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segunda-feira, março 24, 2014

Equipe do Mural - Semana 1

Vou tentar resumir a história até o momento, aproveitando que estamos ainda no começo. 

Desde que cheguei para dar aulas no Colégio, uma das coisas que me chamou a atenção foi que a professora de Artes que dava aulas antes de mim tinha conseguido um verdadeiro milagre: havia agora trabalhos de arte dos alunos espalhados por algumas paredes do Colégio. O milagre se dava pelo fato de que o arquiteto responsável pela identidade visual do Colégio era radicalmente contra qualquer desses tipos de "interferências", zelando sempre por paredes ou imaculadamente cinzas de concreto, ou com tijolo aparente, que de fato haviam se tornado a marca registrada da instituição. No meu primeiro ano, eu convivi com um enorme mural no pátio, que era uma mistura de referências da história da arte, da Mona Lisa, ao Abaporu. Só que durante as reformas das férias deste ano, devido à colocação de novos aparelhos de ar condicionado, o mural foi danificado, e alguém ordenou que fosse pintado por cima. Fiquei feliz com a reação dos coordenadores, que acharam aquilo um absurdo e prontamente montaram planos para refazer o mural. Eu me candidatei a chefiar a empreitada, que passaria a dar um objetivo para o meu curso de pintura que saíra do Memorial da America Latina no ano passado por causa de uma enchente e um incêndio (sem relação com a minha presença por lá, diga-se de passagem...) e agora estava sendo ministrado no Colégio mesmo. 

Ao contrário do que eu tinha feito no ano passado, anunciei o curso para pessoas que já tivessem alguma experiência de pintura, para montar uma equipe que não precisasse começar do zero em suas noções de cores, materiais e etc. 

A nossa primeira reunião trouxe uma colcha de retalhos de jovens artistas. Muita gente que desenhava, uns poucos que pintavam. Retratos, paisagens, esqueletos, modelos de moda... Eu sentia que dava pra trabalhar com estes poucos. Mas apesar de perceber que eles tinham conhecimento técnico, tinha medo de que eles não conseguissem se soltar, falar de assuntos mais pessoais, aqueles verdadeiramente interessantes, que fariam o Colégio perceber o mural, levá-lo a sério. Eu não queria que o mural acabasse sendo uma pinturinha comportada para papai e mamãe verem. 

Afinal, o que eu queria com o mural? Eram vários impulsos que me moviam... 
É claro que eu queria que o mural tivesse referências da história da arte. Não dá pra ignorar o passado, as origens, os grandes mestres. Mas fazer só isso seria um desperdício de espaço, esforço e esperteza. 
Um outro professor do Colégio tinha recentemente feito uma turma de fotografia extra-curricular, onde ele conseguira explorar com os alunos as opiniões que eles tinham de adolescência. Eles tinham expressado toda a dor, as ansiedades e as dúvidas dessa idade. Eu queria que o mural fosse mais assim. Que ele não exaltasse o Colégio por obrigação, mas também reconhecesse que tinha muita coisa aqui que fazia a adolescência valer a pena. 
Também queria que ele servisse como um chamado para atacar uma mentalidade vigente no Colégio desde a época em que eu era aluno, e que considerava arte uma futilidade. E quem era interessado por arte um diletante estúpido, ou pior, um CDF. Eu queria que o mural desse status a quem faz arte mesmo. A quem sente, a quem presta atenção nas coisas, a quem põe a mão na massa e entende de estética, design. 

E nesse último quesito, fiquei muito feliz quando algumas outras pessoas apareceram no segundo encontro. Eram alunos do segundo ano, algumas que tinham participado do curso de pintura do ano passado. Muita gente com ares de grafiteiros, de gente descolada, ou daquele jeito que na minha época era chamado de gótico, passou a ser emo e hoje era chamado às vezes de hipster. Eles eram desprezado em alguns círculos por serem diferentões, mas eram a turminha popular de outros círculos. Eu gostava bastante dessa gente porque eles experimentavam a vida. Roupas diferentes, novos jeitos de se comportar, de se querer, e principalmente de fazer. Eles não tinham medo. Se ficasse ruim, jogavam fora e começavam de novo. 

Eu ainda não vou dar nome aos bois (e vacas, sem intenção pejorativa...). Ainda é cedo, e eu suponho que muitos desse grupo ainda vão desistir e outros ainda vão entrar. Mas basta dizer que eu acho que temos uma mistura MUITO saudável de todo tipo de gente que o Colégio tem. Tipo um Breakfast Club do Colégio. São pessoas estranhas, e é isso que eu gosto em todos eles. 

No nosso primeiro encontro de trabalho mesmo, eu mostrei a eles como fazer transferência com thinner e fizemos novas edições de dois dos meus Phallics de Londres. Depois propus a eles para criarmos algum espaço para podermos falar anonimamente sobre tudo. Uma das meninas propôs uma conta de e-mail. Todo mundo tem a senha e pode mandar mensagens aos integrantes do grupo por esse e-mail. Ninguém sabe quem mandou. Acho que vai ser bom para desinibir essa turma. Se pudermos quebrar a barreira da timidez e do medo da reação dos outros, acho que esse grupo vai ter ótimas perspectivas.   

Miopia seletiva

Eu percebi o problema pela primeira vez durante o meu segundo ano de aulas no Colégio, em uma aula sobre proporção humana. Além de ter todo o esquema de proporções do corpo (as 7 cabeças e tal) projetado na frente da sala, tinha feito outros rabiscos e desenhado outro corpo ao lado da projeção. No que, até então, era uma imagem corriqueira das minhas aulas, eu estava passando por entre as mesas, respondendo a chamados de alunos que queriam saber apenas uma coisa: "Psor, tá certo?" Eu ia respondendo com toda sinceridade, sim, não, quase lá, tá errado aqui e ali. Mas em uma turma particularmente barulhenta, me vi sobrecarregado de alunos pedindo minha atenção por essa pergunta tão simples. E aí me bateu: por que é que eles perguntam, se a resposta está diretamente na frente deles? Passei a responder de uma forma até um pouco mais grossa, dizendo "largue o lápis, olhe para a lousa".
"Mas psor, me diz você se está certo!"
"Largue o lápis, olhe para a lousa".
Os alunos demoravam algumas repetições até fazer o que eu estava pedindo. Depois eu perguntava: "está parecido com o seu caderno ali no pescoço da figura?"
"Mas psor...."
"Está parecido com o seu caderno?" eu insistia.
"Não mas..."
"Então não está certo, né?"
O aluno reagia não como se fosse contrariado, mas como se levantar a cabeça e olhar para o que estava sendo colocado diante deles fosse uma tarefa árdua, pensar na informações fosse exaustivo. Ter o rápido sim ou não do professor era muito mais confortável.

Essa aparente miopia dos alunos, que incapacitava por vezes até os que se sentavam à frente de enxergar as respostas dispostas diante dos olhos deles, ganhou ares de seletividade mais adiante, no final daquele ano. Na última aula de um 9º ano, que jamais teria aula comigo de novo, eu me dei por vencido diante de uma classe totalmente descontrolada, que não respondia a pedidos de silêncio nem ao silêncio do professor, mas continuava me rodeando em volta da minha mesa, pedindo orientação sobre o que estudar para a prova. O problema ali era que todos os que me rodeavam estavam essencialmente perguntando a mesma coisa, mas todos queriam uma resposta tête-a-tête, única, para aquele indivíduo.
Vencido, eu abri um Word projetado na lousa e passei a escrever as orientações para a prova. A quem me perguntava, eu respondia lacônico: "na lousa..." e voltava a escrever. A balbúrdia não cessou, mas os alunos passaram a ler, todos juntos, às mensagens que eu projetava, voltando depois à mesa para fazer mais perguntas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi quando, entre os alunos lá na frente, eu vi alguns deles tirando seus iPhones para fotografar a tela. Mudei de fonte de letra, e passei a escrever:

[perceberam como ninguém dá a mínima para o que eu falar, mas se eu escrever, todo mundo lê e ainda fotografa? Entendamos assim: contato direto não funciona, vocês precisam ler depois uma foto do que eu ia dizer agora. São três graus de separação: fala - escrita - foto. Quanto mais separado eu estiver de vocês, mas atenção eu terei?]

A ideia parecia familiar. Me lembrava daquela outra cena comum das aulas, quando algum dos alunos perguntava: "Psor, isso tá no site do Colégio?". E a partir do momento em que eu respondia afirmativamente, aquele aluno ia perder qualquer atenção na aula e passar a jogar em seu iPad, crente de que poderia ter o mesmo efeito assistindo à aula ou pegando os arquivos do site. Ninguém mais escrevia nada. Quando muito, fotografavam uma tela projetada lá na frente. A foto, claro, jamais seria vista por eles.

Hoje aconteceu a cena mais recente dessas. Ultrajado porque ninguém lhe disse que os sketchbooks valeriam nota, um aluno do 8º ano me confrontou, dizendo que essa informação não estava no site do Colégio. Aproveitava ainda para confrontar as datas erradas que eu tinha colocado no site sobre a entrega de um exercício fotográfico. Incrédulo, eu só pude questionar se a minha presença lá na frente ainda valia alguma coisa. Eu tinha avisado sobre o valor dos sketchbooks na primeira aula do ano, e anotado no canto da lousa, como de praxe para qualquer lição de casa, a data da entrega do exercício. Mas de nada importava, o site do Colégio ditava as regras. Era ao site que eles respondiam. O site era tudo. Eu, ali na frente, era uma distração barulhenta, incompreensível como os professores do Charlie Brown. Comentei com a classe, que eu conseguira miraculosamente acalmar, que do jeito que as coisas estavam, o Colégio poderia disponibilizar aulas no site, e ninguém precisava estar lá. Alunos pesquisariam em casa, professores só viriam ao Colégio para administrar provas.

E por mais que, no fundo da cabeça de qualquer um, essa possibilidade parecesse tentadora, havia uma falha desumana nesse tipo de raciocínio, e ela tinha absolutamente tudo a ver com a minha matéria. Eu viera a compreender ao final do meu segundo ano de aulas, que o que eu deveria estar ensinando a estes alunos não era a história do surgimento da fotografia, ou que misturando cores primárias nós chegamos às secundárias. Não era a sucessão de movimentos de arte ou o jeito "certo" de fazer um roteiro de filme. Eles precisavam aprender uma coisa ainda mais básica. Uma coisa que eles estavam perdendo com o avanço tecnológico. Uma coisa que eles talvez só fossem perceber muito depois de se formarem da faculdade, quando a vida perdesse o sentido e parecesse fria demais. Eles precisavam aprender a ver.

Eles precisam aprender a ver em vez de apenas enxergar. A ouvir em vez de apenas escutar. Sentir em vez de só tocar (continuo achando o touchscreen a maior ironia desta época...). No âmbito da Lexy, ela diria ainda em saborear em vez de apenas experimentar. Era uma questão de percepção. Estes alunos estavam com a percepção tão embotada, tão atrofiada, tão esquecida, que haviam desenvolvido esse tipo de miopia seletiva, de visão meramente funcional, que só servia para navegar o ambiente sem bater nas mesas. Porque nem para ler servia direito. Para isso, tinha algum professor que lia por eles. As respostas estavam diante deles, assim como aquele desenho de proporção estivera, e eles não conseguiam VER!!

E naquele momento de compreender isso, eu tive raiva. Deles, dos pais deles, dos iPads e iPhones deles, de toda essa situação. De mim, por toda a impotência diante do valor cada vez mais questionável que eu tinha como professor. E a questão não era que eu achasse que seria substituído pela internet e aparelhos de mão. A questão é que estas coisas jamais ensinariam a estes alunos sobre percepção. Elas eram necessárias hoje, faziam parte da realidade deles. Mas valiam à pena se o preço a pagar era o esvaziamento dos sentidos?

Com toda a raiva, eu ao menos havia entendido a importância que os professores tinham, e que parecia cada vez mais indiscutível, na era da informática.

sexta-feira, maio 10, 2013

Back in the Bubble

There was a strong and somewhat negative change in me after I began teaching at my former highschool. The fact is that teaching there became a sort of guideline to my existence, my routine and my interests. I was now teaching 11 to 16-year-olds from wealthy families about art, at a school that favored practical thinking. This, in a way, limited my openness exclusively to what I felt was relevant to this scenario. No time, energy or interest in anything else.

I felt hugely comfortable teaching them about the inner workings of photo cameras or the language of cinema, the practical tricks to improving their drawing and the basics of color theory. It was the practical side of art, something that wasn't so vulnerable to being written off as a useless waste of time, because it was tangible knowledge, that could be put to some use by students who had good access to high culture (though whether they chose to make the most of that access or indulge in lower, more futile, but equally usable pop references remained up to them...). This became the direction towards which I was driving all my being.
At some point, I noticed I was inherently different from the other teachers-in-training I was studying with. They were simple people from all walks of life, who had decided to provide children with some artistic experience. But they seemed conformed with ending up as underpaid teachers in public schools, as if the idea of striving for a well-paid job at a private school was an impossibility and I had somehow struck gold with the job I currently had.
It felt to me as well that they had some sort of skewed idea that the poor, the uncultured, the underdogs were the ones who would make the most of what they could offer, as if the wealthy were too priviledged and spoilt to deserve or even need these lessons and they would magically "happen" in their heads with no external help needed.
Furthermore, it bored me to notice that the approach these future teachers favored consisted of a slew of random and patronizing crafting exercises - making paper maché dolls, making stamps out of corks or potatoes, that sort of thing - that resulted in "cute" works from students who were completely clueless as to why they were doing this. The art class was an exercise in futility and students eventually degenerated into treating the class a a second break and the teacher as an idiot (with good reason too, since the class felt like the teacher was treating them as idiots...). I heard gruesome stories of disgruntled and bored public school students physically assaulting teachers -  such was the degree of disrespect. Granted that these exercises did develop students' dexterity and their cognitive abilities, but I was sure that could be done while at the same time teaching them actual conscious skills they could consciously use and facts they could assimilate, rather than one-off parlor tricks. I was expecting to be treated with respect, even if my class wasn't an integral part of the university admission exams. In order to have that, I had to give the students something tangible as well.

But all of this meant I was also becoming somewhat more narrow-minded. I had been to the public schools as part of teacher trainning. I had seen first hand how most of these humbler students were lacking in the basic formation needed to comprehend some of the more complex concepts. How most of them didn't even care. How the schools themselves were unwilling to invest what was needed for a decent art course because they didn't see it as something a future low-class worker would need. Gradually, I myself began to buy into the notion that improving an art course at a public school was a waste of time. I came close to believing that art was indeed irrelevant to these students (other than what they needed to carry out the manufacture of carnival floats and costumes, an industry that kept many of them out of misery). Bottom line: I shut myself off from the outer world, remaining inside this upper-class bubble.

I recognize this enormous prejudice as a way "the System" has of reproducing itself. Still, I see no way of escaping this at present. The teacher trainning classes, my classes, the painting classes on Wednesdays, everything is taking up so much time that there is no way to include volunteering for lower-class schools right now. Perhaps in the future.

And even then, I'll first have to be convinced I can actually make a difference in such children's lives.

segunda-feira, abril 22, 2013

Crônicas de Professor

Terminou então o primeiro bimestre do novo ano como professor de artes. Eu juro que queria muito ter a paciência e a disciplina que eu tinha antes para postar por aqui. Porque este processo que aconteceu durante o ano passado foi MUITO interessante e com certeza tem muito para ser aprendido. Mas em primeiro lugar, a vida tem sido tão intensa de um jeito tão gostoso, que não tenho tido vontade e nem tempo hábil para aquele ritual todo de escrever no blog. Porque é um ritual mesmo: você precisa acalmar, sair do ritmo que se leva nesta cidade, transcender para um estado mais plácido. Só assim dá pra chegar em um texto que não seja tão caótico e que de fato comunique sentimentos com clareza. Em segundo lugar, como já venho mencionando a cada post por aqui, eu fui perdendo o ímpeto de escrever por aqui devido a muito do que se passou no ano passado. Ainda estou tentando superar isso no que diz respeito aos objetivos deste blog.

O pior de tudo é que, quanto mais tempo passa, mais distante eu fico de conseguir estabelecer uma sensação de continuidade em relação ao que eu vou aprendendo paulatinamente como professor. Eu poderia citar aqui o que aconteceu ontem ou na semana passada, mas tudo teria alguma ligação com eventos anteriores, e sem essas ligações, tudo parece uma coleção de fatos desconexos.

De qualquer jeito, resolvi que tentar desembaraçar este nó seria impossível e que o melhor que eu teria a fazer seria de fato começar a registrar esses eventos desconexos para não perder o passo, e ir explicando o que precisar ser explicado. Ou nem explicar e assumir logo que eu estou escrevendo isso para mim mesmo. Sei lá.

Viu? Já não estou fazendo muito sentido...

Mas vamos lá, vou colocar alguns acontecimentos pontuais que vão me ocorrendo, sem cronologia, em bullet-points mesmo, e vocês que selecionem o que for relevante.

• Na época de avaliações do terceiro bimestre do ano passado, um aluno muito promissor me fez a pergunta, de forma muito respeitosa: "Psor, por que é que nós temos que provar que sabemos [nas avaliações], se estamos pagando para aprender?". Eu achei a pergunta interessante. Mais do que isso, sendo esse aluno e do modo como ele me abordou, ficou bem claro que era uma dúvida genuína e não uma daquelas perguntas maliciosas que os alunos mais arruaceiros fazem para desestabilizar a aula. Fiquei ainda mais impressionado com a rapidez com a qual a resposta surgiu na minha cabeça: "É que os pais de vocês estão pagando para que nós ensinemos a vocês sim. Essa parte nós garantimos. Porém se vocês estão de fato aprendendo e prestando atenção é algo que nós não podemos garantir. Para isso rolam as avaliações: para termos certeza de que vocês estão aproveitando. E não estão distraídos jogando joguinhos no iPad...". Eu até esperei algum retorno malicioso. Mas o aluno fez aquela cara de "ah, é!" e pareceu ter entendido alguma coisa fabulosamente interessante.

• Todo começo de ano, em Janeiro, os professores se reunem na Semana dos Professores. É um evento bem elaborado, cheio de requintes, encontros em salas de reuniões de hotéis, exercícios motivacionais, palestras de atualização, encontros de disciplinas com coordenadores e etc. Cada semana tem um tema como base. A deste ano estava lidando com interdisciplinaridade, um termo tão difícil de ser compreendido quanto o pós-moderno. Para falar a respeito, um dos palestrantes foi um filósofo de educação com o qual a equipe de artes tem se encontrado regularmente para moldar o curso. O Bologna era um senhor grande, com uma farta barba branca. Unhas compridas sem nunca ter mencionado qualquer coisa de tocar violão. Frequentemente nos encontrávamos em um instituto que ele tinha, onde quadros seus adornavam as paredes. E ele era um bom pintor.
Na palestra, Bologna contou uma história de quando era jovem e trabalhava como terapeuta. Eu não estou certo de como a história se encaixava dentro do tema de interdisciplinaridade, mas ela me deixou pensando na cena que ele descreveu durante boa parte daquele dia. Porque de alguma forma, ela tocou em algo que eu sentia dando aula de arte em um colégio com uma filosofia tão pragmática. Ele contou que, quando jovem, querendo enfrentar desafios de carreira, ele foi trabalhar em uma instituição para doentes mentais, colocado para trabalhar com aqueles casos mais complicados. Na primeira consulta com um determinado paciente, ele fez a pergunta de praxe: o senhor entende por que foi internado aqui? O paciente respondeu com alguma ansiedade: "Sabe, doutor... um peixe que vive no mar toma conhecimento de muitas coisas. Ele vê os outros peixes, ele vê a areia, vê as algas. Mas doutor, o peixe que vive no mar não vê a água! Eu estou aqui porque eu vejo a água!".

• Eu fiquei interessado no caso da aluno da outra professora de artes, que entrou neste ano. A mãe de Y. morrera quando ela era muito pequena e o pai gradualmente foi saíndo da vida dela até que ela ficou sob os cuidados dos tios. Sofrendo de um problema patológico de auto-estima, sentimentos de abandono e tendências perigosamente suicidas, ela no entanto mostrava um potencial inimaginável de expressão. O tipo de expressão catártica que eu esperava atingir com o grupo de desenho e até agora não conseguira por causa da barreira aluno-professor. Salvo raras excessões, aquelas meninas raramente desenhariam algo chocante de verdade, que botasse pra fora os sentimentos violentos da adolescência. A cada rodada do grupo, crescia nelas a consciência de que eu era um adulto e que elas não deveriam se abrir assim para um adulto, por medo de que eu levasse os desenhos, as expressões e os questionamentos para o grupo de terapeutas do departamento de orientação. Medo de serem taxadas de loucas ou problemáticas. Mal sabiam elas que eu QUERIA que elas se abrissem, e que eu JAMAIS as trairia desse jeito.
Mas Y. era diferente. Tendo passado por tanto na vida, ela estava bem à vontade com a chancela da loucura. Ela a usava com orgulho. Tinha uma única amiga na sua sala, mas andava constantemente com turmas do Ensino Médio, contando-me como este era bissexual assumido e aquele usava um cadeado como pingente no pescoço. Além do caso complicado da vida pessoal dela, chamara-me a atenção o caderno que ela tinha entregado para a avaliação. Desenhos com canetas fosforescentes, letras "fofas". Zero violência. Mas Y. não tinha limites ou bom senso no que falava (característica básica de quem foi levada na base da porrada para além "do que os outros vão pensar"). Em poucos minutos de conversa ela já tinha deixado escapar que não fora ela quem fez o caderno. A única amiga da classe tinha feito isso para ela. E ela tivera o cuidado de arrancar as páginas com seus desenhos porque sabia que eles seriam considerados "inadequados". Parei a conversa. "É por isso mesmo que você devia desenha-los. E deixar eles no caderno". E quando a conversa incluiu o fato curioso dela ter perguntado à outra professora se podia usar sangue ou outros restos humanos no desenho, eu sabia que ela TINHA que fazer parte do grupo de desenho. Ela talvez traria a transgressão que eu não conseguia fazer os outros participantes cometerem. Não que eu fosse incentivar o uso de sangue, mas com certeza dava pra explorar essas e outras ideias sem expor Y. a qualquer perigo.
Na semana de provas, Y. me encontrou debatendo com outros alunos. Ela percebeu o que todos os outros haviam percebido mas tinham pudores em comentar: eu estava de base nas unhas e tinha uma única unha pintada de preto. Ela ficou muito interessada. Em uma conversa anterior, eu havia comentado como eu também era um dos isolados na minha época de colégio, e como frequentemente, por ser sensível e adepto das artes, eu era considerado gay. Ela ficara surpresa: "você NÃO é gay?". As minhas alunas interferiram, com vergonha alheia: claro que não, ele tem uma namorada no Facebook. Mas dava pra ver uma ponta de dúvida nelas agora. Vendo as unhas cuidadas, ela insistia no assunto. "Mas você pinta as unhas". Sem constrangimento ou hesitação, disparei: "Menina que joga bola é lésbica?". Ela pensou por uns segundos antes de se dizer, com ar de vencida: "Não...". Fechei o assunto perguntando: "O que é uma pessoa gay?". "Alguém que gosta do mesmo sexo". "Exato. Hábitos e orientação sexual são duas coisas diferentes". Sem argumentos, ela pareceu olhar para o nada, considerando o que foi dito, em um daqueles momentos de "ahhh!" que indicam uma mudança de conceitos. O momento que professores adoram.
Isso, claro, não significava que ela pararia de me atormentar com o assunto. Pessoas que já foram abusadas pela vida dessa forma têm uma tendência a querer tatear seus limites, provocar, chamar a atenção. Mas no caso dela, eu achava tudo isso muito interessante.

• G. era uma das meninas do grupo de desenho. Na verdade, chama-lo hoje de grupo de desenho seria incorreto, já que o grupo conta com participantes que preferem escrever letras de música, textos curtos, fazer monólogos, e outras possibilidades. Eu aceito qualquer coisa, tentando manter o grupo mais democrático. Mas voltemos ao assunto. A participação de G. no grupo garantia que nosso relacionamento sempre estivesse um passo além daquela coisa distante entre professor e aluna. Conversávamos sobre o depois do colégio, sobre a prática de escrever, sobre os pudores que a instituição de ensino insistia em reforçar (não fale palavrão porque é feio...). E eu, naquela minha ingenuidade, achava que talvez G. estivesse "do meu lado", no sentido de que talvez ela cooperasse com a minha tentativa de ser um professor. Aos poucos, e sem qualquer malícia ou desrespeito proposital, ela foi me mostrando que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Porque G. era desinteressada e preguiçosa. Dizia prestar atenção na minha aula (e só na minha aula, de acordo com ela), mas entregava trabalhos pela metade, sem vontade, sem nem tentar. O ápice da desconexão entre essa nossa amizade e o meu papel de professor se deu em uma das provas do ano passado. Prova de outra matéria, que eu estava fiscalizando. Quase no fim da prova, percebi G. cochichando com a garota atrás dela. Colando? Era como se G. me desafiasse a tomar alguma atitude de professor, daquelas atitudes chatas, enquanto usava a nossa amizade como escudo. Não tive dúvidas e mudei-a de lugar. Mas fiquei o resto da prova fazendo considerações sobre aquela dicotomia de papéis, entre o professor despótico, disciplinador; e o aluno questionador. No fim das contas, era um jogo cruel. O professor precisava fazer da sua matéria e da estrutura disciplinar algo interessante, moderadamente desafiador e constantemente recompensador para o aluno. Caso contrário, este perderia o interesse e consequentemente a disciplina. O aluno, por outro lado, tinha que fingir estar interessado na matéria e cooperando com a disciplina, caso contrário levaria uma punição por não poder domar seu instinto. E na verdade, nem professor e nem aluno estavam de fato achando nada daquela disciplina toda muito relevante e faziam a mesma pergunta: no que se interessa um adolescente do Ensino Fundamental?
[Eu lembro que este texto tinha muitas outras considerações relevantes... É uma pena que tenham sido esquecidas.]

• No meio do ano passado, L. e G. começaram a namorar. Um namoro curto, mas que chamou a atenção de bastante gente. Porque L. e G. tinham seus 12 anos, e não eram da turminha popular. Na verdade, pelo contrário, eram dos retraídos, meio desajeitados, aquela turma que eventualmente acaba virando artista. Ambos eram bem altos e expressivos, embora L. fosse mais espalhafatoso e G. fosse mais do estilo Virginia Wolf. Pensando bem, talvez por isso não tenha durado... Daí o relacionamento acabou - acho que por decisão dela. Sem saber do fato, e amargando alguns abandonos na minha própria vida, recebi de G. no nosso grupo de desenhos o tema "desilusão amorosa", e desenhei uma bota com parte do poema de Yeats, sem me tocar que estava na verdade denunciando a crueldade dela. E na verdade, confirmara o que ela sentia sobre si mesma. Algo sobre o qual suponho talvez conversemos um dia. Em outro canto do colégio, L. amargava sua desilusão amorosa, seus sonhos esmagados pelas botas de G. Havia muito da dor dele que eu entendia. Mas em um dos acantonamentos do colégio ao qual eu fui como professor monitor, percebi que L. estava sendo consolado por M. Ela também era do grupo de desenhos, amiga em comum dos dois. Também muito alta para a idade e muito sensível. Menos Virginia Wolf, e talvez mais... Adriana Calcanhoto? Não sei... É que o modo como eu estou escrevendo já revela toda a intenção do que eu quero dizer: sim, eu estava prevendo algum dia eles perceberem como eles eram grandes amigos, tinha muita coisa em comum, trejeitos, problemas e gostos. E perceberiam a possibilidade de um amor muito diferente, talvez muito mais puro e satisfatório do que qualquer coisa que L. tivera por G. Eu sabia que talvez eles jamais se dessem conta disso e morria de pena da possibilidade. Por outro lado, também sabia que dizer qualquer coisa a respeito para eles seria azedar a experiência. Eu era professor de artes, mas um completo idiota em assuntos do coração. Qualquer interferência seria catastrófica.

• Quatro dos rapazes estavam sentados sobre suas mesas, dois virados de costas pra mim. Em duas das mesas do meio da sala, um moleque com mais gel no cabelo do que deveria ter sobrado no pote se debruçava de tal modo sobre sua colega que qualquer um chamaria aquilo de abuso sexual. Uma outra batia tamborilava o dedo em um joguinho no celular. A porta fora deixada aberta e vi com o canto de olho algum moleque saindo de fininho. Pedi para fecharem a porta e ninguém obedeceu. Dane-se, fui eu mesmo fechar. No meio do caminho, uma patricinha me bloqueou para me informar (não pedir, informar) que estava saindo para ir ao banheiro. A última coisa que me lembro foi algum dos meninos rindo histericamente em algum lugar, como se não estivessem no meio de uma aula. Perdi a cabeça. Olhei fixamente para a patricinha e gritei (coitada...) que ela não sairia e que se sentasse. Tomei ar e bradei a plenos pulmões: "todo mundo senta e cala a boca" (ainda preciso me informar se mandar aluno calar a boca é procedimento kosher em sala de aula...). Alguém diria depois que nunca tinha ouvido eu engrossar a voz daquele jeito. O que se seguiu foi dez minutos de esporro coletivo. Os alunos, em profundo mutismo. De algum lugar, claro, alguém gravava com celular o raro acontecimento.
Eu estava me acostumando a rompantes desse. A pequenos atos de violência com os alunos. O que acontecia era que eles percebiam como eu tinha receios em dar bronca, em excluir da sala, em mandar anotações para os pais e exercer outras atitudes despóticas. Então eles aproveitavam. Não lhes havia sido ensinada em casa qualquer educação por hierarquias superiores, então eles agiam em total barbárie, obedecendo apenas diante de punição. E eu estava ficando farto disso. Já começava a perceber em mim um certo sadismo de querer ter estes rompantes. Uma sessão dessas me garantiria pelo menos umas duas semanas de sossego. Eu precisava aprender. Eu sabia que a minha aula de artes não poderia ter a rigidez de uma aula de matemática, mas também não podia ser este manicômio ("Professor, o que significa 'manicômio'"? "Moleque, procura na Wikipedia, eu não vou te falar" - juro que rolou uma dessas NO MEIO do esporro).

• As aulas de artes não estavam sendo muito bem vistas pelos alunos, embora todo o resto da comunidade do colégio adorasse o que estávamos fazendo. Os alunos, na verdade, achavam tudo aquilo meio irrelevante. Se não era matéria de vestibular, então para que estavam aprendendo? Pra que tinham que perder tempo (de jogo) estudando a origem da fotografia ou técnicas de desenho? A professora anterior tentara doma-los na base da truculência e transformara a experiência de artes em algo completamente intragável mesmo para os interessados. Nós, professores novos, estávamos tentando transforma-la em algo que fosse gratificante, mas ao mesmo tempo levado a sério. E daí caíamos no assunto das provas. Porque o 8o e 9o anos tinham provas teóricas, que de fato nunca seriam gratificantes. Deviam, no entanto, serem levadas a sério.
No primeiro ano, as provas aconteciam na última aula do bimestre, antes da semana de provas oficial. A prova em si, com questões absurdas que exigiam que os alunos decorassem um livro, fora imposta pela professora anterior e causava vários transtornos. Mas o maior deles era que os alunos simplesmente não levavam a prova a sério. Cochichavam, colava, riam, transformavam aquilo em uma algazarra ridícula. Decoravam as páginas do livro sem entender o que memorizavam, para depois esquecer. Mais do que tudo, tratavam-nos como idiotas. Como se não estivéssemos percebendo a movimentação.
No começo deste ano, passamos a prova para a semana de provas. Eu queria fazer isso em parte como retaliação. Os alunos, claro, se revoltaram. Minha resposta era sempre irredutível: vocês fizeram aquela zona no ano passado. Se voltarmos a prova para a semana regular, essa zona vai voltar. Quando vocês conseguirem parar de nos tratar como idiotas, nós poderemos pensar no assunto. Até lá, vocês vão sim ser forçados a pelo menos tratar esta prova com alguma seriedade.
Eles concordavam. Concordavam que estavam nos tratando horrivelmente mal. Aos que insistiam em exigir que as provas voltassem ao que eram, eu perguntava se eles lembravam do que tinham pesquisado ou estudado no ano anterior. A resposta era quase sempre bem vaga.
Preparamos a prova. Era um alívio ter uma prova que finalmente fazia sentido. Questões que não eram apenas decorebas, questões que até tinham a ver com expressões atuais para eles (uma sobre o Harlem Shake!). E bota os moleques pra desenhar! "Mas professor, eu não sou bom de desenho". "Eu também não era bom de química, mas tinha que passar na prova". Ainda assim, eu confesso que fiquei meio ansioso no dia em que eles fizeram as provas. A ansiedade não durou muito. Vários dos professores que fiscalizaram as salas vieram dar os parabéns por uma prova muito bem feita, questões que ensinavam além de cobrar o já aprendido, que trazia a matéria da sala de aula para a realidade deles. Professores querendo assistir as nossas aulas porque achavam a matéria interessante (nisso eu tenho que dar o braço a torcer, a professora anterior estruturou um curso muito legal).
A chave de ouro foi a aluna que me encontrou na porta da sala dos professores e me apertou a mão: "parabéns, professor! Com uma prova você me fez entender porque que eu precisava estudar artes". Eu ainda não sei se ela dizia isso com sarcasmo, mas resolvi me afundar na minha ingenuidade e achar que era um elogio genuíno. Ganhei o dia com essa.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Crônicas de Professor

Um dos meus alunos me entregou hoje uma sacolinha. Disse que era um presente de dia do professor. Confesso que recebi o mimo um pouco desconfiado: eu nunca tinha recebido nada assim e nem esperava criar esse impacto na cabeça de alguém tão cedo. Por que logo eu de todos os professores? Ele não precisava de nota, era um bom aluno. Também duvido que tivesse feito isso para muitos outros professores, pois os pais teriam desembolsado uma quantia salgada para mimar professores. Me pareceu algo sincero e exclusivo. Me senti especial.

Dentro da sacola, uns poucos produtos da Phebo. O presente gerou sensações engraçadas. Meu pai usava Phebo e eu identificava os perfumes ao estilo de masculinidade dele. Por isso, senti minha "adultice" confirmada com esse presente. O estilo de masculino paterno que eu lembrava na minha infância era um para o qual sabonetes com "1/4 de creme hidratante" ainda eram algo inexistente ou irrelevante. Um estilo que sentia um tipo de validação naquela sensação de pele esticada depois do banho. Eu lembro que eu gostava da sensação (talvez por gostar da ligação aspiracional que ela tinha com meu pai). Era um prazer meio bronco, meio rústico. Uma das minhas colegas professoras chamou de um prazer meio S&M. Eu não o estranharia depois das baladas do meu ano passado...
Havia também o deleite do perfume, que na infância fora marcadamente diferente dos perfumes dos meus produtos infantis. Era alheio, era mais complexo. Era daquele universo simbólico do moleque imberbe que se maravilha com os produtos de barbearia do pai.
Esse significado todo me pegou tão de surpresa que nem agradeci o aluno o suficiente. Preciso fazer isso!

Já fiquei sabendo que amanhã ganharei um outro presentinho. Enquanto isso, fico aqui pensando que deveria ter feito mais pela minha inspiradora professora de história do que apenas uma homenagem sincera no Facebook. Ela tinha que saber o quanto tinha sido importante.

E de preferência, enquanto ela estava viva.

quinta-feira, junho 28, 2012

Crônicas de Professor

O Clube de Desenho dos Excluídos

"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.

"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"

No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.

Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.

Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.

Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.

A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental  Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para  uma das meninas.

Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.

Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.

terça-feira, março 27, 2012

Caught in the undertow

Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.

Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:

Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?

Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.

Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).

quinta-feira, março 15, 2012

Referência

Aparentemente, com menos de dois meses de colégio, eu acabo de ser eleito a referência de uma das minhas turmas da sétima série (entre professores, funcionários, administradores e etc...) em um trabalho onde eles elegeram os adultos nos quais eles se espelham.

That is all....

terça-feira, março 13, 2012

Educating on the Edge

O tempo passa rápido e ando com a cabeça tão ocupada por questões do meu trabalho no colégio, que não tenho calma para deitar algumas poucas linhas aqui sobre tudo o que tem acontecido por lá. Não me aborreço com isso. O fato é que, pela primeira vez desde que comecei a trabalhar (em qualquer das áreas que tentei...), estou realmente me importando com o que eu faço. Me importando em fazer o melhor trabalho possível, em encontrar soluções criativas. Vou para casa pensando no trabalho do colégio quase todos os dias. E curiosamente, me sentindo muito estimulado por isso. O estímulo não é só para ser um bom professor, mas também para fazer os próprios exercícios que eu proponho aos meus alunos. Estou desenhando meus sapatos, construíndo máquinas de fotografia rudimentares, gravando vídeos sobre a cidade, e até arriscando escrever uma marchinha de carnaval. E adorando tudo! Ainda que viva constantemente sem tempo para nada.

Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:

• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.

• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...

Fairness• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios.
A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.

• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:



quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Impressões novas do antigo colégio

E eis que começaram as aulas do Band.
Tem tanta coisa pra escrever sobre isso, que acho que vou adotar aquele esquema de parágrafos não necessariamente relacionados.

Primeiramente, eu passei uns dois anos lecionando inglês para empresários muito mais velhos (com idades para serem pais dos alunos de agora). Era um estilo de vida gostoso, onde eu trabalhava às sete da manhã, antes do expediente; ao meio dia, durante o horário de almoço deles; ou às sete da tarde, no fim do seu dia de trabalho. E entre isso tudo, eu tinha o dia livre para ir ao ateliê pintar, botar em andamento os meus planos para fazer o mestrado, complementar os ganhos com as traduções, que eu podia fazer confortavelmente em casa. Apesar de agora eu ter horários de trabalho mais sisudos, eu sinto um pouco daquela velha tranquilidade em dedicar pelo menos alguns poucos dias da semana a um emprego fixo, de carteira assinada, em uma empresa consistente. Quem me conhece, sabe que eu sempre gostei das antigas hierarquias, ainda que eu tenha me dado muito bem vivendo como um freelancer nesses anos recentes.

Foi muito gostoso também rever os professores. Um gostoso estranho, mas muito gostoso. É comovente ver os inspetores que cuidam da criançada nos corredores me chamando de "professor Leão". Há um anacronismo nisso, porque na minha cabeça eu ainda sou aluno de muitos dos meus atuais "colegas de trabalho", que lecionam no Band há vinte, às vezes trinta anos (na reunião de professores, cheguei a perguntar se havia algum outro perdido como eu por ali que lecionasse há... três anos?). Mais do que isso, eu ainda não me sinto assim tão adulto. Sinto-me mais próximo da turma do colegial do que do status de professor, e esse é um daqueles momentos com o qual sonhamos na infância de de repente se perceber adulto. Não sei se faz sentido para vocês leitores: mentalmente, eu me sinto bem na minha atual posição, embora me sinta fisicamente ainda como um dos alunos.
Mas é ensinando essa turma que eu vou descobrindo sozinho o que esses doze anos desde que saí do meio daquelas paredes de tijolos vermelhos significaram em termos de crescimento pessoal e intelectual. Do adolescente inseguro de si, achando que arte era muito simbolismo e um pouco de técnica; para um adulto que entende sua própria imagem e sabe que arte é mais a respeito de um jeito de pensar. Imaginem, naquelas épocas no fim dos anos 90, eu sequer sabia das tecnologias atuais de imagem, de pixels, RGB, CMYK e resolução; e agora tenho que mencionar isso aos alunos que conhecem Photoshop. Eu não sabia que fotografia era a respeito de luz e não a respeito de câmeras; e agora tenho que mostrar a eles que eles acham que sabem isso, mas na verdade não sabem. Eu tinha um ódio mortal por lápis de cor, e agora tenho que convencê-los de que experimentar até com giz de cera pode ser uma coisa bacana. E que o tal do simbolismo que eles acham que o Band os está ensinando nas aulas de literatura, levará na verdade uma jornada de muitos anos para aprender a perceber e dominar. Trocando em miúdos, eu percebi, comparando com essas mentes jovens e impetuosas, que eu fui angariando um considerável poder e maturidade como artista que eu nem tinha percebido. E é muito gostoso de perceber! Só que mais gostoso ainda, é finalmente ter a chance de explicar do jeito que não me explicaram. E que eu acho que teria feito com que eu entendesse tudo muito mais rápido. Será?

As caras não mudaram. A grande maioria dos antigos professores estão lá. E os alunos têm aquela cara de alunos do Band. Não, não é porque uma boa porcentagem seja de origem oriental... É cara de aluno do Band, não tem outro jeito de dizer. Sejamos claros, o Band não é o Brasil. Os alunos estão sendo preparados para lidar com o mundo. Para lidar com uma sofisticação de inspiração européia na tecnologia, no modo de pensar, na moral. Uma sofisticação que não é a realidade cotidiana do resto do país. E isso tem pontos positivos e negativos. É no entanto temeroso nivelar por baixo, e preparar esses alunos para serem ativistas em prol dessa sofisticação tem sim dado bons resultados em projetos de sustentabilidade, ação social e interação com escolas no exterior. Eu ainda estou pensando muito nisso, mas me parece como uma tentativa louvável de exercer um papel de bridgehead positivo (lembra? [1][2]). Claro, isso deve ser feito com todo o cuidado possível para evitar os efeitos negativos, mas não vou entrar nessa discussão.

Mencionei que as caras eram as mesmas. Notei no entanto algumas ausências. Da minha septagenária professora de português que se aposentou, por exemplo, e a quem devo o fato de saber o uso correto de crases, pronomes oblíquos e outros detalhes que escapam o secretariês. De alguns inspetores que eu gostava muito também. Mas principalmente de Cinília, por quem eu largara a publicidade definitivamente. Quanto de mim estava empenhado em ser um bom professor só pra me desculpar por não ter conseguido chegar lá naquele dia? Quanto de mim queria ser um professor junto com ela?

Para terminar este longo post sobre o meu novo emprego, precisei falar sobre o caso da antiga estagiária de educação artística. Almoçando com uma das coordenadoras do curso, ela me contou porque a garota havia saído, sendo que ela trabalhava bem. Eu a conhecia, tendo-a visto em uma das primeiras edições do Dr. Sketchy's Anti-art School na cidade. Como eu, ela apreciava o iniciante burlesco paulista antes mesmo de eu ir para Londres e passar a admitir abertamente que também era a minha praia. No entanto, depois de algum tempo, a história começou a se espalhar entre os alunos. A decisão de sair foi dela. Fique pensando nisso por algum tempo. Por um lado, eu respeitava o quão abertamente ela vivia esse lado e o quanto ela desafiava a moral retrógrada de um país que tem o carnaval, mas prende qualquer um que ouse exibir demais do corpo fora do sambódromo. Por outro, eu reconhecia que há certas maturidades sexuais que não cabem em um ambiente com jovens que estão começando a descobrir sua própria sexualidade incipiente. Não é uma questão de revelar ou não, mas sim de como abordar esses assuntos. Mas principalmente, acho que é uma questão de vida pública e privada, e saber não misturar esses âmbitos. Será que eu consigo?
Outra coisa que ficou na minha cabeça: ela pediu para sair, não foram os professores ou nem mesmo os pais de alunos que exigiram sua demissão. Mas imagino que a interpretação dos alunos que tiveram contato com ela tenha sido a de que um colégio ultra-conservador não soube lidar com uma pessoa alternativa. Se foi assim, foi uma repercussão negativa de conservadorismo para um colégio que na verdade está se esforçando para ser progressivo, e que aparentemente a teria orientado e auxiliado a lidar com os alunos se ela tivesse persistido.
Por último, a questão levantou a pergunta: o que está sendo abordado em termos de educação sexual e práticas alternativas no colégio? A pesquisar...

terça-feira, maio 24, 2011

Mercado vs Academia

Ontem assisti a uma palestra interessante por aqui.
Uma pesquisadora PhD falou um pouco sobre a carreira de artes, de um modo bem direito e sem rodeios ou romantismos. Deu dicas de como se aproximas dos galeristas e colecionadores, do que inspira segurança nesses possíveis investidores e como começar a carreira depois da formatura (a palestra, aliás, era dirigida aos alunos de graduação, mas alguns de nós mestrandos soubemos e achamos interessante).

Achei muito boa a iniciativa. Eu sinto falta desse tipo de palestra na carreira de artes. E aliás, quando saí da publicidade para tentar levar a sério as artes, pensei em dar esses conselhos por aqui, se eu os descobrisse. Até cheguei a falar de algumas coisas. A palestra de ontem teve vários desses insights, mas eu queria falar de um dos mais relevantes.

Essa pesquisadora mencionou que colecionadores e galeristas gostam de uma certa estabilidade na produção. Até aí, a idéia de que quantidade faz mais carreira do que qualidade não é nada novo. Já comentei sobre ela, e acho relevante principalmente em uma época onde as artes admitem o pastiche, a coisa feita nas coxas e a "apropriação" como estratégias criativas. Mas ela comentou sobre outra estabilidade, a da escolha de mídia. Disse que investidores gostam quando o artista tem uma série coesa de pinturas, por exemplo. Ou que tenha feito fotos desde que saiu da faculdade. Dá uma certa insegurança neles quando o artista faz algumas pinturas, um punhado de performances, uns quantos vídeos e se interessa por instalações [Oi? Falando comigo?]. Faz sentido: investir num artista desses é comprar gato por lebre. Se você, galerista, sabe que seus colecionadores de estimação adoram pintura mas não sabem o que fazer com uma performance, você tem que investir especificamente em pintores. Não nos ditos "artistas multi-mídia".
Daí tem o outro lado, o da academia. Uma instituição de ensino das artes não vai te dar esse fato assim, de mão beijada, porque ela corre o risco de você abandonar qualquer reflexão pessoal e experimentação, que gerariam bom conteúdo acadêmico, para correr atrás dos "ítens da lista" das galerias. Correm o risco de seus alunos acabarem montando uma linha de produção de obras todas iguais (que na verdade, depois de alguma pesquisa e desenvolvimento, é exatamente o que as galerias querem). Não, a academia vai te dizer outra coisa: "experimente, tente o que você nunca fez antes". Foi exatamente o que eu ouvi em Chelsea. E é um bom conselho. Foi um bom conselho. Mas cá entre nós, não desenvolve carreira (exceto, claro, a acadêmica). Lembra-me um pouco o jeito que o Dudi Maia Rosa tinha de evitar o assunto do mercado sempre que eu lhe perguntava sobre a carreira: dizia que isso não é importante, eu que não devia pensar nisso, devia pensar na pintura. Concordo até certo ponto, mas além desse ponto, acho tudo meio romantismos artísticos totalmente não-pragmáticos.

Diante dos fatos, estou em uma encruzilhada. Um caminho é desenvolver uma produção constante do que eu sei fazer (pinturas, muitas, com uma identidade comum entre elas, como a série do TBC), para tentar seduzir galerias e colecionadores. O outro é continuar a experimentação e o desenvolvimento de dissertações sobre um tema, independente da produção artística. Ambos tem seus poréns. Eu até posso desenvovler uma série extensa de pinturas, mas não sei fazer a política necessária para as galerias. Eu também posso continuar pesquisando as questões masculistas e escrevendo a respeito (aliás, a área onde eu tenho me saído melhor por aqui), mas para isso ainda preciso descobrir qual é a minha pergunta, o que eu estou querendo saber com a pesquisa. E eu sinto que eu na verdade não estou "querendo saber" nada, apenas procurando um jeito de me sentir bem sendo homem e lidar com os traumas do passado.

O ideal, suponho, seria descobrir um meio termo saudável. Me ego pensando, daquele jeito frio que eu faço às vezes, em planejar o ano que vem para passar seis meses dando ênfase napesquisa e seis meses dando ênfase na produção. Claro que com instâncias de um no outro. Tudo para mim é equilíbrio. E não é à toa que o símbolo de Yin-Yang tem um ponto de cada cor dentro da outra.
Mas sei que, como consequência, andei pensando em voltar à pintura para ter material pra trazer de volta quando o curso acabar. Ontem, no fim do dia, limpei minha parede do estúdio e preguei alguns tantos papéis.

Desenhei furiosamente até fecharem a faculdade.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

O Linguista

Assistindo Fringe ontem, minha mãe perguntou:
-"De onde é o Walter? Você que é o linguista sabe de onde é o sotaque dele?"-
O linguista, conhecedor de línguas. Dependendo da situação, mamãe também me chama de "o esteta", conhecedor de estética (geralmente para decidir a cor do estofado do sofá ou de uma parede...). Ela sempre teve esse jeito de proferir elogios com palavras sofisticadas. Gosto muito.
Walter não me pareceu ter um sotaque específico, apenas um inglês americano, muito velho e polido. Mas o elogio me fez pensar em como a vida profissional mudou em seis meses. Não, ainda não estou ganhando a vida como artista plástico, apesar do esforço. Esse caminho é longo e difícil, mas estou empreendendo a jornada com prazer. Não, hoje em dia, ganho a vida com meu conhecimento de idiomas e um interesse profundo por línguas. Parece propaganda, mas é verdade. Muita gente não dá muita bola para o aprendizado do inglês ou do espanhol. Mas ele pode mudar sua vida e ajudar sensivelmente. Hoje tenho minhas manhãs (e alguns horários das tardes) totalmente tomadas por aulas de inglês. O pagamento é bom, chegando próximo ao que eu recebia na agência, e ainda tenho a vantagem de estar em movimento pela cidade, vendo o dia-a-dia acontecer, e de ter o resto do dia para gastar com a minha arte e cursos. Não dá pra ficar assim pra sempre, mas é muito gostoso enquanto dura.

Mas o idioma não traz apenas aulas. Há duas semanas consegui um bico muito rentável através do Lala's, que me passou um trabalho de transcrição para pesquisa de mercado. Soa esquisito, mas é simples pra quem entende bem inglês e escreve rápido. Além disso, não tem horário fixo e eu posso fazer um pouco por dia, na hora que eu quiser.

Meus dias já têm uma outra mentalidade. O inglês já não é mais uma habilidade exibicionista largada no canto, mas uma realidade diária. E as divagações sobre origens de palavras e regras de gramática tomam o tempo da volta pra casa.

[Hoje mesmo estava divagando sobre "acquaintance", um conhecido que não é ainda um amigo; e a semelhança com "quaint", algo peculiar e diferente, porém agradável. "To get acquainted" seria então tornar a nova pessoa peculiar e agradável? Ou o "a" no começo tem aquele valor de negação, tornando a pessoa conhecida?]

terça-feira, junho 16, 2009

When do mice abandon the ship?

And so it begins.
In a casual, heart-felt conversation with my captain, I found he wasn't surprised at all. This boat has been sinking for quite a while now, the boards on the deck falling apart as we lose sailor after sailor. The remaining few try to look at each other in the eye and convince themselves that the storm will pass and they'll survive, but the truth is this boat has been sinking for quite a while and everyone knows it. Captain doesn't show it, but he's already lost his will to struggle.

So I chose. After believing for so long and hoping for better days that never came, I chose to see this desperate situation for what it was. And thus, I jumped overboard, abandoning the ship. I had waited for a sturdier vessel to leap aboard for months, but none presented itself. Even if I had seen such a vessel, could I hope to be more than just a low-class sailor, a deck-scrubber aboard it? Nay. To hell with the sailor's life! I jumped overboard. Never to set foot on a ship again.

I now find myself wondering how will I survive in the water. Can I swim for myself? For how long? What lies before me is an endless depth of darkness that both scares me and beckons me. I am free and I am vulnerable.

Brace yourselves, lads.

segunda-feira, junho 08, 2009

Redenção

Hoje passei o olho no blog e fiquei feliz em ver que a grande maioria do que tenho escrito tem algum conteúdo relevante e não é apenas blogterapia. Quero ainda fazer deste um blog que as pessoas procurem e queiram ler pra saber de coisas do universo das artes plásticas na cidade. E blogterapia não entra nos blogs de respeito que eu conheço.
Talvez por isso mesmo eu tenha relutado um pouco em escrever este post e quebrar o ritmo. Mas queria ainda assim fazer um panorama geral do que tem acontecido nos últimos meses, minha mudança de rumo, porque acho que tem muita coisa valiosa a ser comentada e aprendida.
Já não tenho receios de escrever por aqui que estou desgostoso com o trabalho na agência (tenho até vontade de explicar por aqui meus desgostos, mas seria pouco profissional e tedioso). Se alguém relacionado à agência ler isto e não gostar, certamente estará me poupando de dar o primeiro passo em uma discussão que já deveria ter acontecido.

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Desde o começo do ano, venho procurando alternativas. Em plena crise econômica. Procuro nas artes plásticas, porque se a publicidade não me levou a lugar nenhum em cinco anos, acho que fica claro que não é o meu ramo. Toda agência que procuro só me oferece um cargo de assistente de arte por um salário irrisório. Há cinco anos...

No mês passado, com pouco esforço consegui uma entrevista interessante na Nara Roesler, uma galeria de nome no cenário das artes. Pensei que, pra ganhar pouco, eu pelo menos faria algo dentro da minha área de interesse. Só não imaginei que o "pouco" fosse tão pouco. Claro: afinal, trabalhar em galeria é outro daqueles Empregos que Todos Querem.
Voltei pra casa arrasado com o dilema. Eu já estava ganhando metade do que eu acho que é o meu valor na agência, e este novo salário me daria menos de um quarto do que eu queria ganhar... Mas ainda assim, era um emprego de nome, que eu teria orgulho de por no currículo! #comofas?

Meus pais sempre têm pontos de vista relevantes quando estou nessas enrascadas.
Mamãe foi infalível. Disse-me que eles ajudariam com os meus gastos, desde que o trabalho na galeria fosse relevante para o meu objetivo de vida. E em seguida lançou a derradeira pergunta: qual é o objetivo? Certamente não era ter uma galeria. Portanto trabalhar em uma soava como tomar outro caminho errado. E se era ser um artista plástico, eu não conseguiria isso me escravizando lá das 9 às 18 por um salário insultante e continuando sem tempo para desenvolver minha arte. Mas também não era ter uma agência de publicidade. Portanto me escravizar das 9 às 18 na agência por metade do meu valor também já não fazia mais sentido. Nenhum trabalho em publicidade fazia mais sentido.
Que poder tinha essa pergunta. Percebi que já fazia muito (MUITO) tempo que eu a perdera de vista. Não sabia mais o que eu queria para minha vida, só sabia o quanto eu queria ganhar. E isso era mesquinho e claro em todas as minhas intenções. Por isso nunca consegui que me levassem a sério. Já faz algum tempo que percebi que o que mais falta na minha vida é foco.
As respostas que dei pareciam fracas, inseguras. Queria ser artista plástico, queria dar aula em faculdade de artes. Será? Nenhuma certeza, apenas a sensação de que era sim bem mais próximo da verdade do que a publicidade. "Então vai ser capacho de artista plástico em vez de assistente de publicitário" dizia mamãe. "Ou vai na faculdade saber o que é preciso pra virar professor". E as contas? "Que contas? Você está nos seus vinte anos, não tem filho e nem casa pra sustentar!" So true... O que eu tinha era um vício por dinheiro. Um prazer em gastar sem pensar no quanto me sobrava no fim do mês. E pra não perder isso, estava perdendo a juventude. Não confundir com a Síndrome de Peter Pan daquele outro post. Estava perdendo as possibilidades da juventude, as portas abertar a carreiras mais interessantes.
Sim, eu darei aulas de inglês, farei trabalhos freelance de publicidade, tentarei vencer concursos de arte. Qualquer coisa pra me sustentar, desde que me permita seguir meu caminho nas artes. Desde que não me acorrente a uma mesa das 9 às 18, tirando-me o discernimento entre os dias todos iguais. Desde que não tire de mim o artista plástico.

Hoje voltei para casa e, conversando com meus pais sobre o dia, mamãe perguntou quanto tempo mais eu daria de chance a essa agência e por que eu já não tinha saído. Não soube responder. Porque a verdade é que nem eu sei mais o que estou fazendo lá. Só não tive coragem de sair ainda, pelo medo do desemprego.
Chega a ser engraçada a inversão. Eles deveriam estar me empurrando para ficar empregado, ganhar dinheiro, me sustentar. Não é isso que todo pai faz? Mas minha infelicidade já é tão gritante que eles me empurram para a demissão em vez disso. Porque minha felicidade vale mais pra eles.

Roam-se de inveja, eu adoro meus pais...
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domingo, dezembro 28, 2008

Recentemente estive envolvido com a produção de um encarte de CD para um projeto do meu irmão. A experiência, embora uma nulidade financeira, foi muito gratificante em outros vários aspectos.
Primeiro, porque fazia muito tempo que eu não fazia freelas em casa. Lembro do fiasco que foi o anterior, uma comunicação visual para uma loja de roupas. Uma bagunça, noites sem dormir, tensão com o chefe da agência da época e um design muito ruim que não agradou o cliente. Mas assim como tudo na vida, vamos evoluindo, “passando de nível”, como em um jogo. Este encarte já rolou de uma forma muito mais tranqüila, e em poucos dias eu já tinha tudo pronto. Deu pra perceber como a rotina de tentativa e erro na agência já me deu bons resultados fora dela, tanto no prever os possíveis erros na gráfica, quanto nas sacadas de design que facilmente agradam o cliente. Tudo parece mais simples, como andar de bicicleta: no começo parece ilógico como alguém consegue se equilibrar em duas rodas, mas depois você faz sem perceber.
Claro, rolaram os stresses. A entrega em cima da hora nunca muda, as informações do cliente chegam depois que o prazo estoura e é você quem tem que correr, a gráfica não te passa nenhuma especificação e depois reclama que você mandou errado, etc...
Mas pelo menos eu já não me descabelo tanto quanto antes. Apenas um batimento cardíaco mais acelerado e um tamborilar de dedos sobre a mesa enquanto o lento computador grava os arquivos.

Outro aspecto gratificante foram as pessoas com as quais trabalhei. O produtor musical Daniel Barra é uma simpatia em pessoa. Jeito despojado, bem brasileiro. Desses que sabe que as coisas serão feitas às pressas e nas coxas, mas não se preocupa com isso. No fim, tudo dá certo e ele ainda consegue material de qualidade.
Outro parceiro interessante foi o grafiteiro Rafael Calazans, conhecido como Highraff, que fez a capa do encarte. Muito solícito, me passou as imagens vetorizadas, facilitando muito o meu trabalho. Ainda quero aproveitar o contato para fazer algumas perguntas. Estou pensando em escrever sobre os acontecimentos do ano passado com opiniões de grafiteiros, galeristas, guias da Bienal e etc. Uma pseudo-reportagem. Será que ele toparia?

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Andei pensando sobre essa clareza dos últimos meses.
Principalmente na idéia de que muito teria sido diferente na minha vida se tivessem me falado de certas coisas logo que eu saí da faculdade. Claro, esses conselhos da vida sempre estiveram aí, debaixo do meu nariz. Mas tem coisas que se não falam, nós não vemos. E se vemos, ignoramos.
Saí da faculdade de artes plásticas com o medo da pobreza instilado em mim pelas instituições nas quais cresci e pelas minhas próprias conclusões errôneas. O medo me levou à publicidade e a quatro anos de nada. E só agora eu aceito que estou no caminho totalmente errado.

Que sejam ditas então algumas verdades básicas às novas gerações de artistas plásticos ainda em formação.

Em primeiro lugar, estejam preparados psicologicamente para passarem sim os primeiros anos após a faculdade em um voto de pobreza. Não achem que a dependência do dinheiro de papai acaba após a formatura, porque ela ainda continua algum tempo além da faculdade. Esta não é uma profissão institucionalizada onde faz-se estágio ainda na graduação e processos seletivos para entrar em empresas concorridas. É uma profissão de empregos temporários e de caça à próxima fonte de renda. Mas saibam e entendam que esse primeiro período de pobreza é fundamental. Aprende-se na marra a garimpar o sustento com atividades menores, que não interfiram negativamente na produção artística que, durante a faculdade, ganhou momento, inércia. Mais importante para o artista do que arranjar emprego fixo, é manter esse momento, continuar produzindo na mesma intensidade que se produzia na faculdade. Quem diminui o ritmo para procurar emprego de carteira assinada está decretando seu suicídio como artista profissional e relegando a arte à condição de hobby.
E eis aqui a segunda lição: manter esse momento é fundamental para comunicar o seu comprometimento. Nisso a arte assemelha-se a um verdadeiro business: os possíveis investidores em arte (galeristas, curadores, colecionadores, produtores culturais, etc) não vão investir seu tempo e dinheiro em gente não-comprometida. Ainda que você tenha um trabalho fantástico e revolucionário, se você não mostra comprometimento e perseverância, que garantia eles têm de que você não vai deixá-los na mão porque foi promovido no outro emprego e precisa trabalhar mais horas? Ou que você vai continuar estudando arte e evoluíndo em vez de estudar a mais nova versão dos programas de computador necessários para o seu outro emprego? Ou seja, trocando em miúdos, esse comprometimento é uma questão de foco. É você poder ser (ou pelo menos parecer) uma pessoa que sabe dizer não ao que não importa e persistir no que importa, seja lá o que isso for. Esses investidores querem que seu foco seja na arte e que, dado a chance de escolher entre um emprego assalariado e uma oportunidade de arte, você não seja tentado pelo dinheiro.

Cabe aqui um pequeno parágrafo de alívio.
A vida do artista plástico não vai ser para sempre esse eterno voto de pobreza e viver com os pais até os 30. Se você sobreviveu esse primeiro período de pobreza e aprendeu a desenvolver um trabalho de arte coeso e convincente, o próximo passo é a pós-graduação. A oportunidade de voltar à academia como uma espécie de oficial de patente mais alta. Ter acesso a algumas regalias, bolsas de pesquisa, contatos mais interessantes. E depois disso, a possibilidade de ensinar em faculdades, onde finalmente o sustento passa a ser algo mais garantido, sem comprometer a produção artística. Até porque você precisará estar atuando no mercado apra ser considerado um professor relevante.

Quanto a mim, como eu disse, fui pelo caminho completamente errado. Intimidado pela perspectiva da pobreza, desbravei a selva das pequenas agências de publicidade, achando que o dinheiro estaria por aí e que, com um pouco de sorte, alguém relevante descobriria as pinturas que eu fazia nas poucas horas vagas. O resultado foi óbvio: passei três anos cansado demais pra ter saco para terminar uma pintura (desperdiçando totalmente o momento pós-faculdade) e quem viu meus trabalhos e gostou, não investiu porque eu claramente não estava comprometido. O golpe de misericórdia veio da comparação com meus ex-colegas: com seus trabalhos temporários como guias de exposição e professores de desenho e pintura, estavam ganhando tanto ou mais do que eu na publicidade. Com a diferença de que suas pesquisas artísticas estavam evoluindo e a minha não. Estavam até viajando tanto quanto eu, indo para a Europa, porém para fazerem residências artísticas e continuar a pesquisa.

Well, fuck this... I’m outta here!

Já devia há muito tempo ter tomado essa decisão. Em seis meses, reabri o ateliê, retomei contatos, reiniciei processos. No início, apenas levando adiante idéias e pinturas antigas que eu tinha anotado e esquecido. Eu não tinha momento ou inspiração para idéias novas. Mas gradualmente, fui voltando a ter aqueles flashes, aqueles insights, aquela coisa pseudo-mística que se atribui ao artista. Era como se, de fato, eu nunca deixara de ter.

E nesse lento caminhar, essa sensação de clareza foi se assentando. Uma sensação do que importava e do que era dispensável. Sabe, antes disso o foco era algo emocionalmente caro. Custava-me dizer não aos projetos paralelos, aos eventos legais e aos favores a amigos para me focar no relevante. Custava-me sentir a frustração deles, mas eu ignorava a minha.
Estou botando a casa em ordem nesse aspecto. Saíndo de projetos estéreis que não levam a nada, me desculpando por favores com os quais não posso me comprometer, deixando diversões para depois das responsabilidades. Pensando um pouco mais no meu futuro e menos no presente dos outros. Egoísmo? Julgue como quiser. Não sinto mais pudor em dizer não.

E agora?
Enquanto estou colhendo os frutos destes últimos seis meses em uma exposição que abre nesta quarta na Escola São Paulo, vou planejando e colocando em movimento as coisas para o ano que vem. Há uma sensação gostosa de possibilidade no ar. Daquela que se tem diante de um vasto horizonte aberto, a possibilidade de ir para qualquer lado na velocidade que eu quiser. Medo? Claro que eu tenho. De ir mais rápido do que eu posso aguentar. De correr, correr e não achar nada nem nunca alcançar o horizonte. Não tem soluções fáceis: é incerto, mas é empolgante e desesperador. E pela primeira vez na vida eu realmente quero enfrentar.
É engraçado, mas a imagem que me vem à cabeça sobre estes anos passados na publicidade era bem o oposto. Era como viver nesta metrópole: prédios por todos os lados. Só é possível enxergar até a próxima esquina, alguns metros adiante, e mesmo que está do seu lado tem que falar alto para ser ouvido. Vez por outra se vê um horizonte entre os prédios, mas dura segundos e chegar lá é complicado. Era bem assim: eu só tinha olhos e consciência para as atividades da semana atual e não via futuro além disso. Oportunidades perfeitas do meu lado tinham que falar alto para serem ouvidas. Era uma rotina fácil. E era segura, chata e ainda mais desesperadora.

sexta-feira, outubro 31, 2008

A verdade sobre publicitários

Recebi este texto por e-mail no trabalho. Acho que ele resume toda minha frustração com a carreira de publiciotário e o porque venho tentando fazer menos disso e mais arte de verdade a cada dia.

Criação: são exatamente o tipinho que as pessoas que não conhecem nenhum publicitário imaginam como sendo um publicitário. Consideram-se o cérebro da agência de publicidade, mas na realidade são os primeiros na cadeia alimentar, diariamente estuprados por todos os outros setores da agência. Porém, estrategicamente a diretoria os oferece vagas no estacionamento, os melhores computadores disponíveis, liberdade de chegar mais tarde no trabalho (um pouquinho mais tarde), e mais algumas regalias baratas e dispensáveis, o que os fazem acreditar que são o setor de maior prestígio dentro da agência. É um prática comum dentre os criativos se masturbar olhando o espelho, uns chegam até a levar ao banheiro um espelhinho de mão escondido no meio da revista Meio & Mensagem. Dividem-se em alguns cargos/castas que variam de nome e função dentre os tipos de agência, mas que de modo geral são:


Redatores:
vestem preto ou casacos Adidas, usam tênis coloridos e têm cara de nerd . São pseudo-intelectuais insuportáveis, acreditam saber mais do que todo mundo em absolutamente QUALQUER assunto. Adoram supervalorizar o próprio trabalho a ponto de demorar 3 horas para decidir se no "Compre já!" deve entrar uma exclamação ou não. Trabalham anos e anos em troca de salários mínimos, com o sonho de ganhar prêmios e dinheiro. Quando isso ocorre (se um dia ocorrer), já estão velhos, impotentes e flácidos demais para poder aproveitar. Decidem então se dedicar a escrever um livro genial, brilhante e revolucionário, que nunca será publicado.

Diretores de arte: Fumam maconha , usam calças jeans rasgadas, tênis all-star sujo e geralmente possuem brincos ou tatuagens. Reclamam o tempo inteiro sobre tudo. Às vezes saem pra almoçar apenas para reclamar: reclamam do trabalho, do clima, do atendimento do garçom, da própria barriga que não pára de crescer. Possuem olheiras e cara de sujo que são, além de estilinho, decorrentes das centenas de noites em claro e finais de semana dedicados a anúncios que não servirão pra nada além da inscrição em prêmios que só outros publicitários verão, ou para grandes e memoráveis obras de arte como o selo de "Saldão de Natal". Consideram-se grandes artistas, mas quando chegam aos trinta e muitos, frustrados com a carreira dedicada a campanhas "humanizadas" de lojas de departamento ou bancos, montam uma confecção de camisetas moderninhas e "com conceito".

Diretores de criação: "Vai tocando aí e no domingo de tarde a gente dá uma olhada". "Ainda não temos. Pensem mais nisso durante a madrugada e amanhã de manhã a gente vê". "Sei que é chato, mas vamos precisar da força de todo mundo nesse feriado. É uma concorrência muito importante que se rolar, vamos poder contratar mais gente pra dasafogar vocês e dar uma ajeitada no salário da galera". Se você nunca ouviu frases assim, não conhece nenhum diretor de criação. Esses sujeitos estão para o Yoda assim como os redatores e diretores de arte estão para os jedis. O Yoda já foi um grande jedi um dia, acumulou grande poder e conhecimento, mas acabou por virar um monstrinho velhinho e recluso que se esconde em um pântano. Um dia um garoto ambicioso com potencial para virar o mais poderoso jedi vai encontrá-lo, receber seus ensinamentos e depois da morte do mestre Yoda, vai ter sua companhia como um espírito que opina e se intromete, até que o mesmo aconteça com ele.


Atendimento: "Cara, se a gente não fizer isso, vamos perder a conta!". "Varejão! Cores fortes, título chamativo, splash falando da novidade e bastante destaque no logo e site". "Devemos criar uma comunicação criativa, envolvente e impactante. Porém não temos verba e nem prazo.". Essas frases são típicas tanto na fala quantos textos do profissional de atendimento. Provavelmente em seus teclados, cada um dos F (F1, F2, etc) é o atalho com uma dessas frases. Possuir um sorriso maroto e ser mais escorregadio que um sapo besuntado de manteiga são pré-requisitos para ser um profissional de atendimento bem-sucedido. Normalmente não conseguiram entrar na área de criação e fazem de conta que são importantes na agência. Vivem em sites de conteúdo compartilhado falando mal do pessoal da criação. Classificam-se hierarquicamente como segue:

Estagiários: tiradores de xerox, digitadores, carregadores de pasta e aprendizes de técnicas de furtividade. Por um incrível fenômeno da economia brasileira, ganham 500 reais de salário mas dirigem um C3 0Km e têm uma renda mensal que ultrapassa os 3000 reais. E, por uma coincidência incrível, seus pais são clientes dos seus colegas de outro grupo de atendimento, que sentam a uns 4 metros pro lado.

Assistentes: basicamente fazem o trabalho dos executivos e gerentes de conta, mas ganham o mesmo que a babá dos mesmos.

Executivos: nesse ponto da carreira já são peritos nas disciplinas ninja de furtividade e das bombas de fumaça. O uso de outras pessoas como escudo humano e as zarabatanas com dardos envenenados já é prática comum.

Gerentes: a única diferença do gerente de conta para um executivo de conta é a espetacular coincidência de ele ser amigo pessoal do diretor de atendimento.

Diretor de conta: são como todo mestre ninja em filmes de ação dos anos 80. À primeira vista, são beberrões e bon vivants, mas no momento de perigo revelam-se grandes mestres do subterfúgio.

Diretor de atendimento: são o Kaiser Sose da propaganda. Alguns funcionários dizem que não passam de uma lenda. Outros dizem que são ninjas tão poderosos que ninguém os vê, ninguém os ouve, mas todos ficam sabendo de seus incríveis feitos.

Puta acéfala: São um tipo curioso de profissional de atendimento, pois são denominados como qualquer um dos cargos citados acima, porém possuem designações completamente diferentes. Suas atividades se resumem a sorrir, vestir decotes e roupas justas, abaixar para pegar coisas estrategicamente derrubadas em frente a clientes e permancer alcoolizadas em festinhas e happy hours que contam com a presença de clientes e membros da diretoria.


Mídia: o dia do mídia geralmente segue um padrão muito particular, independente do sujeito ser estagiário ou diretor de mídia. Eles chegam na agência 9:30, até as 10:45 olham os e-mails pessoais, os e-mails de sacanagem, as notícias, sites de fofoca, o horóscopo, o guia da tv a cabo e, por fim, os e-mails de trabalho. Aí é o momento aonde vão até a copa pegar um café e bater papo até umas 11:30.
Então começam a decidir aonde será o almoço, que só voltam depois das 14:30. Até as 15:30 é tempo mais do que suficiente para escovar os dentes, ir ao banheiro, conversar sobre como o almoço foi gostoso e olhar mais e-mails pessoais. Aí então é hora de pegar no batente. E dá-lhe números, tabelas e valores até as 17:00, quando param para aproveitar os doces, cestas, bolos, chocolates e diversos outros mimos que receberam dos veículos de mídia (canais de tv, revistas, empresas de mídia exterior, etc). Depois, até as 18:00, é hora de combinar com os amigos sobre o show do Eric Clapton, do qual ganharam de algum veículo vários convites para o camarote VIP. Como nessa hora os colegas de outros setores da agência ainda estão trabalhando, costumam ir acompanhados de outros mídias de outras agências.

Planejamento: esses indivíduos, que costumam se auto-intitular "planners", são de fato os verdadeiros gênios da propaganda. Não por suas realizações profissionais (que na verdade não são nada mais do que pura encheção de lingüiça), mas por terem convencido o mercado inteiro que, para realizar o seu trabalho fantasticamente genial, não podem ter sua brilhante mente perturbada por problemas mundanos como prazos e baixos salários. Ganham razoavelmente bem, chegam tarde, fazem 3 horas de almoço, vão embora cedo, entram em sites de qualquer besteira o dia inteiro com o argumento de estarem pesquisando as tendências do momento e, aos 40 minutos do segundo tempo, montam um power point recheado de expressões em inglês que não fazem muito sentido ( "out of the box", "apettite appeal", "brand development") e ensaiam uma apresentação para o cliente com explicações e defesas tão enroladas e absurdas que o mesmo, com vergonha de fazer papel de estúpido, classifica como genial e os aplaude de pé.

Estúdio, RTV, Produção Gráfica e Tráfego: o dia a dia dessas áreas da agência fariam o Jack Bauer sentar num canto e chorar. Ganham miseravelmente mal, trabalham em condições desumanas e lidam diariamente com todo o tipo de explosivos, animais venenosos, ataques terroristas e invasões de extraterrestres, geralmente encaminhados a eles pelo pessoal do atendimento. E, para piorar, enquanto tentam matar um tiranossauro com um canivete, ainda precisam aturar o pessoal da criação criticando a cor desbotada do cabo do canivete e insistindo na maneira conceitualmente correta de se desviar de uma abocanhada do gigantesco animal.

Presidência e Vice-presidência: autênticos deuses do Olimpo. Ficam lá em cima se divertindo às custas dos pobres mortais, inventando desastres naturais, guerras e maldições. Só descem ao mundo dos mortais para possuir as mais belas donzelas ou deixar seus nomes marcados nas grandes batalhas, nas quais não podem se ferir".

Fonte desconhecida, mas divertida

quarta-feira, abril 16, 2008

Orgasmos criativos

Ocorreu-me no trabalho uma comparação cômica entre o prazer do trabalho criativo e o deleito orgásmico do sexo.

Quem exercita sua criatividade sem medo, seja no trabalho ou por diversão, conhece aquela sensação de satisfação frente a uma sacada genial, uma técnica bem executada, uma gestalt harmônica. Aquele momento de exclamar: "cara, fui eu que fiz isso?". Não tarda muito a chegar a idéia de como seria fantástico ter isso todo dia, a toda hora, sempre. Ser uma pessoa violentamente criativa o tempo inteiro. Aliás, é nessa premissa que são julgados os profissionais de publicidade. Mas ser criativo exige dedicação, esforço, capacidade de lidar com frustração e não tem nada a ver com o trabalho excitante que os filmes e os manuais para vestibulandos nos mostram. E chega uma hora em períodos de atividade intensa que isso cansa. Ao contrário do que muita gente pensa, criatividade não é uma característica instintiva e não dá pra ser criativo 24/7. De vez em quando todo mundo precisa do racional, quadradinho, básico.

Da mesma forma, quem tem uma vida sexual regular conhece a satisfação de cada transa. Não tarda muito em imaginar na adolescência o quão fantástico seria ter isso todo dia, a toda hora, sempre. Viver num eterno estado de deleite sexual. Aliás, é nessa premissa que se julga geralmente a felicidade nesse âmbito da vida. Mas convenhamos, esse negócio envolve muita questão moral, muita sujeira, muito desentendimento e preocupação e não tem nada a ver com aquela coisa tranquila mostrada nos romances onde ambos saem plenamente satisfeitos e felizes para sempre. E chega uma hora em períodos de atividade intensa que isso cansa. Ao contrário do que muita gente pensa, até mesmo adolescentes podem chegar a um ponto de saciedade em relação ao sexo. De vez em quando a vida precisa ser mais do que só isso.

Em ambos os casos, às vezes são os períodos de abstinência que tornam o saciar a vontade mais intenso.

E antes que comecem a especular sobre a minha vida sexual, ela vai bem, na medida certa, obrigado. É a questão da criatividade que tem me deixado meio... assado.

sexta-feira, março 14, 2008

Bushido

Uma companheira de agência comentou hoje sobre o modo como eu repito minha rotina diária de forma quase idêntica todos os dias. Alguns horários variam, mas a sequência das ações é a mesma. Chegou até a cantarolar a música do Chico Buarque.
Eu estava, naquele momento, começando o longo processo de fazer o chá gelado que tomo quando trago almoço de casa. De fato, esses detalhes da rotina têm adquirido uma consistência que para alguns seria angustiante: chegar na agência e deixar a comida na geladeira, preparar o chá e deixá-lo esfriar na mesa, colocá-lo na geladeira uma hora antes do almoço, almoçar, fazer uma pausa à tarde para esticar as pernas e fazer a toalete, recolher as marmitas, aprontar a comida para o dia seguinte quando chego em casa. Tudo feito em uma sequência de movimentos quase igual todos os dias.

Expliquei à minha colega de trabalho uma parte da filosofia japonesa do bushido. O samurai japonês treina determinadas coisas repetindo o movimento à exaustão. Ele executa cada ciclo com pequenas mudanças em relação ao ciclo anterior. Coisas às vezes imperceptíveis, mas que tornam o resultado final um pouco mais eficiente (menor gasto, maior resultado ou precisão). Dizem que os japoneses aplicam essa filosofia a todos os âmbitos da vida. Não sou japonês, mas gostei da idéia. Hoje ela está no modo como eu faço a cama pela manhã, tomo o ônibus para o trabalho, vasculho a internet por novidades. E no modo como faço o meu chá.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Apetite

"Você tem apetite pelo trabalho", um dos meus chefes comentou esses dias. Não soube o que responder a isso. Disse ainda que, quando não se tem apetite, deve-se ter ao menos disciplina. Aé fiquei ainda mais perplexo.

Eu, que volta e meia durmo entre um clique e outro do mouse (principalmente depois do almoço...), que não sei o que se passa 80% do tempo naquela agência, que sigo apenas ordens diretas e pontuais sem pensar mais do que isso, que não dou a mínima para o que se passa na publicidade mundial. Eu tenho apetite pelo trabalho.

E como não demonstrar serviço e apetite, sendo que duas pessoas pediram demissão da área de criação quando saímos de férias e continuamos com o mesmo volume de trabalho? Eu mesmo estou encarregado de quase todas as alterações de peças e os e-mails e banners mais simples. Chego e processar cinco peças ao dia, quando antes me via com dificuldade para levar a cabo três.

Já tô até vendo a gastrite que eu vou desenvolver daqui a pouco...