Naquele fim de semana, também passei pela Brick Lane. A rua emblemática de Londres tornou-se um dos points mais recentes, tomando um pouco do monopólio de Camden Town.
Na verdade, era uma questão tribal.
Camden tornara-se o reduto de uma cultura punk, gótica e clubber. Eram culturas que tinham um visual mais violento, mas uma índole muito boa se você conseguisse passar a barreira do visual. Eu mesmo adorava o visual, e junto com minha Lexy, tínhamos visitado Camden várias vezes para comprar nossos pinduricalhos de couro e caveiras.
Brick Lane era outro território. Quando o punk e gótico virou mainstream demais, surgiram alternativas, etre elas os hipsters. E é em Brick Lane que eles comprar suas roupas estilo "minha avó tinha" e almoçam culinária vegetariana do oriente médio ou algo do gênero.
[Tá, deu pra notar que eu sou mais da outra tribo mesmo...]
E por que é que eu tinha ido a um lugar desses? Além de ter ouvido falar muito a respeito, eu estava procurando uma pela de roupa. Sim, roupa. Não, eu não ia aderir à moda hipster. Eu estava interessado em achar algo ridiculamente barato que parecesse vagamente com os trajes da Butcher's Daughter, já que preparava o terreno para ela ser "encontrada" depois de seus dois meses de ausência. Não achei nada que não tivesse estampas floridas. Voltei de mãos vazias.
No caminho de volta, além de ver o vídeo de Dinh Q. Le, resolvi dar uma passada por Old Street. Eu estivera por lá pela primeira vez antes da viagem para a Romênia, em um tour guiado pelo bairro para ver o grafite dos artistas locais. Lá, tinha encontrado duas obras de grafiteiros conterrâneos: um grafite enorme do Zezão e outro do Milo Tchais. E tinha ficado com essa idéia fixa na cabeça de que, se minha açogueira ruiva tinha fugido dos cartões, ela deveria aparecer lá, nas ruas de Londres, perdida e misteriosamente atraída por esses grafites. Mas como executar a idéia?
O local em questão era um terreno vazio, servindo de estacionamento até o último dia de Maio, quando seria fechado para medições e a construção de um hotel. Eu estivera rondando aquele local por semanas, esperando uma chance. As leis em Londres contra o grafite são severas, e as câmeras de vigilância, presentes em todos os lugares, me intimidaram bastante. Ficava imaginando que ter problemas com a lei sendo um estrangeiro não seria boa idéia...
Mas naquele sábado, encontrei o local aberto.
Um par de trabalhadores russos construia um pequeno chalé em um dos cantos do terreno. Não souberam me dizer quem era responsável pelo local. Sem esmorecer, corri para a faculdade para pegar meu material. Eu tinha feito uma pintura da minha personagem em jornal: o plano era fazer um "paste up", colando o jornal na parede como lambe-lambe e passando uma camada de cola por cima para proteger das intempéries.
Mas quando voltei, os portões estavam fechados novamente...
Quase desisti de todo o negócio. Aquele era o último fim de semana para aquilo. Mas então, vi a porta da galeria ao lado aberta. Qual não foi minha surpresa ao perceber que se tratava de uma galeria onde uma colega tcheca estava expondo um de seus trabalhos em uma exposição em grupo! O assunto me ajudou a ganhar crédito com os donos da galeria, que eram de fato os responsáveis atuais pelo local ao lado.
O dono da galeria, o também tcheco Yarda, deu uma olhada no meu jornal e nas imagens da Butcher's Daughter na internet, e não hesitou em me dar permissão não só para colar o jornal, como para pintar a personagem diretamente na parede, se eu quisesse. Se eu quisesse? Claro que queria!http://www.blogger.com/img/blank.gif
Assim que, na terça seguinte, voltei para o local com os materiais apropriados e passei o dia trabalhando. E na noite de quarta, anunciei ao Facebook que eu tinha encontrado minha pequena e truculenta ruiva, perdida e desorientada, em um terreno vazio em Londres!
"Delirante, ela insistia que não era real nesta realidade.
A cena deveria acontecer como seu eu, seu pai, a tivesse encontrado e a estivesse levando para casa. Mas eu era de fato seu pai? Eu jamais trabalhara em açougues e o pai para quem ela escrevia sempre fora outro além de mim na minha compreensão dos cartões postais. No mais, ela também era meu alter ego feminino. Eu era o criador, pai, e ao mesmo tempo a existência paralela dela." [do blog profissional]
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
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sábado, junho 04, 2011
segunda-feira, dezembro 13, 2010
Cy Twombly e o pixo contemporâneo
Pequena nota de algo visto enquanto minha Lexy esteve aqui.

Na coleção desta temporada da Tate Modern há três quadros do Cy Twombly. Embora eu não conheça nada do artista a não ser o nome e sua pintura não faça muito meu gênero (que na verdade está mudando durante o mestrado...), eu fiquei com essas pinturas na cabeça. Eram telas enormes (uns dois metros por três) de uns rabiscos vermelhos de tinta bem diluída, provavelmente feitos com vassouras em vez de pincéis. Agora que estou escrevendo, me vêm à cabeça considerações sobre como a pintura normalmente tem uma certa proporção com o corpo humano, com o comprimento dos braços e pernas. Vendo essas pinturas dele, isso é totalmente descartado.
Mas a consideração que eu queria fazer por aqui tem a ver com outro detalhe: grafite. Aliás, usemos a designação certa: pixo. Twombly quis fazer essa explosão de tamanho na pintura, e queria fazer aqui um paralelo com algo que andei percebendo há alguns anos em São Paulo e recentemente vi aqui em Londre. Seja com a referência de Twombly ou por inspiração própria, alguns pixadores começaram a fazer pixos gigantes em alguns lugares de São Paulo. Ouvi rumores de que isso era feito com extintores de incêndio. Eles arranjavam um jeito de trocar o pó químico por pigmento. Dá pra reconhecer porque, assim como a pintura de Twombly, essa "arte" extrapola as proporções do pixador, que é forçado a virar o jato do extintor em um ângulo para alcançar as partes mais altas, que ficam mais borradas, cheias de gotas grandes, indefinidas. Precisão quase nula.
Por aqui, onde o grafite e o pixo ainda são duramente combatidos, tenho visto apenas uns poucos exemplares dessa mídia nos terrenos baldios e lugares abandonados. Mas já faz algumas semanas que passo por esse prédio com um "54" enorme e esqueço de ter a câmera à mão para fotografar. Ontem lembrei. Eis aí minha observação de que essa modinha não é uma coisa puramente brazuca.
Mas a consideração que eu queria fazer por aqui tem a ver com outro detalhe: grafite. Aliás, usemos a designação certa: pixo. Twombly quis fazer essa explosão de tamanho na pintura, e queria fazer aqui um paralelo com algo que andei percebendo há alguns anos em São Paulo e recentemente vi aqui em Londre. Seja com a referência de Twombly ou por inspiração própria, alguns pixadores começaram a fazer pixos gigantes em alguns lugares de São Paulo. Ouvi rumores de que isso era feito com extintores de incêndio. Eles arranjavam um jeito de trocar o pó químico por pigmento. Dá pra reconhecer porque, assim como a pintura de Twombly, essa "arte" extrapola as proporções do pixador, que é forçado a virar o jato do extintor em um ângulo para alcançar as partes mais altas, que ficam mais borradas, cheias de gotas grandes, indefinidas. Precisão quase nula.
Por aqui, onde o grafite e o pixo ainda são duramente combatidos, tenho visto apenas uns poucos exemplares dessa mídia nos terrenos baldios e lugares abandonados. Mas já faz algumas semanas que passo por esse prédio com um "54" enorme e esqueço de ter a câmera à mão para fotografar. Ontem lembrei. Eis aí minha observação de que essa modinha não é uma coisa puramente brazuca.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
Primeiro Grafite
Curioso: há algumas semanas, respondi uma pergunta do meu formspring dizendo que qualquer tentativa que eu fizesse de trabalhar com grafite resultaria em algo muito tosco, já que nunca havia sequer pegado em uma lata de spray. Dias depois, tive o almoço no MASP com minha mãe, onde conversamos sobre minha técnica de pintura e a necessidade de soltar mais o traço e depender menos das fotos. A exposição da ocasião era sobre grafite em São Paulo e percebi que eu já conhecia muitos dos nomes e respeitava o trabalho. Só isso já era uma grande mudança da minha atitude em relação ao grafite na faculdade.
No fim de semana passado, fiz a última aula do workshop de grafite ministrado por Loro Verz na Escola São Paulo. Depois de dois encontros onde vimos um monte de técnicas que eu já tinha visto por aí, mas nunca considerei usar, finalmente foi a hora de sair pra grafitar de verdade. Tivemos uma primeira tentativa frustrada na Consolação, onde fomos abordados por um segurança, mas depois encontramos nosso lugar na esquina da Brasil com a Gabriel Monteiro da Silva, em uma construção abandonada cercada por tapumes de madeira.
E foi lá que nasci como garfiteiro:

Nota rápida sobre a imagem.
A Manshackle era um objeto que eu queria fazer, mas acabei achando que daria um bom grafite. Não vou entrar em detalhes, mas aborda aquela questão masculista do uso de sexo como mecanismo para controlar homens. Ainda acho que é uma idéia muito direta, talvez simplória demais, mas de fato rendeu um bom grafite e muita risada no dia. Há mais fotos no Flickr pessoal.
A experiência com o grafite foi muito gratificante. Como eu falei, ela consolidou minha mudança de atitude em relação à prática. O mais importante foi que me fez considerar outras opções mais contemporâneas para a pintura além do tradicional e obsoleto óleo sobre tela. Percebi que o grafite é mais rápido. Tem que ser, por ser feito na rua, em um único dia. Não se pode fazer grafite em um mês como no caso da pintura de cavalete. Amanhã, talvez todo seu trabalho já tenha desaparecido. E isso leva a duas outras considerações: primeiro que é preciso exercitar o desapego em relação à obra, já que podem pintar por cima dela ("atropelar", no jargão do meio) a qualquer hora; mas também que a pintura de grafite tende a ser muito mais gestual. Não há tempo para rascunhos a lápis, esboços, medidas. Deve-se incorporar os erros: fazem parte do processo. Não gostou? Faça outro. Via de regra, as pessoas identificam mais a personalidade do pintor pelo que é gestual. Por isso que um crítico de arte, ao ver meus retratos na época da faculdade, comentou que "há muito pouco de você nelas". Talvez o grafite me ajude a descobrir um pouco mais do gestual e da minha própria identidade como pintor.
Mas para quem ainda resiste ao gestual, o workshop do Loro trouxe outros métodos mais adequados a pessoas meticulosas e pacientes. Gostei bastante do stencil e aproveitei a aula pra fazer um exercício com o meu logo do leão, que suponho passará a "assinar" o verso das minhas telas. Outras técnicas legais incluem o sticker, o canetão e o rolo com tinta acrílica para áreas grandes. Tudo isso pra fazer uma variedade de coisas: grafite tradicional, pixo, grapixo, bomb, tag, etc.
Mas claro, nem tudo é essa maravilha. Então vamos a algumas considerações ruins a respeito da experiência toda.
A tinta spray é um adesivo misturado com pigmento e borrifado de uma lata pressurizada. Isso garante que, a cada borrifada, um jato de partículas vai direto onde você quer, e muita coisa fica em suspensão no ar. E pode cair em qualquer lugar. Quem tem o braço peludo sente isso on ar... Aquela coisa pegajosa. Nojinhos aparte, fiz um experimento no ateliê e percebi algum tempo depois que essas partículas estavam por todo o chão, visíveis apenas quando eu pisava nelas. Meu ateliê ficou repleto de pegadas pretas. E olha que o teste foi curto.
Mas o mais perigoso é considerar o que pode acontecer com você, grafiteiro. Afinal, se essas particulas estão no ar, grudam com o adesivo em qualquer coisa e você não pode ficar muito tempo sem respirar, imagine o estrago que isso deve fazer aos pulmões. Compre uma máscara. É mais que necessário: é obrigatório.
Além da saúde, o grafite ainda tem questões sociais. Andar na rua com mochilas que fazem aquele característico som do balançar da lata de spray atrai olhares depreciativos. Me senti medido de cima a baixo pelos mais velhos. A questão dos grafiteiros nesta cidade é um pouco como a questão dos homossexuais: todo mundo diz que começa a respeitar, que não faria mas acha legal, mas no fim das contas ainda rola muito preconceito e bastante nojo.
No fim de semana passado, fiz a última aula do workshop de grafite ministrado por Loro Verz na Escola São Paulo. Depois de dois encontros onde vimos um monte de técnicas que eu já tinha visto por aí, mas nunca considerei usar, finalmente foi a hora de sair pra grafitar de verdade. Tivemos uma primeira tentativa frustrada na Consolação, onde fomos abordados por um segurança, mas depois encontramos nosso lugar na esquina da Brasil com a Gabriel Monteiro da Silva, em uma construção abandonada cercada por tapumes de madeira.

Nota rápida sobre a imagem.
A Manshackle era um objeto que eu queria fazer, mas acabei achando que daria um bom grafite. Não vou entrar em detalhes, mas aborda aquela questão masculista do uso de sexo como mecanismo para controlar homens. Ainda acho que é uma idéia muito direta, talvez simplória demais, mas de fato rendeu um bom grafite e muita risada no dia. Há mais fotos no Flickr pessoal.
A experiência com o grafite foi muito gratificante. Como eu falei, ela consolidou minha mudança de atitude em relação à prática. O mais importante foi que me fez considerar outras opções mais contemporâneas para a pintura além do tradicional e obsoleto óleo sobre tela. Percebi que o grafite é mais rápido. Tem que ser, por ser feito na rua, em um único dia. Não se pode fazer grafite em um mês como no caso da pintura de cavalete. Amanhã, talvez todo seu trabalho já tenha desaparecido. E isso leva a duas outras considerações: primeiro que é preciso exercitar o desapego em relação à obra, já que podem pintar por cima dela ("atropelar", no jargão do meio) a qualquer hora; mas também que a pintura de grafite tende a ser muito mais gestual. Não há tempo para rascunhos a lápis, esboços, medidas. Deve-se incorporar os erros: fazem parte do processo. Não gostou? Faça outro. Via de regra, as pessoas identificam mais a personalidade do pintor pelo que é gestual. Por isso que um crítico de arte, ao ver meus retratos na época da faculdade, comentou que "há muito pouco de você nelas". Talvez o grafite me ajude a descobrir um pouco mais do gestual e da minha própria identidade como pintor.
Mas para quem ainda resiste ao gestual, o workshop do Loro trouxe outros métodos mais adequados a pessoas meticulosas e pacientes. Gostei bastante do stencil e aproveitei a aula pra fazer um exercício com o meu logo do leão, que suponho passará a "assinar" o verso das minhas telas. Outras técnicas legais incluem o sticker, o canetão e o rolo com tinta acrílica para áreas grandes. Tudo isso pra fazer uma variedade de coisas: grafite tradicional, pixo, grapixo, bomb, tag, etc.
Mas claro, nem tudo é essa maravilha. Então vamos a algumas considerações ruins a respeito da experiência toda.
A tinta spray é um adesivo misturado com pigmento e borrifado de uma lata pressurizada. Isso garante que, a cada borrifada, um jato de partículas vai direto onde você quer, e muita coisa fica em suspensão no ar. E pode cair em qualquer lugar. Quem tem o braço peludo sente isso on ar... Aquela coisa pegajosa. Nojinhos aparte, fiz um experimento no ateliê e percebi algum tempo depois que essas partículas estavam por todo o chão, visíveis apenas quando eu pisava nelas. Meu ateliê ficou repleto de pegadas pretas. E olha que o teste foi curto.
Mas o mais perigoso é considerar o que pode acontecer com você, grafiteiro. Afinal, se essas particulas estão no ar, grudam com o adesivo em qualquer coisa e você não pode ficar muito tempo sem respirar, imagine o estrago que isso deve fazer aos pulmões. Compre uma máscara. É mais que necessário: é obrigatório.
Além da saúde, o grafite ainda tem questões sociais. Andar na rua com mochilas que fazem aquele característico som do balançar da lata de spray atrai olhares depreciativos. Me senti medido de cima a baixo pelos mais velhos. A questão dos grafiteiros nesta cidade é um pouco como a questão dos homossexuais: todo mundo diz que começa a respeitar, que não faria mas acha legal, mas no fim das contas ainda rola muito preconceito e bastante nojo.
terça-feira, janeiro 19, 2010
Arte "hi-hi"
"Meu, eu detesto fazer manha de artistinha!" eu disse à Lexy antes de desligar o telefone. Acho manha de artista uma coisa ridícula. O cara se desespera porque a pintura, desenho, foto ou o que seja não está saíndo como ele queria. E no entanto, é só uma pintura.
Nota-se, obviamente, que ando me desesperando por causa do Entre Quatro Paredes. Mas não vou me alongar nos detalhes.
Hoje de manhã, estive servindo de guia de exposição para minha mãe durante nossa visita à exposição de grafite que ficará no MASP até o mês que vem. Lá, passeando pela cores vivas e explicando para minha mãe sobre a filosofia de grafiteiros e pixadores e a luta pelo espaço público, tive uma epifania sobre meu próprio trabalho.
Lembrei-me de uma das tensas sessões de sexta na casa da Dora, durante meu último ano do curso de artes. Ela nos passou um texto que falava sobre obras com um humor "ha-ha" e obras com um humor "hi-hi". As obras "ha-ha" eram piadas completas, com sua lógica e punchline. As obras "hi-hi" tinhas seu detalhe engraçadinho, uma tiradinha surreal qualquer. Daquele tipo de coisa que você vê, dá aquele sorrisinho de canto de boca ou risadinha ("hi-hi") e segue adiante porque não tem nenhuma grande elocubração mental ali. Nenhuma grande crítica social, nenhuma verdade universal, nenhuma grande descoberta.
De parte do artista, ele não está realmente quebrando a cabeça para fazer algo que vai mudar o mundo. Ele só está fazendo aquilo porque "é legal", "deu na telha", "parecia uma boa idéia". Pelo deleite estético ou humorístico da coisa. Uma boa parte dos grafiteiros, dos meus ex-colegas de faculdade e dos artistas jovens em geral faz arte assim. A vasta maioria das galerias comercializa arte assim. É despretensioso. É engraçadinho. Mas acima de tudo, é fresco, gostoso, fácil de apreciar. É jovem.
E é o que está faltando em quantidades industriais na minha pintura.
Durante o almoço que tivemos depois da exposição, minha mãe disse uma daquelas coisas que vou ficar mastigando por alguns dias. Disse ela que eu sempre vejo detalhes e pontos de vista que ninguém vê. Mas na hora da pintura, eu copio fotos. Eu faço o que todo mundo vê. Tenho aprendido a ouvir um pouco mais a minha mãe. Minha avó também comentou algo parecido dia desses: perguntou por que eu copiava as fotos em vez de fazer as imagens "do meu jeito".
Minha Dama das Camélias já rodopia na minha cabeça de um modo diferente, menos conservador, menos preso à foto. Estou louco pra começar!
Nota-se, obviamente, que ando me desesperando por causa do Entre Quatro Paredes. Mas não vou me alongar nos detalhes.
Hoje de manhã, estive servindo de guia de exposição para minha mãe durante nossa visita à exposição de grafite que ficará no MASP até o mês que vem. Lá, passeando pela cores vivas e explicando para minha mãe sobre a filosofia de grafiteiros e pixadores e a luta pelo espaço público, tive uma epifania sobre meu próprio trabalho.
Lembrei-me de uma das tensas sessões de sexta na casa da Dora, durante meu último ano do curso de artes. Ela nos passou um texto que falava sobre obras com um humor "ha-ha" e obras com um humor "hi-hi". As obras "ha-ha" eram piadas completas, com sua lógica e punchline. As obras "hi-hi" tinhas seu detalhe engraçadinho, uma tiradinha surreal qualquer. Daquele tipo de coisa que você vê, dá aquele sorrisinho de canto de boca ou risadinha ("hi-hi") e segue adiante porque não tem nenhuma grande elocubração mental ali. Nenhuma grande crítica social, nenhuma verdade universal, nenhuma grande descoberta.
De parte do artista, ele não está realmente quebrando a cabeça para fazer algo que vai mudar o mundo. Ele só está fazendo aquilo porque "é legal", "deu na telha", "parecia uma boa idéia". Pelo deleite estético ou humorístico da coisa. Uma boa parte dos grafiteiros, dos meus ex-colegas de faculdade e dos artistas jovens em geral faz arte assim. A vasta maioria das galerias comercializa arte assim. É despretensioso. É engraçadinho. Mas acima de tudo, é fresco, gostoso, fácil de apreciar. É jovem.
E é o que está faltando em quantidades industriais na minha pintura.
Durante o almoço que tivemos depois da exposição, minha mãe disse uma daquelas coisas que vou ficar mastigando por alguns dias. Disse ela que eu sempre vejo detalhes e pontos de vista que ninguém vê. Mas na hora da pintura, eu copio fotos. Eu faço o que todo mundo vê. Tenho aprendido a ouvir um pouco mais a minha mãe. Minha avó também comentou algo parecido dia desses: perguntou por que eu copiava as fotos em vez de fazer as imagens "do meu jeito".
Minha Dama das Camélias já rodopia na minha cabeça de um modo diferente, menos conservador, menos preso à foto. Estou louco pra começar!
segunda-feira, janeiro 18, 2010
Grafite em casa
Conversando com meu irmão alguns meses atrás, chegamos na idéia de que eu comercializasse algum tipo de pintura decorativa para a casa das pessoas, algo que pudesse ser feito diretamente na parede das casas, e que me permitisse cobrar pelo trabalho de produção e não apenas pelo produto físico final. Lembrei na hora de uma loja que vi em algum shopping, que comercializava adesivos vendidos em pedaços de papel enormes, que você podia destacar e colar na parede. Seria difícil concorrer com uma empresa (mesmo pequena) que já tinha desenvolvido todo o método e provavelmente tinha idéias de design mais frescas do que os meus conceitos embolorados pelos anos de agência.
Semanas depois, ele me mandou um link para uma notícia relacionada ao assunto. A notícia falava de como o grafite, após conquistar as galerias de arte, tinha continuado o processo para adquirir o status de mídia artística entrando nas casas dos colecionadores e tomando paredes que antes eram reservadas para pinturas mais tradicionais.
Achei a notícia propícia para este começo de ano. Na semana que vem estarei na Escola São Paulo, fazendo um workshop de grafite - com um professor que coincidentemente também fez a faculdade londrina para onde eu vou no fim do ano. Além disso, fez-me lembrar que meu começo na pintura foi pintando a parede do meu quarto, que me rendeu o contato com o Percival Tirapelli, pai da Tarsila, e uma ou outra oportunidade de pintar paredes de outras pessoas (o teto da Kita, uma parede do Piero, o quarto dos meus pais, diversos detalhes em paredes de amigos, etc...). Lembro que o longo processo em acrílico e o corre-corre da cidade, juntados à minha falta de disciplina na época, me fizeram abandonar várias dessas pinturas no meio. Porém me pergunto se, com técnicas de grafite aprendidas e a disciplina atual, eu não poderia voltar a esse meio e de fato ganhar algum dinheiro vendendo esse serviço.
Alguém se habilita a ser o primeiro cliente?
Semanas depois, ele me mandou um link para uma notícia relacionada ao assunto. A notícia falava de como o grafite, após conquistar as galerias de arte, tinha continuado o processo para adquirir o status de mídia artística entrando nas casas dos colecionadores e tomando paredes que antes eram reservadas para pinturas mais tradicionais.
Achei a notícia propícia para este começo de ano. Na semana que vem estarei na Escola São Paulo, fazendo um workshop de grafite - com um professor que coincidentemente também fez a faculdade londrina para onde eu vou no fim do ano. Além disso, fez-me lembrar que meu começo na pintura foi pintando a parede do meu quarto, que me rendeu o contato com o Percival Tirapelli, pai da Tarsila, e uma ou outra oportunidade de pintar paredes de outras pessoas (o teto da Kita, uma parede do Piero, o quarto dos meus pais, diversos detalhes em paredes de amigos, etc...). Lembro que o longo processo em acrílico e o corre-corre da cidade, juntados à minha falta de disciplina na época, me fizeram abandonar várias dessas pinturas no meio. Porém me pergunto se, com técnicas de grafite aprendidas e a disciplina atual, eu não poderia voltar a esse meio e de fato ganhar algum dinheiro vendendo esse serviço.
Alguém se habilita a ser o primeiro cliente?
terça-feira, julho 07, 2009
Decapitator
A @perseph0ne lançou este no Twitter há alguns dias.
O Flickr do Decapitator mostra intervenções urbanas um pouco inusitadas com um forte teor de crítica contra a indústria da publicidade.
A técnica é simples: ele provavelmente fotografa mídia externa (outdoors, cartazes em pontos de ônibus, publicidade em shoppings), trata as imagens no Photoshop para decapitar alguma das pessoas retratadas da forma mais sangrenta possível, incluíndo o sangue espalhado nas outras pessoas da foto, e imprime a edição em folhas que são coladas por cima da imagem original.
Certamente é uma ação com mais raciocínio e sabor estético do que a pichação, o grafite tradicional ou até a arte de sticker, normalmente preocupados mais em marcar território do que ativamente questionar alguma coisa. E facilmente ganha a simpatia de pessoas que consideram a publicidade desnecessariamente apelativa, inpiradora dessa atitude de nariz empinado que diz "eu posso te tratar como lixo porque visto roupas mais caras ou tenho um celular com mais funções". Tem um gosto delicioso de vingança: a arte de rua atacando o design de grife com uma tirada de humor negro.
Tem ainda algumas sacadas pósmodernas: a apropriação sem dó ou consideração por direitos autorais de imagens da mídia de massa e a elevação de algo mundano para o status de arte por um gesto simples do artista.
Acho que não demora muito até ele ser abordado por uma Choque Cultural da vida e começar a de fato divulgar isso como arte.
[P.S.: a Lexy vai achar este daqui particularmente terrível...]
O Flickr do Decapitator mostra intervenções urbanas um pouco inusitadas com um forte teor de crítica contra a indústria da publicidade.
A técnica é simples: ele provavelmente fotografa mídia externa (outdoors, cartazes em pontos de ônibus, publicidade em shoppings), trata as imagens no Photoshop para decapitar alguma das pessoas retratadas da forma mais sangrenta possível, incluíndo o sangue espalhado nas outras pessoas da foto, e imprime a edição em folhas que são coladas por cima da imagem original.
Certamente é uma ação com mais raciocínio e sabor estético do que a pichação, o grafite tradicional ou até a arte de sticker, normalmente preocupados mais em marcar território do que ativamente questionar alguma coisa. E facilmente ganha a simpatia de pessoas que consideram a publicidade desnecessariamente apelativa, inpiradora dessa atitude de nariz empinado que diz "eu posso te tratar como lixo porque visto roupas mais caras ou tenho um celular com mais funções". Tem um gosto delicioso de vingança: a arte de rua atacando o design de grife com uma tirada de humor negro.
Tem ainda algumas sacadas pósmodernas: a apropriação sem dó ou consideração por direitos autorais de imagens da mídia de massa e a elevação de algo mundano para o status de arte por um gesto simples do artista.
Acho que não demora muito até ele ser abordado por uma Choque Cultural da vida e começar a de fato divulgar isso como arte.
[P.S.: a Lexy vai achar este daqui particularmente terrível...]
domingo, dezembro 28, 2008
Recentemente estive envolvido com a produção de um encarte de CD para um projeto do meu irmão. A experiência, embora uma nulidade financeira, foi muito gratificante em outros vários aspectos.
Primeiro, porque fazia muito tempo que eu não fazia freelas em casa. Lembro do fiasco que foi o anterior, uma comunicação visual para uma loja de roupas. Uma bagunça, noites sem dormir, tensão com o chefe da agência da época e um design muito ruim que não agradou o cliente. Mas assim como tudo na vida, vamos evoluindo, “passando de nível”, como em um jogo. Este encarte já rolou de uma forma muito mais tranqüila, e em poucos dias eu já tinha tudo pronto. Deu pra perceber como a rotina de tentativa e erro na agência já me deu bons resultados fora dela, tanto no prever os possíveis erros na gráfica, quanto nas sacadas de design que facilmente agradam o cliente. Tudo parece mais simples, como andar de bicicleta: no começo parece ilógico como alguém consegue se equilibrar em duas rodas, mas depois você faz sem perceber.
Claro, rolaram os stresses. A entrega em cima da hora nunca muda, as informações do cliente chegam depois que o prazo estoura e é você quem tem que correr, a gráfica não te passa nenhuma especificação e depois reclama que você mandou errado, etc...
Mas pelo menos eu já não me descabelo tanto quanto antes. Apenas um batimento cardíaco mais acelerado e um tamborilar de dedos sobre a mesa enquanto o lento computador grava os arquivos.
Outro aspecto gratificante foram as pessoas com as quais trabalhei. O produtor musical Daniel Barra é uma simpatia em pessoa. Jeito despojado, bem brasileiro. Desses que sabe que as coisas serão feitas às pressas e nas coxas, mas não se preocupa com isso. No fim, tudo dá certo e ele ainda consegue material de qualidade.
Outro parceiro interessante foi o grafiteiro Rafael Calazans, conhecido como Highraff, que fez a capa do encarte. Muito solícito, me passou as imagens vetorizadas, facilitando muito o meu trabalho. Ainda quero aproveitar o contato para fazer algumas perguntas. Estou pensando em escrever sobre os acontecimentos do ano passado com opiniões de grafiteiros, galeristas, guias da Bienal e etc. Uma pseudo-reportagem. Será que ele toparia?
Primeiro, porque fazia muito tempo que eu não fazia freelas em casa. Lembro do fiasco que foi o anterior, uma comunicação visual para uma loja de roupas. Uma bagunça, noites sem dormir, tensão com o chefe da agência da época e um design muito ruim que não agradou o cliente. Mas assim como tudo na vida, vamos evoluindo, “passando de nível”, como em um jogo. Este encarte já rolou de uma forma muito mais tranqüila, e em poucos dias eu já tinha tudo pronto. Deu pra perceber como a rotina de tentativa e erro na agência já me deu bons resultados fora dela, tanto no prever os possíveis erros na gráfica, quanto nas sacadas de design que facilmente agradam o cliente. Tudo parece mais simples, como andar de bicicleta: no começo parece ilógico como alguém consegue se equilibrar em duas rodas, mas depois você faz sem perceber.
Claro, rolaram os stresses. A entrega em cima da hora nunca muda, as informações do cliente chegam depois que o prazo estoura e é você quem tem que correr, a gráfica não te passa nenhuma especificação e depois reclama que você mandou errado, etc...
Mas pelo menos eu já não me descabelo tanto quanto antes. Apenas um batimento cardíaco mais acelerado e um tamborilar de dedos sobre a mesa enquanto o lento computador grava os arquivos.
Outro aspecto gratificante foram as pessoas com as quais trabalhei. O produtor musical Daniel Barra é uma simpatia em pessoa. Jeito despojado, bem brasileiro. Desses que sabe que as coisas serão feitas às pressas e nas coxas, mas não se preocupa com isso. No fim, tudo dá certo e ele ainda consegue material de qualidade.
Outro parceiro interessante foi o grafiteiro Rafael Calazans, conhecido como Highraff, que fez a capa do encarte. Muito solícito, me passou as imagens vetorizadas, facilitando muito o meu trabalho. Ainda quero aproveitar o contato para fazer algumas perguntas. Estou pensando em escrever sobre os acontecimentos do ano passado com opiniões de grafiteiros, galeristas, guias da Bienal e etc. Uma pseudo-reportagem. Será que ele toparia?
terça-feira, outubro 28, 2008
Pensando sobre o Vazio
Deitado na cama hoje de manhã, tentando criar coragem para mais um dia maçante de publicidade, ouvi a notícia de que o segundo andar da Bienal havia sido pixado na noite de domingo, dia da abertura. A minha primeira reação, como a de muita gente, foi de revolta, raiva mesmo. Mas por volta da hora em que eu entrava no banho, comecei a ser tomado de outros sentimentos. Quanto mais pensava no assunto, mais me parecia que a revolta frente a esse ato era uma demonstração de puritanismo. Eu, que defendia as ações de Eric Haris e Dylan Klebold como uma forma de expressão desesperada, me opor a este tipo de manifestação?
Deixemos claro algumas coisas.
Eu já mencionei por aqui que ainda tenho lá meus conservadorismos que dificultam que eu aceite o pixo como forma de arte. Já foi difícil aceitar o grafite, e este apenas quando passou para o âmbito das galerias (mesmo ciente de que isso o invalidava como street art). Eu não consideraria um pixador específico um artista, nem um grupo de pixadores um coletivo. Mas preciso admitir que as ações deste grupo enorme e organizado de pixadores estão perigando por áreas que chamam a atenção de interessados em arte. Não se trata mais de moleques deixando uns poucos rabiscos estilizados em lugares aparentemente impossíveis. Não se trata daquela atitude primitiva de marcar território. Eles estão questionando. E questionando com razão e ideologia. Questionam a apropriação da estética de rua por artistas que a usam para se promoverem como alternativos dentro de instituições d’O Sistema. Questionam a apropriação dos termos “espaço e patrimônio público” por instituições que, na primeira oportunidade, vetam, proíbem e negam.
É temerário e inconseqüente dizer isso, mas essa entidade que é esse grupo de pixadores está ganhando aos poucos o meu interesse assim como o Picasso fez na época da faculdade: o conceito geral é muito instigante, embora o visual do produto final seja horrendo.
Isto posto, vamos ao ocorrido.
No domingo, dia da abertura da Bienal, um grupo de 40 pixadores (o número é basicamente sempre o mesmo...) compareceu à Bienal, inicialmente para “avaliar o terreno”. Mais tarde, entraram com as latas de tinta e começaram a intervenção no segundo andar, que permanecia vazio por decisão dos curadores. Houve choque com os seguranças e os pixadores fugiram, deixando para trás apenas uma integrante do grupo, denominada Carol, de 23 anos, que foi levada ao 36º DP da rua Tutóia.
O segundo andar da Bienal foi uma proposta esquisita desde o começo. Do ponto de vista mais mercadológico, deixar um andar vazio diminuía o espaço ocupado por arte e o número de participações possíveis, a menos que todo mundo fizesse trabalhos bem pequenos (uma impossibilidade em tempos tão megalomaníacos...). Do ponto de vista crítico, como citado por um dos que comentaram a notícia no link acima, essa proposta só fazia mostrar o “esvaziamento da importância desse tipo de mostra”. Do ponto de vista teórico, o espaço vazio devia “provocar uma reflexão a respeito do espaço”.
Sobre este último, cada pessoa tem direito à sua própria reflexão. Há quem considere Balthus um pedófilo e quem veja valor em suas pinturas. Há quem entre no segundo andar da Bienal para pensar sobre arquitetura e quem entre para pensar sobre o conceito abstrato do vazio. Há quem receba esse estímulo de forma passiva, e quem resolva agir sobre ele (como no caso dos referidos pixadores...). Ou seja, cada um reage a essa proposta do seu jeito. Se a proposta era uma reflexão sobre o espaço, achei fantástico que alguém tentasse ocupá-lo, primeira idéia que vem à cabeça em épocas de superpopulação. E mais: depois de se ver tanta proposta de arte dita “interativa” por aí, acho um retrocesso condenar uma intervenção que agrega tanto à idéia inicial.
A reação dos curadores também é algo a ser comentado. Depois do alarde feito em torno da Choque Cultural e do precedente trabalho de graduação do Rafael Augustaitiz (Rafael Pixobomb), achei que a galera tivesse entendido que todo esse barulho na mídia só fortalece a rebeldia dessa turma. De certa forma, eles são como ereção fora de hora: quanto mais você mexer e pensar nesse inconveniente, pior fica.
Deixemos claro algumas coisas.
Eu já mencionei por aqui que ainda tenho lá meus conservadorismos que dificultam que eu aceite o pixo como forma de arte. Já foi difícil aceitar o grafite, e este apenas quando passou para o âmbito das galerias (mesmo ciente de que isso o invalidava como street art). Eu não consideraria um pixador específico um artista, nem um grupo de pixadores um coletivo. Mas preciso admitir que as ações deste grupo enorme e organizado de pixadores estão perigando por áreas que chamam a atenção de interessados em arte. Não se trata mais de moleques deixando uns poucos rabiscos estilizados em lugares aparentemente impossíveis. Não se trata daquela atitude primitiva de marcar território. Eles estão questionando. E questionando com razão e ideologia. Questionam a apropriação da estética de rua por artistas que a usam para se promoverem como alternativos dentro de instituições d’O Sistema. Questionam a apropriação dos termos “espaço e patrimônio público” por instituições que, na primeira oportunidade, vetam, proíbem e negam.
É temerário e inconseqüente dizer isso, mas essa entidade que é esse grupo de pixadores está ganhando aos poucos o meu interesse assim como o Picasso fez na época da faculdade: o conceito geral é muito instigante, embora o visual do produto final seja horrendo.
Isto posto, vamos ao ocorrido.
No domingo, dia da abertura da Bienal, um grupo de 40 pixadores (o número é basicamente sempre o mesmo...) compareceu à Bienal, inicialmente para “avaliar o terreno”. Mais tarde, entraram com as latas de tinta e começaram a intervenção no segundo andar, que permanecia vazio por decisão dos curadores. Houve choque com os seguranças e os pixadores fugiram, deixando para trás apenas uma integrante do grupo, denominada Carol, de 23 anos, que foi levada ao 36º DP da rua Tutóia.
O segundo andar da Bienal foi uma proposta esquisita desde o começo. Do ponto de vista mais mercadológico, deixar um andar vazio diminuía o espaço ocupado por arte e o número de participações possíveis, a menos que todo mundo fizesse trabalhos bem pequenos (uma impossibilidade em tempos tão megalomaníacos...). Do ponto de vista crítico, como citado por um dos que comentaram a notícia no link acima, essa proposta só fazia mostrar o “esvaziamento da importância desse tipo de mostra”. Do ponto de vista teórico, o espaço vazio devia “provocar uma reflexão a respeito do espaço”.
Sobre este último, cada pessoa tem direito à sua própria reflexão. Há quem considere Balthus um pedófilo e quem veja valor em suas pinturas. Há quem entre no segundo andar da Bienal para pensar sobre arquitetura e quem entre para pensar sobre o conceito abstrato do vazio. Há quem receba esse estímulo de forma passiva, e quem resolva agir sobre ele (como no caso dos referidos pixadores...). Ou seja, cada um reage a essa proposta do seu jeito. Se a proposta era uma reflexão sobre o espaço, achei fantástico que alguém tentasse ocupá-lo, primeira idéia que vem à cabeça em épocas de superpopulação. E mais: depois de se ver tanta proposta de arte dita “interativa” por aí, acho um retrocesso condenar uma intervenção que agrega tanto à idéia inicial.
A reação dos curadores também é algo a ser comentado. Depois do alarde feito em torno da Choque Cultural e do precedente trabalho de graduação do Rafael Augustaitiz (Rafael Pixobomb), achei que a galera tivesse entendido que todo esse barulho na mídia só fortalece a rebeldia dessa turma. De certa forma, eles são como ereção fora de hora: quanto mais você mexer e pensar nesse inconveniente, pior fica.
terça-feira, setembro 09, 2008
Ataque à galeria Choque Cultural
Essa história do grafite está me rendendo muito assunto por aqui.
Recebi notícias hoje sobre um ataque acontecido neste fim de semana à galeria Choque Cultural, protagonizado por cerca de 30 pixadores [1][2][3]. Ao que tudo indica, o ataque foi organizado por Rafael Guedes Augustaitiz (Rafael Pixobomb), o mesmo artista que em julho deste ano tinha sido expulso da Faculdade de Belas Artes por ter apresentado como trabalho final uma ação semelhante, onde pixou as dependências da faculdade. Os donos da galeria estavam fora do país quando tudo aconteceu. A "ação" foi documentada com fotos em uma conta de Flickr onde li a maior parte da discussão gerada.
Diz-se por aí que o ataque foi um protesto dos pixadores contra a "comercialização, institucionalização e domesticação da Cultura de Rua", revoltados com a popularidade que os grafiteiros conquistaram recentemente (vendendo-se para "O Sistema"), enquanto o "pixo" ainda é marginalizado. Cabe aqui uma breve explicação que talvez eu não tenha escrito por aqui. Com a ascensão dos grafiteiros ao status de artistas, abriu-se ainda mais o abismo entre o grafite e a pixação. Entenda-se grafite como um estilo de arte predominantemente figurativo, ilustrativo, executado em muros da cidade. O pouco de texto que se vê é estilizado e abusa das cores. Já a pixação é compreendida como o ato de demarcar território (geralmente em lugares altos e de difícil acesso) com assinaturas etilizadas e pouco uso de imagem. A cor principal é o preto fosco, embora alguns pixadores experimentem com outras cores. Ambos têm fortes ligações com a questão do espaço publico e sua privatização pelas chamadas "classes burguesas" e "O Sistema". Mas de forma geral (e mesmo antes da ascensão do grafite), a primeira é vista como uma forma de expressão tolerada em maior ou menor grau, e a segunda ainda é vista por muitos com o desprezo reservado apenas a animais que mijam para marcar território.
Muito bem, vamos às questões...
Sabe-se contra o quê foi o protesto. Mas contra quem foi? Contra a galeria? Acho que isso é o mesmo que vandalizar um McDonald's e esperar que isso afete o capitalismo. Não, segundo talita virginia, uma das pessoas comentando no Flickr, o ataque não foi contra quem quer levar a arte das ruas para a galeria, mas contra quem se diz "grafiteiro" e faz "arte de rua" sem nunca ter pintado um muro. Certo. Vamos às duas questões consequentes.
Primeiro, se o ataque era contra esse tipo de falso grafiteiro, então por que detonaram a galeria em vez de ir ter com os falsários em si? E segundo, concordo que é falso dizer-se grafiteiro sem nunca ter pintado uma parede, mas se o individuo em questão se diz artista plástico e se apropria dessa estética pra usar em outro contexto (uma pintura em tela, por exemplo), ele está tão errado assim? Tem muito ex-grafiteiro que virou artista plástico. Mas os que eu conheço sempre tiveram a decência de separar as duas coisas.
A Choque Cultural nunca afirmou vender grafite. Usando de termos ambíguos, afirmou ser dedicada à estética underground. Os defensores da galeria afirmam que de fato ela nunca vendeu grafite: para isso teria que vender um muro inteiro. E isso é espaço público. Ela comercializa coisas vendáveis (telas, esculturas, revistas, etc) com a estética underground.
Fiquei surpreso ao ver muitos pixadores comentando no Flickr contra a ação. Aparentemente, há uma regra de conduta entre pixadores de que não se pixa sobre trabalho dos outros. "Atropelou é TOY", escreveu um, usando a gíria que significa, trocando uma tribo urbana pela outra, ser n00b (newbie, o novato e inexperiente que só faz besteira, entre tribos da internet) em pixação. Fez-me lembrar de outra questão recente tratada na mídia, onde os punks veteranos que tinham motivos para a violência desobediente criticaram as gangs de punks recentes, que promovem a violência pela violência. Estes pixadores parecem promover o "pixo pelo pixo", sem pensar direito na subversão que pretendiam promover. Reitero meu repúdio a esse pensamento tipicamente americano do "rebelde sem causa", do "ser diferente, único e contra O Sistema" só porque disseram que é legal. Outro dos que comentaram, jotapepabst, exemplificou essa minha sensação escrevendo "o trabalho que tava exposto na galeria era de um inglês chamado gerald laing, que tem o dobro da minha e da sua idade juntos, que participou de outro tipo de subversão em outra época... e nunca se disse grafiteiro. batalhou muitos anos pra chegar onde ele tá agora e poder viver com dignidade fazendo o trampo dele. esse cara foi atropelado, inexoravelmente. só me diz o que ele tinha a ver com a história".
A dona da galeria, Mariana Pabst Martins, não desceu do salto e deu uma resposta à altura no próprio Flickr em questão, comentando que eles tinham deixado uns quadros legais por lá, que deveriam ser muito valorizados com o ocorrido. O comentário deu o tom para o sarro da discussão, transformando o ataque sofrido em uma ajuda imprevista à galeria e ao que ela representa e completando a desmoralização do grupo de pixadores.
O resto ainda está meio confuso para mim. Há quem diga que a ação foi encomendada, como um marketing de guerrilha. Se comprovado, o feito faria apenas desmoralizar ainda mais os pixadores que participaram, por colaborarem com "O Sistema", e enaltecer a galeria entre os publicitários (mas não entre os artistas...), porque convenhamos, seria uma estratégia bizarra mas muito eficiente de gerar buzz (tá, me processem, eu uso termos publicitários...). Há quem aponte para o fato de terem tirado fotos e publicado no Flickr como indício de que o negócio foi armado. Mas para uma galera que vandaliza as coisas assinando a própria identidade, acho que segredo não é uma prioridade. De qualquer jeito, é algo a se pensar: nas fotos do Flickr, as únicas obras pixadas são as que têm moldura com vidro pra proteger...
[DISCLAIMER]
Pessoalmente, eu nunca pintei um muro que não fosse meu ou de amigos. Nunca senti a adrenalina do grafite ou pixação (coisa que, entre os comentários, parece validar alguém como artista de rua). Sou de um estilo de arte bem mais conservador e careta, longe da street art. Portanto pode-se dizer que não me cabe esse juizo de valores. Mas ainda sou livre para ter opiniões.[/DISCLAIMER]
[EDIT]Mais links adicionados em 11/09/2008[/EDIT]
Recebi notícias hoje sobre um ataque acontecido neste fim de semana à galeria Choque Cultural, protagonizado por cerca de 30 pixadores [1][2][3]. Ao que tudo indica, o ataque foi organizado por Rafael Guedes Augustaitiz (Rafael Pixobomb), o mesmo artista que em julho deste ano tinha sido expulso da Faculdade de Belas Artes por ter apresentado como trabalho final uma ação semelhante, onde pixou as dependências da faculdade. Os donos da galeria estavam fora do país quando tudo aconteceu. A "ação" foi documentada com fotos em uma conta de Flickr onde li a maior parte da discussão gerada.
Diz-se por aí que o ataque foi um protesto dos pixadores contra a "comercialização, institucionalização e domesticação da Cultura de Rua", revoltados com a popularidade que os grafiteiros conquistaram recentemente (vendendo-se para "O Sistema"), enquanto o "pixo" ainda é marginalizado. Cabe aqui uma breve explicação que talvez eu não tenha escrito por aqui. Com a ascensão dos grafiteiros ao status de artistas, abriu-se ainda mais o abismo entre o grafite e a pixação. Entenda-se grafite como um estilo de arte predominantemente figurativo, ilustrativo, executado em muros da cidade. O pouco de texto que se vê é estilizado e abusa das cores. Já a pixação é compreendida como o ato de demarcar território (geralmente em lugares altos e de difícil acesso) com assinaturas etilizadas e pouco uso de imagem. A cor principal é o preto fosco, embora alguns pixadores experimentem com outras cores. Ambos têm fortes ligações com a questão do espaço publico e sua privatização pelas chamadas "classes burguesas" e "O Sistema". Mas de forma geral (e mesmo antes da ascensão do grafite), a primeira é vista como uma forma de expressão tolerada em maior ou menor grau, e a segunda ainda é vista por muitos com o desprezo reservado apenas a animais que mijam para marcar território.
Muito bem, vamos às questões...
Sabe-se contra o quê foi o protesto. Mas contra quem foi? Contra a galeria? Acho que isso é o mesmo que vandalizar um McDonald's e esperar que isso afete o capitalismo. Não, segundo talita virginia, uma das pessoas comentando no Flickr, o ataque não foi contra quem quer levar a arte das ruas para a galeria, mas contra quem se diz "grafiteiro" e faz "arte de rua" sem nunca ter pintado um muro. Certo. Vamos às duas questões consequentes.
Primeiro, se o ataque era contra esse tipo de falso grafiteiro, então por que detonaram a galeria em vez de ir ter com os falsários em si? E segundo, concordo que é falso dizer-se grafiteiro sem nunca ter pintado uma parede, mas se o individuo em questão se diz artista plástico e se apropria dessa estética pra usar em outro contexto (uma pintura em tela, por exemplo), ele está tão errado assim? Tem muito ex-grafiteiro que virou artista plástico. Mas os que eu conheço sempre tiveram a decência de separar as duas coisas.
A Choque Cultural nunca afirmou vender grafite. Usando de termos ambíguos, afirmou ser dedicada à estética underground. Os defensores da galeria afirmam que de fato ela nunca vendeu grafite: para isso teria que vender um muro inteiro. E isso é espaço público. Ela comercializa coisas vendáveis (telas, esculturas, revistas, etc) com a estética underground.
Fiquei surpreso ao ver muitos pixadores comentando no Flickr contra a ação. Aparentemente, há uma regra de conduta entre pixadores de que não se pixa sobre trabalho dos outros. "Atropelou é TOY", escreveu um, usando a gíria que significa, trocando uma tribo urbana pela outra, ser n00b (newbie, o novato e inexperiente que só faz besteira, entre tribos da internet) em pixação. Fez-me lembrar de outra questão recente tratada na mídia, onde os punks veteranos que tinham motivos para a violência desobediente criticaram as gangs de punks recentes, que promovem a violência pela violência. Estes pixadores parecem promover o "pixo pelo pixo", sem pensar direito na subversão que pretendiam promover. Reitero meu repúdio a esse pensamento tipicamente americano do "rebelde sem causa", do "ser diferente, único e contra O Sistema" só porque disseram que é legal. Outro dos que comentaram, jotapepabst, exemplificou essa minha sensação escrevendo "o trabalho que tava exposto na galeria era de um inglês chamado gerald laing, que tem o dobro da minha e da sua idade juntos, que participou de outro tipo de subversão em outra época... e nunca se disse grafiteiro. batalhou muitos anos pra chegar onde ele tá agora e poder viver com dignidade fazendo o trampo dele. esse cara foi atropelado, inexoravelmente. só me diz o que ele tinha a ver com a história".
A dona da galeria, Mariana Pabst Martins, não desceu do salto e deu uma resposta à altura no próprio Flickr em questão, comentando que eles tinham deixado uns quadros legais por lá, que deveriam ser muito valorizados com o ocorrido. O comentário deu o tom para o sarro da discussão, transformando o ataque sofrido em uma ajuda imprevista à galeria e ao que ela representa e completando a desmoralização do grupo de pixadores.
O resto ainda está meio confuso para mim. Há quem diga que a ação foi encomendada, como um marketing de guerrilha. Se comprovado, o feito faria apenas desmoralizar ainda mais os pixadores que participaram, por colaborarem com "O Sistema", e enaltecer a galeria entre os publicitários (mas não entre os artistas...), porque convenhamos, seria uma estratégia bizarra mas muito eficiente de gerar buzz (tá, me processem, eu uso termos publicitários...). Há quem aponte para o fato de terem tirado fotos e publicado no Flickr como indício de que o negócio foi armado. Mas para uma galera que vandaliza as coisas assinando a própria identidade, acho que segredo não é uma prioridade. De qualquer jeito, é algo a se pensar: nas fotos do Flickr, as únicas obras pixadas são as que têm moldura com vidro pra proteger...
[DISCLAIMER]
Pessoalmente, eu nunca pintei um muro que não fosse meu ou de amigos. Nunca senti a adrenalina do grafite ou pixação (coisa que, entre os comentários, parece validar alguém como artista de rua). Sou de um estilo de arte bem mais conservador e careta, longe da street art. Portanto pode-se dizer que não me cabe esse juizo de valores. Mas ainda sou livre para ter opiniões.[/DISCLAIMER]
[EDIT]Mais links adicionados em 11/09/2008[/EDIT]
quinta-feira, setembro 04, 2008
Complementando
Pra complementar coisas que eu tenho postado por aqui, vi duas notícias que me chamaram a atenção recentemente.
A primeira é um de um site sobre grafite ecológico (?) que lista as 35 maiores obras de grafite reverso.
O grafite reverso, como o nome indica, é a ação executada por alguns grafiteiros que trocam as latas de spray e outros instrumentos mais rotineiros por material de limpeza. Ou seja, em vez deles gerarem ilustrações por um processo de adição, colocando tinta em superfícies públicas; eles realizam os seus trabalhos por subtração, limpando partes de superfícies imundas da cidade para criar suas imagens. Achei fantástico. Sem falar que reverte a idéia de que grafite é uma coisa suja.
A segunda notícia veio do site do Yahoo!. Parece que uma empresa está se preparando para lançar bicicletas elétricas por aqui. A idéia é suprir um crescente mercado de gente que não aguenta mais o transito desta cidade (que tem batido récordes e deixado muita gente perplexa ultimamente), mas também não gosta da idéia de chegar suado no local de trabalho logo de manhã. Embora a notícia não dê palpite sobre o preço, diz que com certeza será menos do que as motos mais baratas. Quem sabe... Agora só falta o governo acordar para a realidade e cooperar com as ciclovias.
A primeira é um de um site sobre grafite ecológico (?) que lista as 35 maiores obras de grafite reverso.
O grafite reverso, como o nome indica, é a ação executada por alguns grafiteiros que trocam as latas de spray e outros instrumentos mais rotineiros por material de limpeza. Ou seja, em vez deles gerarem ilustrações por um processo de adição, colocando tinta em superfícies públicas; eles realizam os seus trabalhos por subtração, limpando partes de superfícies imundas da cidade para criar suas imagens. Achei fantástico. Sem falar que reverte a idéia de que grafite é uma coisa suja.
A segunda notícia veio do site do Yahoo!. Parece que uma empresa está se preparando para lançar bicicletas elétricas por aqui. A idéia é suprir um crescente mercado de gente que não aguenta mais o transito desta cidade (que tem batido récordes e deixado muita gente perplexa ultimamente), mas também não gosta da idéia de chegar suado no local de trabalho logo de manhã. Embora a notícia não dê palpite sobre o preço, diz que com certeza será menos do que as motos mais baratas. Quem sabe... Agora só falta o governo acordar para a realidade e cooperar com as ciclovias.
quinta-feira, agosto 07, 2008
E por falar em grafite, um dos expositores deste ano no FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica que começou na terça, dia 5) é o coletivo novaiorquino Grafitti Research Lab (que tem sua vertente brasileira). Pelo que entendi, trata-se de um grupo realmente dedicado a transformar o modo como o grafite é percebido, usando e abusando de tecnologia de ponta. No Festival deste ano, o grupo usará tecnologia laser para projetar inofensivas (apenas no quesito mídia, não no conteúdo...) em alguns dos prédios e monumentos históricos da cidade. Mais detalhes sobre o assunto podem ser encontrados no site do Festival, que infelizmente para muitos, está em um inglês macarrônico. Mas pelo que entendi, o grupo só estará apresentando seu projeto até amanhã, dia 8, e os locais não são abertamente divulgados no site, embora a Av. Paulista tenha aparecido como forte candidata.
Mas além desse experimento com grafite que tem roubado a cena, o Festival está cheio de outras coisas interessantes. O tema desse ano, explicitado pela imagem em vermelho berrante no início do site do Festival, gira em torno da inovação do cinema 4K, uma forma de altíssima definição de vídeo digital que produz imagens com mais de 8 milhões de pixels (4 vezes a definição do Blu Ray e 24 vezes a de uma TV normal). Pelo que andam dizendo nos jornais, a técnica já chega a se equiparar a filmes produzidos em película de 35mm, com qualidade fotográfica.
Bom, eu tenho um pequeno grau de miopia e astigmatismo, e mesmo com meus óculos de lentes perenemente engorduradas, não consigo enxergar tanta definição assim. Ou seja, tanta tecnologia me parece tão relevante quanto comprar uma Ferrari em São Paulo: você gasta uma grana, não usa todo o potencial do produto por limitações técnicas, e só tem o benefício de se gabar para os amigos. Mas na verdade estou reclamando sem ter experimentado. Pelo que li nos jornais, a vantagem da tecnologia é que ela permite a definição da película de 35mm, sem o efeito de "flickering" da passagem entre frames e sem os chiados, riscos e defeitos da mídia física. E tem ainda uma outra vantagem bem palpável sobre o método anterior: a película precisa ser revelada e digitalizada para ser editada, e isso leva tempo. A tecnologia 4K permite que o cinegrafista grave a imagem e já a tenha pronta para edição em questão de minutos (desde que o computador aguente todo o processamento...).
Outros três assuntos me chamaram a atenção nessa edição do FILE, embora em menor intensidade.
O primeiro foi a presença de uma colega minha do curso de artes, Anaísa Franco. Formou-se do curso com um trabalho em arte eletrônica que misturava robótica, realidade virtual e internet, chamado Spiderrr. Não tenho certeza dos detalhes, mas lembro que a aranha em questão simbolizava agentes de busca online que vagam pela "teia" da web atrás de determinada informação. Gostaria muito de ver o quanto aquele trabalho evoluiu da forma primária que vi na faculdade. Mas ela trouxe outro trabalho para o FILE: uma peça intrigante e muito simbólica chamada Connected Memories. Tive alguma dificuldade de entender o inglês de Anaísa, mas entendi que a obra é composta de duas cabeças de acrílico cheias de equipamentos eletrônicos que conversam entre si. Sensíveis à luz, as cabeças reagem à presença de pessoas no recinto, emitindo luzes coloridas para representar emoções. Cada uma tem receptores Bluetooth, para que os visitantes transfiram para elas seus arquivos de imagem e som, que são reproduzidos por sistemas de voz sintética e TV e entram para a memória expansiva da obra, passando a fazer parte da conversa entre as duas cabeças. E, de certa forma, passando a fazer parte de uma conversa maior, entre todos os que entraram em contato com a obra. Não sei se Anaísa tem a noção completa da força da obra, que fala de globalização, da era da comunicação, mas também tem um quê de solidão, da dificuldade que as pessoas têm de transmitir os dados (conceitos, emoções, vontades) que estão dentro delas para dentro de outras pessoas. Ah, se todo mundo tivesse um receptor Bluetooth ligado no cérebro...
A segunda coisa que me chamou a atenção foi o FILE Innovation. Uma novidade na programação do Festival, o programa contempla obras que transitam entre a arte, a tecnologia, e a economia, procurando finalidades comercializáveis e práticas para as obras. Quem chegou a ler a minha monografia e a a hipótese de que toda arte não tem finalidade prática perceberá o quanto essas obras chegam perigosamente perto de anularem sua natureza de obras de arte. A discussão deve render boas reflexões sobre o assunto.
Por último, não tenho certeza desde quando, mas há algum tempo que o FILE vem divulgando jogos em suas edições. O site deste ano diz que o evento conta com 50 jogos eletrônicos experimentais e artísticos. E o que seriam jogos experimentais e artísticos? Isso é assunto para um próximo post...
Mas além desse experimento com grafite que tem roubado a cena, o Festival está cheio de outras coisas interessantes. O tema desse ano, explicitado pela imagem em vermelho berrante no início do site do Festival, gira em torno da inovação do cinema 4K, uma forma de altíssima definição de vídeo digital que produz imagens com mais de 8 milhões de pixels (4 vezes a definição do Blu Ray e 24 vezes a de uma TV normal). Pelo que andam dizendo nos jornais, a técnica já chega a se equiparar a filmes produzidos em película de 35mm, com qualidade fotográfica.
Bom, eu tenho um pequeno grau de miopia e astigmatismo, e mesmo com meus óculos de lentes perenemente engorduradas, não consigo enxergar tanta definição assim. Ou seja, tanta tecnologia me parece tão relevante quanto comprar uma Ferrari em São Paulo: você gasta uma grana, não usa todo o potencial do produto por limitações técnicas, e só tem o benefício de se gabar para os amigos. Mas na verdade estou reclamando sem ter experimentado. Pelo que li nos jornais, a vantagem da tecnologia é que ela permite a definição da película de 35mm, sem o efeito de "flickering" da passagem entre frames e sem os chiados, riscos e defeitos da mídia física. E tem ainda uma outra vantagem bem palpável sobre o método anterior: a película precisa ser revelada e digitalizada para ser editada, e isso leva tempo. A tecnologia 4K permite que o cinegrafista grave a imagem e já a tenha pronta para edição em questão de minutos (desde que o computador aguente todo o processamento...).
Outros três assuntos me chamaram a atenção nessa edição do FILE, embora em menor intensidade.
O primeiro foi a presença de uma colega minha do curso de artes, Anaísa Franco. Formou-se do curso com um trabalho em arte eletrônica que misturava robótica, realidade virtual e internet, chamado Spiderrr. Não tenho certeza dos detalhes, mas lembro que a aranha em questão simbolizava agentes de busca online que vagam pela "teia" da web atrás de determinada informação. Gostaria muito de ver o quanto aquele trabalho evoluiu da forma primária que vi na faculdade. Mas ela trouxe outro trabalho para o FILE: uma peça intrigante e muito simbólica chamada Connected Memories. Tive alguma dificuldade de entender o inglês de Anaísa, mas entendi que a obra é composta de duas cabeças de acrílico cheias de equipamentos eletrônicos que conversam entre si. Sensíveis à luz, as cabeças reagem à presença de pessoas no recinto, emitindo luzes coloridas para representar emoções. Cada uma tem receptores Bluetooth, para que os visitantes transfiram para elas seus arquivos de imagem e som, que são reproduzidos por sistemas de voz sintética e TV e entram para a memória expansiva da obra, passando a fazer parte da conversa entre as duas cabeças. E, de certa forma, passando a fazer parte de uma conversa maior, entre todos os que entraram em contato com a obra. Não sei se Anaísa tem a noção completa da força da obra, que fala de globalização, da era da comunicação, mas também tem um quê de solidão, da dificuldade que as pessoas têm de transmitir os dados (conceitos, emoções, vontades) que estão dentro delas para dentro de outras pessoas. Ah, se todo mundo tivesse um receptor Bluetooth ligado no cérebro...
A segunda coisa que me chamou a atenção foi o FILE Innovation. Uma novidade na programação do Festival, o programa contempla obras que transitam entre a arte, a tecnologia, e a economia, procurando finalidades comercializáveis e práticas para as obras. Quem chegou a ler a minha monografia e a a hipótese de que toda arte não tem finalidade prática perceberá o quanto essas obras chegam perigosamente perto de anularem sua natureza de obras de arte. A discussão deve render boas reflexões sobre o assunto.
Por último, não tenho certeza desde quando, mas há algum tempo que o FILE vem divulgando jogos em suas edições. O site deste ano diz que o evento conta com 50 jogos eletrônicos experimentais e artísticos. E o que seriam jogos experimentais e artísticos? Isso é assunto para um próximo post...
quarta-feira, julho 30, 2008
Grafite
Grande é o homem que consegue reconhecer que estava errado.
A Revista da Folha da semana passada trouxe na capa uma reportagem sobre grafiteiros e como eles estão sendo reconhecidos como artistas. De fato, até o dia 25 de Agosto, a fachada do TATE Modern em Londres permanecerá decorada com obras de diversos grafiteiros de vários países, incluíndo duas de brasileiros (uma da famosa dupla osgemeos e outra de alguém que se apelida Nunca).
O fato que deu base para a matéria da revista foi o pedido de desculpas do atual prefeito Gilberto Kassab, que chamou a dupla osgemeos para uma conversa depois que seu programa Cidade Limpa passou tinta cinza por cima de um grafite histórico de 680 metros na Avenida 23 de Maio. A obra continha contribuições de grafiteiros reconhecidos tanto no mainstream quanto no underground como Nina Pandolfo, osgemeos, Vitché e Herbert Baglion. A dupla de grafiteiros chamada para a conversa parece fazer a ponte entre uma técnica relegada às ruas, considerada coisa de marginal, e a sociedade de status das galerias de arte e instituições governamentais. Deixaram de ser moleques, ganham a vida com isso de forma madura e foram provavelmente a escolha mais sensata para conversar com o prefeito.
Já a atitude da prefeitura foi o mais estereotipado possível: passar o cinza, a cor da poluição e da apatia, por cima de uma obra cheia de cor e expressividade. Entusiastas da semiótica teriam orgasmos em cima disso...
Mas escrevi a primeira frase deste post não para falar do Kassab, mas de fato para falar de mim mesmo.
Minha turma da faculdade de arte era composta de pouco mais de 40 pessoas, e uma minoria de homens. Dessa minoria, exceto por mim e outro rapaz, os outros eram todos grafiteiros ou simpatizantes do assunto. Eu os enxergava com o desdém de quem nasceu em família de classe alta, o preconceito academicista de quem praticava pintura de cavalete. O preconceito estereotipado de achar que eles eram arruaceiros de pouca inteligência. E a raiva de perceber que o grafiteiro-mor da classe, Giuliano Montijo,era premiado com bolsas de estudo em todas as exposições anuais da faculdade.
Pausa para traçar um paralelo com a história.
O rock, especialmente nas vertentes do fim do século XX, também era considerado coisa de arruaceiros acéfalos. Principalmente por ignorar as convenções do que era considerada boa música na época e permitir a exisência de movimentos como o punk já mencionado por aqui, onde não era preciso saber tocar para ter uma banda. Mas por ser extremamente popular, o estilo continuou existindo e evoluíndo até chegar na forma respeitada de hoje. Em parte porque seus expoentes desenvolveram, ao longo do tempo e da prática, suas próprias convenções do que é considerada boa música. E em parte porque existem a tanto tempo que não é possível ignorá-los como parte da história da música. Bom ou ruim, é o que a maioria das pessoas estava escutando durante metade do século passado e isso por si só já representa uma era.
O grafite já passa pelo mesmo processo. A estética já é tão desenvolvida que as pessoas no meio publicitário procuram um visual relacionado ao movimento para falar de coisas populares. Fala-se de uma "cara de grafite". E lembro de conversas entre os grafiteiros do curso de artes, que conseguiam reconhecer o estilo deste ou daquele colega por minúcias estilísticas.
Não é possível negar que o mesmo paralelo acontece no quesito histórico. Alguns painéis existem desde tempo imemoriais, como o que foi apagado na 23 de Maio. Provavelmente figuram em fotos históricas da cidade. E por serem fruto de pessoas que têm esse contato direto com a rua e a realidade da cidade, provavelmente dizem muito mais sobre o contexto histórico e com muito mais propriedade e sentimento do que qualquer pintura de cavalete produzida por um filho de classe alta, preconceituoso e isolado como eu.
Aos meus colegas de classe e aos grafiteiros em geral, minhas desculpas.
A Revista da Folha da semana passada trouxe na capa uma reportagem sobre grafiteiros e como eles estão sendo reconhecidos como artistas. De fato, até o dia 25 de Agosto, a fachada do TATE Modern em Londres permanecerá decorada com obras de diversos grafiteiros de vários países, incluíndo duas de brasileiros (uma da famosa dupla osgemeos e outra de alguém que se apelida Nunca).
O fato que deu base para a matéria da revista foi o pedido de desculpas do atual prefeito Gilberto Kassab, que chamou a dupla osgemeos para uma conversa depois que seu programa Cidade Limpa passou tinta cinza por cima de um grafite histórico de 680 metros na Avenida 23 de Maio. A obra continha contribuições de grafiteiros reconhecidos tanto no mainstream quanto no underground como Nina Pandolfo, osgemeos, Vitché e Herbert Baglion. A dupla de grafiteiros chamada para a conversa parece fazer a ponte entre uma técnica relegada às ruas, considerada coisa de marginal, e a sociedade de status das galerias de arte e instituições governamentais. Deixaram de ser moleques, ganham a vida com isso de forma madura e foram provavelmente a escolha mais sensata para conversar com o prefeito.
Já a atitude da prefeitura foi o mais estereotipado possível: passar o cinza, a cor da poluição e da apatia, por cima de uma obra cheia de cor e expressividade. Entusiastas da semiótica teriam orgasmos em cima disso...
Mas escrevi a primeira frase deste post não para falar do Kassab, mas de fato para falar de mim mesmo.
Minha turma da faculdade de arte era composta de pouco mais de 40 pessoas, e uma minoria de homens. Dessa minoria, exceto por mim e outro rapaz, os outros eram todos grafiteiros ou simpatizantes do assunto. Eu os enxergava com o desdém de quem nasceu em família de classe alta, o preconceito academicista de quem praticava pintura de cavalete. O preconceito estereotipado de achar que eles eram arruaceiros de pouca inteligência. E a raiva de perceber que o grafiteiro-mor da classe, Giuliano Montijo,era premiado com bolsas de estudo em todas as exposições anuais da faculdade.
Pausa para traçar um paralelo com a história.
O rock, especialmente nas vertentes do fim do século XX, também era considerado coisa de arruaceiros acéfalos. Principalmente por ignorar as convenções do que era considerada boa música na época e permitir a exisência de movimentos como o punk já mencionado por aqui, onde não era preciso saber tocar para ter uma banda. Mas por ser extremamente popular, o estilo continuou existindo e evoluíndo até chegar na forma respeitada de hoje. Em parte porque seus expoentes desenvolveram, ao longo do tempo e da prática, suas próprias convenções do que é considerada boa música. E em parte porque existem a tanto tempo que não é possível ignorá-los como parte da história da música. Bom ou ruim, é o que a maioria das pessoas estava escutando durante metade do século passado e isso por si só já representa uma era.
O grafite já passa pelo mesmo processo. A estética já é tão desenvolvida que as pessoas no meio publicitário procuram um visual relacionado ao movimento para falar de coisas populares. Fala-se de uma "cara de grafite". E lembro de conversas entre os grafiteiros do curso de artes, que conseguiam reconhecer o estilo deste ou daquele colega por minúcias estilísticas.
Não é possível negar que o mesmo paralelo acontece no quesito histórico. Alguns painéis existem desde tempo imemoriais, como o que foi apagado na 23 de Maio. Provavelmente figuram em fotos históricas da cidade. E por serem fruto de pessoas que têm esse contato direto com a rua e a realidade da cidade, provavelmente dizem muito mais sobre o contexto histórico e com muito mais propriedade e sentimento do que qualquer pintura de cavalete produzida por um filho de classe alta, preconceituoso e isolado como eu.
Aos meus colegas de classe e aos grafiteiros em geral, minhas desculpas.
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