As aulas terminaram ontem. Fizemos uma ultima festinha, à qual compareceu metade da classe. Gostaram da minha caipirinha (a primeira que fiz na vida...).
A festa acabou la pelas cinco da tarde e sai pelos corredores do Palazzo Prosciutti recebendo uma melancolica luz de tarde pleas janelas. Disse um adeus às professoras queridas e sai pelas portas.
O que acontece agora?
Eu sei, a vida continua, eu vou tentar (sem muito exito...) conseguir um emprego por aqui e vou para Londres em Maio. Mas nao da pra evitar aquela sensaçao de fim de filme, sabe? Nao sinto aquele efeito drastico de uma amputaçao repentina e violenta de contato, porque sei que verei estas pessoas pelas ruas da minuscula Perugia. Sei que, aos poucos, essas pessoas vao sumir na multidao como Hillis sumiu no dia em que sai do primeiro quarto. Varias eu nem vou perceber que sumiram. Outras serao mais dolorosas. Algumas, como Linnea, serao uma dor de alivio, de perceber-se livre. E nao importa que eu tenha o e-mail e telefone de todo mundo: eu sei que nao vou manter contato. Nenhum de nos vai... Mas eu ja estava me preparando para isso desde os primeiros dias de aula. Sabia que seria tolice me apegar a essas pessoas. Estamos aqui so de passagem.
Nao consigo evitar uma sensaçao de que estou entrando em uma fase de fechamento de Perugia. Como se estivesse vendo ultimas coisas, cuidando de ultimos detalhes, resolvendo as ultimas pontas da trama. Mesmo que ainda falte um mes inteiro pra isso e viagens importantes, como a visita a Trieste.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
sexta-feira, março 31, 2006
quinta-feira, março 30, 2006
Os habitantes da casa: Birba/Mary
Resolvi escrever sobre os dois juntos porque estou demorando demais pra escrever sobre a galera e assim ganho tempo. Além do que, nao vejo Birba, o cachorro da Mary, sem a dona, embora o oposto aconteça bastante.
Ontem estava no quarto desenhando, quando ouvi um caos de latidos e gritos das meninas na sala. Larguei tudo e corri a tempo pra ver Mimmo e Birba se atracando em meio a tres meninas aterrorizadas demais pra interferir de forma eficaz. Pulei no meio dos cachorros e gritei qualquer som a Mimmo, mostrando-lhe os dentes. Foi tempo o suficiente para ele dar dois passos pra tras e ser agarrado pelas meninas enquanto eu pegava o pequeno Birba (sim, apesar do nome, é um macho...) e corria com ele para o quarto de Mary.
Desde o primeiro dia na casa, compreendi um fato muito simples: os dois cachorros jamais podem sequer se ver ou essa batalha ferrenha começa. Sao dois machos de carater muito forte e lutam pelo posto de mascote da casa. Com um porém: Mimmo é o dobro de Birba...
O pequenino fica a maior parte do tempo enclausurado no quarto da dona, que é o maior da casa, mas ainda assim é uma clausura. De quando em vez, alguém deixa a janela do quarto aberta e ele aproveita para escapar pela varanda, entrando por algum dos outros quartos e urinando onde quer que encontre o cheiro de seu rival. Claro que Mary nao esta muito feliz com a situaçao, mas nao pretende ficar naquela casa toda a vida e nao pode deixar o cao com outra pessoa por razoes sentimentais.
Portanto, nao tenho a mesma convivencia com o pequeno Birba que tenho com o outro cao. Porém ja convivi o suficiente para observar coisas curiosas sobre ele. Acreditem ou nao, passa o dia vendo TV. Mary deixa ligada e ele fica no quarto acompanhando o som das pessoas falando, dos reality shows (que sao a moda na Italia: que eu saiba, tem quatro acontecendo simultaneamente hoje em dia, talvez mais...). Quando alguém se digna a leva-lo a passear, sai pela porta saltando alto e puxando a coleira a mordidas, grunhindo: parece que é ele que leva a pessoa e nao o contrario. No mais, tem um interesse morbidamente fetichista pelas minhas botas. Adora morder as partes de borracha e avança sobre elas com uma insistencia violenta.
Quanto à dona, Mary. Batizada Maria Antonieta, mas se faz chamar de Mary por obvias razoes eufonicas... Desde que cheguei, supus que seria a pessoa com a qual eu me daria melhor em casa. Lembram que ela me recebeu vestindo uma camisa da Emily Strange e ainda colocou Bowie pra tocar? Pois é, a coisa nao parou por ai. Quando descobriu da minha recente paixao por Cure, me emprestou o som e um CD maravilhoso que tenho ouvido frequentemente. Dai para Smiths, Placebo, Portishead e outros foi um curto pulo. De fato, me apresentou algumas coisas novas como Royskopp e um ou outro cantor italiano do genero.
Nao demorou muito pra ver que tinhamos um mesmo gosto pelo alternativo, pelo pseudo-gotico. Conversavamos muito a respeito e ela me disse que Perugia é a cidade errada para procurar essa cultura. Roma seria muito melhor. MaryVeste-se quase sempre de preto, cheia dos pinduricalhos gotico-punks que eu gosto. Alias, pelo corte de cabelo e o jeito alternativo, lembra-me uma versao pocket-size de Persephone, com olhos azuis e problemas odontologicos... E sendo pequena, é comico que seja a dona de Birba, um cachorro igualmente pocket-size se comparado ao rival.
Devo dizer que tenho conversado mais com Mary do que com as outras meninas da casa. Sentamos na sala, sem prestar atençao no lixo que passa na TV, e conversamos sobre tanta coisa. Sobre o caso complexo que ela ainda mantém com Nico, um cara legal com o qual morou em Roma por um tempo e que vem visitar de vez em quando. Dizem nao poderem ficar juntos porque, quando namoravam, brigavam como Mimmo e Birba.
Mas apesar de falarmos bastante, ela também conhece a delicia das relaçoes extra-palavra, daquelas pessoas com as quais se pode ficar em silencio e curtir apenas a presença, sem precisar falar. O tipo de relaçao mais basica, primal e instintiva. E que muita gente hoje em dia ja esqueceu.
Saimos todos nos de vez em quando para os bares. Mary talvez seja a unica que me permite o toque, coisa muito rara entre os europeus a nao ser para saudaçoes. Me abraça durante as musicas, encosta em mim nos momentos de embriaguez ou me bate fraco quando provoco-a com seu nome verdadeiro.
No lado negativo, devo dizer que é uma fumante compulsiva. De cigarro e otras cositas. Mas nao me enche o saco por eu nao fumar com ela. Respeita o meu respeito ao corpo. E até me congratula quando, depois de comer macarrao e pizza por tres dias seguidos, resolvo comprar verduras e fazer uma enorme salada.
Ontem estava no quarto desenhando, quando ouvi um caos de latidos e gritos das meninas na sala. Larguei tudo e corri a tempo pra ver Mimmo e Birba se atracando em meio a tres meninas aterrorizadas demais pra interferir de forma eficaz. Pulei no meio dos cachorros e gritei qualquer som a Mimmo, mostrando-lhe os dentes. Foi tempo o suficiente para ele dar dois passos pra tras e ser agarrado pelas meninas enquanto eu pegava o pequeno Birba (sim, apesar do nome, é um macho...) e corria com ele para o quarto de Mary.
Desde o primeiro dia na casa, compreendi um fato muito simples: os dois cachorros jamais podem sequer se ver ou essa batalha ferrenha começa. Sao dois machos de carater muito forte e lutam pelo posto de mascote da casa. Com um porém: Mimmo é o dobro de Birba...
O pequenino fica a maior parte do tempo enclausurado no quarto da dona, que é o maior da casa, mas ainda assim é uma clausura. De quando em vez, alguém deixa a janela do quarto aberta e ele aproveita para escapar pela varanda, entrando por algum dos outros quartos e urinando onde quer que encontre o cheiro de seu rival. Claro que Mary nao esta muito feliz com a situaçao, mas nao pretende ficar naquela casa toda a vida e nao pode deixar o cao com outra pessoa por razoes sentimentais.
Portanto, nao tenho a mesma convivencia com o pequeno Birba que tenho com o outro cao. Porém ja convivi o suficiente para observar coisas curiosas sobre ele. Acreditem ou nao, passa o dia vendo TV. Mary deixa ligada e ele fica no quarto acompanhando o som das pessoas falando, dos reality shows (que sao a moda na Italia: que eu saiba, tem quatro acontecendo simultaneamente hoje em dia, talvez mais...). Quando alguém se digna a leva-lo a passear, sai pela porta saltando alto e puxando a coleira a mordidas, grunhindo: parece que é ele que leva a pessoa e nao o contrario. No mais, tem um interesse morbidamente fetichista pelas minhas botas. Adora morder as partes de borracha e avança sobre elas com uma insistencia violenta.
Quanto à dona, Mary. Batizada Maria Antonieta, mas se faz chamar de Mary por obvias razoes eufonicas... Desde que cheguei, supus que seria a pessoa com a qual eu me daria melhor em casa. Lembram que ela me recebeu vestindo uma camisa da Emily Strange e ainda colocou Bowie pra tocar? Pois é, a coisa nao parou por ai. Quando descobriu da minha recente paixao por Cure, me emprestou o som e um CD maravilhoso que tenho ouvido frequentemente. Dai para Smiths, Placebo, Portishead e outros foi um curto pulo. De fato, me apresentou algumas coisas novas como Royskopp e um ou outro cantor italiano do genero.
Nao demorou muito pra ver que tinhamos um mesmo gosto pelo alternativo, pelo pseudo-gotico. Conversavamos muito a respeito e ela me disse que Perugia é a cidade errada para procurar essa cultura. Roma seria muito melhor. MaryVeste-se quase sempre de preto, cheia dos pinduricalhos gotico-punks que eu gosto. Alias, pelo corte de cabelo e o jeito alternativo, lembra-me uma versao pocket-size de Persephone, com olhos azuis e problemas odontologicos... E sendo pequena, é comico que seja a dona de Birba, um cachorro igualmente pocket-size se comparado ao rival.
Devo dizer que tenho conversado mais com Mary do que com as outras meninas da casa. Sentamos na sala, sem prestar atençao no lixo que passa na TV, e conversamos sobre tanta coisa. Sobre o caso complexo que ela ainda mantém com Nico, um cara legal com o qual morou em Roma por um tempo e que vem visitar de vez em quando. Dizem nao poderem ficar juntos porque, quando namoravam, brigavam como Mimmo e Birba.
Mas apesar de falarmos bastante, ela também conhece a delicia das relaçoes extra-palavra, daquelas pessoas com as quais se pode ficar em silencio e curtir apenas a presença, sem precisar falar. O tipo de relaçao mais basica, primal e instintiva. E que muita gente hoje em dia ja esqueceu.
Saimos todos nos de vez em quando para os bares. Mary talvez seja a unica que me permite o toque, coisa muito rara entre os europeus a nao ser para saudaçoes. Me abraça durante as musicas, encosta em mim nos momentos de embriaguez ou me bate fraco quando provoco-a com seu nome verdadeiro.
No lado negativo, devo dizer que é uma fumante compulsiva. De cigarro e otras cositas. Mas nao me enche o saco por eu nao fumar com ela. Respeita o meu respeito ao corpo. E até me congratula quando, depois de comer macarrao e pizza por tres dias seguidos, resolvo comprar verduras e fazer uma enorme salada.
He was here a while ago...
O clima tem melhorado bastante por aqui. Ja saio de casa com a jaqueta pendurada na mochila porque é muito quente de manha para vesti-la, mas muito frio durante a tarde para sair sem ela. O vento virou uma coisa quase constante. Quase como se Vulturnus estivesse me dizendo que é hora de continuar viagem. Pego o onibus e presto mais atençao nos labios plastificados de uma italiana de 15 anos ou no tamanho do nariz dos italianos em geral (todos sempre meio narigudos...) do que na paisagem.
Os bares e restaurantes começam a colocar as mesas do lado de fora: me disseram que quando isso acontecesse, seria mais facil encontrar trabalho como barista. Porém ja me desiludi tanto com trabalho por aqui, que se devo trabalhar em bar, é melhor ir para Londres e faze-lo la. Assim, ao menos ganho em libras inglesas, que valem ainda mais do que o euro...
De fato, cada vez mais estou convencido de que o proximo passo da viagem é ir para Londres. A unica coisa que me manteria em Perugia seria encontrar um trabalho com publicidade ou nos museus. Fiquei aqui em Perugia por muito tempo e a rotina acabou me encontrando. Tinha fugido dela no Brasil e conseguido despista-la, mas ela deve ter entrado no meu blog e descoberto onde eu estava.
Na logica dos desenhos de Alice, é como se tivesse ficado muito tempo a observar algo e me perdido da Tartaruga. Ainda faço um desenho desses...
Por enquanto, o plano é ficar na Italia durante Abril, para visitar as ultimas cidades que ainda nao vi e encontrar a Cidade de Origem, Trieste. Depois disso, em Maio, Londres. E quem sabe volte a encontrar a Tartaruga.
Os bares e restaurantes começam a colocar as mesas do lado de fora: me disseram que quando isso acontecesse, seria mais facil encontrar trabalho como barista. Porém ja me desiludi tanto com trabalho por aqui, que se devo trabalhar em bar, é melhor ir para Londres e faze-lo la. Assim, ao menos ganho em libras inglesas, que valem ainda mais do que o euro...
De fato, cada vez mais estou convencido de que o proximo passo da viagem é ir para Londres. A unica coisa que me manteria em Perugia seria encontrar um trabalho com publicidade ou nos museus. Fiquei aqui em Perugia por muito tempo e a rotina acabou me encontrando. Tinha fugido dela no Brasil e conseguido despista-la, mas ela deve ter entrado no meu blog e descoberto onde eu estava.
Na logica dos desenhos de Alice, é como se tivesse ficado muito tempo a observar algo e me perdido da Tartaruga. Ainda faço um desenho desses...
Por enquanto, o plano é ficar na Italia durante Abril, para visitar as ultimas cidades que ainda nao vi e encontrar a Cidade de Origem, Trieste. Depois disso, em Maio, Londres. E quem sabe volte a encontrar a Tartaruga.
terça-feira, março 28, 2006
Existe um paraiso na terra...
... e fica aqui em Perugia. Estou falando da fabrica da Perugina, onde fazem os Baci e muitas outras delicias achocoladatas. Fui com a faculdade hoje. Eles tem um esquema muito bem organizado (como era de se esperar da Europa...) para receber visitantes, no qual contam todo o processo da manufatura do chocolate, desde a extraçao das sementes do cacao, que sao torradas e moidas; depois prensadas para tirar a manteiga de cacau que faz, com leite, açucar e baunilha, o chocolate branco; e o que sobra é novamente triturado para fazer o po de chocolate, que com doses controladas de manteiga de cacau e leite faz o chocolate amargo, o ao leite e a gianduia, com nozes. Em seguida, uma apresentaçao com exemplares e estatisticas da historia da empresa, desde o começo como uma humilde fabrica de amendoas confeitadas (muito consumidas aqui em ocasioes celebres, como matrimonios) que resolveu se aventurar pelo ramo dos chocolates; passando pela crise na Segunda Guerra, quando Mussolini proibiu a compra de produtos de fora da Italia e o cacau virou uma coisa meio ilegal; até os dias de hoje, quando a Perugina foi comprada pela Nestle; e a feira do Eurochocolate, onde a Perugina fez o maior Baci do mundo (alguém lembra do outro poster na parede do meu primeiro quarto? Era dessa feira e encontro um desses posters em cada casa que vou por aqui: foi um evento imenso...)!
A visita termina com um passeio pelas linhas de produçao. Sempre fiquei fascinado com a imagem de produtos em esteiras de fabrica, com tantos processos sendo feitos por maquinas, tao ou mais bem feitos do que se fossem realizados por pessoas. As maquinas embalavam chocolates a uma velocidade violenta, sugavam ovos de pascoa para dentro dos embrulhos, encartavam centenas de confeitos coloridos com uma displicencia quase augésica (ausencia do sentido do paladar). Caixas e caixas de Baci estavam espalhadas por toda a fabrica: daria realmente para cobrir alguém de beijos... Na saida, uma curiosidade pratica: perguntei à guia se eles faziam algum controle para saber se os operarios comiam ou levavam para casa um pouco do estoque. Ela me explicou que eles eram perfeitamente autorizados a comer durante o serviço, coisa que pode parecer o paraiso, mas suponho que no terceiro dia resulte em um al de estomago pavoroso... O que eles nao podem fazer é levar a produçao para casa: é considerado furto e o funcionario é punido. Eles fazem um controle, escolhendo alguns funcionarios na hora da saida pra revistar, mas obviamente nao podem revistar todo mundo e suponho que alguma coisa seja surrupiada... Queria saber das estatisticas.
E caso voces estejam perguntando: sim, eu vou tentar trazer alguma coisa de volta para o Brasil. So nao sei se vai resistir até la a todas as intempéries da viagem e à minha compulsao chocolatra...
A visita termina com um passeio pelas linhas de produçao. Sempre fiquei fascinado com a imagem de produtos em esteiras de fabrica, com tantos processos sendo feitos por maquinas, tao ou mais bem feitos do que se fossem realizados por pessoas. As maquinas embalavam chocolates a uma velocidade violenta, sugavam ovos de pascoa para dentro dos embrulhos, encartavam centenas de confeitos coloridos com uma displicencia quase augésica (ausencia do sentido do paladar). Caixas e caixas de Baci estavam espalhadas por toda a fabrica: daria realmente para cobrir alguém de beijos... Na saida, uma curiosidade pratica: perguntei à guia se eles faziam algum controle para saber se os operarios comiam ou levavam para casa um pouco do estoque. Ela me explicou que eles eram perfeitamente autorizados a comer durante o serviço, coisa que pode parecer o paraiso, mas suponho que no terceiro dia resulte em um al de estomago pavoroso... O que eles nao podem fazer é levar a produçao para casa: é considerado furto e o funcionario é punido. Eles fazem um controle, escolhendo alguns funcionarios na hora da saida pra revistar, mas obviamente nao podem revistar todo mundo e suponho que alguma coisa seja surrupiada... Queria saber das estatisticas.
E caso voces estejam perguntando: sim, eu vou tentar trazer alguma coisa de volta para o Brasil. So nao sei se vai resistir até la a todas as intempéries da viagem e à minha compulsao chocolatra...
segunda-feira, março 27, 2006
A comédia da lavanderia
Como tenho repetido por aqui, aproveito a viagem para me aventurar por tudo aquilo que eu nao tinha coragem ou oportunidade de fazer em Sao Paulo. A convivencia com gente cuja lingua eu nem remotamente compreendo, os empregos menores, a batalha com o fogao, esse tipo de coisa. Ah, e é claro, a negociaçao com a maquina de lavar roupa...
Na primeira vez que tentei, vinte dias depois da minha chegada e em um serviço de lavanderia self-service desses que se ve em filme americano, tive medo de estragar as roupas mais delicadas e escolhi um programa de lavagem leve. As roupas sairam intactas: tao intactas, que ainda estavam sujas...
Fazendo os calculos, descobri que comprar meu proprio sabao barateava muito a coisa. Frente à questao de que sabao comprar, nao pude evitar de rir ao me pegar prestando atençao nos comerciais de sabao em po, todos iguais mesmo aqui na Europa, com o teste entre a marca e um concorrente anonimo, que nao consegue tirar as manchas. Finalmente, acabo comprando alguma coisa genérica. As meninas me explicam tratar-se de um sabao para lavar as roupas a mao ou deixa-las de molho, e que elas me deixariam usar o delas, para a maquina que temos em casa.
Um dia, mancho um pullover preto de molho e resolvo lava-lo a mao. Ele sai com manchas mais claras e passo o dia de mau humor, achando que estraguei uma de minhas peças favoritas. Mas depois descubro ser a decantaçao do sabao em po de qualidade duvidosa que nao dissolve completamente...
Enfim, entre uma maquina que transborda espuma porque coloquei muito sabao, meias brancas que continuam com os calcanhares sujos e 12 programas de lavagem completamente redundantes, encontro a medida certa das coisas para ao menos ter a roupa limpa. A pratica leva à perfeiçao.
Coloco as roupas para secar em um pequeno varal armado na varanda. Quase perco uma cuéca levada pelo vento mas salva pela Mary no ultimo minuto. Alias, certo dia a senhora do apartamento da frente veio trazer duas calcinhas da Sara. Desde entao, começamos a colocar a roupa em um varalzinho de plastico montado no corredor. Coisa européia: pratico, mas com um visual deliciosamente decadente.
Por fim, a ultima cena da comédia: o ferro de passar. Pergunto se temos tabua de passar, porque nao vi em lugar nenhum. "Use a mesa do quarto, mas coloque uma toalha em cima" elas me respondem. Ecco, o jeitinho italiano...
Passar a roupa torna-se um pequeno desafio muito prazeroso. Afinal, para um maniaco por organizaçao, é lindo ver a roupa amassada ficando lisa, perfeita, geométrica. Claro que ela nunca fica perfeita. E é aqui que o maniaco se desespera um pouco, passando horas naquela dobrinha maldita que nao some. Mas depois aprende que a perfeiçao é quase impossivel de atingir, e que afinal uma dobra ou a ausencia dela sera um detalhe tao minimo que ninguém vai perceber. Enfim, consigo aprender a passar a roupa sem torrar nenhuma peça. Ouso dizer até que melhor do que a nossa empregada no Brasil.
Na primeira vez que tentei, vinte dias depois da minha chegada e em um serviço de lavanderia self-service desses que se ve em filme americano, tive medo de estragar as roupas mais delicadas e escolhi um programa de lavagem leve. As roupas sairam intactas: tao intactas, que ainda estavam sujas...
Fazendo os calculos, descobri que comprar meu proprio sabao barateava muito a coisa. Frente à questao de que sabao comprar, nao pude evitar de rir ao me pegar prestando atençao nos comerciais de sabao em po, todos iguais mesmo aqui na Europa, com o teste entre a marca e um concorrente anonimo, que nao consegue tirar as manchas. Finalmente, acabo comprando alguma coisa genérica. As meninas me explicam tratar-se de um sabao para lavar as roupas a mao ou deixa-las de molho, e que elas me deixariam usar o delas, para a maquina que temos em casa.
Um dia, mancho um pullover preto de molho e resolvo lava-lo a mao. Ele sai com manchas mais claras e passo o dia de mau humor, achando que estraguei uma de minhas peças favoritas. Mas depois descubro ser a decantaçao do sabao em po de qualidade duvidosa que nao dissolve completamente...
Enfim, entre uma maquina que transborda espuma porque coloquei muito sabao, meias brancas que continuam com os calcanhares sujos e 12 programas de lavagem completamente redundantes, encontro a medida certa das coisas para ao menos ter a roupa limpa. A pratica leva à perfeiçao.
Coloco as roupas para secar em um pequeno varal armado na varanda. Quase perco uma cuéca levada pelo vento mas salva pela Mary no ultimo minuto. Alias, certo dia a senhora do apartamento da frente veio trazer duas calcinhas da Sara. Desde entao, começamos a colocar a roupa em um varalzinho de plastico montado no corredor. Coisa européia: pratico, mas com um visual deliciosamente decadente.
Por fim, a ultima cena da comédia: o ferro de passar. Pergunto se temos tabua de passar, porque nao vi em lugar nenhum. "Use a mesa do quarto, mas coloque uma toalha em cima" elas me respondem. Ecco, o jeitinho italiano...
Passar a roupa torna-se um pequeno desafio muito prazeroso. Afinal, para um maniaco por organizaçao, é lindo ver a roupa amassada ficando lisa, perfeita, geométrica. Claro que ela nunca fica perfeita. E é aqui que o maniaco se desespera um pouco, passando horas naquela dobrinha maldita que nao some. Mas depois aprende que a perfeiçao é quase impossivel de atingir, e que afinal uma dobra ou a ausencia dela sera um detalhe tao minimo que ninguém vai perceber. Enfim, consigo aprender a passar a roupa sem torrar nenhuma peça. Ouso dizer até que melhor do que a nossa empregada no Brasil.
sábado, março 25, 2006
Odds and Ends
• Imagino que o nosso "quiças" tenha vindo do italiano "chi sa" (pronunciado "qui sa" -- quem sabe), mas nao tenho provas concretas.
• No Brasil (bem, posso falar apenas por Sao Paulo), os carros tem prioridade sobre os pedestres. De fato, muitas cidades sao feitas para facilitar a circulaçao dos carros, e danem-se as pessoas. Alias, os pedestres brasileiros devem sempre prestar atençao e sair da frente dos carros, que nao param nem diminuem a velocidade, salvo em casos especiais, e se zangam quando quase atropelam um pedestre desatento. na Italia, as cidades antigas nao foram construidas nem modificadas para suportar os carros e continuam sendo cidades de pedestres. Os carros passam, com alguma dificuldade, pelas ruelas estreitas e curvas impossiveis dos burgos. Mas a diferença nao é so na arquitetura: esta também na mentalidade. Os carros param antes da faixa de pedestres, mesmo sem sinal vermelho, quando veem uma pessoa esperando para atravessar. De forma que os pedestres sao privilegiados sobre os carros. Eu adoro a Europa...
• O italiano tem um tempo verbal passado chamado passado remoto e usado apenas na literatura, quando o assunto é historico, ou em fala pomposa e sem algumas cidades do sul como dialeto. Ele funciona muito como o nosso pretérito perfeito. Os estrangeiros acham-no complicadissimo, mas eu estou tendo uma facilidade inexplicavel para eles.
• Depois do nome, a pergunta comum feita pelo paulista costuma ser "o que voce faz da vida". Aqui em Perugia, outra pergunta toma o lugar de segunda mais importante: "de onde voce é". Fornece ao interlocutor mais informaçoes relevantes para desenvolver uma conversa do que a carreira. De fato, raramente surge por aqui o assunto da carreira (coerente com o fato de serem todos adolescentes de 30). Enquanto no Brasil eu exercitava minha capacidade de observaçao olhando as pessoas e seus objetos pra tentar identificar a carreira, aqui eu olho o tipo fisico (coisa que no Brasil nao serve como pista porque somos muito misturados...) e o dicionario tirado da mochila pra saber a nacionalidade. Quanto a mim, ja me chamaram de frances pela aparencia, romeno pelo som do portugues, americano (da California) pelo meu ingles e até espanhol pelo sotaque do italiano.
• No Brasil (bem, posso falar apenas por Sao Paulo), os carros tem prioridade sobre os pedestres. De fato, muitas cidades sao feitas para facilitar a circulaçao dos carros, e danem-se as pessoas. Alias, os pedestres brasileiros devem sempre prestar atençao e sair da frente dos carros, que nao param nem diminuem a velocidade, salvo em casos especiais, e se zangam quando quase atropelam um pedestre desatento. na Italia, as cidades antigas nao foram construidas nem modificadas para suportar os carros e continuam sendo cidades de pedestres. Os carros passam, com alguma dificuldade, pelas ruelas estreitas e curvas impossiveis dos burgos. Mas a diferença nao é so na arquitetura: esta também na mentalidade. Os carros param antes da faixa de pedestres, mesmo sem sinal vermelho, quando veem uma pessoa esperando para atravessar. De forma que os pedestres sao privilegiados sobre os carros. Eu adoro a Europa...
• O italiano tem um tempo verbal passado chamado passado remoto e usado apenas na literatura, quando o assunto é historico, ou em fala pomposa e sem algumas cidades do sul como dialeto. Ele funciona muito como o nosso pretérito perfeito. Os estrangeiros acham-no complicadissimo, mas eu estou tendo uma facilidade inexplicavel para eles.
• Depois do nome, a pergunta comum feita pelo paulista costuma ser "o que voce faz da vida". Aqui em Perugia, outra pergunta toma o lugar de segunda mais importante: "de onde voce é". Fornece ao interlocutor mais informaçoes relevantes para desenvolver uma conversa do que a carreira. De fato, raramente surge por aqui o assunto da carreira (coerente com o fato de serem todos adolescentes de 30). Enquanto no Brasil eu exercitava minha capacidade de observaçao olhando as pessoas e seus objetos pra tentar identificar a carreira, aqui eu olho o tipo fisico (coisa que no Brasil nao serve como pista porque somos muito misturados...) e o dicionario tirado da mochila pra saber a nacionalidade. Quanto a mim, ja me chamaram de frances pela aparencia, romeno pelo som do portugues, americano (da California) pelo meu ingles e até espanhol pelo sotaque do italiano.
O que mudou?
Em culturas antigas, os rituais de passagem da crianòa para o mundo adulto incluiam pequenas mortes simbolicas. A criança morria para o adulto nascer. E aqui voces provavelmente voltam a pensar no sonho que tive. Eu também.
Quanto Tais me perguntou o que tinha mudado em mim até entao com esta viagem, nao soube responder assim, de improviso (bela expressao italiana aportuguesada pelo autor...). Lala's também perguntara algo similar por e'mail, mas embora eu conseguisse sentir claramente as mudanças, ainda nao as conseguia (ou queria) racionalizar.
Hoje vejo que aconteceram algumas coisas que eu ja esperava. A perpetuaçao daquele estado de alerta gostoso que acontece nas viagens e que faz voce prestar atençao em cada centimetro e pessoa no caminho, que voce ignoraria em casa. O desenvolvimento, através da necessidade, do gosto pelos afazeres doméesticos e a aprendizagem dos procedimentos simples da vida adulta. O reforço de algumas de minhas condutas espartanas com minhas coisas e meu corpo, cuidados e organizados com rigos militar. O gosto pelo italiano, cuja evoluçao acontece rapido. De fato, às vezes posso assistir ao meu proprio aprendizado com distanciamento, como se observasse outra pessoa aprendendo e dissesse "agora ele ja tem noçao deste conceito, mas ainda precisa aprender este outro". Atualmente, meu italiano talvez seja mais fluente que meu espanhol e me agrade tanto quanto o ingles.
Outras coisas eu nao esperava. A dificuldade de conseguir mesmo os trabalhos mais simples. O fato de que, apesar disso e com meu dinheiro calculado para durar mais dois a tres meses, eu ainda nao me desesperei. O subito choque com uma outra realidade onde, comaprado com meus colegas, eu sou pobre, feio e sem diploma universitario. Mas também o fato de que minha ansiedade desapareceu e sequer sinto mais medo dela. Ou o efeito que a ausencia de casa tem na apreciaçao da propria cultura e cidade: nao so tenho falado do Brasil de um jeito que eu nunca imaginei, mas minha cabeça ferve com milhoes de idéias do coisas para fazer em Sao Paulo quando eu voltar (cuidadosamente anotadas, porque sei que vou esquecer...). é a compreensao de que, em Sao Paulo, eu conhecia as coisas e os recursos e nao os usava.
No meu ultimo dia de volantinaggio, na semana passada, tive um insight que me mostrou a densidade desta mudança. Colocado em situaçoes de humildade, por vezes tragicomicas, eu me percebi capaz de viver a simplicidade, capaz de ser tacanho e mundano e me aceitar mesmo assim. Em Sao Paulo, com duas faculdade e algum respeito, confiando nas minhas habilidades, eu tinha medo de errar, receio de me fazer de idiota. Eu tinha que viver alguma historia maravilhosa, épica e auto-biografavel, e refutava qualquer outra possivilidade. Eu estava precisando ser humbled ("humilhado" tem outra conotaçao...). A Italia me ensinou a ser mais humilde, mais humano. Hoje imagino que, se conseguir manter a humildade, o aprendizado, o estado de alerta e a cabeça fervilhando de idéias pra curtir Sao Paulo quando voltar, talvez me sentirei completo. Mas desconfio que essa idéia de Nirvana seja mais uma daquelas ilusoes utopicas que o Lala's e a Lee tanto criticavam em mim.
E meus planos? Muito mudou ai também. Enquanto antes eu tinha diretrizes especificas e as unicas possivilidades eram o sucesso ou o fracasso, sem plano B; aqui aprendi a ter um plano C,D,E ou mesmo a viver sem um grande plano. Aprendi a viver um dia de cada vez e avaliar as possibilidades constantemente. Um pouco de flexibilidade vai bem. Mas nao vou destrinchar minhas possibilidades aqui pra voces: a decisao vai ser minha.
Quanto Tais me perguntou o que tinha mudado em mim até entao com esta viagem, nao soube responder assim, de improviso (bela expressao italiana aportuguesada pelo autor...). Lala's também perguntara algo similar por e'mail, mas embora eu conseguisse sentir claramente as mudanças, ainda nao as conseguia (ou queria) racionalizar.
Hoje vejo que aconteceram algumas coisas que eu ja esperava. A perpetuaçao daquele estado de alerta gostoso que acontece nas viagens e que faz voce prestar atençao em cada centimetro e pessoa no caminho, que voce ignoraria em casa. O desenvolvimento, através da necessidade, do gosto pelos afazeres doméesticos e a aprendizagem dos procedimentos simples da vida adulta. O reforço de algumas de minhas condutas espartanas com minhas coisas e meu corpo, cuidados e organizados com rigos militar. O gosto pelo italiano, cuja evoluçao acontece rapido. De fato, às vezes posso assistir ao meu proprio aprendizado com distanciamento, como se observasse outra pessoa aprendendo e dissesse "agora ele ja tem noçao deste conceito, mas ainda precisa aprender este outro". Atualmente, meu italiano talvez seja mais fluente que meu espanhol e me agrade tanto quanto o ingles.
Outras coisas eu nao esperava. A dificuldade de conseguir mesmo os trabalhos mais simples. O fato de que, apesar disso e com meu dinheiro calculado para durar mais dois a tres meses, eu ainda nao me desesperei. O subito choque com uma outra realidade onde, comaprado com meus colegas, eu sou pobre, feio e sem diploma universitario. Mas também o fato de que minha ansiedade desapareceu e sequer sinto mais medo dela. Ou o efeito que a ausencia de casa tem na apreciaçao da propria cultura e cidade: nao so tenho falado do Brasil de um jeito que eu nunca imaginei, mas minha cabeça ferve com milhoes de idéias do coisas para fazer em Sao Paulo quando eu voltar (cuidadosamente anotadas, porque sei que vou esquecer...). é a compreensao de que, em Sao Paulo, eu conhecia as coisas e os recursos e nao os usava.
No meu ultimo dia de volantinaggio, na semana passada, tive um insight que me mostrou a densidade desta mudança. Colocado em situaçoes de humildade, por vezes tragicomicas, eu me percebi capaz de viver a simplicidade, capaz de ser tacanho e mundano e me aceitar mesmo assim. Em Sao Paulo, com duas faculdade e algum respeito, confiando nas minhas habilidades, eu tinha medo de errar, receio de me fazer de idiota. Eu tinha que viver alguma historia maravilhosa, épica e auto-biografavel, e refutava qualquer outra possivilidade. Eu estava precisando ser humbled ("humilhado" tem outra conotaçao...). A Italia me ensinou a ser mais humilde, mais humano. Hoje imagino que, se conseguir manter a humildade, o aprendizado, o estado de alerta e a cabeça fervilhando de idéias pra curtir Sao Paulo quando voltar, talvez me sentirei completo. Mas desconfio que essa idéia de Nirvana seja mais uma daquelas ilusoes utopicas que o Lala's e a Lee tanto criticavam em mim.
E meus planos? Muito mudou ai também. Enquanto antes eu tinha diretrizes especificas e as unicas possivilidades eram o sucesso ou o fracasso, sem plano B; aqui aprendi a ter um plano C,D,E ou mesmo a viver sem um grande plano. Aprendi a viver um dia de cada vez e avaliar as possibilidades constantemente. Um pouco de flexibilidade vai bem. Mas nao vou destrinchar minhas possibilidades aqui pra voces: a decisao vai ser minha.
quarta-feira, março 22, 2006
Na Europa, os adolescentes sao de 30
Quando Lala's escreveu sobre a nossa geraçao de adolescentes de 25, rebelei-me contra meu proprio estilo de vida, por reconhecer-me como parte dessa geraçao preguiçosa, conformada, acomodada, que so sairia da casa dos pais e arranjaria um emprego depois dos 25, talvez 28. meus amigos, a situaçao na Italia é infelizmente ainda mais deploravel.
O esquema do ensino universitario aqui passa por tres anos de um curso basico e mais dois de especializaçao: seria como se eu fizesse tres anos de publicidade em geral e dois de direçao de arte. Se bem que os cursos aqui sao mais genéricos. As pessoas fazem ciencia da comunicaçao e se especializam em publicidade, nao começam com algo tao especifico. Enfim, cinco anos de formaçao, sem falar nos dois anos nos quais o individuo passa viajando a Europa (chamado "erasmus" por aqui). Assim que a turma por aqui se forma aos 25, 26. Até ai, sem grandes diferenças da situaçao brasileira. O que muda é que, enquanto o paulista médio começa a procurar estagio e exercer a carreira logo nos primeiros anos de curso, o europeu so o faz depois de formado. Enquanto isso, faz qualquer trabalhinho ridiculo em bar, restaurante ou loja, so pra dizer que paga as contas. O que nao faz: a enorme maioria esta viajando paga pelos pais, sem previsao de volta (leia-se começo de carreira). Linnea, por exemplo, viaja ha quatro anos sem a mais vaga idéia do que quer fazer de faculdade.
Pode-se argumentar a seu favor que eles ja estao vivendo fora da casa dos pais, o que é uma coisa que a maioria dos paulistas ainda nao fez e nem encontra motivo para fazer. Mas enfim, baseando-me nos espécimes que conheci aqui, a rebeldia adolescente, a fase pré-carreira e os pequenos vicios da juventude permanecem até além dos 30. Um quadro preocupante: se é assim, a que idade vao começar a constituir familia (se é que ainda pretendem fazer isso...)?
O esquema do ensino universitario aqui passa por tres anos de um curso basico e mais dois de especializaçao: seria como se eu fizesse tres anos de publicidade em geral e dois de direçao de arte. Se bem que os cursos aqui sao mais genéricos. As pessoas fazem ciencia da comunicaçao e se especializam em publicidade, nao começam com algo tao especifico. Enfim, cinco anos de formaçao, sem falar nos dois anos nos quais o individuo passa viajando a Europa (chamado "erasmus" por aqui). Assim que a turma por aqui se forma aos 25, 26. Até ai, sem grandes diferenças da situaçao brasileira. O que muda é que, enquanto o paulista médio começa a procurar estagio e exercer a carreira logo nos primeiros anos de curso, o europeu so o faz depois de formado. Enquanto isso, faz qualquer trabalhinho ridiculo em bar, restaurante ou loja, so pra dizer que paga as contas. O que nao faz: a enorme maioria esta viajando paga pelos pais, sem previsao de volta (leia-se começo de carreira). Linnea, por exemplo, viaja ha quatro anos sem a mais vaga idéia do que quer fazer de faculdade.
Pode-se argumentar a seu favor que eles ja estao vivendo fora da casa dos pais, o que é uma coisa que a maioria dos paulistas ainda nao fez e nem encontra motivo para fazer. Mas enfim, baseando-me nos espécimes que conheci aqui, a rebeldia adolescente, a fase pré-carreira e os pequenos vicios da juventude permanecem até além dos 30. Um quadro preocupante: se é assim, a que idade vao começar a constituir familia (se é que ainda pretendem fazer isso...)?
Perugia by night
Escrevi por aqui sobre a ida a uma ou outra balada, mas ocorre-me que ainda nao relatei sobre a vida noturna em Perugia e suas peculiaridades.
De forma geral, a vida notura aqui acontece em duas fases. Quando o céu escurece, os estudantes retiram-se para seus quartos alugados, batalham com o fogao pelo jantar e esperam até as dez da noite. Nada aqui acontece de fato antes das dez. A primeira fase da noite é protagonizada inteiramente pelos bares. Eles funcionam antes das dez como restaurantes ou lugares para fazer um aperitivo (bebida + besteirinhas, salgadinhos, amendoins...), mas os estudantes estrangeiros raramente usufruem desses serviços, preferindo comer em casa. Quando as dez da noite vem chegando, eles começam a aprecer em numeros timidos, mas em um fluxo constante. De repente, musica: um DJ toca Camisa Negra, ou Scrutatore non votante e voce nem percebe quando começa a festa, de tao sutil que é a mudança. Pode-se entrar à vontade e gratuitamente nos bares, o que encoraja muita gente a fazer o bar-hopping, saltando de bar em bar à procura dos amigos e lugares mais animados e gastando bem pouco. Esta primeira fase da noite dura até as duas da manha, quando os onibus para as baladas saem da Piazza Fortebraccio levando a turma mais animada para a segunda fase da noite.
Nesta primeira fase, nao posso deixar de mencionar os lugares mais conhecidos. O Copacabana é o reduto brazuca, com samba de ma qualidade às quintas compensado por otima bossa nova aos domingos e caipirinhas variadas. Bem perto, o Morlacchi reune os outros latino-americanos principalmente às sextas, com ritmos calientes e 32 variedades de chocolate. Por perto, a Tana dell'Orso reune uma boa quantidade de palestinos e mais uns tantos gatos-pingados. Perto do Duomo, o Shamrock encabeça a lista de pubs peruginos, juntando ingleses, americanos, irlandeses e demais anglofonos. Finalmente, mais para baixo do Corso Vannucci, o Merlin é chefiado por uma trupe de belos e fortes rapazes que constituem uma espécie de turma popular dos bares daqui e atraem uma vasta mulherada. Ha muitos outros bares, mas estes sao os nomes mais ouvidos nas rodinhas de estrangeiros das quais eu faço parte.
Se voce aguentou ficar até as duas no bar, alguns deles fazem promoçoes conjuntas com as discotecas, e voce pode entrar nestas sem pagar mostrando uma nota fiscal ou acompanhando algum barista, que normalmente leva consigo uma consideravel corte. Dentro do burgo temos a Domus, pequena, abafada, relativamente mal-falada, embora sempre cheia; ou o Zoologico, do qual ainda nao tenho informaçoes. Ou voce pode pegar os onibus gratuitos para alguma dessas baladas com nomes europeus exoticos: Gradiska, Matrioska, Etoile, Maddalena, Red Zone... Sem as promoçoes dos bares, paga-se €10,00, com direito a uma bebida.
A segunda fase da noite, majoritariamente desenvolvida nas discotecas, vai até as quatro da manha, quando os onibus levam a turma de volta para o burgo. Dai, é um lanche rapido e casa, tres horas antes de ter que acordar para as aulas.
Pessoalmente, eu fico nos bares e raramente me aventuro na segunda fase.
Um detalhe interessante: é expressamente proibido fumar dentro dos estabelecimentos, sejam bares ou discotecas. Os fumantes precisam sair para fumar, e todos os lugares tem acesso facil à parte de fora, o que garante alguns efeitos interessantes. Primeiramente, é fantastico chegar em casa sem feder a cigarro. Depois, os fumantes todos acabam adoecendo por ficarem transitando entre o calor abafado e o frio gélido. Obviamente, o cigarro nao os ajuda muito a recobrar a saude, mas vai dizer isso a eles... Por ultimo, e isso eu queria poder testar cientificamente, por ter muito mais ar limpo na balada, o pessoal dura muito mais, dança muito mais. E viva o costume europeu!
De forma geral, a vida notura aqui acontece em duas fases. Quando o céu escurece, os estudantes retiram-se para seus quartos alugados, batalham com o fogao pelo jantar e esperam até as dez da noite. Nada aqui acontece de fato antes das dez. A primeira fase da noite é protagonizada inteiramente pelos bares. Eles funcionam antes das dez como restaurantes ou lugares para fazer um aperitivo (bebida + besteirinhas, salgadinhos, amendoins...), mas os estudantes estrangeiros raramente usufruem desses serviços, preferindo comer em casa. Quando as dez da noite vem chegando, eles começam a aprecer em numeros timidos, mas em um fluxo constante. De repente, musica: um DJ toca Camisa Negra, ou Scrutatore non votante e voce nem percebe quando começa a festa, de tao sutil que é a mudança. Pode-se entrar à vontade e gratuitamente nos bares, o que encoraja muita gente a fazer o bar-hopping, saltando de bar em bar à procura dos amigos e lugares mais animados e gastando bem pouco. Esta primeira fase da noite dura até as duas da manha, quando os onibus para as baladas saem da Piazza Fortebraccio levando a turma mais animada para a segunda fase da noite.
Nesta primeira fase, nao posso deixar de mencionar os lugares mais conhecidos. O Copacabana é o reduto brazuca, com samba de ma qualidade às quintas compensado por otima bossa nova aos domingos e caipirinhas variadas. Bem perto, o Morlacchi reune os outros latino-americanos principalmente às sextas, com ritmos calientes e 32 variedades de chocolate. Por perto, a Tana dell'Orso reune uma boa quantidade de palestinos e mais uns tantos gatos-pingados. Perto do Duomo, o Shamrock encabeça a lista de pubs peruginos, juntando ingleses, americanos, irlandeses e demais anglofonos. Finalmente, mais para baixo do Corso Vannucci, o Merlin é chefiado por uma trupe de belos e fortes rapazes que constituem uma espécie de turma popular dos bares daqui e atraem uma vasta mulherada. Ha muitos outros bares, mas estes sao os nomes mais ouvidos nas rodinhas de estrangeiros das quais eu faço parte.
Se voce aguentou ficar até as duas no bar, alguns deles fazem promoçoes conjuntas com as discotecas, e voce pode entrar nestas sem pagar mostrando uma nota fiscal ou acompanhando algum barista, que normalmente leva consigo uma consideravel corte. Dentro do burgo temos a Domus, pequena, abafada, relativamente mal-falada, embora sempre cheia; ou o Zoologico, do qual ainda nao tenho informaçoes. Ou voce pode pegar os onibus gratuitos para alguma dessas baladas com nomes europeus exoticos: Gradiska, Matrioska, Etoile, Maddalena, Red Zone... Sem as promoçoes dos bares, paga-se €10,00, com direito a uma bebida.
A segunda fase da noite, majoritariamente desenvolvida nas discotecas, vai até as quatro da manha, quando os onibus levam a turma de volta para o burgo. Dai, é um lanche rapido e casa, tres horas antes de ter que acordar para as aulas.
Pessoalmente, eu fico nos bares e raramente me aventuro na segunda fase.
Um detalhe interessante: é expressamente proibido fumar dentro dos estabelecimentos, sejam bares ou discotecas. Os fumantes precisam sair para fumar, e todos os lugares tem acesso facil à parte de fora, o que garante alguns efeitos interessantes. Primeiramente, é fantastico chegar em casa sem feder a cigarro. Depois, os fumantes todos acabam adoecendo por ficarem transitando entre o calor abafado e o frio gélido. Obviamente, o cigarro nao os ajuda muito a recobrar a saude, mas vai dizer isso a eles... Por ultimo, e isso eu queria poder testar cientificamente, por ter muito mais ar limpo na balada, o pessoal dura muito mais, dança muito mais. E viva o costume europeu!
terça-feira, março 21, 2006
Da aula...
Berlino bombardata
Berlino vuota
Berlino morta
Resta soltanto un piccolo bambino-farfalla. Camina tra la distruizione e la disperazione e ride. Libero del dolore, del fredo e della fammer, percorre le trince di una guerra già finita che è, per lui, un immenso parco. Sale agli edificci dove adesso non abbita nessuno ed esplora le stanze e i ricordi dei tedeschi ormai morti, degli ebrei uccisi, degli omossessuali spariti.
Nessuna parete lo ferma e nessun cadavere lo spaventa. Perchè lui non è un bimbo: è l'anima della speranza, che solo può esistere dopo l'orrore della guerra con molta ingenuità e tenereza.
Baseado em uma foto de um fotografo frances chamado Arnot (eu acho...), que eu nao estou conseguindo encontrar na internet. Se alguém souber do nome do fotografo direito ou achar a foto entitulada "Butterfly-child", me diga.
Berlino bombardata
Berlino vuota
Berlino morta
Resta soltanto un piccolo bambino-farfalla. Camina tra la distruizione e la disperazione e ride. Libero del dolore, del fredo e della fammer, percorre le trince di una guerra già finita che è, per lui, un immenso parco. Sale agli edificci dove adesso non abbita nessuno ed esplora le stanze e i ricordi dei tedeschi ormai morti, degli ebrei uccisi, degli omossessuali spariti.
Nessuna parete lo ferma e nessun cadavere lo spaventa. Perchè lui non è un bimbo: è l'anima della speranza, che solo può esistere dopo l'orrore della guerra con molta ingenuità e tenereza.
Baseado em uma foto de um fotografo frances chamado Arnot (eu acho...), que eu nao estou conseguindo encontrar na internet. Se alguém souber do nome do fotografo direito ou achar a foto entitulada "Butterfly-child", me diga.
Fim de semana 7: descanso
No sabado de manha, fiz meu ultimo dia de volantinaggio naquele mercadinho que eu mencionei no começo da viagem. Foi relativamente facil e rapido, devido à quantidade de carros. No entanto, quando cheguei em casa, percebi o quanto eu estava exausto. Nao tanto mentalmente, no sentido de estar com sono ou sem capacidade de foco, mas fisicamente. Meu corpo estava mostrando sinais de desgaste. Sem planos para o fim de semana, resolvi tirar os dois dias para concertar a maquina.
Passei a maior parte do sabado dormindo e jurando que eu jamais faria volantinaggio outra vez. Na segunda, iria até a empresa e diria que nao queria mais. Ja tinha até dois outros rapazes para substituir a mim e ao outro brasileiro que estava de partida para Londres.
As meninas, começava a perceber, passavam os fins de semana enfurnadas em casa. Andando de quarto em quarto como gatas preguiçosas entre os dois cachorros, conversando naquele italiano corroido de quem fala rapido demais e com sotaque sulista (soube que todas sao da Puglia, no sul da Italia... e eu que tinha medo de ir para o sul por nao entende-los falando fui cair justo aqui). A noite sai, mas sequer me lembro do que fiz. Acordei de madrugada, quatro da manha. Mimmo dormindo na minha cama. Adoro dormir com cachorros na cama, mas se isso se tornar um habito, terei que lavar os lençois mais frequentemente. Acordo-o e empurro-o para fora. Ele deita na poltrona, mas logo vem até a beira da cama e apoia a cabeça no colchao: seu verbete para "por favor". Esta bem. So esta noite.
No dia seguinte, efetuando os testes e percebendo que minhas costas ja estao restauradas, resolvo passear pela Perugia que ainda nao vi. No mapa, à esquerda, a faculdade de Belas Artes: estou aqui ha dois meses e ainda nao vi. Tomo as ruas de uma Perugia chuvosa em um domingo deprimido. A cidade parece como eu me sinto fisicamente (nao emocionalmente, nao se preocupem...).
Cometo meu erro mais comum: ir nos lugares no domingo e encontra-los fechados. A faculdade de Belas Artes tem uma enorme catedral que esta fechada para reformas. Antes de ver a placa, meu olho pega um detalhe através das janelas sem vitrais: a catedral nao tem nada da parede de tras! Achando curioso demais para um detalhe arquitetonico, encontro a placa da reforma: catedral fechada para restauro dos danos causados pelos eventos sismicos de 1997. Explicado. Parece até uma intervençao divina: o terremoto destroi as catedrais (depois fui descobrir outras em estado similar) mas nao tenho noticia de que tenha feito algo às casas.
Indo para casa, encontro no lixo uma daquelas camas dobraveis de hospede. Um detalhe insignificante. Porém à noite, sonho estar na catedral depois da morte de alguém desconhecido. Caminho de braços dados com Linnea, que me fala em suéco. No lugar da cama, encontro um balanço de parquinho enferrujado e entendo que quem morreu foi uma criança. Acordo na segunda tendo esquecido metade do sonho, mas estranhamente interessado na morte da criança: quem sera?
Passei a maior parte do sabado dormindo e jurando que eu jamais faria volantinaggio outra vez. Na segunda, iria até a empresa e diria que nao queria mais. Ja tinha até dois outros rapazes para substituir a mim e ao outro brasileiro que estava de partida para Londres.
As meninas, começava a perceber, passavam os fins de semana enfurnadas em casa. Andando de quarto em quarto como gatas preguiçosas entre os dois cachorros, conversando naquele italiano corroido de quem fala rapido demais e com sotaque sulista (soube que todas sao da Puglia, no sul da Italia... e eu que tinha medo de ir para o sul por nao entende-los falando fui cair justo aqui). A noite sai, mas sequer me lembro do que fiz. Acordei de madrugada, quatro da manha. Mimmo dormindo na minha cama. Adoro dormir com cachorros na cama, mas se isso se tornar um habito, terei que lavar os lençois mais frequentemente. Acordo-o e empurro-o para fora. Ele deita na poltrona, mas logo vem até a beira da cama e apoia a cabeça no colchao: seu verbete para "por favor". Esta bem. So esta noite.
No dia seguinte, efetuando os testes e percebendo que minhas costas ja estao restauradas, resolvo passear pela Perugia que ainda nao vi. No mapa, à esquerda, a faculdade de Belas Artes: estou aqui ha dois meses e ainda nao vi. Tomo as ruas de uma Perugia chuvosa em um domingo deprimido. A cidade parece como eu me sinto fisicamente (nao emocionalmente, nao se preocupem...).
Cometo meu erro mais comum: ir nos lugares no domingo e encontra-los fechados. A faculdade de Belas Artes tem uma enorme catedral que esta fechada para reformas. Antes de ver a placa, meu olho pega um detalhe através das janelas sem vitrais: a catedral nao tem nada da parede de tras! Achando curioso demais para um detalhe arquitetonico, encontro a placa da reforma: catedral fechada para restauro dos danos causados pelos eventos sismicos de 1997. Explicado. Parece até uma intervençao divina: o terremoto destroi as catedrais (depois fui descobrir outras em estado similar) mas nao tenho noticia de que tenha feito algo às casas.
Indo para casa, encontro no lixo uma daquelas camas dobraveis de hospede. Um detalhe insignificante. Porém à noite, sonho estar na catedral depois da morte de alguém desconhecido. Caminho de braços dados com Linnea, que me fala em suéco. No lugar da cama, encontro um balanço de parquinho enferrujado e entendo que quem morreu foi uma criança. Acordo na segunda tendo esquecido metade do sonho, mas estranhamente interessado na morte da criança: quem sera?
sábado, março 18, 2006
Fim de semana 6: um fim de semana sacro.
Eu sei: eu to demorando demais pra escrever os meus finais de semana, que sao os dias mais legais. To escrevendo o fim de semana passado hoje, no sabado seguinte...
Acordei bem tarde no sabado: novamente, efeitos da noite anterior no Morlacchi, porque uma mexicana muito querida deixaria Perugia no dia seguinte e ficamos por la até altas horas.
O sabado esvaiu-se em trivialidades e recuperaçao da noite anterior. De fato, todos na casa (excessao feita ao Mimmo, obvio...) tinham aquele aspecto destruido do dia seguinte à festa. Comemos, conversamos muito. Besteiras: o exame de espanhol de Fabiana, o trabalho de Sara no restaurante siciliano, Mary e as novas tintas para pintar o cabelo de roxo. Tudo regado a um pouco de Cure e a pintura da mascara de Rochelle.
E entao caiu a noite e sai de casa em direçao ao Duomo de Perugia (Catedral de S. Lorenzo no começo do Corso Vannucci, numero 14 do mapa). Tinha assistido na quinta passada a um concerto de um coro de americanos evangélicos no Palazzo Gallenga e soube que cantariam naquele sabado no Duomo: supus que a apresentaçao fosse mais sobria, menos humoristica, mas com um som muito mais... divino.
De fato, evitavam algumas das brincadeiras. Senti falta do intervalo que fizeram no Gallenga, com um quarteto de metais que tocou um medley de Hallelujah de Handel com When the saints go marching in enquanto o coro descansava. Mas a orquestra de violinos, harpa e instrumentos de sopro no Duomo compensava. Ah, e os solistas italianos também. A noite foi passada viajando nos acordes do coro enquanto meus olhos viajavam pela pequena coleçao de quadros gigantescos do Duomo (nenhum artista conhecido, mas todos belissimos). Minha memoria voltava aos primeiros dias em Perugia quando, ainda com medo da minha crise de ansiedade depois do ataque em Milao, e tomado pela grandeza e beleza do Duomo, eu entrei na capela para admirar os belos afrescos e pedi por proteçao. Assim, com a gramatica descuidada e rotineira de quem fala com um conhecido que nao ve ha tempos. Até agora, tirando a momentanea crise no Merlin, nada sério. Quem conhece minhas crenças sabe que sou pouco inclinado a toma-lo como um sinal divino, mas vou agradecer muito se voltar ao Brasil incolume.
Depois do concerto, encontrei os coristas na pizzaria de esquina, no Corso Vannucci. Belos como anjos. Os temas, no entanto, eram bem mais mundanos. Compliments on your english, dude!
Domir cedo. No dia seguinte, queria ir para alguma das cidades vizinhas que me haviam aconselhado visitar. Tinha comprado o pacote de viagem para Orvieto, para visitar o cemitério etrusco e outras antiguidades, mas como éramos apenas 12, o passeio foi cancelado. O que me colocava diante da escolha: fazer Orvieto sozinho, ou ir para Assis? A experiencia sacra da noite anterior, os relatos das belas catedrais e a historia de Sao Francisco e Santa Clara me fizeram decidir por Assis. Ah, sim: sendo mais perto, o preço do trem era ridiculamente menor também. €1,65 contra os €7,70 de Orvieto.
Na estaçao, encontrei Natalia, a paraguaia, com uma outra conterranea. Iriam para Assis também e passamos boa parte do dia juntos. Apesar da resistencia de Natalia, acabamos migrando do italiano para o espanhol, com um pouco de dificuldade no meus caso.
Assis era uma cidade pequena na encosta de uma montanha (suponho que seja o Monte Subasio, o mais alto da Umbria). No centro, onde estavam todos os pontos turisticos, dava pra ver a parte expandida da cidade ao pé do Monte, espalhando-se por uma planicie que parecia nao ter fim. Por ser um vista plana, me lembrava o mar (em termos de composiçao, coisa de artista...). E nao podia evitar a comparaçao com a composiçao que eu vi quando estive no Rio, de uma cidade que também ficava ao pé da montanha, com uma vista linda de uma area plana.
O aspecto geral da cidade nao era muito diferente das outras cidades pequenas que eu tinha visto por aqui: tudo feito de pedra, tons de bege e marrom, bela arquitetura e aquele visual Samorost. Mas eu começava a perceber que eles tinham um costume de fazer edificaçoes listradas. E cada cidade escolhia uma cor especifica: lembro que Firenze tinha escolhido o verde (vide o Duomo). Assis escolhera um tom de vermelho meio morto, um bordo apagado. Via o chao das pizzas com listas desse bordo intercaladas com o tom de pedra comum, ou pequenas igrejas com as fachadas listradas. Por um momento, pensei que o costume fosse também responsavel pelas vestes dos gondoleiros venezianos, listradas de vermelho e branco.
Para evitar a fadiga, resolvemos começar do alto da cidade e descer. Passamos pela catedral de S. Rufino sem entrar porque tinhamos a catedral de S. Francisco em mente. Descendo pelo meio da cidade, passamos o templo de Minerva. Pelo que entendi, tudo que restou do templo foram as colunas jonicas na fachada. Posteriormente, foi construida uma igreja para uma das centenas de Marias da religiao catolica, dentro do que restou do templo. Lembrava-me daquele fato comum de uma Maria da religiao catolica ser identificada com alguma deusa paga e passar a exercer o mesmo papel social que o da deusa anterior.
A Catedral de S. Francisco (droga, nao achei foto...) ficava em um extremo da cidade. Era um gigantesco complexo que, na verdade, abrigava duas ou mais areas para missas e um convento. A area de cima, cujo acesso era pela frente do complexo, por uma fachada maravilhosamente detalhada, dava para uma area enorme, com afrescos da vida do Santo parcialmente restaurados. Expliquei para as meninas que, quando se restaura uma obra historia, a ética comanda que se faça levemente diferente, com um tom mais claro ou escuro, ou menos detalhes, de modo a salientar que aquela area foi restaurada e respeitar o original do autor. Na parte de baixo, outra area para missas mais sombria, por ser meio subterranea. E do lado, uma escadinha levava para a tumba de S. Francisco.
A catacumba onde S. Francisco foi enterrado parecia algo tirado de filmes de vampiro atuais como Underworld. Era organizado de um modo muito simbolico e especifico. Um corredor pequeno com uma grade de metal no começo abria na outra ponta para uma sala com uma enorme coluna no centro. Em um nicho na coluna, uma arca com, supostamente, as cinzas ou restos do Santo. Um pequeno altar na frente onde as pessoas se ajoelhavam para rezar, ou depositavam longas velas compradas na entrada da catacumba por qualquer quantia simbolica que a pessoa quizesse dar. Ao redor da grande coluna, os cantos da sala tinham cada um uma grade que guardava por tras as cinzas ou restos de quatro companheiros do Santo: Rufino, Agnelo, Masseo e Leone (parente?). Entre uma tumba e outra, pequenas salinhas com bancos para os fieis rezarem. Vista de cima, a catacumba teria o aspecto de uma cruz, o corredor sendo a haste de baixo, mais longa, e a tumba do Santo bem no encontro das hastes. Ninguém falava nada. Ouvia-se apenas o farfalhar do nylon das roupas de inverno e uma espécie de som abafado ininterrupto (um som do silencio, talvez). Sentia-se no ar uma atmosfera de extrema solenidade e eu quase me senti religioso. A sensaçao me deu uma idéia para depois.
Saimos da igreja. Proxima parada, a Igreja de Santa Clara.
Caminhando pela cidade, passavamos por diversas lojinhas de quinquilharias. Vendiam toda sorte de comercializaçao da imagem do Santo, de medalhinhas a sandalhinhas, imagens de Francisco com barba, sem barba, mais caricato, mais ilustrativo. O mais estranho é que essas lojinhas vendiam também uma gama variadissima de armas medievais. Espadas, maças, bestas, arcos, pistolas antigas, arcabuzes, até uma ou outra armadura. Irae teria adorado. Perguntando a um vendedor como é que uma cidade tao sacra vendia tantas armas, ele respondeu que a produçao de Gubbio, cidade proxima, se disseminava por todas as cidades da regiao, independente de serem ou nao religiosas assim.
Almoço na frente da Igreja de Santa Clara. Sanduiches e cha. Tenho bebido muito cha recentemente, recusando-me a voltar ao vicio da Coca e nao encontrando uma variedade satisfatoria de sucos. A fachada da Igreja era belissima, com uma arquitetura de design moderno para a época, com arcos que nao tinham outro objetivo alem de embelezar a estrutura.
A Igreja de Santa Clara abrigava também a tumba da Santa. Agora quando me lembro, nao consigo lembrar da estrutura da coisa toda, porque estava muito entretido lendo a historia ilustrada da Santa colocada nas paredes. No fundo da sala, um caixao tinha por cima uma imagem de madeira da Santa, com roupas de verdade. Supostamente em escala real: ela era minuscula!
Na saida, uma vitrine protegida por grades abrigava as vestes de Santa Clara e Sao Francisco, além de alguns pertences pessoais.
Depois de ver mais algumas igrejas menores, nos dirigimos ao ultimo lugar no nosso itineraio: a Igreja de S. Rufino (sim, aquela do começo...). Recebidos por um empregado da Igreja sem um olho, entramos para admirar o lugar, que tinha painéis de vidro no chao pelos quais se via ruinas antigas sobre as quais a Igreja fora construida.
Comparando as igrejas menores, a de Santa Clara, e mesmo um pouco da de Sao Francisco, dava pra compreender um padrao: todas contruidas em uma planta em forma de cruz, com o altar na junçao das hastes e imensas redomas sobre ele, que recebiam a luz do sol de forma divina. Detalhe: os altares era, quase sempre, construidos sobre bases circulares. Os fiéis ficam na haste maior e as outras servem para abrigar autoridades seculares, assim como sacristaos e outros servos eclesiasticos.
Havia nesse padrao uma simbologia tacita, que falava de uma época anterior, onde os rituais eram feitos em volta do altar circular e todo mundo era considerado igual abaixo do sacerdote, sem distinçao de posto. Uma época onde o simbolo mais importante era o circulo, porque significava além dessa igualdade em torno de um centro superior, uma idéia de continuidade, infinito. Mas entao as igrejas parecem ter germinado para fora deste circulo principal em quatro direçoes, formando a planta atual, em forma de cruz, com distinçoes hierarquicas.
Na volta para nosso lugar de partida, para pegar o onibus, uma surpresa: nevou de novo! O tempo aqui muda com uma velocidade surreal: quando estavamos em Santa Clara, o sol batia forte e o céu era claro. Mas pouco menos de uma hora depois, em Sao Rufino, o céu era branco e nevava tanto que nao se via a cidade na planicie. Era neve de chuva: pesada, violenta, fustigando as pessoas e se acumulando em uma densa e pesada camada de gelo sobre meu guarda-chuva, que eu precisava chacoalhar de tempos em tempos. Nao me aventurava a cobrir-me dessa neve molhada...
Quando chegamos ao ponto de onibus, as meninas subiram, mas eu disse que ficaria. Perguntei onde era o Ermo del Carcere, o lugar onde Sao Franisco se retirava para rezar na floresta e o motorista disse-me ser a quatro quilometros de la. Muito. Disse às meninas que ficaria mesmo assim. Tinha planos em mente.
Descendo de volta na cidade, passei por uma lojinha onde resolvi comprar alguns presentes para duas pessoas especiais que me ajudaram muito a vir para a Italia. O primeiro, nao posso dizer porque quero fazer surpresa quando voltar. Vi-o em uma vitrine e lembrei muito da pessoa. Gosto de dar presente assim: nao como uma mera formalidade da ocasiao, mas porque passei em frente da loja e vi o presente perfeito. Quando é assim, nem me importo tanto com o dinheiro.
O segundo presente, vi em uma das lojinhas a caminho da Catedral de Sao Francisco. Tinha pensado nisso quando peguei minha carteira para pagar meu almoço: encontrei o crucifixo que minha avo me dera antes de partir. O mesmo que eu lhe dera da minha primeira comunhao. E que ela me dera dizendo-me ser um amuleto para a viagem e para eu vir devolve-lo pessoalmente quando voltasse. Estivera na minha mochila desde entao e nunca o tirei de la. Sempre comigo. Na lojinha a caminho da Catedral, vi em uma vitrine uma bela coleçao de pequenos crucifixos. Entrei e comprei um. Era um crucifixo que vibrava com uma energia que parecia com a minha: era de uma liga metalica negra, reluzente, com uma pequena moeda no centro. As cores mais do que tudo faziam-me ter essa sensaçao de identificaçao. De que eu podia chamar este de meu crucifixo. O vendedor disse tratar-se do crucifixo de Sao Bento, ou da boa morte. Por mais macabro que fosse, nao pude negar que achei o detalhe ainda mais coincidente comigo, que sempre dou uma certa atençao ao fenomeno. Concordo que nao era uma idéia bela para um presente a uma pessoa tao querida, mas me deixei levar pela identificaçao com a peça mais do que por seu significado.
Na Catedral de Sao Francisco, levei o crucifixo à grande coluna. Ajoelhei-me diante dela e, sem uma linguagem muito pomposa, pedi uma beçao. Foi uma sensaçao estranha: minhas crenças me diziam para nao acreditar em preces. Que se havia uma força, ela sequer sabia da nossa existencia. Mas o fato de eu nao ter crises de ansiedade relevantes até entao estava sendo interpretado como uma espécie de proteçao adquirida na noite em que rezei no Duomo de Perugia. E, embora eu nao me permitisse acreditar o suficiente nisso, eu estava jogando o jogo.
Na saida da Catedral, discretamente molhei a cruz na agua benta. Guardo-a em casa com todo cuidado.
A volta para Perugia aconteceu relativamente cedo, comparando aos outros dias. Conheci tres italianas no trem, que perguntaram se eu era da Espanha: efeito no meu sotaque de ter passado o dia inteiro falando espanhol com as meninas.
Acordei bem tarde no sabado: novamente, efeitos da noite anterior no Morlacchi, porque uma mexicana muito querida deixaria Perugia no dia seguinte e ficamos por la até altas horas.
O sabado esvaiu-se em trivialidades e recuperaçao da noite anterior. De fato, todos na casa (excessao feita ao Mimmo, obvio...) tinham aquele aspecto destruido do dia seguinte à festa. Comemos, conversamos muito. Besteiras: o exame de espanhol de Fabiana, o trabalho de Sara no restaurante siciliano, Mary e as novas tintas para pintar o cabelo de roxo. Tudo regado a um pouco de Cure e a pintura da mascara de Rochelle.
E entao caiu a noite e sai de casa em direçao ao Duomo de Perugia (Catedral de S. Lorenzo no começo do Corso Vannucci, numero 14 do mapa). Tinha assistido na quinta passada a um concerto de um coro de americanos evangélicos no Palazzo Gallenga e soube que cantariam naquele sabado no Duomo: supus que a apresentaçao fosse mais sobria, menos humoristica, mas com um som muito mais... divino.
De fato, evitavam algumas das brincadeiras. Senti falta do intervalo que fizeram no Gallenga, com um quarteto de metais que tocou um medley de Hallelujah de Handel com When the saints go marching in enquanto o coro descansava. Mas a orquestra de violinos, harpa e instrumentos de sopro no Duomo compensava. Ah, e os solistas italianos também. A noite foi passada viajando nos acordes do coro enquanto meus olhos viajavam pela pequena coleçao de quadros gigantescos do Duomo (nenhum artista conhecido, mas todos belissimos). Minha memoria voltava aos primeiros dias em Perugia quando, ainda com medo da minha crise de ansiedade depois do ataque em Milao, e tomado pela grandeza e beleza do Duomo, eu entrei na capela para admirar os belos afrescos e pedi por proteçao. Assim, com a gramatica descuidada e rotineira de quem fala com um conhecido que nao ve ha tempos. Até agora, tirando a momentanea crise no Merlin, nada sério. Quem conhece minhas crenças sabe que sou pouco inclinado a toma-lo como um sinal divino, mas vou agradecer muito se voltar ao Brasil incolume.
Depois do concerto, encontrei os coristas na pizzaria de esquina, no Corso Vannucci. Belos como anjos. Os temas, no entanto, eram bem mais mundanos. Compliments on your english, dude!
Domir cedo. No dia seguinte, queria ir para alguma das cidades vizinhas que me haviam aconselhado visitar. Tinha comprado o pacote de viagem para Orvieto, para visitar o cemitério etrusco e outras antiguidades, mas como éramos apenas 12, o passeio foi cancelado. O que me colocava diante da escolha: fazer Orvieto sozinho, ou ir para Assis? A experiencia sacra da noite anterior, os relatos das belas catedrais e a historia de Sao Francisco e Santa Clara me fizeram decidir por Assis. Ah, sim: sendo mais perto, o preço do trem era ridiculamente menor também. €1,65 contra os €7,70 de Orvieto.
Na estaçao, encontrei Natalia, a paraguaia, com uma outra conterranea. Iriam para Assis também e passamos boa parte do dia juntos. Apesar da resistencia de Natalia, acabamos migrando do italiano para o espanhol, com um pouco de dificuldade no meus caso.
Assis era uma cidade pequena na encosta de uma montanha (suponho que seja o Monte Subasio, o mais alto da Umbria). No centro, onde estavam todos os pontos turisticos, dava pra ver a parte expandida da cidade ao pé do Monte, espalhando-se por uma planicie que parecia nao ter fim. Por ser um vista plana, me lembrava o mar (em termos de composiçao, coisa de artista...). E nao podia evitar a comparaçao com a composiçao que eu vi quando estive no Rio, de uma cidade que também ficava ao pé da montanha, com uma vista linda de uma area plana.
O aspecto geral da cidade nao era muito diferente das outras cidades pequenas que eu tinha visto por aqui: tudo feito de pedra, tons de bege e marrom, bela arquitetura e aquele visual Samorost. Mas eu começava a perceber que eles tinham um costume de fazer edificaçoes listradas. E cada cidade escolhia uma cor especifica: lembro que Firenze tinha escolhido o verde (vide o Duomo). Assis escolhera um tom de vermelho meio morto, um bordo apagado. Via o chao das pizzas com listas desse bordo intercaladas com o tom de pedra comum, ou pequenas igrejas com as fachadas listradas. Por um momento, pensei que o costume fosse também responsavel pelas vestes dos gondoleiros venezianos, listradas de vermelho e branco.
A Catedral de S. Francisco (droga, nao achei foto...) ficava em um extremo da cidade. Era um gigantesco complexo que, na verdade, abrigava duas ou mais areas para missas e um convento. A area de cima, cujo acesso era pela frente do complexo, por uma fachada maravilhosamente detalhada, dava para uma area enorme, com afrescos da vida do Santo parcialmente restaurados. Expliquei para as meninas que, quando se restaura uma obra historia, a ética comanda que se faça levemente diferente, com um tom mais claro ou escuro, ou menos detalhes, de modo a salientar que aquela area foi restaurada e respeitar o original do autor. Na parte de baixo, outra area para missas mais sombria, por ser meio subterranea. E do lado, uma escadinha levava para a tumba de S. Francisco.
A catacumba onde S. Francisco foi enterrado parecia algo tirado de filmes de vampiro atuais como Underworld. Era organizado de um modo muito simbolico e especifico. Um corredor pequeno com uma grade de metal no começo abria na outra ponta para uma sala com uma enorme coluna no centro. Em um nicho na coluna, uma arca com, supostamente, as cinzas ou restos do Santo. Um pequeno altar na frente onde as pessoas se ajoelhavam para rezar, ou depositavam longas velas compradas na entrada da catacumba por qualquer quantia simbolica que a pessoa quizesse dar. Ao redor da grande coluna, os cantos da sala tinham cada um uma grade que guardava por tras as cinzas ou restos de quatro companheiros do Santo: Rufino, Agnelo, Masseo e Leone (parente?). Entre uma tumba e outra, pequenas salinhas com bancos para os fieis rezarem. Vista de cima, a catacumba teria o aspecto de uma cruz, o corredor sendo a haste de baixo, mais longa, e a tumba do Santo bem no encontro das hastes. Ninguém falava nada. Ouvia-se apenas o farfalhar do nylon das roupas de inverno e uma espécie de som abafado ininterrupto (um som do silencio, talvez). Sentia-se no ar uma atmosfera de extrema solenidade e eu quase me senti religioso. A sensaçao me deu uma idéia para depois.
Saimos da igreja. Proxima parada, a Igreja de Santa Clara.
Caminhando pela cidade, passavamos por diversas lojinhas de quinquilharias. Vendiam toda sorte de comercializaçao da imagem do Santo, de medalhinhas a sandalhinhas, imagens de Francisco com barba, sem barba, mais caricato, mais ilustrativo. O mais estranho é que essas lojinhas vendiam também uma gama variadissima de armas medievais. Espadas, maças, bestas, arcos, pistolas antigas, arcabuzes, até uma ou outra armadura. Irae teria adorado. Perguntando a um vendedor como é que uma cidade tao sacra vendia tantas armas, ele respondeu que a produçao de Gubbio, cidade proxima, se disseminava por todas as cidades da regiao, independente de serem ou nao religiosas assim.
A Igreja de Santa Clara abrigava também a tumba da Santa. Agora quando me lembro, nao consigo lembrar da estrutura da coisa toda, porque estava muito entretido lendo a historia ilustrada da Santa colocada nas paredes. No fundo da sala, um caixao tinha por cima uma imagem de madeira da Santa, com roupas de verdade. Supostamente em escala real: ela era minuscula!
Na saida, uma vitrine protegida por grades abrigava as vestes de Santa Clara e Sao Francisco, além de alguns pertences pessoais.
Comparando as igrejas menores, a de Santa Clara, e mesmo um pouco da de Sao Francisco, dava pra compreender um padrao: todas contruidas em uma planta em forma de cruz, com o altar na junçao das hastes e imensas redomas sobre ele, que recebiam a luz do sol de forma divina. Detalhe: os altares era, quase sempre, construidos sobre bases circulares. Os fiéis ficam na haste maior e as outras servem para abrigar autoridades seculares, assim como sacristaos e outros servos eclesiasticos.
Havia nesse padrao uma simbologia tacita, que falava de uma época anterior, onde os rituais eram feitos em volta do altar circular e todo mundo era considerado igual abaixo do sacerdote, sem distinçao de posto. Uma época onde o simbolo mais importante era o circulo, porque significava além dessa igualdade em torno de um centro superior, uma idéia de continuidade, infinito. Mas entao as igrejas parecem ter germinado para fora deste circulo principal em quatro direçoes, formando a planta atual, em forma de cruz, com distinçoes hierarquicas.
Na volta para nosso lugar de partida, para pegar o onibus, uma surpresa: nevou de novo! O tempo aqui muda com uma velocidade surreal: quando estavamos em Santa Clara, o sol batia forte e o céu era claro. Mas pouco menos de uma hora depois, em Sao Rufino, o céu era branco e nevava tanto que nao se via a cidade na planicie. Era neve de chuva: pesada, violenta, fustigando as pessoas e se acumulando em uma densa e pesada camada de gelo sobre meu guarda-chuva, que eu precisava chacoalhar de tempos em tempos. Nao me aventurava a cobrir-me dessa neve molhada...
Quando chegamos ao ponto de onibus, as meninas subiram, mas eu disse que ficaria. Perguntei onde era o Ermo del Carcere, o lugar onde Sao Franisco se retirava para rezar na floresta e o motorista disse-me ser a quatro quilometros de la. Muito. Disse às meninas que ficaria mesmo assim. Tinha planos em mente.
Descendo de volta na cidade, passei por uma lojinha onde resolvi comprar alguns presentes para duas pessoas especiais que me ajudaram muito a vir para a Italia. O primeiro, nao posso dizer porque quero fazer surpresa quando voltar. Vi-o em uma vitrine e lembrei muito da pessoa. Gosto de dar presente assim: nao como uma mera formalidade da ocasiao, mas porque passei em frente da loja e vi o presente perfeito. Quando é assim, nem me importo tanto com o dinheiro.
O segundo presente, vi em uma das lojinhas a caminho da Catedral de Sao Francisco. Tinha pensado nisso quando peguei minha carteira para pagar meu almoço: encontrei o crucifixo que minha avo me dera antes de partir. O mesmo que eu lhe dera da minha primeira comunhao. E que ela me dera dizendo-me ser um amuleto para a viagem e para eu vir devolve-lo pessoalmente quando voltasse. Estivera na minha mochila desde entao e nunca o tirei de la. Sempre comigo. Na lojinha a caminho da Catedral, vi em uma vitrine uma bela coleçao de pequenos crucifixos. Entrei e comprei um. Era um crucifixo que vibrava com uma energia que parecia com a minha: era de uma liga metalica negra, reluzente, com uma pequena moeda no centro. As cores mais do que tudo faziam-me ter essa sensaçao de identificaçao. De que eu podia chamar este de meu crucifixo. O vendedor disse tratar-se do crucifixo de Sao Bento, ou da boa morte. Por mais macabro que fosse, nao pude negar que achei o detalhe ainda mais coincidente comigo, que sempre dou uma certa atençao ao fenomeno. Concordo que nao era uma idéia bela para um presente a uma pessoa tao querida, mas me deixei levar pela identificaçao com a peça mais do que por seu significado.
Na Catedral de Sao Francisco, levei o crucifixo à grande coluna. Ajoelhei-me diante dela e, sem uma linguagem muito pomposa, pedi uma beçao. Foi uma sensaçao estranha: minhas crenças me diziam para nao acreditar em preces. Que se havia uma força, ela sequer sabia da nossa existencia. Mas o fato de eu nao ter crises de ansiedade relevantes até entao estava sendo interpretado como uma espécie de proteçao adquirida na noite em que rezei no Duomo de Perugia. E, embora eu nao me permitisse acreditar o suficiente nisso, eu estava jogando o jogo.
Na saida da Catedral, discretamente molhei a cruz na agua benta. Guardo-a em casa com todo cuidado.
A volta para Perugia aconteceu relativamente cedo, comparando aos outros dias. Conheci tres italianas no trem, que perguntaram se eu era da Espanha: efeito no meu sotaque de ter passado o dia inteiro falando espanhol com as meninas.
O caso do volantinaggio
Esta semana, fiél ao conselho que me deram de agarrar mesmo as experiencias mais impensaveis, resolvi experimentar um dos trabalhos mais simples, abundantes... e mal-pagos de Perugia: o volantinaggio. Trata-se de distribuir flyers (volantini, do verbo volare, assim como flyer vem de to fly). Pagam-me €100,00 para entregar 12.000 flyers. Isso mesmo, 12.000. Se o faço com ajuda (e ja alistei a um outro brasileiro...), devo dividir a grana também.
Encarei a experiencia como um estudo do cenario publicitario em Perugia. O volantinaggio é tao abundante no burgo porque acaba sendo a unica midia disponivel por aqui. Perugia é uma cidade pequena. Assim que pucas empresas peruginas fazem propaganda na TV ou radio. Nao sei quanto a revistas, mas ha um pouco de propaganda nos jornais. No entanto, por ser uma cidade que vive em funçao dos estudantes estrangeiros, sabe-se que poucos compram o jornal local (a nao ser o "cerco e trovo", para procurar emprego e quartos para alugar...). Existem outdoors, mas muito poucos e em areas especificas na periferia do burgo, todos tomados atualmente por propaganda politica. Ha uma lei por aqui que diz que nao se pode fazer publicidade dentro do burgo, com a finalidade de mante-lo visualmente limpo e conservar os prédios historicos.
O flyer foi a saida perfeita para este ambiente: pode ser produzido de forma rapida e barata (assim os bares e lojas podem fazer promoçoes-relampago aproveitando eventos recentes) e infiltrar o burgo, sendo entregue dentro das faculdades, onde nao ha fiscalizaçao da lei anti-propaganda, direto na mao dos estudantes, que sao o publico-alvo. No mais, em algumas areas na perigeria do burgo, as empresas podem pagar uma taxa às autoridades para fazer o volantinaggio em paz.
Foi assim que eu acabei fazendo o ingrato serviço para uma empresa de financiamento, na periferia. Nesse caso, o publico-alvo obviamente nao eram os estudantes e eu evitava de queimar meu filme importunando os meus colegas com os flyers. De fato, flyers sempre foram uma forma de publicidade que ia contra meus principios: suja a cidade, importuna as pessoas, geralmente é mal-feita e, na maioria dos casos, ineficaz. Mas aqui, com uma eficiencia garantida, sendo a unica possibilidade de propaganda, um bom caso de estudo e minha unica fonte de renda (embora minuscula...), resolvi experimentar. Ao menos por uma semana.
Me pagam na segunda. Minhas costas ja nao aguentam mais carregar o peso (dooooooooor!), e eu estou tao cansado que provavelmente nao vou viajar neste fim de semana... Definitivamente, foi a primeira e unica semana que fiz isso...
Encarei a experiencia como um estudo do cenario publicitario em Perugia. O volantinaggio é tao abundante no burgo porque acaba sendo a unica midia disponivel por aqui. Perugia é uma cidade pequena. Assim que pucas empresas peruginas fazem propaganda na TV ou radio. Nao sei quanto a revistas, mas ha um pouco de propaganda nos jornais. No entanto, por ser uma cidade que vive em funçao dos estudantes estrangeiros, sabe-se que poucos compram o jornal local (a nao ser o "cerco e trovo", para procurar emprego e quartos para alugar...). Existem outdoors, mas muito poucos e em areas especificas na periferia do burgo, todos tomados atualmente por propaganda politica. Ha uma lei por aqui que diz que nao se pode fazer publicidade dentro do burgo, com a finalidade de mante-lo visualmente limpo e conservar os prédios historicos.
O flyer foi a saida perfeita para este ambiente: pode ser produzido de forma rapida e barata (assim os bares e lojas podem fazer promoçoes-relampago aproveitando eventos recentes) e infiltrar o burgo, sendo entregue dentro das faculdades, onde nao ha fiscalizaçao da lei anti-propaganda, direto na mao dos estudantes, que sao o publico-alvo. No mais, em algumas areas na perigeria do burgo, as empresas podem pagar uma taxa às autoridades para fazer o volantinaggio em paz.
Foi assim que eu acabei fazendo o ingrato serviço para uma empresa de financiamento, na periferia. Nesse caso, o publico-alvo obviamente nao eram os estudantes e eu evitava de queimar meu filme importunando os meus colegas com os flyers. De fato, flyers sempre foram uma forma de publicidade que ia contra meus principios: suja a cidade, importuna as pessoas, geralmente é mal-feita e, na maioria dos casos, ineficaz. Mas aqui, com uma eficiencia garantida, sendo a unica possibilidade de propaganda, um bom caso de estudo e minha unica fonte de renda (embora minuscula...), resolvi experimentar. Ao menos por uma semana.
Me pagam na segunda. Minhas costas ja nao aguentam mais carregar o peso (dooooooooor!), e eu estou tao cansado que provavelmente nao vou viajar neste fim de semana... Definitivamente, foi a primeira e unica semana que fiz isso...
Odds and ends...
• O tiramisu, sobremesa tipica, seria traduzido ao pé da letra como "puxe-me para cima", por ser uma subremesa feita com café e um pouco de alcool, e deveria dar aquela energia extra para continuar o dia.
• A pronuncia do tipico italiano perugino, que tenho ouvido das meninas e seus amigos, suprime as ultimas letras dos verbos, assim como o faz o portugues brasileiro atual. Assim, "io bisogno fare..." resulta "io bisogno fa...". O procedimento também se aplica a algumas outras palavras como "ragazzo" e suas variaçoes de genero e numero, reduzindo tudo para "raga".
• A "zona azul" italiana, em vez de ter aquele talaozinho maldito que voce precisa comprar ( e que os flanelinhas vendem a preços inflacionados...), é um disco de plastico que voce compra apenas uma vez, com as horas: voce assinala a hora em que chegou e tem duas horas pra ficar la (eu acho...). Muito mais civilizado, menos capitalista e ainda bastante eficaz. O brasileiro pensaria em colocar um horario mais avançado pra poder ficar mais tempo, mas se a fiscalizaçao pega, a multa deve ser salgada. E fiscalizaçao européia funciona...
• Continuando os estranhos relatos da tecnologia sanitaria italiana, os banheiros de bares e restaurantes colocaram em pratica uma idéia simples e eficaz: as pias sao controladas com pedais! Um azul e um vermelho, lado a lado para que voce possa apertar os dois e ter agua morna. Assim voce evita aquela situaçao de estar com a mao suja ou ensaboada e ter que abrir a torneira...
• A pronuncia do tipico italiano perugino, que tenho ouvido das meninas e seus amigos, suprime as ultimas letras dos verbos, assim como o faz o portugues brasileiro atual. Assim, "io bisogno fare..." resulta "io bisogno fa...". O procedimento também se aplica a algumas outras palavras como "ragazzo" e suas variaçoes de genero e numero, reduzindo tudo para "raga".
• A "zona azul" italiana, em vez de ter aquele talaozinho maldito que voce precisa comprar ( e que os flanelinhas vendem a preços inflacionados...), é um disco de plastico que voce compra apenas uma vez, com as horas: voce assinala a hora em que chegou e tem duas horas pra ficar la (eu acho...). Muito mais civilizado, menos capitalista e ainda bastante eficaz. O brasileiro pensaria em colocar um horario mais avançado pra poder ficar mais tempo, mas se a fiscalizaçao pega, a multa deve ser salgada. E fiscalizaçao européia funciona...
• Continuando os estranhos relatos da tecnologia sanitaria italiana, os banheiros de bares e restaurantes colocaram em pratica uma idéia simples e eficaz: as pias sao controladas com pedais! Um azul e um vermelho, lado a lado para que voce possa apertar os dois e ter agua morna. Assim voce evita aquela situaçao de estar com a mao suja ou ensaboada e ter que abrir a torneira...
terça-feira, março 14, 2006
E finalmente, o Morlacchi
Ja faz algumas semanas que frequento o Morlacchi depois de haver abandonado o Copacabana e me dei conta de que nao escrevi nada a respeito por aqui.
De fato, o Morlacchi e o Copacabana estao muito proximos, tanto em localizaçao (vide mapa) quanto pelo clima latino. Se este é o bar dos brasileiros, aquele é o bar dos mexicanos e afins. Nao exagera tanto na decoraçao ao estilo mexicano, mas emprega uma boa dose de pessoas que falam espanhol e tem um DJ que toca às sextas toda sorte de musica latina, nas tétricas e sofridas musicas mexicanas, ao techno cantado em italiano com ritmo caliente (sugiro Scrutatore non votante de Samuele Bersani - talvez tenha escrito errado...).
O Morlacchi é também um bar mais voltado a um tipo de arte mais nobre, enquanto que o Copacabana ia pela linha da cultura de massa (leia-se a bunda das dançarinas do Tchan sendo exibida no telao...). O Morlacchi faz noites de leitura de poesia de vez em quando (em italiano mais nobre, que eu nao entendo muito...) ou arranja um jeito de mostrar trabalhos de algum artista frequentador (sim, ja estou conversando com eles pra fazer o tour italiano da Alice). Por isso que a clientela tem um jeito mais sério, mais culto. Muito mais interessante.
Para quem nao é muito chegado em alcoolicos como eu, eles tem uma longa lista de chas dos mais diversos tipos e uma ainda mais longa e exotica de chocolates quentes. Meu favorito ainda continua sendo o perfumado chocolate branco com pistache citado no ultimo Surreal Revelation.
Mas talvez as figuras mais interessantes do Morlacchi sejam Ramon e sua trupe. Ele trabalha por la, em alguma posiçao administrativa que ainda nao entendi, mas também serve as mesas e dança. E como dança! Daquele tipo de pessoa que pega até a garota mais inexperiente e da um show a dois. Mantem o pique durante a noite inteira.
Ramon vive em uma casa com uma trupe multi-nacional. Uma americana que dança como latina, uma ucraniana mais reservada, uma japonesa com toda a meiguice da cultura natal, uma africana muito sombria, uma espanhola altiva e meio ensimismada, e finalmente Faride, mexicana como ele.
Esta ultima foi-se para a Espanha no sabado passado, deixando um grande vazio a ser preenchido no Morlacchi. Dançava tao bem quanto Ramon, frequentemente fazendo par com ele nas musicas preferidas, mas dando um show aparte sozinha. Tipo de pessoa que sabe seduzir, conhece? Olhos azuis (impressionante a concentraçao de pessoas com olhos claros por aqui...), uma boca infernal e uma figura com muito contraste, sharpness. Interessou-se muito pelas Alices e saiu de Perugia tendo sugerido algum dia fazer-mos um curta-metragem animado dos episodios de Alice atravessando a Brancura atras da Cidade de Origem. A idéia me interessou. Mas como somos todos latinos e nao cumprimos promessas com a mesma assiduidade européia, duvido que aconteça.
De fato, o Morlacchi e o Copacabana estao muito proximos, tanto em localizaçao (vide mapa) quanto pelo clima latino. Se este é o bar dos brasileiros, aquele é o bar dos mexicanos e afins. Nao exagera tanto na decoraçao ao estilo mexicano, mas emprega uma boa dose de pessoas que falam espanhol e tem um DJ que toca às sextas toda sorte de musica latina, nas tétricas e sofridas musicas mexicanas, ao techno cantado em italiano com ritmo caliente (sugiro Scrutatore non votante de Samuele Bersani - talvez tenha escrito errado...).
O Morlacchi é também um bar mais voltado a um tipo de arte mais nobre, enquanto que o Copacabana ia pela linha da cultura de massa (leia-se a bunda das dançarinas do Tchan sendo exibida no telao...). O Morlacchi faz noites de leitura de poesia de vez em quando (em italiano mais nobre, que eu nao entendo muito...) ou arranja um jeito de mostrar trabalhos de algum artista frequentador (sim, ja estou conversando com eles pra fazer o tour italiano da Alice). Por isso que a clientela tem um jeito mais sério, mais culto. Muito mais interessante.
Para quem nao é muito chegado em alcoolicos como eu, eles tem uma longa lista de chas dos mais diversos tipos e uma ainda mais longa e exotica de chocolates quentes. Meu favorito ainda continua sendo o perfumado chocolate branco com pistache citado no ultimo Surreal Revelation.
Mas talvez as figuras mais interessantes do Morlacchi sejam Ramon e sua trupe. Ele trabalha por la, em alguma posiçao administrativa que ainda nao entendi, mas também serve as mesas e dança. E como dança! Daquele tipo de pessoa que pega até a garota mais inexperiente e da um show a dois. Mantem o pique durante a noite inteira.
Ramon vive em uma casa com uma trupe multi-nacional. Uma americana que dança como latina, uma ucraniana mais reservada, uma japonesa com toda a meiguice da cultura natal, uma africana muito sombria, uma espanhola altiva e meio ensimismada, e finalmente Faride, mexicana como ele.
Esta ultima foi-se para a Espanha no sabado passado, deixando um grande vazio a ser preenchido no Morlacchi. Dançava tao bem quanto Ramon, frequentemente fazendo par com ele nas musicas preferidas, mas dando um show aparte sozinha. Tipo de pessoa que sabe seduzir, conhece? Olhos azuis (impressionante a concentraçao de pessoas com olhos claros por aqui...), uma boca infernal e uma figura com muito contraste, sharpness. Interessou-se muito pelas Alices e saiu de Perugia tendo sugerido algum dia fazer-mos um curta-metragem animado dos episodios de Alice atravessando a Brancura atras da Cidade de Origem. A idéia me interessou. Mas como somos todos latinos e nao cumprimos promessas com a mesma assiduidade européia, duvido que aconteça.
Random literature
Desculpem esse mar de coisinhas insignificantes: achei um monte desses pequenos pensamentos perdidos nas paginas do caderno e resolvi coloca-los por aqui. Muitos, eu sei, nao tem nada a ver com a viagem. Como este:
Sentava-se e cruzava as pernas. A posiçao masculina de cruzar as pernas era-lhe desconfortavel porque lhe bloqueava a circulaçao. Mas mesmo quando tinha as pernas a formigar, apenas cruzava-as ao contrario. Mesmo quando se metia sob as cobertas, entrelaçava as pernas ao dormir. As vezes até mesmo cruzava os braços ou juntava as maos. Nao era que se sentisse mal sem cruzar nenhum membro, mas a pratica dava-lhe uma espécie de segurança extra: era como afirmar para si mesmo através do contato ininterrupto consigo mesmo que o proprio corpo ainda estava la, intacto e com o calor vital. Ou ainda, era como se sustentasse o proprio corpo, mantendo-o parado, firme, seguro. Tinha consciencia também de faze-lo como uma forma simbolica de retençao: aprisionar algo bestial dentro de si e esconde-lo do mundo.
Sentava-se e cruzava as pernas. A posiçao masculina de cruzar as pernas era-lhe desconfortavel porque lhe bloqueava a circulaçao. Mas mesmo quando tinha as pernas a formigar, apenas cruzava-as ao contrario. Mesmo quando se metia sob as cobertas, entrelaçava as pernas ao dormir. As vezes até mesmo cruzava os braços ou juntava as maos. Nao era que se sentisse mal sem cruzar nenhum membro, mas a pratica dava-lhe uma espécie de segurança extra: era como afirmar para si mesmo através do contato ininterrupto consigo mesmo que o proprio corpo ainda estava la, intacto e com o calor vital. Ou ainda, era como se sustentasse o proprio corpo, mantendo-o parado, firme, seguro. Tinha consciencia também de faze-lo como uma forma simbolica de retençao: aprisionar algo bestial dentro de si e esconde-lo do mundo.
Verbo impessoal
Estudando gramatica italiana (que tem suas semelhanças com o portugues e outras linguas latinas), me veio em mente que minha vinda à Italia foi como a tentativa de tentar tornar-me um verbo indefinido (chamado em gramatica italiana de "impessoal"). Explico.
Um dos usos do verbo indefinido é para eventos naturais. "Chove". A frase nao tem sujeito especifico. Mais do que isso, é como se o verbo fosse o sujeito da frase. Passou pela minha cabeça a idéia meio louca de que, sendo ao mesmo tempo o sujeito e o verbo da frase, a palavra torna-se auto-suficiente. Nao depende de nenhuma outra para que a açao da frase aconteça. Faz sua propria frase, assim como eu quero fazer minha propria historia.
Ha quem diga que se voce quer algo feito, tem que fazer voce mesmo. Ha também quem diga que essa filosofia do self-made man americana é das coisas mais vis e egoistas que existem (conheço uma ruiva que concordaria...).
Um dos usos do verbo indefinido é para eventos naturais. "Chove". A frase nao tem sujeito especifico. Mais do que isso, é como se o verbo fosse o sujeito da frase. Passou pela minha cabeça a idéia meio louca de que, sendo ao mesmo tempo o sujeito e o verbo da frase, a palavra torna-se auto-suficiente. Nao depende de nenhuma outra para que a açao da frase aconteça. Faz sua propria frase, assim como eu quero fazer minha propria historia.
Ha quem diga que se voce quer algo feito, tem que fazer voce mesmo. Ha também quem diga que essa filosofia do self-made man americana é das coisas mais vis e egoistas que existem (conheço uma ruiva que concordaria...).
Alice 18
sábado, março 11, 2006
Os habitantes da casa: Mimmo
Resolvi começar a contar sobre os habitantes da casa pelos caes, ja que quero colher mais dados e experiencias com as meninas antes de escrever sobre elas.
Até agora, talvez Mimmo seja o habitante com quem passei mais tempo, ja que as meninas estao geralmente em seus quartos ou fora de casa. Mimmo é um cao de raça meio indefinida, ou pelo menos desconhecida por mim. Parece um Cocker Spaniel, pelo longo (que ele vai soltando pela casa toda...), branco com manchas bege.
Pertence a Sara e é um cao esperto e relativamente treinado. Diria até que treinado de uma forma meio militar que muito me agrada: sendo que ele me respeita hierarquicamente como "cao" macho maior, tem sua forma de apresentar-se a mim sempre que entra na sala onde estou, vindo na minha frente e sentando-se ereto e imovel. Como uma posiçao de sentido militar, de um soldado que espera uma ordem. Ainda nao sei o que pensa da minha hierarquia em relaçao às meninas, mas da mostras de ter uma espécie de machismo instintio e achar que eu sou superior a elas.
Ainda assim, sendo um animal, nao perde seu lado mais sensivel. Quando chego em casa, em vez da posiçao de sentido, ele pega algum de seus brinquedos e fica me circulando, abanando o toquinho que tem por rabo, ganindo à espera de que eu largue as coisas e va brincar com ele, ou mesmo apenas fazer-lhe um pouco de carinho. Ou me leva para o sofa na base dos latidos para chamar-me a atençao e do ir e vir no caminho que ele quer que eu faça, até que eu me sento no sofa para que ele possa deitar-se sobre minhas pernas e receber carinho.
De fato, falamos com uma linguagem propria, que eu aprendi em poucos dias e continuo aprendendo aos poucos. Aquela linguagem de gestos dos caes que sempre escrevi por aqui, e que é às vezes melhor do que a linguagem falada, pois independe de idioma. Ele apoia a cabeça na minha perna e fixa os olhos em mim quando como alguma coisa: seu modo de pedir um pouco ou mesmo de pedir carinho. De vez em quando, ele encana com alguma coisa na casa (geralmente com o outro cachorro...) e começa a latir. Se as meninas nao estao por la para cala-lo, vou até ele e apenas mostro-lhe os dentes em uma careta de raiva. Nao preciso dizer nada: ele entende, cala a boca e senta-se na minha frente em posiçao de sentido. De fato, é seu modo de pedir desculpas: a posiçao de sentido e um timido lamber da minha mao. Meu modo de aceitar as desulpas é acariciar-lhe a cabeça. Depois disso, estamos bem.
Mimmo é habilissimo. Sabe abrir portas, pressionando a maçaneta com as patas. Sabe que ha portas que nao deve abrir, como a do banheiro ou a porta da frente: deita na frente destas até que alguém abra. Alias, usa muito as patas para pegar as coisas, o que é surpreendente, porque caes normalmente usam mais a boca. Ainda assim, consegue carregar dois ou tres brinquedos ao mesmo tempo na boca e ainda latir.
Quando Sara nao esta em casa, ele prefere ficar comigo. Entra no meu quarto mesmo quando estou pintando ou dormindo. Sabe que nao é permitido sobre a minha cama, entao escolheu a poltrona como seu lugar. Pede-me que tire as coisas que eventualmente jogo na poltrona (casacos, papeis...), latindo e olhando fixamente para elas, e deita-se com a cabeça apoiada no braço do movel. Prefere quando eu estou nela. Experimentei ensinar-lhe uma expressao de linguagem inventada por mim: sempre que me despeço, em vez de acaricia-lo com a mao, chego perto e roço minha testa na sua. Ele ja esta aprendendo que isso significa "até logo".
Até agora, talvez Mimmo seja o habitante com quem passei mais tempo, ja que as meninas estao geralmente em seus quartos ou fora de casa. Mimmo é um cao de raça meio indefinida, ou pelo menos desconhecida por mim. Parece um Cocker Spaniel, pelo longo (que ele vai soltando pela casa toda...), branco com manchas bege.
Pertence a Sara e é um cao esperto e relativamente treinado. Diria até que treinado de uma forma meio militar que muito me agrada: sendo que ele me respeita hierarquicamente como "cao" macho maior, tem sua forma de apresentar-se a mim sempre que entra na sala onde estou, vindo na minha frente e sentando-se ereto e imovel. Como uma posiçao de sentido militar, de um soldado que espera uma ordem. Ainda nao sei o que pensa da minha hierarquia em relaçao às meninas, mas da mostras de ter uma espécie de machismo instintio e achar que eu sou superior a elas.
Ainda assim, sendo um animal, nao perde seu lado mais sensivel. Quando chego em casa, em vez da posiçao de sentido, ele pega algum de seus brinquedos e fica me circulando, abanando o toquinho que tem por rabo, ganindo à espera de que eu largue as coisas e va brincar com ele, ou mesmo apenas fazer-lhe um pouco de carinho. Ou me leva para o sofa na base dos latidos para chamar-me a atençao e do ir e vir no caminho que ele quer que eu faça, até que eu me sento no sofa para que ele possa deitar-se sobre minhas pernas e receber carinho.
De fato, falamos com uma linguagem propria, que eu aprendi em poucos dias e continuo aprendendo aos poucos. Aquela linguagem de gestos dos caes que sempre escrevi por aqui, e que é às vezes melhor do que a linguagem falada, pois independe de idioma. Ele apoia a cabeça na minha perna e fixa os olhos em mim quando como alguma coisa: seu modo de pedir um pouco ou mesmo de pedir carinho. De vez em quando, ele encana com alguma coisa na casa (geralmente com o outro cachorro...) e começa a latir. Se as meninas nao estao por la para cala-lo, vou até ele e apenas mostro-lhe os dentes em uma careta de raiva. Nao preciso dizer nada: ele entende, cala a boca e senta-se na minha frente em posiçao de sentido. De fato, é seu modo de pedir desculpas: a posiçao de sentido e um timido lamber da minha mao. Meu modo de aceitar as desulpas é acariciar-lhe a cabeça. Depois disso, estamos bem.
Mimmo é habilissimo. Sabe abrir portas, pressionando a maçaneta com as patas. Sabe que ha portas que nao deve abrir, como a do banheiro ou a porta da frente: deita na frente destas até que alguém abra. Alias, usa muito as patas para pegar as coisas, o que é surpreendente, porque caes normalmente usam mais a boca. Ainda assim, consegue carregar dois ou tres brinquedos ao mesmo tempo na boca e ainda latir.
Quando Sara nao esta em casa, ele prefere ficar comigo. Entra no meu quarto mesmo quando estou pintando ou dormindo. Sabe que nao é permitido sobre a minha cama, entao escolheu a poltrona como seu lugar. Pede-me que tire as coisas que eventualmente jogo na poltrona (casacos, papeis...), latindo e olhando fixamente para elas, e deita-se com a cabeça apoiada no braço do movel. Prefere quando eu estou nela. Experimentei ensinar-lhe uma expressao de linguagem inventada por mim: sempre que me despeço, em vez de acaricia-lo com a mao, chego perto e roço minha testa na sua. Ele ja esta aprendendo que isso significa "até logo".
terça-feira, março 07, 2006
Fim de semana 5: Firenze (Florença)
Desculpem a demora pra atualizar. Pra compensar, olha o tamanho da atualizaçao...
Acordei em Arezzo. Sempre Arezzo. Depois de uma noite que foi até tarde no Morlacchi (esta virando meu bar favorito, principalmente às sextas: ainda escrevo sobre isso...), perdi a manha e acabei pegando o trem perto do meio-dia. O fiscal do trem me pediu o bilhete, que eu ja aprendera a convalidar, e fez um pequeno furo nele com uma ferramenta: maneira de dizer "OK".
O que faria em Firenze? Nao tinha conseguido falar com o parente do Sr. Zeller que morava por la. E Amina estava viajando em Palermo. No entanto, eu ja adiara esta viagem por dois fins de semana, sendo um deles por causa de meninas. Depois de conversas sérias com meu pai por e-mail, resolvi retomar o foco da viagem, esquecendo as possibilidades amorosas por enquanto, e tomei o trem para Firenze com ou sem contatos por la.
A cidade me saudou com hostilidade. Ja estivera por la duas vezes, nas idas e vindas a Milao, mas nunca me dignei a sair da estaçao e so conhecia da cidade um pequeno punhado de lojinhas visiveis da saida. Respirei fundo e pisei fora da cobertura da estaçao, para me aventurar em Firenze. Pela primeira vez desde que desci em Milao, a sensaçao de estar perdido me preocupou um pouco. Era de fato uma preocupaçao gostosa: saber que a cidade era assim tao grande que eu nao conseguiria ver tudo, mas que o pouco que veria seria maravilhoso.
Tinha uma pista: meu pai, em um comentario, falara-me do David, de Michelangelo. Perguntei à primeira pessoa que pude onde estava a famosa estatua, e me apontaram a Galleria dell'Academia, em meio a uma miriade de ruas. Senti falta de ter o mapa, como tinha o de Perugia, mas a avareza nao me deixou comprar um. Em meio a tantas ruas semelhantes, passei por uma feirinha e cogitei por um momento comprar um chapéu coco, como o dos quadros de Magritte. Faria sucesso, assim como o meu outro chapéu, na pequena Perugia. Aquele chapéu ja me rendeu boas historias e uma reputaçao na cidadezinha, no pouco tempo em que o usei. Mas o chapéu coco ficou para uma proxima (e mais financeiramente estavel) ocasiao.
Entra-se na Galleria dell'Academia por uma portinha lateral, como se fosse uma entrada de serviço: realmente, a humbling experience. Fiquei entretido por um momento com os trabalhos interminados do Michelangelo: seis pedaços de marmore, com corpos humanos que parecem tentar sair de dentro deles, em agonia claustrofobica. Um deles, segundo soube, era reutilizado de uma decoraçao de edificio, e ainda se podia ver detalhes arquitetonicos em um dos lados inacabados. Meu interesse pelos detalhes era tamanho, que mal percebi: quando olhei para o lado, no fundo da sala, a imponencia indescritivel do David me atigiu a bordoadas. Faltavam apenas os acordes de orquestra para marcar o momento climatico da visita.
Era o David. O verdadeiro David. Ocupava um espaço enorme ao fundo da Galleria, emoldurado pela arquitetura abobadada. O marmore era branco, mais branco que as peças inacabadas. De fato, havia algo diferente: as inacabadas tinham uma cor estranha, onde as sombras pareciam mais avermelhadas, enquanto as luzes continuavam brancas. O David era inteiro branco e preto, dando-lhe ainda mais contraste. Depois me disseram, era o efeito da restauraçao aplicada no David, e de uma iluminaçao especial, para chamar um pouco de atençao para as inacabadas, e evitar que todo mundo as ignorasse e fosse direto à obra prima do Michelangelo.
Estive por uma hora e meia naquela sala. Até a Galleria fechar. Circundei a estatua diversas vezes para entender todos os detalhes. Rabisquei um rascunho rapido (e um pouco desproporcionado...). Tomei anotaçoes.
Nao sei se acontece com voces, mas eu vejo esculturas em movimento. Nao é aquele movimento cronologico, com inicio, meio e fim, mas um efeito de mover-se e ficar parado ao mesmo tempo (mais ou menos como este efeito, ou este...). O que via no David?
A funda, arma usada para matar Golias na lenda biblica, é uma tira de couro (Michelangelo faz um otimo trabalho de texturizaçao aqui...) que vai da mao esquerda do David, levantada, atravessando suas costas, até a mao direita, abaixada. Nesta, a tira é enrolada em um pequeno cilindro de madeira, como um primitivo botao. Na minha cabeça, David tinha ido sem armadura, como conta a historia, matar o gigante faristeu. Portava apenas a funda, abotoada em volta do torso, como unica vestimenta. Michelangelo petrificou o exato momento em que David olha no horizonte com a testa franzida de odio e desabotoa a funda. Ainda nao a tirou das costas e nem pegou a fatidica pedra que matara Golias.
Na Galleria, passei ainda por uma outra sala com esculturas de varios outros artistas menores. Queria muito ter anotado os nomes, porque achei coisas que eu queria estudar melhor. Mas o maravilhamento diante do David e funcionarios com pressa de terminar o expediente me fizeram ter que sair às pressas e esquecer os nomes.
Sai da Galleria e andei a esmo pelas ruas. As outras galerias estariam fechadas também a esta hora. Talvez fosse hora de encerrar o dia. As ruas de Firenze tinham qualquer coisa que me lembrava o centro de Sao Paulo. O chao de pedra, os ambulantes, os prédios antigos. O modo como a altura dos prédios compensava a largura das ruas e continuava a causar uma sensaçao de claustrofobia. Talvez fosse essa altura que nao me deixou ver o Duomo.
Virei a esquina e, de repente, o Duomo (novamente, o acorde da orquestra...). Era imenso, colossal. Esqueçam o Duomo de Milao: apesar de ser menos detalhado, isto aqui era muito mais imponente. Quando as pessoas falam da casa de Deus, é a isso que se referem. No fundo, escondido pela perspectiva de quem observa muito de perto, estava uma enorme redoma de igreja. E foi entao que algo fez sentido: este era a famosa redoma de Brunelleschi que eu havia estudado tanto no curso de artes. Dita a maior da Europa (talvez do mundo, nao sei...), foi um verdadeiro desafio arquitetonico na época em que foi construida, pois nao havia gruas altas o suficiente para sustentar a redoma durante sua construçao. Brunelleschi fez tudo manualmente, usando técnicas de arquitetura onde uma pedra sustentava a outra (procurem como se constroem arcos sem cimento...) e estando assim independente de maior sustentaçao. Pelo que tinha ouvido falar, achei que a redoma seria maior... De qualquer forma, foi uma gostosa surpresa encontra-la, ja que eu nem me lembrava que era em Firenze.
Antes de terminar o meu primeiro dia em Firenze, passei a caminho da estaçao pela Piazza della Republica. Uma pequena praça onde vi ao longe as luzes de um carrossel. Uma dupla de russos tocava violino e sanfona ao lado, musicas daquelas que eu gosto: sombrias, melancolicas, carregadas de sentimento. E, de repente, uma fortissima sensaçao de ja ter visto este lugar. Onde... Onde, meu Deus! Foi so quando dei as costas para o carrossel que me lembrei: quase pude sentir os dedos fortes e canibais do doutor Hannibal Lecter acariciando meus cabelos de cima do carrossel, como fizera com a detetive Clarice em Hannibal. Era o carrossel de uma das cenas do filme, onde ela o persegue por Firenze, da estaçao até a piazza. Um estranho gosto de estar imerso na fantasia. Talvez mais do que o necessario.
Peguei o trem de volta para Perugia. Fazendo as contas, descobri que era mais barato voltar e dormir em casa do que pagar um quarto em hotel. Mesmo nos albergues da juventude. O trem, o ultimo da noite, me levou de volta com uma longa parada... em Arezzo, claro. Nenhum fiscal, apesar de eu ter convalidado o bilhete.
=============================================
Na manha seguinte, corrigi o recado que eu tinha afixado na porta do meu quarto: "Fui a Firenze de novo. Volto hoje à noite. Pedro"
Na estaçao, enquanto esperava o trem, comprei o cerco e trovo ("procuro e acho"), o jornal de classificados local. La estava meu anuncio:
"Rapaz brasileiro de 24 anos fala portugues, ingles, espanhol e italiano. Documentos em ordem. Procura qualquer trabalho serio. Experiencia com desenho e publicidade. Tel:...". Quem sabe...
Do lado da banca, uma propaganda de uma campanha para conscientizar o publico da importancia de pagar pelo trem. Entendi que a mentalidade daqui é que pagar pelo trem é um ato de cidadania. Eles sabem que poderiam fazer uma fiscalizaçao mais pesada, ou inventar modos de acabar com os calotes. Mas é uma questao de orgulho, ou melhor, de mexer com o seu orgulho. E, de repente, senti o peso de ser um brasileiro. De realmente nao ter orgulho ou patriotismo nenhum. No Brasil, ninguém da a minima para atos de cidadania. Vale mais achar um jeitinho brasileiro de dar um calote e economizar a grana. E é por isso que o pais esta como esta, nao tem e nunca tera soluçao. Decidi, lendo a campanha, que tentaria sempre pagar o trem. Por uma questao ideologica. Por acreditar que esta é uma sociedade que funciona, e que seu bom funcionamento dependeria também de mim. Por fazer a coisa certa.
No acesso aos trens, a musica cantada pela Adriana Calcanhotto me veio à cabeça. Me fez lembrar por um momento de coisas que deixei no Brasil. Uma melancolia gostosa, daquelas que eu curto. Chegou o trem e subi. E so na terceira ou quarta estaçao que me dei conta de que, na melancolia, havia esquecido de convalidar o maldito bilhete! La se vai a ideologia...
Fizemos novamente uma parada longa em Arezzo, devido a problemas no trem. Com o bilhete em maos, estive uns bons dez minutos debatendo se deveria saltar do trem e convalidar o bilhete em Arezzo, ou se deveria de fato tentar ganhar uma viagem extra a Firenze. Mas o brasileiro em mim falou mais alto, e deixei Arezzo ainda na ilegalidade.
Quando saltei em Firenze no segundo dia, ja nao tinha mais aquele medo gostoso, aquela insegurança. Ja era uma cidade um pouco mais acolhedora. O clima, no entanto, era bem diferente. Chovia um pouco, e a cidade tinha uma espécie de melancolia que caia bem com o fato de eu estar visitando a cidade sozinho. Firenze sob a chuva parecia ainda mais perfeita.

Tentando definir o que faria durante o dia, lembrei-me do Duomo. E em seguida, outra lembrança do curso de artes, que deveria estar bem na frente do Duomo: o batistério! Na verdade, o que era realmente especial do batistério de Firenze, eram as portas norte e sul, feitas respectivamente por Ghiberti e Pisano. Cada uma contava a historia da vida de Cristo em uma série de painéis dourados com as cenas esculpidas projetando-se para fora dos painéis. As mesmas cenas feitas por dois artistas diferentes, de fato como se competissem. Tirei uma foto dos leoes que adornavam as bordas da porta de Pisano pra colocar como imagem do meu celular: além de tratar-se de um leao, tinha seus motivos religiosos que o assemelhavam às coisas goticas que tanto gosto. Ah, sim: e também porque nao é todo mundo que tem um detalhe do batistério de Firenze como imagem de fundo do celular...
Ghiberti, no entanto, era muito melhor do que Pisano, na minha opiniao. As imagens eram mais interessantes. Menos detalhadas, mas com os detalhes certos. O tipo de coisa que os professores do curso de artes tentaram me ensinar a à qual eu resisti por tanto tempo. Havia detalhes arquitetonicos nas imagens, pilares e arcos que, ora saltavam para fora do painel, ora eram apenas desenhados no fundo, mas que davam uma incrivel impressao de profundidade.
Passei minhas primeiras horas daquele dia entre o batistério e o Duomo. Entrei neste com um grupo de finlandesas, assisti aos japoneses acendendo as pequenas velas da igreja e às coreanas fotografando cada centimetro vazio do Duomo (com a quantidade de gente que visitava todos os dias, a gerencia tinha resolvido tirar tudo de dentro, pra minimizar danos: o Duomo era uma enorme caixa de pedra vazia, mas ainda assim, uma belissima caixa de pedra).
Satisfeito com a visita, era hora de ver a verdadeira razao da minha vinda a Firenze: a Galleria degli Ufizzi!
No caminho, passei pela por uma Piazza particularmente grande. No fundo, uma edicola abrigava diversas estatuas. Dentre elas, uma me chamou a atençao particularmente. Poderia ser? Incrivelmente, era sim! No canto da edicola, assim, entre outras estatuas, como se fosse apenas mais uma, estava a original do Rapto das Sabinas de Giambologna! Uma das minhas esculturas mais admiradas!
A escultura conta a historia do jovem povo romano. Depois da sua formaçao, tiveram um periodo de escassez de mulheres. Conta a lenda que eles organizaram uma festa onde convidaram o povo vizinho, os sabinos, com a inteçao de surrar os homens e raptar as belas mulheres. Os sabinos voltaram com armas para reaver as esposas, mas foram surpreendidos ao ver que as mulheres escolheram ficar com seus raptores romanos! Como toda lenda, ha uma grande dose de ficçao em meio à verdade. O que importa é a simbologia: a virilidade romana de poder simplesmente tomar o que eles queriam, e ainda converter as sabinas.
Quando vejo a escultura atraves daquele efeito de movimento que expliquei acima, vejo o grego levantando a sabina que se debate (nao encontrei a foto do detalhe: sua mao afunda na cintura dela, de modo que se tem uma boa noçao da maciez da pele). Ele mal percebe o inimigo aterrorizado aos seus pés e, na minha cabeça, o peso da mulher o fara dar um passo para tras, enrolando-se com o homem a seus pés e caindo de costas. O que acontecera depois, nao sei.
Paguei menos para entrar na Uffizzi: privilegios de ser um cidadao europeu com passaporte (é o poder do Journeybook de Alice!). Nao sabia ao certo o que ia encontrar. Tinha ouvido falar muito da Uffizzi, mas nada especifico. Era um prédio de tres andares, em forma de U, à beira do rio. De cara, a mesma coisa tediosa de sempre: arte pre-renascentista, com sua iconografia repetitiva e os fundos em papel dourado, que de um certo angulo brilhavam mais do que a pintura, fazendo os santos aparecerem apenas como sombras escuras.
Começava a achar que a Uffizzi seria assim, entediante mesmo. E entao entrei na sala de Botticelli. Na porta, a Fortezza estava lado a lado com outras seis virtudes pintadas pelos irmaos Pollaiolo (nunca ouvi falar...). A dele brilhava mais do que as outras, o pano das roupas tao real que se podia sentir a textura com os olhos.
Na sala, diversas outras obras dele. Os rosto masculinos de Botticelli, levemente distorcidos no desenho, sempre me lembraram qualquer coisa do Peter Chung, o criador de Aeon Flux. Ta, eu sei que é heresia comparar uma coisa com a outra, mas é a minha impressao. Dentre as coisas muito conhecidas da sala estavam o original do Nascimento de Venus (aquele do simbolo do Illustrator...) e a Primavera, que vi ao lado de estudantes americanas que estavam lendo um livro com toda a interpretaçao fantastica do quadro.
As outras salas foram uma sucessao de pequenas surpresas interessantes, de artistas que nao conhecia. Pietro Perugino, que talvez tenha as melhores maos e pés que ja vi em pintura, Piero di Cosimo e a bela iluminaçao de sua Incarnazione, Fra' Bartolomeo e a lenda de Porzia (Portia), que depois do suicidio do marido, suicidou-se engolindo carvao em brasa e tornou-se simbolo de fidelidade matrimonial.
Nos corredores, entre uma sala e outra, encontrava esculturas desconhecidas, mas nao menos interessantes. Artistas cujos nomes nao lembro. De fato, o efeito que tenho até hoje de Firenze é uma enorme vontade de tentar escultura quano voltar ao Brasil. Porque seria dificil arranjar o material por aqui. Espero que a vontade nao desapareça até la.
Dentre as estatuas do corredor, vi ainda o Laocoonte e seus filhos, sendo devorados pelas serpentes marinhas. Nao lembro quem era o artista e mal lembro do mito ao qual a historia se refere, mas lembro que ha uma copia dela em menor escala no Parque do Ibirapuera, que desenhei quando estava no curso de artes.
Encerrada a visita, me dirigi à saida. Tinha sido gostoso, interessante. Tenho certeza que, quando falo destas coisas por aqui, muitas delas sao completamente desconhecidas para voces. Mas imaginem voces engenheiros, estando diante da Golden Gate ou da Torre Eiffel. Ou voces biologos diante das gigantescas tartarugas de Galapagos. Ou voce, atriz famosa da historia do teatro brasileiro, diante da primeira apresentaçao de uma peça inédita do Becket ou do Pirandello. Era como eu me sentia. Me inspirava. E muito. Ainda que, agora que o conte, nao consiga passar-lhes a mesma sensaçao de maravilhamento.
Na saida, uma ultima e maravilhosa surpresa: uma sala do Caravaggio!! E ainda melhor, com duas das minhas pinturas favoritas do mestre. De um lado, o escudo com a imagem da cabeça decepada da Medusa, com boca torta e tudo. O olhar do original tem uma cor incrivel. Vi o verso do escudo e dava pra imaginar as tiras que envolveriam o braço de seu portador, e um espaço acolchoado para ser mais confortavel. Do outro lado, nao do mestre, mas de uma de suas alunas mais famosas, Artemisia Gentileschi, a Judite decapitando Holofernes, que ela fez baseada na obra homonima do mestre. O guia da exposiçao contava um fato curioso: a condesa de Uffizzi colocou estas obras de Caravaggio naquela pequena salinha na saida, longe de seu caminho habitual, porque nao queria ter que ver tamanho horror sanguinario todos os dias, apesar de concordar que eram belas obras.
Com o dia terminando, voltei à estaçao de Firenze. Queria ainda ter tempo para ver as fontes, outros museus, muita coisa. Firenze é cidade para ser visitada varias vezes. E, de fato, com minha anti-ética passagem extra, voltaria outra vez, assim que conseguisse combinar algo com Amina.
De fato, resolvi pegar o ultimo trem possivel de volta para Perugia. Afinal, a altas horas da noite de um domingo, obviamente nao haveria fiscais no trem.
Também nao convalidei meu bilhete de volta...
Acordei em Arezzo. Sempre Arezzo. Depois de uma noite que foi até tarde no Morlacchi (esta virando meu bar favorito, principalmente às sextas: ainda escrevo sobre isso...), perdi a manha e acabei pegando o trem perto do meio-dia. O fiscal do trem me pediu o bilhete, que eu ja aprendera a convalidar, e fez um pequeno furo nele com uma ferramenta: maneira de dizer "OK".
O que faria em Firenze? Nao tinha conseguido falar com o parente do Sr. Zeller que morava por la. E Amina estava viajando em Palermo. No entanto, eu ja adiara esta viagem por dois fins de semana, sendo um deles por causa de meninas. Depois de conversas sérias com meu pai por e-mail, resolvi retomar o foco da viagem, esquecendo as possibilidades amorosas por enquanto, e tomei o trem para Firenze com ou sem contatos por la.
A cidade me saudou com hostilidade. Ja estivera por la duas vezes, nas idas e vindas a Milao, mas nunca me dignei a sair da estaçao e so conhecia da cidade um pequeno punhado de lojinhas visiveis da saida. Respirei fundo e pisei fora da cobertura da estaçao, para me aventurar em Firenze. Pela primeira vez desde que desci em Milao, a sensaçao de estar perdido me preocupou um pouco. Era de fato uma preocupaçao gostosa: saber que a cidade era assim tao grande que eu nao conseguiria ver tudo, mas que o pouco que veria seria maravilhoso.
Tinha uma pista: meu pai, em um comentario, falara-me do David, de Michelangelo. Perguntei à primeira pessoa que pude onde estava a famosa estatua, e me apontaram a Galleria dell'Academia, em meio a uma miriade de ruas. Senti falta de ter o mapa, como tinha o de Perugia, mas a avareza nao me deixou comprar um. Em meio a tantas ruas semelhantes, passei por uma feirinha e cogitei por um momento comprar um chapéu coco, como o dos quadros de Magritte. Faria sucesso, assim como o meu outro chapéu, na pequena Perugia. Aquele chapéu ja me rendeu boas historias e uma reputaçao na cidadezinha, no pouco tempo em que o usei. Mas o chapéu coco ficou para uma proxima (e mais financeiramente estavel) ocasiao.
Era o David. O verdadeiro David. Ocupava um espaço enorme ao fundo da Galleria, emoldurado pela arquitetura abobadada. O marmore era branco, mais branco que as peças inacabadas. De fato, havia algo diferente: as inacabadas tinham uma cor estranha, onde as sombras pareciam mais avermelhadas, enquanto as luzes continuavam brancas. O David era inteiro branco e preto, dando-lhe ainda mais contraste. Depois me disseram, era o efeito da restauraçao aplicada no David, e de uma iluminaçao especial, para chamar um pouco de atençao para as inacabadas, e evitar que todo mundo as ignorasse e fosse direto à obra prima do Michelangelo.
Estive por uma hora e meia naquela sala. Até a Galleria fechar. Circundei a estatua diversas vezes para entender todos os detalhes. Rabisquei um rascunho rapido (e um pouco desproporcionado...). Tomei anotaçoes.
Nao sei se acontece com voces, mas eu vejo esculturas em movimento. Nao é aquele movimento cronologico, com inicio, meio e fim, mas um efeito de mover-se e ficar parado ao mesmo tempo (mais ou menos como este efeito, ou este...). O que via no David?
A funda, arma usada para matar Golias na lenda biblica, é uma tira de couro (Michelangelo faz um otimo trabalho de texturizaçao aqui...) que vai da mao esquerda do David, levantada, atravessando suas costas, até a mao direita, abaixada. Nesta, a tira é enrolada em um pequeno cilindro de madeira, como um primitivo botao. Na minha cabeça, David tinha ido sem armadura, como conta a historia, matar o gigante faristeu. Portava apenas a funda, abotoada em volta do torso, como unica vestimenta. Michelangelo petrificou o exato momento em que David olha no horizonte com a testa franzida de odio e desabotoa a funda. Ainda nao a tirou das costas e nem pegou a fatidica pedra que matara Golias.
Na Galleria, passei ainda por uma outra sala com esculturas de varios outros artistas menores. Queria muito ter anotado os nomes, porque achei coisas que eu queria estudar melhor. Mas o maravilhamento diante do David e funcionarios com pressa de terminar o expediente me fizeram ter que sair às pressas e esquecer os nomes.
Sai da Galleria e andei a esmo pelas ruas. As outras galerias estariam fechadas também a esta hora. Talvez fosse hora de encerrar o dia. As ruas de Firenze tinham qualquer coisa que me lembrava o centro de Sao Paulo. O chao de pedra, os ambulantes, os prédios antigos. O modo como a altura dos prédios compensava a largura das ruas e continuava a causar uma sensaçao de claustrofobia. Talvez fosse essa altura que nao me deixou ver o Duomo.
Antes de terminar o meu primeiro dia em Firenze, passei a caminho da estaçao pela Piazza della Republica. Uma pequena praça onde vi ao longe as luzes de um carrossel. Uma dupla de russos tocava violino e sanfona ao lado, musicas daquelas que eu gosto: sombrias, melancolicas, carregadas de sentimento. E, de repente, uma fortissima sensaçao de ja ter visto este lugar. Onde... Onde, meu Deus! Foi so quando dei as costas para o carrossel que me lembrei: quase pude sentir os dedos fortes e canibais do doutor Hannibal Lecter acariciando meus cabelos de cima do carrossel, como fizera com a detetive Clarice em Hannibal. Era o carrossel de uma das cenas do filme, onde ela o persegue por Firenze, da estaçao até a piazza. Um estranho gosto de estar imerso na fantasia. Talvez mais do que o necessario.
Peguei o trem de volta para Perugia. Fazendo as contas, descobri que era mais barato voltar e dormir em casa do que pagar um quarto em hotel. Mesmo nos albergues da juventude. O trem, o ultimo da noite, me levou de volta com uma longa parada... em Arezzo, claro. Nenhum fiscal, apesar de eu ter convalidado o bilhete.
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Na manha seguinte, corrigi o recado que eu tinha afixado na porta do meu quarto: "Fui a Firenze de novo. Volto hoje à noite. Pedro"
Na estaçao, enquanto esperava o trem, comprei o cerco e trovo ("procuro e acho"), o jornal de classificados local. La estava meu anuncio:
"Rapaz brasileiro de 24 anos fala portugues, ingles, espanhol e italiano. Documentos em ordem. Procura qualquer trabalho serio. Experiencia com desenho e publicidade. Tel:...". Quem sabe...
Do lado da banca, uma propaganda de uma campanha para conscientizar o publico da importancia de pagar pelo trem. Entendi que a mentalidade daqui é que pagar pelo trem é um ato de cidadania. Eles sabem que poderiam fazer uma fiscalizaçao mais pesada, ou inventar modos de acabar com os calotes. Mas é uma questao de orgulho, ou melhor, de mexer com o seu orgulho. E, de repente, senti o peso de ser um brasileiro. De realmente nao ter orgulho ou patriotismo nenhum. No Brasil, ninguém da a minima para atos de cidadania. Vale mais achar um jeitinho brasileiro de dar um calote e economizar a grana. E é por isso que o pais esta como esta, nao tem e nunca tera soluçao. Decidi, lendo a campanha, que tentaria sempre pagar o trem. Por uma questao ideologica. Por acreditar que esta é uma sociedade que funciona, e que seu bom funcionamento dependeria também de mim. Por fazer a coisa certa.
No acesso aos trens, a musica cantada pela Adriana Calcanhotto me veio à cabeça. Me fez lembrar por um momento de coisas que deixei no Brasil. Uma melancolia gostosa, daquelas que eu curto. Chegou o trem e subi. E so na terceira ou quarta estaçao que me dei conta de que, na melancolia, havia esquecido de convalidar o maldito bilhete! La se vai a ideologia...
Fizemos novamente uma parada longa em Arezzo, devido a problemas no trem. Com o bilhete em maos, estive uns bons dez minutos debatendo se deveria saltar do trem e convalidar o bilhete em Arezzo, ou se deveria de fato tentar ganhar uma viagem extra a Firenze. Mas o brasileiro em mim falou mais alto, e deixei Arezzo ainda na ilegalidade.
Quando saltei em Firenze no segundo dia, ja nao tinha mais aquele medo gostoso, aquela insegurança. Ja era uma cidade um pouco mais acolhedora. O clima, no entanto, era bem diferente. Chovia um pouco, e a cidade tinha uma espécie de melancolia que caia bem com o fato de eu estar visitando a cidade sozinho. Firenze sob a chuva parecia ainda mais perfeita.
Tentando definir o que faria durante o dia, lembrei-me do Duomo. E em seguida, outra lembrança do curso de artes, que deveria estar bem na frente do Duomo: o batistério! Na verdade, o que era realmente especial do batistério de Firenze, eram as portas norte e sul, feitas respectivamente por Ghiberti e Pisano. Cada uma contava a historia da vida de Cristo em uma série de painéis dourados com as cenas esculpidas projetando-se para fora dos painéis. As mesmas cenas feitas por dois artistas diferentes, de fato como se competissem. Tirei uma foto dos leoes que adornavam as bordas da porta de Pisano pra colocar como imagem do meu celular: além de tratar-se de um leao, tinha seus motivos religiosos que o assemelhavam às coisas goticas que tanto gosto. Ah, sim: e também porque nao é todo mundo que tem um detalhe do batistério de Firenze como imagem de fundo do celular...
Ghiberti, no entanto, era muito melhor do que Pisano, na minha opiniao. As imagens eram mais interessantes. Menos detalhadas, mas com os detalhes certos. O tipo de coisa que os professores do curso de artes tentaram me ensinar a à qual eu resisti por tanto tempo. Havia detalhes arquitetonicos nas imagens, pilares e arcos que, ora saltavam para fora do painel, ora eram apenas desenhados no fundo, mas que davam uma incrivel impressao de profundidade.
Passei minhas primeiras horas daquele dia entre o batistério e o Duomo. Entrei neste com um grupo de finlandesas, assisti aos japoneses acendendo as pequenas velas da igreja e às coreanas fotografando cada centimetro vazio do Duomo (com a quantidade de gente que visitava todos os dias, a gerencia tinha resolvido tirar tudo de dentro, pra minimizar danos: o Duomo era uma enorme caixa de pedra vazia, mas ainda assim, uma belissima caixa de pedra).
Satisfeito com a visita, era hora de ver a verdadeira razao da minha vinda a Firenze: a Galleria degli Ufizzi!
A escultura conta a historia do jovem povo romano. Depois da sua formaçao, tiveram um periodo de escassez de mulheres. Conta a lenda que eles organizaram uma festa onde convidaram o povo vizinho, os sabinos, com a inteçao de surrar os homens e raptar as belas mulheres. Os sabinos voltaram com armas para reaver as esposas, mas foram surpreendidos ao ver que as mulheres escolheram ficar com seus raptores romanos! Como toda lenda, ha uma grande dose de ficçao em meio à verdade. O que importa é a simbologia: a virilidade romana de poder simplesmente tomar o que eles queriam, e ainda converter as sabinas.
Quando vejo a escultura atraves daquele efeito de movimento que expliquei acima, vejo o grego levantando a sabina que se debate (nao encontrei a foto do detalhe: sua mao afunda na cintura dela, de modo que se tem uma boa noçao da maciez da pele). Ele mal percebe o inimigo aterrorizado aos seus pés e, na minha cabeça, o peso da mulher o fara dar um passo para tras, enrolando-se com o homem a seus pés e caindo de costas. O que acontecera depois, nao sei.
Paguei menos para entrar na Uffizzi: privilegios de ser um cidadao europeu com passaporte (é o poder do Journeybook de Alice!). Nao sabia ao certo o que ia encontrar. Tinha ouvido falar muito da Uffizzi, mas nada especifico. Era um prédio de tres andares, em forma de U, à beira do rio. De cara, a mesma coisa tediosa de sempre: arte pre-renascentista, com sua iconografia repetitiva e os fundos em papel dourado, que de um certo angulo brilhavam mais do que a pintura, fazendo os santos aparecerem apenas como sombras escuras.
Começava a achar que a Uffizzi seria assim, entediante mesmo. E entao entrei na sala de Botticelli. Na porta, a Fortezza estava lado a lado com outras seis virtudes pintadas pelos irmaos Pollaiolo (nunca ouvi falar...). A dele brilhava mais do que as outras, o pano das roupas tao real que se podia sentir a textura com os olhos.
As outras salas foram uma sucessao de pequenas surpresas interessantes, de artistas que nao conhecia. Pietro Perugino, que talvez tenha as melhores maos e pés que ja vi em pintura, Piero di Cosimo e a bela iluminaçao de sua Incarnazione, Fra' Bartolomeo e a lenda de Porzia (Portia), que depois do suicidio do marido, suicidou-se engolindo carvao em brasa e tornou-se simbolo de fidelidade matrimonial.
Nos corredores, entre uma sala e outra, encontrava esculturas desconhecidas, mas nao menos interessantes. Artistas cujos nomes nao lembro. De fato, o efeito que tenho até hoje de Firenze é uma enorme vontade de tentar escultura quano voltar ao Brasil. Porque seria dificil arranjar o material por aqui. Espero que a vontade nao desapareça até la.
Dentre as estatuas do corredor, vi ainda o Laocoonte e seus filhos, sendo devorados pelas serpentes marinhas. Nao lembro quem era o artista e mal lembro do mito ao qual a historia se refere, mas lembro que ha uma copia dela em menor escala no Parque do Ibirapuera, que desenhei quando estava no curso de artes.
Encerrada a visita, me dirigi à saida. Tinha sido gostoso, interessante. Tenho certeza que, quando falo destas coisas por aqui, muitas delas sao completamente desconhecidas para voces. Mas imaginem voces engenheiros, estando diante da Golden Gate ou da Torre Eiffel. Ou voces biologos diante das gigantescas tartarugas de Galapagos. Ou voce, atriz famosa da historia do teatro brasileiro, diante da primeira apresentaçao de uma peça inédita do Becket ou do Pirandello. Era como eu me sentia. Me inspirava. E muito. Ainda que, agora que o conte, nao consiga passar-lhes a mesma sensaçao de maravilhamento.
Com o dia terminando, voltei à estaçao de Firenze. Queria ainda ter tempo para ver as fontes, outros museus, muita coisa. Firenze é cidade para ser visitada varias vezes. E, de fato, com minha anti-ética passagem extra, voltaria outra vez, assim que conseguisse combinar algo com Amina.
De fato, resolvi pegar o ultimo trem possivel de volta para Perugia. Afinal, a altas horas da noite de um domingo, obviamente nao haveria fiscais no trem.
Também nao convalidei meu bilhete de volta...
Surreal Revelation XVII
Created last week, during my little depressive thing...
Imagine that every decision you make created an alternative universe. Every time you chose a yes, a parallel existence where you'd choose no was created. I sat on the Morlacchi one night and wondered if there could actually be another me somewhere. A happier me. Going through what I wanted to be going through. Perhaps having dinner with the swedish girl, right after I got out of my job that day. Or perhaps meeting an art researcher who'd be quite fond of Caravaggio or even Richter, in need of a helpfull assistant. This happier me would not know the sweet taste of the hot chocolate I was having at the Morlacchi that night. White chocolate with pistacchio nuts (strangely and wonderfuly perfumed).
If anything, he'd grin with satisfaction at his life, but would still think of how poetic it would be to be sad in a town like this. Cold stone walls, dark and empty nights... Yes, he'd sit and imagine how poetically wonderful it would be.
And we'd be like two sides of the same coin, yin and yang, alpha and omega. Me, wishing for his happines; while he'd wish for my sadness.
Imagine that every decision you make created an alternative universe. Every time you chose a yes, a parallel existence where you'd choose no was created. I sat on the Morlacchi one night and wondered if there could actually be another me somewhere. A happier me. Going through what I wanted to be going through. Perhaps having dinner with the swedish girl, right after I got out of my job that day. Or perhaps meeting an art researcher who'd be quite fond of Caravaggio or even Richter, in need of a helpfull assistant. This happier me would not know the sweet taste of the hot chocolate I was having at the Morlacchi that night. White chocolate with pistacchio nuts (strangely and wonderfuly perfumed).
If anything, he'd grin with satisfaction at his life, but would still think of how poetic it would be to be sad in a town like this. Cold stone walls, dark and empty nights... Yes, he'd sit and imagine how poetically wonderful it would be.
And we'd be like two sides of the same coin, yin and yang, alpha and omega. Me, wishing for his happines; while he'd wish for my sadness.
Se o Edgewalker nao vai à neve, a neve vem ao Edgewalker
Eu deveria escrever aqui sobre o meu maravilhoso final de semana em Firenze, mas antes, preciso relatar um fato curioso.
Acordei hoje cedo para as aulas e olhei incrédulo pela janela. Era realmente isso ou alguém tinha esfolado o proprio travesseiro em algum andar de cima? Sai apressado, de chapéu em mao. La fora, a sensaçao familiar de ter centenas de pequenas agulhas geladas pinicando o rosto me confirmou o que me disseram ser improvavel: nevava em Perugia!
Tinha nevado um pouco ontem de manha. Muito pouco para a neve fixar-se nas coisas. Hoje, os flocos eram maiores e a nevasca mais intensa. De fato, quando sai de casa, o corrimao das escadas da via della Corgna ja portava aquela cobertura açucarada de bolo. Cheguei perto do primeiro carro estacionado que vi e varri um pouco de neve para fazer uma pequena homenagem.
A neve depositada nas coisas mantem uma diminuta distancia entre os flocos: é o que faz com que mantenha seu aspecto pulverizado. Quando minha mao varre a neve, o espaço diminui sucessivamente, com o mesmo efeito que fazem os carros ao pararem no semaforo, diminuindo um apos o outro a distancia em relacao ao veiculo da frente.
Na minha mao, a neve me da poucos segundos para ser moldada. Sinto-a solidificando em segundos, tornando-se uma coisa inteira. Leve como gesso ou isopor e igualmente resistente. De fato, parto a pequena bola de neve em dois como se fosse isopor, e ela se recusa a ser moldada novamente: mantem, teimosa, o aspecto de duas metades rachadas.
Andando para a aula, sinto o sol sair e a neve para imediatamente de cair. Trata-se de uma coisa realmente fragil: poucos segundos de sol e a neve depositada nas coisas ja nao existe mais. O pouco que fica na sombra resiste. No caminho, passo pelo mercato coperto, para tomar o elevador publico. Na belissima vista do mercato, vejo ao longe nuvens pesadas de chuva. Nao. Nao é chuva: ha uma pequena diferença na transparencia. Quando se ve nuvas de chuva ao longe, ve-se as nuvens que dissolvem, caindo na cidade abaixo. Isto era diferente: a nuvem dissolvia-se, mas era tao densa, que nao se via a cidade abaixo. Compeendendo o que estava por vir, apressei o passo.
Chegando no Palazzo Prosciutti, a nevasca caiu com toda sua força. Nao entrei na aula. Estive na porta, deixando-me cobrir de neve com o mesmo gosto com o qual me enxarcava de chuva no Brasil. As pessoas chegavam com guarda-chuvas pesados e olhavam-me com o mesmo estranhamento que os brasileiros que me viam andar na chuva sem preocupaçao. E ainda: com o maior dos sorrisos no rosto.
Fazendo outro bola de neve, ouvi uma das janelas abrir. Era Natalia, a paraguaia. "Finalmente viu a neve?" De fato. No intervalo, Claire, a australiana, abriu a porta e quase teve a boina arrancada da cabeça por meu primeiro tiro. Minutos depois, estavamos varios de nos em meio a uma guerra branca e gelada. Era quase covardia ser atacado pelo rapaz do Cazaquistao ou o russo, que estavam bem acostumados com a neve. As bolas de neve atingiam-me com seu peso inocuo e explodiam em pedaços menores. Nao como, digamos, bolas de areia, que pulverizam. Partiam-se em pedaços menores que entravam na roupa e derretiam: estratégia diabolica...
Na aula, obviamente, concentraçao zero. Ficava olhando pela janela aos flocos cairem. Quando saiu o sol, sabia que era o fim da brincadeira. Foi curto, mas foi divertido, e pude finalmente fazer algumas das coisas que tanto queria.
Suponho que continuara nevando nestes proximos dias. Pelo menos pela manha.
Acordei hoje cedo para as aulas e olhei incrédulo pela janela. Era realmente isso ou alguém tinha esfolado o proprio travesseiro em algum andar de cima? Sai apressado, de chapéu em mao. La fora, a sensaçao familiar de ter centenas de pequenas agulhas geladas pinicando o rosto me confirmou o que me disseram ser improvavel: nevava em Perugia!
Tinha nevado um pouco ontem de manha. Muito pouco para a neve fixar-se nas coisas. Hoje, os flocos eram maiores e a nevasca mais intensa. De fato, quando sai de casa, o corrimao das escadas da via della Corgna ja portava aquela cobertura açucarada de bolo. Cheguei perto do primeiro carro estacionado que vi e varri um pouco de neve para fazer uma pequena homenagem.
A neve depositada nas coisas mantem uma diminuta distancia entre os flocos: é o que faz com que mantenha seu aspecto pulverizado. Quando minha mao varre a neve, o espaço diminui sucessivamente, com o mesmo efeito que fazem os carros ao pararem no semaforo, diminuindo um apos o outro a distancia em relacao ao veiculo da frente.
Na minha mao, a neve me da poucos segundos para ser moldada. Sinto-a solidificando em segundos, tornando-se uma coisa inteira. Leve como gesso ou isopor e igualmente resistente. De fato, parto a pequena bola de neve em dois como se fosse isopor, e ela se recusa a ser moldada novamente: mantem, teimosa, o aspecto de duas metades rachadas.
Andando para a aula, sinto o sol sair e a neve para imediatamente de cair. Trata-se de uma coisa realmente fragil: poucos segundos de sol e a neve depositada nas coisas ja nao existe mais. O pouco que fica na sombra resiste. No caminho, passo pelo mercato coperto, para tomar o elevador publico. Na belissima vista do mercato, vejo ao longe nuvens pesadas de chuva. Nao. Nao é chuva: ha uma pequena diferença na transparencia. Quando se ve nuvas de chuva ao longe, ve-se as nuvens que dissolvem, caindo na cidade abaixo. Isto era diferente: a nuvem dissolvia-se, mas era tao densa, que nao se via a cidade abaixo. Compeendendo o que estava por vir, apressei o passo.
Chegando no Palazzo Prosciutti, a nevasca caiu com toda sua força. Nao entrei na aula. Estive na porta, deixando-me cobrir de neve com o mesmo gosto com o qual me enxarcava de chuva no Brasil. As pessoas chegavam com guarda-chuvas pesados e olhavam-me com o mesmo estranhamento que os brasileiros que me viam andar na chuva sem preocupaçao. E ainda: com o maior dos sorrisos no rosto.
Fazendo outro bola de neve, ouvi uma das janelas abrir. Era Natalia, a paraguaia. "Finalmente viu a neve?" De fato. No intervalo, Claire, a australiana, abriu a porta e quase teve a boina arrancada da cabeça por meu primeiro tiro. Minutos depois, estavamos varios de nos em meio a uma guerra branca e gelada. Era quase covardia ser atacado pelo rapaz do Cazaquistao ou o russo, que estavam bem acostumados com a neve. As bolas de neve atingiam-me com seu peso inocuo e explodiam em pedaços menores. Nao como, digamos, bolas de areia, que pulverizam. Partiam-se em pedaços menores que entravam na roupa e derretiam: estratégia diabolica...
Na aula, obviamente, concentraçao zero. Ficava olhando pela janela aos flocos cairem. Quando saiu o sol, sabia que era o fim da brincadeira. Foi curto, mas foi divertido, e pude finalmente fazer algumas das coisas que tanto queria.
Suponho que continuara nevando nestes proximos dias. Pelo menos pela manha.
sexta-feira, março 03, 2006
Um pouco de politica
Tem uma aula que eu gosto muito aqui, sobre costumes e politica italianos. Discutimos sobre todo tipo de coisa, de costumes de nossos proprios paises, a diferença com os costumes italianos, questoes sem resposta como a pena de morte ou o casamento gay, moda, arte, etc...
Mas o que mais me interessa atualmente sao as aulas nas quais falamos de politica. Estranho: no Brasil é o assunto do qual eu fujo a toda custa. A professora nos contou bastante sobre Berlusconi, nao escondendo sua posiçao contraria ao governo atual. E quanto mais ela contava, mais eu me lembrava de uma figura tipicamente brasileira. Ou melhor, tipicamente paulista.
Berlusconi, o Maluf italiano
Berlusconi era engenheiro de origem. Tinha algumas empreeiteiras e estava afogado até o pescoço em dividas insoluveis. Ou seja, era um homem sem nada a perder, o que explica sua total falta de escrupulos e moral. Entrou para a politica prometendo, além de obras que melhorariam a vida do povo, a reduçao de impostos e taxas, e todo tipo de promessa populista tipica. Uma vez eleito, e ainda sem escrupulos, criou um pequeno império televisivo (ta bom, aqui ele se assemelha mais ao Silvio Santos), que gradualmente cresceu até virar a maior força midiatica do pais. Hoje, boa parte dos programas, jornais e revistas de origem italiana tem algo a ver com o império berlusconiano. Enriquecido com a TV a ponto de cometer daquelas loucuras faraonicas como construir seu proprio mausoléu, seu anfiteatro para tres mil pessoas, sua vila e etcetera, começou a propor mudanças nas leis a seu favor. Exemplifico. Aboliu as taxas sobre herança: para o italiano normal, que pagava muito pouco de taxas para o governo sobre a herança que deixava aos filhos, isso nao significou nada, mas em se tratando do império berlusconiano, o governo italiano perdeu uma enorme fonte de renda... Criou uma lei onde os crimes fiscais caducam depois de tres anos se nao forem resolvidos: o Maluf ia adorar essa... Recentemente, faz todo tipo de projetos para dificultar a vida do proximo presidente, ja que tem alguma vaga noçao de que o povo italiano nao esta muito feliz com ele.
Berlusconi e a revoluçao politica
A professora dizia que Berlusconi fez uma verdadeira revoluçao na politica italiana. Primeiro, porque "berlusconizou" a campanha politica. Antes, os candidatos estabeleciam contato com a gente, iam nas praças a falar com as pessoas, eram gente de carne e osso. Berlusconi faz tudo pela televisao. Tenta ser um candidato virtual, ter aquela coisa de ser uma celebridade, acima do homem comum, imortal. Depois, com todas as loucuras politicas que fez, dividiu o povo em pro-Berlusconi e anti-. Ou seja, como no Brasil, os italianos começaram a votar na pessoa e nao no partido politico. E mais, começaram a fazer aquela coisa antidemocratica de votar em um outro candidato qualquer, com o qual frequentemente nao concordam completamente, so para evitar que Berlusconi ganhe. Entendam ainda uma coisa: os italianos nao sao obrigados a votarem, como nos. Mas votam apenas para evitar que Berlusconi seja reeleito, quando poderiam abster-se do voto por nao encontrarem um candidato adequado.
Finalmente, talvez a maior revoluçao de Berlusconi na politica italiana tenha sido a perda do entusiasmo italiano pela politica. Havia um tempo, diz a professora, em que os italianos discutiam sobre politica como brasileiros discutem o futebol: nao ha resposta para a questao, mas discute-se apaixonadamente e defende-se a propria posiçao. Havia amor pela democracia italiana. Depois de Berlusconi, os italianos perderam a vontade. Votam porque é preciso elimina-lo da presidencia, mas perderam o gosto pela coisa. Ha quem diga que, mesmo apos o holocausto berlusconiano, isso nao voltara ao normal. Berlusconi transformou a politica italiana em uma versao européia da politica sulamericana, desinteressante, insoluvel, angustiante.
Devo no entanto ressaltar que essa é a opiniao desta professora nada imparcial. Ha quem até goste dele. Assim como, suponho, ha quem goste do Maluf. Mas no geral, o retrato que se pinta dele é bem negativo.
=====================================
Em tempo, respondendo às perguntas feitas pela Gabe nos comentarios de um post antigo...
Apesar da aparente afluencia, ha sim mendigos em Perugia. Eles nao parecem exatamente mendigos, mas aqui nada é exatamente o que parece (vide a islandesa que citei por aqui, que achei ser latina...). O que dificulta a identificaçao é que ha muitos estudantes estrangeiros com uma aprencia que nos considerariamos suja ou maltrapilha, mas sao assim mesmo e sao de familia abastada. Por outro lado, ha pessoas relativamente bem vestidas que chegam perto de voce e pedem algum trocado. Assim fica dificil compreender. Arrisco um julgamento perigosamente preconceituoso e digo que no geral os mendigos sao do leste europeu (a galera aqui tem algo contra poloneses e albaneses, inferindo automaticamente que sao pobres). Seria mais ou menos o mesmo que dizer que no geral os mendigos brasileiros sao argentinos ou algo semelhante. Ha muitos mendigos italianos também, daquele tipo de gente que esta na pior situaçao, mas nao se esforça pra sair dela. Uma coisa que é quase constante no entanto, é que os mendigos sao geralmente acompanhados de algum cachorro sujo e sem coleira. Ha partes da cidade, curiosamente nas ruas mais movimentadas e nao escondidos nos becos como e Sao Paulo, onde os mendigos se reunem à noite. Sao lojas que vendem alcool ou comida a preços infimos. A cena me causa repulsa: essas pessoas de cabelo rastafari ou roupas largas (imagino que sejam mais utei para furtar qualquer coisa, mas isso seria um julgamento preconceituoso...) exalando uma caatinga leve, acompanhados de dezenas de caes sujos. Lembrando-me da cena agora, minha imaginaçao cria um efeito de luz onde esses lugares aparecem alguns tons mais escuros, como se evitados até pela iluminaçao publica. Minha mae recomendava-me, como toda mae, de evitar as ruelas e andar pelas principais, mas a certas horas da noite, parece-me mais seguro aqui fazer o contrario.
Ainda assim, respondendo outra questao da Gabe, mesmo os mendigos parecem relativamente felizes. Tem sua turma, suas brincadeiras, a alegria de viver em Perugia. Nao é raro ve-los encontrando uns aos outros e saudando-se efusivamente, como otimos amigos que nao se encontram ha tempos e nao tem nenhuma outra preocupaçao.
Terminando, trabalho aqui parece ser uma coisa relativamente logica. Tive o azar de vir para ca no inverno, a estaçao morta. Porque ha poucos turistas e muitos estudantes à procura de emprego no inverno. Assim que podemos dizer que o mercado esta saturado. Me disseram que, no verao, os bares colocam as mesas para fora, nas piazzas, e precisam de uma maozinha, tornando o trabalho mais abundante. Em geral, o trabalho que se encontra aqui é nas pequenas padarias, pizzarias ou mesmo nos bares e pubs. Mas em geral, as vagas sao preenchidas por garotas estrangeiras que, mesmo falando um italiano com alguns erros, sao bonitas e atraem clientes. O que dificulta um pouco as coisas para os italianos ou para um rapaz estrangeiro como eu, mesmo que com um bom dominio do idioma local.
Mas o que mais me interessa atualmente sao as aulas nas quais falamos de politica. Estranho: no Brasil é o assunto do qual eu fujo a toda custa. A professora nos contou bastante sobre Berlusconi, nao escondendo sua posiçao contraria ao governo atual. E quanto mais ela contava, mais eu me lembrava de uma figura tipicamente brasileira. Ou melhor, tipicamente paulista.
Berlusconi, o Maluf italiano
Berlusconi era engenheiro de origem. Tinha algumas empreeiteiras e estava afogado até o pescoço em dividas insoluveis. Ou seja, era um homem sem nada a perder, o que explica sua total falta de escrupulos e moral. Entrou para a politica prometendo, além de obras que melhorariam a vida do povo, a reduçao de impostos e taxas, e todo tipo de promessa populista tipica. Uma vez eleito, e ainda sem escrupulos, criou um pequeno império televisivo (ta bom, aqui ele se assemelha mais ao Silvio Santos), que gradualmente cresceu até virar a maior força midiatica do pais. Hoje, boa parte dos programas, jornais e revistas de origem italiana tem algo a ver com o império berlusconiano. Enriquecido com a TV a ponto de cometer daquelas loucuras faraonicas como construir seu proprio mausoléu, seu anfiteatro para tres mil pessoas, sua vila e etcetera, começou a propor mudanças nas leis a seu favor. Exemplifico. Aboliu as taxas sobre herança: para o italiano normal, que pagava muito pouco de taxas para o governo sobre a herança que deixava aos filhos, isso nao significou nada, mas em se tratando do império berlusconiano, o governo italiano perdeu uma enorme fonte de renda... Criou uma lei onde os crimes fiscais caducam depois de tres anos se nao forem resolvidos: o Maluf ia adorar essa... Recentemente, faz todo tipo de projetos para dificultar a vida do proximo presidente, ja que tem alguma vaga noçao de que o povo italiano nao esta muito feliz com ele.
Berlusconi e a revoluçao politica
A professora dizia que Berlusconi fez uma verdadeira revoluçao na politica italiana. Primeiro, porque "berlusconizou" a campanha politica. Antes, os candidatos estabeleciam contato com a gente, iam nas praças a falar com as pessoas, eram gente de carne e osso. Berlusconi faz tudo pela televisao. Tenta ser um candidato virtual, ter aquela coisa de ser uma celebridade, acima do homem comum, imortal. Depois, com todas as loucuras politicas que fez, dividiu o povo em pro-Berlusconi e anti-. Ou seja, como no Brasil, os italianos começaram a votar na pessoa e nao no partido politico. E mais, começaram a fazer aquela coisa antidemocratica de votar em um outro candidato qualquer, com o qual frequentemente nao concordam completamente, so para evitar que Berlusconi ganhe. Entendam ainda uma coisa: os italianos nao sao obrigados a votarem, como nos. Mas votam apenas para evitar que Berlusconi seja reeleito, quando poderiam abster-se do voto por nao encontrarem um candidato adequado.
Finalmente, talvez a maior revoluçao de Berlusconi na politica italiana tenha sido a perda do entusiasmo italiano pela politica. Havia um tempo, diz a professora, em que os italianos discutiam sobre politica como brasileiros discutem o futebol: nao ha resposta para a questao, mas discute-se apaixonadamente e defende-se a propria posiçao. Havia amor pela democracia italiana. Depois de Berlusconi, os italianos perderam a vontade. Votam porque é preciso elimina-lo da presidencia, mas perderam o gosto pela coisa. Ha quem diga que, mesmo apos o holocausto berlusconiano, isso nao voltara ao normal. Berlusconi transformou a politica italiana em uma versao européia da politica sulamericana, desinteressante, insoluvel, angustiante.
Devo no entanto ressaltar que essa é a opiniao desta professora nada imparcial. Ha quem até goste dele. Assim como, suponho, ha quem goste do Maluf. Mas no geral, o retrato que se pinta dele é bem negativo.
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Em tempo, respondendo às perguntas feitas pela Gabe nos comentarios de um post antigo...
Apesar da aparente afluencia, ha sim mendigos em Perugia. Eles nao parecem exatamente mendigos, mas aqui nada é exatamente o que parece (vide a islandesa que citei por aqui, que achei ser latina...). O que dificulta a identificaçao é que ha muitos estudantes estrangeiros com uma aprencia que nos considerariamos suja ou maltrapilha, mas sao assim mesmo e sao de familia abastada. Por outro lado, ha pessoas relativamente bem vestidas que chegam perto de voce e pedem algum trocado. Assim fica dificil compreender. Arrisco um julgamento perigosamente preconceituoso e digo que no geral os mendigos sao do leste europeu (a galera aqui tem algo contra poloneses e albaneses, inferindo automaticamente que sao pobres). Seria mais ou menos o mesmo que dizer que no geral os mendigos brasileiros sao argentinos ou algo semelhante. Ha muitos mendigos italianos também, daquele tipo de gente que esta na pior situaçao, mas nao se esforça pra sair dela. Uma coisa que é quase constante no entanto, é que os mendigos sao geralmente acompanhados de algum cachorro sujo e sem coleira. Ha partes da cidade, curiosamente nas ruas mais movimentadas e nao escondidos nos becos como e Sao Paulo, onde os mendigos se reunem à noite. Sao lojas que vendem alcool ou comida a preços infimos. A cena me causa repulsa: essas pessoas de cabelo rastafari ou roupas largas (imagino que sejam mais utei para furtar qualquer coisa, mas isso seria um julgamento preconceituoso...) exalando uma caatinga leve, acompanhados de dezenas de caes sujos. Lembrando-me da cena agora, minha imaginaçao cria um efeito de luz onde esses lugares aparecem alguns tons mais escuros, como se evitados até pela iluminaçao publica. Minha mae recomendava-me, como toda mae, de evitar as ruelas e andar pelas principais, mas a certas horas da noite, parece-me mais seguro aqui fazer o contrario.
Ainda assim, respondendo outra questao da Gabe, mesmo os mendigos parecem relativamente felizes. Tem sua turma, suas brincadeiras, a alegria de viver em Perugia. Nao é raro ve-los encontrando uns aos outros e saudando-se efusivamente, como otimos amigos que nao se encontram ha tempos e nao tem nenhuma outra preocupaçao.
Terminando, trabalho aqui parece ser uma coisa relativamente logica. Tive o azar de vir para ca no inverno, a estaçao morta. Porque ha poucos turistas e muitos estudantes à procura de emprego no inverno. Assim que podemos dizer que o mercado esta saturado. Me disseram que, no verao, os bares colocam as mesas para fora, nas piazzas, e precisam de uma maozinha, tornando o trabalho mais abundante. Em geral, o trabalho que se encontra aqui é nas pequenas padarias, pizzarias ou mesmo nos bares e pubs. Mas em geral, as vagas sao preenchidas por garotas estrangeiras que, mesmo falando um italiano com alguns erros, sao bonitas e atraem clientes. O que dificulta um pouco as coisas para os italianos ou para um rapaz estrangeiro como eu, mesmo que com um bom dominio do idioma local.
quinta-feira, março 02, 2006
-=3=-
Depois da aula na segunda, fui para casa no meu ultimo dia no quarto onde vivera todo o mes de Fevereiro. Os rapazes tinham organizado uma pequena festança. A cozinha ficaria a cargo de Soo: comida coreana picante. Hillis e David foram atras da bebida: um pequeno barril de cerveja, alguns vinhos e um estranho licor de mixirica. Eu? Tentei pela segunda vez fazer a macedonia cuja receita meu pai deixara nos comentarios do dia 13/02. A primeira vez, na desastrosa sexta passada em Brufa, nao tinha sido assim um sucesso: errei na dose das coisas...
Foi um jantar delicioso. O costume coreano de comida é estranho, mas muito gostoso, por ser bem visceral. Cada um coloca um pouco de arroz e macarrao em seu prato. No meio da mesa sao colocadas as tigelas com carnes, legumes e outras coisas, grandes ensopados. Cada um vai pegando das tigelas, misturando no arroz e comendo. O tempero forte e picante da cozinha coreana fazia minha boca arder, mas eu continuava comendo porque era maravilhoso. Hillis e David comiam com garfo e colher, porque nao sabiam usar palitos... Comemos absurdamente muito. No fim, Soo deu uma passada no quarto e trouxe uma pequena caixinha de saque coreano, com muito mais sabor e teor alcoolico que o japones ao qual eu estava acostumado, com o qual começamos a bebedeira, brindando em diferentes linguas:
- "Gumbei" dizia Soo em coreano (na verdade, uma variaçao do "Kampai" japones, que ele dizia que nao era usado muito porque os coreanos e os japoneses tinham uma certa rivalidade. A outra forma que ele usava era uma vocalizaçao complicada demais para escrever aqui...)
- "Prost" dizia Hillis, em holandes.
- "Cheers" dizia David, em ingles.
- "Saude" eu dizia. E depois emendava: "Skål" (le-se "Skol", como a cerveja), em suéco, para a surpresa compreensiva de todos...
Quando tiramos a macedonia da geladeira, percebi que tinha feito pouco para trogloditas como nos. Resolvi propondo comermos corean style, com a tigela no centro da mesa. Estava divina, tendo eu acertado as doses. Terminamos a janta com o licor de mixirica. Neste ponto, todos um pouco alterados, falando besteira e rindo juntos como nao haviamos rido neste mes de convivencia. Falando de invadir os Estados Unidos: Canada pelo norte, Holanda pelo leste, Brasil pelo sul e Coreia pelo Oeste. A idéia era nos encontrarmos no centro do pais para brindar a conquista do pais maldito com outro daquele licor de mixirica...
Com a noite chegando ao fim, muitos de nos ja recompostos da embriaguez (exceto por Hillis), David propos de irmos para algum bar. Soo ficou, mas os outros tres conspiradores anti-americanos sairam no frio. Eramos um trio variado. David ia à frente com passo decidido. Eu ia no meio, as pernas doendo do futebol de domingo, o chapéu veneto dando um aspecto pouco confiavel. Hillis ia atras, trebado, batendo o ombro nas paredes, o cotovelo nos espelhos dos carros, quase rolando pelas escadas peruginas. Acabamos no Tana del Orso, para a segunda parte da noite. Se a primeira tinha sido a diversao do Soo (cozinhar e comer...), a segunda foi minha: dançar. Com italianas e espanholas cujos nomes esqueci na hora seguinte, uma suiça que foi com a minha cara e um funcionario boa-pinta da lojinha de internet. Dançamos até o bar fechar (ou melhor: dancei, porque os outros dois nao tinham muito jeito para a coisa...). Estava pronto para ir para a casa. Ja era tarde e eu teria que atravessar Perugia para chegar na nova casa no dia seguinte. Mas entao David, das idéias de girico, quis comer. Sim, de novo. A terceira parte da noite, a dele, foi uma viagem surreal por uma Perugia escura, vazia, vampiresca. Luzes cinematograficas lançando sombras em afiadas. Ruelas estreitas onde facilmente perdia-se o senso de direçao. Eu reclamando logo atras que nao tinha nada aberto a essa hora e Hillis ainda cambaleando apoiado em mim. David seguia, passos decididos, mesmo sem encontrar nada aberto. Eventualmente descemos as escadas de San Ercolano para fora dos muros do burgo e para aquela Perugia que eu ainda nao conhecia. E foi em uma esquina anonima que encontramos uma padaria ainda semi-aberta: a grade abaixada, mas a porta aberta e o padeiro la dentro, fazendo quitutes. Naquela hora da manha, o perfume dos doces quentes era muito convidativo. Apesar de toda minha reclamaçao, cedi à seduçao de um doce qualquer, com muito creme.
Nao sei como encontramos o caminho de volta para o Corso Vannucci. La, nos despedimos finalmente de David. Ja se mudara naquele dia para um outro quarto. Ainda o veria em Perugia, mas os dias de ter o canadense falando rapido em casa tinham acabado.
Na manha seguinte, fiz as malas, ajudei a limpar a holocausto na cozinha e acordei um Hillis semi-morto que precisava pegar um trem para Bolonha. Dei uma limpada no quarto e deixei uma pequena formiga para Wilbur, a aranha de patas anormalmente longas que vivia no banheiro (outro daqueles pequenos e insignificantes detalhes que nao tive tempo de escrever...). Antes de sair, arranquei da parede o mapa de Umbria que o habitante anterior havia deixado, junto com o poster da feira de chocolates e os desenhos de Asterix: um pequeno e util souvenir.
Tudo feito, nos despedimos de Soo. Ele ficaria na casa por mais um tempo. Sentiria falta dos peculiares costumes coreanos, da zona que era o quarto dele, do seu temperamento bonachao.
Vesti a Armadura de Viajante, junto com uma mala, um saco de compras e os cobertores que Paula me deixara e assim começou minha peregrinaçao para o outro quarto. Descendo o Corso Garibaldi com Hillis ao meu lado, passavam pela minha cabeça imagens do que estava acontecendo vistas de uma perspectiva usada em animaçao japonesa, a perspectiva bidimentional que mostrava eu descendo a ladeira do corso de direita para esquerda e os personagens peculiares ao fundo: primeiro a casa da senhora que estava sempre na porta, de roupao, vendo a vida passar, e que sempre me fazia algum comentario estranho qualquer. Depois a padaria do Emiliano, hoje tocando Moulin Rouge. Passei pela parte em obras do corso, mal cabendo na passarela de madeira: acompanhara a reforma com curiosidade nesse mes em que passei por ela todos os dias. Nesse ponto, Hillis ja estava ganhando distancia, à medida que eu tinha que parar para ajeitar todas as trezentas coisas que carregava. Parava para esperar-me, mas em algum ponto, na ultima curva do corso, perdi-o de vista na multidao da Fortebraccio para nunca mais ve-lo. Adeus e boa sorte, holandes. Sentirei falta do seu gaguejar ao tentar falar italiano.
A viagem prosseguia pela Piazza Morlacchi, com um grupo de crianças aprendendo sobre a historia da cidade com o professor de colégio. Queria ficar la para ouvir junto. Comprei um mapa (depois de um mes aqui...) para navegar pelas ruelas pelo caminho mais curto. E foi assim que acabei tomando a Via della Cupa, onde estava a casa dos italianos entediantes. Ja havia transcorrido dois terços da viagem. Achei que o cansaço me faria pensar em como teria sido facil se eu escolhesse ter ficado aqui. Mas nao senti culpa nenhuma e continuei em direçao ao ultimo terço da viagem com a certeza de que eu tinha feito a escolha certa e que estes proximos meses prometiam muito.
Continuava pensando em cenas anime style: eu parando para descansar e tirando a Armadura no canto esquerdo inferior da tela, enquanto uma senhora batia o po de um tapete na varanda, canto direito superior; eu passando por uma italiana e fazendo uma saudaçao cordial com o chapéeu e ela abaixando o olhar, seguindo sem olhar para tras; eu andando devagar, sem perceber o carro atras de mim, cordial demais para buzinar; eu parando novamente para descansar, virando e revirando o mapa, sem achar o nome da rua, com a paisagem umbra atras de mim.
Em algum ponto do caminho, um flash de pensamento: Tais dizendo-me que eu era orgulhoso demais e nunca pedia ajuda pra ninguém. De fato, poderia ter pedido aos Seppilli, ou quem sabe à Carmen para me darem uma ajuda automotiva. Entenda, minha cara: nao é questao de orgulho. O fato é que so fui ter essa idéia brilhante no meio da viagem...
Na escada da Via della Corgna, coloquei o pacote de cobertores da Paula sobre o corrimao duplo e o deixei escorregar até o pé das escadas para ter a outra mao livre e poder levantar a mala. La embaixo, liguei para as meninas. Mary, a baixinha, me atendeu (sim, eu sei que vou ter que arranjar um método pra diferenciar a inglesa da italiana...). Estaria la em quinze minutos. Levei vinte. Ela me recebeu na porta, com camisa da Emily Strange (entre os links do abismo, la no fim da pagina do blog) e eu comecei a sentir um clima estranhamente familiar, uma afinidade inesperada. Logo conheci as outras duas: Sara, meio androgina, questionadora, de carater forte; e Fabiana, com o maior par de olhos verdes que ja vi na vida, e muita disposiçao para me ensinar tudo da casa, os costumes, as regras. As tres meninas tinham uma coisa muito aconchegante de me lembrarem as tipicas meninas do curso de arte da FAAP. E de fato, o apartamento tinha o mesmo clima (e por que nao dizer a mesma sujeira...) do atelie que dividira com as meninas em Sao Paulo. Papéis colados por ai com pequenos recados, frases engraçadas ditas por uma ou outra (e que o meu italiano ainda nao tinha nivel para compreender...), propaganda feminista, pseudo-gotica, internetica.
E entao, o meu novo quarto. A porta com o vidro jateado, combinada com meu chapéu, me colocou num clima meio film noir: senti falta do ventilador de teto. Pendurei o meu chapéu nos ganchos atras da porta e me encontrei em um quarto completamente vazio. Me dei conta de que eu sequer tinha coisas suficientes para encher este quarto, mas me dava vontade de faze-lo aos poucos. Ainda que isso significasse uma infernal viagem de volta ao Brasil. O quarto, sem as coisas de Alessia, a moradora anterior, era um enorme espaço branco. Os moveis (eu tenho moveis!); uma poltrona, cama e mesa; nao sao exatamente brancos, mas um creme, coisa envelhecida. O chao também, e as paredes tem aquele branco quebrado, um pouco amarelo. So o armario e uma estante sao de madeira. Percebi-me como uma enorme figura negra (o casaco para neve, o chapéu, as botas, o olhar) em meio a este enorme espaço branco e adorei o contraste. A janela da de frente para um outro prédio, também branco (vou sentir falta de acordar com o sol...). Penduro a tela branca que comprei pensando em pintar a suéca em um prego que sobrou das coisas de Alessia: vem a calhar com minha vontade de também preencher o quarto, enquanto vou preenchendo a tela.
Faço uma rapida faxina, arrumo a cama (meus lençois mal cabem na cama de viuva!), coloco as roupas no armario e saio do quarto, para saborear minhas primeiras impressoes das tres novas personagens com as quais viverei. Em outro quarto, Mary colocou David Bowie no som...
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