema patrocinado pela Stela Artois estava em seu último dia, com uma atração especial: a exibição de Ferris Bueler's day off, clássico dos anos 80, em um telão gigantesco no meio do parque, a céu aberto. Fiquei sabendo do festival no dia em que estive no Ginglik: os mesmos organizadores dos curtas-metragens que vi naquele dia tinham uma tenda no festival. Passei uma boa meia hora por lá,vendo curtas gostosos. Dentre eles, um onde um rapaz com o rosto molhado tira pétala por pétala de uma margarida, num "bem-me-quer, mal-me-quer", enquanto se lembra de todas as vezes que vez algo certo para a garota que amava, e de todas as outras (em muito maior número) em que pisou na bola. Flashes metafóricos dele mastigando aquele botão de margarida inteiro, simbolizando a agonia dele por ter feito tanta besteira. O curta culmina com a cena onde eles estão sentados na mesa de um pub e ela joga o copo de cerveja na cara dele e sai furiosa. Lindo. Detalhe: o filme não tinha som. Ao lado da tela, bem ao estilo dos cinemas antigos, um senhor tocava teclado fazendo um acompanhamento.
Não era a única atração interessante no festival. Em um outro lugar, um par encenava em um palco uma história de film noir, com muitas folias circenses misturadas e uma dose de teatro mambembe. No palco maior, a galera do Guilty Pleasures levantava a multidão: três rapazes meio obesos, vestindo nada mais do que sungas, camisetas apertadas e faixas de ginástica na cabeça e nos pulsos, dançando frenéticamente em passos tirados do Flashdance, em uma sátira grotescamente hilária.
Quando o sol se pôs (prontamente às 9:00 da noite...), eles anunciaram o começo do filme. Ainda dava pra ver as nuvens em um céu de um azul acinzentado final. Me deitei no gramado, a mochila servindo de travesseiro, e contemplei o rosto colossal do Matthew Broderick eventualmente deixando de falar com os personagens do filme para se dirigir aos expectadores.
A experiência era deliciosa. Os ingleses faziam uma zona no meio do filme, comentando em voz alta lá de trás do gramado, rindo, se levantando e dançando ao som da trilha sonora...
Quando Ferris começou a cantar no meio do desfile pelo centro de Nova Iorque naquela cena climática, o cé já estava coberto de estrelas. Por um momento perdi a atenção no filme para absorver aquilo. As luzes piscantes dos aviões aguçando minha vontade de que o tempo passasse logo para ser eu dentro de um daqueles. E aqui na terra, os ingleses dançantes aguçavam outro sentimento dentro de mim. Algo que dizia "ah, então é isso! É isso que eu devo procurar viver quando eu voltar!". Porque eu sabia que podia existir paraíso similar mais perto de casa.
A Itália tinha me ensinado o sentido de religião.
Londres me ensinou o sentido do mundano, do viver.
[T + 5M 30D {ETA: 15D}]
O festival de cinema patrocinado pela Stela Artois estava em seu último dia, com uma atração especial: a exibição de Ferris Bueler's day off, clássico dos anos 80, em um telão gigantesco no meio do parque, a céu aberto. Fiquei sabendo do festival no dia em que estive no Ginglik: os mesmos organizadores dos curtas-metragens que vi naquele dia tinham uma tenda no festival. Passei uma boa meia hora por lá,vendo curtas gostosos. Dentre eles, um onde um rapaz com o rosto molhado tira pétala por pétala de uma margarida, num "bem-me-quer, mal-me-quer", enquanto se lembra de todas as vezes que vez algo certo para a garota que amava, e de todas as outras (em muito maior número) em que pisou na bola. Flashes metafóricos dele mastigando aquele botão de margarida inteiro, simbolizando a agonia dele por ter feito tanta besteira. O curta culmina com a cena onde eles estão sentados na mesa de um pub e ela joga o copo de cerveja na cara dele e sai furiosa. Lindo. Detalhe: o filme não tinha som. Ao lado da tela, bem ao estilo dos cinemas antigos, um senhor tocava teclado fazendo um acompanhamento.
Não era a única atração interessante no festival. Em um outro lugar, um par encenava em um palco uma história de film noir, com muitas folias circenses misturadas e uma dose de teatro mambembe. No palco maior, a galera do Guilty Pleasures levantava a multidão: três rapazes meio obesos, vestindo nada mais do que sungas, camisetas apertadas e faixas de ginástica na cabeça e nos pulsos, dançando frenéticamente em passos tirados do Flashdance, em uma sátira grotescamente hilária.
Quando o sol se pôs (prontamente às 9:00 da noite...), eles anunciaram o começo do filme. Ainda dava pra ver as nuvens em um céu de um azul acinzentado final. Me deitei no gramado, a mochila servindo de travesseiro, e contemplei o rosto colossal do Matthew Broderick eventualmente deixando de falar com os personagens do filme para se dirigir aos expectadores.
A experiência era deliciosa. Os ingleses faziam uma zona no meio do filme, comentando em voz alta lá de trás do gramado, rindo, se levantando e dançando ao som da trilha sonora...
Quando Ferris começou a cantar no meio do desfile pelo centro de Nova Iorque naquela cena climática, o cé já estava coberto de estrelas. Por um momento perdi a atenção no filme para absorver aquilo. As luzes piscantes dos aviões aguçando minha vontade de que o tempo passasse logo para ser eu dentro de um daqueles. E aqui na terra, os ingleses dançantes aguçavam outro sentimento dentro de mim. Algo que dizia "ah, então é isso! É isso que eu devo procurar viver quando eu voltar!". Porque eu sabia que podia existir paraíso similar mais perto de casa.
A Itália tinha me ensinado o sentido de religião.
Londres me ensinou o sentido do mundano, do viver.
[T + 5M 30D {ETA: 15D}]
sábado, julho 22, 2006
sexta-feira, julho 21, 2006
"You're leaving?" perguntou Naomi. Me fingi de burro: disse que sim, que só estava fazendo o turno do almoço. O olhar dela me perguntou de novo. E então aceitei o fato de que a notícia já estava correndo. Entre a entrega das bebidas para a mesa G1 e a espera dos pratos da G3, ela me perguntou porque. E nesse ponto eu tinha percebido que o que tinha começado como desculpa esfarrapada para largar o trabalho estava começando a me fazer pensar nas verdadeiras razõoes de deixar Londres, o pub e tudo. Não esperava que Nim (apelido punk carinhoso) mostrasse qualquer esboço de reação frente à, notícia. Ela era uma garota enorme, dura, fria, mas usando aquela máscara de bom humor e bobeira que lhe garatia a amizade dos clientes. Lidava comigo com uma espécie estranha de amizade/indiferença cautelosa, tipo de coisa à qual eu já estava acostumado: Dora, minha orientadora do curso de artes, era muito assim. No fundo (beeeeem no fundo) dava pra ver, claro o suficiente até para um tapado como eu perceber, que ela estava um pouco entristecida com a notícia. Entristecida como Mary estivera na Itália. Porque eu provavelmente não ia fazer nenhuma diferença na vida dela, no andamento do pub (que aliás, ficaria até melhor sem os meus erros...) e seria esquecido rapidamente, mas eu era such a nice guy...
Terminado o turno, O'Neil me chamou para tomar uma cerveja, sair por aí, conhecer os amigos dele. Sendo o chef no comando da cozinha, ele estava fazendo o horário da galera da cozinha para a próxima semana. E pela primeira vez percebi que o nome dele era Anil. "I'm not irish, am I?" Claramente não: a pele escura e o rosto me diziam algo como indiano. Seu nome, me dizia, significava "uma chama azul ardente". Senti uma incoerência ao dizer-lhe que o meu nome e sobrenome significavam "um leão de pedra". Eu era mole e lerdo e inofensivo demais para ser qualquer uma das duas coisas.
Sai com Anil, este novo personagem. Ele era de fato diferente fora da cozinha. Mais vulnerável, mais "normal". Mais alto também. Vestia uma bizarra camisa de stampas florais e me levava de pub em pub, passando não mais do que dez minutos em cada um, cumprimentando uma meia dúzia de pessoas em cada um e sempre bebendo. No terceiro pub, resolvi abrir o jogo. Se a notícia estava correndo, queria que entrasse na cozinha através dele. Anil teve uma reação um pouco mais passional do que Nim. Perguntou-me se era Charles que estava me mandando embora e disse que me defenderia se fosse o caso. Fez bem para mim ouvir isso. Saber que alguém se importava. Anil me levou cada vez mais ao norte, para a zona 4 onde morava, com seus prédios mais humildes, frequentadores de pub briguentos e gente querendo me oferecer qualquer entorpecente. Percebi por ali que, assim como o pub não era minha realidade, estas pessoas também eram uma coisa completamente alheia. Anil era such a nice guy, mas pertencia a um mundo desse marasmo suburbano londrino, com suas garçonetes simpáticas de short curto, seus pubs idênticos, e onde o mais interessante que podia acontecer era uma briga na saída de um deles.
Tomei o ônibus para casa, saíndo de Greenford, onde Anil morava. De repente, uma sensação boa de que daqui a algum tempo eu poderia deixar tudo isso para trás. Toda essa gente que era muito legal, mas ao mesmo tempo muito diferente de mim. Antes dessa viagem, havia sempre um desespero diante de condições insolúveis, empregos insossos, pessoas cáusticas. Porque, estando em casa, para onde você vai fugir? Aqui, eu tinha essa opção meio covarde mas extremamente liberante de simplesmente jogar tudo para o alto e parar de brincar.
Terminado o turno, O'Neil me chamou para tomar uma cerveja, sair por aí, conhecer os amigos dele. Sendo o chef no comando da cozinha, ele estava fazendo o horário da galera da cozinha para a próxima semana. E pela primeira vez percebi que o nome dele era Anil. "I'm not irish, am I?" Claramente não: a pele escura e o rosto me diziam algo como indiano. Seu nome, me dizia, significava "uma chama azul ardente". Senti uma incoerência ao dizer-lhe que o meu nome e sobrenome significavam "um leão de pedra". Eu era mole e lerdo e inofensivo demais para ser qualquer uma das duas coisas.
Sai com Anil, este novo personagem. Ele era de fato diferente fora da cozinha. Mais vulnerável, mais "normal". Mais alto também. Vestia uma bizarra camisa de stampas florais e me levava de pub em pub, passando não mais do que dez minutos em cada um, cumprimentando uma meia dúzia de pessoas em cada um e sempre bebendo. No terceiro pub, resolvi abrir o jogo. Se a notícia estava correndo, queria que entrasse na cozinha através dele. Anil teve uma reação um pouco mais passional do que Nim. Perguntou-me se era Charles que estava me mandando embora e disse que me defenderia se fosse o caso. Fez bem para mim ouvir isso. Saber que alguém se importava. Anil me levou cada vez mais ao norte, para a zona 4 onde morava, com seus prédios mais humildes, frequentadores de pub briguentos e gente querendo me oferecer qualquer entorpecente. Percebi por ali que, assim como o pub não era minha realidade, estas pessoas também eram uma coisa completamente alheia. Anil era such a nice guy, mas pertencia a um mundo desse marasmo suburbano londrino, com suas garçonetes simpáticas de short curto, seus pubs idênticos, e onde o mais interessante que podia acontecer era uma briga na saída de um deles.
Tomei o ônibus para casa, saíndo de Greenford, onde Anil morava. De repente, uma sensação boa de que daqui a algum tempo eu poderia deixar tudo isso para trás. Toda essa gente que era muito legal, mas ao mesmo tempo muito diferente de mim. Antes dessa viagem, havia sempre um desespero diante de condições insolúveis, empregos insossos, pessoas cáusticas. Porque, estando em casa, para onde você vai fugir? Aqui, eu tinha essa opção meio covarde mas extremamente liberante de simplesmente jogar tudo para o alto e parar de brincar.
quarta-feira, julho 19, 2006
Goddamn, the pusher man
Entrei no taxi junto com Charles, meu gerente brasileiro. De vez em quando, ele me oferecia uma carona para casa. Recentemente, tinha rejeitado o favor, preferindo andar pela madrugada da Acton Town adormecida. Mas hoje, entrei no taxi.
-"Charles, antes que vocês tomem a atitude drástica, tomo eu: vou precisar deixar Londres e estou saindo do trabalho".
Charles, um vampiro em si, com uma barba e postura tão similares às minhas que o pessoal do pub acreditava sermos parentes, não pareceu muito surpreso. Aliás, não pareceu nem muito decepcionado.
Fato é que eu não era o melhor dos garçons do lugar. Sim, eu tinha ouvido nos dias anteriores Naomi murmurar ao fundo que as gorjetas de clientes entretidos nunca tinham sido tão altas. Mas e daí? Eu conseguia entreter os clientes, mas ainda era o garçon mais lerdo do lugar. Ou seja, obtinha resultados, mas às custas de muito stress sobre os meus colegas. Naomi, Hodi, o pessoal que me queria bem, todos diziam que com o tempo eu pegaria velocidade. Mas tempo era uma coisa que os outros gerentes além do Charlie não estavam querendo me dar e eu estava sentindo, assim como sentira na agência de publicidade, a iminência de ser despedido. Então tomei a dianteira.
Se vocês têm acompanhado estas linhas, devem perceber que não foi uma decisão dificil de tomar. Aqui não era meu lugar. Eu não falava de comida bebendo uma pinta de ale após cada turno com a mesma paixão dos outros. Eu não discutia a procedência do peixe que estávamos servindo. Eu não tinha qualquer interesse em adquirir velocidade com o tempo, suportando a fúria dos colegas, a humilhação dos chefs, os olhares insatisfeitos dos gerentes.
Dei uma desculpa qualquer. Aleguei "coisas" (assim, indefinido) acontecendo no Brasil, circunstâncias que me forçavam a voltar. Mas Charlie não era ingênuo assim. Ele sabia. Sabia que eu tinha jogado a toalha, desistido de lutar. Que eu estava correndo de volta para o Brasil, para uma realidade minha, porque era mais fácil. Eu esperava que ele soubesse ao menos que isso faria muito bem para eles, assim como para mim.
Pediu apenas que eu fizesse mais a ultima semana de Julho. Enquanto eles procuravam outra pessoa. Lembrei do horário: vários turnos concentrados no meio da semana, a maioria call shifts (eu deveria ligar pra saber se eles precisariam de mim naquele turno ou não). Tudo bem. Mais dinheiro no bolso.
E claro, mais alguns dias de inferno gastronômico.
Eu estava mesmo viciado em libras esterlinas e Charlie era o meu traficante: goddamn, the pusher man.
-"Charles, antes que vocês tomem a atitude drástica, tomo eu: vou precisar deixar Londres e estou saindo do trabalho".
Charles, um vampiro em si, com uma barba e postura tão similares às minhas que o pessoal do pub acreditava sermos parentes, não pareceu muito surpreso. Aliás, não pareceu nem muito decepcionado.
Fato é que eu não era o melhor dos garçons do lugar. Sim, eu tinha ouvido nos dias anteriores Naomi murmurar ao fundo que as gorjetas de clientes entretidos nunca tinham sido tão altas. Mas e daí? Eu conseguia entreter os clientes, mas ainda era o garçon mais lerdo do lugar. Ou seja, obtinha resultados, mas às custas de muito stress sobre os meus colegas. Naomi, Hodi, o pessoal que me queria bem, todos diziam que com o tempo eu pegaria velocidade. Mas tempo era uma coisa que os outros gerentes além do Charlie não estavam querendo me dar e eu estava sentindo, assim como sentira na agência de publicidade, a iminência de ser despedido. Então tomei a dianteira.
Se vocês têm acompanhado estas linhas, devem perceber que não foi uma decisão dificil de tomar. Aqui não era meu lugar. Eu não falava de comida bebendo uma pinta de ale após cada turno com a mesma paixão dos outros. Eu não discutia a procedência do peixe que estávamos servindo. Eu não tinha qualquer interesse em adquirir velocidade com o tempo, suportando a fúria dos colegas, a humilhação dos chefs, os olhares insatisfeitos dos gerentes.
Dei uma desculpa qualquer. Aleguei "coisas" (assim, indefinido) acontecendo no Brasil, circunstâncias que me forçavam a voltar. Mas Charlie não era ingênuo assim. Ele sabia. Sabia que eu tinha jogado a toalha, desistido de lutar. Que eu estava correndo de volta para o Brasil, para uma realidade minha, porque era mais fácil. Eu esperava que ele soubesse ao menos que isso faria muito bem para eles, assim como para mim.
Pediu apenas que eu fizesse mais a ultima semana de Julho. Enquanto eles procuravam outra pessoa. Lembrei do horário: vários turnos concentrados no meio da semana, a maioria call shifts (eu deveria ligar pra saber se eles precisariam de mim naquele turno ou não). Tudo bem. Mais dinheiro no bolso.
E claro, mais alguns dias de inferno gastronômico.
Eu estava mesmo viciado em libras esterlinas e Charlie era o meu traficante: goddamn, the pusher man.
The Dark Tower
Meia semana de sofrimento no pub e depois, liberdade.
Enquanto essa liberdade não chega, vou anestesiando a minha angústia diária de horas que não passam lendo um livro do Stephen King. Daqueles que não trazem nenhum crescimento pessoal, nenhuma grande filosofia e nem o status de ler uma das "grandes obras da história da literatura". Quando muito, suscitam alguma emoção, mas é sempre daquelas de filme americano: a adrenalina de um tiroteio, a pena pela morte de um personagem, a maravilha diante da relíquia encontrada. No entanto, esses livros são gostosos e fáceis de ler. Já devorei metade desde que terminei o livro de Melissa Pennerello, que era metade da grossura.
Trata-se de The Dark Tower II: The Drawing of the Three, continuação da saga que King vem escrevendo hámais de dez anos, paralelamente aos outros livros.
Nela, o cowboy Roland of Gilead, pertencente a um decadente mundo de fantasia que parece ser uma mistura do faroeste americano com pitadas de detalhes medievais e muitas criaturas estranhas, percorre o deserto atrás da Torre, que nem ele sabe como, mas poderia restaurar seu mundo à sua grandeza anterior. No caminho, ele encontra pessoas que de alguma forma passaram do nosso mundo para o dele, se maravilha com os artefatos, medicamentos e cultura, e percebe que a Torre parece ser algo que mantem todas as realidades e todos os tempos unidos e coesos.
Ao contrário do livro que o Lala's me deu para ler durante a viagem, não há muito com o que se identificar neste livro. Simbolicamente, talvez haja alguma semelhança: há uma viagem e uma busca por algo que, apesar de incompreensível, deverá supostamente mudar a vida do viajante para melhor. Uma busca por um Santo Graal. Mas os personagens e as situações diferem tanto que não há como traçar paralelos.
Que bom.
Me permite voltar para casa ou tomar o ônibus para o centro e realmente me desligar da minha realidade. Meus dias têm sido passados atraversando portas entre dimensões, lutando contra monstruosidades crustáceas e de vez em quando regressando para esta realidade, onde um rapaz espera o tempo passar.
Enquanto essa liberdade não chega, vou anestesiando a minha angústia diária de horas que não passam lendo um livro do Stephen King. Daqueles que não trazem nenhum crescimento pessoal, nenhuma grande filosofia e nem o status de ler uma das "grandes obras da história da literatura". Quando muito, suscitam alguma emoção, mas é sempre daquelas de filme americano: a adrenalina de um tiroteio, a pena pela morte de um personagem, a maravilha diante da relíquia encontrada. No entanto, esses livros são gostosos e fáceis de ler. Já devorei metade desde que terminei o livro de Melissa Pennerello, que era metade da grossura.
Trata-se de The Dark Tower II: The Drawing of the Three, continuação da saga que King vem escrevendo hámais de dez anos, paralelamente aos outros livros.
Nela, o cowboy Roland of Gilead, pertencente a um decadente mundo de fantasia que parece ser uma mistura do faroeste americano com pitadas de detalhes medievais e muitas criaturas estranhas, percorre o deserto atrás da Torre, que nem ele sabe como, mas poderia restaurar seu mundo à sua grandeza anterior. No caminho, ele encontra pessoas que de alguma forma passaram do nosso mundo para o dele, se maravilha com os artefatos, medicamentos e cultura, e percebe que a Torre parece ser algo que mantem todas as realidades e todos os tempos unidos e coesos.
Ao contrário do livro que o Lala's me deu para ler durante a viagem, não há muito com o que se identificar neste livro. Simbolicamente, talvez haja alguma semelhança: há uma viagem e uma busca por algo que, apesar de incompreensível, deverá supostamente mudar a vida do viajante para melhor. Uma busca por um Santo Graal. Mas os personagens e as situações diferem tanto que não há como traçar paralelos.
Que bom.
Me permite voltar para casa ou tomar o ônibus para o centro e realmente me desligar da minha realidade. Meus dias têm sido passados atraversando portas entre dimensões, lutando contra monstruosidades crustáceas e de vez em quando regressando para esta realidade, onde um rapaz espera o tempo passar.
segunda-feira, julho 17, 2006
Os chefs
Os chefs do pub merecem um post só sobre eles.
São gente que realmente se interessa e constrói uma vida em cima daquilo, da comida. Na hora após os turnos, quando todos nos sentamos pra beber e relaxar, jogar conversa fora, eles conversam uns com os outros sobre... comida. A textura específica daquele molho, o gosto daquela erva, a qualidade do peixe deste ou daquele fornecedor. Conversam sobre comida com a tenacidade e paixão com a qual eu poderia conversar sobre arte, sobre forma, cor e textura, sobre técnica. Percebo obviamente que eu não tenho essa mesma paixão e que este é um mundo no qual eu estou apenas temporariamente mesmo. Mas é bonito de se ver.
Também semelhante ao mundo da arte, os chefs têm seu próprio jeito de educar os novatos. A coisa é à base de muita humilhação e truculência, assim como aquela que eu tive que aguentar durante quatro anos de curso de artes até perceber que eu não era o próximo Da Vinci e que ia ter que me esforçar se quizesse chegar a algum lugar. E do mesmo jeito que aguentei tudo aquilo, aguento esta violência nova com a mesma paciência pacifista.
Chega a ser até fake o modo como alguns deles me insultam. Quer dizer, da pra notar a diferença entre um ogro como o Abdoul comentando sobre a minha incompetência e um cara bonzinho como o Simon tentando me insultar mas não passando muita credibilidade. Abdoul o faz porque ele não tem motivo pra gostar de mim mesmo. Simon o faz porque disseram pra ele fazer e que me faria bem no final. Mas ele me insulta com a mesma hipocrisia com a qual eu finjo ser um garçom.
São gente que realmente se interessa e constrói uma vida em cima daquilo, da comida. Na hora após os turnos, quando todos nos sentamos pra beber e relaxar, jogar conversa fora, eles conversam uns com os outros sobre... comida. A textura específica daquele molho, o gosto daquela erva, a qualidade do peixe deste ou daquele fornecedor. Conversam sobre comida com a tenacidade e paixão com a qual eu poderia conversar sobre arte, sobre forma, cor e textura, sobre técnica. Percebo obviamente que eu não tenho essa mesma paixão e que este é um mundo no qual eu estou apenas temporariamente mesmo. Mas é bonito de se ver.
Também semelhante ao mundo da arte, os chefs têm seu próprio jeito de educar os novatos. A coisa é à base de muita humilhação e truculência, assim como aquela que eu tive que aguentar durante quatro anos de curso de artes até perceber que eu não era o próximo Da Vinci e que ia ter que me esforçar se quizesse chegar a algum lugar. E do mesmo jeito que aguentei tudo aquilo, aguento esta violência nova com a mesma paciência pacifista.
Chega a ser até fake o modo como alguns deles me insultam. Quer dizer, da pra notar a diferença entre um ogro como o Abdoul comentando sobre a minha incompetência e um cara bonzinho como o Simon tentando me insultar mas não passando muita credibilidade. Abdoul o faz porque ele não tem motivo pra gostar de mim mesmo. Simon o faz porque disseram pra ele fazer e que me faria bem no final. Mas ele me insulta com a mesma hipocrisia com a qual eu finjo ser um garçom.
Foi um turno maravilhoso.
Sabe, o que eu realmente gosto do trabalho no pub, e espero encontrar em algum trabalho mais na minha área em São Paulo, é que tem noites em que eu saio de lá me sentindo uma merda. E são períodos inteiros disso. Eu faço besteira e as minhas besteiras enfurecem meus colegas de trabalho e incomodam os clientes. Mas daí acontece um período de uns quantos turnos seguidos em que tudo sai à perfeição. Eu caminho para casa e me sinto incrível, a auto-estima reluzente me implora por mais um turno.
Hoje servi uma mesa de 19 pessoas e uma de 13. Ao mesmo tempo. As maiores desde que comecei. Hodi me ajudou e a comunicação entre nós foi perfeita, quase telepática. Quando eles sairam do restaurante, ela me abraçou e disse que eu tinha sido maravilhoso. Minutos depois eu estava recebendo a minha seção favorita do restaurante para servir, um grupo de umas seis mesas perto da janela, as melhores da casa, na minha opinião. Mantive um par de garotas entretidas por boas duas horas tentando adivinhar de onde eu era. Na outra mesa, um cliente que eu servira algumas semanas atrás me reconheceu, até perguntou meu nome enquanto eu abria a garrafa de vinho branco. Para um trio de senhoras que gostavam de comida picante, recomendei as salsichas árabes como entrada, arrematando com um peixe com molho mais suave para aliviar a pimenta depois. O rapaz que me reconheceu se despediu no fim do turno com um aperto de mão: nunca tinha recebido um aperto de mão de um cliente por estas bandas... As garotas acertaram minha origem na quarta tentativa, e se despediram dizendo que a comida foi maravilhosa e o serviço foi fantástico. Deixaram uma boa gorjeta para provar.
Meus clientes são tudo. Os coelgas que se danem, mas eu realmente me importo com os meus clientes. Pela duração do turno, eles são o meu objetivo, minha razão de ser. Não me importo que eles mudem de idéia sobre o prato, levem meia hora pra escolher o vinho, façam cinquenta perguntas sobre o molho da carne. Realmente não me importo. Eu estou lá para isso, e se eu não posso fazer isso ou me sinto incomodado de fazê-lo, pra que é que eu sirvo?
Turnos assim me deixam querendo mais. Me fazem andar para casa, pelos quase dois quilômetros da Pope's Lane, flutuando alguns centímetros acima do chão, querendo outro turno amanhã. Andando tarde da noite ao lado das casas londrinas idênticas umas às outras, no silêncio Letting the Cables Sleep, uma lua brilhando mais do que a iluminação pública, sem querer que aqueles quilômetros acabem.
Sabe, o que eu realmente gosto do trabalho no pub, e espero encontrar em algum trabalho mais na minha área em São Paulo, é que tem noites em que eu saio de lá me sentindo uma merda. E são períodos inteiros disso. Eu faço besteira e as minhas besteiras enfurecem meus colegas de trabalho e incomodam os clientes. Mas daí acontece um período de uns quantos turnos seguidos em que tudo sai à perfeição. Eu caminho para casa e me sinto incrível, a auto-estima reluzente me implora por mais um turno.
Hoje servi uma mesa de 19 pessoas e uma de 13. Ao mesmo tempo. As maiores desde que comecei. Hodi me ajudou e a comunicação entre nós foi perfeita, quase telepática. Quando eles sairam do restaurante, ela me abraçou e disse que eu tinha sido maravilhoso. Minutos depois eu estava recebendo a minha seção favorita do restaurante para servir, um grupo de umas seis mesas perto da janela, as melhores da casa, na minha opinião. Mantive um par de garotas entretidas por boas duas horas tentando adivinhar de onde eu era. Na outra mesa, um cliente que eu servira algumas semanas atrás me reconheceu, até perguntou meu nome enquanto eu abria a garrafa de vinho branco. Para um trio de senhoras que gostavam de comida picante, recomendei as salsichas árabes como entrada, arrematando com um peixe com molho mais suave para aliviar a pimenta depois. O rapaz que me reconheceu se despediu no fim do turno com um aperto de mão: nunca tinha recebido um aperto de mão de um cliente por estas bandas... As garotas acertaram minha origem na quarta tentativa, e se despediram dizendo que a comida foi maravilhosa e o serviço foi fantástico. Deixaram uma boa gorjeta para provar.
Meus clientes são tudo. Os coelgas que se danem, mas eu realmente me importo com os meus clientes. Pela duração do turno, eles são o meu objetivo, minha razão de ser. Não me importo que eles mudem de idéia sobre o prato, levem meia hora pra escolher o vinho, façam cinquenta perguntas sobre o molho da carne. Realmente não me importo. Eu estou lá para isso, e se eu não posso fazer isso ou me sinto incomodado de fazê-lo, pra que é que eu sirvo?
Turnos assim me deixam querendo mais. Me fazem andar para casa, pelos quase dois quilômetros da Pope's Lane, flutuando alguns centímetros acima do chão, querendo outro turno amanhã. Andando tarde da noite ao lado das casas londrinas idênticas umas às outras, no silêncio Letting the Cables Sleep, uma lua brilhando mais do que a iluminação pública, sem querer que aqueles quilômetros acabem.
O fim do livro de Melissa Pennerello me deixou insatisfeito. Esperava mais. Esperava talvez uma daquelas revelações catárdicas sobre a natureza humana ou um fim que me emocionasse como o final do livro do Nabokov. Mas foi um daqueles finais que vem do nada, sem vestígios anteriores, e amputa o fluxo da história.
E no entanto, o livro me deixou perguntando durante quase todo um dia o que EU estou procurando? Como é o amor no qual eu acredito e o que eu estou procurando hoje em uma pessoa. Foi-se o tempo em que isso podia ser resumido e simplificado em uma lista de qualidades físicas. Hoje o que eu procuro em alguém é muito mais inefável e talvez incompreensível até para mim mesmo. E nem vou tentar compreender e definir. Porque, como aprendi, as pessoas não gostam que se defina e explique o amor. Explicar é muito próximo de simplificar e banalizar. Embora eu goste de fazer isso, é quase uma heresia pra quem lê estas linhas.
Mas posso dizer que, assim como Melissa (e muitas mulheres) procuram não serem tratadas como objetos sexuais, existe algo semelhante na minha busca. Um querer ser visto como algo mais do que um mero pedaço de carne (ou osso, no meu caso...) ou como um mero animal que só pensa em sexo [.].
E no entanto, o livro me deixou perguntando durante quase todo um dia o que EU estou procurando? Como é o amor no qual eu acredito e o que eu estou procurando hoje em uma pessoa. Foi-se o tempo em que isso podia ser resumido e simplificado em uma lista de qualidades físicas. Hoje o que eu procuro em alguém é muito mais inefável e talvez incompreensível até para mim mesmo. E nem vou tentar compreender e definir. Porque, como aprendi, as pessoas não gostam que se defina e explique o amor. Explicar é muito próximo de simplificar e banalizar. Embora eu goste de fazer isso, é quase uma heresia pra quem lê estas linhas.
Mas posso dizer que, assim como Melissa (e muitas mulheres) procuram não serem tratadas como objetos sexuais, existe algo semelhante na minha busca. Um querer ser visto como algo mais do que um mero pedaço de carne (ou osso, no meu caso...) ou como um mero animal que só pensa em sexo [.].
Confirmação
Ainda bem que fui recebido por novos funcionários no guichê da Varig. Não sei com que cara teria aparecido pela quarta vez para importunar novamente a garota de aparência sueca que me atendeu das outras vezes...
Em todo caso, a mudança aconteceu de forma suave, sem problemas. Como a linha Milão - São Paulo foi cancelada e os vôos realmente pararam, eles me trocaram para um vôo partindo de Londres sem custos adicionais, cortesia da falência da empresa.
Mas não se empolguem... Apesar de tudo, a data da minha volta não mudou grande coisa: do dia 8 de Agosto, passo para o dia 7. Saio de Londres às 22:00, chegando em São Paulo provavelmente lá pelas 10 da manhã do dia 8.
Outras coisas parecem estar funcionando a meu favor. Frasier e Hellen tinham passado quatro dias fora, em um festival, e chegaram em casa hoje apenas para trocar a bagagem e cair fora, rumo a Budapeste, onde ficarão até sexta, deixando-me apenas com a compania mais suave de Sam e a ausência perene de Max, nosso novo companheiro de casa, um inglês boa pinta que quase nunca aparece.
Meu único problema atual é lidar com os turnos do pub, que se tornam cada vez mais insuportáveis. Hold on... Apenas mais uma semana de inferno. One more mile.
E o que fazer com as duas semanas seguintes, antes da minha partida? A primeira será passada resolvendo pequenas picuinhas de viagem, fazedo malas, preparativos e contatos, vendo o que me falta ver de Londres. Quanto à segunda... Estou me coçando para talvez ir realmente fazer aquela viagem para a Itália, mesmo que em um versão lite (na grafia moderna, dos softwares...) de uns três dias. Gastaria metade do dinheiro, talvez até menos. Mas ao menos viveria um epílogo digno para esta viagem.
Vocês ainda estão me acompanhando ou já morreram de tédio depois que cheguei neste Waiting Place?
[T + 23D {ETA: 22D}]
Em todo caso, a mudança aconteceu de forma suave, sem problemas. Como a linha Milão - São Paulo foi cancelada e os vôos realmente pararam, eles me trocaram para um vôo partindo de Londres sem custos adicionais, cortesia da falência da empresa.
Mas não se empolguem... Apesar de tudo, a data da minha volta não mudou grande coisa: do dia 8 de Agosto, passo para o dia 7. Saio de Londres às 22:00, chegando em São Paulo provavelmente lá pelas 10 da manhã do dia 8.
Outras coisas parecem estar funcionando a meu favor. Frasier e Hellen tinham passado quatro dias fora, em um festival, e chegaram em casa hoje apenas para trocar a bagagem e cair fora, rumo a Budapeste, onde ficarão até sexta, deixando-me apenas com a compania mais suave de Sam e a ausência perene de Max, nosso novo companheiro de casa, um inglês boa pinta que quase nunca aparece.
Meu único problema atual é lidar com os turnos do pub, que se tornam cada vez mais insuportáveis. Hold on... Apenas mais uma semana de inferno. One more mile.
E o que fazer com as duas semanas seguintes, antes da minha partida? A primeira será passada resolvendo pequenas picuinhas de viagem, fazedo malas, preparativos e contatos, vendo o que me falta ver de Londres. Quanto à segunda... Estou me coçando para talvez ir realmente fazer aquela viagem para a Itália, mesmo que em um versão lite (na grafia moderna, dos softwares...) de uns três dias. Gastaria metade do dinheiro, talvez até menos. Mas ao menos viveria um epílogo digno para esta viagem.
Vocês ainda estão me acompanhando ou já morreram de tédio depois que cheguei neste Waiting Place?
[T + 23D {ETA: 22D}]
domingo, julho 16, 2006
Intervenção
O plano era fazer uma volta épica pela Itália. Eu passaria por cada uma das cidades que visitei (excessão feita a Trieste, porque ficaria muito absurdamente fora de mão e caro), fazendo pequenos gestos, pequenas coisinhas simbólicas que gostaria de fazer.
• Em Milão, passaria uma última noite na casa do Sr. Zeller, para me despedir.
• Indo direto para Perugia, entraria no Duomo e ofereceria uma prece. Apesar de não acreditar muito mais na religião católica, pedi proteção nos meus primeiros dias por lá e meus demônios internos me deixaram em paz durante toda a viagem. Queria também rever minha turma, as Graças inglesas, Anne. Me despediria dos Seppilli e de outros amigos de minha avó, assim como dos professores.
• Em Roma, veria finalmente a Sistina, me despedindo depois dos Ascarelli.
• Iria a Firenze para me despedir de Michelle acima de tudo. Mas também para tirar a foto da cabeça de leão na porta do batistério. Aquela que era a tela do meu celular, e que perdi quando mandei o maldito para concertar.
• Passaria finalmente em Arezzo, pra entender o que tanto queria me dizer a coincidência.
• Voltaria então para Milão, para deixar a Europa.
Comecei a organizar tudo. O primeiro passo era entrar em contato com todos. Mas à medida em que os e-mails iam sendo respondidos, percebi que as pessoas que eu mais queria ver eram as que já tinham saído da Itália ou deixado as cidades em questão para passar férias de verão em algum outro lugar. A idéia de ir mesmo assim para estas cidades e viver uma cena de filme onde eu voltaria para os lugares vazios, sem os atores da trama, me seduzia bastante. Mas comecei a cogitar se isso não seria um desperdício desnecessário de dinheiro que poderia muito bem ser posto em bom uso (aportuguesamento de expressão inglesa, eu sei...) no Brasil e se estes pequenos gestos valiam todo esse gasto. Lembrem-se que eu teria que gastar bastante com a movimentação de todas as minhas quinquilharias (quase 40Kg de mala!).
Com um coração que dói por voltar pra casa e encorajado por pais saudosos, resolvi fazer uma mudança de planos.
Amanhão vou ao guichê da Varig (de novo...), ver se consigo mudar a passagem para partir de Londres alguns dias mais cedo.
Uma semana a mais ou a menos não vai provar nada nem pra mim nem para os outros (e que deveria me importar os outros?). Mas vai fazer maravilhas ao meu coração. E assim vejo se consigo ainda aproveitar um restinho usado e mastigado de empolgação diante de tantas idéias que tive de coisas pra fazer quando chegar.
[ T + 5M 23D {ETA: N/A}]
• Em Milão, passaria uma última noite na casa do Sr. Zeller, para me despedir.
• Indo direto para Perugia, entraria no Duomo e ofereceria uma prece. Apesar de não acreditar muito mais na religião católica, pedi proteção nos meus primeiros dias por lá e meus demônios internos me deixaram em paz durante toda a viagem. Queria também rever minha turma, as Graças inglesas, Anne. Me despediria dos Seppilli e de outros amigos de minha avó, assim como dos professores.
• Em Roma, veria finalmente a Sistina, me despedindo depois dos Ascarelli.
• Iria a Firenze para me despedir de Michelle acima de tudo. Mas também para tirar a foto da cabeça de leão na porta do batistério. Aquela que era a tela do meu celular, e que perdi quando mandei o maldito para concertar.
• Passaria finalmente em Arezzo, pra entender o que tanto queria me dizer a coincidência.
• Voltaria então para Milão, para deixar a Europa.
Comecei a organizar tudo. O primeiro passo era entrar em contato com todos. Mas à medida em que os e-mails iam sendo respondidos, percebi que as pessoas que eu mais queria ver eram as que já tinham saído da Itália ou deixado as cidades em questão para passar férias de verão em algum outro lugar. A idéia de ir mesmo assim para estas cidades e viver uma cena de filme onde eu voltaria para os lugares vazios, sem os atores da trama, me seduzia bastante. Mas comecei a cogitar se isso não seria um desperdício desnecessário de dinheiro que poderia muito bem ser posto em bom uso (aportuguesamento de expressão inglesa, eu sei...) no Brasil e se estes pequenos gestos valiam todo esse gasto. Lembrem-se que eu teria que gastar bastante com a movimentação de todas as minhas quinquilharias (quase 40Kg de mala!).
Com um coração que dói por voltar pra casa e encorajado por pais saudosos, resolvi fazer uma mudança de planos.
Amanhão vou ao guichê da Varig (de novo...), ver se consigo mudar a passagem para partir de Londres alguns dias mais cedo.
Uma semana a mais ou a menos não vai provar nada nem pra mim nem para os outros (e que deveria me importar os outros?). Mas vai fazer maravilhas ao meu coração. E assim vejo se consigo ainda aproveitar um restinho usado e mastigado de empolgação diante de tantas idéias que tive de coisas pra fazer quando chegar.
[ T + 5M 23D {ETA: N/A}]
terça-feira, julho 11, 2006
Preconceito
Um daqueles temas que fico me dizendo que devo escrever, mas nunca o faço. Aproveito o marasmo momentaneo.
Alguém tinha me falado que em Londres eu poderia ver como diferentes culturas podem sim viver harmoniosamente. Realmente, você anda na rua e a coisa mais difícil de se encontrar é um verdadeiro inglês. São turbas de italianos, hispânicos, poloneses, mas principalmente árabes, turcos e muçulmanos. Sem falar nos brazucas. É gente de todas as cores e todos os credos. Ainda mais diversos do que a gente encontra no Brasil.
Eu não percebi até vir para cá o quão preconceituoso eu era. Na minha cidade, eu via gente negra e uma parte de mim estava sempre alerta. Você quer ser correto e aberto a todos os tipos de pessoas. Porque a gente vive em uma sociedade que ainda marginaliza o negro. Um ciclo: eles não conseguem estudo decente, então não conseguem trabalho decente. E no fim não conseguem dar estudo decente aos filhos, e o ciclo segue, mantendo cada individuo na classe social em que nasceu, com pouca chance de mobilidade. Eu sei, é uma lógica simplista, mas não deixa de ter seu lado verdadeiro. Marginalizados, alguns partem pro crime. Ou seja, não é uma questão de raça, mas do sistema econômico no qual vivem. E o meu preconceito passa a ser não contra negros em si, mas contra as pessoas em condição miserável. Só que no Brasil, as duas coisas andam perigosamente próximas.
Nunca tinha prestado muita atenção em como eu vivo num Brasil Branco. Nas minhas turmas de faculdade, conto nos dedos os alunos negros. Pra dizer a verdade, conto nos dedos o numero de alunos negros que vi em geral em ambas as instituições. Pensando bem, eu conheço algum negro que não esteja me fazendo algum serviço? Conto nos dedos de uma só mão...
Bom, depois desses parágrafos vai chover pedra por aqui...
Anyway, aqui em Londres a história é outra. A quantidade de negros que leva uma vida abastada é invejável. Eu andava pelas ruas nos primeiros dias e ainda tensionava levemente cada vez que os via (e só aí fui perceber...). Mas fui relaxando e percebendo que aqui os suspeitos são outros. Por causa dos ataques terroristas de 7 de Julho do ano passado, os muçulmanos ainda são vistos com desconfiança. Os ingleses tentam relaxar mas não conseguem. Assim como os brasileiros, proclamam-se tolerantes, abertos. Mas na prática, vemos como os bairros de periferia têm uma população bem maior deles e, como já cometei por aqui, como todos os serviços mais humildes são feitos por eles: isso é literalmente "marginalização".
Ouso dizer que esse tipo de preconceito londrino ainda não me manchou. Mas suponho que no futuro isso prove ser tão falso quando a minha crença anterior de que eu não era preconceituoso no Brasil. De qualquer jeito, admiro com curiosidade as mulheres que andam cobertas dos pés à cabeça na rua e as garotas com uniformes de colégios ingleses usando os refinados lenços muçulmanos na cabeça, cheios de belos padrões e mandalas bordados.
Alguém tinha me falado que em Londres eu poderia ver como diferentes culturas podem sim viver harmoniosamente. Realmente, você anda na rua e a coisa mais difícil de se encontrar é um verdadeiro inglês. São turbas de italianos, hispânicos, poloneses, mas principalmente árabes, turcos e muçulmanos. Sem falar nos brazucas. É gente de todas as cores e todos os credos. Ainda mais diversos do que a gente encontra no Brasil.
Eu não percebi até vir para cá o quão preconceituoso eu era. Na minha cidade, eu via gente negra e uma parte de mim estava sempre alerta. Você quer ser correto e aberto a todos os tipos de pessoas. Porque a gente vive em uma sociedade que ainda marginaliza o negro. Um ciclo: eles não conseguem estudo decente, então não conseguem trabalho decente. E no fim não conseguem dar estudo decente aos filhos, e o ciclo segue, mantendo cada individuo na classe social em que nasceu, com pouca chance de mobilidade. Eu sei, é uma lógica simplista, mas não deixa de ter seu lado verdadeiro. Marginalizados, alguns partem pro crime. Ou seja, não é uma questão de raça, mas do sistema econômico no qual vivem. E o meu preconceito passa a ser não contra negros em si, mas contra as pessoas em condição miserável. Só que no Brasil, as duas coisas andam perigosamente próximas.
Nunca tinha prestado muita atenção em como eu vivo num Brasil Branco. Nas minhas turmas de faculdade, conto nos dedos os alunos negros. Pra dizer a verdade, conto nos dedos o numero de alunos negros que vi em geral em ambas as instituições. Pensando bem, eu conheço algum negro que não esteja me fazendo algum serviço? Conto nos dedos de uma só mão...
Bom, depois desses parágrafos vai chover pedra por aqui...
Anyway, aqui em Londres a história é outra. A quantidade de negros que leva uma vida abastada é invejável. Eu andava pelas ruas nos primeiros dias e ainda tensionava levemente cada vez que os via (e só aí fui perceber...). Mas fui relaxando e percebendo que aqui os suspeitos são outros. Por causa dos ataques terroristas de 7 de Julho do ano passado, os muçulmanos ainda são vistos com desconfiança. Os ingleses tentam relaxar mas não conseguem. Assim como os brasileiros, proclamam-se tolerantes, abertos. Mas na prática, vemos como os bairros de periferia têm uma população bem maior deles e, como já cometei por aqui, como todos os serviços mais humildes são feitos por eles: isso é literalmente "marginalização".
Ouso dizer que esse tipo de preconceito londrino ainda não me manchou. Mas suponho que no futuro isso prove ser tão falso quando a minha crença anterior de que eu não era preconceituoso no Brasil. De qualquer jeito, admiro com curiosidade as mulheres que andam cobertas dos pés à cabeça na rua e as garotas com uniformes de colégios ingleses usando os refinados lenços muçulmanos na cabeça, cheios de belos padrões e mandalas bordados.
An(este)siedade
A ansiedade de voltar para casa aumenta. É uma espécie de felicidade masoquista que demora pra chegar, e que só faz abrilhantar meus dias de um modo estranho. Anestesia os pequenos sofrimentos diários: encaro mesmo os turnos mais difíceis no pub com certa felicidade, porque sei que serão os últimos; aguento a truculência dos meus antagonistas sem que isso afete meu espírito. O efeito anestesiante é tamanho, que mesmo após o "não" redondo que recebi da Rosie (daquele tipo "estava pensando em você mais como um bom amigo"), ainda voltei pra casa de bem com a vida.
Por outro lado, se o efeito anestesiante nos protege da dor, também tira um pouco da destreza. Cometo os erros mais banais no pub simplesmente porque não consigo me importar o suficiente pra prestar atenção. Tá, eu sei, não precisa nem ralhar comigo, eu tomo cuidado. Em casa, desisti de cuidar do jardim, de fazer a limpeza. Desleixo total. Prefiro gastar meu tempo aproveitando as últimas semanas.
[T + 5M 15D {ETA: 28D}]
Por outro lado, se o efeito anestesiante nos protege da dor, também tira um pouco da destreza. Cometo os erros mais banais no pub simplesmente porque não consigo me importar o suficiente pra prestar atenção. Tá, eu sei, não precisa nem ralhar comigo, eu tomo cuidado. Em casa, desisti de cuidar do jardim, de fazer a limpeza. Desleixo total. Prefiro gastar meu tempo aproveitando as últimas semanas.
[T + 5M 15D {ETA: 28D}]
segunda-feira, julho 10, 2006
London Poetry
Tomo pela primeira vez a linha branca do metrô. É uma linha que só passa pela zona 2 e portanto é mais barata e com gente mais simples. Passando pelas estações inglesas com seus nomes particulares, o trem toma passarelas altas e ganha os ares, por cima dos bairros pobres, mostrando pela janela apenas os telhados triangulares das casas e as chaminés inglesas em grupos de 3 ou 4. Escrevo no dorso da mão "trains fly", para lembrar de escrever sobre essa cena que sempre me agrada mas que sempre esqueço de relatar. Acontecia quando eu pegava o DLR para Greenwich e Faride: o trem navegava por entre os prédios de vidro e parecia independer dos trilhos, passando por ciuma dos canais de Surrey Quays. A linha de Piccadilly, quando passava por Chiswick, me mostrava em plena luz do dia os telhados triangulares de um suburbio entorpecido pela apatia. Me lembrava um desenho animado muito antigo. Agora, na linha branca, a sensação se completava com a iluniação fraca e escerdeada de uma sorutna Londres na calada da noite. Olhava para baixo e não via chão. E lembrava de novo daquele desenho: Little Nemo in Slumberland. O rapazinho abria os olhos e sua cama estava flutuando por cima dos mesmos tetos triangulares e chaminés inglesas, iluminados daquele sombrio monocromático verde-água que vinha de algum lugar lá embaixo, através da névoa que insinuava a ausência de chão. No céu, uma lua maior que a própria noite.
Ando pelo Leicester Square na noite de sábado. O modo como os jovens ingleses falam, riem e se divertem me parece cair perfeitamente bem com o jeito das músicas do Franz Ferdinand. Isso é tudo. E é assim mesmo: debochado sem intimidade, afetado sem feminilidade, divertido sem sentido. Não escolheria outra trilha sonora.
Volto pelas ruas semidesertas de Acton. No meu tocador de MP3 novo, a voz de Gavin Rosdale do Bush mata minha saudade e, com o eco nas músicas, parece estar em todos os lugares, no espaço aberto, além das casas que dormem sob tetos triangulares, percorrendo a noite pela Gunnersbury Lane junto com os carros solitários em alta velocidade. Ele canta Alien e diz: "I'm an alien/ You're an alien / And it's a beautiful rain". E de fato, me sinto completamente estrangeiro e alheio. E de fato, a chuva que cai é linda, porque sendo chuva de verão, me deixa que eu me deixe enxarcar sem medo, sem frio como eu gosto. Chegando em casa, Gavin já está cantando Fourty Miles from the Sun. A casa silenciosa, vazia, como as ruas de Acton e, quiçá, como o resto do planeta. A sensação da música.
Tudo me enche novamente daquela melancolia gostosa e benigna. Estou em Londres. Pelo menos por mais um mês.
[T + 5M 14D {ETA: 29D}]
Ando pelo Leicester Square na noite de sábado. O modo como os jovens ingleses falam, riem e se divertem me parece cair perfeitamente bem com o jeito das músicas do Franz Ferdinand. Isso é tudo. E é assim mesmo: debochado sem intimidade, afetado sem feminilidade, divertido sem sentido. Não escolheria outra trilha sonora.
Volto pelas ruas semidesertas de Acton. No meu tocador de MP3 novo, a voz de Gavin Rosdale do Bush mata minha saudade e, com o eco nas músicas, parece estar em todos os lugares, no espaço aberto, além das casas que dormem sob tetos triangulares, percorrendo a noite pela Gunnersbury Lane junto com os carros solitários em alta velocidade. Ele canta Alien e diz: "I'm an alien/ You're an alien / And it's a beautiful rain". E de fato, me sinto completamente estrangeiro e alheio. E de fato, a chuva que cai é linda, porque sendo chuva de verão, me deixa que eu me deixe enxarcar sem medo, sem frio como eu gosto. Chegando em casa, Gavin já está cantando Fourty Miles from the Sun. A casa silenciosa, vazia, como as ruas de Acton e, quiçá, como o resto do planeta. A sensação da música.
Tudo me enche novamente daquela melancolia gostosa e benigna. Estou em Londres. Pelo menos por mais um mês.
[T + 5M 14D {ETA: 29D}]
sábado, julho 08, 2006
A festa de Zack
Wasn't that the best party ever?
Desci em Hackney lançando uma última olhada a uma garota sentada à minha frente que, pelo cabelo, me lembrava a Mary italiana com quem morei. Segui por ruas sujas e suspeitas, questionando onde eu estava me metendo. Zack Kinney era um produtor de teatro amigo de Michele. Quando disse ao italiano que estava vindo para Londres, ele me passou o número de Zack e deu o meu a ele. Mas nunca nos falamos. Recentemente, ele tinha me mandando um e-mail falando de uma festa. Dizia que era para comemorar a independência dos EUA, que ao contrário da crença popular, teria acontecido no dia 8 de Julho. Cheguei no prédio, perto da linha do metrô e da sujeira de oficinas mecânicas. Apartamento 18. Na porta, a menina do trem. Nos apresentamos, reconhecendo-nos de minutos atrás (onde que ela descera para chegar antes de mim?). Ross e a amiga Rosie.
O anfitrião da casa reconheceu o nome: "Claro, amigo do Michele! Que bom que finalmente nos encontramos! Obrigado por ter vindo!". De cara soube que era um californiano. Loiro, cabelo espetado, cara de Owen Wilson. Eramos os primeiros a chegar.
Conversa vai, conversa vem. Ele começa a tentar fazer malabarismos com tres limões. No canto, vejo uma vodca. Tem açucar? Graças às dicas do Piero para caipirinhas, o resultado agrada a turma inicial e me garante a amizade. Passo boa parte da noite conversando com Rosie. Sorriso bonito enquanto ela diz que é designer de moda e vem de Bristol. Enquanto isso, um VJ muito estranho toca trance enquanto imagens de Gremlins, Alien e outros filmes antigos de monstro se alternam em espasmos projetados nas paredes. De vez em quando, imagens de soldados americanos, da declara&cceildão de independência e da Marilyn Monroe junto ao presidente Kennedy. Tudo bem debochado. As pessoas chegam em números cada vez mais absurdos. Vestidos de pin-ups, escoteiros, soldados, tudo de acordo com o e-mail de Zack, que dizia para vir fantasiado do que cada um mais gostava ou detestava dos EUA (eu, com tags militares e camisa verde militar...).
Devo ter conhecido tanta gente na festa, que fica difícil lembrar de todo mundo. Amigas americanas do Zack, mais ingleses, uma taiwanesa... No fim da festa conheci Charlotte, a namorada do anfitrião: enrolada em uma bandeira americana servindo-lhe de vestido, a designer trabalhava para agências de publicidade... Perfeito. Trocamos informa&ccedi;ões e fiquei de mandar ao Zack o meu site para que ele desse uma olhada.
Quando o relógio bateu as quatro da manhã, Rosie partiu. Mas não sem antes me passar o telefone ("What do I need to do to get your phone number?" "Just ask"). Uma hora depois eu estava me despedindo de Zack para voltar para casa. Ele ainda conseguiu me manter lá por mais uma meia hora, inventando de improviso uma competição de aviões de papel que, apesar dos aviões high-tech que meu pai me ensinou quando criança, eu não venci... It can't rain all the time. O jeito espontâneo e bem-humorado de Zack me lembrava Lord Henry Wotton, the Retrato de Dorian Grey.
Voltando pelo centro, pela primeira vez chego tarde demais para pegar o nightbus. O céu já amanhecendo no horizonte e, como em um jogo de videogame, as coisas assumindo seus aspectos diurnos, menos poderosos. Penso, voltando para casa de metrô, o que aconteceria se depois dessa festa tudo desse certo. Se Charlotte de fato me arranjasse um contato em uma agência e eu arranjasse um emprego. Se eu ligasse para Rosie e... Eu ficaria aqui em Londres? Estando a menos de um mês para partir e já convencido da minha "derrota"? O que e quanto eu perderia para cancelar minha volta?
Não se preocupem. As chances, infelizmente, são mínimas...
[T + 5M 12D {ETA: 1M}]
Desci em Hackney lançando uma última olhada a uma garota sentada à minha frente que, pelo cabelo, me lembrava a Mary italiana com quem morei. Segui por ruas sujas e suspeitas, questionando onde eu estava me metendo. Zack Kinney era um produtor de teatro amigo de Michele. Quando disse ao italiano que estava vindo para Londres, ele me passou o número de Zack e deu o meu a ele. Mas nunca nos falamos. Recentemente, ele tinha me mandando um e-mail falando de uma festa. Dizia que era para comemorar a independência dos EUA, que ao contrário da crença popular, teria acontecido no dia 8 de Julho. Cheguei no prédio, perto da linha do metrô e da sujeira de oficinas mecânicas. Apartamento 18. Na porta, a menina do trem. Nos apresentamos, reconhecendo-nos de minutos atrás (onde que ela descera para chegar antes de mim?). Ross e a amiga Rosie.
O anfitrião da casa reconheceu o nome: "Claro, amigo do Michele! Que bom que finalmente nos encontramos! Obrigado por ter vindo!". De cara soube que era um californiano. Loiro, cabelo espetado, cara de Owen Wilson. Eramos os primeiros a chegar.
Conversa vai, conversa vem. Ele começa a tentar fazer malabarismos com tres limões. No canto, vejo uma vodca. Tem açucar? Graças às dicas do Piero para caipirinhas, o resultado agrada a turma inicial e me garante a amizade. Passo boa parte da noite conversando com Rosie. Sorriso bonito enquanto ela diz que é designer de moda e vem de Bristol. Enquanto isso, um VJ muito estranho toca trance enquanto imagens de Gremlins, Alien e outros filmes antigos de monstro se alternam em espasmos projetados nas paredes. De vez em quando, imagens de soldados americanos, da declara&cceildão de independência e da Marilyn Monroe junto ao presidente Kennedy. Tudo bem debochado. As pessoas chegam em números cada vez mais absurdos. Vestidos de pin-ups, escoteiros, soldados, tudo de acordo com o e-mail de Zack, que dizia para vir fantasiado do que cada um mais gostava ou detestava dos EUA (eu, com tags militares e camisa verde militar...).
Devo ter conhecido tanta gente na festa, que fica difícil lembrar de todo mundo. Amigas americanas do Zack, mais ingleses, uma taiwanesa... No fim da festa conheci Charlotte, a namorada do anfitrião: enrolada em uma bandeira americana servindo-lhe de vestido, a designer trabalhava para agências de publicidade... Perfeito. Trocamos informa&ccedi;ões e fiquei de mandar ao Zack o meu site para que ele desse uma olhada.
Quando o relógio bateu as quatro da manhã, Rosie partiu. Mas não sem antes me passar o telefone ("What do I need to do to get your phone number?" "Just ask"). Uma hora depois eu estava me despedindo de Zack para voltar para casa. Ele ainda conseguiu me manter lá por mais uma meia hora, inventando de improviso uma competição de aviões de papel que, apesar dos aviões high-tech que meu pai me ensinou quando criança, eu não venci... It can't rain all the time. O jeito espontâneo e bem-humorado de Zack me lembrava Lord Henry Wotton, the Retrato de Dorian Grey.
Voltando pelo centro, pela primeira vez chego tarde demais para pegar o nightbus. O céu já amanhecendo no horizonte e, como em um jogo de videogame, as coisas assumindo seus aspectos diurnos, menos poderosos. Penso, voltando para casa de metrô, o que aconteceria se depois dessa festa tudo desse certo. Se Charlotte de fato me arranjasse um contato em uma agência e eu arranjasse um emprego. Se eu ligasse para Rosie e... Eu ficaria aqui em Londres? Estando a menos de um mês para partir e já convencido da minha "derrota"? O que e quanto eu perderia para cancelar minha volta?
Não se preocupem. As chances, infelizmente, são mínimas...
[T + 5M 12D {ETA: 1M}]
sexta-feira, julho 07, 2006
Tate Britain e a escolha.
Passei uma manhã no Soho entregando currículos (e comendo os iogurtes com granola do Pret-a-Manger...). Fico muito frustrado com a falta de recursos: tudo que posso fazer é aparecer nas agências com aquele sorriso amarelo, entregar duas folhas de currículo que vão ser arquivadas com outros 500 candidatos e mencionar que eu tenho um site com meus trabalhos. Sei que isso não chega nem perto de ser suficiente e que muito dificilmente eu vou conseguir alguma coisa assim, mas tentar custa pouco...
À tarde, sendo avisado que eu não seria chamado para o turno da noite do pub, resolvi finalmente visitar o Tate Britain. Da mesma direção do Tate Modern, mas com um acervo mais voltado para artistas britânicos (antigos e modernos), o Britain foi sugerido pela minha avó, que me disse que meu avô passava horas nas salas do Turner, vendo as colossais pinturas de paisagem.
No caminho, comecei a ler o meu próximo livro, Cento colpi di spazzola prima di andare a dormire ("Cem golpes de escova antes de dormir"), da Melissa Pennerello. História de uma garota que procurava no escuro e sujo do mundo, do sexo e do imoral, um modo de se sentir viva e de encontrar alguém que a aceitasse como ela é, com o bem e o mal.
Entrando no Britain, encontrei uma primeira sala com obras do Francis Bacon e do Lucian Freud, além de um escultor que eu não conhecia chamado Reg Butler. Novamente, encontrei coisas muito legais que eu conhecia. O primeiro quadro que vi do Freud em um livro e que me fez lembra-lo para sempre. Pelo jeito como dá pra sentir a textura das coisas; pelo modo como os olhos da garota brilham de um modo bem visceral, gelatinoso; pelo modo como, ainda assim, dá pra perceber que ele não é perfeito, porque as proporções do rosto dela estão todas erradas. Outros quadros dele tinham aquele volume de tinta obceno que fazia lembrar algo sobre a materialidade da carne humana. Ao lado, o retrato de Leigh Bowery feito pelo Freud, que foi o primeiro quadro do pintor que eu vi ao vivo, em uma exposição do Ibirapuera. Os quadro do Bacon são aquela coisa grotescamente visceral de sempre. O Butler aplica isso à idéia de usar a mulher como objeto. Não deixa claro se ele critica ou afirma a coisa.
Andando pela sala e vendo aquelas obras que falavam tanto da condição visceral humana, depois de ter lido a jornada de Dorian Grey e começado os relatos de prostituição e busca pelo grotesco de Melissa, tive um daqueles cliques. Porque parecia que tudo tinha se encaixado muito bem pra me falar daquilo que, desde o começo da viagem eu não havia mais sentido. Eu passara os últimos cinco meses quase completamente curado e livre de crises de ansiedade, do desespero diante da minha condição humana, da busca pelo macabro, bizarro e grotesco que, assim como para Melissa e para o fictício Dorian Grey, me fascina e inspira tanto e me destrói a alma. Percebi alí ter chegado em um ponto onde eu poderia seguir adiante livre disso, do escuro do mundo, e viver uma vida gostosa, saudável e relativamente monótona, ou re-entrar cautelosamente nesse universo, pé ante pé, experimentando até onde o meu limite vai, a perigo de me desesperar de novo.
Com isso na cabeça e o corpo meio cansado da manhã de caminhada, não tive muita paciência para ver toda a ala das pinturas do Turner. Preciso voltar pra lá e passar algumas horas na galeria. Sinto que, se a Itália foi uma tentativa de ver a minha origem do lado de minha mãe, a Inglaterra que fascinou meu avô paterno me chama pra fazer o mesmo.
À tarde, sendo avisado que eu não seria chamado para o turno da noite do pub, resolvi finalmente visitar o Tate Britain. Da mesma direção do Tate Modern, mas com um acervo mais voltado para artistas britânicos (antigos e modernos), o Britain foi sugerido pela minha avó, que me disse que meu avô passava horas nas salas do Turner, vendo as colossais pinturas de paisagem.
No caminho, comecei a ler o meu próximo livro, Cento colpi di spazzola prima di andare a dormire ("Cem golpes de escova antes de dormir"), da Melissa Pennerello. História de uma garota que procurava no escuro e sujo do mundo, do sexo e do imoral, um modo de se sentir viva e de encontrar alguém que a aceitasse como ela é, com o bem e o mal.
Entrando no Britain, encontrei uma primeira sala com obras do Francis Bacon e do Lucian Freud, além de um escultor que eu não conhecia chamado Reg Butler. Novamente, encontrei coisas muito legais que eu conhecia. O primeiro quadro que vi do Freud em um livro e que me fez lembra-lo para sempre. Pelo jeito como dá pra sentir a textura das coisas; pelo modo como os olhos da garota brilham de um modo bem visceral, gelatinoso; pelo modo como, ainda assim, dá pra perceber que ele não é perfeito, porque as proporções do rosto dela estão todas erradas. Outros quadros dele tinham aquele volume de tinta obceno que fazia lembrar algo sobre a materialidade da carne humana. Ao lado, o retrato de Leigh Bowery feito pelo Freud, que foi o primeiro quadro do pintor que eu vi ao vivo, em uma exposição do Ibirapuera. Os quadro do Bacon são aquela coisa grotescamente visceral de sempre. O Butler aplica isso à idéia de usar a mulher como objeto. Não deixa claro se ele critica ou afirma a coisa.
Andando pela sala e vendo aquelas obras que falavam tanto da condição visceral humana, depois de ter lido a jornada de Dorian Grey e começado os relatos de prostituição e busca pelo grotesco de Melissa, tive um daqueles cliques. Porque parecia que tudo tinha se encaixado muito bem pra me falar daquilo que, desde o começo da viagem eu não havia mais sentido. Eu passara os últimos cinco meses quase completamente curado e livre de crises de ansiedade, do desespero diante da minha condição humana, da busca pelo macabro, bizarro e grotesco que, assim como para Melissa e para o fictício Dorian Grey, me fascina e inspira tanto e me destrói a alma. Percebi alí ter chegado em um ponto onde eu poderia seguir adiante livre disso, do escuro do mundo, e viver uma vida gostosa, saudável e relativamente monótona, ou re-entrar cautelosamente nesse universo, pé ante pé, experimentando até onde o meu limite vai, a perigo de me desesperar de novo.
Com isso na cabeça e o corpo meio cansado da manhã de caminhada, não tive muita paciência para ver toda a ala das pinturas do Turner. Preciso voltar pra lá e passar algumas horas na galeria. Sinto que, se a Itália foi uma tentativa de ver a minha origem do lado de minha mãe, a Inglaterra que fascinou meu avô paterno me chama pra fazer o mesmo.
quinta-feira, julho 06, 2006
Só pra constar: visitei o Soho. Se eu tivesse mais uns tres meses, um computador só meu e toda a grana de quando comecei a viagem, ia investir todos os recursos pra conseguir um emprego por lá, nos estúdios de pós-produção, agências de publicidade e alguns poucos estúdios de animação. Me precipito a dizer que o Soho seria o meu bairro dos sonhos.
É foda não ter recursos pra me apresentar como um profissional decente!
É foda não ter recursos pra me apresentar como um profissional decente!
Economia inglesa.
Nas aulas de geografia do colégio eu percebi o quão ignorante eu era para questões de economia. A professora dizia que "por causa de X e Y, a inflação daquele país obviamente aumentou" e eu sussurrava baixinho "como assim 'obviamente'!?". Dentre os conceitos que nunca entendi direito estava aquela idéia de que a economia ia bem quando as pessoas estavam gastando bastante, porque o dinheiro circulava. Essa eu entendia vagamente. Mas pude ter um exemplo ótimo aqui em Londres.
O inglês médio da minha idade ganha uma quantia absurda de dinheiro entre trabalhos em bares, mesada dos pais e qualquer mínima aposta vencida (eles vivem apostando sobre qualquer coisa...). No entanto, ele gasta uma quantia igualmente absurda. O dinheiro gira, e muito. Como resultado, muita coisa acontece, os serviços têm verba e a cidade anda. O impressionante é que o próprio gasto reverte em ganhos para os ingleses e a pessoa média consegue levar uma vida relativamente boa e ainda ter uma boa quantidade de dinheiro no bolso.
Não é raro ver um rapaz entrar no pub com os amigos e esbanjar perto de £100 em uma única refeição. Aliás, os pubs parecem ser um dos centros da economia inglesa. É mesmo parte do dia da galera por aqui ir para o pub e encher a cara. E eles gastam vastas quantidades de dinheiro nisso. Pessoalmente, eu gasto meu dinheiro degustando os pequenos restaurantes de comidas rápidas e saudáveis. Cadeias como a EAT. e a Pret-A-Manger, que se especializam em fazer sanduíches naturais e iogurtes, compotas com granola e etc. Estou virando realmente um adepto forte desse tipo de comida, que me lembra minha mãe. A moda da comida saudável parece estar ganhando espaço por aqui. Me pergunto se encontro alguma coisa remotamente parecida no Brasil.
Outro aspecto bem interessante da economia inglesa: com tanto dinheiro circulando, eles conseguem ter algumas coisas gratuitas (e que na minha opinião, deveriam ser mesmo). Comentei sobre os jornais deixados no metrô, lembra? Vários dos jornais por aqui são gratuitos. Informação gratuita! É estranho ver a rela&cceilão deles com os jornais. O brasileiro, embora pague barato por seu jornal diário, ainda mantém uma noção de que aquile é "sua propriedade" e que pegar o do outro seria muita falta de educação. Aqui, uns deixam o jornal jogado por aí, outros pegam e fazem bom uso dele.
Tem várias pequenas coisinhas gratuítas por aqui. Mas o que realmente é uma delícia é ter os museus de graça. Poder ver acervos inteiros sem pagar nada! Cultura gratuíta! É assim que deveria ser em todos os lugares. Claro, os museus têm exposições especiais, mais elaboradas, a preços módicos (como a Summer Exhibition da Royal Academy), mas ao menos o acervo (e que acervo!) é gratuíto.
Suponho que faça uma diferença enorme o fato de que aqui, ao menos os impostos são REALMENTE revertidos em serviços para a população. Estando aqui, dá pra ver o quanto é nojento o nível de corrupção da América. Mas enfim, isso daria um outro post monótono de várias páginas.
O inglês médio da minha idade ganha uma quantia absurda de dinheiro entre trabalhos em bares, mesada dos pais e qualquer mínima aposta vencida (eles vivem apostando sobre qualquer coisa...). No entanto, ele gasta uma quantia igualmente absurda. O dinheiro gira, e muito. Como resultado, muita coisa acontece, os serviços têm verba e a cidade anda. O impressionante é que o próprio gasto reverte em ganhos para os ingleses e a pessoa média consegue levar uma vida relativamente boa e ainda ter uma boa quantidade de dinheiro no bolso.
Não é raro ver um rapaz entrar no pub com os amigos e esbanjar perto de £100 em uma única refeição. Aliás, os pubs parecem ser um dos centros da economia inglesa. É mesmo parte do dia da galera por aqui ir para o pub e encher a cara. E eles gastam vastas quantidades de dinheiro nisso. Pessoalmente, eu gasto meu dinheiro degustando os pequenos restaurantes de comidas rápidas e saudáveis. Cadeias como a EAT. e a Pret-A-Manger, que se especializam em fazer sanduíches naturais e iogurtes, compotas com granola e etc. Estou virando realmente um adepto forte desse tipo de comida, que me lembra minha mãe. A moda da comida saudável parece estar ganhando espaço por aqui. Me pergunto se encontro alguma coisa remotamente parecida no Brasil.
Outro aspecto bem interessante da economia inglesa: com tanto dinheiro circulando, eles conseguem ter algumas coisas gratuitas (e que na minha opinião, deveriam ser mesmo). Comentei sobre os jornais deixados no metrô, lembra? Vários dos jornais por aqui são gratuitos. Informação gratuita! É estranho ver a rela&cceilão deles com os jornais. O brasileiro, embora pague barato por seu jornal diário, ainda mantém uma noção de que aquile é "sua propriedade" e que pegar o do outro seria muita falta de educação. Aqui, uns deixam o jornal jogado por aí, outros pegam e fazem bom uso dele.
Tem várias pequenas coisinhas gratuítas por aqui. Mas o que realmente é uma delícia é ter os museus de graça. Poder ver acervos inteiros sem pagar nada! Cultura gratuíta! É assim que deveria ser em todos os lugares. Claro, os museus têm exposições especiais, mais elaboradas, a preços módicos (como a Summer Exhibition da Royal Academy), mas ao menos o acervo (e que acervo!) é gratuíto.
Suponho que faça uma diferença enorme o fato de que aqui, ao menos os impostos são REALMENTE revertidos em serviços para a população. Estando aqui, dá pra ver o quanto é nojento o nível de corrupção da América. Mas enfim, isso daria um outro post monótono de várias páginas.
terça-feira, julho 04, 2006
Farewell, Dorian.
Escolhi o Marble Arch, no canto do Hyde Park para terminar os últimos capítulos da minha cópia italiana do Retrato de Dorian Grey, depois de ler uma passagem onde um personagem fazia, no mesmo local, a pergunta que resumia o romance: "O que ganha realmente um homem se conquista o mundo em troca de sua alma?".
Ler um livro na cidade citada é uma experiência curiosa. Leio passagens que citam lugares pelos quais passo diariamente, descrevendo-os como eram no século XIX.
Deixo o livro com três idéias flutuando na cabeça. A primeira e como a juventude é um atrativo poderoso. Não pelo clichê de que todos querem ser jovens para sempre, mas pelo modo como as pessoas se sentem atraídas a corromper a juventude. Nesse caso, e no livro, a aparência da juventude é o melhor passaporte para aqueles prazeres pecaminosos, porque eles vêm até o jovem sem que ele precise procurá-los.
A segunda é a memória de tantas celebridades internéticas que simplesmente cansaram um dia e resolveram parar, assim como Dorian um dia resolve tentar ser bom (ainda que, no caso dele, seja por mera vaidade). Como, tanto as pessoas que, como Dorian, provaram todos os prazeres imorais e resolvem viver uma vida virtuosa, quanto as celebridades internéticas de anos que resolvem entrar para o anonimato, de uma hora para outra passam a renegar aquilo que tanto invejava tanta gente. Passam a dizer que é ruim, que não é tudo o que os outros dizem, que todo mundo deveria evitar. Muito fácil dizer isso quando já se provou da coisa. Muito egoísta fazer contra-propaganda de algo que você já teve. Deixe os outros provarem e tirarem as próprias conclusões.
A terceira idéia tem a ver com o modo inglês. Um modo de vida descrito nas páginas do livro e reconhecido em poucos traços remanescentes nos ingleses que vejo por aqui. Um jeito mais lânguido, mais tranquilo de se viver. Um não se importar com as pequenas coisas e rir de si mesmo, uma afetação que me lembrava o clima das músicas do Cure (isso faz algum sentido?). Enquanto lia minhas últimas páginas, eles jogavam frisbee no parque, paziam seus pique niques, brincavam com o cachorro. E me parecia que os brasileiros que conheço sempre falavam de forma romântica de fazer tudo isso, mas nunca o faziam de fato. Podem dizer que os ingleses são frios, mas eu encontro neles uma alegria de viver muito mais óbvia.
Ler um livro na cidade citada é uma experiência curiosa. Leio passagens que citam lugares pelos quais passo diariamente, descrevendo-os como eram no século XIX.
Deixo o livro com três idéias flutuando na cabeça. A primeira e como a juventude é um atrativo poderoso. Não pelo clichê de que todos querem ser jovens para sempre, mas pelo modo como as pessoas se sentem atraídas a corromper a juventude. Nesse caso, e no livro, a aparência da juventude é o melhor passaporte para aqueles prazeres pecaminosos, porque eles vêm até o jovem sem que ele precise procurá-los.
A segunda é a memória de tantas celebridades internéticas que simplesmente cansaram um dia e resolveram parar, assim como Dorian um dia resolve tentar ser bom (ainda que, no caso dele, seja por mera vaidade). Como, tanto as pessoas que, como Dorian, provaram todos os prazeres imorais e resolvem viver uma vida virtuosa, quanto as celebridades internéticas de anos que resolvem entrar para o anonimato, de uma hora para outra passam a renegar aquilo que tanto invejava tanta gente. Passam a dizer que é ruim, que não é tudo o que os outros dizem, que todo mundo deveria evitar. Muito fácil dizer isso quando já se provou da coisa. Muito egoísta fazer contra-propaganda de algo que você já teve. Deixe os outros provarem e tirarem as próprias conclusões.
A terceira idéia tem a ver com o modo inglês. Um modo de vida descrito nas páginas do livro e reconhecido em poucos traços remanescentes nos ingleses que vejo por aqui. Um jeito mais lânguido, mais tranquilo de se viver. Um não se importar com as pequenas coisas e rir de si mesmo, uma afetação que me lembrava o clima das músicas do Cure (isso faz algum sentido?). Enquanto lia minhas últimas páginas, eles jogavam frisbee no parque, paziam seus pique niques, brincavam com o cachorro. E me parecia que os brasileiros que conheço sempre falavam de forma romântica de fazer tudo isso, mas nunca o faziam de fato. Podem dizer que os ingleses são frios, mas eu encontro neles uma alegria de viver muito mais óbvia.
A Volta. Capítulo 2
Então fui aos guichês das outras linhas aéreas. Muitas me disseram que até tinham vagas. Eu teria que ir para outros países e de lá pegar os vôos para São Paulo, mas que sim, tinham vagas. O problema era que minha passagem era de milhagens e eles só podiam trocar se a Varig me emitisse passagens comuns. Novamente dependente da Varig, voltei ao guichê da empresa.
Fui atendido pela mesma moça gaúcha. Um rosto bonito e maquiado, cabelos de um loiro que seu eu visse na rua, diria que era suéca. Me disse que infelizmente não poderia trocar passagens de milhagem por passgens comuns. Claro. Mas em seguida, muito solícita, me explicou toda a situação atual da empresa, de como eles tinha "temporariamente suspendido" algumas linhas (incluíndo a Milão - São Paulo), esperando a verba que viria da compra da Varig pela Varig Log (essa eu ainda não saquei...) pra poderem fazer a manutenção dos aviões e continuar o serviço. Disse-me ainda que, caso a linha ainda estivesse suspensa até Agosto, eu seria contactado e eles me informariam em qual linha eu embarcaria, mas que tudo aconteceria no mesmo dia e sem custos adicionais. Só um pouco de carregação de 35 quilos de mala pra lá e pra cá, pensei. A conversa correu por uns bons quinze minutos e não vou colocar todos os pormenores por aqui, mas no fim acabei tranquilizado de que, de um jeito ou de outro, eu embarcaria de Milão no dia 8 de Agosto.
À noite, em conferência telefônica com meus pais, confirmei que o plano continuava o mesmo. Eles, um pouco mais calmos com as notícias atuais sobre a situação da Varig e seus infelizes clientes, concordaram.
Tudo feito, nada resolvido, o plano continua o mesmo.
[A seguir, cenas dos próximos capítulos...]
No próximo capítulo da sua novela favorita, eu procuro formas baratas e pouco burocráticas de mandar metade da minha mala de navio de volta para São Paulo. Afinal, com o calor infernal que faz na Europa nessa época do ano, eu realmente não vou precisar de casacos para neve e outras parafernálias.
E mais!
• Comprinhas para preencher todo os espaço que vai ser liberado na minha mala... XD
• Desculpas esfarrapadas para largar um emprego em pub.
• Ryan Air, round 2: voltando para a Itália a baixos custos (e ainda mais baixo conforto...).
A Volta, a novela que dá mais Ibope que o Ronaldo balançando a gordura pra alcançar um cruzamento na copa (not really...).
[T + 5M 8D {ETA: 1M 5D}]
Fui atendido pela mesma moça gaúcha. Um rosto bonito e maquiado, cabelos de um loiro que seu eu visse na rua, diria que era suéca. Me disse que infelizmente não poderia trocar passagens de milhagem por passgens comuns. Claro. Mas em seguida, muito solícita, me explicou toda a situação atual da empresa, de como eles tinha "temporariamente suspendido" algumas linhas (incluíndo a Milão - São Paulo), esperando a verba que viria da compra da Varig pela Varig Log (essa eu ainda não saquei...) pra poderem fazer a manutenção dos aviões e continuar o serviço. Disse-me ainda que, caso a linha ainda estivesse suspensa até Agosto, eu seria contactado e eles me informariam em qual linha eu embarcaria, mas que tudo aconteceria no mesmo dia e sem custos adicionais. Só um pouco de carregação de 35 quilos de mala pra lá e pra cá, pensei. A conversa correu por uns bons quinze minutos e não vou colocar todos os pormenores por aqui, mas no fim acabei tranquilizado de que, de um jeito ou de outro, eu embarcaria de Milão no dia 8 de Agosto.
À noite, em conferência telefônica com meus pais, confirmei que o plano continuava o mesmo. Eles, um pouco mais calmos com as notícias atuais sobre a situação da Varig e seus infelizes clientes, concordaram.
Tudo feito, nada resolvido, o plano continua o mesmo.
[A seguir, cenas dos próximos capítulos...]
No próximo capítulo da sua novela favorita, eu procuro formas baratas e pouco burocráticas de mandar metade da minha mala de navio de volta para São Paulo. Afinal, com o calor infernal que faz na Europa nessa época do ano, eu realmente não vou precisar de casacos para neve e outras parafernálias.
E mais!
• Comprinhas para preencher todo os espaço que vai ser liberado na minha mala... XD
• Desculpas esfarrapadas para largar um emprego em pub.
• Ryan Air, round 2: voltando para a Itália a baixos custos (e ainda mais baixo conforto...).
A Volta, a novela que dá mais Ibope que o Ronaldo balançando a gordura pra alcançar um cruzamento na copa (not really...).
[T + 5M 8D {ETA: 1M 5D}]
segunda-feira, julho 03, 2006
In Dreams
Alguém na Itália me perguntou um dia em que língua eu sonhava, se conhecia quatro delas. Demorei pra responder, tentando lembrar do último sonho. E acabo percebendo que depende muito dos personagens envolvidos. Falo em português com meu irmão, em italiano quando sonho com as meninas, em inglês quando ando por londres... Pergunta interessante.
Tenho sonhado muito com a volta para casa.
No sonho de ontem, eu estava indo para a fazenda de novo. Meus pais tinham reformado a casa completamente. Hoje, sonhei estar de novo em casa, no meu quarto, e ter uma sensação de estar matando a saudade das coisas nele. Ainda que algumas delas fossem coisas estranhas de sonho que não existem na vida real.
Nesses sonhos há sempre uma sensação de que a minha ausência modificou muita coisa nos lugares, de que as pessoas estavam se acostumando a não me ter por perto. Mas ao mesmo tempo, todos que aparecem no sonho estão felicíssimos em me ver e me recebem de braços abertos. A sensação é tão boa, que acordo com um sentimento de frustração ao perceber que ainda estou no cubículo londrino e na realidade que eu criei pra mim em seis meses.
[T + 5 months 7 days {ETA: 1 month 6 days}]
Tenho sonhado muito com a volta para casa.
No sonho de ontem, eu estava indo para a fazenda de novo. Meus pais tinham reformado a casa completamente. Hoje, sonhei estar de novo em casa, no meu quarto, e ter uma sensação de estar matando a saudade das coisas nele. Ainda que algumas delas fossem coisas estranhas de sonho que não existem na vida real.
Nesses sonhos há sempre uma sensação de que a minha ausência modificou muita coisa nos lugares, de que as pessoas estavam se acostumando a não me ter por perto. Mas ao mesmo tempo, todos que aparecem no sonho estão felicíssimos em me ver e me recebem de braços abertos. A sensação é tão boa, que acordo com um sentimento de frustração ao perceber que ainda estou no cubículo londrino e na realidade que eu criei pra mim em seis meses.
[T + 5 months 7 days {ETA: 1 month 6 days}]
sábado, julho 01, 2006
One more mile
Escrevo durante o intervalo de uma hora entre os dois turnos de seis horas que tenho hoje. Talvez o pior dia de trabalho que já tive por aqui, estou trabalhando em um dia de turno duplo, com a pior antagonista possível como gerente, em um dia infernalmente quente, durante jogo da Inglaterra. Durante a noite, vou perder Brasil X França (aliás, a outra garçonete me ajudando hoje é francesa...), mas isso é a menor das preocupações. E amanhã tem mais um turno à noite com a mesma gerente.
Ao menos consegui passar o primeiro turno sem problemas. Servi uma mesa de oito, que apesar do tamanho, era bem humorada e fez o serviço ficar mais simples.
Agora estou aqui, a barba molhada de água fria pra tentar me refrescar neste calor anti-inglês. Respiro fundo e vamos nessa.
Assim começa o meu último mês de aventuras inglesas.
[COUNTDOWN: T + 5 months 5 days {ETA: 1 month 8 days}]
Ao menos consegui passar o primeiro turno sem problemas. Servi uma mesa de oito, que apesar do tamanho, era bem humorada e fez o serviço ficar mais simples.
Agora estou aqui, a barba molhada de água fria pra tentar me refrescar neste calor anti-inglês. Respiro fundo e vamos nessa.
Assim começa o meu último mês de aventuras inglesas.
[COUNTDOWN: T + 5 months 5 days {ETA: 1 month 8 days}]
Tá, eu sei. Eu não estou indo atrás daquele super-hiper-mega-ultra curso de animação que só vai ter aqui em Londres. Eu não estou indo visitar a casa onde o Shakespeare nasceu. Eu não estou batendo de porta em porta em todas as galerias pra mostrar meu trabalho. E não estou entrando em contato com os traficantes de ácido holandeses.
É tão fácil quando você está do outro lado e pode confortavelmente dizer para uma pessoa o que ela deve fazer, como ela deveria "aproveitar a viagem", todas as fantásticas oportunidades que ela está deixando passar. Mas estar aqui, lidar com tudo isso e com a falta de recursos de um viajante, lidar com o trabalho extenuante do pub e ainda ter energia para ser turista, tudo isso é um pouco demais.
Percebi que não tenho mais escrito sobre muita coisa além do pub. Mas o fato é que meus dias por aqui se tornaram isso: uma longa cadeia de turno após turno, da qual eu me livro de vez em quando para ir passear na cidade. E suponho que passe assim o mês que me resta desta aventura. Pra mim, será o suficiente.
Londres não estava nos planos iniciais. Se um dia resolver que quero realmente procurar o super-hiper-mega-ultra curso de animação, ou entrar para uma agência de publicidade inglesa, eu vou fazer o possível para voltar, dessa vez com recursos específicos para isso.
É tão fácil quando você está do outro lado e pode confortavelmente dizer para uma pessoa o que ela deve fazer, como ela deveria "aproveitar a viagem", todas as fantásticas oportunidades que ela está deixando passar. Mas estar aqui, lidar com tudo isso e com a falta de recursos de um viajante, lidar com o trabalho extenuante do pub e ainda ter energia para ser turista, tudo isso é um pouco demais.
Percebi que não tenho mais escrito sobre muita coisa além do pub. Mas o fato é que meus dias por aqui se tornaram isso: uma longa cadeia de turno após turno, da qual eu me livro de vez em quando para ir passear na cidade. E suponho que passe assim o mês que me resta desta aventura. Pra mim, será o suficiente.
Londres não estava nos planos iniciais. Se um dia resolver que quero realmente procurar o super-hiper-mega-ultra curso de animação, ou entrar para uma agência de publicidade inglesa, eu vou fazer o possível para voltar, dessa vez com recursos específicos para isso.
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