À medida em que a vida vai adquirindo contornos mais sérios, eu vou tendo menos tempo pra escrever por aqui. Questão de escolher de maneira sóbria quais são as suas bolas de golfe e o que é a areia [1]. O blog ainda está longe de terminar. Ele é parte intrínseca da minha presença virtual, de quem eu sou no mundo real também. Mas com certeza, eu já percebi que nesse ano, como dizia a Chebel, "I need to be living, not internerding...".
Mas vamos ao que interessa. Janeiro está quase na metade e eu ainda não fiz o balanço do ano passado. Um ano que dificilmente será superado (eu já não disse isso?), onde eu...
• ...estruturei muito melhor tudo o que eu pensava do Masculismo [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...comecei a encontrar pontos onde, apesar de diferentes, as compreensões do masculino dos ingleses e a minha se encontravam. [1]
• ...observei ativistas, protestantes e gente alternativa de verdade com visões de mundo e ideologias muito interessantes. [1][2][
• ...recebi gente lá em Londres para afastar a minha saudade. [1]
• ...conheci uma turma que não estava nem totalmente do lado masculino e nem do feminino. E estava vivendo perfeitamente bem com isso! [1][2][3][4][5]
• ...fiz vários vídeos! [1][2][3][4]
• ...percebi as crises, incoerências e o caos da faculdade em Londres. Quando a academia vira empresa, o caos se instala. Seja em que país for! [1][2]
• ...convivi com gente nova, estranha, estressante e interessante. [1][2]
• ...observei os "odds and ends" de Londres. [1][2][3]
• ...coloquei meu trabalho para inglês ver! [1][2][3][4]
• ...aproveitei que ninguém me conhecia tanto assim em Londres para ousar, dando início a uma mudança sorrateira de personalidade em direção a algo mais sexualmente ambíguo [1][2][3][4][5]
• ...visitei a Romênia, à procura do lendário e do verdadeiro conde Drácula! Aproveitei para aprender um nada de romeno. [1]
• ...comecei a cair na real em relação a ser artista, ao mercado e à academia, ao meu futuro. [1][2]
• ...me envolvi com o catálogo da turma, uma responsabilidade cheia de dor e de delícia. [1][2]
• ...assisti bem de perto à Europa entrando em crise. [1]
• ...tive que deixar a rotina gostosa de um lugar onde eu fui realmente muito feliz por um ano, para voltar ao meu país de origem e me readaptadar a estar entre conhecidos novamente. [1][2][3]
• ...tive meus choques culturais, desgostos nativos e pequenas frustrações de volta no meu país. A vida aqui jamais será a vida de lá. [1][2][3][4]
E o que será de 2012?
O ano promete muito. E embora esse muito seja muito trabalho e muitas obrigações, são também muitas possibilidades, muito gosto de vida adulta. Se tudo correr bem, será um ano em que eu...
• ...colocarei um pouco de lado as megalomanias da adolescência, o sonho não realizado e atualmente muito questionado de virar artista plástico de carreira.
• ...começarei a dar aulas de educação artística no meu saudoso Colégio Bandeirantes.
• ...investirei mais e melhor na carreira de idiomas.
• ...finalmente sairei da casa dos pais para ter o meu lugarzinho!
• ...continuarei interessado nas questões masculinas e nas ambiguidades de gênero, tentando levar uma vida que seja fiel à ideologia.
• ...voltarei brevemente à minha Londres para a cerimônia de graduação do mestrado.
• ...viajarei mais com a minha Lexy!
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
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terça-feira, janeiro 10, 2012
terça-feira, dezembro 20, 2011
Cabaret Paulista
Como parte da minha tentativa de manter os hábitos e deleites londrinos por aqui, estive ontem no Cabaret Paulista: uma noite de apresentações burlescas que fazem parte do Projeto Luxúria. O Luxúria é idealizado por Heitor Werneck, ex-estilista e atual empresário de entretenimento alternativo em São Paulo. Por aqui, ele é único, alternativo, esquisito. Por lá, ele seria mais um naquele submundo freak.
Andei lendo que ele de fato baseou o Luxúria no famoso Torture Garden de Londres, o projeto a cujas festas eu fui em Brixton. As festas do TG eram divididas em diversos ambientes, com apresentações burlescas em um lado, a discoteca em outro, e muitos divertimentos estranhos espalhados em diversas salas. A impressão que eu tive era de que o Cabaret Paulista era uma versão light do TG, apenas com as apresentações burlescas. Tanto é que o rígido "dresscode" imposto à clientela nem foi seguido à risca, e a maioria do pessoal apareceu de camisetinha polo e calça jeans. Mas justamente por ser uma versão light, achei que seria o adequado para começar, e como uma primeira experiência para levar minha Lexy.
O veredito? Ainda darei uma chance às festas completas do Luxúria, mas o Cabaret me deixou um tanto desapontado. O apresentador, uma drag queen rotunda, fez o que pode para animar a noite, mas sofreu um pouco com a falta de organização e a demora dos performers em se aprontarem. A maioria dos números parecia altamente improvisada, mas não de uma maneira boa, como eu tinha visto improvisarem por lá. É difícil explicar o que incomodou, mas não foram só coisas como o artista de shibari (técnica de amarração e imobilização com cordas) não conseguir desatar sua vítima no fim do número ou o cara da dupla de pole dancing escorregar e cair na cabeça da moça. Números corretamente ensaiados e apresentados como os da performer Mouse e do Equador, the Wizard ainda estão distantes de aparecerem por aqui (prova disso é que eu sequer lembro do nome de nenhum dos performers de ontem...). Mas isso não me incomodaria tanto mesmo se a galera de Londres errasse.
O que faltou foi um pouco mais de seriedade e de gente que acreditasse em si mesma. A questão do "dresscode" já mostrava que ninguém, nem mesmo a clientela, estava levando a coisa muito a sério (tá certo, isto é uma diversão, mas pra que a coisa funcione, precisa de um mínimo de cooperação da galera) e que todo mundo tinha um certo medo de ser julgado, de estar gordo, feio, ridículo. Muitos dos performers pareciam estar tentando imitar algum ídolo em vez de confiarem no próprio corpo e conhecerem seus movimentos. Quiçá a coisa ficasse menos feia (embora também menos pro meu gosto) se alguém aparecesse lá para mostrar uma performance burlesca que misturasse samba, mulatas, forró e outras brasilidades. Pelo menos os performers teriam mais jeito e mais veracidade.
Veracidade. Talvez seja essa a palavra. Em Londres, mesmo em um ambiente tão fantasioso quanto as boates de fetish, havia uma sensação de veracidade. Eles eram de fato aquilo. Por aqui, no meio da noite, quando o performer de tecido agitou os panos para tentar dar um desnecessário efeito dramático, me peguei pensando: "parecemos macacos imitando o homem branco europeu".
Os melhores da noite ficaram por conta de uma garota que, apesar de imitar a antiga "dança dos leques" e não fazer nada de tão original, sabia muito bem vestir e usar o corpo rechonchudo; e o cantor que entoava Elis Regina e Cazuza com uma bela voz (novamente nada de novo), mas sabia mover o corpo esguio e abusar dos trejeitos afeminados.
Ainda estou curioso a respeito da festa do Projeto Luxúria. Curioso pra saber se o pessoal de fato vai vestido como se deve, se os organizadores de fato barram quem não entra na brincadeira, se rolam tantas loucuras quanto as que rolavam em Londres, se há menos macacos e mais pessoas. Mas não vou com muitas esperanças. Como andei escrevendo por aqui, a experiência que eu tenho do meu próprio povo é bem diferente da imagem libidinosa que temos no exterior. E a experiência no Cabaret Paulista só fez confirmar essa percepção.
No entanto, não posso deixar de terminar o post com uma nota favorável para o organizador Heitor Werneck. Como de costume com essas pessoas, o visual intimidante e altamente expressivo esconde uma pessoa amabilíssima, muito solícita, aparentemente muito culta em relação a esse mundo, e que apenas trabalha arduamente para vê-lo florescer aqui, com a mesmaa força que tem por lá. Tomara que consiga.
Andei lendo que ele de fato baseou o Luxúria no famoso Torture Garden de Londres, o projeto a cujas festas eu fui em Brixton. As festas do TG eram divididas em diversos ambientes, com apresentações burlescas em um lado, a discoteca em outro, e muitos divertimentos estranhos espalhados em diversas salas. A impressão que eu tive era de que o Cabaret Paulista era uma versão light do TG, apenas com as apresentações burlescas. Tanto é que o rígido "dresscode" imposto à clientela nem foi seguido à risca, e a maioria do pessoal apareceu de camisetinha polo e calça jeans. Mas justamente por ser uma versão light, achei que seria o adequado para começar, e como uma primeira experiência para levar minha Lexy.
O veredito? Ainda darei uma chance às festas completas do Luxúria, mas o Cabaret me deixou um tanto desapontado. O apresentador, uma drag queen rotunda, fez o que pode para animar a noite, mas sofreu um pouco com a falta de organização e a demora dos performers em se aprontarem. A maioria dos números parecia altamente improvisada, mas não de uma maneira boa, como eu tinha visto improvisarem por lá. É difícil explicar o que incomodou, mas não foram só coisas como o artista de shibari (técnica de amarração e imobilização com cordas) não conseguir desatar sua vítima no fim do número ou o cara da dupla de pole dancing escorregar e cair na cabeça da moça. Números corretamente ensaiados e apresentados como os da performer Mouse e do Equador, the Wizard ainda estão distantes de aparecerem por aqui (prova disso é que eu sequer lembro do nome de nenhum dos performers de ontem...). Mas isso não me incomodaria tanto mesmo se a galera de Londres errasse.
O que faltou foi um pouco mais de seriedade e de gente que acreditasse em si mesma. A questão do "dresscode" já mostrava que ninguém, nem mesmo a clientela, estava levando a coisa muito a sério (tá certo, isto é uma diversão, mas pra que a coisa funcione, precisa de um mínimo de cooperação da galera) e que todo mundo tinha um certo medo de ser julgado, de estar gordo, feio, ridículo. Muitos dos performers pareciam estar tentando imitar algum ídolo em vez de confiarem no próprio corpo e conhecerem seus movimentos. Quiçá a coisa ficasse menos feia (embora também menos pro meu gosto) se alguém aparecesse lá para mostrar uma performance burlesca que misturasse samba, mulatas, forró e outras brasilidades. Pelo menos os performers teriam mais jeito e mais veracidade.
Veracidade. Talvez seja essa a palavra. Em Londres, mesmo em um ambiente tão fantasioso quanto as boates de fetish, havia uma sensação de veracidade. Eles eram de fato aquilo. Por aqui, no meio da noite, quando o performer de tecido agitou os panos para tentar dar um desnecessário efeito dramático, me peguei pensando: "parecemos macacos imitando o homem branco europeu".
Os melhores da noite ficaram por conta de uma garota que, apesar de imitar a antiga "dança dos leques" e não fazer nada de tão original, sabia muito bem vestir e usar o corpo rechonchudo; e o cantor que entoava Elis Regina e Cazuza com uma bela voz (novamente nada de novo), mas sabia mover o corpo esguio e abusar dos trejeitos afeminados.
Ainda estou curioso a respeito da festa do Projeto Luxúria. Curioso pra saber se o pessoal de fato vai vestido como se deve, se os organizadores de fato barram quem não entra na brincadeira, se rolam tantas loucuras quanto as que rolavam em Londres, se há menos macacos e mais pessoas. Mas não vou com muitas esperanças. Como andei escrevendo por aqui, a experiência que eu tenho do meu próprio povo é bem diferente da imagem libidinosa que temos no exterior. E a experiência no Cabaret Paulista só fez confirmar essa percepção.
No entanto, não posso deixar de terminar o post com uma nota favorável para o organizador Heitor Werneck. Como de costume com essas pessoas, o visual intimidante e altamente expressivo esconde uma pessoa amabilíssima, muito solícita, aparentemente muito culta em relação a esse mundo, e que apenas trabalha arduamente para vê-lo florescer aqui, com a mesmaa força que tem por lá. Tomara que consiga.
sexta-feira, dezembro 31, 2010
Balanço de 2010
O bom do meu estilo de vida atual é que possuo poucas coisas. Tudo cabe nesse diminuto quarto/banheiro em Londres. Então a organização anual de reveillon que normalmente durava uma semana toda, desta vez durou dois dias. Organizar finanças, liberar espeço no computador, fazer o balanço do ano.
Eis os highlights deste ano em que eu...
• ...continuei a série de pinturas sobre o TBC [1][2][3][4][5][6][7][8]
• ...fiz meus primeiros grafites (justo eu, quem diria...) [1][2][3]
• ...passei a viver dos meus idiomas e meu gosto pelas palavras [1]
• ...continuei a perceber sexismos inversos [1]
• ... me aprofundei nas minhas questões iniciais do Masculismo [1]
• ... me revoltei com o trânsito paulista [1][2][3]
• ...achei exemplos da discussão masculista por aí [1][2][3][4]
• ...embarquei em uma viagem que ainda definirá muita coisa [1][2]
• ...conheci muita gente nova [1][2][3][4]
• ...comecei o mestrado, com as palestras instigantes do professor Cussans [1][2][3]
• ...senti as diferenças da questão masculista na América e na Europa [1]
• ...me envolvi na política local [1][2][3][4][5]
• ...anotei algumas particularidades de Londres [1][2][3][4]
• ...fiquei sabendo mais sobre vampiros, de fontes confiáveis [1]
• ...passei pelo choque dos meus primeiros tutoriais e expurguei demônios sobrevivendo à Dawn Mellor [1][2][3]
• ...passei a considerar fazer arte mais ligada à realidade cotidiana [1][2]
• ...recebi minha menina em Londres, para duas semanas que ficarão na memória para sempre (the Limbo of Perfect Winter?)
• ...tive mais contato com a neve [1]
• ...passei um Dezembro melancólico e solitário [1]
E para o próximo ano, pretendo...
• ...terminar o mestrado com uma noção clara da minha arte e de para onde seguir depois disso.
• ...continuar aprendendo a viver sozinho, cuidar de mim e de onde eu vivo.
• ...chegar a posições mais maduras sobre o Masculismo e outras políticas.
• ...expor minhas coisas na Europa, tanto quanto for possível!
Eis os highlights deste ano em que eu...
• ...continuei a série de pinturas sobre o TBC [1][2][3][4][5][6][7][8]
• ...fiz meus primeiros grafites (justo eu, quem diria...) [1][2][3]
• ...passei a viver dos meus idiomas e meu gosto pelas palavras [1]
• ...continuei a perceber sexismos inversos [1]
• ... me aprofundei nas minhas questões iniciais do Masculismo [1]
• ... me revoltei com o trânsito paulista [1][2][3]
• ...achei exemplos da discussão masculista por aí [1][2][3][4]
• ...embarquei em uma viagem que ainda definirá muita coisa [1][2]
• ...conheci muita gente nova [1][2][3][4]
• ...comecei o mestrado, com as palestras instigantes do professor Cussans [1][2][3]
• ...senti as diferenças da questão masculista na América e na Europa [1]
• ...me envolvi na política local [1][2][3][4][5]
• ...anotei algumas particularidades de Londres [1][2][3][4]
• ...fiquei sabendo mais sobre vampiros, de fontes confiáveis [1]
• ...passei pelo choque dos meus primeiros tutoriais e expurguei demônios sobrevivendo à Dawn Mellor [1][2][3]
• ...passei a considerar fazer arte mais ligada à realidade cotidiana [1][2]
• ...recebi minha menina em Londres, para duas semanas que ficarão na memória para sempre (the Limbo of Perfect Winter?)
• ...tive mais contato com a neve [1]
• ...passei um Dezembro melancólico e solitário [1]
E para o próximo ano, pretendo...
• ...terminar o mestrado com uma noção clara da minha arte e de para onde seguir depois disso.
• ...continuar aprendendo a viver sozinho, cuidar de mim e de onde eu vivo.
• ...chegar a posições mais maduras sobre o Masculismo e outras políticas.
• ...expor minhas coisas na Europa, tanto quanto for possível!
quarta-feira, novembro 17, 2010
No ifs, no buts...
Já faz uma semana que aconteceu.
A faculdade tinha até dado o aval a seus alunos para faltarem nas aulas do dia sem maiores consequências. Todos nos dirigimos a Trafalgar para fazer parte do protesto contra os cortes de orçamento propostos pelo chamdo Browne Review e que fazem parte de um esquema de cortes ainda maior propostos pelo primeiro ministro David Cameron. Se aprovado, o Browne Review faria os preços de cursos universitários terem um acréscimo de £1000 em todos os cursos (e muito mais do que isso para estudantes estrangeiros), afetando principalmente cursos de comunicação e artes, por não serem considerados "cursos sérios". As consequências desse acréscimo aumentariam ainda mais o elitismo na Inglaterra, já que cada vez menos pessoas de classes inferiores teriam acesso à educação superior. Os partidos a favor da questão alegavam que as universidades geravam um custo que deveria ser pago de alguma forma e não seria barato se o país quisesse ter excelência em educação. Enquanto isso, ativistas contra-argumentavam que as empresas britânicas geravam £8 bilhões e podiam arcar com um pouco menos de isenções fiscais para custear o futuro da nação.
Em Trafalgar, o impacto negativo dessas medidas já podia ser visto pela quantidade de alunos chegando de todos os cantos do país para protestar. Cerca de 50.000 estudantes estavam lá, desde as faculdades locais como a minha, até gente de faculdades do norte da Inglaterra, chegando em ônibus fretado. Todos carregavam placas com dizeres que misturavam humor e ódio. Juntando-se em Trafalgar, marchariam por Whitehall até o parlamento (ao lado do Big Ben), para demonstrar a quantidade de alunos que eram contra os cortes.
Ao som de lemas como o "No ifs, no buts, no education cuts" ou "when they say 'cut back', we say 'fight back'", começamos a marcha. Acredito que todos tivessem uma boa idéia do que aquilo significava, mas ainda assim, era possível ver tipos bem específicos na multidão. A grande maioria eram adolescentes que, mais do que defenderem a causa, não queriam perder a festa ou o momento histórico. Queriam dizer "eu estive lá". Tá bom, eu era um desses... Havia outros, os 'protestantes profissionais', punks e anarquistas que já estiveram em outras situações destas e não perdiam a chance de "subverter o sistema", qualquer que ele fosse. E havia ainda a velha-guarda dos protestantes. Gente que hoje vestia terno e gravata e tinha emprego bem-pago, mas que ao ver uma cena destas, lembrava de seus dias de roupas surradas e rebeldia. Uma destas, uma típica velhinha inglesa, aproximou-se de mim e meus colegas e disse que gostaria muito de ver esta multidão invadindo o parlamento. Se o fizéssemos, ela pedia que esganássemos um político por ela...
A marcha transcorreu tranquilamente, na medida do possível. Claro, com rompantes de vandalismo que os serviços públicos de Londres já esperavam, mas sem violência. Muito bem-humorada até o parlamento, a marcha durou umas duas horas ou mais.
Mas então, quando eu já havia dado o protesto por encerrado e estava deixando o local com Emily e os amigos que eu encontrara na passeata, meu olho pegou um movimento estranho: os anarquistas e punks faziam um ataque surpresa inesperado à sede do partido Liberal Democrata, liderado por Nick Clegg, que havia prometido votar contra qualquer mudança nos subsídios para faculdades e estava lentamente mudando de idéia após seus ministros serem eleitos. Por essa traição, eram candidatos óbvios para o ódio dos alunos, ainda que porta-vozes da polícia tivessem dito que não esperavam que o protesto se tornasse violento. Mas diante do forte esquema de segurança na entrada do prédio, os protestantes desistiram, voltando sua atenção para outra vítima menos protegida: a Millbank Tower, sede do partido Conservador que apoiava a medida.
O prédio dava vontade de vandalisar: vidro de cima a baixo, uma recepção bem desprotegida e uma praça logo em frente. Um grupo de 200 estudantes conseguiu quebrar as janelas da entrada a chutes e invadir a recepção antes que a polícia especial pudesse chegar no local. Em questão de 15 minutos, a festa estava armada: mais de mil alunos se paertavam na pracinha em frente, em volta de duas fogueiras feitas com placas de protesto. A polícia entrava em formação na porta do edifício, mas era tudo só pró-forma: eles estavam em um número infinitamente menor e sem preparo algum para o ataque inesperado, não podendo fazer nada contra a onda de estudantes que achavam maneiras cada vez mais criativas de entrar no prédio de multiplos acessos.
Não demorou muito até vermos os primeiros alunos aparecendo no topo do prédio. Apesar de tentadora, me abstive da brincadeira por imaginar o que aconteceria comigo, um estudante estrangeiro, se eu tivesse problemas com a polícia. E eu sabia que haveria problemas. Soube ao ver os primeiros estudantes e policiais sangrando. E tive certeza ao ver um dos estudantes jogar um extintor de incêndio do alto do prédio nos policiais lá embaixo (e sendo vaiado pela multidão, que clamava "stop throwing shit!"). Temi ao ver os casacos amarelo-fosforescentes dos policiais londrinos formando um cordão de isolamento ao redor da praça, na estratégia que eles chamam de kettling (e falhando miseravelmente por causa da quantidade de gente que eles tentavam conter). Mas no geral, tudo era excitante e divertido o suficiente para que eu não quisesse ir embora. Mais tarde, os jornais britânicos chamariam isso de um dos maiores protestos estudantis da década. E eu estava lá.
Ainda é cedo para saber se o que foi chamado previamente de Demolition 10-11-10 conseguirá fazer com que os cortes na educação sejam abolidos ou não. Ouvi dizer que há outro protesto sendo organizado no dia 24, e que os protestos continuarão em ondas sucessivas até o fim do ano, quando saberemos se a medida será aceita ou recusada.
Pra mim no entanto, uma coisa ficou bem clara: não havia hora melhor para ter aceitado pagar por este mestrado...
Imagens do protesto podem ser vistas no site do Guardian e no meu perfil do Facebook.
A faculdade tinha até dado o aval a seus alunos para faltarem nas aulas do dia sem maiores consequências. Todos nos dirigimos a Trafalgar para fazer parte do protesto contra os cortes de orçamento propostos pelo chamdo Browne Review e que fazem parte de um esquema de cortes ainda maior propostos pelo primeiro ministro David Cameron. Se aprovado, o Browne Review faria os preços de cursos universitários terem um acréscimo de £1000 em todos os cursos (e muito mais do que isso para estudantes estrangeiros), afetando principalmente cursos de comunicação e artes, por não serem considerados "cursos sérios". As consequências desse acréscimo aumentariam ainda mais o elitismo na Inglaterra, já que cada vez menos pessoas de classes inferiores teriam acesso à educação superior. Os partidos a favor da questão alegavam que as universidades geravam um custo que deveria ser pago de alguma forma e não seria barato se o país quisesse ter excelência em educação. Enquanto isso, ativistas contra-argumentavam que as empresas britânicas geravam £8 bilhões e podiam arcar com um pouco menos de isenções fiscais para custear o futuro da nação.
Em Trafalgar, o impacto negativo dessas medidas já podia ser visto pela quantidade de alunos chegando de todos os cantos do país para protestar. Cerca de 50.000 estudantes estavam lá, desde as faculdades locais como a minha, até gente de faculdades do norte da Inglaterra, chegando em ônibus fretado. Todos carregavam placas com dizeres que misturavam humor e ódio. Juntando-se em Trafalgar, marchariam por Whitehall até o parlamento (ao lado do Big Ben), para demonstrar a quantidade de alunos que eram contra os cortes.
Ao som de lemas como o "No ifs, no buts, no education cuts" ou "when they say 'cut back', we say 'fight back'", começamos a marcha. Acredito que todos tivessem uma boa idéia do que aquilo significava, mas ainda assim, era possível ver tipos bem específicos na multidão. A grande maioria eram adolescentes que, mais do que defenderem a causa, não queriam perder a festa ou o momento histórico. Queriam dizer "eu estive lá". Tá bom, eu era um desses... Havia outros, os 'protestantes profissionais', punks e anarquistas que já estiveram em outras situações destas e não perdiam a chance de "subverter o sistema", qualquer que ele fosse. E havia ainda a velha-guarda dos protestantes. Gente que hoje vestia terno e gravata e tinha emprego bem-pago, mas que ao ver uma cena destas, lembrava de seus dias de roupas surradas e rebeldia. Uma destas, uma típica velhinha inglesa, aproximou-se de mim e meus colegas e disse que gostaria muito de ver esta multidão invadindo o parlamento. Se o fizéssemos, ela pedia que esganássemos um político por ela...
A marcha transcorreu tranquilamente, na medida do possível. Claro, com rompantes de vandalismo que os serviços públicos de Londres já esperavam, mas sem violência. Muito bem-humorada até o parlamento, a marcha durou umas duas horas ou mais.
Mas então, quando eu já havia dado o protesto por encerrado e estava deixando o local com Emily e os amigos que eu encontrara na passeata, meu olho pegou um movimento estranho: os anarquistas e punks faziam um ataque surpresa inesperado à sede do partido Liberal Democrata, liderado por Nick Clegg, que havia prometido votar contra qualquer mudança nos subsídios para faculdades e estava lentamente mudando de idéia após seus ministros serem eleitos. Por essa traição, eram candidatos óbvios para o ódio dos alunos, ainda que porta-vozes da polícia tivessem dito que não esperavam que o protesto se tornasse violento. Mas diante do forte esquema de segurança na entrada do prédio, os protestantes desistiram, voltando sua atenção para outra vítima menos protegida: a Millbank Tower, sede do partido Conservador que apoiava a medida.
O prédio dava vontade de vandalisar: vidro de cima a baixo, uma recepção bem desprotegida e uma praça logo em frente. Um grupo de 200 estudantes conseguiu quebrar as janelas da entrada a chutes e invadir a recepção antes que a polícia especial pudesse chegar no local. Em questão de 15 minutos, a festa estava armada: mais de mil alunos se paertavam na pracinha em frente, em volta de duas fogueiras feitas com placas de protesto. A polícia entrava em formação na porta do edifício, mas era tudo só pró-forma: eles estavam em um número infinitamente menor e sem preparo algum para o ataque inesperado, não podendo fazer nada contra a onda de estudantes que achavam maneiras cada vez mais criativas de entrar no prédio de multiplos acessos.
Não demorou muito até vermos os primeiros alunos aparecendo no topo do prédio. Apesar de tentadora, me abstive da brincadeira por imaginar o que aconteceria comigo, um estudante estrangeiro, se eu tivesse problemas com a polícia. E eu sabia que haveria problemas. Soube ao ver os primeiros estudantes e policiais sangrando. E tive certeza ao ver um dos estudantes jogar um extintor de incêndio do alto do prédio nos policiais lá embaixo (e sendo vaiado pela multidão, que clamava "stop throwing shit!"). Temi ao ver os casacos amarelo-fosforescentes dos policiais londrinos formando um cordão de isolamento ao redor da praça, na estratégia que eles chamam de kettling (e falhando miseravelmente por causa da quantidade de gente que eles tentavam conter). Mas no geral, tudo era excitante e divertido o suficiente para que eu não quisesse ir embora. Mais tarde, os jornais britânicos chamariam isso de um dos maiores protestos estudantis da década. E eu estava lá.
Ainda é cedo para saber se o que foi chamado previamente de Demolition 10-11-10 conseguirá fazer com que os cortes na educação sejam abolidos ou não. Ouvi dizer que há outro protesto sendo organizado no dia 24, e que os protestos continuarão em ondas sucessivas até o fim do ano, quando saberemos se a medida será aceita ou recusada.
Pra mim no entanto, uma coisa ficou bem clara: não havia hora melhor para ter aceitado pagar por este mestrado...
Imagens do protesto podem ser vistas no site do Guardian e no meu perfil do Facebook.
segunda-feira, novembro 15, 2010
Aniversário
Os ingleses me surpreenderam com um aniversário memorável.
Eu estava perfeitamente convencido de que seria um aniversário solitário depois que a minha posição controversa no mestrado teria me tornado um pária artístico. Ainda assim, mandei uma tímida mensagem no Facebook convidando meus colegas para o Grosvenor.
Tratava-se de um pub perto da faculdade, onde passávamos o fim do dia tentando não falar mais de arte (e falhando miseravelmente na tentativa...). Uma das meninas trabalhava por lá, o que melhorava bastante nosso relacionamento com Paul, o gerente. Mas no geral, o pub era simplesmente uma delícia.
Obviamente, convidei meus colegas de apartamento também. Estávamos nos entendendo maravilhosamente bem, embora cada um tivesse gostos variados e eu me sentisse meio idoso perto das baladas psicotrópicas deles. Mas imaginei que, se o aniversário fosse realmente ignorado pelos colegas do mestrado, eles com certeza fariam tudo mais suportável.
E obviamente não seria justo deixar de mencionar minha Lexy, que viera até aqui só para passar o aniversário (e suas merecidas férias) comigo. Trouxera na bagagem um monte de pequenas idéias suas e presentes da família, que me ajudaram a não me sentir esquecido por aqui.
As coisas começaram a parecer mais otimistas na noite da véspera. Um cartãozinho singelo escorregou por debaixo da minha porta. Era Emily desejando-me o meu primeiro feliz aniversário do dia. Passei o dia com minha menina e assistindo a uma palestra na faculdade, onde não senti muita confirmação dos meus colegas a respeito daquela noite no Grosvenor.
Quando chegou a hora de ir para o pub, a turma do apartamento estava naquela bagunça: vários faltando, outros longe de estarem prontos. Começaram a sugerir que eu fosse na frente e que eles me encontrariam por lá (na verdade, mal sabiam onde era "lá"...). Ouvindo a conversa, eu começava a me acostumar com a idéia de que passaria este aniversário bebendo no canto, só eu e a Lexy.
E então meu celular tocou: era Kristian, o norueguês que se tornara representante da turma, perguntando-me onde eu estava, já que havia umas dez pessoas no bar.
No fim das contas, a noite deu muito certo. Uns bons amigos do curso estavam lá, divertindo-se com os chapéus de festa que Lexy trouxera; metade da turma do apartamento apareceu com flores de presente e a noite teve aquele gosto de perfeição. O gerente do pub, vendo toda essa turma na mesa, deu-nos champagne de graça e não me deixou pagar o sanduíche que pedi com a Lexy. Mostrou-se um dos ingleses mais acolhedores que conheci.
Mas uma das surpresas mais tocantes da Europa foram as ausências. Quando voltei do pub, Lu'ay deixara uma garrafa de vinho à minha porta com um bilhete de feliz aniversário desculpando-se pela ausência. No Facebook, alguns colegas do mestrado deixaram notas dando alguma satisfação (coisa que dificilmente aconteceria de parte dos meus conterraneos). Finalmente Emily, apesar do cartão de aniversário, correu à porta ao ouvir-me entrar no dia seguinte, cheia de pedidos de desculpa por não poder estar lá. Mostrava-me um respeito que dificilmente um adulto teria de um adolescente na minha cultura.
Era consideração. Apenas issso e nada mais. E valia muito.
Eu estava perfeitamente convencido de que seria um aniversário solitário depois que a minha posição controversa no mestrado teria me tornado um pária artístico. Ainda assim, mandei uma tímida mensagem no Facebook convidando meus colegas para o Grosvenor.
Tratava-se de um pub perto da faculdade, onde passávamos o fim do dia tentando não falar mais de arte (e falhando miseravelmente na tentativa...). Uma das meninas trabalhava por lá, o que melhorava bastante nosso relacionamento com Paul, o gerente. Mas no geral, o pub era simplesmente uma delícia.
Obviamente, convidei meus colegas de apartamento também. Estávamos nos entendendo maravilhosamente bem, embora cada um tivesse gostos variados e eu me sentisse meio idoso perto das baladas psicotrópicas deles. Mas imaginei que, se o aniversário fosse realmente ignorado pelos colegas do mestrado, eles com certeza fariam tudo mais suportável.
E obviamente não seria justo deixar de mencionar minha Lexy, que viera até aqui só para passar o aniversário (e suas merecidas férias) comigo. Trouxera na bagagem um monte de pequenas idéias suas e presentes da família, que me ajudaram a não me sentir esquecido por aqui.
As coisas começaram a parecer mais otimistas na noite da véspera. Um cartãozinho singelo escorregou por debaixo da minha porta. Era Emily desejando-me o meu primeiro feliz aniversário do dia. Passei o dia com minha menina e assistindo a uma palestra na faculdade, onde não senti muita confirmação dos meus colegas a respeito daquela noite no Grosvenor.
Quando chegou a hora de ir para o pub, a turma do apartamento estava naquela bagunça: vários faltando, outros longe de estarem prontos. Começaram a sugerir que eu fosse na frente e que eles me encontrariam por lá (na verdade, mal sabiam onde era "lá"...). Ouvindo a conversa, eu começava a me acostumar com a idéia de que passaria este aniversário bebendo no canto, só eu e a Lexy.
E então meu celular tocou: era Kristian, o norueguês que se tornara representante da turma, perguntando-me onde eu estava, já que havia umas dez pessoas no bar.
No fim das contas, a noite deu muito certo. Uns bons amigos do curso estavam lá, divertindo-se com os chapéus de festa que Lexy trouxera; metade da turma do apartamento apareceu com flores de presente e a noite teve aquele gosto de perfeição. O gerente do pub, vendo toda essa turma na mesa, deu-nos champagne de graça e não me deixou pagar o sanduíche que pedi com a Lexy. Mostrou-se um dos ingleses mais acolhedores que conheci.
Mas uma das surpresas mais tocantes da Europa foram as ausências. Quando voltei do pub, Lu'ay deixara uma garrafa de vinho à minha porta com um bilhete de feliz aniversário desculpando-se pela ausência. No Facebook, alguns colegas do mestrado deixaram notas dando alguma satisfação (coisa que dificilmente aconteceria de parte dos meus conterraneos). Finalmente Emily, apesar do cartão de aniversário, correu à porta ao ouvir-me entrar no dia seguinte, cheia de pedidos de desculpa por não poder estar lá. Mostrava-me um respeito que dificilmente um adulto teria de um adolescente na minha cultura.
Era consideração. Apenas issso e nada mais. E valia muito.
sexta-feira, novembro 05, 2010
Diwali / Bonfire Night
[Post retroativo - escrito bem depois...]
Remember, remember
The fifth of november
The gunpowder treason and plot
I know of no reason
Why gunpowder treason
Should ever be forgot
Quando eu vim para a Europa há quatro anos, assisti ao V de Vingança. Fiquei surpreso ao saber que eles de fato comemoram ainda hoje o 5 de Novembro, quando foi descoberto um plano para explodir a Câmara dos Lordes do parlamento inglês. O filme menciona a figura de Guy Fawkes, embora o grupo fosse composto por muitos outros. Graças a uma carta anônima, o rei mandou investigar o parlamento na noite anterior ao 5 de Novembro, encontrando Fawkes, que mantinha a guarda de 36 barris de pólvora. Ele ganhou ares de Tiradentes por aqui. No fim, a maioria dos conspiradores foi executada de maneira brutal.
Em comemoração, os ingleses soltam fogos de artifício ao cair da noite no 5 de Novembro. Há fotos no meu perfil do Facebook relativas a dois eventos de fogos que eu fui ver: o primeiro em Blackheath, e o segundo no Victoria Park. Este último era também uma recordação de 70 anos das Blitz, bombardeios sistemáticos pelos alemães que arrasaram Londres durante a segunda guerra.
Foi um evento maravilhoso.
Logo antes dos fogos, os alarmes anti-aéreos soaram como na época e holofotes varreram os céus como se procurassem os aviões. O som suave de uma cantiga de roda seguiu as sirenes, e num misto de pânico e carinho anunciou que Londres queimava:
London's burning, London's burning.
Fetch the engines, fetch the engines.
Fire fire, Fire Fire!
Pour on water, pour on water.
London's burning, London's burning.
E então os fogos começaram!
Ando meio atrapalhado cm as coisas aqui para poder editar o vídeo dessa abertura, que consegui gravar do meio da multidão. Mas ainda vou colocar por aqui.
Simultaneamente, devido à grande comunidade indiana em Londres, a cidade também comemora o Diwali, o Festival das Luzes. Shivangi estava particularmente animada a respeito disso no dia, e cheguei no apartamento para encontrar nossa cozinha inteira decorada com pequenas velas e corantes em pó. Ela vestia um belo vestido típico da Índia e tinha posto a mesa com comidas e doces vegetarianos inacreditáveis! Depois de comermos um pouco, ela saiu com amigos para ir ao templo hindu perto de Ealing, um dos maiores da Inglaterra, para festejar. Quase fui junto, mas minha curiosidade pela Bonfire Night (como é chamada aqui a noite de 5 de Novembro) falou mais alto e fui ver os fogos. Fiquei com algumas fotos da decoração da nossa cozinha no Facebook.
Remember, remember
The fifth of november
The gunpowder treason and plot
I know of no reason
Why gunpowder treason
Should ever be forgot
Quando eu vim para a Europa há quatro anos, assisti ao V de Vingança. Fiquei surpreso ao saber que eles de fato comemoram ainda hoje o 5 de Novembro, quando foi descoberto um plano para explodir a Câmara dos Lordes do parlamento inglês. O filme menciona a figura de Guy Fawkes, embora o grupo fosse composto por muitos outros. Graças a uma carta anônima, o rei mandou investigar o parlamento na noite anterior ao 5 de Novembro, encontrando Fawkes, que mantinha a guarda de 36 barris de pólvora. Ele ganhou ares de Tiradentes por aqui. No fim, a maioria dos conspiradores foi executada de maneira brutal.
Em comemoração, os ingleses soltam fogos de artifício ao cair da noite no 5 de Novembro. Há fotos no meu perfil do Facebook relativas a dois eventos de fogos que eu fui ver: o primeiro em Blackheath, e o segundo no Victoria Park. Este último era também uma recordação de 70 anos das Blitz, bombardeios sistemáticos pelos alemães que arrasaram Londres durante a segunda guerra.
Foi um evento maravilhoso.
Logo antes dos fogos, os alarmes anti-aéreos soaram como na época e holofotes varreram os céus como se procurassem os aviões. O som suave de uma cantiga de roda seguiu as sirenes, e num misto de pânico e carinho anunciou que Londres queimava:
London's burning, London's burning.
Fetch the engines, fetch the engines.
Fire fire, Fire Fire!
Pour on water, pour on water.
London's burning, London's burning.
E então os fogos começaram!
Ando meio atrapalhado cm as coisas aqui para poder editar o vídeo dessa abertura, que consegui gravar do meio da multidão. Mas ainda vou colocar por aqui.
Simultaneamente, devido à grande comunidade indiana em Londres, a cidade também comemora o Diwali, o Festival das Luzes. Shivangi estava particularmente animada a respeito disso no dia, e cheguei no apartamento para encontrar nossa cozinha inteira decorada com pequenas velas e corantes em pó. Ela vestia um belo vestido típico da Índia e tinha posto a mesa com comidas e doces vegetarianos inacreditáveis! Depois de comermos um pouco, ela saiu com amigos para ir ao templo hindu perto de Ealing, um dos maiores da Inglaterra, para festejar. Quase fui junto, mas minha curiosidade pela Bonfire Night (como é chamada aqui a noite de 5 de Novembro) falou mais alto e fui ver os fogos. Fiquei com algumas fotos da decoração da nossa cozinha no Facebook.
quinta-feira, julho 08, 2010
Árvore da felicidade
Escrevo apenas pra deixar uma nota para me lembrar disso no futuro.
Nos dias mais quentes e abafados, normalmente quando estou saíndo do ateliê no final da tarde, a entrada da casa da minha avó fica perfumada com um aroma muito característico e que eu aprecio imensamente. Essa frente da casa é abarrotada de vasos de flores dos mais variados tipos. Invejo a capacidade de minha avó de ter um jardim aparentemente sem muito esforço.
O perfume em questão não é exatamente de uma flor. Está lá mesmo quando tudo está verde e sem nenhuma flor. Gastei muito tempo seguindo meu parco sentido do olfato até descobrir de onde vinha aquilo. Afinal, não dá pra perguntar para minha avó, porque cheiro não é algo possível de ser descrito a menos que você saiba de onde vem ("cheiro de grama cortada", "cheiro de maçã verde", etc.)
Enfim, meses de seguir o meu nariz me levaram até a planta em questão, em um vaso médio logo ao lado da porta. O vaso tinha duas plantas crescendo juntas nele. Vovó diz que ambas são consideradas árvores da felicidade. Mas só a "fêmea" exala o perfume que eu tanto gosto nos fins de tarde. Na Wikipedia, ela aparece com o nome científico de Polyscias fruticosa [1][2], enquanto a planta "macho", que não me interessa muito, aparece como Polyscias guilfoylei.
Quero que minha casa também tenha esse perfume...
Nos dias mais quentes e abafados, normalmente quando estou saíndo do ateliê no final da tarde, a entrada da casa da minha avó fica perfumada com um aroma muito característico e que eu aprecio imensamente. Essa frente da casa é abarrotada de vasos de flores dos mais variados tipos. Invejo a capacidade de minha avó de ter um jardim aparentemente sem muito esforço.
O perfume em questão não é exatamente de uma flor. Está lá mesmo quando tudo está verde e sem nenhuma flor. Gastei muito tempo seguindo meu parco sentido do olfato até descobrir de onde vinha aquilo. Afinal, não dá pra perguntar para minha avó, porque cheiro não é algo possível de ser descrito a menos que você saiba de onde vem ("cheiro de grama cortada", "cheiro de maçã verde", etc.)
Enfim, meses de seguir o meu nariz me levaram até a planta em questão, em um vaso médio logo ao lado da porta. O vaso tinha duas plantas crescendo juntas nele. Vovó diz que ambas são consideradas árvores da felicidade. Mas só a "fêmea" exala o perfume que eu tanto gosto nos fins de tarde. Na Wikipedia, ela aparece com o nome científico de Polyscias fruticosa [1][2], enquanto a planta "macho", que não me interessa muito, aparece como Polyscias guilfoylei.
Quero que minha casa também tenha esse perfume...
sexta-feira, março 26, 2010
Sobre gestações e ovos
Vejo meus amigos começarem a ter filhos e muita gente comentar sobre os sentimentos envolvidos.
Ontem, no circo, um dos instrutores contava sua experiência quando seu filho (atualmente com dois anos e meio) nasceu. Dizia que, durante nove meses, o foco de sua atenção fora aquela barriga crescente. A mulher era quase um personagem a parte, como se ele se relacionasse com a mulher e com a barriga como dois entes separados. Acho que talvez seja uma coisa tipicamente masculina. Mulheres, em toda a arte e literatura que vi a respeito, sempre lidam com aquilo como se fosse parte delas e somente delas. Dentro delas. Como se o homem sequer estivesse envolvido no processo a não ser como um pagador de contas. Há nos relatos delas o conceito claro da gestação. Os homens lidam com aquilo de forma diferente porque não está no corpo deles. É quase como o relacionamento com um ovo, o chocar de um ovo. O homem vai ao trabalho, depois volta para casa para cuidar, aquecer e proteger aquele ovo. E o faz através da mulher, como se ela fosse a interface dele com o ovo. Eu sei que isso é degradante para a mulher, mas não me importa. Acho que faz mesmo parte das diferentes formas como homens e mulheres encaram a geração de um filho.
Daí então o filho do meu treinador nasceu. Nas palavras dele, "é um divisor de águas: você acha que sabe, mas na verdade não entende de verdade o que é o amor até aquele momento". A frase me tocou bastante. Tenho expectativas sobre a paternidade que não poderiam ser expressas de forma mais contundente do que isso. Imagino meus sentimentos, a necessidade que eu teria pelo toque físico do meu filho. Uma necessidade que tem a intensidade do desejo sexual, mas que não tem em si nada de sexual. A necessidade de beijar-lhe o rosto, sentir sua pele, avaliar seu peso, perceber os movimentos de algo que é parte de mim mas não sou eu. Eu sei que o cansaço e as frustrações de cuidar de uma criança roubam um pouco da mágica disso com o tempo, mas ainda tenho essa ilusão feliz de que cada dia com um filho seja repleto de novidades e maravilhamentos.
Ontem, no circo, um dos instrutores contava sua experiência quando seu filho (atualmente com dois anos e meio) nasceu. Dizia que, durante nove meses, o foco de sua atenção fora aquela barriga crescente. A mulher era quase um personagem a parte, como se ele se relacionasse com a mulher e com a barriga como dois entes separados. Acho que talvez seja uma coisa tipicamente masculina. Mulheres, em toda a arte e literatura que vi a respeito, sempre lidam com aquilo como se fosse parte delas e somente delas. Dentro delas. Como se o homem sequer estivesse envolvido no processo a não ser como um pagador de contas. Há nos relatos delas o conceito claro da gestação. Os homens lidam com aquilo de forma diferente porque não está no corpo deles. É quase como o relacionamento com um ovo, o chocar de um ovo. O homem vai ao trabalho, depois volta para casa para cuidar, aquecer e proteger aquele ovo. E o faz através da mulher, como se ela fosse a interface dele com o ovo. Eu sei que isso é degradante para a mulher, mas não me importa. Acho que faz mesmo parte das diferentes formas como homens e mulheres encaram a geração de um filho.
Daí então o filho do meu treinador nasceu. Nas palavras dele, "é um divisor de águas: você acha que sabe, mas na verdade não entende de verdade o que é o amor até aquele momento". A frase me tocou bastante. Tenho expectativas sobre a paternidade que não poderiam ser expressas de forma mais contundente do que isso. Imagino meus sentimentos, a necessidade que eu teria pelo toque físico do meu filho. Uma necessidade que tem a intensidade do desejo sexual, mas que não tem em si nada de sexual. A necessidade de beijar-lhe o rosto, sentir sua pele, avaliar seu peso, perceber os movimentos de algo que é parte de mim mas não sou eu. Eu sei que o cansaço e as frustrações de cuidar de uma criança roubam um pouco da mágica disso com o tempo, mas ainda tenho essa ilusão feliz de que cada dia com um filho seja repleto de novidades e maravilhamentos.
terça-feira, janeiro 05, 2010
Balanço de 2009
Há alguns dias revi o post que sempre faço no começo de ano, com o balanço do ano que acabou e as perspectivas para o ano seguinte. Fiquei feliz ao perceber que várias das resoluções feitas para este ano tinham sido concretizadas. Eu consegui...
• ...conscientização, clareza, foco. Deixar a apatia e inércia de lado.
• ...aumentar o número de participações em exposições (tá bom, a resolução era DOBRAR o número, mas o aumento já foi significativo...).
• ...viabilizar outras formas de sustento além do trabalho em agência.
• ...manter e cativar os novos amigos, rever os velhos. Ser um cara mais sociável.
Mas além disso tudo, eu...
• ...finalmente encontrei um assunto para tratar com toda a técnica de artes que eu aprendi, e comecei a ler, pesquisar e escrever assiduamente sobre o Masculismo. [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...usei essa pesquisa toda pra começar a ter resultados nas artes. [1]
• ...quase perdi o carro. De novo. [1]
• ...consegui ser aceito para o mestrado em Londres com alta recomendação do entrevistador [1]
• ...percebi que a minha crise pessoal era um fenômeno muito mais amplo, difundido entre os jovens de vinte e poucos anos: a quarterlife crisis. [1][2][3]
• ...me interessei muito pelo pós-moderno. [1]
• ...visitei a exposição de uma das minhas artistas favoritas, Sophie Calle. [1][2][3]
• ...larguei (e espero que para sempre) a publicidade, para finalmente me jogar de cabeça nessa loucura de ser um artista plástico. [1][2][3]
• ...voltei à produção do ateliê com muito mais ímpeto e disciplina, prometendo postar por aqui as histórias, processos e idéias dos quadros.
• ...vi o nascer da Aurora! [1][2]
• ...comecei uma longa e já atrasada homenagem em pintura à geração teatral dos meus avôs. A história de vida deles foi a história da criação do TBC e do teatro profissional brasileiro.[1][2][3][4]
• ...finalmente mudei o layout do blog e tirei a musiquinha pentelha! [1]
• ...tive um reveillon delicioso com antigas e queridas amizades e um gosto de coisa européia.
E para o primeiro ano da nova década de 2010 eu...
• ...levarei a cabo pelo menos uma das três possibilidades de exposição grande e profissionalmente relevante (nada de exposiçõezinhas com produção falha).
• ...continuarei com a discussão interessante sobre o Masculismo e novas obras pra ilustrar as conclusões.
• ...voltarei à minha Londres!
• ...começarei a ganhar dinheiro com arte.
Vamo que vamo!
• ...conscientização, clareza, foco. Deixar a apatia e inércia de lado.
• ...aumentar o número de participações em exposições (tá bom, a resolução era DOBRAR o número, mas o aumento já foi significativo...).
• ...viabilizar outras formas de sustento além do trabalho em agência.
• ...manter e cativar os novos amigos, rever os velhos. Ser um cara mais sociável.
Mas além disso tudo, eu...
• ...finalmente encontrei um assunto para tratar com toda a técnica de artes que eu aprendi, e comecei a ler, pesquisar e escrever assiduamente sobre o Masculismo. [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...usei essa pesquisa toda pra começar a ter resultados nas artes. [1]
• ...quase perdi o carro. De novo. [1]
• ...consegui ser aceito para o mestrado em Londres com alta recomendação do entrevistador [1]
• ...percebi que a minha crise pessoal era um fenômeno muito mais amplo, difundido entre os jovens de vinte e poucos anos: a quarterlife crisis. [1][2][3]
• ...me interessei muito pelo pós-moderno. [1]
• ...visitei a exposição de uma das minhas artistas favoritas, Sophie Calle. [1][2][3]
• ...larguei (e espero que para sempre) a publicidade, para finalmente me jogar de cabeça nessa loucura de ser um artista plástico. [1][2][3]
• ...voltei à produção do ateliê com muito mais ímpeto e disciplina, prometendo postar por aqui as histórias, processos e idéias dos quadros.
• ...vi o nascer da Aurora! [1][2]
• ...comecei uma longa e já atrasada homenagem em pintura à geração teatral dos meus avôs. A história de vida deles foi a história da criação do TBC e do teatro profissional brasileiro.[1][2][3][4]
• ...finalmente mudei o layout do blog e tirei a musiquinha pentelha! [1]
• ...tive um reveillon delicioso com antigas e queridas amizades e um gosto de coisa européia.
E para o primeiro ano da nova década de 2010 eu...
• ...levarei a cabo pelo menos uma das três possibilidades de exposição grande e profissionalmente relevante (nada de exposiçõezinhas com produção falha).
• ...continuarei com a discussão interessante sobre o Masculismo e novas obras pra ilustrar as conclusões.
• ...voltarei à minha Londres!
• ...começarei a ganhar dinheiro com arte.
Vamo que vamo!
terça-feira, março 17, 2009
Atualizando
Meu blog sempre anda algumas semanas atrás dos acontecimentos, porque suponho que seja mais importante viver do que nerdear por aqui. Então, hora de atualizar os fatos!
Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.
Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.
A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.
Alguns de vocês já conhecem a história toda: logo depois que voltei da Argentina, passei na casa da Lexy pra resolvermos a contabilidade da viagem. Na saída, roubaram meu carro. Assim, do nada. Ele simplesmente não estava mais lá quando voltei. Estava parado na frente do prédio, sob vigilância das câmeras, trancado e com trava de câmbio e rastreador. E sumiu. Suspeitei de trabalho de profissional, que sabia tirar trava e desativar rastreador. Dei o carro como perdido.
Pra encurtar a história, ele foi encontrado quatro dias depois, há alguns quarteirões de onde tinha sido levado. Fora a fechadura da porta arrombada e o suposto rastreador sumido, estava do jeito que eu o deixara. Até a trava de câmbio ainda estava no lugar. O meliante dirigiu o carro por alguns quarteirões em marcha reversa, e abandonou-o quando percebeu que ficaria muito ridículo e suspeito andar de ré por aí até o desmanche.
Ou seja, voltei a ter carro. Tenho certas limitações até conseguir consertar a fechadura, mas pelo menos ele está aqui. E no entanto, essa história toda serviu para fazer pensar. Passei a tomar ainda mais o ônibus. Descobri que o Google Maps sugere linhas de ônibus com assustadora precisão. Comecei a andar por São Paulo cobrindo longas distâncias como eu fazia na Europa e recentemente na Argentina. Eu gosto de andar. E passei a encorajar outros a fazerem o mesmo. A dependerem menos do próprio carro ou da carona, a andar mais.
E nessas andanças vi daqueles personagens que só se vê nas cidades grandes. A velha indigente da Augusta que passa o dia subindo e descendo a rua, gritando em um gromelô incompreensível que soa como briga de gato. A oriental sem pernas que continua sentada em frente ao mesmo local da Paulista balançando o potinho com moedas desde que eu fazia a faculdade de artes. A nigeriana com um pedaço de pano amarrado em volta da cabeça, entre o nariz e a boca, parecendo um bigode de tecido. E não são só os mendigos. Tem as modeletes esguias andando na Oscar Freire, ex-colegas de faculdade que eu encontro no ônibus e até um quarteto de cordas completo tocando em frente à estação de metrô da Consolação.
A cidade tem suas peculiaridades. E a gente perde muito de dentro do carro.
segunda-feira, janeiro 05, 2009
Balanço de 2008
Seguindo a tendência dos últimos fins de ano, neste curto e tedioso ano eu:
• ...comecei o ano com um reveillon nulo e esquecível.
• ...perdi minha câmera digital, vitimada possivelmente pelas tensões políticas do nordeste. Perdi com ela imagens muito inspiradas e o tesão de fazer meu mini-documentário sobre a família. [1]
• ...retornei ao Manifesto com os rapazes do Butcher’s Daughter para fechar o ciclo da nossa curta existência como banda.
• ...encerrei a existência da banda com o fatídico show na festa junina.
• ...participei da versão paulista do Slideluck Potshow, mostra de fotografia, trazendo a público pela primeira vez minhas fotos de lightpainting. [1][2]
• ...conheci o pessoal do estúdio Tochka, que me deixou no chinelo fazendo não só fotos de lightpainting, como também animações inteiras e um projeto muito profissional no Anima Mundi deste ano.
• ...comecei a usar óculos e rapidamente me acostumei.
• ...aproveitei o fim da banda e o conseqüente tempo livre para reabrir o ateliê e me disciplinar a pintar um pouco por semana.
• ...conheci os caras do 2000e8 e isso serviu de chacoalhão pra me fazer acordar um pouco. [1][2] [3][4]
• ...me convenci de que meu negócio é arte mesmo e que a publicidade só está me fazendo apático e tomando meu tempo.
• ...comecei a tomar providências para mudar de vida. Retomei contatos, reiniciei processos.
• ...participei ativamente dos cursos e exposições da Escola São Paulo.
• ...mudei minha opinião sobre o grafite e comecei a me interessar pelo modo como andou invadindo as galerias e lutando pelo status de forma de arte. 1][2][3][4][5]
• ...percebi como o meu blog está ficando chato para os leigos por tratar apenas de arte e irrelevante para os artistas por ainda não ter conteúdo suficiente.
• ...perdi o Zombie Walk... de novo.
• ...vi várias pessoas sumirem e me esquecerem.
• ...conheci muita gente nova e muito interessante.
• ...tive inveja saudável dos fantásticos brownies da Lexy e do potencial que a habilidade culinária dela tem de virar um ótimo negócio.
• ...tive um natal relativamente tranqüilo no âmbito familiar, mas bem agitado no âmbito profissional.
• ...passei o primeiro natal com a família da Lexy.
• ...me envolvi com a produção gráfica do CD produzido pelo meu irmão e conheci um monte de gente interessante.
• ...passei a respeitar mais o meu irmão na sua tentativa de ser músico e produtor musical.
• ...mudei minha opinião sobre algumas das minhas primas.
• ...encerrei o ano transformando mais um reveillon nulo e esquecível em uma experiência memorável.
• Deixar de fazer referência panacas a sacadinhas publicitárias de campanhas toscas.
• Conscientização, clareza, foco. Deixar a apatia e inércia de lado.
• Dobrar o número de participações em exposições.
• Viabilizar outras formas de sustento além do trabalho em agência.
• Manter e cativar os novos amigos, rever os velhos. Ser um cara mais sociável.
E vamos adiante!
• ...comecei o ano com um reveillon nulo e esquecível.
• ...perdi minha câmera digital, vitimada possivelmente pelas tensões políticas do nordeste. Perdi com ela imagens muito inspiradas e o tesão de fazer meu mini-documentário sobre a família. [1]
• ...retornei ao Manifesto com os rapazes do Butcher’s Daughter para fechar o ciclo da nossa curta existência como banda.
• ...encerrei a existência da banda com o fatídico show na festa junina.
• ...participei da versão paulista do Slideluck Potshow, mostra de fotografia, trazendo a público pela primeira vez minhas fotos de lightpainting. [1][2]
• ...conheci o pessoal do estúdio Tochka, que me deixou no chinelo fazendo não só fotos de lightpainting, como também animações inteiras e um projeto muito profissional no Anima Mundi deste ano.
• ...comecei a usar óculos e rapidamente me acostumei.
• ...aproveitei o fim da banda e o conseqüente tempo livre para reabrir o ateliê e me disciplinar a pintar um pouco por semana.
• ...conheci os caras do 2000e8 e isso serviu de chacoalhão pra me fazer acordar um pouco. [1][2] [3][4]
• ...me convenci de que meu negócio é arte mesmo e que a publicidade só está me fazendo apático e tomando meu tempo.
• ...comecei a tomar providências para mudar de vida. Retomei contatos, reiniciei processos.
• ...participei ativamente dos cursos e exposições da Escola São Paulo.
• ...mudei minha opinião sobre o grafite e comecei a me interessar pelo modo como andou invadindo as galerias e lutando pelo status de forma de arte. 1][2][3][4][5]
• ...percebi como o meu blog está ficando chato para os leigos por tratar apenas de arte e irrelevante para os artistas por ainda não ter conteúdo suficiente.
• ...perdi o Zombie Walk... de novo.
• ...vi várias pessoas sumirem e me esquecerem.
• ...conheci muita gente nova e muito interessante.
• ...tive inveja saudável dos fantásticos brownies da Lexy e do potencial que a habilidade culinária dela tem de virar um ótimo negócio.
• ...tive um natal relativamente tranqüilo no âmbito familiar, mas bem agitado no âmbito profissional.
• ...passei o primeiro natal com a família da Lexy.
• ...me envolvi com a produção gráfica do CD produzido pelo meu irmão e conheci um monte de gente interessante.
• ...passei a respeitar mais o meu irmão na sua tentativa de ser músico e produtor musical.
• ...mudei minha opinião sobre algumas das minhas primas.
• ...encerrei o ano transformando mais um reveillon nulo e esquecível em uma experiência memorável.
Promessas para 2 mil Inove
• Deixar de fazer referência panacas a sacadinhas publicitárias de campanhas toscas.
• Conscientização, clareza, foco. Deixar a apatia e inércia de lado.
• Dobrar o número de participações em exposições.
• Viabilizar outras formas de sustento além do trabalho em agência.
• Manter e cativar os novos amigos, rever os velhos. Ser um cara mais sociável.
E vamos adiante!
sexta-feira, dezembro 26, 2008
quinta-feira, setembro 04, 2008
Complementando
Pra complementar coisas que eu tenho postado por aqui, vi duas notícias que me chamaram a atenção recentemente.
A primeira é um de um site sobre grafite ecológico (?) que lista as 35 maiores obras de grafite reverso.
O grafite reverso, como o nome indica, é a ação executada por alguns grafiteiros que trocam as latas de spray e outros instrumentos mais rotineiros por material de limpeza. Ou seja, em vez deles gerarem ilustrações por um processo de adição, colocando tinta em superfícies públicas; eles realizam os seus trabalhos por subtração, limpando partes de superfícies imundas da cidade para criar suas imagens. Achei fantástico. Sem falar que reverte a idéia de que grafite é uma coisa suja.
A segunda notícia veio do site do Yahoo!. Parece que uma empresa está se preparando para lançar bicicletas elétricas por aqui. A idéia é suprir um crescente mercado de gente que não aguenta mais o transito desta cidade (que tem batido récordes e deixado muita gente perplexa ultimamente), mas também não gosta da idéia de chegar suado no local de trabalho logo de manhã. Embora a notícia não dê palpite sobre o preço, diz que com certeza será menos do que as motos mais baratas. Quem sabe... Agora só falta o governo acordar para a realidade e cooperar com as ciclovias.
A primeira é um de um site sobre grafite ecológico (?) que lista as 35 maiores obras de grafite reverso.
O grafite reverso, como o nome indica, é a ação executada por alguns grafiteiros que trocam as latas de spray e outros instrumentos mais rotineiros por material de limpeza. Ou seja, em vez deles gerarem ilustrações por um processo de adição, colocando tinta em superfícies públicas; eles realizam os seus trabalhos por subtração, limpando partes de superfícies imundas da cidade para criar suas imagens. Achei fantástico. Sem falar que reverte a idéia de que grafite é uma coisa suja.
A segunda notícia veio do site do Yahoo!. Parece que uma empresa está se preparando para lançar bicicletas elétricas por aqui. A idéia é suprir um crescente mercado de gente que não aguenta mais o transito desta cidade (que tem batido récordes e deixado muita gente perplexa ultimamente), mas também não gosta da idéia de chegar suado no local de trabalho logo de manhã. Embora a notícia não dê palpite sobre o preço, diz que com certeza será menos do que as motos mais baratas. Quem sabe... Agora só falta o governo acordar para a realidade e cooperar com as ciclovias.
terça-feira, agosto 19, 2008
Bateram no carro de minha mãe recentemente. Ao contrário dos meus infortúnios veiculares, não foi culpa dela. Mas em todo caso, ela ficou com o carro “confiscado” pelo mecânico durante algum tempo, tendo que se virar com o transporte público da cidade.
Sabe aquela cena do Wall•E onde o gordinho John é nocauteado fora da cadeira computadorizada pelo protagonista e, livre das telas e da programação, passa a perceber todo um mundo à sua volta que ele não sabia que existia? O acidente de trânsito teve um efeito similar em minha mãe. Mas falo sem tanta ironia, afinal, eu mesmo tive essa mesma experiência epifânica no meu primeiro de três acidentes automobilísticos (porra, como é que eu ainda vivo?). Segundo ela (e eu mesmo...), é perceber que você estava saindo da clausura do apartamento para a bolha do carro, e deste para o cárcere do escritório. Livre do calor, da estafa, dos pedintes e da publicidade. Mas também privado do contato humano, das novidades do bairro, das miríades de pequenas histórias acontecendo lá fora.
Recentemente, a questão tinha ganhado ainda outra conotação: com o trânsito cada vez mais insuportável, aquela hora no carro era sua dose diária de stress e perda de tempo em uma cidade onde tempo é um luxo. No transporte coletivo, havia tempo para ler, organizar os pensamentos, observar ou fechar os olhos. Tendo descoberto um ônibus que ia da porta de casa até o trabalho, ela decidiu que, mesmo após a volta do carro, passaria a usar o transporte público mais frequentemente.
Meu pai, que recentemente passou a trabalhar em casa, teve epifania similar ao ver que gastava menos tempo e dinheiro tomando um transporte coletivo em vez de procurando onde estacionar seu avantajado veículo. Aderiu facilmente ao estilo de vida do transporte público.
Eu mesmo tenho praticado isso desde meus acidentes. No meu caso, soma-se às benesses a questão financeira, já que me sai mais em conta tomar o ônibus do que abastecer o carro (mesmo a álcool) toda semana. Li só nesse ano mais do que eu lia obrigatoriamente no colégio, tudo durante meu trajeto entre casa e trabalho.
Daí me passaram há alguns meses o site do Apocalipse Motorizado. O site conta, sem poupar exageros teatrais de estilo dignos do panfletismo ideológico, sobre a batalha travada diariamente entre ciclistas e motoristas. Os ciclistas, claro, são apresentados como coitados subversivos sem apoio do governo. Os motoristas são demonizados, recebem apoio da “mídia motorizada” que vê como causa do trânsito tudo menos os próprios automóveis e convence a classe burguesa a perpetuar a “carrocracia”. Não digo que ele esteja errado. Principalmente depois da vergonha [1][2]que foi o primeiro Naked Bike Ride na cidade (e não estou falando dos ciclistas despudorados...). Mas os exageros causam em quem lê um impulso de desdenhar o conteúdo.
Exageros e linguajar panfletário aparte, quem conseguir ler o site como se lê uma Veja ou um Estadão (com bom senso e ignorando os dogmatismos), vai encontrar um site com uma mensagem clara e muito atraente: a bicicleta é um meio de transporte formidável. Ela resolve o trânsito, não polui, não gasta dinheiro e promove a saúde.
De fato, vivi esse estilo de vida pedalante durante algum tempo em Londres, onde os carros respeitam os pedestres e ciclistas, e achei muito divertido e saudável. Consegui, aproveitando-me do caos aéreo da época, trazer comigo uma daquelas bicicletas dobráveis [1] [2]. E agora estou aqui, há alguns meses tentando criar coragem para comprar o resto do material (capacete, luzes, essas coisas) e implementar esse estilo de vida na minha rotina, apesar de saber que a segurança por aqui não é tão garantida. Não acho que me tornarei tão fervoroso quanto o autor do Apocalipse, mas não posso negar que sou seduzido pela possibilidade utópica de começar a converter cada vez mais pessoas para essa modalidade de transporte diário e ver o trânsito e o ar da cidade melhorarem gradualmente.
Sabe aquela cena do Wall•E onde o gordinho John é nocauteado fora da cadeira computadorizada pelo protagonista e, livre das telas e da programação, passa a perceber todo um mundo à sua volta que ele não sabia que existia? O acidente de trânsito teve um efeito similar em minha mãe. Mas falo sem tanta ironia, afinal, eu mesmo tive essa mesma experiência epifânica no meu primeiro de três acidentes automobilísticos (porra, como é que eu ainda vivo?). Segundo ela (e eu mesmo...), é perceber que você estava saindo da clausura do apartamento para a bolha do carro, e deste para o cárcere do escritório. Livre do calor, da estafa, dos pedintes e da publicidade. Mas também privado do contato humano, das novidades do bairro, das miríades de pequenas histórias acontecendo lá fora.
Recentemente, a questão tinha ganhado ainda outra conotação: com o trânsito cada vez mais insuportável, aquela hora no carro era sua dose diária de stress e perda de tempo em uma cidade onde tempo é um luxo. No transporte coletivo, havia tempo para ler, organizar os pensamentos, observar ou fechar os olhos. Tendo descoberto um ônibus que ia da porta de casa até o trabalho, ela decidiu que, mesmo após a volta do carro, passaria a usar o transporte público mais frequentemente.
Meu pai, que recentemente passou a trabalhar em casa, teve epifania similar ao ver que gastava menos tempo e dinheiro tomando um transporte coletivo em vez de procurando onde estacionar seu avantajado veículo. Aderiu facilmente ao estilo de vida do transporte público.
Eu mesmo tenho praticado isso desde meus acidentes. No meu caso, soma-se às benesses a questão financeira, já que me sai mais em conta tomar o ônibus do que abastecer o carro (mesmo a álcool) toda semana. Li só nesse ano mais do que eu lia obrigatoriamente no colégio, tudo durante meu trajeto entre casa e trabalho.
Daí me passaram há alguns meses o site do Apocalipse Motorizado. O site conta, sem poupar exageros teatrais de estilo dignos do panfletismo ideológico, sobre a batalha travada diariamente entre ciclistas e motoristas. Os ciclistas, claro, são apresentados como coitados subversivos sem apoio do governo. Os motoristas são demonizados, recebem apoio da “mídia motorizada” que vê como causa do trânsito tudo menos os próprios automóveis e convence a classe burguesa a perpetuar a “carrocracia”. Não digo que ele esteja errado. Principalmente depois da vergonha [1][2]que foi o primeiro Naked Bike Ride na cidade (e não estou falando dos ciclistas despudorados...). Mas os exageros causam em quem lê um impulso de desdenhar o conteúdo.
Exageros e linguajar panfletário aparte, quem conseguir ler o site como se lê uma Veja ou um Estadão (com bom senso e ignorando os dogmatismos), vai encontrar um site com uma mensagem clara e muito atraente: a bicicleta é um meio de transporte formidável. Ela resolve o trânsito, não polui, não gasta dinheiro e promove a saúde.
De fato, vivi esse estilo de vida pedalante durante algum tempo em Londres, onde os carros respeitam os pedestres e ciclistas, e achei muito divertido e saudável. Consegui, aproveitando-me do caos aéreo da época, trazer comigo uma daquelas bicicletas dobráveis [1] [2]. E agora estou aqui, há alguns meses tentando criar coragem para comprar o resto do material (capacete, luzes, essas coisas) e implementar esse estilo de vida na minha rotina, apesar de saber que a segurança por aqui não é tão garantida. Não acho que me tornarei tão fervoroso quanto o autor do Apocalipse, mas não posso negar que sou seduzido pela possibilidade utópica de começar a converter cada vez mais pessoas para essa modalidade de transporte diário e ver o trânsito e o ar da cidade melhorarem gradualmente.
quarta-feira, julho 23, 2008
Anima Mundi 2008 - Info
Começa hoje a edição de 2008 do Anima Mundi! E depois do sucesso que foi a nossa visita anterior altamente planejada com requintes de Guerrilha Cultural, Lexy e eu resolvemos planejar esta ainda melhor. Monitorei os jornais para saber das animações mais cotadas e vasculhamos a programação da mostra no site oficial atrás de nomes conhecidos e coisinhas interessantes. Tudo compilado e organizado em uma tabela que vocês encontram aqui.
[DISCLAIMER]
Levem em conta apenas algumas coisas.
Em primeiro lugar, nós desencanamos das sessões no CCBB, colocando na nossa programação apenas as sessões que acontecem nas três salas do Memorial da América Latina. Isso porque ir de um lugar para o outro a tempo de pegar as sessões nos pareceu meio inviável (principalmente considerando que os meios de transporte estarão lotados de gente tentando fazer justamente isso). A decisão sacrificou algumas coisas legais como a retrospectiva do Ray Harryhausen, animador de stop motion que fez muitos dos filmes de mitologia antigões ("Viagem de Sindbad", "Jasão e os Argonautas", "Duelo de Titãs"). Segundo, cada sessão de curtas passa duas vezes, portanto se você perde uma, consulte o site do evento para ver um horário alternativo. Por último, nem mesmo com tanta Guerrilha Cultural dá pra ver tudo. Tem algumas coisas legais que não entraram para a nossa planilha por questões meramente financeiras ou de tempo. Pesquise!
[/DICLAIMER]
E para quem quiser nos acompanhar em alguma das sessões desta maratona animada ou simplesmente quiser uma dica de algo legal, vai abaixo alguns comentário de coisas que achamos interessantes na edição deste ano.
Na quinta, o Curtas 10 (sala 1, às 22h00) tem como destaque o Dossiê Rê Bordosa, que conta como o Angeli matou sua famosa personagem dos quadrinhos, interpretada recentemente no cinema por Rita Lee em Wood & Stock: sexo, orégano e rock n’ roll. Não sei se é ela fazendo a voz da personagem no curta, mas há boas chances de ser.
A sexta tem como destaque o longa Pricess (sala 1, às 22h00) do dinamarquês Morgenthaler. É um desenho animado com um tema pesado (pra ver que desenho não é só coisa de criança) e uma técnica que mistura animação e live action (atores de verdade, que nem no Roger Rabbit). Pessoalmente, eu adoro temas pesados, mas quem quiser uma coisa mais leve, pode ver a sessão Portfólio (sala 3, às 21h30): uma sessão de animações publicitárias. A mesma sessão acontece no domingo (ver horário e sala abaixo) e recomendo que nós, publicitários, passemos para dar uma olhada.
O sábado é o dia mais lotado. Começa com a Curtas 17 (sala 1, às 12h00), com destaque para o Passo de Alê Abreu. Ele é figura carimbada do Anima Mundi, participou das últimas três ou quatro edições e na última estreou seu longa Garoto Cósmico. Mais adiante, o Curtas 12 (sala 1, 16h00) tem How to hook up your home theatre (Como instalar seu home theater), curta da Disney com o Pateta, naquele clássico formato pseudo-didático onde ele ensina como fazer alguma coisa do jeito errado. Logo em seguida, o Curtas 07 (sala 2, 17:00) tem o Hot Dog do Bill Plympton. Quem conhece animação, conhece Plympton, que também sempre está no festival e com animações hilárias com um estilo bem legal. Ele é americano e vive criticando o estilo de vida. Hot Dog é o terceiro curta com o personagem de um cachorro (desenhado de uma forma meio torta e irreal, mas muito engraçada). O horário seguinte tem uma escolha a ser feita. O longa Belowars (sala 1, 18h00), único brasileiro concorrendo na competição dos longas, dura mais de uma hora, e torna impossível sair da sessão para entrar na Curtas 16 (sala 2, 19h00), que tem como destaque o Weatherman de Will Beecher, que já trabalhou com o pessoal do estúdio Aardman, que faz Wallace & Gromit e o delicioso Creature Comforts que dá pra ser encontrado no YouTube. O dia termina de forma magistral com o longa Idiots and Angels (sala 1, 22h00) do já mencionado Bill Plympton.
Depois dessa maratona toda, o domingo é mais sossegado. O destaque para os rapazes fissurados em games como eu é a palestra do pessoal da Blizzard (sala 3, 15h00), famosa produtora de vídeo games que lançou sagas completas como Warcraft, Starcraft e Diablo. A palestra de Andréas Hykade acontece algumas horas depois (sala 1, 18h00). Ele é pouco conhecido, mas tem um estilo de desenho parecido com o grafite, e temas sempre mais adultos, entre crítica e erotismo. O dia termina com a sessão Portfólio (sala 3, 21h30) de animações para publicdade, ótima forma de terminar o fim de semana de animação e ainda chegar pra trabalhar na segunda com publicidade na cabeça.
Bom, as dicas ficaram quilométricas, mas ajuda quem quiser nos acompanhar em uma ou outra sessão da maratona! Eu queria botar links para imagens dos diversos animadores aqui, mas aí eu já estaria entrando naquele nível de blogagem pouco saudável que minha mãe chama de perda de tempo...
Agora, sigam-me os bons!
[DISCLAIMER]
Levem em conta apenas algumas coisas.
Em primeiro lugar, nós desencanamos das sessões no CCBB, colocando na nossa programação apenas as sessões que acontecem nas três salas do Memorial da América Latina. Isso porque ir de um lugar para o outro a tempo de pegar as sessões nos pareceu meio inviável (principalmente considerando que os meios de transporte estarão lotados de gente tentando fazer justamente isso). A decisão sacrificou algumas coisas legais como a retrospectiva do Ray Harryhausen, animador de stop motion que fez muitos dos filmes de mitologia antigões ("Viagem de Sindbad", "Jasão e os Argonautas", "Duelo de Titãs"). Segundo, cada sessão de curtas passa duas vezes, portanto se você perde uma, consulte o site do evento para ver um horário alternativo. Por último, nem mesmo com tanta Guerrilha Cultural dá pra ver tudo. Tem algumas coisas legais que não entraram para a nossa planilha por questões meramente financeiras ou de tempo. Pesquise!
[/DICLAIMER]
E para quem quiser nos acompanhar em alguma das sessões desta maratona animada ou simplesmente quiser uma dica de algo legal, vai abaixo alguns comentário de coisas que achamos interessantes na edição deste ano.
Na quinta, o Curtas 10 (sala 1, às 22h00) tem como destaque o Dossiê Rê Bordosa, que conta como o Angeli matou sua famosa personagem dos quadrinhos, interpretada recentemente no cinema por Rita Lee em Wood & Stock: sexo, orégano e rock n’ roll. Não sei se é ela fazendo a voz da personagem no curta, mas há boas chances de ser.
A sexta tem como destaque o longa Pricess (sala 1, às 22h00) do dinamarquês Morgenthaler. É um desenho animado com um tema pesado (pra ver que desenho não é só coisa de criança) e uma técnica que mistura animação e live action (atores de verdade, que nem no Roger Rabbit). Pessoalmente, eu adoro temas pesados, mas quem quiser uma coisa mais leve, pode ver a sessão Portfólio (sala 3, às 21h30): uma sessão de animações publicitárias. A mesma sessão acontece no domingo (ver horário e sala abaixo) e recomendo que nós, publicitários, passemos para dar uma olhada.
O sábado é o dia mais lotado. Começa com a Curtas 17 (sala 1, às 12h00), com destaque para o Passo de Alê Abreu. Ele é figura carimbada do Anima Mundi, participou das últimas três ou quatro edições e na última estreou seu longa Garoto Cósmico. Mais adiante, o Curtas 12 (sala 1, 16h00) tem How to hook up your home theatre (Como instalar seu home theater), curta da Disney com o Pateta, naquele clássico formato pseudo-didático onde ele ensina como fazer alguma coisa do jeito errado. Logo em seguida, o Curtas 07 (sala 2, 17:00) tem o Hot Dog do Bill Plympton. Quem conhece animação, conhece Plympton, que também sempre está no festival e com animações hilárias com um estilo bem legal. Ele é americano e vive criticando o estilo de vida. Hot Dog é o terceiro curta com o personagem de um cachorro (desenhado de uma forma meio torta e irreal, mas muito engraçada). O horário seguinte tem uma escolha a ser feita. O longa Belowars (sala 1, 18h00), único brasileiro concorrendo na competição dos longas, dura mais de uma hora, e torna impossível sair da sessão para entrar na Curtas 16 (sala 2, 19h00), que tem como destaque o Weatherman de Will Beecher, que já trabalhou com o pessoal do estúdio Aardman, que faz Wallace & Gromit e o delicioso Creature Comforts que dá pra ser encontrado no YouTube. O dia termina de forma magistral com o longa Idiots and Angels (sala 1, 22h00) do já mencionado Bill Plympton.
Depois dessa maratona toda, o domingo é mais sossegado. O destaque para os rapazes fissurados em games como eu é a palestra do pessoal da Blizzard (sala 3, 15h00), famosa produtora de vídeo games que lançou sagas completas como Warcraft, Starcraft e Diablo. A palestra de Andréas Hykade acontece algumas horas depois (sala 1, 18h00). Ele é pouco conhecido, mas tem um estilo de desenho parecido com o grafite, e temas sempre mais adultos, entre crítica e erotismo. O dia termina com a sessão Portfólio (sala 3, 21h30) de animações para publicdade, ótima forma de terminar o fim de semana de animação e ainda chegar pra trabalhar na segunda com publicidade na cabeça.
Bom, as dicas ficaram quilométricas, mas ajuda quem quiser nos acompanhar em uma ou outra sessão da maratona! Eu queria botar links para imagens dos diversos animadores aqui, mas aí eu já estaria entrando naquele nível de blogagem pouco saudável que minha mãe chama de perda de tempo...
Agora, sigam-me os bons!
quinta-feira, junho 12, 2008
terça-feira, junho 03, 2008
Projeto Religare
O que dar de presente para alguém que já deu os melhores presentes?
Lexy me dera o aniversário mais gostoso dos últimos anos. Eu não recebia esse tipo de adoração e devoção desde meus aniversários de infância. Presentes feitos por ela, pensados de acordo com o que eu sou, minha simbologia, presentes muito pessoais. Nada daquelas besteiras compradas por impulso. Era uma coisa difícil de retribuir.
O projeto começou dois meses antes do aniversário. Um deles dedicado ao planejamento. Quando maio chegou, comecei a por em prática tudo. Os horários de almoço incluíam a procura de imagens e recursos para montar a divulgação. Aproveitando um acesso ao Orkut (cada vez mais raro hoje em dia para mim, por causa dos bloqueios da agência e a internet podre de casa...), consegui os endereços de seus amigos mais queridos.
A primeira fase do projeto seria uma ação muito simples: em seu aniversário do ano anterior, ela queixara-se de que ninguém ligou e poucos compareceram à balada marcada no Inferno. Nós dois já estamos acostumados à vida multipla e simultânea que se leva nesta cidade, mas ao menos faz-se tempo para visitar amigos importantes em seus aniversários... Convencido de que eu correria um sério risco de fracassar se marcasse uma balada, resolvi ao menos cuidar do outro assunto, os telefonemas. Porque imaginei que, lembrando a todos com alguma antecedência e insistindo um pouco, eu conseguiria alguns telefonemas de amigos queridos para alegrar a aniversariante. O primeiro flyer foi disparado uma semana antes da data.
Enquanto isso, a segunda fase do projeto corria. Com o ateliê reativado, passei a dedicar algumas horas após o trabalho à construção de alguns presentes interessantes. Em uma época onde madeira leve era escassa por causa de problemas aduaneiros (de acordo com os vendedores...), eu tive que ser criativo na escolha de materiais e ferramentas. Trabalhei nas poucas horas em que ela não esperava qualquer contato meu, como se o dia transcorresse normalmente, mas tive que abrir o jogo na última semana e dizer que estava passando algumas horas no ateliê.
E então, naqueles últimos dias antes do fim, ela adoeceu. Daquelas coisas que ninguém espera: intoxicação alimentar e stress. Com direito a visita ao PS de hospital e muito soro na veia. Males de um semestre particularmente vil na faculdade. O fato mudou parte dos planos e os presentes que teriam sido entregues na fazenda, tiveram que acontecer na cidade. Aquele feriado foi passado entre as fases finais de construção no ateliê e cuidados na casa dela.
Finalmente, aquele domingo chegou. Me encontrou, em suas primeiras horas, dormindo sobre o meu teclado no computador de casa, enquanto eu batalhava minha internet podre para enviar o segundo flyer, lembrando a todos mais uma vez de ligar naquele dia. Havia sempre nos flyers a nota pedindo para que não revelassem que eu pedira para ligarem. Tive medo de que, se ela soubesse, ela pensaria que os telefonemas eram menos verdadeiros, porque as pessoas não lembraram dela por si próprias. Mas ao mesmo tempo, tive vontade de contar para revelar que eu era responsável por aquilo. Se o fizesse, eu sabia que a ação perderia seu impacto. Mas como era difícil manter esse segredo! Os telefonemas começaram pela manhã. Teve gente ligando que misteriosamente conseguiu o número dela mesmo sem ela ter divulgado. Teve muita gente que ela não esperava ouvir naquele dia. E claro, sempre tem um ou outro que, mesmo com toda a divulgação, não consegue vencer a preguiça e executar um gesto tão banal.
Apareci na casa dela no fim da manhã. Ela abriu a porta e deu de cara com um vaso de tulipas. As primeiras flores de verdade que eu lhe dei em pouco mais de um ano de namoro (ultrajante, eu sei...). De lá, depois do primeiro almoço decente que ela tinha há dias por causa da intoxicação, fomos ao ateliê.
Sentei-a na poltrona de couro encostada no canto e pedi que esperasse. Dali a pouco eu aparecia com uma caixa de papelão que coloquei em uma mesinha. Comecei então a contar a história.
"Se estivéssemos na fazenda, ela acordaria de manhã e veria pela janela ao leste um enorme balão branco em formato de coração amarrado à árvore no campinho de futebol. Chegando lá, eu lhe daria uma agulha, dizendo-lhe: 'esta é kaze, a caixa de ar'. Estourando o balão, ela encontraria em meio ao confete um rolinho de papel amarrado. No papel, os estudos e a impressão final de um logotipo criado especialmente para ela. Para que começasse a deixar sua marca nas imagens que coloca na internet, nos trabalhos da faculdade, em tudo. Assim como eu tenho o meu leão de pedra.
"Seguindo para o norte, em direção ao campo onde se plantava milho há algum tempo e a terra ainda é fofa, encontraríamos uma pá fincada no chão, sobre o logotipo desenhado. Cavando alguns centímetros do chão, ela chegaria a uma caixa. Construída em MDF, mais resistente ao peso e pressão, e com as laterais revestidas de argila, esta seria chi, a caixa de terra. Quebrando os lacres de argila e abrindo a tampa, ela encontraria o segundo presente: um periférico para o laptop dela, cuidadosamente embalado.
"Então desceríamos a elevação para o oeste, em direção à represa. Perto da margem, uma caixa pintada de azul chamaria a atenção. Uma das fotos dela, de nossa série de fotos na caixa branca, decora a tampa da mizu, a caixa de água. Na frente da caixa, um lacre é feito de tinta guache. O guache é solúvel em água e é tudo o que é preciso para abrir a caixa. Dentro dela, deitadas no forro de veludo, estão quatro tulgaridas, misturas de tulipas e margaridas feitas de plástico (assistindo a cena de "O Todopoderoso" em que Jim Carrey dá tulgaridas à Jennifer Aniston, ela exclamou que eu nunca lhe dera tulgaridas, querendo dizer que eu nunca lhe dera flores em geral...).
"Finalmente, subiríamos para o sul, em direção à entrada da fazenda. De lá daria para ver o morro que pegou fogo há alguns anos, e que todos nós da fazenda ajudamos a apagar. O céu naquela noite fora vermelho vivo. Perto da entrada estaria uma caixa prateada. Hi, a caixa de fogo, é forrada de alumínio. a tampa é lacrada com cera na qual está delicadamente desenhado o logotipo dela. Com a ajuda de um isqueiro e algum cuidado, a caixa seria aberta, revelando um livro de fotos de astros do rock que ela tanto queria. O livro documenta uma das primeiras exposições que visitamos juntos, do trabalho do fotógrafo Bob Gruen.
"Percorrendo as quatro posições, faríamos um quadrado em torno da casa. A mais complexa das três formas básicas da filosofia religiosa que eu vi na Itália. Relacionada aos quatro elementos, quatro pontos cardeais, quatro estações e tantas outras coisas. Tem paralelos nas religiões das culturas chinesa, celta e wicca."
Mas mesmo depois desses dois meses e o jantar que se seguiu, depois de tantos presentinhos pensado e executados com a dificuldade da falta de tempo, senti ainda não ter retribuído o meu aniversário. É estranho: o namoro com ela me apresentou a um outro tipo de relacionamento, uma coisa mais justa. Onde não estamos exatamente cobrando um do outro, mas somos em vez disso impelidos a retribuir gestos tão delicados de carinho com outros de mesmo teor e acabamos sempre gerando no outro a vontade de retribuir essa retribuição. E assim sucessivamente.
É fácil ser um total idiota e cobrar carinho na base da reclamação. Difícil é fazer desse outro jeito, e inspirar a devoção do outro através da sua própria.
Ei, psiu! Te amo.
Lexy me dera o aniversário mais gostoso dos últimos anos. Eu não recebia esse tipo de adoração e devoção desde meus aniversários de infância. Presentes feitos por ela, pensados de acordo com o que eu sou, minha simbologia, presentes muito pessoais. Nada daquelas besteiras compradas por impulso. Era uma coisa difícil de retribuir.
O projeto começou dois meses antes do aniversário. Um deles dedicado ao planejamento. Quando maio chegou, comecei a por em prática tudo. Os horários de almoço incluíam a procura de imagens e recursos para montar a divulgação. Aproveitando um acesso ao Orkut (cada vez mais raro hoje em dia para mim, por causa dos bloqueios da agência e a internet podre de casa...), consegui os endereços de seus amigos mais queridos.
A primeira fase do projeto seria uma ação muito simples: em seu aniversário do ano anterior, ela queixara-se de que ninguém ligou e poucos compareceram à balada marcada no Inferno. Nós dois já estamos acostumados à vida multipla e simultânea que se leva nesta cidade, mas ao menos faz-se tempo para visitar amigos importantes em seus aniversários... Convencido de que eu correria um sério risco de fracassar se marcasse uma balada, resolvi ao menos cuidar do outro assunto, os telefonemas. Porque imaginei que, lembrando a todos com alguma antecedência e insistindo um pouco, eu conseguiria alguns telefonemas de amigos queridos para alegrar a aniversariante. O primeiro flyer foi disparado uma semana antes da data.
Enquanto isso, a segunda fase do projeto corria. Com o ateliê reativado, passei a dedicar algumas horas após o trabalho à construção de alguns presentes interessantes. Em uma época onde madeira leve era escassa por causa de problemas aduaneiros (de acordo com os vendedores...), eu tive que ser criativo na escolha de materiais e ferramentas. Trabalhei nas poucas horas em que ela não esperava qualquer contato meu, como se o dia transcorresse normalmente, mas tive que abrir o jogo na última semana e dizer que estava passando algumas horas no ateliê.
E então, naqueles últimos dias antes do fim, ela adoeceu. Daquelas coisas que ninguém espera: intoxicação alimentar e stress. Com direito a visita ao PS de hospital e muito soro na veia. Males de um semestre particularmente vil na faculdade. O fato mudou parte dos planos e os presentes que teriam sido entregues na fazenda, tiveram que acontecer na cidade. Aquele feriado foi passado entre as fases finais de construção no ateliê e cuidados na casa dela.
Finalmente, aquele domingo chegou. Me encontrou, em suas primeiras horas, dormindo sobre o meu teclado no computador de casa, enquanto eu batalhava minha internet podre para enviar o segundo flyer, lembrando a todos mais uma vez de ligar naquele dia. Havia sempre nos flyers a nota pedindo para que não revelassem que eu pedira para ligarem. Tive medo de que, se ela soubesse, ela pensaria que os telefonemas eram menos verdadeiros, porque as pessoas não lembraram dela por si próprias. Mas ao mesmo tempo, tive vontade de contar para revelar que eu era responsável por aquilo. Se o fizesse, eu sabia que a ação perderia seu impacto. Mas como era difícil manter esse segredo! Os telefonemas começaram pela manhã. Teve gente ligando que misteriosamente conseguiu o número dela mesmo sem ela ter divulgado. Teve muita gente que ela não esperava ouvir naquele dia. E claro, sempre tem um ou outro que, mesmo com toda a divulgação, não consegue vencer a preguiça e executar um gesto tão banal.
Apareci na casa dela no fim da manhã. Ela abriu a porta e deu de cara com um vaso de tulipas. As primeiras flores de verdade que eu lhe dei em pouco mais de um ano de namoro (ultrajante, eu sei...). De lá, depois do primeiro almoço decente que ela tinha há dias por causa da intoxicação, fomos ao ateliê.
Sentei-a na poltrona de couro encostada no canto e pedi que esperasse. Dali a pouco eu aparecia com uma caixa de papelão que coloquei em uma mesinha. Comecei então a contar a história.
"Se estivéssemos na fazenda, ela acordaria de manhã e veria pela janela ao leste um enorme balão branco em formato de coração amarrado à árvore no campinho de futebol. Chegando lá, eu lhe daria uma agulha, dizendo-lhe: 'esta é kaze, a caixa de ar'. Estourando o balão, ela encontraria em meio ao confete um rolinho de papel amarrado. No papel, os estudos e a impressão final de um logotipo criado especialmente para ela. Para que começasse a deixar sua marca nas imagens que coloca na internet, nos trabalhos da faculdade, em tudo. Assim como eu tenho o meu leão de pedra.
"Seguindo para o norte, em direção ao campo onde se plantava milho há algum tempo e a terra ainda é fofa, encontraríamos uma pá fincada no chão, sobre o logotipo desenhado. Cavando alguns centímetros do chão, ela chegaria a uma caixa. Construída em MDF, mais resistente ao peso e pressão, e com as laterais revestidas de argila, esta seria chi, a caixa de terra. Quebrando os lacres de argila e abrindo a tampa, ela encontraria o segundo presente: um periférico para o laptop dela, cuidadosamente embalado.
"Então desceríamos a elevação para o oeste, em direção à represa. Perto da margem, uma caixa pintada de azul chamaria a atenção. Uma das fotos dela, de nossa série de fotos na caixa branca, decora a tampa da mizu, a caixa de água. Na frente da caixa, um lacre é feito de tinta guache. O guache é solúvel em água e é tudo o que é preciso para abrir a caixa. Dentro dela, deitadas no forro de veludo, estão quatro tulgaridas, misturas de tulipas e margaridas feitas de plástico (assistindo a cena de "O Todopoderoso" em que Jim Carrey dá tulgaridas à Jennifer Aniston, ela exclamou que eu nunca lhe dera tulgaridas, querendo dizer que eu nunca lhe dera flores em geral...).
"Finalmente, subiríamos para o sul, em direção à entrada da fazenda. De lá daria para ver o morro que pegou fogo há alguns anos, e que todos nós da fazenda ajudamos a apagar. O céu naquela noite fora vermelho vivo. Perto da entrada estaria uma caixa prateada. Hi, a caixa de fogo, é forrada de alumínio. a tampa é lacrada com cera na qual está delicadamente desenhado o logotipo dela. Com a ajuda de um isqueiro e algum cuidado, a caixa seria aberta, revelando um livro de fotos de astros do rock que ela tanto queria. O livro documenta uma das primeiras exposições que visitamos juntos, do trabalho do fotógrafo Bob Gruen.
"Percorrendo as quatro posições, faríamos um quadrado em torno da casa. A mais complexa das três formas básicas da filosofia religiosa que eu vi na Itália. Relacionada aos quatro elementos, quatro pontos cardeais, quatro estações e tantas outras coisas. Tem paralelos nas religiões das culturas chinesa, celta e wicca."
Mas mesmo depois desses dois meses e o jantar que se seguiu, depois de tantos presentinhos pensado e executados com a dificuldade da falta de tempo, senti ainda não ter retribuído o meu aniversário. É estranho: o namoro com ela me apresentou a um outro tipo de relacionamento, uma coisa mais justa. Onde não estamos exatamente cobrando um do outro, mas somos em vez disso impelidos a retribuir gestos tão delicados de carinho com outros de mesmo teor e acabamos sempre gerando no outro a vontade de retribuir essa retribuição. E assim sucessivamente.
É fácil ser um total idiota e cobrar carinho na base da reclamação. Difícil é fazer desse outro jeito, e inspirar a devoção do outro através da sua própria.
Ei, psiu! Te amo.
segunda-feira, maio 05, 2008
Feriado passado em São Roque, com amigos da Lexy, curtindo o frio que já começa a se instalar por aqui. Eu gosto do frio, apesar dele provocar em mim aquele recrudescimento, introspecção e austeridade.
Ainda custo a acreditar no prazer que sinto com uma coisa tão simples como cozinhar. Juntar algumas pessoas e fazer alguma coisa que estimule o paladar e arranque elogios. Há dois anos eu era alguém que fugia da cozinha e não fazia mais do que ovos mexidos e macarrão. Hoje experimento a salada que meu tio Carlos faz no aniversário da minha avó e fico analizando ingredientes e conferindo a mistura estranhamente aprazível de maçã, curry e azeite.
Ainda custo a acreditar no prazer que sinto com uma coisa tão simples como cozinhar. Juntar algumas pessoas e fazer alguma coisa que estimule o paladar e arranque elogios. Há dois anos eu era alguém que fugia da cozinha e não fazia mais do que ovos mexidos e macarrão. Hoje experimento a salada que meu tio Carlos faz no aniversário da minha avó e fico analizando ingredientes e conferindo a mistura estranhamente aprazível de maçã, curry e azeite.
segunda-feira, abril 28, 2008
Vira, vira, vira...
Minha Virada Cultural começou tarde graças aos outros compromissos do fim de semana. Como eu tinha comentado no Twitter, a gente passa quase um mês do mais absoluto tédio e de repente todo mundo resolve promover aquela Festa Imperdível e Diplomaticamente Importante à qual você é obrigado a comparecer. Mas, perto da meia noite, lá estávamos eu, Lexy e uma de suas amigas, desembarcando no metrô da Praça da República, onde a amiga já se despediu e foi curtir a Virada com outra turma. Já era tarde. Tarde demais para conseguir qualquer entrada para qualquer coisa relacionada a teatro.
A situação das peças teatrais na Virada foi de dar nos nervos. Onde já se viu: no maior evento de cultura da cidade, as peças mais interessantes das companias mais descoladas estavam todas em salinhas que acomodavam não mais que cinquenta pessoas e tinham uma única sessão. A correspondente teatral deste blog, minha mãe, tentou sem sucesso ver os Sátyros ou qualquer outra coisa da Praça Roosevelt, mas me ligou pra sugerir que eu nem me incomodasse de passar por lá que tava impraticável. Antes disso, ela tinha comparecido pela segunda vez à apresentação do Teatro da Vertigem no Vale do Anhangabaú. Ficou sabendo confidencialmente que, não bastando a sala com meros vinte a trinta lugares, eles tinham uma lista de pessoas ligadas à Petrobrás (patrocinadora da apresentação...) que tinham preferência. Ou seja, ninguém mais viu... Será que a minha agência banca algo assim algum dia pra que eu possa assistir?
Posteriormente, minha mãe contou que avistou o pessoal dos Acrobáticos Fratelli atravessando o Vale do Anhangabaú na corda bamba e os caras do Generik Vapeur que a assustaram com a inusitada apresentação, que incluía fogos de artifício que mais pareciam tiros naquele caos das ruas e pessoas confusas entre fugir com medo e seguir com curiosidade...
Passado esse primeiro momento de revolta e o segundo momento de total e completa desorientação até encontrar os mapinhas do evento (aliás, muitos pontos positivos para o pessoal da produção!), passamos pelos curtas-metragens da Praça Ramos e ficamos com vontade de fazer algo para o próximo Festival do Minuto (típica promessa de ano novo que nunca cumprimos...). De lá, descemos a Líbero Badaró para o que talvez tenha sido a coisa mais instigante e organizada da noite toda: a Silent Disco.
Pra quem não conhece (e não entende o inglês da Wikipedia...), o projeto Holandês consiste em montar uma balada ao ar livre, onde o público recebe fones de ouvido para ouvir a música do DJ. O resultado é hilário: umas quinhentas pessoas, todas dançando, curtindo a festa e cantando em coro enquanto os outros ficam do lado de fora do cercadinho, assistindo sem entender nada àquelas pessoas tendo espasmos rítmicos lá dentro. O local não podia ser mais apropriado: na frente do Mosteiro de São Bento e seu silêncio sacro, o DJ tocava tudo, de Beatles a rock alemão pesado e satânico, passando por coisas que eu nunca esperava em balada, como Cardigans e baladinha jazz para acalmar os nervos na saída. Curti tudo isso junto com o Roberto, antigo colega do curso de publicidade que sempre teve um jeito particular e muito estiloso de dançar. E do meu lado, Lexy ria seu sorriso mais belo e alegre, enquanto desnudava passos de dança que eu nuca a vira fazer e me dava mais motivos para gostar dela. Depois veio me contar de outro projeto similar, uma balada para cegos, onde em vez do som, as paredes e o chão vibram no ritmo, junto com as luzes. Fiquei com vontade de ir numa dessas.
Depois disso, atravessamos a São João para pegar os Mutante lá do outro lado, achando que talvez tocassem com a Zélia Duncan. Fiquei contente quando nossos acompanhantes de então perceberam que ela não estava lá e resolveram fazer outra coisa: enjoei dos Mutantes há muito tempo, depois de ouvi-los pela trigésima vez nas festinhas emaconhadas da faculdade de publicidade... No entanto, tenho que admitir que o som deles estava impecável e eu ainda preciso fazer parte de uma banda que tenha um corpo vocal daqueles, com três, quatro vozes montando acordes perfeitos.
Na volta, tentamos ainda passar na Virada das Vampiras da Galeria Olido, para assistir o sugestivo A Vampira Nua. Porque afinal, somos interessadíssimos pelo assunto. Tanto os vampiros quanto a nudez. Mas como tudo que tinha senha e ingresso, estava impraticável. A entrada da Galeria era um tapete de góticos e simpatizantes deitados no chão, tendo pego a senha para o próximo filme, daqui a umas quatro ou cinco horas...
Cansados de tanto andar, nossa Virada terminou cedo com o já tradicional sanduíche de mortadela do Mercadão. Nada melhor quando se está faminto.
Voltei ao meu carro quando o dia raiava e cheguei em casa com meu pai já acordado.
Não posso dizer que não me diverti. Mas preciso terminar fazendo algumas considerações.
Em primeiro lugar, o evento me faz amar e detestar essa cidade. O primeiro porque é só aqui que temos um evento dessa magnitude nesse país. O segundo porque só aqui tem tanta gente pra fazer desse evento uma coisa insuportável... E olha que quase ninguém que eu conheço realmente foi. Nem mesmo meus culturófilos de carteirinha, que no máximo assistiram a um show aqui ou ali e se retiraram. Supondo que um décimo da população da cidade estava lá, já seria demais pra aguentar.
Segundo, depois das recentes ocorrências de zica relativa a furtos, fui à Virada no melhor estilo militar, levando apenas o estritamente necessário e amarrado ao corpo de forma que ninguém conseguisse afanar. Comprei há tempos uma pochete dessas militares, de amarrar na perna. É brega, mas funciona que é uma beleza: o trombadinha olha pra você, olha pra pochete e fica com aquele enorme ponto de interrogação na cara, porque não sabe onde que abre aquilo. O celular fica lá no fundo, onde ele não alcaça sem que eu perceba, e só é tirado em emergências. Sempre levo um dinheiro de emergência, escondido, pra que eu possa pegar um taxi e voltar pra casa se o dito trombadinha perder a paciência e resolver me assaltar à mão armada mesmo. Não é macabro e nem pessimista, é realista...
A terceira e talvez mais polêmica consideração é quanto ao número de acompanhantes. Aqui eu percebi que vale uma das duas alternativas: ou você vai sozinho (ou acompanhado de alguma pessoa que tenha o mesmo gosto que o teu), ou vai em grupo com um itinerário bem amarrado e sem espaço para alterações e com todos os integrantes do grupo saíndo do mesmo lugar. O objetivo é evitar aquela cena comum de esperar na porta do metro pelo Fulano que atrasou quase uma hora, ou tentar encontrar aquela sua amiga no meio das mil e poucas pessoas zanzando pela São João. Você vai perder no mínimo meia hora em qualquer dessas circunstâncias e coloque mais meia pra ir da saída do metro para o evento que você pretendia ir. Indo só, você tem a possibilidade de mudar de idéia se o programa estiver muito chato, e isso é uma vantagem enorme. Porque afinal, só você muda de idéia, você não tem que convencer a trupe inteira. A regra de ouro é: seja rápido.
Finalmente, chego à conclusão que planejar para um evento desses requer a elaboração de dois itinerários que devem se encaixar. Um deles contempla a aquisição dos ingressos e senhas, no mínimo uma hora e meia antes da atração, e o outro diz respeito à atração em si, uma hora e meia depois. A idéia é conseguir uma senha a caminho de outra atração e passar lá na volta para ver.
Mas ou muito me engano, ou estou começando a soar como um fundamentalista cultural. Talvez esteja levando essa de Guerrilha Cultural muito a sério...
A situação das peças teatrais na Virada foi de dar nos nervos. Onde já se viu: no maior evento de cultura da cidade, as peças mais interessantes das companias mais descoladas estavam todas em salinhas que acomodavam não mais que cinquenta pessoas e tinham uma única sessão. A correspondente teatral deste blog, minha mãe, tentou sem sucesso ver os Sátyros ou qualquer outra coisa da Praça Roosevelt, mas me ligou pra sugerir que eu nem me incomodasse de passar por lá que tava impraticável. Antes disso, ela tinha comparecido pela segunda vez à apresentação do Teatro da Vertigem no Vale do Anhangabaú. Ficou sabendo confidencialmente que, não bastando a sala com meros vinte a trinta lugares, eles tinham uma lista de pessoas ligadas à Petrobrás (patrocinadora da apresentação...) que tinham preferência. Ou seja, ninguém mais viu... Será que a minha agência banca algo assim algum dia pra que eu possa assistir?
Posteriormente, minha mãe contou que avistou o pessoal dos Acrobáticos Fratelli atravessando o Vale do Anhangabaú na corda bamba e os caras do Generik Vapeur que a assustaram com a inusitada apresentação, que incluía fogos de artifício que mais pareciam tiros naquele caos das ruas e pessoas confusas entre fugir com medo e seguir com curiosidade...
Passado esse primeiro momento de revolta e o segundo momento de total e completa desorientação até encontrar os mapinhas do evento (aliás, muitos pontos positivos para o pessoal da produção!), passamos pelos curtas-metragens da Praça Ramos e ficamos com vontade de fazer algo para o próximo Festival do Minuto (típica promessa de ano novo que nunca cumprimos...). De lá, descemos a Líbero Badaró para o que talvez tenha sido a coisa mais instigante e organizada da noite toda: a Silent Disco.
Pra quem não conhece (e não entende o inglês da Wikipedia...), o projeto Holandês consiste em montar uma balada ao ar livre, onde o público recebe fones de ouvido para ouvir a música do DJ. O resultado é hilário: umas quinhentas pessoas, todas dançando, curtindo a festa e cantando em coro enquanto os outros ficam do lado de fora do cercadinho, assistindo sem entender nada àquelas pessoas tendo espasmos rítmicos lá dentro. O local não podia ser mais apropriado: na frente do Mosteiro de São Bento e seu silêncio sacro, o DJ tocava tudo, de Beatles a rock alemão pesado e satânico, passando por coisas que eu nunca esperava em balada, como Cardigans e baladinha jazz para acalmar os nervos na saída. Curti tudo isso junto com o Roberto, antigo colega do curso de publicidade que sempre teve um jeito particular e muito estiloso de dançar. E do meu lado, Lexy ria seu sorriso mais belo e alegre, enquanto desnudava passos de dança que eu nuca a vira fazer e me dava mais motivos para gostar dela. Depois veio me contar de outro projeto similar, uma balada para cegos, onde em vez do som, as paredes e o chão vibram no ritmo, junto com as luzes. Fiquei com vontade de ir numa dessas.
Depois disso, atravessamos a São João para pegar os Mutante lá do outro lado, achando que talvez tocassem com a Zélia Duncan. Fiquei contente quando nossos acompanhantes de então perceberam que ela não estava lá e resolveram fazer outra coisa: enjoei dos Mutantes há muito tempo, depois de ouvi-los pela trigésima vez nas festinhas emaconhadas da faculdade de publicidade... No entanto, tenho que admitir que o som deles estava impecável e eu ainda preciso fazer parte de uma banda que tenha um corpo vocal daqueles, com três, quatro vozes montando acordes perfeitos.
Na volta, tentamos ainda passar na Virada das Vampiras da Galeria Olido, para assistir o sugestivo A Vampira Nua. Porque afinal, somos interessadíssimos pelo assunto. Tanto os vampiros quanto a nudez. Mas como tudo que tinha senha e ingresso, estava impraticável. A entrada da Galeria era um tapete de góticos e simpatizantes deitados no chão, tendo pego a senha para o próximo filme, daqui a umas quatro ou cinco horas...
Cansados de tanto andar, nossa Virada terminou cedo com o já tradicional sanduíche de mortadela do Mercadão. Nada melhor quando se está faminto.
Voltei ao meu carro quando o dia raiava e cheguei em casa com meu pai já acordado.
Não posso dizer que não me diverti. Mas preciso terminar fazendo algumas considerações.
Em primeiro lugar, o evento me faz amar e detestar essa cidade. O primeiro porque é só aqui que temos um evento dessa magnitude nesse país. O segundo porque só aqui tem tanta gente pra fazer desse evento uma coisa insuportável... E olha que quase ninguém que eu conheço realmente foi. Nem mesmo meus culturófilos de carteirinha, que no máximo assistiram a um show aqui ou ali e se retiraram. Supondo que um décimo da população da cidade estava lá, já seria demais pra aguentar.
Segundo, depois das recentes ocorrências de zica relativa a furtos, fui à Virada no melhor estilo militar, levando apenas o estritamente necessário e amarrado ao corpo de forma que ninguém conseguisse afanar. Comprei há tempos uma pochete dessas militares, de amarrar na perna. É brega, mas funciona que é uma beleza: o trombadinha olha pra você, olha pra pochete e fica com aquele enorme ponto de interrogação na cara, porque não sabe onde que abre aquilo. O celular fica lá no fundo, onde ele não alcaça sem que eu perceba, e só é tirado em emergências. Sempre levo um dinheiro de emergência, escondido, pra que eu possa pegar um taxi e voltar pra casa se o dito trombadinha perder a paciência e resolver me assaltar à mão armada mesmo. Não é macabro e nem pessimista, é realista...
A terceira e talvez mais polêmica consideração é quanto ao número de acompanhantes. Aqui eu percebi que vale uma das duas alternativas: ou você vai sozinho (ou acompanhado de alguma pessoa que tenha o mesmo gosto que o teu), ou vai em grupo com um itinerário bem amarrado e sem espaço para alterações e com todos os integrantes do grupo saíndo do mesmo lugar. O objetivo é evitar aquela cena comum de esperar na porta do metro pelo Fulano que atrasou quase uma hora, ou tentar encontrar aquela sua amiga no meio das mil e poucas pessoas zanzando pela São João. Você vai perder no mínimo meia hora em qualquer dessas circunstâncias e coloque mais meia pra ir da saída do metro para o evento que você pretendia ir. Indo só, você tem a possibilidade de mudar de idéia se o programa estiver muito chato, e isso é uma vantagem enorme. Porque afinal, só você muda de idéia, você não tem que convencer a trupe inteira. A regra de ouro é: seja rápido.
Finalmente, chego à conclusão que planejar para um evento desses requer a elaboração de dois itinerários que devem se encaixar. Um deles contempla a aquisição dos ingressos e senhas, no mínimo uma hora e meia antes da atração, e o outro diz respeito à atração em si, uma hora e meia depois. A idéia é conseguir uma senha a caminho de outra atração e passar lá na volta para ver.
Mas ou muito me engano, ou estou começando a soar como um fundamentalista cultural. Talvez esteja levando essa de Guerrilha Cultural muito a sério...
quarta-feira, abril 16, 2008
Orgasmos criativos
Ocorreu-me no trabalho uma comparação cômica entre o prazer do trabalho criativo e o deleito orgásmico do sexo.
Quem exercita sua criatividade sem medo, seja no trabalho ou por diversão, conhece aquela sensação de satisfação frente a uma sacada genial, uma técnica bem executada, uma gestalt harmônica. Aquele momento de exclamar: "cara, fui eu que fiz isso?". Não tarda muito a chegar a idéia de como seria fantástico ter isso todo dia, a toda hora, sempre. Ser uma pessoa violentamente criativa o tempo inteiro. Aliás, é nessa premissa que são julgados os profissionais de publicidade. Mas ser criativo exige dedicação, esforço, capacidade de lidar com frustração e não tem nada a ver com o trabalho excitante que os filmes e os manuais para vestibulandos nos mostram. E chega uma hora em períodos de atividade intensa que isso cansa. Ao contrário do que muita gente pensa, criatividade não é uma característica instintiva e não dá pra ser criativo 24/7. De vez em quando todo mundo precisa do racional, quadradinho, básico.
Da mesma forma, quem tem uma vida sexual regular conhece a satisfação de cada transa. Não tarda muito em imaginar na adolescência o quão fantástico seria ter isso todo dia, a toda hora, sempre. Viver num eterno estado de deleite sexual. Aliás, é nessa premissa que se julga geralmente a felicidade nesse âmbito da vida. Mas convenhamos, esse negócio envolve muita questão moral, muita sujeira, muito desentendimento e preocupação e não tem nada a ver com aquela coisa tranquila mostrada nos romances onde ambos saem plenamente satisfeitos e felizes para sempre. E chega uma hora em períodos de atividade intensa que isso cansa. Ao contrário do que muita gente pensa, até mesmo adolescentes podem chegar a um ponto de saciedade em relação ao sexo. De vez em quando a vida precisa ser mais do que só isso.
Em ambos os casos, às vezes são os períodos de abstinência que tornam o saciar a vontade mais intenso.
E antes que comecem a especular sobre a minha vida sexual, ela vai bem, na medida certa, obrigado. É a questão da criatividade que tem me deixado meio... assado.
Quem exercita sua criatividade sem medo, seja no trabalho ou por diversão, conhece aquela sensação de satisfação frente a uma sacada genial, uma técnica bem executada, uma gestalt harmônica. Aquele momento de exclamar: "cara, fui eu que fiz isso?". Não tarda muito a chegar a idéia de como seria fantástico ter isso todo dia, a toda hora, sempre. Ser uma pessoa violentamente criativa o tempo inteiro. Aliás, é nessa premissa que são julgados os profissionais de publicidade. Mas ser criativo exige dedicação, esforço, capacidade de lidar com frustração e não tem nada a ver com o trabalho excitante que os filmes e os manuais para vestibulandos nos mostram. E chega uma hora em períodos de atividade intensa que isso cansa. Ao contrário do que muita gente pensa, criatividade não é uma característica instintiva e não dá pra ser criativo 24/7. De vez em quando todo mundo precisa do racional, quadradinho, básico.
Da mesma forma, quem tem uma vida sexual regular conhece a satisfação de cada transa. Não tarda muito em imaginar na adolescência o quão fantástico seria ter isso todo dia, a toda hora, sempre. Viver num eterno estado de deleite sexual. Aliás, é nessa premissa que se julga geralmente a felicidade nesse âmbito da vida. Mas convenhamos, esse negócio envolve muita questão moral, muita sujeira, muito desentendimento e preocupação e não tem nada a ver com aquela coisa tranquila mostrada nos romances onde ambos saem plenamente satisfeitos e felizes para sempre. E chega uma hora em períodos de atividade intensa que isso cansa. Ao contrário do que muita gente pensa, até mesmo adolescentes podem chegar a um ponto de saciedade em relação ao sexo. De vez em quando a vida precisa ser mais do que só isso.
Em ambos os casos, às vezes são os períodos de abstinência que tornam o saciar a vontade mais intenso.
E antes que comecem a especular sobre a minha vida sexual, ela vai bem, na medida certa, obrigado. É a questão da criatividade que tem me deixado meio... assado.
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