domingo, abril 15, 2012

Vermelho

Fui assistir Vermelho com o Antônio e o Bruno Fagundes. Os atores são pai e filho. Os personagens, Mark Rothko e Ken, são mestre e aprendiz de pintor. Essa coerência metalinguística ficou bem legal, e me deu muita vontade de voltar àquela questão da falta de um mestre. Na peça, Ken se apresenta a Rothko e começa a trabalhar para ele como assistente de ateliê. Ele é ansioso pela aprovação do mestre, que o trata como ninguém. Mas aos poucos, Rothko vai ensinando-o a ver a pintura, a encará-la com seriedade, a ter discernimento (e não apenas achar tudo "legal"). Até que eventualmente, há aquele momento sublime em que o aprendiz consegue apontar toda a megalomania e o egocentrismo do mestre e provar que ele também não é ninguém. Ou melhor, que ainda que tenha feito história, ele também é humano, preso ao seu tempo, e passível de um dia se tornar obsoleto. É a superação do mestre pelo aprendiz.
Há na peça uma energia forte, masculina, obviamente advinda dos personagens, que encarnam aquele estereótipo do pintor machão, rude, briguento. Não é à toa que a comparação entre Rothko e Pollock é feita durante boa parte da peça. Os dois, pintores machões (Pollock, até bem machista). Eu ainda não sei o que sinto a respeito desse estereótipo. Mas não gostaria de ser incluído nele algum dia.
Na época da minha graduação, eu tive a chance de ter Dora Longo Bahia como mestre. Mas eu era imaturo, arrogante, e vindo de uma geração que se dá ao luxo de desistir e ir procurar chances mais brandas ao ego diante do primeiro sinal de confronto. Tá certo que ela não facilitava muito as coisas. Mas bons mestres não afagam o seu ego desde o começo. Como resultado, eu pouco aproveitei esse relacionamento, e não tirei nenhuma chance disso além da boa nota no meu trabalho final da faculdade. Hoje, aos 30 anos, eu acho que eu teria maturidade e humildade para encarar um mestre como se deve. Para sofrer o necessário e aprender com isso.
Será que um dia eu ainda serei um mestre (que, diga-se de passagem, é mais do que apenas ser um professor de artes...)?
A peça também me deixou com vontade de voltar a fazer arte que nem essa do Rothko. Daquelas que precisam de muito tempo, muita paciência, muito gosto e discernimento pra apreciar. De demorar-se horas escolhendo o tom certo da cor (e não apenas pegar qualquer cor que vem no tubinho de tinta...), decidindo se é a relação certa com a outra cor. Dessas pequenices que não querem dizer nada para quem não está disposto a dedicar-se a essa fruição. Desse tipo de arte que eu até me divirto fazendo, mas não tenho a coragem de mostrar.

Quem sabe um dia...
Quem sabe com o mestre certo...

segunda-feira, abril 09, 2012

Jogos Vorazes

Meu alunos no colégio só falam da trilogia Jogos Vorazes, e eu queria muito comentar a respeito, depois de ter visto o primeiro filme. Devo no entanto aproveitar a oportunidade para falar de várias outras coisas e fazer um amarrado do que tem se passado.

Cenas recentes.

Tive uma aula particularmente complicada com uma turma da 7ª série que não parecia minimamente interessada em saber das festas folclóricas nacionais que estávamos estudando. O assunto já fora trazido à equipe de professores: eu achava que os alunos, nascidos e criados em sua maioria nesta mesma cidade, não tinham motivos para se interessarem por festas folclóricas de longínquos estados do nordeste. E nem mesmo pelas festas dos estados mais próximos. Só mostravam alguma empatia ao falarmos de Festa Junina, e quando muito, do Bumba-meu-boi. Claro, a equipe me disse que, como educador, eu devia encontrar meios de fazer essas festas folclóricas parecerem interessantes. Ainda estou esperando sugestões de como fazer isso...
Às tantas, perdi a paciência e chamei a atenção da classe inteira. Um dos alunos, mais desinibido, interrompeu a bronca: "Mas professor, sem querer ofender, pra que é que nós temos que estudar arte?". Eu temia a pergunta mais do que a fatídica "de onde vem os bebês?" que eu teria que responder a qualquer filho meu. A verdade é que eu mesmo não sabia (das artes, não dos bebês...). Eu me graduara e fizera um mestrado em artes. Fizera-o por vontade, por gosto (diletantismo?). Mas no fundo, nunca havia visto o sentido nisso tudo. Eu fazia de coração, mas a cabeça não entendia. Essa mentalidade, sem dúvida advinda da minha educação neste mesmo colégio, voltada para questões práticas, úteis, eficientes, com certeza tivera seu impacto no quão pouco eu conseguira me dedicar seriamente (de corpo e alma) a uma carreira como artista plástico. Eu continuava preso fundamentalmente a uma pergunta parecida, embora elaborada de forma mais madura: "pra que gastar tempo, dinheiro e cérebro em uma prática que essencialmente não executa nenhum serviço prático?" Eu ainda via arte como uma brincadeira, um parlor trick. Dá pra ver porque é que eu nunca dei muito certo, né?
O colégio, claro, estava querendo mudar esse jeito de pensar. Percebera que uma educação voltada apenas às questões práticas gerava formandos excelentes no tocante a ganhar dinheiro, porém profundamente incomodados com um vazio interior que fortuna nenhuma preenchia. Posso dizer por causos de amigos próximos que as consequências desse vazio chegaram a ser fatais para pelo menos um colega meu... Eu era parte desse processo, cria dessa mentalidade: parecia adequado que eu, percebendo as falhas daquela formação anterior, ajudasse a apontar o caminho para a nova formação.
Eu pensei em muitas formas de responder essa questão do meu aluno. Pensei em falar de estatísticas, do quanto o mercado de arte faturava, para dar uma dimensão palpável, quantíficável, compreensível para esse jeito de pensar que o colégio já instilava nos alunos (e já na 7ª série...). Mas se ele podia fazer tanto ou mais dinheiro como um engenheiro ou advogado, isso de nada o convenceria. E de qualquer forma, estudar arte não o faria automaticamente um artista de sucesso (assim como estudar matemática não o faria automaticamente um engenheiro de sucesso, e etc.). Pensei em falar de identidade, mas isso por si só já era um caminho espinhento na minha própria história. Parte da minha família era do nordeste e nem por isso eu gostava da cultura do sertão. Fora atrás da minha origem italiana e acabara me identificando muito mais com a cultura britânica, da qual não tenho descendência alguma. Eu sentia que havia sim algo a dizer aí. Algo sobre como temos que conhecer nossas origens para poder questioná-las e encontrar nossa verdadeira identidade. Algo sobre como eu começara com origens nordestinas e já fora aos confins da Walachia procurar minha identidade entre os vampiros históricos da Romênia.

E por falar em vampiros, mencionei o clássico da Anne Rice a um dos outros professores depois das aulas. Ele me falou de workshops que aconteciam entre os professores, onde era explorado o sentimento que alguns dos mais velhos tinham de que os mais novos estavam chegando para tirar os seus lugares. Lembrei logo da cena em que Armand diz a Louis que ele receia que chegue a época em que ele, contando já 400 anos, não consiga mais acompanhar as mudanças do mundo. E em seguida, pede que Louis, um vampiro recém-criado, seja seu elo de ligação com a época atual. No entanto, Armand continua tendo sua relevância, ao contar a Louis sobre a moral dos vampiros mais velhos, e porque eles tentarão matar sua pequena Cláudia, transformada em vampira ainda na infância.
Saíndo do colégio naquele dia, mencionei que Entrevista com o Vampiro talvez tivesse sido o Jogos Vorazes da minha época (dizer "na minha época" com 30 anos de idade ainda parece um anacronismo?). Foi pelo menos um dos contos que fizeram a cabeça de muita gente mais adepta à subcultura gótica. Eu poderia escrever largamente sobre como a história tem muito mais densidade do que qualquer das sagas mais recentes, mas minha opinião seria claramente enviesada. Os livros de Rice foram adequados a uma espécie de "revival" do gótico da minha geração de adolescentes. Porém tenho que admitir que Jogos Vorazes faz sim muito mais sentido para uma geração adolescente que já acompanha mais de uma dezena de edições do Big Brother e a grotesca cadeia de eventos televisionados que começou com o 11 de Setembro e hoje nos traz imagens de um país invadido e subjugado que não teve nada a ver com o assunto.

Então vamos ao que interessa: como que Jogos Vorazes me ajudará a responder a questão do meu aluno e trazer o estudo de artes para algo mais concreto para eles?

A resposta está na crítica.
A mais nova saga adolescente mostra um grupo de 24 jovens, dois de cada distrito do país fictício Panem, sendo colocados em uma arena para lutar entre si até só restar um. A carnificina é televisionada em uma espécie de reality show para uma população futurista de um distrito hierarquicamente superior que é totalmente apática ao fato de que são adolescentes de 13 a 18 anos abatendo uns aos outros como animais. Tudo isso sob um pretexto fraco e inverossímil de que a doação desses jovens como "Tributos" para o distrito superior inexplicavelmente fará com que os distritos subjugados desistam da idéia de organizar outro levante armado contra o superior. É, eu também não entendi a lógica nisso...
O que deu pra entender, e que eu acho que talvez seja a pouca parte louvável da saga, foi a crítica dupla sendo feita na história. A escritora Suzanne Collins disse em uma entrevista que teve a idéia para o livro enquanto mudava de canais na TV, entre um reality show e notícias da guerra do Iraque. A primeira crítica está no reality show no livro dela, que assim como as versões mais recentes do Big Brother, é mais "show" do que "reality". Eles nos trazem participantes que estão cientes demais de como manipular o público do outro lado da tela pode ser uma estratégia mais eficaz do que insistir na realidade do que está acontecendo do lado deles, na arena/casa dos Brothers. Há cada vez mais relacionamentos de fachada e polêmicas desnecessárias em prol de alavancar simpatia do público. Onde foi parar o "reality" de um grupo de pessoas sendo elas mesmas? Jogos Vorazes retrata isso, na medida em que a personagem principal encena um relacionamento de fachada para ganhar apoio do público, que pode lhe "patrocinar" ítens de sobrevivência dentro da arena; e na medida em que os organizadores do jogo moldam a imagem pública dela para tirar proveito disso.
Os organizadores do reality show talvez sejam o maior alvo desta crítica. No filme, eles mudam regras de forma cínica, manipulam o ambiente e os jogadores, tudo para cativar ainda mais o público. Mais uma vez, não há "reality", só o "show". Eles não deixam as coisas acontecerem naturalmente. No Big Brother e derivados, a coisa não é muito diferente (tá legal, não tem armas, bolas de fogo ou cães do inferno...). Já imaginou o que aconteceria se todos os "brothers" fossem colocados na casa e todo mundo se desse muito bem e não houvesse conflito? O programa seria um porre, com muito mais choradeira na hora em que um dos novos BFFs fosse eliminado por regras do jogo. Os organizadores precisam fomentar a discórdia, as rivalidades, o conflito. Eles precisam criar mocinhos e bandidos, mesmo que isso seja claramente artificial.
Quem assiste Jogos Vorazes deveria estar ciente de que os organizadores querem vender um determinado perfil que leva ao sucesso. O Big Brother não é diferente. E é por isso que a grande maioria dos participantes são rapazes bombados e garotas curvilíneas. Vez por outra, há um negro, um homossexual, uma gordinha ou um participante mais velho para dizer que o programa está contemplando todo tipo de gente, e até acontece de algum deles vencer de vez em quando, mas não dá pra negar que o perfil de sucesso sendo vendido pelos programas é o da beleza física.

A segunda crítica da história é relativa à guerra do Iraque. Na história, o distrito hierarquicamente superior venceu a guerra civil contra os outros distritos por ter tecnologia superior. Depois instituiu esse regime de "pão e circo" aos outros distritos e a seus próprios habitantes, mantendo-os distraídos com um programa de televisão. Os distritos vencidos são retratados lugares de baixa tecnologia, de pessoas com roupas pobres passando necessidade. Enquanto que o distrito superior tem cores, luzes, pessoas com cabelos impraticáveis e apelo pop. Lembra um pouco o Oriente Médio e os EUA, não? Interessante ver que a história está sendo escrita por uma americana, mas coloca os EUA simbólicos como os vilões da história. Na verdade, não é o primeiro filme a fazer críticas severas contra o imperialismo americano. Mas é legal ver cada vez mais filmes deixando claro que nem os americanos estão mais acreditando nessa de "luta contra o terrorismo".
Mais do que tudo, o livro serve como um aviso à geração adolescente que ficou fascinada por ele: prestem atenção, vocês estão sendo sedados pela mídia. Acordem!
O formidável aqui é que esse aviso está sendo veiculado através de um livro que virou best-seller e gerou um blockbuster adolescente nos cinemas. Ou seja, o aviso contra a mídia está sendo veiculado na própria mídia. E o sistema o veicula tranquilamente, crente de que o público já está tão sedado que nem vai perceber a crítica.

Termino este texto prolixo lembrando de uma passagem do filme onde um dos personagens diz que, se ninguém assistisse aos Jogos Vorazes, o programa e a doação de "Tributos" perderiam seu sentido e seriam cancelados. Seria maravilhoso poder fazer isso com um programa na vida real que já teve mais de uma dezena de edições e perdeu totalmente o seu sentido...