Terminou então o primeiro bimestre do novo ano como professor de artes. Eu juro que queria muito ter a paciência e a disciplina que eu tinha antes para postar por aqui. Porque este processo que aconteceu durante o ano passado foi MUITO interessante e com certeza tem muito para ser aprendido. Mas em primeiro lugar, a vida tem sido tão intensa de um jeito tão gostoso, que não tenho tido vontade e nem tempo hábil para aquele ritual todo de escrever no blog. Porque é um ritual mesmo: você precisa acalmar, sair do ritmo que se leva nesta cidade, transcender para um estado mais plácido. Só assim dá pra chegar em um texto que não seja tão caótico e que de fato comunique sentimentos com clareza. Em segundo lugar, como já venho mencionando a cada post por aqui, eu fui perdendo o ímpeto de escrever por aqui devido a muito do que se passou no ano passado. Ainda estou tentando superar isso no que diz respeito aos objetivos deste blog.
O pior de tudo é que, quanto mais tempo passa, mais distante eu fico de conseguir estabelecer uma sensação de continuidade em relação ao que eu vou aprendendo paulatinamente como professor. Eu poderia citar aqui o que aconteceu ontem ou na semana passada, mas tudo teria alguma ligação com eventos anteriores, e sem essas ligações, tudo parece uma coleção de fatos desconexos.
De qualquer jeito, resolvi que tentar desembaraçar este nó seria impossível e que o melhor que eu teria a fazer seria de fato começar a registrar esses eventos desconexos para não perder o passo, e ir explicando o que precisar ser explicado. Ou nem explicar e assumir logo que eu estou escrevendo isso para mim mesmo. Sei lá.
Viu? Já não estou fazendo muito sentido...
Mas vamos lá, vou colocar alguns acontecimentos pontuais que vão me ocorrendo, sem cronologia, em bullet-points mesmo, e vocês que selecionem o que for relevante.
• Na época de avaliações do terceiro bimestre do ano passado, um aluno muito promissor me fez a pergunta, de forma muito respeitosa: "Psor, por que é que nós temos que provar que sabemos [nas avaliações], se estamos pagando para aprender?". Eu achei a pergunta interessante. Mais do que isso, sendo esse aluno e do modo como ele me abordou, ficou bem claro que era uma dúvida genuína e não uma daquelas perguntas maliciosas que os alunos mais arruaceiros fazem para desestabilizar a aula. Fiquei ainda mais impressionado com a rapidez com a qual a resposta surgiu na minha cabeça: "É que os pais de vocês estão pagando para que nós ensinemos a vocês sim. Essa parte nós garantimos. Porém se vocês estão de fato aprendendo e prestando atenção é algo que nós não podemos garantir. Para isso rolam as avaliações: para termos certeza de que vocês estão aproveitando. E não estão distraídos jogando joguinhos no iPad...". Eu até esperei algum retorno malicioso. Mas o aluno fez aquela cara de "ah, é!" e pareceu ter entendido alguma coisa fabulosamente interessante.
• Todo começo de ano, em Janeiro, os professores se reunem na Semana dos Professores. É um evento bem elaborado, cheio de requintes, encontros em salas de reuniões de hotéis, exercícios motivacionais, palestras de atualização, encontros de disciplinas com coordenadores e etc. Cada semana tem um tema como base. A deste ano estava lidando com
interdisciplinaridade, um termo tão difícil de ser compreendido quanto o
pós-moderno. Para falar a respeito, um dos palestrantes foi um filósofo de educação com o qual a equipe de artes tem se encontrado regularmente para moldar o curso. O
Bologna era um senhor grande, com uma farta barba branca. Unhas compridas sem nunca ter mencionado qualquer coisa de tocar violão. Frequentemente nos encontrávamos em um instituto que ele tinha, onde quadros seus adornavam as paredes. E ele era um bom pintor.
Na palestra,
Bologna contou uma história de quando era jovem e trabalhava como terapeuta. Eu não estou certo de como a história se encaixava dentro do tema de interdisciplinaridade, mas ela me deixou pensando na cena que ele descreveu durante boa parte daquele dia. Porque de alguma forma, ela tocou em algo que eu sentia dando aula de arte em um colégio com uma filosofia tão pragmática. Ele contou que, quando jovem, querendo enfrentar desafios de carreira, ele foi trabalhar em uma instituição para doentes mentais, colocado para trabalhar com aqueles casos mais complicados. Na primeira consulta com um determinado paciente, ele fez a pergunta de praxe: o senhor entende por que foi internado aqui? O paciente respondeu com alguma ansiedade: "Sabe, doutor... um peixe que vive no mar toma conhecimento de muitas coisas. Ele vê os outros peixes, ele vê a areia, vê as algas. Mas doutor, o peixe que vive no mar não vê a água! Eu estou aqui porque eu vejo a água!".
• Eu fiquei interessado no caso da aluno da outra professora de artes, que entrou neste ano. A mãe de Y. morrera quando ela era muito pequena e o pai gradualmente foi saíndo da vida dela até que ela ficou sob os cuidados dos tios. Sofrendo de um problema patológico de auto-estima, sentimentos de abandono e tendências perigosamente suicidas, ela no entanto mostrava um potencial inimaginável de expressão. O tipo de expressão catártica que eu esperava atingir com o grupo de desenho e até agora não conseguira por causa da barreira aluno-professor. Salvo raras excessões, aquelas meninas raramente desenhariam algo chocante de verdade, que botasse pra fora os sentimentos violentos da adolescência. A cada rodada do grupo, crescia nelas a consciência de que eu era um adulto e que elas não deveriam se abrir assim para um adulto, por medo de que eu levasse os desenhos, as expressões e os questionamentos para o grupo de terapeutas do departamento de orientação. Medo de serem taxadas de loucas ou problemáticas. Mal sabiam elas que eu QUERIA que elas se abrissem, e que eu JAMAIS as trairia desse jeito.
Mas Y. era diferente. Tendo passado por tanto na vida, ela estava bem à vontade com a chancela da loucura. Ela a usava com orgulho. Tinha uma única amiga na sua sala, mas andava constantemente com turmas do Ensino Médio, contando-me como este era bissexual assumido e aquele usava um cadeado como pingente no pescoço. Além do caso complicado da vida pessoal dela, chamara-me a atenção o caderno que ela tinha entregado para a avaliação. Desenhos com canetas fosforescentes, letras "fofas". Zero violência. Mas Y. não tinha limites ou bom senso no que falava (característica básica de quem foi levada na base da porrada para além "do que os outros vão pensar"). Em poucos minutos de conversa ela já tinha deixado escapar que não fora ela quem fez o caderno. A única amiga da classe tinha feito isso para ela. E ela tivera o cuidado de arrancar as páginas com seus desenhos porque sabia que eles seriam considerados "inadequados". Parei a conversa. "É por isso mesmo que você devia desenha-los. E deixar eles no caderno". E quando a conversa incluiu o fato curioso dela ter perguntado à outra professora se podia usar sangue ou outros restos humanos no desenho, eu sabia que ela TINHA que fazer parte do grupo de desenho. Ela talvez traria a transgressão que eu não conseguia fazer os outros participantes cometerem. Não que eu fosse incentivar o uso de sangue, mas com certeza dava pra explorar essas e outras ideias sem expor Y. a qualquer perigo.
Na semana de provas, Y. me encontrou debatendo com outros alunos. Ela percebeu o que todos os outros haviam percebido mas tinham pudores em comentar: eu estava de base nas unhas e tinha uma única unha pintada de preto. Ela ficou muito interessada. Em uma conversa anterior, eu havia comentado como eu também era um dos isolados na minha época de colégio, e como frequentemente, por ser sensível e adepto das artes, eu era considerado gay. Ela ficara surpresa: "você NÃO é gay?". As minhas alunas interferiram, com vergonha alheia: claro que não, ele tem uma namorada no Facebook. Mas dava pra ver uma ponta de dúvida nelas agora. Vendo as unhas cuidadas, ela insistia no assunto. "Mas você pinta as unhas". Sem constrangimento ou hesitação, disparei: "Menina que joga bola é lésbica?". Ela pensou por uns segundos antes de se dizer, com ar de vencida: "Não...". Fechei o assunto perguntando: "O que é uma pessoa gay?". "Alguém que gosta do mesmo sexo". "Exato. Hábitos e orientação sexual são duas coisas diferentes". Sem argumentos, ela pareceu olhar para o nada, considerando o que foi dito, em um daqueles momentos de "ahhh!" que indicam uma mudança de conceitos. O momento que professores adoram.
Isso, claro, não significava que ela pararia de me atormentar com o assunto. Pessoas que já foram abusadas pela vida dessa forma têm uma tendência a querer tatear seus limites, provocar, chamar a atenção. Mas no caso dela, eu achava tudo isso muito interessante.
• G. era uma das meninas do grupo de desenho. Na verdade, chama-lo hoje de grupo de desenho seria incorreto, já que o grupo conta com participantes que preferem escrever letras de música, textos curtos, fazer monólogos, e outras possibilidades. Eu aceito qualquer coisa, tentando manter o grupo mais democrático. Mas voltemos ao assunto. A participação de G. no grupo garantia que nosso relacionamento sempre estivesse um passo além daquela coisa distante entre professor e aluna. Conversávamos sobre o depois do colégio, sobre a prática de escrever, sobre os pudores que a instituição de ensino insistia em reforçar (não fale palavrão porque é feio...). E eu, naquela minha ingenuidade, achava que talvez G. estivesse "do meu lado", no sentido de que talvez ela cooperasse com a minha tentativa de ser um professor. Aos poucos, e sem qualquer malícia ou desrespeito proposital, ela foi me mostrando que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Porque G. era desinteressada e preguiçosa. Dizia prestar atenção na minha aula (e só na minha aula, de acordo com ela), mas entregava trabalhos pela metade, sem vontade, sem nem tentar. O ápice da desconexão entre essa nossa amizade e o meu papel de professor se deu em uma das provas do ano passado. Prova de outra matéria, que eu estava fiscalizando. Quase no fim da prova, percebi G. cochichando com a garota atrás dela. Colando? Era como se G. me desafiasse a tomar alguma atitude de professor, daquelas atitudes chatas, enquanto usava a nossa amizade como escudo. Não tive dúvidas e mudei-a de lugar. Mas fiquei o resto da prova fazendo considerações sobre aquela dicotomia de papéis, entre o professor despótico, disciplinador; e o aluno questionador. No fim das contas, era um jogo cruel. O professor precisava fazer da sua matéria e da estrutura disciplinar algo interessante, moderadamente desafiador e constantemente recompensador para o aluno. Caso contrário, este perderia o interesse e consequentemente a disciplina. O aluno, por outro lado, tinha que fingir estar interessado na matéria e cooperando com a disciplina, caso contrário levaria uma punição por não poder domar seu instinto. E na verdade, nem professor e nem aluno estavam de fato achando nada daquela disciplina toda muito relevante e faziam a mesma pergunta: no que se interessa um adolescente do Ensino Fundamental?
[Eu lembro que este texto tinha muitas outras considerações relevantes... É uma pena que tenham sido esquecidas.]
• No meio do ano passado, L. e G. começaram a namorar. Um namoro curto, mas que chamou a atenção de bastante gente. Porque L. e G. tinham seus 12 anos, e não eram da turminha popular. Na verdade, pelo contrário, eram dos retraídos, meio desajeitados, aquela turma que eventualmente acaba virando artista. Ambos eram bem altos e expressivos, embora L. fosse mais espalhafatoso e G. fosse mais do estilo Virginia Wolf. Pensando bem, talvez por isso não tenha durado... Daí o relacionamento acabou - acho que por decisão dela. Sem saber do fato, e amargando alguns abandonos na minha própria vida, recebi de G. no nosso grupo de desenhos o tema "desilusão amorosa", e desenhei uma bota com parte do
poema de Yeats, sem me tocar que estava na verdade denunciando a crueldade dela. E na verdade, confirmara o que ela sentia sobre si mesma. Algo sobre o qual suponho talvez conversemos um dia. Em outro canto do colégio, L. amargava sua desilusão amorosa, seus sonhos esmagados pelas botas de G. Havia muito da dor dele que eu entendia. Mas em um dos acantonamentos do colégio ao qual eu fui como professor monitor, percebi que L. estava sendo consolado por M. Ela também era do grupo de desenhos, amiga em comum dos dois. Também muito alta para a idade e muito sensível. Menos Virginia Wolf, e talvez mais... Adriana Calcanhoto? Não sei... É que o modo como eu estou escrevendo já revela toda a intenção do que eu quero dizer: sim, eu estava prevendo algum dia eles perceberem como eles eram grandes amigos, tinha muita coisa em comum, trejeitos, problemas e gostos. E perceberiam a possibilidade de um amor muito diferente, talvez muito mais puro e satisfatório do que qualquer coisa que L. tivera por G. Eu sabia que talvez eles jamais se dessem conta disso e morria de pena da possibilidade. Por outro lado, também sabia que dizer qualquer coisa a respeito para eles seria azedar a experiência. Eu era professor de artes, mas um completo idiota em assuntos do coração. Qualquer interferência seria catastrófica.
• Quatro dos rapazes estavam sentados sobre suas mesas, dois virados de costas pra mim. Em duas das mesas do meio da sala, um moleque com mais gel no cabelo do que deveria ter sobrado no pote se debruçava de tal modo sobre sua colega que qualquer um chamaria aquilo de abuso sexual. Uma outra batia tamborilava o dedo em um joguinho no celular. A porta fora deixada aberta e vi com o canto de olho algum moleque saindo de fininho. Pedi para fecharem a porta e ninguém obedeceu. Dane-se, fui eu mesmo fechar. No meio do caminho, uma patricinha me bloqueou para me informar (não pedir, informar) que estava saindo para ir ao banheiro. A última coisa que me lembro foi algum dos meninos rindo histericamente em algum lugar, como se não estivessem no meio de uma aula. Perdi a cabeça. Olhei fixamente para a patricinha e gritei (coitada...) que ela não sairia e que se sentasse. Tomei ar e bradei a plenos pulmões: "todo mundo senta e cala a boca" (ainda preciso me informar se mandar aluno calar a boca é procedimento
kosher em sala de aula...). Alguém diria depois que nunca tinha ouvido eu engrossar a voz daquele jeito. O que se seguiu foi dez minutos de esporro coletivo. Os alunos, em profundo mutismo. De algum lugar, claro, alguém gravava com celular o raro acontecimento.
Eu estava me acostumando a rompantes desse. A pequenos atos de violência com os alunos. O que acontecia era que eles percebiam como eu tinha receios em dar bronca, em excluir da sala, em mandar anotações para os pais e exercer outras atitudes despóticas. Então eles aproveitavam. Não lhes havia sido ensinada em casa qualquer educação por hierarquias superiores, então eles agiam em total barbárie, obedecendo apenas diante de punição. E eu estava ficando farto disso. Já começava a perceber em mim um certo sadismo de querer ter estes rompantes. Uma sessão dessas me garantiria pelo menos umas duas semanas de sossego. Eu precisava aprender. Eu sabia que a minha aula de artes não poderia ter a rigidez de uma aula de matemática, mas também não podia ser este manicômio ("Professor, o que significa 'manicômio'"? "Moleque, procura na Wikipedia, eu não vou te falar" - juro que rolou uma dessas NO MEIO do esporro).
• As aulas de artes não estavam sendo muito bem vistas pelos alunos, embora todo o resto da comunidade do colégio adorasse o que estávamos fazendo. Os alunos, na verdade, achavam tudo aquilo meio irrelevante. Se não era matéria de vestibular, então para que estavam aprendendo? Pra que tinham que perder tempo (de jogo) estudando a origem da fotografia ou técnicas de desenho? A professora anterior tentara doma-los na base da truculência e transformara a experiência de artes em algo completamente intragável mesmo para os interessados. Nós, professores novos, estávamos tentando transforma-la em algo que fosse gratificante, mas ao mesmo tempo levado a sério. E daí caíamos no assunto das provas. Porque o 8o e 9o anos tinham provas teóricas, que de fato nunca seriam gratificantes. Deviam, no entanto, serem levadas a sério.
No primeiro ano, as provas aconteciam na última aula do bimestre, antes da semana de provas oficial. A prova em si, com questões absurdas que exigiam que os alunos decorassem um livro, fora imposta pela professora anterior e causava vários transtornos. Mas o maior deles era que os alunos simplesmente não levavam a prova a sério. Cochichavam, colava, riam, transformavam aquilo em uma algazarra ridícula. Decoravam as páginas do livro sem entender o que memorizavam, para depois esquecer. Mais do que tudo, tratavam-nos como idiotas. Como se não estivéssemos percebendo a movimentação.
No começo deste ano, passamos a prova para a semana de provas. Eu queria fazer isso em parte como retaliação. Os alunos, claro, se revoltaram. Minha resposta era sempre irredutível: vocês fizeram aquela zona no ano passado. Se voltarmos a prova para a semana regular, essa zona vai voltar. Quando vocês conseguirem parar de nos tratar como idiotas, nós poderemos pensar no assunto. Até lá, vocês vão sim ser forçados a pelo menos tratar esta prova com alguma seriedade.
Eles concordavam. Concordavam que estavam nos tratando horrivelmente mal. Aos que insistiam em exigir que as provas voltassem ao que eram, eu perguntava se eles lembravam do que tinham pesquisado ou estudado no ano anterior. A resposta era quase sempre bem vaga.
Preparamos a prova. Era um alívio ter uma prova que finalmente fazia sentido. Questões que não eram apenas decorebas, questões que até tinham a ver com expressões atuais para eles (uma sobre o Harlem Shake!). E bota os moleques pra desenhar! "Mas professor, eu não sou bom de desenho". "Eu também não era bom de química, mas tinha que passar na prova". Ainda assim, eu confesso que fiquei meio ansioso no dia em que eles fizeram as provas. A ansiedade não durou muito. Vários dos professores que fiscalizaram as salas vieram dar os parabéns por uma prova muito bem feita, questões que ensinavam além de cobrar o já aprendido, que trazia a matéria da sala de aula para a realidade deles. Professores querendo assistir as nossas aulas porque achavam a matéria interessante (nisso eu tenho que dar o braço a torcer, a professora anterior estruturou um curso muito legal).
A chave de ouro foi a aluna que me encontrou na porta da sala dos professores e me apertou a mão: "parabéns, professor! Com uma prova você me fez entender porque que eu precisava estudar artes". Eu ainda não sei se ela dizia isso com sarcasmo, mas resolvi me afundar na minha ingenuidade e achar que era um elogio genuíno. Ganhei o dia com essa.