sábado, julho 30, 2011

Dissertação de dia, balada de noite

O professor Cussans insistia que a minha dissertação não tinha uma pergunta acadêmica adequada. O que eu sempre detestei da academia era a problematização até das coisas mais simples. Eu já tinha apresentado três possíveis questões acadêmicas a serem desenvolvidas na minha dissertação e todas tinham problemas. "O que é o homem contemporâneo?" A pergunta já saia por terra na primeira referência pesquisada, que me revelou que, na era pós-moderna, qualquer conceito (como "homem", por exemplo) é fluido e maleável, incapaz de ser definido e dependente de uma miríade de conceitos que o rodeiam. "A prática de artistas masculinos adotarem alter egos femininos ainda se mantém relevante após as mudanças propostas pelo Feminismo?" Legal, mas eu teria que especificar o que é relevância e para quem a prática ainda é relevante. "Existe uma suposta ligação entre hábitos (práticas) e orientação sexual?" Bom, eu ainda teria que especificar quem faz a suposição e quais hábitos são esses em questão.

No começo de Julho, eu finalmente cheguei a uma questão aceitável. Eu ia pesquisar as áreas de Vauxhall e Soho, notoriamente conhecidas como redutos LGBT onde as delimitações entre os sexos (genders) eram mais imprecisas, atrás de exemplos de preconceito sistêmico (não partido da opinião de indivíduos) contra o sexo masculino.
A pesquisa juntou detalhes que eu percebera de canto de olho durante o ano inteiro e outras coisas que eu pensara logo no começo. Acabei pesquisando o exército por aqui. O serviço militar inglês é opcional (ao contrátio da nossa dita democracia livre americana) e aberto a ambos os sexos. No entanto, determinadas unidades, como as de infantaria, são apenas masculinas. Em uma curta sessão de bate-papo online com representantes do exército, perguntei a respeito dessas unidades. Um deles respondeu:

Embora o exército reconheça a capacidade de muitas mulheres em apresentar os requisitos necessários, o exército questiona o impacto de ter equipes mistas e como isso afetaria a sua coesão em combates de curta distância.

A resposta bem elaborada mostrava que o assunto já tinha sido discutido. E pra dizer a verdade, eu via o sentido em não criar unidades com ambos os sexos. No entanto, por que não criar unidades masculinas e femininas separadas? Por que só homens? Esse raciocínio perigava ser duplamente sexista: considerando mulheres inadequadas para esse tipo de combate por limitações físicas, ou considerando homens mais descartáveis e adequados para unidades com muitas baixas.
Outro assunto que eu pesquisei foram as escolas primárias inglêsas. Depois da entrevista com um colega do curso que fora professor primário, passei a me interessar pelo medo britânico do professor pedófilo. Apesar de ter encontrado casos noticiados de mulheres (grupos delas até) envolvidas em casos de abuso infantil, o maior medo ainda era em relação aos homens. As escolas das áreas pesquisadas mantinham um corpo docente com uma média de 10% a 15% de professores homens. Obviamente, nenhuma escola quis comentar a respeito.

Quando a noite caía nesses bairros, eu aproveitava para ir às baladas locais. Além do Escape, que eu já frequentava pelo karaokê e para tentar arranjar entrevistas com as drags e crossdressers, eu passei algumas noites na Royal Vauxhall Tavern, que apresentava artistas da chamada queer culture (a palavra "queer" normalmente tem conotações de homossexualismo, mas aqui é usada para qualquer prática sexual que desvie da dita "normalidade"). E aqui eu preciso admitir abertamente: descobri um novo e fascinante mundo.

Estamos entrando em águas perigosamente pessoais e controversas... Segurem-se.

Demorei muito a escrever sobre isso porque percebi ao longo dessa minha experiência o quanto muito disso aqui era diferente da experiência que eu tinha do meu país. E o quanto a fama do Brasil de país sexualizado onde tudo era permitido por causa do Carnaval esbarrava em uma realidade católica conservadora que voltava a reprimir tudo na Quarta-feira de cinzas. Que via todo queer como "viado" (no sentido mais pejorativo da palavra) e que pintava o Brasil como um país retrógrado em comparação com os "frios e tediosos" ingleses. Demorei a escrever, porque ainda não conseguia prever as reações de gente que lê estas páginas (que desde alguns relacionamentos passados passaram a ser escritas com mais zelo pelos sentimentos dos outros...). Mas também porque eu não conseguia definir onde eu me colocava nisso, e isso causava certa confusão que me impedia de escrever. O meu processo todo no
mestrado me fizera rever traumas de infância que tinham colocado em questão a minha orientação sexual e experiências adolescentes que confirmaram minha heterossexualidade em meio a tantas outras questões emocionais complicadas. Mas eu continuava discordando da masculinidade brasileira que eu experimentei. Achava-a entediante, mentirosa e muito, muito conservadora. Além disso, percebi que eu fora ensinado a ter vergonha da minha criatividade sexual, a considerar todos os desvios do padrão católico conservador como "perversão", algo a ser reprimido ou contado em voz baixa e embaraçada.

Mas então havia Londres. Onde o coordenador do curso de mestrado de uma faculdade de renome apresentava-se como drag sem medo de ser feliz. Onde projetos como o Torture Garden organizavam festas de fetiche comentadas em artigos nos jornais gratúitos do metrô como qualquer balada normal. Onde as práticas de BDSM ("Bondage, Domination, Sadism, Masochism") eram vistas como opções de uma vida sexual sadia e criativa, tão naturais quanto preferir ruivas a morenas. Onde apresentadoras burlescas tinha um certo status decadente de celebridades.
Aqui, longe de tudo e de todos que me conheciam antes, eu passei a me permitir mais. Passei a ir nas apresentações burlescas em Vauxhall, nas festas fetichistas em Brixton, nos bares drags de Soho. Quer saber? Estar nesses lugares fez saltar aos olhos o quanto as baladas na minha cidade eram uma mentira. As discotecas comuns eram palco de um jogo de aparência na cultura brasileira, onde eu tinha a impressão de que todo mundo dizia estar lá pra "dançar, beber e se divertir", mas estava lá de fato para pegar alguém. Eram lugares de um erotismo velado, onde as roupas mantinham a decência mas as atitudes não. Aqui nesses lugares de Londres ao menos a coisa era menos hipócrita. As pessoas estavam lá pelo erotismo sim, e não escondiam isso.
Embora uma parte de mim ainda tivesse medo desses lugares, pela educação católica que eu recebi , o tanto que eu me sentia à vontade neles me fazia querer ir mais e mais a fundo. O medo era baseado em todas aquelas premissas estúpidas que alimentam a homofobia no meu país: o medo de que me meter com essa gente me tornaria homossexual, o medo de alguém me pegar à força e me forçar a algo que eu não queria, um medo de contaminação. O sentir-me à vontade era baseado em um mar de novidades que eu experimentava em cada lugar: o "não é não" na porta da balada em Brixton que era respeitado como um mandamento religioso, o quão bem eu me sentia nas roupas incomuns que eu podia usar em Vauxhall e o quanto eu parecia atrair a atenção dos rapazes em Soho sem fazer qualquer esforço. Esse último detalhe era curiosíssimo, porque eu sempre invejara a capacidade feminina de simplesmente estar na balada e atraír interessados enquanto que nós homens tínhamos que correr atrás. E embora eu não me interessasse por rapazes, esse interesse deles por mim fazia um bem incomparável à auto-estima, descontadas as reações homofóbicas.

sexta-feira, julho 29, 2011

Moving on to greener pastures

Julho também foi o mês da mudança.
Há uma incoerência no sistema universitário daqui, centrada no fato de que todos os serviços relacionados à faculdade são sincronizados com os cursos de graduação. No entanto, os cursos de pós são o que tem mantido a faculdade longe da falência, motivo pelo qual eles têm cada vez mais alunos (e cada vez uma porcentagem maior de estrangeiros). Um artigo recente no Guardian mencionou que, como forma de sobreviver à época de austeridade promovida pelos cortes de financiamento do governo, Chelsea tem planos de diminuir e eventualmente acabar com seu curso de graduação (que passará a ser ministrado pela faculdade de Camberwell, parte da mesma universidade), passando a concentrar esforços nos cursos de pós e cursos de férias. Para isso, muita coisa terá que mudar. Porque tudo aqui fecha para férias assim que os alunos de graduação se formam. Lojas de material, serviços da faculdade, a biblioteca fecha mais cedo e nada abre mais aos sábados.

A outra coisa que funciona para os alunos de graduação são as acomodações. Meu contrato no apê da compania ligada à faculdade acabou em Junho. Assim de simples, danem-se os mestrandos. Os jovens com os quais eu morei por dez meses foram gradualmente voltando aos seus lugares de origem, a cozinha lentamente ficando limpa e habitável e as noites mais silenciosas. Até que finalmente, chegou a minha vez de sair.
Fiz as malas e rumei para Vauxhall, um bairro logo ao lado da faculdade, conhecido pela vida noturna LGBT. Ia morar com Missi Liu, uma colega chinesa da faculdade. Além dela, também dividiria o apê com Lora, da Bulgária.
A mudança não foi fácil. Três viagens para trazer toda a parafernália, algumas com malas emprestadas de Missi, depois que a minha maior (e mais não-ergonômica) mala quebrou duas rodinhas enquanto eu a puxava do ponto de ônibus para o apê novo (sorry, mom!). Missi foi um amor. Fez questão de me ajudar a subir os quatro andares sem elevador com parte das malas. Aceitou minhas complicações financeiras enquanto a compania do apê anterior fazias os laudos necessários e me devolvia o depósito que eu usaria para pagar o apê novo.
Porém Missi era muito viajadora. E só em Julho deu um pulo em Genebra e depois voltou para a China para resolver problemas familiares. Assim que, nesse primeiro mês, passei boa parte do tempo mais com Lora. Uma bióloga, ela estava participando de pesquisas sobre lupus, uma doença autoimune complicada. Muito simpática, disciplinada e aparentemente tímida, ela no entanto recebia algumas pessoas que passavam a noite com ela, não deixando muito claro qual era o grau de relacionamento dela com esses amigos e amigas. Não que isso me importasse... De manhã, competíamos tacitamente pelo banheiro. Quem acordasse primeiro tomava banho. Depois de um tempo, acabei me dando conta que eu podia chegar meia hora mais tarde na faculdade, mas ela tinha que estar no laboratório em um horário específico, e quando eu pegava o banheiro primeiro ela era forçada a sair sem banho. Passei a dar-lhe primazia.
Outras coisas me deixavam menos certo do quanto estávamos competindo. Ela parecia não se importar com o prato ou copo que eu por vezes deixava na pia depois da janta e lavava tudo, junto com os dela. Chegou até a comentar, quando eu lhe disse para deixar minhas coisas que eu as lavaria depois, que ela não era uma "dish nazi" (algo como nazista de louças) e não se importava com essas delimitações de tarefas tão rigidas com as quais eu tinha me acostumado (e me frustrado) morando com a turma de 18 a 20 anos. Ela ainda tirava o lixo com uma diligência à qual eu não estava acostumado, enquanto Missi varria e aspirava a cozinha. No geral, eu passei a me sentir como o mais bagunceiro e desleixado da turma, percebendo o quanto dos maus hábitos da garotada anterior eu tinha absorvido. Mas eu tinha uma desculpa (ou pelo menos me dizia isso) no catálogo e na dissertação da faculdade. Eu era desleixado porque não tinha tempo!

Outras rotinas externas mudaram. O supermercado mais próximo era um Sainsbury's, que vendia carne mais caro do que o Morrisons ao qual eu me acostumara. Então continuei peregrinando até Camberwell todo fim de semana para fazer supermercado. Mas não era só por isso: alguns dos meus projetos de fotografia não ligados à faculdade estavam acontecendo lá. Fotos sobre as quatro estações que eu tirava todos os dias e agora passava a só poder tirar nos finais de semana. Além disso, alguns dos meus colegas do mestrado moravam perto de Camberwell, e estávamos passando a nos encontrar fora da faculdade com mais frequência.

De volta ao apê, meu quarto era levemente maior do que o anterior. Uma janela bastante grande dava uma vista para a estação de metrô de Vauxhall e o prédio do MI5 ao fundo. A janela, com uma cortina de palha que até hoje não aprendi a operar, estava acima do nível dos prédios vizinhos. O que significava que eu podia ter aquela deliciosa sensação exibicionista de andar pelo quarto pelado com a janela aberta, sem que ninguém pudesse me ver (a menos que um tarado no prédio do MI5 tivesse uma luneta...).
Eu ganhei um armário de pano e armação de alumínio que parecia prestes a cair com o peso das roupas, três cactos na janela, um sofá e uma mesa baixa. Sem mesa para trabalhar... Ignorei o fato quando estava procurando lugar pra ficar, mas logo na primeira tradução que recebi, minhas costas pediram arrego. Rapidamente tratei de montar uma mesinha na oficina de madeira da faculdade, que eu pudesse sentar no sofá e colocar no colo com o computador. Era uma coisa tosca, feita às pressas e com pernas dobráveis, mas servia seu propósito. Depois de um tempo, coloquei até buracos para facilitar a ventilação do meu computador, que estava aquecendo e desligando quando eu renderizava vídeos. No geral, o quarto tinha um ar até meio sensual, mediterrâneo. Não sei explicar. É algo que distoava de Londres de uma forma muito interessante. Tinha o desleixo de casa de praia. A porta não tinha tranca (mas tinha um adorno de penas na maçaneta...) e as paredes eram mais grossas em cima do que na base, criando um ângulo esquisito.

Mas apesar das peculiaridades, era um lar. A localização era uma delícia, a dez minutos de caminhada da faculdade. Podia voltar para almoçar (e pegar as várias coisas que eu esqueço...). Porém o mais interessante de Vauxhall era a vida noturna e os personagens caricatos da comunidade LGBT.

Mas isso fica para próximos posts...

quinta-feira, julho 28, 2011

O acidente de Brian, a consequente onda de destruição e o catálogo

Na faculdade, o efeito dominó começou quando Brian, nosso líder do curso, teve um acidente de bicicleta logo após a minha avaliação com ele e Dawn Mellor. Quebrou um braço e teve algum problema na bacia. Demorou duas semanas para voltar à faculdade, de muleta e sob o efeito de analgésicos. Durante esse tempo, o curso caminhou como uma daquelas galinhas que continuam correndo depois de terem a cabeça cortada. As avaliações dos outros alunos foram mal feitas por professores substitutos chamados de última hora, as notas tiveram que esperar até que Brian voltasse e a visita de um avaliador externo, parte importantíssima dessas avaliações, nunca aconteceu.

Esse período de caos evidenciou uma das maiores falhas da faculdade, que todos nós já tínhamos observado: o curso inteiro estava nas costas de Brian, um senhor de uma certa idade que voltava para casa de bicicleta no meio de Londres todos os dias.

O incidente teve um impacto enorme na moral da turma. Os que já tinham suas práticas estabelecidas, continuaram produzindo. Mas a maioria (eu incluso), tendo sido colocada nesse estado de experimentação hard core que o mestrado promove, perdeu completamente o rumo até nosso líder de curso voltar.

Da minha parte, eu acabei me concentrando em algumas coisas paralelas à arte, mas principalmente na procura por patrocínio para o catálogo final da turma. Uma tarefa cuja chefia a essa altura eu estava dividindo com Sonke, um artista plástico alemão. Devo a ele muitas das sacadas que sequer teriam me ocorrido ou que eu não teria coragem de levar a cabo. Ele peitou muita gente dentro da faculdade para conseguir alguma ajuda, organizou partes da minha gestão que estavam meio caóticas por pura inépcia minha e levantou a moral do resto do grupo do catálogo. Com a ajuda das garotas da turma de design, chefiadas pela brasileira Joana, o catálogo começava a parecer novamente como uma coisa possível. Ambiciosa pra caramba, mas possível. Autoridades da faculdade diriam nas reuniões, que a qualidade do catálogo era muito superior a muita coisa que eles tiveram nos anos anteriores. E isso, devo a Joana, que venceu a competição de design que montamos, e mostrou por A + B que o preço exorbitante desse design podia ser diminuido e negociado com os fornecedores até custar quase o mesmo que o horrendo catálogo do ano passado. Designer profissional é outra coisa...

No entanto, Julho foi um mês de frustrações nessa área. Todos os nossos possíveis patrocinadores negaram ajuda. E mesmo a faculdade, para surpresa do grupo, não estava disposta a pagar um centavo para um projeto que ela nos incitou a fazer e que claramente serviria para promovê-la.
Essa posição da faculdade complicou ainda mais as coisas quando chegou aos ouvidos da turma geral de artes plásticas. Quando comunicamos que os alunos teriam que contribuir com algum dinheiro para o catálogo, os mais idealistas (artista plástico idealista é quase um pleonasmo...) se negaram a pagar por algo que a faculdade devia prover. Muito bem, concordo plenamente. Mas esse dinheiro teria que vir de algum lugar, e se eles não pagassem, não haveria catálogo. O pior de tudo é que, com a turma do design trabalhando no catálogo em si e Sonke correndo atrás de possibilidades dentro da faculdade, a responsabilidade pelo patrocínio externo ficou inteira na minha mão. E eu nunca soube mendigar...

Voltando ao assunto inicial do acidente de Brian, no meio do mês, os alunos altamente descontentes (e os mais idealistas) se juntaram para protestar. A tensão estava tão palpável, que Brian sacou que algo estava acontecendo, só não sabia o que era. Nos reunimos no Banqueting Hall, um salão nobre que, apesar de muito menor, tinha a solenidade do salão principal de Hogwarts (HAHAHAHAHA). Com nosso manual do curso, procuramos especificamente tudo o que tinha sido prometido pela faculdade quando nos inscrevemos e que não foi entregue. A visita do avaliador externo foi só o começo. A idéia era exigir um encontro com o reitor da faculdade e exigir uma compensação pelas falhas. Falou-se muito em exigir financiamento para o catálogo.
Entre a reunião no Banqueting Hall e o encontro com o reitor, o leilão de cartões postais aconteceu. O evento acontecia todos os anos, para levantar dinheiro para o catálogo e a exposição final. Com cartões (na verdade, vale qualquer coisa que tenha o tamanho de um postal) feitos pelos alunos e doados por ex-alunos famosos, o evento geralmente levantava uma boa grana e era uma noite divertida de frivolidade. Pessoalmente, meu cartão tinha sido talvez a única obra que eu tinha feito até aquele ponto de Julho. Uma mistura de carpintaria (masculina) e costura (feminina), o cartão tinha um enorme artigo “THE” no meio, que em inglês não especifica sexo, diferente do que acontece nas línguas latinas. Sob o título de “Articulated Conflation” (algo como “Fusão Articulada”) , a peça foi vendida para uma coreana por vinte libras.
Mas infelizmente, e para aumentar as frustrações do mês, o leilão arrecadou metade do que tínhamos previsto, aumentando a pressão na turma do catálogo para arranjar dinheiro. Nesse ponto, eu voltei para casa depois do leilão com a certeza de que o catálogo já era. Eu tinha gasto uma boa porção do meu tempo e concentração em um projeto faraônico que, apesar de lindo, não ia sair do PDF. Já estava pensando na redação do e-mail para a turma me desculpando e explicando que estávamos cancelando o projeto.

E foi aí que uma daquelas reviravoltas emocionantes aconteceu.

Na sexta passada, o bando descontente com o curso se reuniu com o reitor para reclamar sobre os eventos recentes. Ele, muito diplomático e político nato, aceitou o que era inevitável (que o examinador externo nunca veio, que Brian e John Cussans estavam trabalhando em suas áreas com um contingente muito maior do que podiam lidar e sem ajuda alguma e que o acidente de Brian foi remediado da pior maneira possível) e montou um pequeno show de desculpa, dizendo que não sabia do que estava acontecendo (né, companheiro Lula?). Como compensação, iria reabrir a faculdade aos sábados, uma regalia que havia acabado depois que os alunos de graduação se formaram (pra vocês verem como tudo aqui gira em torno da graduação, mas isso fica para o próximo post). Além disso, iria falar com o diretor da universidade da qual Chelsea fazia parte para ver se podia nos dar algum financiamento para o catálogo!
O dinheiro veio em menos de uma semana. Uma fração do que precisávamos, mas já era o suficiente para diminuir a quantidade que os alunos teriam que pagar, tornando-a tão modesta, que mesmo os idealistas aceitaram pagar. Neste ponto, não era mais uma questão apenas do dinheiro. Nós tínhamos feito um catálogo muito melhor do que os anteriores, para uma das mais numerosas turmas da história da faculdade (o que complicava o processo e aumentava o preço), e conseguiramos reduzir o preço para que os alunos pagassem metade do que os do ano passado tinham pagado. Claro, idealmente, a faculdade devia pagar por isso e os alunos deveriam ter o catálogo de graça. Mas depois de todo esse esforço e dedicação da equipe do catálogo, e com um resultado tão incrível, mesmo os idealistas achavam que seria um desperdício negar isso por causa de ideologia. E claro, termos colocado uma simulação do catálogo em exposição na biblioteca também seduziu alguns dos indecisos.

Enquanto escrevo isso, os últimos alunos estão pagando suas partes. Cada e-mail que recebo avisando sobre pagamentos vem com notas de agradecimento dos alunos pelo esforço da equipe. Acho que jamais senti esse carinho e respeito, esse agradecimento por um trabalho bem feito. É mais do que um "você fez um bom trabalho", é um "você se importou com o coletivo". E é uma delícia.

Em assuntos relacionados, a visibilidade que ganhei como gerenciador do grupo do catálogo me rendeu algumas regalias na faculdade. Pude atrasar datas de entrega de projetos e ter a atenção dos tutores por mais tempo ou fora dos horários oficiais. Afinal, eu tinha gasto tanto tempo com um projeto em prol da faculdade, que eles respeitavam a dedicação de fazer isso e ainda levar a cabo um mestrado. Eu já ficava maravilhado com o fato de todo mundo saber quem era o Pedro e dos tutores me tratarem como mais do que um mero aluno, uma notoriedade que eu nunca experimentara.

Seria ótimo se isso também revertesse em perspectivas de carreira...

segunda-feira, julho 25, 2011

Julho

Nossa, já faz quase um mês que eu não escrevo!
Não é a toa que o pessoal anda perguntando se eu ainda estou vivo...

Como resumir Julho?
Uma forma de resumir tudo seria dizer que o curso desandou, mas que eu continuei crescendo imensamente. Tanto que me pergunto se consigo comunicar aqui o rápido transformar acontecido nessas semanas.

Pensando nisso, s vocês parcos leitores aguentarem, proponho um intensivão de posts daqueles. Um post por dia, sobre todos os diversos e complexos assuntos que aconteceram na minha estadia na terra da Rainha em Julho.

Visitem diariamente. Aposto que vai ser melhor do que a novela.