Procurando presentes no shopping, percebo que chegou ao Brasil o We beed to talk about Kevin, de Lionel Shriver. Traduziram-no perfeitamente para Precisamos falar sobre Kevin: raro traduzirem ao pé da letra assim. Comprei a versão original do livro quando estava em Londres. Ele era anunciado em grandes painéis vistos nas paredes do outro lado da linha do metrô.
Mind the gap...
O verso do livro informava tratar-se da história de um daqueles garotos que assassinou seus colegas de colégio. Li o livro às pressas, esperando um ponto de vista interessante e não-maniqueísta sobre o assunto. Foi uma decepção de início ao fim: Kevin era apresentado como um rapaz brilhante, mas maléfico por natureza. Nascera mau, piorou com a idade e cometeu as atrocidades por puro deleite e psicopatia, falta de sentimento de culpa mesmo.
Comparei o livro às reportagens da época, que atribuíam as chacinas aos jogos de tiro em primeira pessoa e ao último CD do Marilyn Manson. Curioso: pouco tempo depois dos rapazes de Columbine entrarem para a história, a nova versão de GTA, muito mais violenta, estourou como um dos jogos de maior sucesso da época. Julgando pelas reportagens, a sociedade ocidental deveria ter sucumbido perante uma horda de adolescentes violentos e psicopáticos, que roubavam carros e espancavam prostitutas. Esses crimes aconteceram, na mesma proporção que acontecem todos os anos.
Levou algum tempo para convencer os rapazes da banda a tocarem Jeremy, do Pearl Jam. A música foi inspirada em um parágrafo em um jornal, falando sobre um incidente em Richardson, Texas, onde um rapaz se suicidou na frente de seus colegas de classe. Embora o gesto tenha sido muito mais relacionado à auto-mutilação do que ao ataque, os motivos permanecem os mesmos.
Eu achava que era do Gaiman, mas na verdade foi o roteirista Warren Ellis que escreveu Shoot em 1999, como parte das histórias de Constantine. A revistinha (número 141) nunca chegou a ser publicada, porque era livremente inspirada nos acontecimentos de Columbine e a editora vetou o roteiro. Ellis na verdade entendeu apenas parte do assunto, e embora tenha conseguido um roteiro extremamente impactante, atribuiu as atrocidades a uma espécie de depressão generalizada, um mal do tempo, um desespero entediado de adolescentes sem futuro.
Anos depois de Columbine, quando eu estava saíndo da faculdade e esses incidentes já eram tristemente rotineiros, comecei a entender meu interesse por eles. Comecei uma história em quadrinhos que nunca teve nome e só durou quatro páginas. No fundo dos quadrinhos, a letra de Jeremy passa enquanto o personagem atira nos colegas e é morto pela polícia, para acordar em um pós-vida que não distingue entre o bem e o mal. Paralelamente, dei tratos à bola sobre fazer uma performance e, combinando previamente com algum colega, entrar um dia na sala de aula com uma arma de paintball e atirar nele. Me interessava a reação dos outros, se alguém iria tentar me desarmar, se alguém iria sequer entender.
Acima de tudo, me interessava o gesto. Sempre foi isso: o gesto. Descontada a questão moral/legal/humana do assassinato, é o gesto mais visceral e expressivo ao qual consigo me relacionar. O gesto de um estudante que aguentou anos de abuso dos valentões de colégio e nunca foi ouvido. Que, quando pediu ajuda aos pais e professores, foi transformado na raiz do problema, por ter "dificuldade de relacionamento", enquanto os valentões eram ditos saudáveis. Um monstruoso grito de uma criança que só que pedir "me ouçam".
Não sei como a conversa surgiu com Lexy hoje. Mas veio naturalmente e isso é sempre bom. Veio ilustrada por detalhes de uma infância e adolescência tão ou mais repletas de abusos quanto as minhas. E mais alguém que não idolatrou os rapazes de Columbine ou os que vieram depois, mas sentiu o deleite macabro de ver um dos nerds finalmente erguer o queixo e dizer "já chega".
Claro, hoje todo o trauma dessa época já não me diz respeito. Valentões são coisa da infância. E no entanto, eu continuo sempre voltando a esse assunto, sempre me interessando por ele. Com o mesmo interesse que eu tenho por alguns desses assuntos que as pessoas não querem discutir sem alarmismos sensacionalistas.
Acho que encontrei um assunto.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
terça-feira, dezembro 11, 2007
O anúncio mal acabado, a animação que ainda falta alguns detalhes, a promessa de um longo e tortuoso dia seguinte. Mas consegui sair da agência. Corri em direção ao metrô até que meus pulmões estivessem em brasa. O passar das estações era pura e demorada ansiedade.
Não cheguei a tempo. A missa já tinha acabado e todos estavam partindo, os olhos ainda aguados em homenagem à amiga, colega de trabalho, professora. Na porta, alguém me deu uma foto dela. Ela sempre teve um sorriso fabulosamente alegre. Foi das mãos dela que eu recebi meu diploma. E tinha que ser ela, apenas ela. Acredito já ter escrito isso antes do blog.
Um súbito mal estar. Saí para as escadarias e, diante do anonimato dos motoristas da avenida, aliviei-me em um abafado e agudo choro.
Sim, algumas das lágrimas limpadas no dorso da mãe de homem que não chora eram pela professora, pela amiga, pela alegre. De certa forma sou grato por não ter visto esta mulher enquanto a doença a corroía: fico com as lembranças daquela época, daquele sorriso.
Mas preciso admitir que boa parte das lágrimas era frustração. Eu queria tanto ter estado lá. Outras pessoas daríam de ombros frente à tolice religiosa da missa de sétimo dia. Mas apesar de não ser tão cristão, eu sempre dei importância aos rituais. E agora tinha perdido este, o último para lhe dizer adeus. Eu chorava de frustração depois de um dia horroroso e culpava tudo na publicidade. Naquele emprego que eu ainda teimava em dizer a mim mesmo que era o caminho certo e que me sustentaria. Mas a que preço? Vendo a vida passar lá fora enquanto eu me percebia lerdo demais para cumprir as tarefas dentro do prazo? Sentindo-me culpado por não achar tudo aquilo fantástico e nem saber quem ganhou o recente prêmio Caboré? Perder sabe-se lá quantos outros rituais dos quais eu gostaria de participar?
Outra parte do choro era desamparo. Era perceber-me tão capaz e ainda assim tão inútil. O que eu poderia fazer além da publicidade para a qual eu me preparara por tanto tempo? Eu ainda sou uma criança nua, ingênua e com frio.
Não cheguei a tempo. A missa já tinha acabado e todos estavam partindo, os olhos ainda aguados em homenagem à amiga, colega de trabalho, professora. Na porta, alguém me deu uma foto dela. Ela sempre teve um sorriso fabulosamente alegre. Foi das mãos dela que eu recebi meu diploma. E tinha que ser ela, apenas ela. Acredito já ter escrito isso antes do blog.
Um súbito mal estar. Saí para as escadarias e, diante do anonimato dos motoristas da avenida, aliviei-me em um abafado e agudo choro.
Sim, algumas das lágrimas limpadas no dorso da mãe de homem que não chora eram pela professora, pela amiga, pela alegre. De certa forma sou grato por não ter visto esta mulher enquanto a doença a corroía: fico com as lembranças daquela época, daquele sorriso.
Mas preciso admitir que boa parte das lágrimas era frustração. Eu queria tanto ter estado lá. Outras pessoas daríam de ombros frente à tolice religiosa da missa de sétimo dia. Mas apesar de não ser tão cristão, eu sempre dei importância aos rituais. E agora tinha perdido este, o último para lhe dizer adeus. Eu chorava de frustração depois de um dia horroroso e culpava tudo na publicidade. Naquele emprego que eu ainda teimava em dizer a mim mesmo que era o caminho certo e que me sustentaria. Mas a que preço? Vendo a vida passar lá fora enquanto eu me percebia lerdo demais para cumprir as tarefas dentro do prazo? Sentindo-me culpado por não achar tudo aquilo fantástico e nem saber quem ganhou o recente prêmio Caboré? Perder sabe-se lá quantos outros rituais dos quais eu gostaria de participar?
Outra parte do choro era desamparo. Era perceber-me tão capaz e ainda assim tão inútil. O que eu poderia fazer além da publicidade para a qual eu me preparara por tanto tempo? Eu ainda sou uma criança nua, ingênua e com frio.
domingo, dezembro 09, 2007
Noite de sexta, ainda na agência. Ela desliga o telefone na minha cara porque eu combinei de sair com ela às 20:00 e ainda estava trabalhando uma hora depois. Depois volta a me ligar porque não tem como pegar um ônibus para casa.
Dançando na FunHouse, noite de sábado. Smiths, Smashing Pumpkins e Franz Ferdinand tocando. As luzes estroboscópicas queimando na minha retina os flashes congelados no tempo das expressões de deleite no rosto dela, cantarolando com a música, que se dissolvem no escuro dando espaço para o próximo flash e outra expressão daquelas que só ela faz.
Minha casa, na tarde de domingo. A mesa da cozinha é tomada por ingredientes de um risoto com verduras. Outro domingo gastronômico. Depois vamos ao ensaio da banda e ela não reclama. Talvez só um pouco pela preguiça de sair de casa com um estômago cheio e a sonolência da tarde quente. Mas não me sinto culpado por ter meus hobbies que consomem meu tempo, e isso era impensável para mim há alguns anos, na compania de outras pessoas.
Dançando na FunHouse, noite de sábado. Smiths, Smashing Pumpkins e Franz Ferdinand tocando. As luzes estroboscópicas queimando na minha retina os flashes congelados no tempo das expressões de deleite no rosto dela, cantarolando com a música, que se dissolvem no escuro dando espaço para o próximo flash e outra expressão daquelas que só ela faz.
Minha casa, na tarde de domingo. A mesa da cozinha é tomada por ingredientes de um risoto com verduras. Outro domingo gastronômico. Depois vamos ao ensaio da banda e ela não reclama. Talvez só um pouco pela preguiça de sair de casa com um estômago cheio e a sonolência da tarde quente. Mas não me sinto culpado por ter meus hobbies que consomem meu tempo, e isso era impensável para mim há alguns anos, na compania de outras pessoas.
terça-feira, dezembro 04, 2007
That sinking feeling...
Já é quase uma certeza que vou sair da publicidade. Resta-me entender para onde devo ir. Estou começando a pesquisar programas de trainee de grandes empresas.
A publicidade foi uma frustração gigantesca. Por ela, deixei as chances que tinha de procurar uma carreira de artes plásticas quando terminei a FAAP. Eu acreditava que poderia ganhar mais e ter mais estabilidade na publicidade. Mas tanta gente acreditou nessa ladainha, que hoje o mercado está saturado e não comporta pessoas como eu, que não morrem de paixão pelo assunto mas querem sobreviver dele. Os sacrifícios são enormes e eu não estou disposto a fazê-los.
Meu salário hoje não é maior do que o das minhas ex-colegas de FAAP que entraram para a área administrativa de museus e galerias. Já o stress...
Observando meus ex-colegas de colégio, gente que foi para outras áreas, percebo que a publicidade é uma das poucas áreas onde, quanto mais você sobe, mais trabalho você efetivamente tem. Claro, toda promoção envolve um aumento de responsabilidades e de stress, mas vejo meus ex-colegas delegando parte delas aos seus estagiários, assistentes e etc. Vejo-os usando a hierarquia a seu favor. Enquanto isso, minha supervisora na agência se desdobra em dois para absorver o que os estagiários não conseguem e minha chefe já vem à agência todo sábado, como parte da rotina semanal. Outros publicitários confirmam essa tendência.
Há algum alívio nessa crise toda que estou passando: o de perceber que, desistindo dessa área para a qual me preparei por quase uma década e percebendo que minha realização pessoal não virá daí, estou livre para fazer realmente o que aparecer pela frente. Desde que me pague mais, eu topo.
Há uma exclamação indignada que cada vez mais surge na minha cabeça em alto e bom inglês: "I gave up London for THIS!?"
Porque eu efetivamente voltei para terminar a faculdade de publicidade e ter uma carreira melhor do que a de garçom de pub (que aliás, me pagava melhor, se compararmos o custo e qualidade de vida...)
Mas aí eu me dou conta de que tenho Lexy e a banda e vejo que algo de bom surgiu disso tudo. Algo sempre surge.
A publicidade foi uma frustração gigantesca. Por ela, deixei as chances que tinha de procurar uma carreira de artes plásticas quando terminei a FAAP. Eu acreditava que poderia ganhar mais e ter mais estabilidade na publicidade. Mas tanta gente acreditou nessa ladainha, que hoje o mercado está saturado e não comporta pessoas como eu, que não morrem de paixão pelo assunto mas querem sobreviver dele. Os sacrifícios são enormes e eu não estou disposto a fazê-los.
Meu salário hoje não é maior do que o das minhas ex-colegas de FAAP que entraram para a área administrativa de museus e galerias. Já o stress...
Observando meus ex-colegas de colégio, gente que foi para outras áreas, percebo que a publicidade é uma das poucas áreas onde, quanto mais você sobe, mais trabalho você efetivamente tem. Claro, toda promoção envolve um aumento de responsabilidades e de stress, mas vejo meus ex-colegas delegando parte delas aos seus estagiários, assistentes e etc. Vejo-os usando a hierarquia a seu favor. Enquanto isso, minha supervisora na agência se desdobra em dois para absorver o que os estagiários não conseguem e minha chefe já vem à agência todo sábado, como parte da rotina semanal. Outros publicitários confirmam essa tendência.
Há algum alívio nessa crise toda que estou passando: o de perceber que, desistindo dessa área para a qual me preparei por quase uma década e percebendo que minha realização pessoal não virá daí, estou livre para fazer realmente o que aparecer pela frente. Desde que me pague mais, eu topo.
Há uma exclamação indignada que cada vez mais surge na minha cabeça em alto e bom inglês: "I gave up London for THIS!?"
Porque eu efetivamente voltei para terminar a faculdade de publicidade e ter uma carreira melhor do que a de garçom de pub (que aliás, me pagava melhor, se compararmos o custo e qualidade de vida...)
Mas aí eu me dou conta de que tenho Lexy e a banda e vejo que algo de bom surgiu disso tudo. Algo sempre surge.
sábado, dezembro 01, 2007
Atualizando
À medida que eu vou pegando um ritmo mais constante e maduro no trabalho, fica mais difícil pra mim atualizar isso aqui. Normalmente eu escrevo meus posts durante o dia, quando surge aquela idéia entre um trabalho e outro e eu fico pasmando um pouquinho. Mas recentemente, adquiri um hábito saudável de caçar assunto no trabalho, ir atrás de coisas inacabadas. Escrevo cada vez menos.
Mas resolvi fazer um daqueles posts gigantescos atualizando tudo, porque muita coisa importante aconteceu nessa semana. Não que muita gente leia isto, mas eu gosto de ter essas coisas registradas.
A BANDA
Saímos do show do Little Darling de cabeça erguida e achando que talvez tenha sido um dos shows mais gostosos que já fizemos. Ainda acho que o melhor foi aquele primeiro M868, mas esse foi muito mais gostoso.
Sinto a voz dar outro daqueles upgrades. Na verdade, não é como das outras vezes onde eu percebia uma capacidade nova. É mais como um rever habilidades que, com a evolução da voz, eu achei que tinha perdido. Não sei explicar direito, mas no começo eu fazia uns agudos que pareciam meio Placebo. Com os upgrades eu perdi isso e passei a fazer agudos de um jeito que machucava a garganta. Recentemente, reencontrei aquele jeito legal meio que por acaso, mas ainda não consigo controlar.
Há alguns ensaios, um dos rapazes começou a brincar com algumas notas. Os outros entraram na brincadeira. Eu, que estava em uma daquelas épocas de paixãozinha pela Lexy (daquelas que vêm para dar uma levantada no relacionamento de vez em quando...), entrei cantando um refrão que pedia "be my child, drive me wild". Nascia o começo de Be My Child. Com a voz naquele estilo do Placebo, mas a instrumentação mais pesada. Recentemente retomamos esse rascunho no estúdio. Os rapazes estão definindo as notas pra não ficar uma coisa tão improvisada e eu ainda preciso escrever uma última estrofe pra completar a estrutura. Acho que vai ser mais divertida de fazer do que Boy Toy. E isso é apenas uma cena dos próximos capítulos que virão no ano que vem, onde decidimos deixar os shows de lado e passar um semestre tentando escrever coisas legais. Cada um tem várias idéias, só falta tentar coordenar tudo junto.
PROCURANDO CASA
Encontrei um apartamento muito promissor na semana passada. A dois quarteirões da Paulista, uma kitchnet com garagem e lavanderia coletiva. Minha mãe foi ver e eu estava quase fechando o negócio. Daí meu pai perdeu as estribeiras e saiu cuspindo fogo. Porque ele estava a quatro meses pedindo que colocássemos os custos no papel pra entender quanto eu precisaria gastar para sair de casa e me manter. Pessoalmente, eu achei isso meio irrelevante. Depois da Europa, eu tinha aprendido, talvez da forma errada, a simplesmente entrar de cabeça nessas situações e me virar depois que o bonde já estivesse andando.
A discussão foi feia. Não vou colocar tudo por aqui, porque o post ficaria maior do que eu pretendo. Vou resumir dizendo que meu pai tem uma idéia nada realista do que eu vou precisar, aumentando demais os custos. E eu, por outro lado, tenho uma idéia igualmente irreal do que eu vou precisar, subestimando os custos. A verdade está em algum meio termo.
E como que isso afeta os planos?
Bom, abri mão desse apartamento. Vou ficar de olho nesse prédio, porque kitchnets tem alta rotatividade. Mas antes de seguir com o meu plano de mudar de casa, percebi que outras coisas vão ter que mudar.
A CONSEQUENTE QUESTÃO SALARIAL
Fazendo as contas por cima, entendi que eu vou precisar de uma certa quantidade de dinheiro para me manter sem a ajuda dos pais. Meu trabalho ainda não me paga isso e, pelo jeito, não vai me pagar pelos próximos... dois a três anos. E eles podem fazer isso, é perfeitamente normal: se eu não me sujeito a esse salário, tem muita gente querendo tomar meu lugar. Eu vejo a estrada a percorrer: ou eu invisto uma grana pesada em cursos de design (que é meu ponto fraco) e procuro algum jeito de compensar minha lentidão criativa, ou eu continuo ganhando esse salário e complemento isso com freelas que eu ainda não sei caçar direito. Em ambas as escolhas, os níveis de stress serão obscenos e eu temo pelo pouco tempo que tenho para meus hobbies como a banda e mesmo a pintura que voltei timidamente a fazer.
Um terceiro (e por enquanto mais sedutor) caminho é admitir minha derrota na publicidade, coisa que não é muito difícil porque eu não morro de amores pela carreira, e procurar uma alternativa. Dessas que todo mundo que ainda não conseguiu definir o que quer fazer da vida toma. Um programa de trainee de alguma grande empresa onde eu vá fazer uma coisa mais burocrática, que tenha menos a ver com arte, mas que me pague mais. Eu sempre fui meio seduzido pelo ambiente corporativo e sempre tive inveja dos moleques do prédio que, depois de uma certa idade, começaram a sair de casa pela manhã vestindo terno e carregado maletas. Me dá uma idéia de sucesso e estabilidade financeira. Eu sei que eu sou uma de raras pessoas que pensa assim, não precisa comentar...
Começo a perceber que eu sou um pouco como a Kita: eu detesto trabalhar. Não importa no que. Eu não sei procurar minha realização pessoal no trabalho. Ela está nas coisas que eu faço no tempo livre, depois de ganhar o dinheiro do mês. É aí que está o meu verdadeiro e: o pintor, cantor, desenhista, escritor, ator, etc. E essas coisas, neste país, dão muito pouco dinheiro ou exigem um ritmo de trabalho acelerado e incompatível com a boa qualidade. Acho muito triste esse ponto da maturidade onde você se rende ao fato de que você realmente não vai conseguir viver do seu sonho. As concessões são tão dolorosas...
A PINTURA
Como disse, voltei a pintar. Timidamente. Aproveitei uma reforma na casa da minha avó que interditou o ateliê já abandonado e fui organizar as coisas. Remexer nos tesouros daquela época sempre me inspira a voltar a ser o artista que eu era na faculdade (que frase de velho...). Aproveitando, levei várias telas para casa. Quando sobra uma ou duas horas do dia, pinto as linhas do cachorro de meu avô, ou os quadriláteros de cores quentes na tela que prometi há dois anos para dona Eliana, mãe da Taís. No canto do quarto, tenho telinhas pequenas que estou cobrindo de tinta vermelho-sangue para fazer os retratos da galera do coven assim que Bia Schmidt fizer-lhes as fotos: um projeto em conjunto que temos em lento andamento...
Nada de Alice por enquanto. Ela ficou parada no tempo, no único desenho deste ano, onde ela encontra a Butcher's Daughter. Ainda pretendo terminar esse.
E por enquanto é essa a minha vida. Estou saboreando o presente e já prevendo o amargo gosto do ano que vem.
Mas resolvi fazer um daqueles posts gigantescos atualizando tudo, porque muita coisa importante aconteceu nessa semana. Não que muita gente leia isto, mas eu gosto de ter essas coisas registradas.
A BANDA
Saímos do show do Little Darling de cabeça erguida e achando que talvez tenha sido um dos shows mais gostosos que já fizemos. Ainda acho que o melhor foi aquele primeiro M868, mas esse foi muito mais gostoso.
Sinto a voz dar outro daqueles upgrades. Na verdade, não é como das outras vezes onde eu percebia uma capacidade nova. É mais como um rever habilidades que, com a evolução da voz, eu achei que tinha perdido. Não sei explicar direito, mas no começo eu fazia uns agudos que pareciam meio Placebo. Com os upgrades eu perdi isso e passei a fazer agudos de um jeito que machucava a garganta. Recentemente, reencontrei aquele jeito legal meio que por acaso, mas ainda não consigo controlar.
Há alguns ensaios, um dos rapazes começou a brincar com algumas notas. Os outros entraram na brincadeira. Eu, que estava em uma daquelas épocas de paixãozinha pela Lexy (daquelas que vêm para dar uma levantada no relacionamento de vez em quando...), entrei cantando um refrão que pedia "be my child, drive me wild". Nascia o começo de Be My Child. Com a voz naquele estilo do Placebo, mas a instrumentação mais pesada. Recentemente retomamos esse rascunho no estúdio. Os rapazes estão definindo as notas pra não ficar uma coisa tão improvisada e eu ainda preciso escrever uma última estrofe pra completar a estrutura. Acho que vai ser mais divertida de fazer do que Boy Toy. E isso é apenas uma cena dos próximos capítulos que virão no ano que vem, onde decidimos deixar os shows de lado e passar um semestre tentando escrever coisas legais. Cada um tem várias idéias, só falta tentar coordenar tudo junto.
PROCURANDO CASA
Encontrei um apartamento muito promissor na semana passada. A dois quarteirões da Paulista, uma kitchnet com garagem e lavanderia coletiva. Minha mãe foi ver e eu estava quase fechando o negócio. Daí meu pai perdeu as estribeiras e saiu cuspindo fogo. Porque ele estava a quatro meses pedindo que colocássemos os custos no papel pra entender quanto eu precisaria gastar para sair de casa e me manter. Pessoalmente, eu achei isso meio irrelevante. Depois da Europa, eu tinha aprendido, talvez da forma errada, a simplesmente entrar de cabeça nessas situações e me virar depois que o bonde já estivesse andando.
A discussão foi feia. Não vou colocar tudo por aqui, porque o post ficaria maior do que eu pretendo. Vou resumir dizendo que meu pai tem uma idéia nada realista do que eu vou precisar, aumentando demais os custos. E eu, por outro lado, tenho uma idéia igualmente irreal do que eu vou precisar, subestimando os custos. A verdade está em algum meio termo.
E como que isso afeta os planos?
Bom, abri mão desse apartamento. Vou ficar de olho nesse prédio, porque kitchnets tem alta rotatividade. Mas antes de seguir com o meu plano de mudar de casa, percebi que outras coisas vão ter que mudar.
A CONSEQUENTE QUESTÃO SALARIAL
Fazendo as contas por cima, entendi que eu vou precisar de uma certa quantidade de dinheiro para me manter sem a ajuda dos pais. Meu trabalho ainda não me paga isso e, pelo jeito, não vai me pagar pelos próximos... dois a três anos. E eles podem fazer isso, é perfeitamente normal: se eu não me sujeito a esse salário, tem muita gente querendo tomar meu lugar. Eu vejo a estrada a percorrer: ou eu invisto uma grana pesada em cursos de design (que é meu ponto fraco) e procuro algum jeito de compensar minha lentidão criativa, ou eu continuo ganhando esse salário e complemento isso com freelas que eu ainda não sei caçar direito. Em ambas as escolhas, os níveis de stress serão obscenos e eu temo pelo pouco tempo que tenho para meus hobbies como a banda e mesmo a pintura que voltei timidamente a fazer.
Um terceiro (e por enquanto mais sedutor) caminho é admitir minha derrota na publicidade, coisa que não é muito difícil porque eu não morro de amores pela carreira, e procurar uma alternativa. Dessas que todo mundo que ainda não conseguiu definir o que quer fazer da vida toma. Um programa de trainee de alguma grande empresa onde eu vá fazer uma coisa mais burocrática, que tenha menos a ver com arte, mas que me pague mais. Eu sempre fui meio seduzido pelo ambiente corporativo e sempre tive inveja dos moleques do prédio que, depois de uma certa idade, começaram a sair de casa pela manhã vestindo terno e carregado maletas. Me dá uma idéia de sucesso e estabilidade financeira. Eu sei que eu sou uma de raras pessoas que pensa assim, não precisa comentar...
Começo a perceber que eu sou um pouco como a Kita: eu detesto trabalhar. Não importa no que. Eu não sei procurar minha realização pessoal no trabalho. Ela está nas coisas que eu faço no tempo livre, depois de ganhar o dinheiro do mês. É aí que está o meu verdadeiro e: o pintor, cantor, desenhista, escritor, ator, etc. E essas coisas, neste país, dão muito pouco dinheiro ou exigem um ritmo de trabalho acelerado e incompatível com a boa qualidade. Acho muito triste esse ponto da maturidade onde você se rende ao fato de que você realmente não vai conseguir viver do seu sonho. As concessões são tão dolorosas...
A PINTURA
Como disse, voltei a pintar. Timidamente. Aproveitei uma reforma na casa da minha avó que interditou o ateliê já abandonado e fui organizar as coisas. Remexer nos tesouros daquela época sempre me inspira a voltar a ser o artista que eu era na faculdade (que frase de velho...). Aproveitando, levei várias telas para casa. Quando sobra uma ou duas horas do dia, pinto as linhas do cachorro de meu avô, ou os quadriláteros de cores quentes na tela que prometi há dois anos para dona Eliana, mãe da Taís. No canto do quarto, tenho telinhas pequenas que estou cobrindo de tinta vermelho-sangue para fazer os retratos da galera do coven assim que Bia Schmidt fizer-lhes as fotos: um projeto em conjunto que temos em lento andamento...
Nada de Alice por enquanto. Ela ficou parada no tempo, no único desenho deste ano, onde ela encontra a Butcher's Daughter. Ainda pretendo terminar esse.
E por enquanto é essa a minha vida. Estou saboreando o presente e já prevendo o amargo gosto do ano que vem.
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