São 3 da manhã e, pela primeira vez em muito tempo, estou tendo dificuldades para dormir. Por isso estou fazendo o que a minha geração faz: desabafando no blog. A razão da minha insônia de hoje, claro, foi um comentário a respeito de uma pintura. Hesito em escrever isso porque eu sei o quanto minha mãe enche-se de remorso quando eu me incomodo com os comentários dela, mas sim, foi um comentário dela sobre uma foto da pintura de Cacilda. Não tenha remorso, mã... A verdade é que, de tempos em tempos, eu preciso de gente disposta a me dizer as dolorosas verdades, porque tem coisas e sentimentos a respeito do meu trabalho que eu escondo de mim mesmo e preciso de uns chacoalhões para desenterrar e ser obrigado a lidar com eles.
Eu tinha falado em fugir da foto e cheguei a dar um passo tímido em direção a algo mais gestual na hora de fazer o vestido de Cacilda na pintura. Mas continua sendo um vestido, e continua sendo uma interpretação da foto. Passos tímidos não bastam. Eu mesmo estava insatisfeito e frustrado com aquilo, querendo mais. Porém estava me convencendo (me sabotando) a deixar passar e seguir em frente, a me contentar com um trabalho de menor qualidade. Até que minha mãe questionou angustiada antes de sair para o teatro: "algum dia você vai ter que colocar mais do que você está sentindo na pintura e menos da foto." Aí que eu não pude negar que, de fato, eu estava pendurado na ilustração da foto de novo. De outra maneira, mas estava. O quadro tinha pouco ou quase nada de gestual e muita pintura ruim...
Agora estou aqui, revirando na cama e remoendo a ansiedade de chegar no ateliê e violentar aquela pintura com o máximo de tinta branca que eu tiver no estoque. E não é só isso: questiono a relevância da Entre Quatro Paredes que também não me satisfez. Aliás, por um detalhe que também veio de um comentário de minha mãe e que eu acho que ela tem total e completa razão (como de costume).
Vamos, ansiedade, deixa-me dormir! Afinal, não vou poder fazer nada a respeito disso agora. Morro de vontade de ter o ateliê em casa. Ou em algum lugar onde eu possa ir quando me baterem estas angústias construtivas e às três da manhã perpetrar atos selvagens de violência pigmentária...
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
domingo, fevereiro 28, 2010
sexta-feira, fevereiro 26, 2010
A Devassa Paris Hilton
Soube pelo Destak que estão movendo ações para tirar do ar a campanha da cerveja Devassa protagonizada pela socialite Paris Hilton [1][2]. É maldade, mas francamente, acho uma pena. Nenhuma outra pessoa combinaria tanto com o nome da cerveja. Sem dúvida foi gasto muito dinheiro para convencer a loira milionária a participar da campanha, sem falar na lábia da pessoa que a abordou. Afinal, imagino que ela tenha recebido a tradução errada da palavra, ou imagino que não aceitaria o bico.
Mas entre outras coisas que fiquei pensando está o fato de um dos processos ter sido aberto pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, acusando o anúncio de sexista. Porque em primeiro lugar, a devassidão de Hilton pouco tem a ver com sexo. Tem mais a ver com os excessos e total falta de noção da realidade que os herdeiros de magnatas costumam ter. Independente do gênero. Esse, aliás, seria o real significado da palavra: pessoa libertina, licenciosa, adepta da luxúria e dos excessos de qualquer espécie. Há homens igualmente devassos.
Enquanto isso, ninguém está movendo ações por sexismo contra a Axe pela degradação do sexo masculino que eles promovem.
Mas entre outras coisas que fiquei pensando está o fato de um dos processos ter sido aberto pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, acusando o anúncio de sexista. Porque em primeiro lugar, a devassidão de Hilton pouco tem a ver com sexo. Tem mais a ver com os excessos e total falta de noção da realidade que os herdeiros de magnatas costumam ter. Independente do gênero. Esse, aliás, seria o real significado da palavra: pessoa libertina, licenciosa, adepta da luxúria e dos excessos de qualquer espécie. Há homens igualmente devassos.
Enquanto isso, ninguém está movendo ações por sexismo contra a Axe pela degradação do sexo masculino que eles promovem.
Arte masculina ou feminina
Recentemente fiz um workshop de pintura na Escola São Paulo com a Regina Parra. Parte da minha resolução de aproveitar o dinheiro quem vem como presente de fim de ano e aniversário para investir em cursos. Ela me mostrou outra técnica de transferência que não usa solvente e dá outros resultados, além de apresentar artistas como o Neo Rausch e o Luc Tuymans (que eu entendi como o próximo passo depois do meu favorito Gerhard Richter).
Mas no meio da aula, conversando com uma colega de curso, voltei à discussão da época da faculdade. Pode-se dizer que determinado tipo de arte ou técnica seja masculina ou feminina? Lembro que a questão gerava muita polêmica entre professores e alunos.
Claro, há um tipo de arte que, apesar de ser um clichê fácil e óbvio, ainda é a melhor saída para fazer um tipo de arte considerada feminina: é lidar com assuntos como a maternidade, a menstruação, ciclos e etc. Há sempre uma artista assim na faculdade. Nos meus anos, lembro de uma menina de outra classe que fez uma "pintura" em que ela simplesmente deitou nua sobre a tela e se deixou escorrer.
O que seria um clichê semelhante para uma arte masculina? Lidar com assuntos de guerra, conquista e agressividade em geral? Ando pensando nisso, porque imagino que seria um passo importante lidar com esse clichê para depois chegar a algo mais maduro na minha pesquisa masculista.
Na verdade, ando pensando também em outra possibilidade: a de que a arte masculista deveria ter mais apego a processos, principalmente os mecânicos, com ferramentas e procedimentos complexos, enquanto a feminista (ou feminina) deveria lidar com rompantes mais sentimentais. Tenho considerado processos como as transferências que tenho feito, mas também as gravuras, certos tipos de fotografia, impressões em máquinas e outros processos similares. Coisas que me trazem à mente a expressão boys with toys.
Não tenho encontrado muita gente que se disponha a considerar esta questão. Alguns não concordam, outros têm medo de lidar com algo tão delicado e há ainda os que nem entendem e passam a citar homens que fazem arte feminina ou mulheres com arte masculina para tentar contradizer a questão.
Vale lembrar que não é só uma mulher que pode fazer uma arte feminina e nem um homem uma arte masculina. Artistas homens que glorificam a maternidade existem em profusão, assim como artistas mulheres que são exímias guerreiras. Mas pra mim, o autor não muda o caráter da arte em questão.
Enfim, são apenas conjecturas por enquanto. Algo pra pensar mais ao longo dos meses antes de ir para Londres e ter que de fato lidar com essas questões.
Mas no meio da aula, conversando com uma colega de curso, voltei à discussão da época da faculdade. Pode-se dizer que determinado tipo de arte ou técnica seja masculina ou feminina? Lembro que a questão gerava muita polêmica entre professores e alunos.
Claro, há um tipo de arte que, apesar de ser um clichê fácil e óbvio, ainda é a melhor saída para fazer um tipo de arte considerada feminina: é lidar com assuntos como a maternidade, a menstruação, ciclos e etc. Há sempre uma artista assim na faculdade. Nos meus anos, lembro de uma menina de outra classe que fez uma "pintura" em que ela simplesmente deitou nua sobre a tela e se deixou escorrer.
O que seria um clichê semelhante para uma arte masculina? Lidar com assuntos de guerra, conquista e agressividade em geral? Ando pensando nisso, porque imagino que seria um passo importante lidar com esse clichê para depois chegar a algo mais maduro na minha pesquisa masculista.
Na verdade, ando pensando também em outra possibilidade: a de que a arte masculista deveria ter mais apego a processos, principalmente os mecânicos, com ferramentas e procedimentos complexos, enquanto a feminista (ou feminina) deveria lidar com rompantes mais sentimentais. Tenho considerado processos como as transferências que tenho feito, mas também as gravuras, certos tipos de fotografia, impressões em máquinas e outros processos similares. Coisas que me trazem à mente a expressão boys with toys.
Não tenho encontrado muita gente que se disponha a considerar esta questão. Alguns não concordam, outros têm medo de lidar com algo tão delicado e há ainda os que nem entendem e passam a citar homens que fazem arte feminina ou mulheres com arte masculina para tentar contradizer a questão.
Vale lembrar que não é só uma mulher que pode fazer uma arte feminina e nem um homem uma arte masculina. Artistas homens que glorificam a maternidade existem em profusão, assim como artistas mulheres que são exímias guerreiras. Mas pra mim, o autor não muda o caráter da arte em questão.
Enfim, são apenas conjecturas por enquanto. Algo pra pensar mais ao longo dos meses antes de ir para Londres e ter que de fato lidar com essas questões.
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Cacilda e Cleyde
Os últimos quadros da série do TBC (por enquanto) já estão em produção.
O da Cacilda fazendo a Dama das Camélias entrou em sua looooonga fase final. O vestido branco dela foi feito com grossas camadas de tinta que têm um certo movimento mais tosco de pinceladas. Não dá pra fazer uma coisa fotográficamente perfeita e nem era essa a minha intenção. A idéia era experimentar um pouco mais a pintura gestual, coisa que eu raramente faço porque nunca estou satisfeito com os resultados. Faz parte daquela coisa de abandonar um pouco a foto e "colocar um pouco mais de mim na pintura". Acho uma coisa curiosa e nova, agora que cansei de copiar fotos. Ficou interessante, mas eu imaginava ainda mais tinta, ainda mais peso. Se eu fizer isso, vai demorar meses pra secar. E eu não tenho todo esse tempo.
Esse vestido da Cacilda está virando uma coisa com vida própria. Escolhe sua própria forma e já anda se espalhando pelo ateliê. Borrões de tinta branca são encontrados nos lugares mais improváveis, e às vezes descubro minhas mãos manchadas sem nem mesmo ter chegado perto do quadro. Pelo menos o vestido continua intacto, sem dedadas acidentais (então de onde vem tanta tinta?)...
Longe (mas nem tanto...) do cavalete, na mesa do ateliê, o novo quadro da Cleyde Yaconis fazendo a rainha Elizabeth em Mary Stuart foi começado hoje. Vai ficar uma coisa bem estilo arte "hi hi", pois a imagem será uma enorme cabeça de Elizabeth pensando em uma guilhotina. Tá, eu sei, ela não morreu guilhotinada e nem guilhotinou a Mary Stuart, que morreu decapitada à moda antiga, com um machado. Mas tem um humor com um quê de memento mori no fato de uma cabeça real estar pensando em guilhotinas. Há outro detalhes sobre a tal guilhotina, mas se eu postar por aqui, ele perde a graça...
De resto, resolvi encarar o ateliê com certo ar empresarial e diversificar a produção. Estou com outras coisas menores em andamento e recentemente tenho desenhado um pouco e feito experiências em papel. Não suponho que vá dar em nada digno de exposição, mas ajuda muito a pensar. Além disso, serve de meio para executar aquelas idéias menores, que dariam obras legais mas que eu não tenho saco ou tempo pra executar em telas grandes, caras e logisticamente complicadas, porque eu perderia o interesse em questão de dias. Sem falar que são coisas fora da minha técnica habitual e esse tipo de coisa confunde quem está tentando me levar a sério e sacar o "meu estilo". Comentários, experimentos técnicos, piadinhas sem graça, questões políticas.
Outro projeto menor são quadrinhos pequenos que eu estou desenvolvendo pra dar de presente. Foi uma idéia que me ocorreu outro dia, mas tenho tanto pra falar sobre ela, que é melhor deixar para outro post, outro dia, assim que o primeiro deles sair.
O da Cacilda fazendo a Dama das Camélias entrou em sua looooonga fase final. O vestido branco dela foi feito com grossas camadas de tinta que têm um certo movimento mais tosco de pinceladas. Não dá pra fazer uma coisa fotográficamente perfeita e nem era essa a minha intenção. A idéia era experimentar um pouco mais a pintura gestual, coisa que eu raramente faço porque nunca estou satisfeito com os resultados. Faz parte daquela coisa de abandonar um pouco a foto e "colocar um pouco mais de mim na pintura". Acho uma coisa curiosa e nova, agora que cansei de copiar fotos. Ficou interessante, mas eu imaginava ainda mais tinta, ainda mais peso. Se eu fizer isso, vai demorar meses pra secar. E eu não tenho todo esse tempo.
Esse vestido da Cacilda está virando uma coisa com vida própria. Escolhe sua própria forma e já anda se espalhando pelo ateliê. Borrões de tinta branca são encontrados nos lugares mais improváveis, e às vezes descubro minhas mãos manchadas sem nem mesmo ter chegado perto do quadro. Pelo menos o vestido continua intacto, sem dedadas acidentais (então de onde vem tanta tinta?)...
Longe (mas nem tanto...) do cavalete, na mesa do ateliê, o novo quadro da Cleyde Yaconis fazendo a rainha Elizabeth em Mary Stuart foi começado hoje. Vai ficar uma coisa bem estilo arte "hi hi", pois a imagem será uma enorme cabeça de Elizabeth pensando em uma guilhotina. Tá, eu sei, ela não morreu guilhotinada e nem guilhotinou a Mary Stuart, que morreu decapitada à moda antiga, com um machado. Mas tem um humor com um quê de memento mori no fato de uma cabeça real estar pensando em guilhotinas. Há outro detalhes sobre a tal guilhotina, mas se eu postar por aqui, ele perde a graça...
De resto, resolvi encarar o ateliê com certo ar empresarial e diversificar a produção. Estou com outras coisas menores em andamento e recentemente tenho desenhado um pouco e feito experiências em papel. Não suponho que vá dar em nada digno de exposição, mas ajuda muito a pensar. Além disso, serve de meio para executar aquelas idéias menores, que dariam obras legais mas que eu não tenho saco ou tempo pra executar em telas grandes, caras e logisticamente complicadas, porque eu perderia o interesse em questão de dias. Sem falar que são coisas fora da minha técnica habitual e esse tipo de coisa confunde quem está tentando me levar a sério e sacar o "meu estilo". Comentários, experimentos técnicos, piadinhas sem graça, questões políticas.
Outro projeto menor são quadrinhos pequenos que eu estou desenvolvendo pra dar de presente. Foi uma idéia que me ocorreu outro dia, mas tenho tanto pra falar sobre ela, que é melhor deixar para outro post, outro dia, assim que o primeiro deles sair.
terça-feira, fevereiro 23, 2010
Batendo a cabeça na parede
Parece-me um pouco mais difícil, nesta nova vida, lidar com as frustrações. Antes, enquanto eu estava vivendo naquela espécie de letargia da minha carreira na publicidade, eu conseguia de fato ignorar os insucessos. Nunca receber a ligação daquela agência famosa para a qual eu mandei o currículo, não ganhar aquela concorrência que me fez trabalhar no sábado sem ganhar nada por isso, levar dois anos pra ser promovido... Nada disso tinha muita influência no meu ânimo já apático.
Mas aí veio o acordar e eu fiz tudo isso e mudei de vida. E agora, acordado, já não consigo mais ignorar as falhas.
Chegaram os resultados dos dois salões para os quais eu me inscrevi. São salões importantes, relevantes no cenário das artes. Um deles, do Centro Cultural São Paulo, tinha tudo pra dar certo: eles têm os direitos autorais das fotos do Fredi Kleeman que eu estou usando para fazer a série do TBC. Imaginei que eles adorariam fazer uma exposição com o meu material. Seria bom para mostrar o acervo deles, para aproveitar o momento atual de memória do teatro brasileiro, e de quebra seria ótimo para mim. Todo mundo sai ganhando. Mas eles recusaram o pré-projeto. O golpe mais doloroso é que a comissão julgadora tinha entre seus membros a Dora Longo Bahia, minha ex-orientadora. E mesmo com tudo isso, não deu certo.
Eu sei, eu sei. Ainda é muito cedo. Não dá pra esperar que eu seja vitorioso na primeira tentativa. A carreira de arte é uma coisa masoquista, e você precisa insistir muito e vencer pela insistência até algo dar certo. Lembro de minha mãe fazendo um paralelo entre isso e a carreira de cientista. Algo sobre como era necessário mandar o projeto científico para trezentas revistas e ser recusado em todas elas. E fazer isso várias vezes até alguém aceitar. Eu sei que é parte do meu caminho também fazer isso. Mais do que nunca, eu queria ter a possibilidade daquela apatia que eu tinha antes em relação à carreira. "Tudo bem, esquece e toca em frente". Mas agora que eu estou prestando mais atenção na vida e tudo é mais real e importante, isso fica cada vez mais difícil.
Tudo bem... esquece... e toca em frente.
Mas aí veio o acordar e eu fiz tudo isso e mudei de vida. E agora, acordado, já não consigo mais ignorar as falhas.
Chegaram os resultados dos dois salões para os quais eu me inscrevi. São salões importantes, relevantes no cenário das artes. Um deles, do Centro Cultural São Paulo, tinha tudo pra dar certo: eles têm os direitos autorais das fotos do Fredi Kleeman que eu estou usando para fazer a série do TBC. Imaginei que eles adorariam fazer uma exposição com o meu material. Seria bom para mostrar o acervo deles, para aproveitar o momento atual de memória do teatro brasileiro, e de quebra seria ótimo para mim. Todo mundo sai ganhando. Mas eles recusaram o pré-projeto. O golpe mais doloroso é que a comissão julgadora tinha entre seus membros a Dora Longo Bahia, minha ex-orientadora. E mesmo com tudo isso, não deu certo.
Eu sei, eu sei. Ainda é muito cedo. Não dá pra esperar que eu seja vitorioso na primeira tentativa. A carreira de arte é uma coisa masoquista, e você precisa insistir muito e vencer pela insistência até algo dar certo. Lembro de minha mãe fazendo um paralelo entre isso e a carreira de cientista. Algo sobre como era necessário mandar o projeto científico para trezentas revistas e ser recusado em todas elas. E fazer isso várias vezes até alguém aceitar. Eu sei que é parte do meu caminho também fazer isso. Mais do que nunca, eu queria ter a possibilidade daquela apatia que eu tinha antes em relação à carreira. "Tudo bem, esquece e toca em frente". Mas agora que eu estou prestando mais atenção na vida e tudo é mais real e importante, isso fica cada vez mais difícil.
Tudo bem... esquece... e toca em frente.
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
O Linguista
Assistindo Fringe ontem, minha mãe perguntou:
-"De onde é o Walter? Você que é o linguista sabe de onde é o sotaque dele?"-
O linguista, conhecedor de línguas. Dependendo da situação, mamãe também me chama de "o esteta", conhecedor de estética (geralmente para decidir a cor do estofado do sofá ou de uma parede...). Ela sempre teve esse jeito de proferir elogios com palavras sofisticadas. Gosto muito.
Walter não me pareceu ter um sotaque específico, apenas um inglês americano, muito velho e polido. Mas o elogio me fez pensar em como a vida profissional mudou em seis meses. Não, ainda não estou ganhando a vida como artista plástico, apesar do esforço. Esse caminho é longo e difícil, mas estou empreendendo a jornada com prazer. Não, hoje em dia, ganho a vida com meu conhecimento de idiomas e um interesse profundo por línguas. Parece propaganda, mas é verdade. Muita gente não dá muita bola para o aprendizado do inglês ou do espanhol. Mas ele pode mudar sua vida e ajudar sensivelmente. Hoje tenho minhas manhãs (e alguns horários das tardes) totalmente tomadas por aulas de inglês. O pagamento é bom, chegando próximo ao que eu recebia na agência, e ainda tenho a vantagem de estar em movimento pela cidade, vendo o dia-a-dia acontecer, e de ter o resto do dia para gastar com a minha arte e cursos. Não dá pra ficar assim pra sempre, mas é muito gostoso enquanto dura.
Mas o idioma não traz apenas aulas. Há duas semanas consegui um bico muito rentável através do Lala's, que me passou um trabalho de transcrição para pesquisa de mercado. Soa esquisito, mas é simples pra quem entende bem inglês e escreve rápido. Além disso, não tem horário fixo e eu posso fazer um pouco por dia, na hora que eu quiser.
Meus dias já têm uma outra mentalidade. O inglês já não é mais uma habilidade exibicionista largada no canto, mas uma realidade diária. E as divagações sobre origens de palavras e regras de gramática tomam o tempo da volta pra casa.
[Hoje mesmo estava divagando sobre "acquaintance", um conhecido que não é ainda um amigo; e a semelhança com "quaint", algo peculiar e diferente, porém agradável. "To get acquainted" seria então tornar a nova pessoa peculiar e agradável? Ou o "a" no começo tem aquele valor de negação, tornando a pessoa conhecida?]
-"De onde é o Walter? Você que é o linguista sabe de onde é o sotaque dele?"-
O linguista, conhecedor de línguas. Dependendo da situação, mamãe também me chama de "o esteta", conhecedor de estética (geralmente para decidir a cor do estofado do sofá ou de uma parede...). Ela sempre teve esse jeito de proferir elogios com palavras sofisticadas. Gosto muito.
Walter não me pareceu ter um sotaque específico, apenas um inglês americano, muito velho e polido. Mas o elogio me fez pensar em como a vida profissional mudou em seis meses. Não, ainda não estou ganhando a vida como artista plástico, apesar do esforço. Esse caminho é longo e difícil, mas estou empreendendo a jornada com prazer. Não, hoje em dia, ganho a vida com meu conhecimento de idiomas e um interesse profundo por línguas. Parece propaganda, mas é verdade. Muita gente não dá muita bola para o aprendizado do inglês ou do espanhol. Mas ele pode mudar sua vida e ajudar sensivelmente. Hoje tenho minhas manhãs (e alguns horários das tardes) totalmente tomadas por aulas de inglês. O pagamento é bom, chegando próximo ao que eu recebia na agência, e ainda tenho a vantagem de estar em movimento pela cidade, vendo o dia-a-dia acontecer, e de ter o resto do dia para gastar com a minha arte e cursos. Não dá pra ficar assim pra sempre, mas é muito gostoso enquanto dura.
Mas o idioma não traz apenas aulas. Há duas semanas consegui um bico muito rentável através do Lala's, que me passou um trabalho de transcrição para pesquisa de mercado. Soa esquisito, mas é simples pra quem entende bem inglês e escreve rápido. Além disso, não tem horário fixo e eu posso fazer um pouco por dia, na hora que eu quiser.
Meus dias já têm uma outra mentalidade. O inglês já não é mais uma habilidade exibicionista largada no canto, mas uma realidade diária. E as divagações sobre origens de palavras e regras de gramática tomam o tempo da volta pra casa.
[Hoje mesmo estava divagando sobre "acquaintance", um conhecido que não é ainda um amigo; e a semelhança com "quaint", algo peculiar e diferente, porém agradável. "To get acquainted" seria então tornar a nova pessoa peculiar e agradável? Ou o "a" no começo tem aquele valor de negação, tornando a pessoa conhecida?]
terça-feira, fevereiro 02, 2010
Primeiro Grafite
Curioso: há algumas semanas, respondi uma pergunta do meu formspring dizendo que qualquer tentativa que eu fizesse de trabalhar com grafite resultaria em algo muito tosco, já que nunca havia sequer pegado em uma lata de spray. Dias depois, tive o almoço no MASP com minha mãe, onde conversamos sobre minha técnica de pintura e a necessidade de soltar mais o traço e depender menos das fotos. A exposição da ocasião era sobre grafite em São Paulo e percebi que eu já conhecia muitos dos nomes e respeitava o trabalho. Só isso já era uma grande mudança da minha atitude em relação ao grafite na faculdade.
No fim de semana passado, fiz a última aula do workshop de grafite ministrado por Loro Verz na Escola São Paulo. Depois de dois encontros onde vimos um monte de técnicas que eu já tinha visto por aí, mas nunca considerei usar, finalmente foi a hora de sair pra grafitar de verdade. Tivemos uma primeira tentativa frustrada na Consolação, onde fomos abordados por um segurança, mas depois encontramos nosso lugar na esquina da Brasil com a Gabriel Monteiro da Silva, em uma construção abandonada cercada por tapumes de madeira.
E foi lá que nasci como garfiteiro:

Nota rápida sobre a imagem.
A Manshackle era um objeto que eu queria fazer, mas acabei achando que daria um bom grafite. Não vou entrar em detalhes, mas aborda aquela questão masculista do uso de sexo como mecanismo para controlar homens. Ainda acho que é uma idéia muito direta, talvez simplória demais, mas de fato rendeu um bom grafite e muita risada no dia. Há mais fotos no Flickr pessoal.
A experiência com o grafite foi muito gratificante. Como eu falei, ela consolidou minha mudança de atitude em relação à prática. O mais importante foi que me fez considerar outras opções mais contemporâneas para a pintura além do tradicional e obsoleto óleo sobre tela. Percebi que o grafite é mais rápido. Tem que ser, por ser feito na rua, em um único dia. Não se pode fazer grafite em um mês como no caso da pintura de cavalete. Amanhã, talvez todo seu trabalho já tenha desaparecido. E isso leva a duas outras considerações: primeiro que é preciso exercitar o desapego em relação à obra, já que podem pintar por cima dela ("atropelar", no jargão do meio) a qualquer hora; mas também que a pintura de grafite tende a ser muito mais gestual. Não há tempo para rascunhos a lápis, esboços, medidas. Deve-se incorporar os erros: fazem parte do processo. Não gostou? Faça outro. Via de regra, as pessoas identificam mais a personalidade do pintor pelo que é gestual. Por isso que um crítico de arte, ao ver meus retratos na época da faculdade, comentou que "há muito pouco de você nelas". Talvez o grafite me ajude a descobrir um pouco mais do gestual e da minha própria identidade como pintor.
Mas para quem ainda resiste ao gestual, o workshop do Loro trouxe outros métodos mais adequados a pessoas meticulosas e pacientes. Gostei bastante do stencil e aproveitei a aula pra fazer um exercício com o meu logo do leão, que suponho passará a "assinar" o verso das minhas telas. Outras técnicas legais incluem o sticker, o canetão e o rolo com tinta acrílica para áreas grandes. Tudo isso pra fazer uma variedade de coisas: grafite tradicional, pixo, grapixo, bomb, tag, etc.
Mas claro, nem tudo é essa maravilha. Então vamos a algumas considerações ruins a respeito da experiência toda.
A tinta spray é um adesivo misturado com pigmento e borrifado de uma lata pressurizada. Isso garante que, a cada borrifada, um jato de partículas vai direto onde você quer, e muita coisa fica em suspensão no ar. E pode cair em qualquer lugar. Quem tem o braço peludo sente isso on ar... Aquela coisa pegajosa. Nojinhos aparte, fiz um experimento no ateliê e percebi algum tempo depois que essas partículas estavam por todo o chão, visíveis apenas quando eu pisava nelas. Meu ateliê ficou repleto de pegadas pretas. E olha que o teste foi curto.
Mas o mais perigoso é considerar o que pode acontecer com você, grafiteiro. Afinal, se essas particulas estão no ar, grudam com o adesivo em qualquer coisa e você não pode ficar muito tempo sem respirar, imagine o estrago que isso deve fazer aos pulmões. Compre uma máscara. É mais que necessário: é obrigatório.
Além da saúde, o grafite ainda tem questões sociais. Andar na rua com mochilas que fazem aquele característico som do balançar da lata de spray atrai olhares depreciativos. Me senti medido de cima a baixo pelos mais velhos. A questão dos grafiteiros nesta cidade é um pouco como a questão dos homossexuais: todo mundo diz que começa a respeitar, que não faria mas acha legal, mas no fim das contas ainda rola muito preconceito e bastante nojo.
No fim de semana passado, fiz a última aula do workshop de grafite ministrado por Loro Verz na Escola São Paulo. Depois de dois encontros onde vimos um monte de técnicas que eu já tinha visto por aí, mas nunca considerei usar, finalmente foi a hora de sair pra grafitar de verdade. Tivemos uma primeira tentativa frustrada na Consolação, onde fomos abordados por um segurança, mas depois encontramos nosso lugar na esquina da Brasil com a Gabriel Monteiro da Silva, em uma construção abandonada cercada por tapumes de madeira.

Nota rápida sobre a imagem.
A Manshackle era um objeto que eu queria fazer, mas acabei achando que daria um bom grafite. Não vou entrar em detalhes, mas aborda aquela questão masculista do uso de sexo como mecanismo para controlar homens. Ainda acho que é uma idéia muito direta, talvez simplória demais, mas de fato rendeu um bom grafite e muita risada no dia. Há mais fotos no Flickr pessoal.
A experiência com o grafite foi muito gratificante. Como eu falei, ela consolidou minha mudança de atitude em relação à prática. O mais importante foi que me fez considerar outras opções mais contemporâneas para a pintura além do tradicional e obsoleto óleo sobre tela. Percebi que o grafite é mais rápido. Tem que ser, por ser feito na rua, em um único dia. Não se pode fazer grafite em um mês como no caso da pintura de cavalete. Amanhã, talvez todo seu trabalho já tenha desaparecido. E isso leva a duas outras considerações: primeiro que é preciso exercitar o desapego em relação à obra, já que podem pintar por cima dela ("atropelar", no jargão do meio) a qualquer hora; mas também que a pintura de grafite tende a ser muito mais gestual. Não há tempo para rascunhos a lápis, esboços, medidas. Deve-se incorporar os erros: fazem parte do processo. Não gostou? Faça outro. Via de regra, as pessoas identificam mais a personalidade do pintor pelo que é gestual. Por isso que um crítico de arte, ao ver meus retratos na época da faculdade, comentou que "há muito pouco de você nelas". Talvez o grafite me ajude a descobrir um pouco mais do gestual e da minha própria identidade como pintor.
Mas para quem ainda resiste ao gestual, o workshop do Loro trouxe outros métodos mais adequados a pessoas meticulosas e pacientes. Gostei bastante do stencil e aproveitei a aula pra fazer um exercício com o meu logo do leão, que suponho passará a "assinar" o verso das minhas telas. Outras técnicas legais incluem o sticker, o canetão e o rolo com tinta acrílica para áreas grandes. Tudo isso pra fazer uma variedade de coisas: grafite tradicional, pixo, grapixo, bomb, tag, etc.
Mas claro, nem tudo é essa maravilha. Então vamos a algumas considerações ruins a respeito da experiência toda.
A tinta spray é um adesivo misturado com pigmento e borrifado de uma lata pressurizada. Isso garante que, a cada borrifada, um jato de partículas vai direto onde você quer, e muita coisa fica em suspensão no ar. E pode cair em qualquer lugar. Quem tem o braço peludo sente isso on ar... Aquela coisa pegajosa. Nojinhos aparte, fiz um experimento no ateliê e percebi algum tempo depois que essas partículas estavam por todo o chão, visíveis apenas quando eu pisava nelas. Meu ateliê ficou repleto de pegadas pretas. E olha que o teste foi curto.
Mas o mais perigoso é considerar o que pode acontecer com você, grafiteiro. Afinal, se essas particulas estão no ar, grudam com o adesivo em qualquer coisa e você não pode ficar muito tempo sem respirar, imagine o estrago que isso deve fazer aos pulmões. Compre uma máscara. É mais que necessário: é obrigatório.
Além da saúde, o grafite ainda tem questões sociais. Andar na rua com mochilas que fazem aquele característico som do balançar da lata de spray atrai olhares depreciativos. Me senti medido de cima a baixo pelos mais velhos. A questão dos grafiteiros nesta cidade é um pouco como a questão dos homossexuais: todo mundo diz que começa a respeitar, que não faria mas acha legal, mas no fim das contas ainda rola muito preconceito e bastante nojo.
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