segunda-feira, dezembro 28, 2009

Truques fáceis

Acho que em todo tipo de arte há truques fáceis.
São aquelas manobras conceitualmente banais, mas que surtem efeito rápido, chamam a atenção do público e causam maravilhamento em quem observa. Elas são experiências agradáveis, ainda que desimportantes. A harmonia de duas vozes com uma oitava de diferença é um exemplo na música: não é nenhuma novidade técnica, mas é muito prazeirosa para quem ouve.
Comecei a prestar atenção em truques fáceis quando estudamos na faculdade o escultor pop suéco Claes Oldenburg. Ele fez uma carreira do maior dos truques fáceis: escala. Qualquer coisa, não importa o quão banal, torna-se digna de contemplação e maravilhamento se feita em uma escala grande o suficiente. Oldenburg fazia tudo gigantesco. Grampos de roupa, comida, utensílios domésticos... tudo de mais mundano. Conceitualmente, é uma banalidade. Mas causa um impacto... er... enorme. Não é à toa que muitos pintores recorrem a tamanhos pouco práticos de tela: você pode até deixar ela em branco que já é um deleite de se ver.
Na pintura, outro truque fácil é volume. Luz de um lado, sombra de outro e seu desenho já ganha um ar de profissionalismo. Lembro de uma época na infância onde descobri volume no desenho. Desenhei o mesmo vaso incontáveis vezes, com a luz de um lado e a sombra do outro. Demorou um pouco pra experimentar o truque em outras formas.
Houve uma época em que eu teria associado truques fáceis à baixa qualidade ou falta de talento do artista. Como se apenas o difícil e complexo fosse relevante. Hoje acho que depende do contexto. Truques fáceis estão aí para serem usados. O que se faz com eles é o que define o bom artista, na minha opinião.


Estou quase terminando de pintar minha avó no quadro do Entre Quatro Paredes. Achei que fosse demorar mais. A pintura foi produzida em um crescendo de dificuldade, começando com a imagem mais fácil de Cacilda com seu rosto sem volume, passando pelo meu avô com as sombras duras no rosto e o casaco cheio de penumbras sinuosas, até deixar minha avó por último por causa do cabelo. Este lhe cai em longas madeixas detalhadas da cabeça que pende para trás, agarrada pelas mãos de violência leve do meu avô. Achei que fosse demorar uns três dias pra fazer todos os volumes daquele cabelo. Levei apenas um. Com o dobro de horas de trabalho normais, mas apenas um. Resta arrumar o rosto.
Cabelos são outro truque fácil. Um macete de pincelada fácil de aprender e que todo mundo acha lindo. O caso da minha avó foi bem mais elaborado, mas é em tese a mesma coisa. E talvez seja o efeito de ter passado cinco horas pintando aquilo, mas acho que está roubando a cena do resto.

Falta fazer o fundo, com várias das surpresas escondidas que estavam no quadro da Maria Della Costa e o detalhe dos sofás, sobre o qual acredito ter encontrado uma solução gostosa. Aguardem fotos em alguns dias.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Vovô

Terminei esta semana de pintar meu avô no quadro do Entre Quatro Paredes. Acho que, pelas festas de Dezembro, não terminarei este dentro do mês como queria. Mas tudo bem.
Em um dos jantares natalinos, uma das tias da Lexy se enganou e me chamou de Sérgio. Sei que o engano não tinha nada a ver, mas imaginei por um momento que ela talvez estivesse vendo semelhanças entre eu e meu avô e falando o nome dele como ato falho.
Já fui mais parecido com meu avô. Hoje, a barba e os óculos, os traços da família de meu pai e outras pequenas peculiaridades me distinguem da figura dele. Mas na infância, a semelhanca era tamanha que muita gente apontava. Tanto para os aspectos físicos como de personalidade. Cheguei a acreditar, na inocência da infância onde tudo é possível, que talvez eu pudesse ser uma reencarnação dele.
No quadro, os detalhes semelhantes estavão lá. O formato do rosto, o cabelo liso que eu tinha quando criança e uma animosidade nos olhos e sobrancelhas. Até mesmo a violência sem força. E algo na boca, que apesar de não ser exatamente igual à minha, me lembrava qualquer coisa. Trabalhar com essa imagem teve o gosto de trabalhar com a minha própria imagem. Ou a estranheza de estar na presença de um outro idêntico a mim.
Não é nada que me incomode. Pelo contrário. Me incomodaria talvez em pintar homens por causa do erotismo de traçar e obcecar com o rosto de uma pessoa, mas quando se trata de uma imagem assim, é como acariciar a si mesmo. Um deleite nascísico.

sábado, dezembro 19, 2009

Ansiedades

Nem tudo tem sido maravilhoso nesta recente vida de artista plástico.
Os dias têm sido inegavelmente mais prazeirosos e a qualidade de vida aumentou consideravelmente. A segunda metade de 2009 me trouxe experiências e memórias boas o suficiente para dar aquela impressão de que o ano esticou, durou mais do que estes 12 meses.
No entanto, carrego comigo um pacotão de culpa que tenho tentado ignorar mas fica a cada dia mais pesado. Pesam sobre mim os anos desperdiçados fazendo duas faculdade simultâneas enquanto eu poderia ter começado a estagiar. Pesam os cinco anos seguintes, dedicando-me à publicidade sem chegar a lugar nenhum. Pesa a ignorância de não ter me informado sobre processos seletivos de empresas de verdade enquanto eu ainda tinha a possibilidade de entrar em alguma delas e ter a tão respeitada carreira empresarial. Pesam as escolhas erradas que fiz depois que voltei de viagem em 2006. Acima de tudo, pesam as comparações. Perceber que todo mundo já tem seu rumo e um salário decente ou ao menos um mestrado (comentário de patricinha: "todas as minhas amigas estão casando e tendo filhos"), enquanto eu estou aqui, começando do zero de novo. Fazendo agora, aos 28, o que eu devia ter feito aos 23.
-"Não se desespere, você ainda é jovem e tá na idade de fazer essas coisas."
Claro, todo mundo diz isso para encorajar. Mas não me furto à noção de que, pelas minhas costas, a conversa é outra. Estão todos preocupados com meu desemprego, com esse meu estado de estar esperando por Londres, pelo mestrado, pela possibilidade de ter uma carreira de verdade. Se tudo correr de acordo com os planos, terei o mestrado e licenciatura, habilitando-me a dar aulas, quando eu fizer 30 anos de idade. É um longo tempo para poder finalmente ter uma carreira. Enquanto isso, eu espero.

["This is an Edgewalker Line train to Waiting Place"]

Quiçá tudo isso seja na verdade o que os psicólogos chamam de projeção: eu estou projetando nos outros a minha própria preocupação. Quiçá ninguém esteja dando a mínima para a minha situação. Não vem ao caso. De qualquer forma, esse meu atraso de vida é uma bagagem cada vez mais saliente no meu pacotão de culpa. É uma lufada de ansiedade que tenho conseguido manter longe de mim até agora, mas é cada vez mais difícil de ignorar. Me ataca nas noites de solidão, dentro do carro na volta pra casa, na inveja frente às notícias de que meu irmão está saíndo de casa antes de mim (e que meus pais o estão ajudando em vez de dificultar como fizeram comigo...). Tranquilizo-me na variedade de histórias de vida de artistas plásticos que só decolaram aos 30.


Soube recentemente que recebi minha primeira crítica. Daquelas que eu esperava receber quando decidi largar a estabilidade da agência: alguém a quem eu não devia dar importância insinuou que eu larguei a publicidade porque tive medo. Um medo infantil de quem não quer crescer. Na verdade foi um outro medo, de quem sabe muito bem onde se meteu: medo de passar mais cinco anos na mesma merda, ganhando o mesmo salário. Mal sabe ele que, exceto por estes meses de Dezembro e Janeiro quando vários dos meus alunos de inglês saem de férias, minhas contas mostram que tenho ganhado nos outros meses o mesmo ou às vezes até o dobro do que ganhava na agência. Mas entendo o ponto de vista dele: funcionários que se aposentam depois de trinta ou quarenta anos trabalhando para os outros pensam apenas na estabilidade cinzenta e insossa que lhes permitiu comprar seus apartamentos vendendo seus sonhos da juventude.
Se eu já esperava receber esta crítica e ela veio de alguém a quem eu devia ignorar, porque é que ela me atinge? Andei pensando nisso durante algum tempo. Hoje vejo que talvez seja porque ainda estou na dúvida. Incerto sobre se isso é de fato o melhor caminho a tomar. Pensando se talvez há alguma outra saída óbvia e rentável que eu não estou enxergando. Parte de mim sabe que não há outro rumo. Este é o meu rumo. Resta enfrentar. Mas outra parte tem medo de estar se metendo em outra besteira que me roubara mais anos da minha vida para nada.
A crítica me atinge porque tenho precisado cada vez mais que me digam que o que eu estou fazendo é correto. Que me façam acreditar. Até mesmo que me forcem a isto. Morro de medo de alguém algum dia dizer o contrário, que isso é errado, que é uma burrice. Morro de medo que alguém desaprove.
Ao mesmo tempo anseio por que alguém o diga. Uma pessoa séria na qual eu acredite, e que diga essa verdade para mim porque quer meu bem. Ao menos assim eu seria forçado a lidar com esse fato antes do passar dos anos, do estilhaçar dos sonhos e de mais frustrações.

E você? O que acha? Faço hoje a coisa certa?

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Sobre sofás

Há duas semanas comecei a levar a sério a pintura do Entre Quatro Paredes com meus avos e Cacilda. De início não tinha muita idéia do que fazer com este. Então desenterrei da minha biblioteca o texto da peça, que consegui de minha avó na época em que a estava ensaiando com Lee na faculdade. Os insights vieram naturalmente, quase uma idéia nova por dia. Agora tenho a impressão de que talvez fique melhor e mais completo do que o quadro de Maria Della Costa.
O começo do quadro foi meio confuso. Enquanto desenhava a foto escolhida na tela, pensei muito nos trios da peça: três atores, três sofás de cores distintas, três paredes no cenário (a quarta sendo a platéia). Quase por instinto, comecei a pintar cada ator de uma cor diferente. Lembrava de uma técnica que uma professora tinha me ensinado, de pintar a imagem toda de uma cor e depois pintar por cima. O óleo é meio transparente, e daria uma tênue impressão da cor de baixo. Vovó apareceu e me contou que cada personagem tivera uma cor específica em sua montagem de 1950. Cores diferentes das que eu estava usando. Lá fui eu começar de novo...
Na semana passada, comecei a pintar Cacilda. E enquanto o fazia, as idéias finais do que fazer no quadro apareceram. O fundo da tela, a questão dos sofás na peça, as cores.
Em algum momento, li o texto de novo e achei a parte onde os personagens falam dos sofás. Estelle, a personagem de minha avó, faz manha porque está colocada em um sofá com uma cor que não combina com a sua. É um diálogo gostoso, porque de imediato deixa claras as atitudes de todos eles, o detalhe dos sofás e o nome de cada um, quando eles se apresentam.
Fiquei com uma vontade de colocar isso no site do quadro.

Ah, verdade... Acho que não contei por aqui. Estou pensando em fazer um pequeno hotsite para cada quadro. Uma experiência hipertextual como se faz hoje com bons filmes: você tem a experiência do filme e, se quiser obcecar um pouco mais com o assunto, explora o site, encontra mais informação e aumenta sua experiência sobre o que estava no filme. Já estou terminando o da Maria Della Costa.

Voltando ao assunto, fiquei com vontade não de colocar o texto, visto que ninguém teria paciência para ler, mas de fazer uma gravação. Três pessoas declamando o texto em determinada parte do site. Eu, obvia e narcisicamente, seria Garcin. E nada me tira até agora da cabeça que eu deveria pedir a Lee que fizesse Inês. Mas isso seria factível? Há tantas questões a considerar... Não nos falamos há talvez um ano ou mais. E será que ela aceitaria? Ou julgaria isso tudo como uma tolice e ignoraria o convite? De qualquer forma, seria a voz perfeita. Com as mesmas qualidades que a de Cacilda.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Random literature

The flickering neon glow of the fluorescent lights gave no warmth to her skin. Neither actual warmth on her flesh, nor the pinkish hue on her face in the mirror. The lights in her bathroom bathed everything in a sickly artificial green. She supposed everything in her life had somehow acquired that ill quality, that lack of flavour. When did this happen? How long ago? What was the exact day - the hour, the minute - when everything just suddenly faded into this stale aspect?
For quite some time she had basked in the relative comfort of imagining herself going back to a time when life was simpler. Regressing into the former years when life didn't seem so demanding. And then further back, into the pleasant discoveries of her teenage years. When that wasn't enough, she began obssessing with childhood naiveté and the innocent games she played with cousins and neighbors. But just recently even those memories were paling away into their reality: they were substitutes of the real thing. It felt like she was dragging the smudge of greenish, greasy blight across her past, tainting and corrupting everything until it all seemed pointles, tasteless and ever so cold. She wanted to regress further, but found herself unable to consciously remember a time before that.

Still, she needed to go back further for more comfort.

That night, in her pale green bathroom, she peeled away all her clothes. Having regressed so far into childhood, she no longer felt aroused by her own nudity like she had been as a teenager. The discomfort of the cold tiles on the floor was eased when she slipped into the hot water of the bathtub. She held a razor blade between her fingers with all the gentleness of a mother. But what she did after she settled in the warmth of the tub was all but motherly.
Cecilia LisbonJust two mercifully brief moments of sharp pain when she opened her veins. With enough patience, she managed to bare the pain and witness as it progressed, like most cuts usually did, turning from hurt into warmth. She could imagine the flesh around those wounds turning a deeper shade of pink. Painting the water a deeper and more real shade of red. The color and warmth flowing all around her. She closed her eyes, and that evil light of the fluorescent bulbs filtered through her eyelids as a dim red flicker. In the constricted space of that tub, she managed as best she could to curl up and embrace her knees. There was little she could actualy do with her hands, given her open wrists, but she found a way to lean her knees against the hard sides of the tub.
She could then feel the warmth of her cuts slowly mutate into a gentle throbbing she could recognize as her own heart, like most cuts would do when left alone.

And there she stayed, surrounded by that warm red glow. Feeling rather than listening through the water, as the pulse of her life diminished. Regressing further back into a time with no conscious memories to taint. Recognizing a time of sheer experience and bliss. Flowing quieter and quieter, closer and closer, into oblivion.

sábado, dezembro 12, 2009

Bazar Art in Chepa

O ano está terminando muito bem. Acho que consegui uma das minhas promessas de ano novo que era dobrar o número de exposições. Na abertura da Escola São Paulo (o mais importante é sempre a abertura), encontrei Georgia Vilela. Colega do curso de arte, um ano depois do meu, sempre muito alegre. Estava vendendo bem na Escola São Paulo. Antes que eu fosse embora, ela me puxou de lado e me falou do bazar que estava organizando. Não era a primeira vez que ela me convidava, mas na anterior, eu ainda era um publicitário sem tempo.
Alguma troca de e-mails e eu já estava fazendo parte do bazar, junto ocm nomes relativamente conhecidos do mundinhos das artes, como Vivian Kass, Aline van Langendonck, meu professor Matangra e Flávia Junqueira. Mas o que expor? Mais Alices? Que tédio... E obviamente não podia colocar o quadro mais recente, porque não seria compatível com o preço de um bazar.
Foi aí que resolvi tirar da gaveta uma idéia antiga, porém divertida e fácil de fazer: a antiga Battle for Importance. Na verdade já estava cogitando retomar essa série como projeto paralelo do ateliê, dazendo um pouquinho por dia, sempre que batesse aquele marasmo de fim de expediente, onde estou esperando a pintura principal secar pra continuar.
Resolvi quatro pinturas pequenas em dois dias. E com um pouco de organização e amigos prestativos, já fotografei e coloquei no outro blog.

Então aproveitem! Telas recém-saídas do cavalete a preços de bazar. Vai ser a partir de hoje, às 19h00, até terça (com possibilidade de prorrogar se aparecer bastante gente).

Mais detalhes no flyer abaixo.

Art in Chepa


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sexta-feira, dezembro 04, 2009

100 a mil (Escola São Paulo)




Continuando a loucura de Dezembro, depois da exposição no Rio Verde, é a vez agora da 100 a mil na Escola São Paulo. A exposição acontece todo ano e reúne os trabalhos dos alunos e ex-alunos de destaque na Escola em uma feira de arte que tem o objetivo de vender a maior quantidade de obras por preços que variam entre R$100 e R$1.000.
Quem já foi na do ano passado vai notar que fizeram uma pequena modificação na exposição deste ano, começando pelo nome. O valor mínimo da exposição do ano passado era de R$10. Provavelmente nenhum artista teve coragem de fazer algo tão barato.

Estarei por lá vendendo quatro edições da Alice, feitas em chapa de acrílico dupla, figura em uma chapa, fundo na outra. São quatro imagens que contam a entrada de Alice na Blankness, seu encontro com o Tartaruga e a chegada ao Burgo. Há fotos delas no blog profissional.

A exposição começa hoje! A partir das 19h00 na Escola São Paulo (Avenida Augusta, 2239) e vai até 16 de Janeiro. Mas recomendo ir rápido, porque como toda a feira, quem chega primeiro leva as melhores coisas!


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