quinta-feira, agosto 29, 2013

Carta aos 9os

Carta lida na última aula do 2º bimestre, aos alunos do 9º ano, que estavam estudando rudimentos de cinema.


Turma,

Estamos prestes a concluir o segundo bimestre do nosso curso, e assistimos aos primeiros vídeos feitos por vocês. Eu achei importante tomar um tempo da nossa aula pra dizer algumas coisas muito importantes que eu percebi com a entrega destes trabalhos.

Não é raro eu chegar nas classes no dia que reservamos para apresentar os vídeos e ouvir de um ou outro aluno: “Leão, por favor não passa o meu vídeo para a classe! Eu vou pagar o maior mico!” Esse pedido me entristece não por causa daquela vaidade de professor, de pensar “poxa, eles não gostaram do exercício que eu fiz e que tava muito legal...”. O pedido me entristece porque, além do fato de que o vídeo dessa pessoa vai estar muito mal feito,  eu percebo também que ela não entendeu todo o propósito do exercício e, de forma geral, o propósito de se fazer arte (seja ela vídeo, foto, desenho, o que for). Artistas lidam quase sempre com o desafio da estética (de fazer algo parecer belo, interessante, estimulante).  Eles também têm medo de serem medíocres. E eles só conseguem ser bons e fazer obras geniais se eles aceitarem o desafio. Não é um desafio fácil de propor para estudantes de um colégio que tem tradição em ensinar o pensamento científico, racional, mas que não faz ideia de ensinar como nem para que produzir a beleza. Como consequência, vocês sabem resolver questões de matemática, mas ainda têm dificuldade em resolver os próprios gostos. E como consequência, o desafio de produzir um filme onde vocês vão expor a sua própria imagem é visto como algo inútil (pra que que estamos tendo essa matéria?”).  A verdade é que vocês só vão entender a utilidade desta matéria quando estiverem lá fora, tendo que falar em público em reuniões de negócios, por exemplo.  Mas segurem este pensamento, eu volto a ele daqui a pouco.

No ano passado, eu peguei um curso estruturado de um jeito que vocês teriam que produzir um vídeo por bimestre. Era pouquíssimo tempo para desenvolver roteiros coerentes, se encontrar para gravar cenas que não fossem toscas e ter carinho na edição do produto final. E com os trabalhos das outras matérias, muita gente fazia tudo isso em uma semana. O resultado, claro, era péssimo. Os alunos sentiam que era impossível chegar em um resultado bom e que estavam sendo obrigados a serem expostos ao ridículo daquele jeito. Para resolver isto, esticamos o processo para ocupar um semestre inteiro. Por mim, eu faria o vídeo direito, durante um ano todo. Com tempo para dar retornos mais úteis nos seus roteiros e filmagens.

Mas mesmo com tempos curtos, tinha muita gente que entendia o desafio e tomava gosto por fazer filmes legais. Ou talvez só tivesse medo de pagar mico... O importante é que essas pessoas levavam o exercício a sério. As outras, faziam algo parecido àquela coisa de fazer careta para o autorretrato que discutimos no ano passado. Elas faziam coisas toscas como quem diz: “se eu assumir a tosquice, ninguém vai conseguir me criticar”. E depois justificavam o resultado dizendo: “ah, vai... ficou divertido”. E a verdade é que não ficava divertido. Ficava chato, longo e frequentemente expunha os participantes a ridículos maiores do que as turmas que tentaram levar a sério.

Imagine agora a tal da reunião de negócios. Vocês vão usar a mesma estratégia da careta/tosquice assumida? Olha, eu detesto ficar só nos exemplos de emprego e carreira: a verdade é que eu acho que essa seriedade no que se faz deveria ser um valor aplicado em tudo na vida. Até vídeo caseiro, bolinho de chocolate, e-mail para a namorada. Um bom artista presta atenção nos detalhes, porque eles dão todo o gosto à obra. Tem um ditado que diz que Deus está nos detalhes.

Eu também vejo com pena que, mesmo com toda a racionalidade científica que lhes foi ensinada, vocês ainda não aprenderam a respeitar o trabalho um do outro. E preferem tirar sarro do erro (mesmo quando foi acidental) a comemorar e parabenizar um acerto. Não é novidade então, que tanta gente tenha vergonha de mostrar o que fez. Essa falta de educação básica é uma força negativa, desencorajadora. Eu acredito que seriamos muito mais produtivos, confiantes e geniais se conseguíssemos parabenizar aberta e claramente quem foi criativo e teve soluções legais, e déssemos um toque em particular, na boa, em quem errou. 

Daria menos vergonha, né?