quarta-feira, dezembro 19, 2007

O gesto

Procurando presentes no shopping, percebo que chegou ao Brasil o We beed to talk about Kevin, de Lionel Shriver. Traduziram-no perfeitamente para Precisamos falar sobre Kevin: raro traduzirem ao pé da letra assim. Comprei a versão original do livro quando estava em Londres. Ele era anunciado em grandes painéis vistos nas paredes do outro lado da linha do metrô.

Mind the gap...

O verso do livro informava tratar-se da história de um daqueles garotos que assassinou seus colegas de colégio. Li o livro às pressas, esperando um ponto de vista interessante e não-maniqueísta sobre o assunto. Foi uma decepção de início ao fim: Kevin era apresentado como um rapaz brilhante, mas maléfico por natureza. Nascera mau, piorou com a idade e cometeu as atrocidades por puro deleite e psicopatia, falta de sentimento de culpa mesmo.
Comparei o livro às reportagens da época, que atribuíam as chacinas aos jogos de tiro em primeira pessoa e ao último CD do Marilyn Manson. Curioso: pouco tempo depois dos rapazes de Columbine entrarem para a história, a nova versão de GTA, muito mais violenta, estourou como um dos jogos de maior sucesso da época. Julgando pelas reportagens, a sociedade ocidental deveria ter sucumbido perante uma horda de adolescentes violentos e psicopáticos, que roubavam carros e espancavam prostitutas. Esses crimes aconteceram, na mesma proporção que acontecem todos os anos.

Levou algum tempo para convencer os rapazes da banda a tocarem Jeremy, do Pearl Jam. A música foi inspirada em um parágrafo em um jornal, falando sobre um incidente em Richardson, Texas, onde um rapaz se suicidou na frente de seus colegas de classe. Embora o gesto tenha sido muito mais relacionado à auto-mutilação do que ao ataque, os motivos permanecem os mesmos.

Eu achava que era do Gaiman, mas na verdade foi o roteirista Warren Ellis que escreveu Shoot em 1999, como parte das histórias de Constantine. A revistinha (número 141) nunca chegou a ser publicada, porque era livremente inspirada nos acontecimentos de Columbine e a editora vetou o roteiro. Ellis na verdade entendeu apenas parte do assunto, e embora tenha conseguido um roteiro extremamente impactante, atribuiu as atrocidades a uma espécie de depressão generalizada, um mal do tempo, um desespero entediado de adolescentes sem futuro.

Anos depois de Columbine, quando eu estava saíndo da faculdade e esses incidentes já eram tristemente rotineiros, comecei a entender meu interesse por eles. Comecei uma história em quadrinhos que nunca teve nome e só durou quatro páginas. No fundo dos quadrinhos, a letra de Jeremy passa enquanto o personagem atira nos colegas e é morto pela polícia, para acordar em um pós-vida que não distingue entre o bem e o mal. Paralelamente, dei tratos à bola sobre fazer uma performance e, combinando previamente com algum colega, entrar um dia na sala de aula com uma arma de paintball e atirar nele. Me interessava a reação dos outros, se alguém iria tentar me desarmar, se alguém iria sequer entender.
Acima de tudo, me interessava o gesto. Sempre foi isso: o gesto. Descontada a questão moral/legal/humana do assassinato, é o gesto mais visceral e expressivo ao qual consigo me relacionar. O gesto de um estudante que aguentou anos de abuso dos valentões de colégio e nunca foi ouvido. Que, quando pediu ajuda aos pais e professores, foi transformado na raiz do problema, por ter "dificuldade de relacionamento", enquanto os valentões eram ditos saudáveis. Um monstruoso grito de uma criança que só que pedir "me ouçam".

Não sei como a conversa surgiu com Lexy hoje. Mas veio naturalmente e isso é sempre bom. Veio ilustrada por detalhes de uma infância e adolescência tão ou mais repletas de abusos quanto as minhas. E mais alguém que não idolatrou os rapazes de Columbine ou os que vieram depois, mas sentiu o deleite macabro de ver um dos nerds finalmente erguer o queixo e dizer "já chega".

Claro, hoje todo o trauma dessa época já não me diz respeito. Valentões são coisa da infância. E no entanto, eu continuo sempre voltando a esse assunto, sempre me interessando por ele. Com o mesmo interesse que eu tenho por alguns desses assuntos que as pessoas não querem discutir sem alarmismos sensacionalistas.

Acho que encontrei um assunto.

terça-feira, dezembro 11, 2007

O anúncio mal acabado, a animação que ainda falta alguns detalhes, a promessa de um longo e tortuoso dia seguinte. Mas consegui sair da agência. Corri em direção ao metrô até que meus pulmões estivessem em brasa. O passar das estações era pura e demorada ansiedade.

Não cheguei a tempo. A missa já tinha acabado e todos estavam partindo, os olhos ainda aguados em homenagem à amiga, colega de trabalho, professora. Na porta, alguém me deu uma foto dela. Ela sempre teve um sorriso fabulosamente alegre. Foi das mãos dela que eu recebi meu diploma. E tinha que ser ela, apenas ela. Acredito já ter escrito isso antes do blog.
Um súbito mal estar. Saí para as escadarias e, diante do anonimato dos motoristas da avenida, aliviei-me em um abafado e agudo choro.
Sim, algumas das lágrimas limpadas no dorso da mãe de homem que não chora eram pela professora, pela amiga, pela alegre. De certa forma sou grato por não ter visto esta mulher enquanto a doença a corroía: fico com as lembranças daquela época, daquele sorriso.
Mas preciso admitir que boa parte das lágrimas era frustração. Eu queria tanto ter estado lá. Outras pessoas daríam de ombros frente à tolice religiosa da missa de sétimo dia. Mas apesar de não ser tão cristão, eu sempre dei importância aos rituais. E agora tinha perdido este, o último para lhe dizer adeus. Eu chorava de frustração depois de um dia horroroso e culpava tudo na publicidade. Naquele emprego que eu ainda teimava em dizer a mim mesmo que era o caminho certo e que me sustentaria. Mas a que preço? Vendo a vida passar lá fora enquanto eu me percebia lerdo demais para cumprir as tarefas dentro do prazo? Sentindo-me culpado por não achar tudo aquilo fantástico e nem saber quem ganhou o recente prêmio Caboré? Perder sabe-se lá quantos outros rituais dos quais eu gostaria de participar?
Outra parte do choro era desamparo. Era perceber-me tão capaz e ainda assim tão inútil. O que eu poderia fazer além da publicidade para a qual eu me preparara por tanto tempo? Eu ainda sou uma criança nua, ingênua e com frio.

domingo, dezembro 09, 2007

Noite de sexta, ainda na agência. Ela desliga o telefone na minha cara porque eu combinei de sair com ela às 20:00 e ainda estava trabalhando uma hora depois. Depois volta a me ligar porque não tem como pegar um ônibus para casa.

Dançando na FunHouse, noite de sábado. Smiths, Smashing Pumpkins e Franz Ferdinand tocando. As luzes estroboscópicas queimando na minha retina os flashes congelados no tempo das expressões de deleite no rosto dela, cantarolando com a música, que se dissolvem no escuro dando espaço para o próximo flash e outra expressão daquelas que só ela faz.

Minha casa, na tarde de domingo. A mesa da cozinha é tomada por ingredientes de um risoto com verduras. Outro domingo gastronômico. Depois vamos ao ensaio da banda e ela não reclama. Talvez só um pouco pela preguiça de sair de casa com um estômago cheio e a sonolência da tarde quente. Mas não me sinto culpado por ter meus hobbies que consomem meu tempo, e isso era impensável para mim há alguns anos, na compania de outras pessoas.

terça-feira, dezembro 04, 2007

That sinking feeling...

Já é quase uma certeza que vou sair da publicidade. Resta-me entender para onde devo ir. Estou começando a pesquisar programas de trainee de grandes empresas.
A publicidade foi uma frustração gigantesca. Por ela, deixei as chances que tinha de procurar uma carreira de artes plásticas quando terminei a FAAP. Eu acreditava que poderia ganhar mais e ter mais estabilidade na publicidade. Mas tanta gente acreditou nessa ladainha, que hoje o mercado está saturado e não comporta pessoas como eu, que não morrem de paixão pelo assunto mas querem sobreviver dele. Os sacrifícios são enormes e eu não estou disposto a fazê-los.
Meu salário hoje não é maior do que o das minhas ex-colegas de FAAP que entraram para a área administrativa de museus e galerias. Já o stress...

Observando meus ex-colegas de colégio, gente que foi para outras áreas, percebo que a publicidade é uma das poucas áreas onde, quanto mais você sobe, mais trabalho você efetivamente tem. Claro, toda promoção envolve um aumento de responsabilidades e de stress, mas vejo meus ex-colegas delegando parte delas aos seus estagiários, assistentes e etc. Vejo-os usando a hierarquia a seu favor. Enquanto isso, minha supervisora na agência se desdobra em dois para absorver o que os estagiários não conseguem e minha chefe já vem à agência todo sábado, como parte da rotina semanal. Outros publicitários confirmam essa tendência.

Há algum alívio nessa crise toda que estou passando: o de perceber que, desistindo dessa área para a qual me preparei por quase uma década e percebendo que minha realização pessoal não virá daí, estou livre para fazer realmente o que aparecer pela frente. Desde que me pague mais, eu topo.

Há uma exclamação indignada que cada vez mais surge na minha cabeça em alto e bom inglês: "I gave up London for THIS!?"
Porque eu efetivamente voltei para terminar a faculdade de publicidade e ter uma carreira melhor do que a de garçom de pub (que aliás, me pagava melhor, se compararmos o custo e qualidade de vida...)
Mas aí eu me dou conta de que tenho Lexy e a banda e vejo que algo de bom surgiu disso tudo. Algo sempre surge.

sábado, dezembro 01, 2007

Atualizando

À medida que eu vou pegando um ritmo mais constante e maduro no trabalho, fica mais difícil pra mim atualizar isso aqui. Normalmente eu escrevo meus posts durante o dia, quando surge aquela idéia entre um trabalho e outro e eu fico pasmando um pouquinho. Mas recentemente, adquiri um hábito saudável de caçar assunto no trabalho, ir atrás de coisas inacabadas. Escrevo cada vez menos.

Mas resolvi fazer um daqueles posts gigantescos atualizando tudo, porque muita coisa importante aconteceu nessa semana. Não que muita gente leia isto, mas eu gosto de ter essas coisas registradas.

A BANDA
Saímos do show do Little Darling de cabeça erguida e achando que talvez tenha sido um dos shows mais gostosos que já fizemos. Ainda acho que o melhor foi aquele primeiro M868, mas esse foi muito mais gostoso.
Sinto a voz dar outro daqueles upgrades. Na verdade, não é como das outras vezes onde eu percebia uma capacidade nova. É mais como um rever habilidades que, com a evolução da voz, eu achei que tinha perdido. Não sei explicar direito, mas no começo eu fazia uns agudos que pareciam meio Placebo. Com os upgrades eu perdi isso e passei a fazer agudos de um jeito que machucava a garganta. Recentemente, reencontrei aquele jeito legal meio que por acaso, mas ainda não consigo controlar.
Há alguns ensaios, um dos rapazes começou a brincar com algumas notas. Os outros entraram na brincadeira. Eu, que estava em uma daquelas épocas de paixãozinha pela Lexy (daquelas que vêm para dar uma levantada no relacionamento de vez em quando...), entrei cantando um refrão que pedia "be my child, drive me wild". Nascia o começo de Be My Child. Com a voz naquele estilo do Placebo, mas a instrumentação mais pesada. Recentemente retomamos esse rascunho no estúdio. Os rapazes estão definindo as notas pra não ficar uma coisa tão improvisada e eu ainda preciso escrever uma última estrofe pra completar a estrutura. Acho que vai ser mais divertida de fazer do que Boy Toy. E isso é apenas uma cena dos próximos capítulos que virão no ano que vem, onde decidimos deixar os shows de lado e passar um semestre tentando escrever coisas legais. Cada um tem várias idéias, só falta tentar coordenar tudo junto.

PROCURANDO CASA
Encontrei um apartamento muito promissor na semana passada. A dois quarteirões da Paulista, uma kitchnet com garagem e lavanderia coletiva. Minha mãe foi ver e eu estava quase fechando o negócio. Daí meu pai perdeu as estribeiras e saiu cuspindo fogo. Porque ele estava a quatro meses pedindo que colocássemos os custos no papel pra entender quanto eu precisaria gastar para sair de casa e me manter. Pessoalmente, eu achei isso meio irrelevante. Depois da Europa, eu tinha aprendido, talvez da forma errada, a simplesmente entrar de cabeça nessas situações e me virar depois que o bonde já estivesse andando.
A discussão foi feia. Não vou colocar tudo por aqui, porque o post ficaria maior do que eu pretendo. Vou resumir dizendo que meu pai tem uma idéia nada realista do que eu vou precisar, aumentando demais os custos. E eu, por outro lado, tenho uma idéia igualmente irreal do que eu vou precisar, subestimando os custos. A verdade está em algum meio termo.

E como que isso afeta os planos?

Bom, abri mão desse apartamento. Vou ficar de olho nesse prédio, porque kitchnets tem alta rotatividade. Mas antes de seguir com o meu plano de mudar de casa, percebi que outras coisas vão ter que mudar.

A CONSEQUENTE QUESTÃO SALARIAL
Fazendo as contas por cima, entendi que eu vou precisar de uma certa quantidade de dinheiro para me manter sem a ajuda dos pais. Meu trabalho ainda não me paga isso e, pelo jeito, não vai me pagar pelos próximos... dois a três anos. E eles podem fazer isso, é perfeitamente normal: se eu não me sujeito a esse salário, tem muita gente querendo tomar meu lugar. Eu vejo a estrada a percorrer: ou eu invisto uma grana pesada em cursos de design (que é meu ponto fraco) e procuro algum jeito de compensar minha lentidão criativa, ou eu continuo ganhando esse salário e complemento isso com freelas que eu ainda não sei caçar direito. Em ambas as escolhas, os níveis de stress serão obscenos e eu temo pelo pouco tempo que tenho para meus hobbies como a banda e mesmo a pintura que voltei timidamente a fazer.
Um terceiro (e por enquanto mais sedutor) caminho é admitir minha derrota na publicidade, coisa que não é muito difícil porque eu não morro de amores pela carreira, e procurar uma alternativa. Dessas que todo mundo que ainda não conseguiu definir o que quer fazer da vida toma. Um programa de trainee de alguma grande empresa onde eu vá fazer uma coisa mais burocrática, que tenha menos a ver com arte, mas que me pague mais. Eu sempre fui meio seduzido pelo ambiente corporativo e sempre tive inveja dos moleques do prédio que, depois de uma certa idade, começaram a sair de casa pela manhã vestindo terno e carregado maletas. Me dá uma idéia de sucesso e estabilidade financeira. Eu sei que eu sou uma de raras pessoas que pensa assim, não precisa comentar...
Começo a perceber que eu sou um pouco como a Kita: eu detesto trabalhar. Não importa no que. Eu não sei procurar minha realização pessoal no trabalho. Ela está nas coisas que eu faço no tempo livre, depois de ganhar o dinheiro do mês. É aí que está o meu verdadeiro e: o pintor, cantor, desenhista, escritor, ator, etc. E essas coisas, neste país, dão muito pouco dinheiro ou exigem um ritmo de trabalho acelerado e incompatível com a boa qualidade. Acho muito triste esse ponto da maturidade onde você se rende ao fato de que você realmente não vai conseguir viver do seu sonho. As concessões são tão dolorosas...

A PINTURA
Como disse, voltei a pintar. Timidamente. Aproveitei uma reforma na casa da minha avó que interditou o ateliê já abandonado e fui organizar as coisas. Remexer nos tesouros daquela época sempre me inspira a voltar a ser o artista que eu era na faculdade (que frase de velho...). Aproveitando, levei várias telas para casa. Quando sobra uma ou duas horas do dia, pinto as linhas do cachorro de meu avô, ou os quadriláteros de cores quentes na tela que prometi há dois anos para dona Eliana, mãe da Taís. No canto do quarto, tenho telinhas pequenas que estou cobrindo de tinta vermelho-sangue para fazer os retratos da galera do coven assim que Bia Schmidt fizer-lhes as fotos: um projeto em conjunto que temos em lento andamento...
Nada de Alice por enquanto. Ela ficou parada no tempo, no único desenho deste ano, onde ela encontra a Butcher's Daughter. Ainda pretendo terminar esse.


E por enquanto é essa a minha vida. Estou saboreando o presente e já prevendo o amargo gosto do ano que vem.

domingo, novembro 25, 2007

Eu tive um sonho naquele dia. Influenciado pela sensação das semanas anteriores, eu cantava no palco do Little Darling e a voz falhava. Eu estava rouco como antes do M868 e os tons agudos simplesmente não saíam. Eu mantinha a calma e continuava cantando, ciente de que estávamos indo mal, mas sem me importar tanto.

Nosso show no Little Darling lavou a alma da zica que acompanhava as apresentações recentes. Não ganhamos o concurso, mas foi ótimo. Acima de tudo, foi um aprendizado, uma noite de gratas surpresas: a técnica do vocalista da banda da casa, a Splash Rock, cantando What's going on com uma voz feminina perfeita, idêntica ao vocal do 4 Non Blondes (se eu não estivesse vendo, acharia que era playback...); a escolha de músicas da banda vencedora, a Black Heart Blues Band, que, com um grupo de vocais muito bem coordenados, executou The Who e raridades como You Really Got Me dos Kinks e Wild Thing; a repentina condição perfeita da minha voz, que acertou até a subida de Have you Ever Seen the Rain; e principalmente, a hora em que a porta do bar abriu e uma senhora de 80 anos entrou num bar de rock acompanhada de minha mãe: era minha avó, vindo avaliar como eu cantava para continuar minha preparação!
Claro que nem tudo foi fantástico naquela noite. Eu fui com a certeza óbvia de que minha turma de colégio apareceria. Afinal, o Little Darling era nosso reduto nos últimos anos do colegial, quando começamos a fugir do congestionamento da Vila Olímpia nos finais de semana. Exceto pelo Piero, fiel escudeiro nestas situações, ninguém apareceu. E eu devia esperar por isso, visto que apenas dois ou três apareceram também, mui timidamente, na festa surpresa organizada pela Lexy. Não sei o que pensar disso. Se a turma que acabou, se resolveram me ignorar, se eu é que os abandonei, se eu sou tão impopular que nem valho a pena. Fato é que já estou me conformando com o fato de que eles nunca vão aparecer mesmo. Eles mantiveram o estilo herdado do colégio e eu enveredei para esta coisa roqueira que não tem nada a ver com quem eu era naquela época. Chega a ser irÔnico: eles que frequentavam o Madame Satã e outros antros, hoje vestem ternos e escutam jazz, enquanto eu que ouvia Bowie e Annie Lennox hoje canto em inferninhos. Falta de sincronia.

quinta-feira, novembro 15, 2007

It always rains....

Hoje chove, como é de praxe nos meus aniversários. Uma garoa daquelas finas, que tingem o dia daquela melancolia gostosa. Já faz quase uma semana depois da surpresa.

Eu realmente não desconfiei do dia.
Tinha stalkeado algumas coisas. Soube de uma festa através de meus meios. E de uma ou outra surpresa por pistas que ela dava, às vezes sem querer e às vezes sem conseguir se controlar. Mas em dado ponto, me segurei: eu adoro uma surpresa e, embora pudesse saber de tudo, não queria perder aquela euforia do inesperado.

Uma semana antes do aniversário. Foi uma cartada de mestre.
Nana me chamou para outro encontro de blogueiros. Fosse a Lexy a me chamar para sair, eu talvez teria desconfiado. Em vez disso, disse que estava com a mãe e que me encontraria no bar. Pediu que eu ligasse: deslize. Eu sempre esqueço e acabo ligando de lá, depois de chegar.
Subindo as escadas, avistei o Ri pela janela: já fazem meses que ele fechou o blog. O próximo conhecido visto foi o Piero. E a partir daí já estava claro que algo estava fora de lugar.
Nem todo mundo pode comparecer. Outros chegaram algum tempo depois da surpresa, por culpa do trânsito. Sabe-se lá o que estava acontecendo naquele dia, mas a cidade estava mais caótica do que o normal. Senti e falta do Lala's, da Kita e de outras pessoas muito queridas. Mas por outro lado, fiquei surpreso ao ver algumas pessoas que eu já tinha dado como perdidas na névoa do esquecimento.

A banda me deu um microfone. Um investimento que não passará em branco e que marca, de certa forma, um "levar isso a sério": pouco a pouco eu deixo de ser aquele cantor eventual, de fim de semana, pra ser alguém que tem até o próprio equipamento. Mas o principal da noite foi a caixa feita por minha Lexy. A turma do coven surpreendeu-se com a qualidade do artesanato: dentre eles, Bia Schmidt fazia caixas lindas, mas esta era claramente superior em acabamento. Forrada em veludo, a tampa portando dezenas de imagens de leões variados. E os presentes dentro dela... Idéias simples e baratas mas muito impactantes coletadas ao longo do tempo. Bottons com meu símbolo do leão de pedra e desenhos da minha Alice, uma camiseta com a Alice 18 que fiz para as meninas da casa na Itália, a coletânea completa da Annie Lennox (cujo show recente em São Paulo eu perdi) baixada da internet.
Outras pessoas haviam tentado fazer coisas significativas assim. Achavam que eu me comoveria com qualquer presentinho que fizesse referência às artes plásticas. Mas Lexy realmente me viu. Tanto pela festa surpresa, que eu sempre insinuei e ninguém levou a sério, como pelas pequenas surpresas, que tinham a sensibilidade de quem se esforçava para de fato ver o meu mundo, os meus significados. E fazia muito tempo que eu não sentia isso.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Limites

Sequer cheguei a fazer propaganda do show ocorrido há duas semanas. E também não falei nada, pelos meios virtuais de praxe, da volta ao M868 no sábado passado.

Tive medo.

Queria cantar para uma platéia de desconhecidos que não prestasse muita atenção em mim, esperando a banda dos amigos que toca metal pesado gutural depois da nossa. Queria que as falhas no que deveria ser o filamento suave de notas da minha voz fossem afogadas no burburinho das vozes de punks-de-mentira ou nas notas sempre altas da guitarra de Nando. Queria que ninguém me ouvisse. Ou pelo menos que ninguém prestasse atenção.

Lee, que sempre teve um bom gosto para florear suas frases com detalhes de uma banalidade profundamente verdadeira, escreveu recentemente em seu blog:
Eu odeio ser uma dessas pessoas fracas, que têm tendinite, labirintite e depois não podem trabalhar. Preciso decupar pelo menos mais umas duas fitas ainda hoje!

Em seguida, uma colega de trabalho a repreendeu por ter virado uma workaholic. Mas tem algo visceralmente humano e jovem nessa frase dela, que chora e suplica e não é atendido. Seu corpo mostrou sinais de stress e ela não quer lidar com isso. É incrivelmente frustrante quando a mente diz "por favor, só mais um pouco, eu quero" e o corpo diz "eu não aguento mais e estou desistindo". Nesta época moderna, rotulam isso de "stress". E como todo rótulo, menosprezam seu significado.

Perdoem a digressão...

Depois da sexta retrasada, onde eu já não estava me sentindo com 100% da capacidade, acordei rouco no dia seguinte. Um acontecimento que aprendi a aceitar como normal este ano. Também era normal a rouquidão passar no próximo amanhecer. E de repente, cinco dias passaram e eu ainda estava ali. Precisando do dobro do ar para emitir qualquer som e tendo metade da amplitude normal. A metade de baixo, a menos usada.
Nando, com todo seu ímpeto que sempre nos levou adiante, convenceu de todas as formas a continuarmos com a agenda. Porqueelepodiacobriraminhavozcomaguitarraetocarsujoealtoerapidoeeuusariapedaisnovocaletudodariacerto. Dias depois e um pouco em cima da hora demais para um cancelamento com mais classe, ele perguntou se eu queria cancelar o show do sábado. Sentia que não era exatamente ele que estava perguntando. Mas então a voz já estava voltando e eu tive coragem para o show do sábado. Isso, e toda a raiva contida pelas semanas de zica astral forte que culminaram com o acidente de carro, me convenceram a prosseguir. Por teimosia. Por um ódio puro, destilado, escorpionídeo que eu precisava exorcizar.
Não foi o melhor dos nossos shows. Também não foi o pior.

No médico da família: garganta um pouco inflamada e uma leve infecção por cândida (calma, é normal e todo mundo tem mas não percebe porque não canta...). Ele enfia uma câmera pelo meu nariz [imaginem, estupro nasal...] e vejo minhas cordas vocais. As paredes da garganta ainda avermelhadas e aquela forma vaginácea que se contrai e vibra quando respondo às perguntas. Ele comenta favoravelmente sobre o amplo espaço que tenho na garganta, e como isso me concede uma voz naturalmente boa para canto mesmo. Porém mostra como contraio a garganta para as notas mais agudas. Com a pressão do ar usada para aumentar o volume nos shows, a violência exercida na garganta nessas notas é brutal. Falta de técnica mesmo. Traído justamente pelas notas altas que sempre gostei.

Uma parte de mim chora e suplica e não é atendida. Especialmente agora que temos mais três shows pela frente até o final do ano. Alguns em sonhos como o Little Darling, no próximo dia 22. Mas a outra parte de mim, essa que é física e que dói, me ensina que é possível pintar um quadro sem técnica, escrever um texto sem técnica ou mesmo interpretar uma tragédia grega sem técnica. Mas cantar sem técnica é mais do que apenas uma violência estética. Preciso de aulas mais específicas do que as de minha avó.

Eu odeio ser uma dessas pessoas fracas, que têm laringite e depois não podem cantar. Preciso aguentar pelo menos mais uns dois shows ainda este ano!

sábado, novembro 03, 2007

What if

Of all the things that can gnaw at the mind at bedtime, the most cruel of them is the alternate possibility. The infamous "what if?".

What if Lexy had stayed home that night? What if I had driven the car instead. What if I had told BBK I wasn't going to make it that evening and had taken her where she wanted to go instead? What if that delivery biker had gotten his call a minute later? In a nutshell: what if we all hadn't been there at that exact second?

She smiled at me. I remember that now. And we had been arguing over all the petty things we usually argued about. I had told her I tried so hard to get her to smile because I loved that smile. We were done arguing then and things were settled. She smiled at me and I turned to my telephone to call BBK and tell him we would soon be there. I was dialing. That's why I wasn't, as I usually am, paying attention to her every move, ready to pull the brakes if she made a mistake. I made the worst possible mistake: too much trust.

Then I heard the unmistakeable sound of a motorcycle horn growing louder to our left.

Later I would tell Lexy that I have this somewhat dangerous reaction hard-wired into my brain. That reaction is the lack of emotional response. When other people panic, I dull my senses with apathy. It was programmed into me since childhood, when I learned that bullies would stop bullying me if I didn't cry. Not because they'd think I was tough, but because there was no fun in stimulating someone who didn't respond. It's a dangerous form of reaction, because although it allows you to keep calm, it also numbs your judgement in potentially fatal situations. It's a hard thing to explain.
As I heard the sound growing louder, the reaction kicked in. I was sure he would dodge the car and everything would be fine. I remember feeling the hit and seeing him jump from the motorcycle over the hood of my car. I was sure he would fall to the ground unharmed and everything would be fine. The impact slammed the door against Lexy's left shoulder and pushed my car to the side. She stayed motionless for a while. I was sure she had just fainted momentarily and once she woke up, everything would be fine. However, the car was still moving: we rode for another second or two, heading straight for the building at the corner of the street. A thin, young tree was all that stood in the way. I was sure that it's flexibility would hold the car causing minimum damage and everything would be fine.
Alas, sometimes you're right, and sometimes you're wrong. The car did halt upon hitting the tree. This second impact knocked Lexy back into consciousness and straight into the largest panic attack I had ever witnessed. As she screamed a chain of "Babe, what have I done!?"s, my apathy seemd to be replaced by adrenaline. What had she done? I jumped out of the car and walked around it. I asked her if she was alright and then checked on the biker: still alive. All of us. The biker had a sprained ankle and that was it. And then my attention turned to the car.

At the end of Aerosmith's Living on the Edge videoclip, Edward Furlong drives a car straight into a wall in a very dinamic scene, full of movement and speed and rage. Then they cut to this other view where the car wreck sits motionless as if it had been there for ages.
I stared at my car with that same strangeness, finding it hard to believe we had actually stopped. It was wedged into the tree, almost hugging it. The driver's door was wrecked, the inner plastic shell detached and the outside handle didn't work anymore. Lexy had to open it from the inside.

I believe it began to rain roughly five minutes after it had happened. That hard, miserable rain of horror movies. The rest of this tale is all sirens and bureaucracy and headaches.

I still felt that sense of irreality when I woke up today. It took me a few minutes to remember. But the what if's started buzzing almost instantly. What if I hadn't been on the phone? What if I had pulled the handbrake before hitting the tree? What if...

domingo, outubro 28, 2007

Lizzy

Encontrei uma nova webcomic que estou acompanhando semanalmente.
Lizzy vive em um futuro apocalíptico daqueles. Ela vem tendo sonhos estranhos com pessoas que a capturam e implantam mecanismos estranhos em seu cérebro, convencidos de que ela seja uma espécie de anjo do apocalipse. Tá, até aí a história não convence. Mas tenho acompanhado esta webcomic não tanto pelo conteúdo, mas pela forma.

A história da arte mostra que o surgimento de um novo meio de expressão (especificamente um meio que surgiu para outra coisa além da expressão artística) sempre passa por fases muito definidas. Ele passa um tempo servindo apenas o seu objetivo pragmático, até que alguém decide usá-lo para a arte. Mas essa primeira forma de arte crua é apenas uma repetição ou reinterpreteção de uma forma de arte anterior. As primeiras fotos eram retratos posados muito similares à pintura. Os primeiros filmes cinematográficos, como a locomotiva dos Lumiére eram projeções de imagens gravadas com uma câmera parada e, fora o movimento dos objetos mostrados, não eram muito diferentes de fotos mais elaboradas. As webcomics, até recentemente, eram também simulacros virtuais das HQs reais: histórias que misturavam ilustração e texto para contar uma história em "frames" estáticos que se relacionavam uns com os outros para dar uma idéia de cronologia da história.

Mas em algum ponto, alguém percebe que não está mais lidando com o meio antigo. Lizzy foi criada para ser uma webcomic no melhor sentido da palavra: apesar da distribuição das imagens em frames, cada uma delas é uma pequena animação em Flash, uma característica que não era possível nas HQs tradicionais.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Who Killed Bambi

A few months ago, I came upon a nice blog called Who killed Bambi? Apparently updated by a team of girls, they dedicate their patch of virtual space to collecting a variety of websites from artists who revel in the macabre. Their site seems to rebel against the idea that girls are cute, harmless, soft individuals who wince at the mere sight of blood. The very name of the blog hints at the death of cute and furry creatures who aren't taken seriously. Better yet: it relays the message with contemporary art.

Mark Ryden`s Butcher Bunny
Amidst all the blood and gore (yum!), there's quite a lot of painting linked in those pages. As my obssession with patterns goes, I began to see similarities between some of the North American and European painters quoted. Mostly because they reminded me of other contemporary artists who trailled the same paths.
For example, they recently linked Kelly Haigh's paintings, which reminded me of Mark Ryden's earlier, simpler works. On another page, Kathie Oliva's Misery Children made me think of Yoshitomo Nara, because of the eyes and the shape of the heads. Just before that, Yuka Yamaguchi's paintings seemed to be a simpler, not so bold version of Trevor Brown's abused children.

Most of these have a specific content in common: they take the usually harmless universe of children and mix if with an excessive violence or sexual abuse to generate that perverse feeling of shock that has some people like me digging for more. It seems to be the latest trend in painting themes.
Of course, the perception of this pattern might have something to do with the blog's objective of criticizing the cute and cuddly. But the very fact that I've seen the painters that were reminded by the blog before had me thinking about it.

Another thing to note: although I've mentioned a few Asian artists along the way, I'm not entirely sure if this pattern actually relates to painting world-wide. It feels to me as if it only happens in Europe (and consequently in America, following the shockwave...). Asians, it seems to me, have a different evolution regarding their simbology, their notions of aesthetics and composition. The few I've mentioned here (and this post would be incomplete without adding Junko Mizuno's toy art), seem to be based in Europe and influenced by (and influencing) the pattern.

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Alguns meses atrás, descobri um site chamado Who killed Bambi? Aparentemente atualizado por um grupo de garotas, elas dedicam seu pedaço de espaço virtual à coleção de uma variedade de sites de artistas que lidam com o macabro. Seu site parece rebelar=se contra a idéia de que garotas são indivíduos meigos, inofensivos e suaves que se enojam diante da mera visão de sangue. O próprio nome do blog faz menção à morte de criaturas bonitinhas e felpudas que não são levadas a sério. Melhor ainda: ele comunica a mensagem através da arte contemporânea.

Trevor Brown's ComaEm meio a todo o sangue e visceras, havia uma boa dose de links sobre pintura naquelas páginas. Minha obssessão por padrões me levou a ver similaridades entre alguns dos pintores norteamericanos e europeus citados. Em grande parte porque eles me lembravam de outros artistas contemporêneos que trilharam os mesmos caminhos.
Por exemplo, eles citaram recentemente as pinturas de Kelly Haigh, que me lembraram dos primeiros trabalhos de Mark Ryden. Em outra página, os Misery Children de Kathie Olivame fizeram pensar em Yoshitomo Nara, pelos olhos e pelo formato dos rostos. Pouco antes disso, as pinturas de Yuka Yamaguchi me pareceram ser uma versão mais simples e não tão corajosa das crianças violentadas de Trevor Brown.

A maioria destes tem um conteúdo específico em comum: eles tomam a geralmente inofensivo universo das crianças e o misturam com violência excessiva e abuso sexual para gerar aquela perversa sensação de choque que tanto instiga pessoas como eu. Parece ser a última moda em assuntos para pintura.
Claro que a percepção desse padrão pode ter algo a ver com o objetivo do blog de criticar o meigo e fofinho. Mas o próprio fato de que eu já vi os pintores lembrados pelo blog antes me fez pensar a respeito.

Outra coisa a mencionar: embora eu tenha mencionado alguns artistas asiáticos ao longo do post, não tenho certeza se este padrão se aplica de fato à pintura em âmbito mundial. Sinto como se só acontecesse na Europa (e consequentemente na América, seguindo a onda de choque...). Os asiáticos, me parece, têm uma evolução diferente da sua simbologia, duas noções de estética e composição. Os poucos que mencionei (e este post não seria completo sem falar também da toy art deJunko Mizuno),
parecem estar atuando na Europa, sendo influenciados (e influenciando) o padrão.

terça-feira, outubro 16, 2007

Utopia

Procurando apartamentos para alugar, ocorre-me uma série de pequenas fantasias sobre coisas que gostaria de fazer na casa nova. São aqueles pensamentos utópicos relacionados à qualidade de vida que ainda tenho esperança de poder coordenar, mas que no fundo sei que provavelmente jamais colocarei em prática. Pela falta de tempo, de paciência, de dinheiro. Porque estarei ocupado demais cuidando da vida para vivê-la.

• Pesquisar sobre reciclagem e separar tudo adequadamente em casa, para levar ao centro de reciclagem uma vez ao mês.
• Pegar as manhãs de sábado ou domingo para uma rápida faxina que vai me economizar a contratação da empregada.
• Cozinhar coisas interessantes e saudáveis como eu fazia na Europa, para comer durante a semana e evitar os quilos perto do trabalho.
• Fazer quantidades industriais de chá gelado e sucos pra complementar.
• Me acostumar a usar água e energia de uma forma mais racional.
• Ir trabalhar de ônibus, metrô ou bicicleta e só sair com o carro nos finais de semana.
• Aliás, a bicicleta é uma ótima opção: não poluo, não gasto e ainda cuido do condicionamento físico...
• Separar algum tempo do dia para ler direito o jornal.
• Adotar uma gata.

terça-feira, outubro 09, 2007

Deux Soeurs, by Adolphe William BouguereauHoje, no auge da correria atrás de referências para uma saraivada de ilustrações, passei por um site com uma imagem de Adolphe William Bouguereau. Sua pintura mais famosa, e que não deixa de ser uma de minhas favoritas, é O Primeiro Beijo, em que um cupido aparece beijando uma fada recatada. Mas a pintura que vi hoje era outra e chamava-se Duas irmãs.
Perdi alguns minutos do dia corrido para observar a pintura. Quando comecei a gostar de pintura mesmo, meu favorito era Renoir. Na verdade, eu não me interessava nem um pouco pelo vanguardismo impressionaista do mestre, mas sim pelo modo como ele pintava pessoas. Os tons das peles e a suavidade virginal com a qual ilustrava garotas. Mas me incomodavam bastante os seus maneirismos, os olhos grandes demais, as bocas sempre muito parecidas. Só fui descobrir Bouguereau na Itália. E então, eu já não tinha predileções por pintores específicos, mas sim por imagens em si. Dorothea Tanning pintou inúmeros quadros, mas só me interessei verdadeiramente por seu Ein Klein Nachtmusik. Mas voltando a Bouguereau, ele substituiu Renoir entre meus favoritos. Embora não fizesse diferença na história da arte (e atualmente isso não define para mim um bom ou mau artista...), pintava seres humanos de uma pureza encantadora. E melhor, dava-lhes rostos que pareciam mais verdadeiros, mais proporcionados. As duas irmãs do quadro pareciam mais reais do que as irmãs D'Anvers que Renoir costumava pintar. E embora andassem por aí descalças e em roupas pouco refinadas, pareciam puras, assépticas, de uma limpeza antibiótica.
Quiçá a pintura mais famosa de Bouguereau tenha sido a do cupido beijando a fada justamente por isso: são avatares de uma pureza sobrenatural.

Lasciate ogni speranza o voi che entrate

Há quem acredite piamente que o inferno astral acontece todo ano, um mês antes da data do nosso aniversário.

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Pois bem, vamos ao desabafo.
Pra início de conversa, o que eu achava que seria uma estabilidade financeira decente quando eu começasse a trabalhar na nova agência está voando pela janela. Claro, o salário vem e é muito bom, mas os gastos com os quais eu repentinamente tive que arcar estão corroendo a economia. Eu queria listar aqui todo o rosário de contas a pagar, especialmente em relação ao meu carro (potencializado pelas escolhas nada sensatas de mamãe...). Mas poupo-os do martírio.
E por falar em trabalho, escrevo após a meia-noite, porque já faz uma semana que não chego em casa antes das 11. O último sábado, gastei-o na agência também, fazendo um trabalho que no fim foi completa e totalmente sucateado e não serviu pra nada... Divertido, né?
O fato é que não tenho dormido muito. Aliás, quase nada. O pouco tempo que tenho em casa (e que eu deveria gastar dormindo) é gasto com zilhões de miudezas diárias: aquele vídeo do último show da banda que os rapazes estão me enchendo pra colocar na net, a ilustração para a amiga que hospeda meu site quase gratuitamente, a casa que meu irmão achou para dividirmos e que eu tenho que ver.
Aliás, esse é outro assunto. Começo a perceber que a forte tendência dele ao estilo de vida mundrungo pode ser uma divergência irreconciliável. A casa que vi era um sonho pra ele, mas teria me deprimido nos primeiros meses. Não sei explicar, é o estilo: a tinta descascando das paredes, aqueles ladrilhos com padrões florais de três décadas atrás, os restos de material de construção que provavelmente estão encostados lá há ainda mais tempo do que isso, a dona do lugar com dentes amarelados pelos anos de fumo e o cabelo desgrenhado insinuando insanidade. Eu não pretendo morar em um lugar luxuoso. Mas este, simplesmente não bateu. E desconfio que nenhum dos que ele escolher vai bater. No entanto, eu realmente não tenho tempo de procurar.
Restam-me três opções: acabar em alguma república mundrunga mesmo, ir morar com o Lala's (o que seria terrivelmente fora de mão, mas a compania seria ótima e o lugar bem mais arrumado), ou procurar um lugar como o do Iraê e arcar com os custos sozinho.

A lista deste desabafo continuaria por mais diversos parágrafos. Mas novamente vejo que já é uma hora da manhã e eu preciso ir dormir para aguentar amanhã.

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Kill me.

domingo, setembro 30, 2007

M868

Alguém me explique o que aconteceu no sábado...

Peregrinamos até a Mooca para um show. A casa, de tão nova, nem tinha site na internet ainda. O que me deixou um pouco inseguro, porque sempre gosto de ver as fotos do lugar e sentir o estilo da casa antes de tocar. Estava ainda mais inseguro pelo fato de que não tínhamos ensaiado tudo o que gostaríamos de ensaiar para este que seria nosso primeiro show sem nossa segunda vocal. E fiquei ainda mais inseguro quando chegamos e eu percebi que as pessoas tinham levado a sério o flyer da festa, que propagandeava uma "Glam Hard Night": penteados esfuziantes [procurem no dicionário, é legal] e roupas divertidas. Tudo bem do estilo que eu gosto. Só que eu, com meu estúpido senso do ridículo, viera relativamente normal. Me sentia underdressed.

Seríamos a segunda banda a tocar, mas fomos os primeiros a chegar. O pessoal da casa era de uma certa idade. Com cara de quem não é realmente do ramo do rock, mas resolveu montar a casa porque tinha clientela na região. Do tipo de gente que faz comentários leves de desprezo sobre "essa molecada estranha". A casa era inteira de paredes pretas e lisas, salvo pelo logotipo aqui e ali e uma ou outra decoração. Minúscula: a sala do bar e a sala do palco.

A primeira banda a subir foi um cover de Guns N' Roses. Boa banda, antenada com o estilo da nova formação do Guns e seu vocalista, Scott Weiland. Começaram à meia-noite, uma hora depois do que deveriam, mas realmente animaram a galera. Músicas conhecidas fazem isso. A execução era formidável, a voz e guitarras, idênticas. E o vocalista bebia. E como bebia! Na metade da apresentação, teve a ajuda de outro vocal que subiu da platéia, e que os rapazes reconheceram como um dos vocais de outra famosa banda cover do Guns aqui de São Paulo. Ainda não sou experiente nesse universo pra saber nomes, mas o efeito dessa participação no público foi fantástico.
Como subir ao palco depois de um show desses? Os meninos estavam falando em alterar o setlist, em tocar na fé e sair correndo pra não sermos linchados, em garrafadas na cabeça e chuva de salgadinho e vaia. Comentavam sobre o estilo do público e tinham medo de abrirmos o show com nosso ritualístico Evenflow, porque era música grunge e não cairia bem entre o pessoal punk ou glam ou hard core ou qualquer outra coisa. Me senti desinformado: pra mim, punk já englobava boa parte do público de lá e eu não tinha muita noção de quem gostava do que. Pra mim, qualquer um que curtisse rock adoraria Evenflow. A mesma sensação de ter entrado nas Artes Plásticas e perceber que era, todos artistas, mas que as subcategorias tornavam a todos muito diferentes para se entenderem.

E então foi a hora de subir no palco. A dedicação das meninas em ajudar com toda a parafernalia merece um post em especial algum dia. São vários quilos de guitarras, ferragens de bateria, amplificadores... e a casa não tinha microfone! Por um momento, pânico. Mas me recusei a ser vítima da brasilidade que deixa faltar até o básico: por idéia dos meninos, alcancei o vocalista bêbado do Guns e implorei por um microfone emprestado.
Me acotovelando entre as mais de duzentas pessoas que já estavam na casa naquela hora, senti uma primeira ponta de ansiedade. Não daquela da minha síndrome, mas da ansiedade pré-apresentações. Aquela que até então eu não tinha sentido desde que comecei a cantar na banda. Mas foi só um alarme falso. Um medo momentâneo de não fazer melhor do que a banda anterior. De não ter retorno, não animar a casa cheia. Me desfiz desse pensamento com o placebo de sempre: "Tudo bem, eu não sou cantor profissional mesmo. Nunca estudei e não tenho obrigação de ser bom nisso." Ainda funcionava: a ansiedade passava instantaneamente. Até quando?

Tudo ligado, hora do show. Chamei a atenção do público dizendo que, ao contrário dos rumores, eu não era o D2 e nem o cara dos Titãs. Risadas. Quebrou-se o gelo.
Aquele slide de guitarra, como o momento em que a onda te levanta para depois jogar com velocidade para frente, e na próxima nota estávamos no Evenflow. Os rapazes tocando como quem vira o rosto para o lado antes de apertar um gatilho.

E então, o inesperado.

Um, dois, cinco grunges surgindo da multidão do fundo para cantar o refrão. Nossas meninas engrossando o coro e criando aquele efeito moral que arrebanhou os sem opinião própria. E de repente, a casa inteira estava junto!
Eu nunca tinha visto aquilo. Era nosso quinto show e o mais cheio que eu já fiz. E a platéia respondia maravilhosamente bem a tudo. E mesmo entre músicas, naqueles minutos antes dos próximos acordes, a timidez ficava longe e eu me deliciava com o controle sobre aquela centena de pessoas. Eles cantavam junto, pediam músicas, gritavam. Atravessaram Boy Toy pulando e dançaram com os clássicos. Na beira do palco, um gordo risonho alcançava com dedos gulosos a barra da minha calça, os cabos da guitarra, do microfone, qualquer coisa: comunicava uma interação que era mais que sonora, um querer drenar aquela energia nossa.

A noite esquentava lá dentro, o ar era cada vez mais rarefeito. Passada meia hora de show, em uma nota alta do Have You Ever Seen the Rain, senti os efeitos da falta de ar. O corpo fraquejava, em abocanhava todo o fôlego possível e parecia estranhamente menos do que o normal. Um giro de tontura e dei a próxima frase do refrão para o público, que se degladiava pelo microfone enquanto eu respirava por um segundo.

Anunciamos a última da noite: Put My Leash On, do Nando. Tinha sido maravilhoso. Aquele tipo de coisa que drena todas as energias e você cede tudo voluntariamente. Enquanto me agachava para deixar Lexy dizer a frase que reiniciava a música após a pausa do segundo refrão, me sentia drogado, bêbado de serotonina. Mais do que o vocalista anterior. Cada grito ou reação era outro gole. A voz já não faria o último ataque no fim da música e eu optei pelos tons baixos, mas eu queria mais! Nando aproveitou: pediu pra tocarmos Hey Joe para a saidera. Pastana já estava com os pratos da bateria suando. BBK protestou no baixo por um segundo mas cedeu. E um ótimo fim para uma noite ainda sem precedentes me drogou por mais alguns minutos.

Descendo do palco e dando espaço para outra banda, percebi o corpo destruído. Fraco, dolorido, mas incrivelmente feliz. No caminho de levar as coisas para fora e devolver o microfone emprestado a um vocalista semi-comatoso, fui supreendido pelas pessoas me chamando para dizer o quanto tinham gostado [e perguntar o nome complicado da banda...]. Me chuto até agora por não ter material de divulgação para dar: cartões, site, alguma coisa. Algo a resolver.

Nos dias que se seguiram, ainda flutuando alguns centímetros acima do chão, recebi o telefonema dos rapazes da banda. Meio encabulado, porém radiante, ouvi dizerem o quanto tinham gostado desse show e do meu jeito com o público. E a dúvida persiste: será que somos realmente tão bons?

quinta-feira, setembro 27, 2007

Severance 1

Há algum tempo, soube da história de um casal de conhecidos que estava se separando porque ele ia viajar para o Canadá durante algum tempo. Na conversa, surgiu o conceito de que a dor que ela sentia consumia-a como um cancer.

[Não, um cancer não. Uma amputação.]

Anotei no meu caderno esse pensamento que não cheguei a proferir. A idéia me viera daquele jeito condensado que me enlouquece por dias. Como um grande nó que eu tenho que desfazer aos poucos pra entender completamente. A Lettin' the Cables Sleep, uma das minhas telas favoritas, me veio num nó desses e levou quase um ano pra entender.

O cancer é uma adição: células crescem descontroladamente. Esse rompimento era como a amputação, porque ela já estava acostumada com ele. Mas então ele é subtraído bruscamente e ela fica com aquela sensação de vazio. O inglês tem um termo delicioso para essa subtração, a severance. Tem a frieza científica e melancólica do cirurgião e uma sonoridade adequada para uma música.
Na wikipedia, encontrei outros termos adequados. Propriocepção é a capacidade que temos de sentir o próprio corpo, tanto pelos cinco sentidos externos, quanto internamente. Dá uma noção dos limites e condições dos membros. Quem perde um braço ou perna experimenta uma confusão em sua propriocepção, porque o corpo continua acostumado ao membro que não está mais lá. O que leva ao conhecido fenômeno do membro fantasma.

Voltei a pensar no assunto recentemente depois de um sonho nostálgico. Acordar e perceber que a realidade tinha mudado (para melhor ou pior é irrelevante...) e sentir aquele choque de realidade. Era a sensação de sonhar que se está correndo ou manuseando algo e acordar para uma realidade onde o membro em questão foi recentemente extirpado. Experimentei uma fração da sensação que ela deve sentir hoje ao acordar.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Blended Sunrise

"Me diz, você achava ela perfeita, né?" - ela perguntou. Falava, obviamente, da russa. Todos os meus relacionamentos sempre foram marcados por fantasmas do passado. Acho que Lee foi quem teve a melhor opinião a respeito, dizendo que era impossível superar um desses fantasmas: afinal, como escrevi no post anterior, as memórias são virtualmente perfeitas, enquanto a pessoa-presente-tangível tem seus erros e acertos...
Houve épocas em que eu teria dito que sim, a russa era perfeita. Mas sempre soube que era uma daquelas auto-enganações terapeuticas. Eu não queria pensar nos defeitos dela, porque ela tinha sido um dos fetiches que eu sempre quis e eu não queria denegrir isso. Mas vamos, já passou mais de um ano que ela aconteceu...
Me surpreendi (e suponho ter surpreendido ela também) tendo uma resposta tão pronta para a pergunta. Não, ela não era perfeita. Apesar da aventura carnal, ela trazia toda a frieza e austeridade desse povo do gélido norte europeu. Jamais ouvi e nem pensei algum dia ouvir, segundo contei a Lexy, que a russa me dissesse palavras de carinho daquelas bem clichês. Salvo, é claro, por um "eu gosto de você" bem cordial e dúbio logo que nos conhecemos. E para a breve aventura que foi, essa frieza até deu um tom interessante. Mas eu teria sentido falta disso. Eu ignorei isso por muito tempo, mas é uma verdade gritante em neon garrafal.
No mais, aquele problema recorrente em vários dos meus relacionamentos, de ser um quase-artista atrelado a uma pessoa que percebe a expressão artística apenas como um diletantismo, uma falta do que fazer. Ela dizia, com aquele sotaque lascivo como sexo violento, que minhas Alices eram fantásticas e que eu era talentoso, mas ficava claro que ela sequer arranhava a superfície do que aquilo significava para mim e desconhecia totalmente o deleite de um processo criativo. A longo prazo, desconfio que teria feito a mesma exigência que Taís fez quando éramos alunos de colégio: "ou a pintura, ou eu!"

Paradise Lost

Em uma exposição sobre poesia concreta, uma frase me chama a atenção:
O único paraíso é o Paraíso Perdido.

Paradise Lost é a obra do escritor John Milton (o mesmo nome do personagem de Pacino em Advogado do Diabo) sobre Satanás tramando para causar a expulsão de Adão e Eva do paraíso.

Mas acima de tudo, a frase faz-me pensar que o paraíso são boas memórias de tempos que já foram, tempos que não voltam porque tudo na vida muda e segue adiante. Nas memórias boas, tudo é perfeito e os defeitos são ignorados. O presente, por outro lado, raras vezes pode se equiparar a um paraíso, posto que leva consigo a perfeição e imperfeição da realidade.

sábado, setembro 15, 2007

Strangers when we meet

Babe,
percebi que nunca me dei ao trabalho de pesquisar o suficiente para compreender completamente esta que é uma das minhas músicas favoritas do Bowie. Mas de qualquer jeito, agora que você viciou nela, segue uma tradução meio mambembe da letra, que você não achou na internet. Muito dela não vai ter tanta sonoridade em português e vai parecer meio cafona, mas eu gosto no inglês. E muito dela não vai fazer muito sentido porque são piadinhas internas e críticas que ele escreveu para uma ex-mulher que estava vendendo detalhes sórdidos da vida privada deles para os tablóides. Estou colocando entre "[]" alguns detalhes que pesquisei e outras noções que talvez ajudem a compreender.

All my friends
Now seem so thin and frail
Slinky secrets
Hotter than the sun
No peachy prayers
No trendy rechauffe
I'm with you
So I can't go on

[CHORUS]
All my violence
Raining tears upon the sheet
I'm bewildered/resentful
For we're strangers when we meet

Blank screen TV
Preening ourselves in the snow
Forget my name
But I'm over you
Blended sunrise
And it's a dying world
Humming Rheingold
We scavenge up our clothes

[CHORUS]
Cold tired fingers
Tapping out your memories
Halfway sadness
Dazzled by the new
Your embrace
Was all that I feared
That whirling room
We trade by vendu

Steely resolve
Is falling from me
My poor soul
All bruised passivity
All your regrets
Ride rough-shod over me
I'm so glad
That we're strangers when we meet
I'm so thankful
That we're strangers when we meet
I'm in clover
For we're strangers when we meet
Heel head over
And we're strangers when we meet


=====================================

Todos os meus amigos
Parecem agora finos e frágeis
Segredos sensuais
Mais quentes que o sol
Sem preces suculentas
Sem essa moda de reaquecer [o relacionamento]
Estou com você
Portanto não posso continuar

[CHORUS]
Toda minha violência
Chove lágrimas nos lençóis
Estou encantado / ressentido
Pois somos estranhos quando nos conhecemos.

Tela de TV vazia
Nos arrumarmos na neve
Você esquece meu nome
Mas eu já superei você
Fusão do nascer do sol
E é um mundo moribundo
Murmurando Rheingold [Primeira parte da ópera O Anel dos Nibelungos, do Wagner]
Desenterramos nossas roupas.

[CHORUS]

Dedos frios e cansados
Tamborilando suas memórias
Meia tristeza
Maravilhada pelo novo
Seu abraço
Era tudo o que eu temia
Aquela sala rodopiando
Comercializamos através do "vendue" [??]

Decisões de aço
Partem de mim
Minha pobre alma
É inteira passividade machucada
Todos os seus arrependimentos
Caminham mal-calçados sobre mim
Estou tão contente
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
Estou tão agradecido
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
"I'm in clover" [Aproveitar uma vida abastada]
Pois somos estranhos ao nos conhecermos
Me viro do avesso
E somos estranhos ao nos conhecermos

sexta-feira, setembro 14, 2007

Ma me mi mo mu...

Visitei minha avó para a primeira sessão de preparação vocal ontem. A decisão contraria a minha filosofia de me dedicar ao canto na banda sem aulas ou preparo, convencido de que só o ímpeto, mesmo sem a técnica (que muitas vezes o anula), é respeitado hoje em dia. Fosse alguma outra habilidade artística, eu teria me mantido fiel à minha convicção. Mas o canto despreparado estava começando a surtir um desgaste da minha garganta que, além de prejudicar o desempenho, estava incomodando físicamente e afetando minha saúde.

Minha avó é muito diferente dando aulas. O tom de voz muda, assim como o modo como ela se dirige a mim. Não é que ela seja severa, mas quando ela fala algo ao qual se deve prestar atenção, ela o faz de forma que a atenção é inevitável. Talvez porque eu sempre a tenha conhecido como a avó carinhosa e brincalhona, suave e confortável. Logo, quando ela assume outra atitude, a diferença salta aos olhos (ouvidos).

A primeira sessão foi fundamentalmente sobre respiração e perceber as deficiências a serem corrigidas: a pouca amplitude de tons, o formato da boca que ajuda em vez de atrapalhar os sons, a voz abafada que precisa aprender a ressoar nos ossos do corpo e projetar-se para fora.
Sentada atrás do teclado antigo que meu irmão lhe deixou quando pegou o piano da casa dela, minha avó sugere notas eletrônicas e corrige minha vocalização. No silêncio, posso ouvir o momento em que sua voz altera, como um clique, e ganha corpo, potência. Uma voz que já lotou salas de teatro.
Ela diz que meu avô também tinha pouca amplitude. Mas com a pequena palheta de notas, pintava milagres vocais.

terça-feira, setembro 11, 2007

The times I died

The times I died, by Sara Lando

‘The third time I died was when I accepted the idea that talking coherent bullshit about my work was more important than learning.’
(from the series The times I died, by Sara Lando)

I can relate to that.

*sigh*
I'm a broken-hearted artist as well...

segunda-feira, setembro 10, 2007

No Orkut, uma conhecida da faculdade comenta que ouviu o som da minha banda na internet e que adorou. Mais tarde, tendo perdido o show por causa do trânsito insano da cidade e da distância, me pergunta como fazer para comprar o CD que acabamos de gravar.

Há uma parte de mim que continua não querendo ceder ao orgulho fácil de achar que eu sou realmente bom. Uma parte que ainda pergunta, frente a esta situação, "what's the catch?" Ou que ainda se frustra ao perceber que toda a minha capacidade e estudo de quatro anos em artes plásticas não tem um décimo do sucesso e não me dá metade da satisfação que eu ganho da banda na qual comecei há pouco mais de seis meses. A rapidez de tudo faz parecer irreal, falso, perigoso. Desonesto (Nana novamente acertou no termo...) Será que somos bons assim? Pra dizer a verdade, eu nem tenho muitos parâmetros para avaliar. Só sei que estou adorando.
Naquele canto da mente que não se furta de simular situaçõezinhas bestas e fúteis, me imagino sendo entrevistado. O repórter, sabendo da minha formação como artista plástico, faz a pergunta óbvia para saber como saí das artes visuais e fui parar na música. Me imagino respondendo que aconteceu simplemente porque eu tinha mais público cantando do que pintando ou fotografando. A resposta é fútil. A cena inteira é fútil. Mas inerentemente verdadeira. O fato é que cada vez mais me convenço de que o que triunfa na arte de hoje é o ímpeto. Pense menos, faça mais e com mais vontade.

Mas perdoem-me: estou transformando o que seria razão para alegria em uma discussão inútil. Deletem tudo e fiquem com o primeiro parágrafo...

terça-feira, agosto 28, 2007

Mairiporã

Foi um daqueles finais de semana para se lembrar.
A banda inteira viajou para Mairiporã, para um show durante a festa de aniversário de Giovana, a namorada do nosso guitarrista. Aconteceu em um condomínio fechado, à beira de uma represa muito similar à da fazenda de minha avó. Chegamos no sábado (depois de um BigMac para o McDia Feliz...) e, após nos refrescarmos da viagem, já estávamos fechados em um casebre à beira da represa para ensaiar. Era uma sensação nova o poder ensaiar sem preocupação de horário: fizemos o setlist do show inteiro, podendo parar, repetir músicas que não ficaram boas, aconselhar uns aos outros e até sobrou tempo para brincadeira no fim, com músicas de shows passados descartadas neste final de semana. Tomei cuidado no ensaio: a seleção de músicas com tons altos exigia bastante da voz e, durante ensaios anteriores, pude sentir o momento em que ela rompia de vez e eu não conseguia mais alcançar os tons agudos. Se isso acontecesse no ensaio, comprometeria o show do dia seguinte. Paramos quando cheguei no limite e passei boa parte do resto da noite calado.

A noite fugaz, passei envolto em minha menina. Sonhei um sonho banalíssimo no qual passava em uma padaria para um rápido café-da-manhã com o guitarrista Nando e uma rodada em máquinas de fliperama.

O domingo foi um crescendo até o show. O equipamento de som alugado pela Gio era digno do Manifesto. Com a diferença de que tivemos todo o tempo do mundo para montar as coisas, afinar instrumentos, passar o som e ter certeza de que tudo correria bem. O palco foi montado em meia quadra de basquete, com uma vista idílica para o pier da represa, ao lado do casebre do dia anterior, onde aconteceria o churrasco.
Chegada a hora e anunciados pela Lexy, subimos ao palco. Na formação, faltava nosso baixista BBK, substituído apenas neste show pelo amigo Rogério que, apesar de alguns deslizes, não desapontou.
A seleção de músicas passou por algumas das já conhecidas e algumas novidades. Abrimos com Keep on Rockin' in the Free World, passamos por Hound Dog do Elvis para animar o pessoal, duas das nossas, algumas outras coisas, uma versão meio moleque de Mrs Robinson e terminamos com uma vesão moderna do Have You Ever Seen the Rain emendada com o Rock & Roll all Night do Kiss (que me rendeu algum tempo de gelo da Lexy porque eu esqueci parte da letra e ela venera Kiss tanto quanto eu gosto do Bowie...). O bis foi nossa deixa para o bom e velho Evenflow que todos da banda adoram.

Feitas as contas dos erros e acertos, acho que nos viramos muito bem. A geração mais jovem do churrasco, em seus vinte e tantos, veio falar conosco, parabenizar, perguntar de shows futuros. Foi diferente dos shows de bares de rock, onde o público já está tão acostumado a isso, que sequer dirige palavra aos músicos iniciantes após um show. Foi muito mais diversão do que apresentação, show, trabalho.

sábado, agosto 25, 2007

"Faça"

Apesar de alguns poucos percalços como o de terça, quando saí da agência por volta de uma hora da madrugada, estou gostando muito do novo emprego. Confesso: quando entrei, fiquei assustado com algumas coisas. Mas o sentimento passou logo e, entrando nesta segunda semana, consegui me adaptar.

Trabalho agora em um lugar perto da Avenida Paulista: ótima localização. É um prédio comercial, desses nos quais é preciso um cartão magnético para entrar. Trabalhamos no último andar. De início, já me senti aliviado por voltar a trabalhar em um ambiente de empresa. A agência anterior era em uma casinha que sequer parecia uma empresa, em meio a outras residências, e o contingente total era de sete pessoas, contando com a faxineira. A maioria das pessoas acharia o ambiente muito gostoso, mas me incentivava ao ócio. Chega a ser redundante dizer, mas prefiro um ambiente de trabalho para trabalhar. Fui criado para o ambiente de empresa: as estações de trabalho todas iguais me inspiram um sentimento de equipe, as paredes e a mobília ascéptica me falam de eficiência, a hierarquia me dá segurança.
No entanto, não chega a ser um ambiente árido. Trabalhamos em uma pequena saleta de teto baixo, rodeada por janelas altas em três dos quatro lados, como uma península projetando-se para fora do prédio. As janelas na altura dos ombros ficam altas quando me sento: a visão das coberturas de prédios e antenas dá a impressão de estar trabalhando em um lugar meio surreal, esse cubículo suspenso no ar em meio a um amplo espaço aberto de céu azul.

Me dou bem com meus colegas. São todos mais ou menos da minha idade e com pinta de alternativinhos, salvo algumas excessões. Tom, um rapaz de cabelo liso e comprido, comanda a trilha sonora do horário comercial com um seleção interessante, sempre tocada em um volume civilizado e confortável, quase um murmúrio. Às vezes é Smiths, de vez em quando um Arcade Fire. Há alguns dias, fez um dia de tributo ao Elvis, aproveitando para saudar todo mundo dizendo "Elvis não morreu". Minha supervisora direta, encarregada de boa parte da criação, é Adriana: tem aquele ar blasê de saco cheio que a Loo tinha. Me pergunto se todos os profissionais de direção de arte eventualmente passam por uma fase assim. Na minha frente, a chocólatra Liz divide a redação com Leila, uma senhora em seus quarenta cheia de tiradas sarcásticas murmuradas baixinho. Ao lado, a dupla de mídia eletrônica é composta por Tati e Lu que, apesar desta ser ocidental e aquela oriental, são pessoa cujo conceito é muito semelhante: esguias de estatura média e cabelo preto liso. Perto delas, a última mesa é dividida entre os chefes Wlad (nada a ver com o empalador romeno) e Kátia, ambos com um ar quase paternal ou professoresco; e Mariana.
Mari é uma personagem curiosa. No mesmo dia em que vim fazer a primeira entrevista após achar a vaga na internet, recebi coincidentemente de minha avó um cartão dela: bom presságio de que eu realmente iria trabalhar neste lugar. Parece que ela faz ou fez aulas de teatro com minha avó e não consegue acreditar quando conto detalhes de uma senhorinha de oitenta anos que mais parece uma vovó morando em uma vilinha do que uma atriz que contribuiu no surgimento do teatro profissional brasileiro.
A turma toda é bem animada e não faltam situações propícias para morrer de rir. Casos contados na cozinha, trocadilhos em reuniões de brainstorming, troca de figurinhas a respeito de bandas, tudo muito leve. Mesmo quando criticam este ou aquele layout, parecem fazê-lo de um modo que diverte e não humilha.

Duas semanas se passaram desde que comecei. O início, como mencionei, me assustou um pouco. Porque ninguém me deu o passo-a-passo de como tudo funciona e eu tive que aprender sozinho. Mas principalmente porque eles pareciam confiar demais em mim. Eu vim de um agência onde eu tinha sido relegado ao posto de assistente de arte, daquele que executa, mas não cria, por causa da minha parca capacidade com design. Foi justamente por isso que fiquei cada vez mais receoso e tímido para criar composições. Aqui, eles têm me deixado correr solto, criar meu estilo. E a primeira folha em branco sem restrições é sempre vista como algo sublime, grande demais para abarcar. A responsabilidade gelou-me a espinha no começo.
Resumindo, saí de um lugar onde eu só ouvia negativas e restrições para cair de para-quedas em meio a um amplo espaço aberto onde todos me dizem "faça". Dá medo no começo, mas torna-se algo delicioso.

Vez por outra, ainda sou assaltado por aquela sensação de não pertencer. Ou, como diz a Nana, de que o que estou fazendo é desonesto. Mas ela tem diminuído a cada dia, junto com a minha decisão irrevogável de mudar de ramo. Este emprego ainda pode ser legal...

sexta-feira, agosto 17, 2007

Notes on arousal

There once was a conversation held entirely on stares. There was a stare that meant "hello" (although the actual words were "I see you"). There was a stare that meant "don't just sit there, come and dance". There was a stare and a smile that meant "yes, that's it". There were stares that meant "I like you".
Unfortunately, the language of stares tells no names.
[Althought it's much more interesting than Italian...]

There once was someone who gave me something I really wanted. Who spent the night without the need of lies told to her parents or awkward mornings with the family. It was comfort without the guilt.
But then again, we were both miles away from our homes.

There once was a work colleague who casually mentioned she would go to a fancy party wearing no underpants. People could see the marks they left on the curve of the hips if the dress was made of light fabric such as silk, she told me.
As for me, I was thinking of all the wonderfully perverse things I might do with any girl of mine who would dare play the same strategy.

There once was sex outdoors. Camouflaged only by the dark and late hours of the evening and the adequate choice of a secluded place. Fuelled to the point of combustion by an ample discussion on the subject.
Alas, there was much leaf-picking to be done afterwards...

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[EDITADO EM 25/08/2007]

Notas sobre ânimo



Uma vez houve uma conversa que aconteceu inteiramente com olhares. Houve um olhar que significou "olá" (embora as palavras exatas fossem "eu te vejo"). Houve um olhar que significou "não fique aí sentado, venha dançar". Houve um olhar e um sorriso que significaram "sim, isso mesmo". Houveram olhares que significaram "eu gosto de você".
Infelizmente, a linguagem dos olhares não diz nomes.
[Mas é muito mais interessante do que italiano...]

Uma vez houve alguém que me deu algo que eu realmente queria. Que passou a noite comigo sem a necessidade de mentiras contadas aos pais ou manhãs desconfortáveis com a família. Era conforto sem a culpa.
Mas também, estávamos ambos há milhas de distância de nossas casas.

Uma vez houve uma colega de trabalho que casualmente mencionou que iria a uma festa chique sem roupas íntimas. As pessoas conseguiam ver as marcas deixadas na curva da cintura se o vestido fosse de um tecido muito leve como a seda, ela me disse.
Quanto a mim, estava pensando em todas as maravilhosamente perversas coisas que eu poderia fazer com qualquer garota minha que ousasse empregar a mesma estratégia.

Uma vez houve sexo em espaço aberto. Camuflado apenas pelas escuras e tardias horas da noite e a escolha adequada de um lugar afastado. Abastecido até o ponto de combustão por ampla discussão sobre o assunto.
Claro, houve muita catação de folha para ser feita depois.

[/EDITADO EM 25/08/2007]
E finalmente aconteceu: comecei a trabalhar em um lugar que limita o acesso à internet. Blogs, fotologs, Orkut e diversas outras regalias estão bloqueadas da rede. Da minha vida virtual, apenas o Flickr salvou-se.

O pessoal é interessante. Gente jovem, da minha idade, e que não intimida tanto. Quiça seja o contrário e eu é que cresci e me fortaleci com os outros empregos. Ainda me sinto inadequado: aquela sensação de que os outros têm mais tempo de estrada e sabem muito mais do que eu, de que meus layouts são fracos e pouco criativos em comparação com a capacidade dos outros. Uma sensação geral de que talvez a publicidade não seja realmente a minha praia. Porém eles me dão um pouco mais de tranquilidade do que nos outros empregos. Me passam trabalhos bem mais relacionados com design e confiam na minha parca capacidade. É bom: preciso aprender de algum jeito.

Meu computador fica virado para minha supervisora, e tenho pouca chance de divagar ao longo do dia. Mas por alguma razão, aceito esse desafio. É fato:tenho chegado em casa mais cansado por causa disso. Os dias têm sido trabalho do início ao fim.

domingo, agosto 12, 2007

O cão de meu avô

Neste tempo entre um emprego deixado e outro para começar, fiz uma daquelas organizações gerais que, concordo com a Nana, são muito terapeuticas.

Calculo mais ou menos dois anos desde que usei meu ateliê como um ateliê pela última vez. Desde então, o quarto na casa de minha avó não serviu como outra coisa além de uma espécie de depósito. E desde então, o exercício de minha arte diminuiu cada vez mais, sobrevivendo com a eventual aquarela de Alice e uma ou outra fotografia de fotolog sem grandes pretensões artísticas.
E então este ano veio e nem isso fiz. A última Alice publicada vestia seu novo vestido e expressava minha felicidade em me perceber uma nova pessoa ao voltar da viagem um ano atrás. E demorei seis meses até ter fotos que eu considerava vagamente merecedoras de respeito como técnica. Minha atenção estivera propositalmente voltada inteiramente para a M3 e a banda.

Entrei no ateliê: limpado perfunctoriamente pela empregada de minha avó, que fora instruída para não trocar nada de lugar, tinha poucas mudanças. As pilhas de quadros sucateados e dos meramente incompletos se fundiram em uma pilha uniforme no meio do quarto. Remexer pelas coisas me trouxe uma nostalgia do tempo em que eu me considerava um artista. De quando eu sempre tinha uma idéia instigante e o tempo e paciência de executá-la. Embora estes exercícios nunca tivessem me trazido nada além da atenção de admiradores estéreis como a Xiclet, seus resultados me agradavam. Me traziam um orgulho desfrutado sozinho. A constatação contradizia minha opinião sobre um dos assuntos que sempre discutíamos na faculdade: se é possível fazer arte para si mesmo, sem a pretensão de mostrá-la ao mundo. Eu poderia pintar estas coisas para mim mesmo. Ainda almejaria apresentá-las ao mundo e obter algum reconhecimento, mas essa esperança cristalizou-se como mero sonho há muito tempo e hoje já não acredito ser possível. Sobrou-me a satisfação pessoal de fazer algo que me agradava. Aquela masturbação técnica pura e simples. Sincera.

Depois de jogar fora coisas que jamais terminaria, esculturas quebradas, material estragado, telas irrecuperáveis, saí da casa de minha avó com alguns dos quadros inacabados. Em uma época de tão pouca criatividade, desse sentimento de vácuo, quiçá completar estas obras ajude a dar um novo impulso a essas coisas. Eles sentam agora em um canto do meu quarto, chamando para que eu alguma hora abra a cotoveladas espaço entre o novo trabalho, a banda e tantas outras pequenas obrigações auto-impostas.

O primeiro dos quadro é uma tela que pertenceu ao meu avô (pai de meu pai). Já está coberta uniformemente de tinta a óleo preta, e irá pertencer àquela série de quadros de fundo escuro e personagens macabros. Já tenho nesta série um sonho de Nana pintado. E estou convencido de que a próxima coisa a pintar é uma alucinação de meu avô em sua tela. Faz sentido, do jeito que eu gosto. Conta meu pai que, em uma certa idade, meu avô teve um caso de hepatite. O fígado danificado deixou de processar algumas toxinas naturais encontradas em alguns alimentos, algumas delas com efeitos alucinógenos. Meu pai avisou-o que ele veria coisas inusitadas e ele pode curtir sem medo essas estranhices. Não demorou muito até que ele recebesse a visita de um cão enorme. Era um cão particular: na verdade era como se tivessem enrolado um cachorro com arame rígido, e depois subtraído o cachorro. No centro da figura, queimava um coração que era um carvão em brasa. A ilusão entrou no quarto atravessando uma parede e saiu pela outra.
Passo meia hora ao fim de cada dia rabiscando cachorros de arame. Ainda não solucionei como criar a ilusão do coração contido no meio daquela figura. Ela sempre acaba parecendo bidimensional demais. Mas ao menos tenho esse ânimo para voltar a ser um artista novamente.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Bitchslapping

Tendo algum tempo livre, voltei a entrar em contato com o pessoal de uma agência pequena porém relativamente famosa na qual eu queria muito entrar. Confiante de que eu já estaria com capacidade suficiente para ao menos ter um cargo de assistente, fui mostrar meu portfolio.

Tomei um sonoro e redondo não.

Daqueles que é preciso tomar de vez em quando, pra se encher de ódio diesel e aprender com raiva, na marra, a melhorar a qualidade do trabalho. É uma daquelas coisas que colocam tudo em perspectiva, porque você percebe que não existe apenas o novato e o veterano, mas uma infinidade de gradações entre um e outro. O trabalho na agência anterior, o freela recente, a produção dos encartes de CD da banda, tudo isso me mostra que eu não estou mais no nível básico. Que eu já consigo fazer muito mais do que pessoas com aquela noção cotidana e média de Photoshop. No entanto, ainda não é o suficiente pra sair das agências anônimas para um lugar que realmente tenha nome. Ainda é preciso aprender mais, fazer mais, perceber mais. Este último é o mais importante, porque o nível de um profissional no meu ramo é muitas vezes definido pela capacidade de perceber e criar picuinha sobre detalhes ínfimos em imagens que, para os outros 95% da população, estariam perfeitas.

A reação depois de uma portada na cara assim é invariavelmente a mesma: você começa querendo rasgar o portfolio em dois e jogar fora, desistir mesmo. Depois passa a querer voltar pra casa o quanto antes e, num ímpeto furioso, reeditar tudo que fez (sem pensar nos custos de impressão) pra corrigir todos os erros que foram apontados e aparecer de volta na agência o mais rápido possível, pra mostrar que você pode e que é um bom menino. A meio caminho de casa, você já está mandando eles às favas e dizendo a si mesmo qualquer desculpa cujo conceito geral é algo do tipo "tudo bem, eu nem queria mesmo...". Finalmente, em casa, você só quer se afundar em qualquer vício auto-gratificante (como o blog, por exemplo...) e esquecer este dia de merda.

Houve uma época, no colégio, em que eu aceitava as regras do jogo e seguia as ordens. E eu fazia isso porque as coisas funcionavam quando eu fazia assim e a gratificação era suficiente. Enchia-me de orgulho estar na primeira classe e ter um relacionamento com os professores que me permitia algumas regalias quando eu não ia bem em alguma prova por motivos pessoais. Fazia sentido seguir as regras do jogo. Eu tinha vontade de seguir as regras.
Agora, a regra seria justamente pesquisar, aprender, reeditar e voltar lá pra mostrar de novo. E talvez eu faça justamente isso, por falta de opção melhor. Porque parte de mim aprendeu a ser assim mesmo. Mas já percebo que farei isso da forma mais mecânica possível. Porque vontade, "tesão pelo que eu faço" e todas essas outras morais de desenho animado já acabaram há muito tempo.

Eu queria tanto simplesmente ser ótimo em alguma coisa. Eu sou bom em várias, mas não sou ótimo em nenhuma. Daquele ótimo que resolve sua vida, sua verdadeira vocação, que te traz reconhecimento, dinheiro e deixa até sua pele mais bonita... Queria tanto simplesmente descobrir uma coisa na qual eu nem me esforçasse muito pra ser excepcionalmente genial. Pra falar a verdade, cansei de ouvir o quanto eu sou bom em coisas que eu faço mas continuar na pindaíba do anonimato sem perspectiva, nessa vidinha medíocre.

terça-feira, agosto 07, 2007

Observo e escuto os relatos de quem se desespera.
Eu acho que eu costumava ter alguma coisa semelhante. Quando escrevi sobre meu último ataque de ansiedade, acontecido repentinamente e sem motivo em um bar em Perugia há mais de um ano, descrevi-o como se o mundo perdesse as cores. Porque realmente era essa a sensação. Só que em vez das cores, era o sentido, a graça, a lógica. Ia tudo de uma vez, naquele efeito de fade rápido, como quando você regula uma televisão. De repente, tudo cinza, ilógico e sem graça. Vontade de me atirar de um prédio. E eu somatizava tudo no estômago e passava mal. Um foco de contração muscular irradiando desespero pelos nervos.

Observo e escuto outra pessoa passar por esse desespero P/B. É claro que ela ainda não pensou em dar cabo de si mesma, mas eventualmente vai pensar. Tenho medo, assim como todo mundo, mas não posso dizer nada.
Observo e escuto outra pessoa passar por outro desespero. Um onde o vazio não é de lógica e graça, mas um vazio mais pessoal. De se encontrar sem talentos, sem rumos, sem compania. Aqui eu fico mais tranquilo, porque sei que o tempo vai colorir seu mundo. Lenta e ansiosamente, mas vai.
Observo e escuto outra pessoa passar por um desespero tardio. As décadas finais da sua vida lhe trazem questionamentos que eu tive na adolescência. Ele não sabe, porque nunca experimentou a idéia, mas é essa falta de sentido que é sua maior liberdade. Ele pode fazer o que quiser. Só que não sabe o que quer...

Daqui, do outro lado, eu passo por um desespero que não é desespero. Porque isso seria sentir. E já faz algum tempo que eu não consigo fazer isso. Os dias são uma procissão idêntica de horas e estratégias levadas a cabo sem muito ímpeto. Até a criatividade, que nas lendas urbanas é intrínseca de quem sente muito, é executada de uma forma mecânica. Neste inverno, não estou com frio, eu simplesmente estou frio. E seria triste, but then again, tristeza também é sentimento.

E infelizmente, erotismo também.

quarta-feira, agosto 01, 2007

ZZzzZZzzZZzzZZ

Há no simples ato de dormir uma característica muito reveladora da maturidade e liberdade do indivíduo.
Quando crianças, não somos donos do nosso sono. As mães nos colocam para dormir em horários determinados por ela, muitas vezes contra nossas vontades. Nos fecham nos quartos ainda que não tenhamos sono e ficamos lá, revirando nas camas até aprendermos a controlar o sono e fazê-lo vir quando precisamos. Elas nos deitam em roupas de cama que elas escolhem e mantem limpas.
A adolescência traz um pouco de privacidade como consequência do nosso pudor em relação a um corpo que está mudando. Dormir já vira uma coisa nossa. Barganhamos com as mães por mais horas de vigília e começamos a tomar consciência de que pouco sono é garantia de um dia infernal a seguir. O quarto já vira território demarcado, que embora ainda seja arrumado por elas, já ganha ares e estética próprios. Mas ainda assim, quem define ainda são elas. Somos questionados sobre elementos estranhos que elas encontram no quarto (nosso santuário violado). Voltamos dos eventos sociais na hora determinada por elas, que mandam os maridos para nos recolher das festinhas. No fim, continuamos dormindo quando e onde elas querem, apenas tendo uma vaga ilusão de liberdade e respeito à privacidade.
Hoje, recém-adulto, eu chego em casa quando quero. Se decidir, durmo duas horas por noite e saio para a rua antes dela acordar, sem receber perguntas (e depois venho me lamentar disso por aqui...). Volto da balada ao raiar do dia e a cama fica impregnada do cheiro de cigarro que nem é meu. E eu que me vire pra resolver. Se eu não tiro do armário os cobertores pesados no inverno, passo frio à noite porque essa tarefa já virou definitivamente minha.

Tudo no simples ato de dormir.

segunda-feira, julho 30, 2007

Férias

E então, finalmente, saí do trabalho.
Na sexta passada, enquanto nos preparávamos para sair, a Fran, que cuida da produção e parece ser a sub-chefe da agência, me informou que eu não precisaria mais vir nesta próxima semana. No fim, acho que gostei dessa saída assim. Foi-me informada em uma conversa casual, como quem diz "não precisa mais vir na segunda" da mesma forma que diz "bom final de semana". Quase duvidei. Fato é que saí de lá sem tristeza alguma. Como se fosse natural e correto. Diferente de outros fins de história empregatícia.
O outro emprego, já engatilhado, começa na semana que vem, dia 6. Um lugar um pouco maior, lá perto da Paulista, e que ao menos vai me pagar um salário completo que me permita pensar em sair de casa. Enquanto isso, uma semana de féria arrumando as coisas, revendo amigos e descansando bastante (leia-se dormindo até tarde, porque as semanas anteriores...).
Não há muito o que dizer sobre sair daquele lugar. O processo todo havia começado no fim de Junho, com a viagem do meu chefe. Aproveitei para botar as coisas em ordem em casa com o tempo livre que me sobrava a cada dia que eu não me via coagido a ficar até mais tarde. Com um portfolio atualizado e a decisão de que eu iria para onde me pagassem um salário decente, saí procurando com a ajuda do Publicijobs. Não demorou nada até ter as primeiras entrevistas. E finalmente, achei esse lugar: só o salário dos três meses de experiência que eu vou passar antes da efetivação completa já é maior do que meu salário de efetivo na agência anterior. Espero que o barato não saia caro e eu me veja trabalhando em um lugar desinteressante que me obriga a vir aos sábados...

sexta-feira, julho 20, 2007

Não tenho dormido muito nestas últimas duas semanas. Desde que comecei a fazer aquele trabalho freelancer, que já me pagou e gerou uma continuação nesta semana, tenho passado noites em claro ou dormido uma média de três a quatro horas por noite. A conta bancária agradece, mas espero não ter que gastar a grana cuidando da saúde.

É claro que acordar pela manhã está sendo cada vez mais trabalhoso. Mas outros efeitos curiosos começaram a acontecer ao longo dos dias. As noites de trabalho acontecem em fases: durante a primeira, o sono vem chegando forte e por vezes me ausento por alguns minutos; mas depois dessa fase vem um estranho acordar, uma atenção e adrenalina que me deixam ainda mais atento a pequenos detalhes. O cansaço do corpo é palpável, mas continuo e posso até atravessar a noite, perturbado aqui e ali apenas por aquelas idéias bizarras que começam a surgir quando o cansaço inibe a minha censura e a mente começa a surtar.
Os dias após noites em claro são nulos: as ausências afetam o desempenho, a atenção gasta à noite falta durante o dia, e mesmo raciocínis geométricos simples são esforços incomensuráveis.
Porém os dias das noites mal dormidas parecem transcorrer do modo contrário. É como se aquele segundo estado tomasse conta: a cabeça a mil, resolvendo três, quatro tarefas simultaneamente. E sempre ciente a degradação do corpo.
Ouso dizer que faço muito mais nesses dias do que quando estou perfeitamente descansado. Não sei por que, mas nestes, sou mais propenso a estados de letargia. É como se o meu estado natural, de pesoa com pressão baixa, fosse a letargia, o sono.

segunda-feira, julho 16, 2007

P.S.

Aliás, sempre que falo do Anima Mundi não economizo a propaganda sobre os Irmãos Quay. Em 2002, assisti seu In Absentia no Anima Mundi. Fui saber algum tempo depois que eles eram responsáveis por boa parte das animações de fundo que passavam enquanto os VJs da MTV apresentavam clips nos anos 90. Sempre fiquei muito intrigado e inspirado por eles. Pela estética claustrofílica, gótica e violenta. Estética de decomposição. Pelo stop-motion antiquado que nunca foi tão atual. Por não entregarem o sentido dos filme assim tão facilmente e exigirem um alto nível de raciocínio para uma coisa que deve ser sentida e não pensada.

Pena eu não ter encontrado o In Absentia no YouTube...

[1]
[2 - Do filme Frida]
[3]
[4]

Anima Mundi e nossa guerrilha cultural

Fiquei resolvendo pepinos do trabalho freelancer no sábado, mas tirei o domingo para o Anima Mundi.
Teoricamente em sua 15ª edição, o festival trouxe esse ano a pré-estreia do Garoto Cósmico, longa-metragem de animação do qual a Taís trabalhou durante algum tempo. Lembro de ver o começo do processo, os desenhos sem som. O resultado final é uma delícia pueril cheia de cor e musicas daquelas bem pegajosas, que você fica cantando depois.

Fora isso, vimos alguns poucos curtas do ano passado, incluíndo o belíssimo Tyger, o hilário Gopher Broke e Flat Life, que é bonitinho, mas meio monótono.

De quebra, ainda brincamos nas oficinas de animação. Em edições passadas, eu tinha feito a Alice balançando e postei por aqui. Este ano, assim que disponibilizarem no site do Anima Mundi, coloco por aqui outra animação que fiz dela. Coisa simples. Aguardem.

Mas o que vale mencionar por aqui é que eu e Lexy resolvemos desencadear a nossa guerrilha cultural. Cançados de procurar ingressos dias antes e encontrar tudo esgotado, de chegar nos cinemas dez minutos antes do filme e não encontrar lugar pra sentar, de pagar o triplo do preço por alimentação em eventos como o Anima Mundi, nos enchemos de Ódio Diesel e começamos a tomar medidas drásticas. O Anima Mundi foi visto na compania de uma grande mochila cheia de suprimentos: sanduíches, sucos, bolachas, doces. Preparados pela minha produtora. Nunca fui a um desses com tanto conforto. Os ingressos para as sessões já estavam comprados dois dias antes.
E a guerrilha não para por aí. Ingressos para o Cirque du Soleil no ano que vem já estão comprados. O cinema é comprado ao meio-dia para ser assistido à noite. A antecedência da chegada nos eventos beira a estupidez. Mas pelo menos estamos sempre lá, felizes, confortáveis e sem correria. Porque já deu pra ver que só assim se assiste a algo em São Paulo, onde as pessoas atravessam na sua frente.
Ocorre-me que, passado quase um mês da minha apresentação, ainda não relatei nada dela por aqui. Suponho que tenha sido pela vontade urgente de simplesmente largar tudo aquilo e ir viver um pouquinho.

Pois bem...
Fajardo realmente me surpreendeu. Quando liguei para convidar Marcela Tiboni para a banca e contei-lhe que Fajardo seria um dos convidados, ela disse que tinha medo dele como banca. Não entendi como um senhor tão simpático podia ser tão aterrorizante. Ele começou a banca fazendo uma vasta listagem de erros presentes na monografia. Datas incorretas, citações de versões tidas como imprecisas, essas coisas. O que realmente me surpreendeu nele foi que, depois de mais de cinco anos de USP, eu tinha me acostumado com uma certa estirpe de professores, daqueles meio míopes. Os professores sobre os quais a Nana estivera sempre reclamando e que acarretaram sua decisão de trancar a faculdade. Eu, por outro lado, sempre usara essa miopia para meu benefício, ocultando elementos aqui, menosprezando a precisão de dados alí. A monografia seria minha última risada em cima disso. Porque depois de me dedicar minuciosamente ao trabalho da FAAP e ter uma banca gélida e desinteressante, eu nem considerei levar esta monografia tão a sério no quesito técnico.
Fajardo pescou todas as falhas propositais e algumas que eu nem percebera.
Mas depois do tapa, elogiou muito o conceito da falta de finalidade prática da arte. Eu tinha evitado dizer a frase "arte não serve pra nada", porque achei que seria por onde eles me atacariam (substituindo a frase por "arte não tem finalidade prática"), só pra ouvir ele mesmo, o mestre, dizer a frase e rir. Fiquei feliz por ele ter concordado com a hipótese, até mesmo com ares de que nunca tinha pensado nisso.
O resto foi uma aula de arte. Me ensinou a ver uma teoria maravilhosa na comparação entre Duchamp e Warhol, a ver que às vezes é o espaço expositivo que dota algo do status de arte.

Caio complementou com poucos toques, surgindo mais como um discípulo do próprio Fajardo. Por vezes, os dois divagavam em conversas paralelas sobre arte entre eles e saíam um pouco do âmbito da monografia. Caio foi só elogios. Não contestou nada, voltou a aprovar a hipótese, dizendo não ter pensado nisso.

Quem ficou meio perdido na conversa toda foi meu orientador. De fato, chegando ao fim desse processo todo, percebo que ele nunca esteve muito confortável nessa orientação. Mas suponho que, dentro da ECA, só ele teria a capacidade de orientar uma monografia como essa. No fim, fiquei com um gosto meio agridoce em relação a ele como orientador. Porque acho que ele foi um dos poucos professores da ECA que realmente ensinou alguma coisa, mas teve durante o processo da monografia aquela miopia que falei no começo do post. E em graus avançados.

quinta-feira, julho 12, 2007

Ódio Diesel

Ensaio ontem. Os rapazes começaram a brincar como fazem às vezes, improvisando nos instrumentos com aquela sincronia louca que eles têm. E geralmente eu fico lá, boiando, apenas curtindo os floreios de guitarra ou concentrando no caminhar do baixo até que eles resolvam voltar a algo que eu conheço e possa cantar.

Mas ontem, lembrando que várias das músicas do vocalista anterior surgiram de improvisos assim, arrisquei. Eu tinha escrito as três primeiras frases dessa música. O resto veio na hora.

Still needs a lot of work...


ÓDIO DIESEL
[royalties deverão ser pagos ao Lala`s por cunhar a expressão...]

Cansou dessa moral de desenho animado
Começou correto e terminou frustrado
Tem horas meu caro, em que ser nobre não *****
*************** (a definir)

[CHORUS]
Ódio Diesel (x2)
O combustível que te leva a algum lugar
Ódio Diesel (x2)
Sem ele não dá pra encarar
[/CHORUS]

No mesmo estágio há quantos meses?
Salário baixo pago em vezes.
Pra que tanto estudo *************
O jeito é largar tudo *************

[CHORUS]

O preço da gasolina anda alto
O álcool rapaz é um assalto
Mas um combustível nunca vai faltar
É Ódio Diesel que te leva a algum lugar

[CHORUS]


Ainda vou incluir outras estrofes e mudar algumas coisas. Tem assuntos que eu quero colocar nessa música, mas ainda não sei como.

Patchwork

Karaokê na semana passada.
O pessoal da agência estava tentando marcar isso há muito tempo. Boteco marcado, vozes afinadas, mas à medida que ia chegando a hora, as pessoas interessadas iam pulando fora. Acabei indo eu e Lexy. Só.
O que não significa que a noite foi ruim. Aliás, pelo contrário, foi uma das noites de karaokê mais interessantes, porque as novas capacidades vocais treinadas ao longo dos seis meses de banda renderam bons elogios e a amizade de algumas figuras frequentes por lá.

Quando Luciana, a atendimento da agência e uma das mais interessadas no evento, me ligou pra dizer que não poderia ir, brinquei com ela. Sendo do nordeste, ela sempre dizia que os paulistas marcam as coisas e não aparecem. Ela desculpou-se dizendo que tinha esquecido o compromisso com o aniversário de uma grande amiga lá nos confins da zona norte da cidade.
A ausência dela me fez pensar. O que causa essa falta paulista a compromissos, e que também vitimou minha colega nordestina, é na verdade a densidade da vida em São Paulo. O habitante médio da cidade tem no mínimo quatro turmas separadas: a família, os amígos da vizinhança, os amigos da vida acadêmica (e nem estou diferenciando entre colégio e faculdade...) e os colegas de trabalho. Sem contar com outras turmas que venham a surgir, como pessoas conhecidas em cursos, a galera do clube, o pessoal dos blogs e etc. Imagine conciliar aniversários, botecos, formaturas e afins de tudo isso de gente. A densidade populacional é tanta, que esses convites a eventos divertidos começam a se sobrepor, coincidir horários, formando uma trama tão intrincada que é difícil de ser controlada de cabeça. Minha mãe já havia comentado há algum tempo sobre como ela tinha impressão de que, nessa cidade, as pessoas estavam sempre entrando na sua frente, atravessando o seu caminho.

Claro, esse fenômeno não é exclusivo desta cidade e acontece em qualquer grande cidade. Pensando bem, deve acontecer até mesmo nas pequenas. Mas não me escapa essa sensação de que só nas grandes metrópoles que temos uma turma de bairro com quinze fulanos, uma classe de quarenta e três e trabalhamos em uma empresa com trinta funcionários só no seu setor.