Nota para mim mesmo: lembrar de dar uma boa olhada no blog da Adriana Guivo. Tem todo o relato de seu processo para conseguir uma residência artística em Paris e seu processo de trabalho enquanto esteve lá.
As residências artísticas são ótima opção para artistas recém-formados, mas não têm restrição de idade, formação ou experiência. Os artistas enviam projetos e as instituições em questão avaliam. Os projetos escolhidos são financiados. Por "financiados" entende-se que a instituição provê moradia, ajuda de custo e muitas vezes até a passagem para que o artista more na cidade e desenvolva seu trabalho durante determinado tempo (seis meses a um ano). Ou seja, não é um negócio que vai te trazer o retorno financeiro direto, mas é um tremendo impulso no seu currículo, pois você passa um ano isolado do seu mundinho na sua cidade nata, só concentrado no desenvolvimento da sua linguagem e produção, e sem precisar se preocupar com essas coisas mundanas como salário e aluguel. Acho a alternativa perfeita para aquele momento de pânico pós-faculdade ("O que que eu faço agora? Já sei! Vou trabalhar em agência de publicidade e tentar pintar nas parcas horas vagas!").
Até uns dois anos atrás, a residência ainda tinha a vantagem de ser uma coisa fácil de conseguir para alunos das faculdades prestigiadas de arte como FAAP e ECA-USP. Isso porque as informações a respeito eram tão escassas que poucos se inscreviam, mesmo nessas faculdades. Mas então a FAAP dedicou parte de sua última Anual de Artes Plásticas a fazer uma exposição retrospectiva (muito bem produzida, por sinal) de todos os seus alunos e professores que participaram de seu programa de residência na França (incluíndo minha colega Marcela Tiboni e minha orientadora Dora Longo Bahia). As inscrições vieram em manada depois disso.
Mas quem sabe meu projeto relacionado ao Masculismo interesse a eles... Afinal, Niki de Saint Phalle, artista feminista que tem sido minha inspiração para o Masculismo recentemente, era francesa. E eles adoram esse tipo de discussão.
Duro vai ser aguentar o idioma.
Merde!
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
domingo, maio 31, 2009
sexta-feira, maio 22, 2009
The Path 2
Senti vontade de escrever novamente sobre The Path, o jogo da Chapuzinho vermelho. Segura que o post é longo.
Andei encontrando no YouTube os vídeos dos diferentes finais possíveis com cada uma das personagens (SUCCESS: [1][2][3][4][5][6] FAILURE: [1][2][3][4][5][6]) e achei que o jogo já começa a tomar proporções de verdadeira obra de arte e não tanto de jogo. Não só pelo surrealismo das sequências finais na casa da vovó, mas pela neutralização dos elementos normalmente pertencentes ao universo do videogame.
Primeiramente, o objetivo comum a todos os games é a sobrevivência. Em The Path, é preciso morrer para vencer. Depois, cada final faz a contagem de pontos de acordo com os objetos que você encontrou e caminho percorrido, mas nada disso tem veradadeira importância para as sequências finais a não ser a necessidade de encontrar o lobo. The Path parece mais uma espécie de ambiente virtual ou filme interativo. Finalmente, o universo simbólico do jogo é tão denso, que é preciso certa bagagem cultural para penetrar nesta floresta e gostar da experiência. É um nível além do nível meramente lúdico do jogo.
Mas queria escrever de novo para comentar of finais. É possível, com todas as personagens, simplesmente seguir reto pelo caminho em direção à casa da vovó (como mamãe mandou...). Todas as personagens chegam na casa, de interior cinza e monótono, sobem para o quarto da avó, que tem até um lobo empalhado, e deitam-se ao lado da senhora catatônica na cama. Há uma metáfora a ser compreendida aqui: pode-se seguir pela vida através do "beaten path" (o caminho pisoteado, bastante usado, seguro). É uma linearidade monótona, e você perde muito do que estaria lá fora, no mundo, na vida, se ousasse se aventurar pela floresta.
Porém há outra alternativa e preciso fazer aqui um parágrafo sobre a situação onde me encontro ao estudar este jogo. Porque até aqui, foram cinco anos de beaten path. Do emprego monótono e seguro que paga e que é uma procissão de passos e dias idênticos, uma resposta fácil. Mas chega disso, preciso sair do caminho, entrar na floresta, confrontar o lobo. Tudo, no jogo e neste parágrafo, é finalmente uma metáfora sobre crescimento.
Para cada personagem do jogo, o encontro com o lobo aparece como um evento aberto a pelo menos duas interpretações: ou uma morte trágica relacionada ao encontro na floresta, ou a perda (morte) dolorosa da inocência.
Depois do encontro, a personagem volta a aparecer em frente à casa da vovó, na chuva. O esquema de cores se inverte e o mundo lá fora fica cinza enquanto o interior da casa é colorido. Todos os móveis do interior mudam para assumir um aspecto de pesadelo e o quarto da vovó é substituído por uma alegoria que dá pistas do que de fato aconteceu à Chapeuzinho em questão.
Minhas interpretções:
ROBIN: a garotinha de nove anos é a personificação da imagem de Chapeuzinho no imaginário coletivo. Uma criança vestida com a capa vermelha que anda saltitando pela floresta, exprimindo comentários de uma beleza ingênua e desconcertante.
Seu lobo é também a personificação do lobo da história. Um verdadeiro lobo que ela encontra em um cemitério (ela diz: "As pessoas morrem e nós as colocamos na terra, como flores").
A quarto da vovó dá pistas da morte física de Robin. No centro do quarto, um grande túmulo aberto tem como lápide uma cama ensanguentada. A personagem cai no túmulo e flashes de cabeças de lobo alternam-se com imagens de Robin riscada com linhas paralelas, como garras.
A interpretação da perda de inocência, suponho, é de compreender este fato da vida que é a morte, coisa difícil para uma criança de nove anos. Compreender que a avó irá morrer, suponho.
ROSE: seu final é talvez o mais complicado de compreender. Rose tem 11 anos, a idade em que as transformações do corpo acontecem para muitas garotas. Ela tem um jeito de ver a beleza nas coisas naturais, como se tudo natural fosse belo e prazeiroso. Tem uma fascinação pela névoa perto do lago.
Passeando por lá, ela encontra um bote e resolve dar um passeio. Mas é pega de surpresa por uma tempestade no meio do lago (apenas os trovões são ouvidos ao longe).
O quarto da vovó para Rose é um cômodo onde partes de uma cama dilacerada rodopiam em um violento redemoinho de fácil interpretação.
Difícil é entender a morte de sua inocência. Alguém comentou em algum lugar que a figura que Rose encontra no lago e que parece causar a névoa tem sangue escorrendo por uma das pernas e fazendo a água do lago ficar rosa. Alusões à primeira menstruação, que toma a vida de garotas tal qual violento redemoinho e muda tudo. Dali em diante, nem tudo que é natural continuará compreendido como belo e prazeiroso.
GINGER: sempre adorei esta gíria para ruivas. Ginger é o estereótipo da ruiva moleca de temperamento curto. Apesar dos 13 anos, ainda não entende essa coisa de beijos e amor carnal, preferindo brincar e ser livre. Passeando pela floresta, ela encontra um campo de flores com um espantalho velho que já não afugenta os corvos empoleirados nos fios de eletricidade. Lá, ela brinca com uma amiga por quem ela sente uma atração especial. E corre descalça pelo mato alto.
O quarto final para Ginger tem uma eterna chuva de penas negras caindo sobre fios de arame farpado estendidos no chão. Correr descalça no mato alto de uma plantação abandonada pode não ter sido boa idéia. Mas algo fica um pouco mal resolvido na morte de Ginger: no vídeo, parece que ela é puxada para o chão pela amiga em vez de pisar no arame.
Há um ar de homossexualidade latente na relação de Ginger com a amiga. Daquele tipo de coisa frequente na idade dela, de ter a melhor amiga com a qual se tem uma relação de ciúme, cumplicidade e intimidade física. Alguns dos flashes no quarto da vovó sugerem o arame como amarra. Uma amarra social que a impede de ser assim, de gostar de garotas em vez de homens.
RUBY: a garota gótica (ou seria emo?) de 15 anos me lembra um conto do As sete faces da primeira vez do Carlos Queiroz Telles que eu li no colégio. Quando menciono que nem todos os lobos neste jogo são lobos, acho que é na história de Ruby que todos pensam. Ruby sente a pressão de ser diferente no colégio. Tem seu estilo estranho de se vestir (acho que o aparato ortopédico que usa em uma das pernas é só por estilo, não por necessidade) e sua visão de mundo mórbida e bela ao mesmo tempo, coisa difícil para a turminha popular do colégio entender. Detalhe interessante: sua versão da casa da vovó normal tem uma quadra de basquete (parece que o time da escola dela chama-se "Wolves" - lobos) que me faz lembrar de turminhas populares e traz à cabeça minhas próprias memórias traumáticas de bullying. Ela desce para a quadra em uma gaiola enorme.
Um dia, apreciando a decomposição e a ferrugem de um parquinho abandonado (ela tem um gosto por decomposição), Ruby conhece um rapaz alto e loiro, um garanhão mais velho que lhe oferece um cigarro e a faz fumar pela primeira vez (alguém aí lembra de quem o convenceu a fumar?). Daí pra frente, sua vida já não muito comum saiu completamente do eixo. Legal notar que durante essa cena, o som de fundo mistura o ronco de um motor com o grunhido de um lobo. O rapaz, sabe-se depois, tem um Ford Mustang (palavra que curiosamente significa "garanhão" em inglês).
Durante a visita post-mortem à casa da vovó de Ruby, vemos paredes da casa cobertas de maquinário, peças de motor. Na quadra de basquete de antes, Ruby entra na gaiola que, em vez de transportá-la, joga-a para longe. E aí vemos o Mustang batido no canto da quadra e notamos as marcas de derrapagem. Ruby morreu em um acidente de carro à la James Dean. Antes de envelhecer e decompor. A gaiola me faz pensar no carro que deveria transportá-la mas a joga da mesma forma através da janela.
Sua perda de inocência é uma das mais claras, expressa no seu ato de fumar pela primeira vez (sei que é a primeira pelo modo como ela tosse). Pode-se dizer que Ruby, quando encontra seu lobo, já não é tão inocente quanto as irmãs mais novas. Resta-lhe pouco para perder. Li em algum lugar uma citação sua dizendo: "Eu sei de coisas. Coisas que minhas irmãs mais novas ainda não sabem e as mais velhas esqueceram". Essa sensação de ver a injustiça do mundo e se perguntar porque os mais velhos não percebem.
CARMEN: pelo gingado da irmã de 17 anos dá pra perceber que ela conhece os homens. Ela tem consciência do próprio corpo e do efeito que ele tem no sexo oposto. Acima de tudo, ela acredita que pode controlar os homens assim, com um misto de promessa e recusa de sexo.
Em algumas versões da história original da Chapeuzinho, o caçador que a salva é de fato um lenhador. É ele que Carmen encontra na floresta. Ela acha que o homem mais velho irá mudar sua vida monótona, levando-a para um estilo de vida de sentar perto da fogueira e beber cerveja.
Ela logo descobre que o homem da floresta é um homem selvagem, que tolera apenas até certo ponto o jogo de promessa e recusa antes de recorrer à violência. As lâminas espalhadas pela casa da vovó (machados, serras circulares, entre outras) contam uma história de um fim sangrento para Carmen. No quarto final, uma árvore enorme cresce em meio à cama. Faz-me pensar que a árvore é ela, e que o lenhador não faz outra coisa além de derrubá-la à força de machadadas.
Imagino que sua perda de inocência tenha a ver com a descoberta de que esse poder que ela tem sobre os homens tem limite. E que alguns são mais suscetíveis que os outros.
SCARLET: a história da irmã mais velha (19 anos) é cheia de sentimentos familiares a qualquer um que resolve ter uma carreira relacionada às artes. Scarlet é uma talentosa pianista. Sente na música um prazer quase narcótico. Porém é a mais velha de seis irmãs em uma família sem pai, com uma mãe ausente e uma avó doente. Então ela coloca sua arte de lado, encobrindo-a e abafando-a sob o manto da responsabilidade e disciplina. Nega tudo que é dionisíaco, visceral e instintivo não por desgostar, mas por necessidade. Há uma cena bem significativa na casa da avó normal onde uma infinidade de livros estão lotados em estantes em uma parede que dá para uma sala onde instrumentos musicais estão pendurados em perfeita ordem. Mais adiante essa cena muda...
Um dia, caminhando pela floresta, Scarlet encontra um palco abandonado ao ar livre. Lá estão um piano e um professor, que senta ao seu lado e toca com ela, e promete-lhe o mundo se ela nutrir seu talento musical.
Não consigo entender como Scarlet morre. Ou se ela morre fisicamente. Sua versão da casa da vovó post-mortem mostra móveis cobertos por lençois brancos que me lembram o que se fazia antigamente ao viajar, para evitar o pó nos móveis. Faz-me pensar de certa forma naquilo que escrevi sobre ela abafar sua arte sob o manto da disciplina. Ou neste caso, parece-me mais adequado dizer que ela cobriu e abandonou sua situação em casa (suas irmãs) quando embarcou nessa aventura como artista. Na sala dos livros, eles estão agora todos no chão e as estantes vazias. Os instrumentos na sala adjacente flutuam no ar e tudo parece indicar um relacionamento mais apaixonado com a arte que ela tinha deixado de lado. O quarto final mostra um palco, as cortinas brancas subindo e luzes de show em movimento.
Nada é muito explicativo de sua morte física, mas tudo fala de uma morte emocional ou psicológica, talvez até moral: abandonar as necessidades familiares em prol de si mesma. Os flashes no fim mostram o professor com garras afiadas, mais um lobo coletivo para o resto da família do que para Scarlet. Ou talvez um lobo para ela no sentido de libertá-la da disciplina auto-imposta e prendê-la novamente na disciplina da carreira de piano.
Passei uns três dias escrevendo isto, vendo os vídeos aos poucos, antes de ir dormir à noite. Fez-me pensar muito sobre minha própria vida, minhas escolhas. As coisas vão mudar muito nos meses seguintes, e sinto medo e curiosidade, assim como sentiria pela possibilidade de sair do caminho e entrar na floresta. Agora sinto que a fascinação por esse jogo acabou. Mas assim como o próprio mote do jogo, o mais gostoso de tudo não é o destino, mas sim O Caminho.
Andei encontrando no YouTube os vídeos dos diferentes finais possíveis com cada uma das personagens (SUCCESS: [1][2][3][4][5][6] FAILURE: [1][2][3][4][5][6]) e achei que o jogo já começa a tomar proporções de verdadeira obra de arte e não tanto de jogo. Não só pelo surrealismo das sequências finais na casa da vovó, mas pela neutralização dos elementos normalmente pertencentes ao universo do videogame.
Primeiramente, o objetivo comum a todos os games é a sobrevivência. Em The Path, é preciso morrer para vencer. Depois, cada final faz a contagem de pontos de acordo com os objetos que você encontrou e caminho percorrido, mas nada disso tem veradadeira importância para as sequências finais a não ser a necessidade de encontrar o lobo. The Path parece mais uma espécie de ambiente virtual ou filme interativo. Finalmente, o universo simbólico do jogo é tão denso, que é preciso certa bagagem cultural para penetrar nesta floresta e gostar da experiência. É um nível além do nível meramente lúdico do jogo.
Mas queria escrever de novo para comentar of finais. É possível, com todas as personagens, simplesmente seguir reto pelo caminho em direção à casa da vovó (como mamãe mandou...). Todas as personagens chegam na casa, de interior cinza e monótono, sobem para o quarto da avó, que tem até um lobo empalhado, e deitam-se ao lado da senhora catatônica na cama. Há uma metáfora a ser compreendida aqui: pode-se seguir pela vida através do "beaten path" (o caminho pisoteado, bastante usado, seguro). É uma linearidade monótona, e você perde muito do que estaria lá fora, no mundo, na vida, se ousasse se aventurar pela floresta.
Porém há outra alternativa e preciso fazer aqui um parágrafo sobre a situação onde me encontro ao estudar este jogo. Porque até aqui, foram cinco anos de beaten path. Do emprego monótono e seguro que paga e que é uma procissão de passos e dias idênticos, uma resposta fácil. Mas chega disso, preciso sair do caminho, entrar na floresta, confrontar o lobo. Tudo, no jogo e neste parágrafo, é finalmente uma metáfora sobre crescimento.
Para cada personagem do jogo, o encontro com o lobo aparece como um evento aberto a pelo menos duas interpretações: ou uma morte trágica relacionada ao encontro na floresta, ou a perda (morte) dolorosa da inocência.
Depois do encontro, a personagem volta a aparecer em frente à casa da vovó, na chuva. O esquema de cores se inverte e o mundo lá fora fica cinza enquanto o interior da casa é colorido. Todos os móveis do interior mudam para assumir um aspecto de pesadelo e o quarto da vovó é substituído por uma alegoria que dá pistas do que de fato aconteceu à Chapeuzinho em questão.
Minhas interpretções:
ROBIN: a garotinha de nove anos é a personificação da imagem de Chapeuzinho no imaginário coletivo. Uma criança vestida com a capa vermelha que anda saltitando pela floresta, exprimindo comentários de uma beleza ingênua e desconcertante.
Seu lobo é também a personificação do lobo da história. Um verdadeiro lobo que ela encontra em um cemitério (ela diz: "As pessoas morrem e nós as colocamos na terra, como flores").
A quarto da vovó dá pistas da morte física de Robin. No centro do quarto, um grande túmulo aberto tem como lápide uma cama ensanguentada. A personagem cai no túmulo e flashes de cabeças de lobo alternam-se com imagens de Robin riscada com linhas paralelas, como garras.
A interpretação da perda de inocência, suponho, é de compreender este fato da vida que é a morte, coisa difícil para uma criança de nove anos. Compreender que a avó irá morrer, suponho.
ROSE: seu final é talvez o mais complicado de compreender. Rose tem 11 anos, a idade em que as transformações do corpo acontecem para muitas garotas. Ela tem um jeito de ver a beleza nas coisas naturais, como se tudo natural fosse belo e prazeiroso. Tem uma fascinação pela névoa perto do lago.
Passeando por lá, ela encontra um bote e resolve dar um passeio. Mas é pega de surpresa por uma tempestade no meio do lago (apenas os trovões são ouvidos ao longe).
O quarto da vovó para Rose é um cômodo onde partes de uma cama dilacerada rodopiam em um violento redemoinho de fácil interpretação.
Difícil é entender a morte de sua inocência. Alguém comentou em algum lugar que a figura que Rose encontra no lago e que parece causar a névoa tem sangue escorrendo por uma das pernas e fazendo a água do lago ficar rosa. Alusões à primeira menstruação, que toma a vida de garotas tal qual violento redemoinho e muda tudo. Dali em diante, nem tudo que é natural continuará compreendido como belo e prazeiroso.
GINGER: sempre adorei esta gíria para ruivas. Ginger é o estereótipo da ruiva moleca de temperamento curto. Apesar dos 13 anos, ainda não entende essa coisa de beijos e amor carnal, preferindo brincar e ser livre. Passeando pela floresta, ela encontra um campo de flores com um espantalho velho que já não afugenta os corvos empoleirados nos fios de eletricidade. Lá, ela brinca com uma amiga por quem ela sente uma atração especial. E corre descalça pelo mato alto.
O quarto final para Ginger tem uma eterna chuva de penas negras caindo sobre fios de arame farpado estendidos no chão. Correr descalça no mato alto de uma plantação abandonada pode não ter sido boa idéia. Mas algo fica um pouco mal resolvido na morte de Ginger: no vídeo, parece que ela é puxada para o chão pela amiga em vez de pisar no arame.
Há um ar de homossexualidade latente na relação de Ginger com a amiga. Daquele tipo de coisa frequente na idade dela, de ter a melhor amiga com a qual se tem uma relação de ciúme, cumplicidade e intimidade física. Alguns dos flashes no quarto da vovó sugerem o arame como amarra. Uma amarra social que a impede de ser assim, de gostar de garotas em vez de homens.
RUBY: a garota gótica (ou seria emo?) de 15 anos me lembra um conto do As sete faces da primeira vez do Carlos Queiroz Telles que eu li no colégio. Quando menciono que nem todos os lobos neste jogo são lobos, acho que é na história de Ruby que todos pensam. Ruby sente a pressão de ser diferente no colégio. Tem seu estilo estranho de se vestir (acho que o aparato ortopédico que usa em uma das pernas é só por estilo, não por necessidade) e sua visão de mundo mórbida e bela ao mesmo tempo, coisa difícil para a turminha popular do colégio entender. Detalhe interessante: sua versão da casa da vovó normal tem uma quadra de basquete (parece que o time da escola dela chama-se "Wolves" - lobos) que me faz lembrar de turminhas populares e traz à cabeça minhas próprias memórias traumáticas de bullying. Ela desce para a quadra em uma gaiola enorme.
Um dia, apreciando a decomposição e a ferrugem de um parquinho abandonado (ela tem um gosto por decomposição), Ruby conhece um rapaz alto e loiro, um garanhão mais velho que lhe oferece um cigarro e a faz fumar pela primeira vez (alguém aí lembra de quem o convenceu a fumar?). Daí pra frente, sua vida já não muito comum saiu completamente do eixo. Legal notar que durante essa cena, o som de fundo mistura o ronco de um motor com o grunhido de um lobo. O rapaz, sabe-se depois, tem um Ford Mustang (palavra que curiosamente significa "garanhão" em inglês).
Durante a visita post-mortem à casa da vovó de Ruby, vemos paredes da casa cobertas de maquinário, peças de motor. Na quadra de basquete de antes, Ruby entra na gaiola que, em vez de transportá-la, joga-a para longe. E aí vemos o Mustang batido no canto da quadra e notamos as marcas de derrapagem. Ruby morreu em um acidente de carro à la James Dean. Antes de envelhecer e decompor. A gaiola me faz pensar no carro que deveria transportá-la mas a joga da mesma forma através da janela.
Sua perda de inocência é uma das mais claras, expressa no seu ato de fumar pela primeira vez (sei que é a primeira pelo modo como ela tosse). Pode-se dizer que Ruby, quando encontra seu lobo, já não é tão inocente quanto as irmãs mais novas. Resta-lhe pouco para perder. Li em algum lugar uma citação sua dizendo: "Eu sei de coisas. Coisas que minhas irmãs mais novas ainda não sabem e as mais velhas esqueceram". Essa sensação de ver a injustiça do mundo e se perguntar porque os mais velhos não percebem.
CARMEN: pelo gingado da irmã de 17 anos dá pra perceber que ela conhece os homens. Ela tem consciência do próprio corpo e do efeito que ele tem no sexo oposto. Acima de tudo, ela acredita que pode controlar os homens assim, com um misto de promessa e recusa de sexo.
Em algumas versões da história original da Chapeuzinho, o caçador que a salva é de fato um lenhador. É ele que Carmen encontra na floresta. Ela acha que o homem mais velho irá mudar sua vida monótona, levando-a para um estilo de vida de sentar perto da fogueira e beber cerveja.
Ela logo descobre que o homem da floresta é um homem selvagem, que tolera apenas até certo ponto o jogo de promessa e recusa antes de recorrer à violência. As lâminas espalhadas pela casa da vovó (machados, serras circulares, entre outras) contam uma história de um fim sangrento para Carmen. No quarto final, uma árvore enorme cresce em meio à cama. Faz-me pensar que a árvore é ela, e que o lenhador não faz outra coisa além de derrubá-la à força de machadadas.
Imagino que sua perda de inocência tenha a ver com a descoberta de que esse poder que ela tem sobre os homens tem limite. E que alguns são mais suscetíveis que os outros.
SCARLET: a história da irmã mais velha (19 anos) é cheia de sentimentos familiares a qualquer um que resolve ter uma carreira relacionada às artes. Scarlet é uma talentosa pianista. Sente na música um prazer quase narcótico. Porém é a mais velha de seis irmãs em uma família sem pai, com uma mãe ausente e uma avó doente. Então ela coloca sua arte de lado, encobrindo-a e abafando-a sob o manto da responsabilidade e disciplina. Nega tudo que é dionisíaco, visceral e instintivo não por desgostar, mas por necessidade. Há uma cena bem significativa na casa da avó normal onde uma infinidade de livros estão lotados em estantes em uma parede que dá para uma sala onde instrumentos musicais estão pendurados em perfeita ordem. Mais adiante essa cena muda...
Um dia, caminhando pela floresta, Scarlet encontra um palco abandonado ao ar livre. Lá estão um piano e um professor, que senta ao seu lado e toca com ela, e promete-lhe o mundo se ela nutrir seu talento musical.
Não consigo entender como Scarlet morre. Ou se ela morre fisicamente. Sua versão da casa da vovó post-mortem mostra móveis cobertos por lençois brancos que me lembram o que se fazia antigamente ao viajar, para evitar o pó nos móveis. Faz-me pensar de certa forma naquilo que escrevi sobre ela abafar sua arte sob o manto da disciplina. Ou neste caso, parece-me mais adequado dizer que ela cobriu e abandonou sua situação em casa (suas irmãs) quando embarcou nessa aventura como artista. Na sala dos livros, eles estão agora todos no chão e as estantes vazias. Os instrumentos na sala adjacente flutuam no ar e tudo parece indicar um relacionamento mais apaixonado com a arte que ela tinha deixado de lado. O quarto final mostra um palco, as cortinas brancas subindo e luzes de show em movimento.
Nada é muito explicativo de sua morte física, mas tudo fala de uma morte emocional ou psicológica, talvez até moral: abandonar as necessidades familiares em prol de si mesma. Os flashes no fim mostram o professor com garras afiadas, mais um lobo coletivo para o resto da família do que para Scarlet. Ou talvez um lobo para ela no sentido de libertá-la da disciplina auto-imposta e prendê-la novamente na disciplina da carreira de piano.
Passei uns três dias escrevendo isto, vendo os vídeos aos poucos, antes de ir dormir à noite. Fez-me pensar muito sobre minha própria vida, minhas escolhas. As coisas vão mudar muito nos meses seguintes, e sinto medo e curiosidade, assim como sentiria pela possibilidade de sair do caminho e entrar na floresta. Agora sinto que a fascinação por esse jogo acabou. Mas assim como o próprio mote do jogo, o mais gostoso de tudo não é o destino, mas sim O Caminho.
segunda-feira, maio 18, 2009
A Deusa do Medo
Às vezes conto a história de como a minha tela Lettin' the Cables Sleep surgiu a partir de um flash de imagens que repentinamente brotou na minha cabeça. Daquelas coisas de artista estereotipado que repentinamente tem uma inspiração, como se baixasse o santo. Era um flash com várias imagens sobrepostas, pedaços do quebra-cabeça que eu fui organizando na tela final.
Ontem, voltando para casa, tive outra dessas.
Desta vez, só uma pedaço. De novo, voltei para a imagem daquela mulher gigantesca flutuando no céu como uma deusa medonha. Na imagem em minha cabeça, vi apenas o rosto. Mas era um rosto enorme virado em direção à cidade lá embaixo. A proporção era tamanha que as distorções da imagem me lembravam a forma gigantesca de Ayanami nas cenas do fim de Evangelion. Apenas um olho visível no perfil do rosto, com uma pupila diminuta, daquele jeito meio doente que os desenhistas de mangá fazem. O sorriso no rosto recebia os reflexos coloridos da cidade lá embaixo. E tanto cabelo, mas tanto cabelo, que caía sobre a cidade ao fundo e tampava parte da visão do suposto observador. Era uma imagem de medo. Do medo do feminino.
Em algum lugar deveria haver um garotinho nú de pele acinzentada. Talvez o foco do olhar daquela mulher terrível. Mas não estava na imagem que me veio à cabeça. Imagino que isso venha racionalmente, da coerência que pretendo manter entre essas telas.
Hora de voltar a pintar.
Ontem, voltando para casa, tive outra dessas.
Desta vez, só uma pedaço. De novo, voltei para a imagem daquela mulher gigantesca flutuando no céu como uma deusa medonha. Na imagem em minha cabeça, vi apenas o rosto. Mas era um rosto enorme virado em direção à cidade lá embaixo. A proporção era tamanha que as distorções da imagem me lembravam a forma gigantesca de Ayanami nas cenas do fim de Evangelion. Apenas um olho visível no perfil do rosto, com uma pupila diminuta, daquele jeito meio doente que os desenhistas de mangá fazem. O sorriso no rosto recebia os reflexos coloridos da cidade lá embaixo. E tanto cabelo, mas tanto cabelo, que caía sobre a cidade ao fundo e tampava parte da visão do suposto observador. Era uma imagem de medo. Do medo do feminino.
Em algum lugar deveria haver um garotinho nú de pele acinzentada. Talvez o foco do olhar daquela mulher terrível. Mas não estava na imagem que me veio à cabeça. Imagino que isso venha racionalmente, da coerência que pretendo manter entre essas telas.
Hora de voltar a pintar.
quinta-feira, maio 14, 2009
SP Arte
Começou hoje no Pavilhão da Bienal a 5ª edição da SP Arte.
A feira, organizada pela colecionadora Fernanda Feitosa, acontece anualmente e reúne 80 das principais galerias do mundo para comercializar seus acervos.
Pessoalmente, acho que a Feira causa-me mais interesse do que a falida Bienal, por vários motivos. Primeiramente, porque acho que há algo de muito verdadeiro, embora também meio satírico, em uma feira de arte. Sou de uma turma na faculdade que discutia largamente sobre a comercialização da arte em tons pejorativos, como se trabalhar para vender sua obra de arte fosse um sacrilégio. Sim, era bem isso: atribuíamos às obras (mesmo àquelas banais) uma qualidade sacra que era profanada com algo tão mundano como a venda. E de repente vemos aqui uma feira inteira dedicada a esse comportamento herege. Havia toda aquela discussão que ainda acho pertinente sobre como um patrono ou mecenas pode vir a influenciar de forma negativa no processo criativo do artista. Mas daí para essa fobia comercial, acho que demos o passo errado. Talvez por isso mesmo que da minha turma tenham saído tão poucos que hoje de fato vivem da arte enquanto alunos de outras turmas, como o Rodolpho Parigi, assumiram a arte como produto e vendem quadros a preços tão exorbitantes. Acho que o tom satírico-sério da SP Arte é acentuado ainda mais pelo caráter vil que a palavra feira tem no nosso país: aquele ambiente sujo, mambembe, cheio de gente competindo no grito e tentando vender seu produto mais barato do que a barraquinha do lado.
Mas, quando descemos do pedestal de sacralidade e superamos o nojo que temos do termo, a Feira torna-se de fato um ambiente cheio de potencial. Imagine você, pessoa ativa no mundo das artes, tendo ao seu alcance e em um só lugar todas aquelas galerias. As possibilidades são vastas: contatos, compras, vendas, serviços, empregos... Há dias que venho tentando arranjar tempo para montar um pequeno material, algumas folhas apenas, para deixar nos estandes. A pergunta é se me apresento como potencial empregado ou como artista. Quiçá como ambos.
Pesquisando sobre o evento por aí, soube da presença de Tanya Barson, curadora do Tate Modern [1][2][3]. Vontade que tenho de entregar-lhe algum material em mãos e pedir que ela me arranje um emprego (QUALQUER emprego) no TATE quando eu for para Londres novamente...
A SP Arte acontece no Pavilhão da Bienal. Hoje e amanhã, vai das 14h às 22h. No sábado e domingo, das 12h às 20h. A entrada custa a módica (¬.¬') quantia de R$ 25.
FONTES: [1] [2] [3]
A feira, organizada pela colecionadora Fernanda Feitosa, acontece anualmente e reúne 80 das principais galerias do mundo para comercializar seus acervos.
Pessoalmente, acho que a Feira causa-me mais interesse do que a falida Bienal, por vários motivos. Primeiramente, porque acho que há algo de muito verdadeiro, embora também meio satírico, em uma feira de arte. Sou de uma turma na faculdade que discutia largamente sobre a comercialização da arte em tons pejorativos, como se trabalhar para vender sua obra de arte fosse um sacrilégio. Sim, era bem isso: atribuíamos às obras (mesmo àquelas banais) uma qualidade sacra que era profanada com algo tão mundano como a venda. E de repente vemos aqui uma feira inteira dedicada a esse comportamento herege. Havia toda aquela discussão que ainda acho pertinente sobre como um patrono ou mecenas pode vir a influenciar de forma negativa no processo criativo do artista. Mas daí para essa fobia comercial, acho que demos o passo errado. Talvez por isso mesmo que da minha turma tenham saído tão poucos que hoje de fato vivem da arte enquanto alunos de outras turmas, como o Rodolpho Parigi, assumiram a arte como produto e vendem quadros a preços tão exorbitantes. Acho que o tom satírico-sério da SP Arte é acentuado ainda mais pelo caráter vil que a palavra feira tem no nosso país: aquele ambiente sujo, mambembe, cheio de gente competindo no grito e tentando vender seu produto mais barato do que a barraquinha do lado.
Mas, quando descemos do pedestal de sacralidade e superamos o nojo que temos do termo, a Feira torna-se de fato um ambiente cheio de potencial. Imagine você, pessoa ativa no mundo das artes, tendo ao seu alcance e em um só lugar todas aquelas galerias. As possibilidades são vastas: contatos, compras, vendas, serviços, empregos... Há dias que venho tentando arranjar tempo para montar um pequeno material, algumas folhas apenas, para deixar nos estandes. A pergunta é se me apresento como potencial empregado ou como artista. Quiçá como ambos.
Pesquisando sobre o evento por aí, soube da presença de Tanya Barson, curadora do Tate Modern [1][2][3]. Vontade que tenho de entregar-lhe algum material em mãos e pedir que ela me arranje um emprego (QUALQUER emprego) no TATE quando eu for para Londres novamente...
A SP Arte acontece no Pavilhão da Bienal. Hoje e amanhã, vai das 14h às 22h. No sábado e domingo, das 12h às 20h. A entrada custa a módica (¬.¬') quantia de R$ 25.
FONTES: [1] [2] [3]
segunda-feira, maio 11, 2009
Projeto Tripé (SESC)
Vou começar a postar por aqui as oportunidades de artes plásticas das quais eu ficar sabendo.
PROJETO TRIPÉ DO SESC POMPÉIA
O projeto tripé estimula a produção contemporânea na área de artes visuais e apresenta obras de três artistas em cada uma de suas quatro edições previstas para cada ano, havendo uma temática para cada exposição.
O projeto, uma iniciativa do Núcleo de Artes Visuais e Multimeios do SESC Pompéia, reúne diferentes expressões artísticas, com as mostras trazendo discussões sobre os temas apresentados e promovendo encontros entre os artistas e estudiosos da área, acontecendo um bate-papo a cada exposição. O processo de seleção dos artistas participantes será de responsabilidade da equipe por meio de uma comissão de avaliação.
Para participar deverá mandar imagens da produção artística com currículo (CD ou impresso), aos cuidados de Julieta Machado e Natalia Nolli Sasso – Núcleo de Artes Visuais e Multimeios, na Rua Clélia, 93, cep 05042-000 Pompéia, São Paulo. Qualquer duvida pode ligar 3871.7738 / 3871.7793
Já fui ver duas das exposições desse projeto, uma delas com colegas minhas da faculdade de artes expondo: Thaís Albuquerque e Amanda Mei. O projeto é como todos esses projetos deveríam ser e não são: bem organizado, relevante, de fato promove artistas jovens em início de carreira. Detalhe raro hoje em dia é que esse projeto garante um pro-labore, um pagamento ao artista pela exposição, em vez de fazer como a grande maioria dos espaços que chegam com aquela conversa fiada de que você está ganhando visibilidade e não dão um centavo (alguém aí lembra do W.A.G.E.?). Fora isso há outras regalias: coquetel de abertura, equipe de montagem, dvulgação e catálogo no fim do ano com todos os artistas que participaram naquele ano.
A dica é de outra colega de profissão, Marcela Tiboni, que recomendou o projeto por experiência própria.
Artistas, participem!
PROJETO TRIPÉ DO SESC POMPÉIA
O projeto tripé estimula a produção contemporânea na área de artes visuais e apresenta obras de três artistas em cada uma de suas quatro edições previstas para cada ano, havendo uma temática para cada exposição.
O projeto, uma iniciativa do Núcleo de Artes Visuais e Multimeios do SESC Pompéia, reúne diferentes expressões artísticas, com as mostras trazendo discussões sobre os temas apresentados e promovendo encontros entre os artistas e estudiosos da área, acontecendo um bate-papo a cada exposição. O processo de seleção dos artistas participantes será de responsabilidade da equipe por meio de uma comissão de avaliação.
Para participar deverá mandar imagens da produção artística com currículo (CD ou impresso), aos cuidados de Julieta Machado e Natalia Nolli Sasso – Núcleo de Artes Visuais e Multimeios, na Rua Clélia, 93, cep 05042-000 Pompéia, São Paulo. Qualquer duvida pode ligar 3871.7738 / 3871.7793
Já fui ver duas das exposições desse projeto, uma delas com colegas minhas da faculdade de artes expondo: Thaís Albuquerque e Amanda Mei. O projeto é como todos esses projetos deveríam ser e não são: bem organizado, relevante, de fato promove artistas jovens em início de carreira. Detalhe raro hoje em dia é que esse projeto garante um pro-labore, um pagamento ao artista pela exposição, em vez de fazer como a grande maioria dos espaços que chegam com aquela conversa fiada de que você está ganhando visibilidade e não dão um centavo (alguém aí lembra do W.A.G.E.?). Fora isso há outras regalias: coquetel de abertura, equipe de montagem, dvulgação e catálogo no fim do ano com todos os artistas que participaram naquele ano.
A dica é de outra colega de profissão, Marcela Tiboni, que recomendou o projeto por experiência própria.
Artistas, participem!
domingo, maio 10, 2009
Welcome to your Quarterlife Crisis
Esta semana, uma amiga minha colocou no Twitter um link para uma matéria no site Eyeweekly sobre o que eles chamaram de Quarterlife Crisis. Traduzindo em miúdos, a "Crise de um Quarto de Vida". Geralmente referida por aqui como a dos Adolescentes de 25.
O começo do texto traça dois perfis, masculino e feminino, bem conhecidos por muita gente com a qual eu convivo. Pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi o segundo parágrafo:
Ele vai de bicicleta para seu trabalho em uma agência de publicidade, onde ele usa seu mestrado em Letras para revisar redação publicitária, e passa várias horas lendo blogs de música e assistindo traillers de filmes, Twitando atualizações periodicamente sobre seu dia de trabalho para seus 74 followers. Ele não odeia de fato seu trabalho, mas sente que sua pele está cheia de vermes rastejando nela durante a maior parte do tempo em que está lá, então ele planeja se mudar para a Tailândia, ou talvez escrever um livro. Ou fazer faculdade de direito.
Não é totalmente idêntico a mim, mas é quase uma versão minha em um universo alternativo. Não vou de bicicleta para o trabalho ainda, mas o plano estava na minha cabeça há muito tempo, só esperando eu resolver a questão de chegar no trabalho suado e fedido. Estou em vias de conseguir um mestrado em artes plásticas que não vai mudar em nada o meu cargo de assistente de arte que pega serviços secundários e menores nas agências enquanto gente menos capaz pega o interessante. Passo boa parte do dia lendo webcomics e Twitando atualizações para meus 53 followers (Putz, tenho até menos do que o cara do exemplo...). Não odeio meu trabalho (de fato, é uma das agências mais gostosas e tranquilas nas quais trabalhei...), mas sinto que tudo aquilo tem um quê de perda de tempo às vezes e que eu poderia estar ganhando mais e fazendo algo que me desse mais satisfação pessoal. Planejo passar um tempo em Londres, ou talvez fazer exposições. Só não penso em fazer MAIS UMA faculdade...
O texto continua tentando explicar o fenômeno. Diz que acontece entre gente no fim dos vinte, começo dos trinta; de classe média-alta; bem educada e informada. Algo como a Charlotte, personagem de Scarlet Johansson em Lost in Translation.
Eles não conseguem tomar nenhuma decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque têm a permissão e possibilidade de serem o que eles quiserem.
Ao contrário da crise de meia-idade, onde o indivíduo se pega percebendo como tinha muitos sonhos e nenhum deles foi realizado, a crise de quarto-de-vida que a antecede encontra o indivíduo se perguntando qual é o plano, quais são os sonhos. Conheço muita gente, muita mesmo, acometida de casos severos de depressão porque não encontra gosto em nada do que faz. Lembro vagamente de diversas coisas que escrevi por aqui, sobre como o problema não era não ter aptidão alguma, mas ter várias aptidões. Sentir que cada decisão era a negação de várias outras possibilidades que talvez fossem a escolha certa.
De forma geral, o coração da crise de quarto-de-vida está nas promessas que nos foram feitas e nunca chegaram a ser realizadas. Eu acreditava, como uma boa maioria de colegas do colégio, que se eu estudasse bastante e entrasse em uma boa faculdade, eu teria um emprego rentável garantido em uma carreira criativa e interessante. A minha parte do acordo foi cumprida, mas o retorno nunca veio. Já é óbvio que não há vagas suficientes para suprir a quantidade crescente de pessoas saíndo das faculdades procurando trabalhos "criativos e interessantes" (que eu chamo de Empregos que Todos Querem). Então só estudo e boas faculdades não garantem a vida como garantiam nas gerações anteriores. De fato, esses caminhos de vida significam cada vez menos para a minha geração. Hoje vejo que as pessoas que estão de fato nos Empregos que Todos Querem são pessoas que parecem ter nascido apenas para aquilo e nada mais. Não há outra opção e eles se dedicam inteira e unicamente àquilo. Os outros, com mais do que uma única aptidão, acabam frustrados pelo que escolheram em detrimento das outras possibilidades. E esse sentimento é pesadíssimo.
Pra sair um pouco de cima do texto da Eyeweekly, fala-se muito que a educação mudaria para melhor a situação do país. Mas eu acho que a crise de quarto-de-vida mostra o contrário: com mais acesso à educação, mais pessoas estudariam para conseguir Empregos que Todos Querem, e teríamos mais pessoas concorrendo para vagas mais escassas. Claro que não posso advogar aqui que melhorar a educação no país seja uma coisa ruim (heresia!), mas tem suas consequências.
Voltando ao texto, um dos últimos parágrafos me surpreendeu fazendo uma interpretação pejorativa das mídias sociais como o Orkut e o Facebook:
Todo tipo de conhecidos meio esquecidos e amizades abandonadas reaparecem nesta planilha de razões potenciais para se sentir péssimo sobre você mesmo. Se você é tão mesquinho quanto eu, você passa boa parte do seu tempo no Facebook medindo seus próprios sentimentos de inadequação em relação direta com o sucesso dos outros. Todas essas pessoas para as quais você não dava a mínima alguns anos atrás são agora exemplos onipresentes e referências para medir todas a oportunidades que você tem ou não na vida.
Cogito saír do Orkut... Na verdade, o mais correto seria ouvir a Lexy e parar de me comparar aos outros. Se você souber como fazer isso, por favor me conte.
O começo do texto traça dois perfis, masculino e feminino, bem conhecidos por muita gente com a qual eu convivo. Pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi o segundo parágrafo:
Ele vai de bicicleta para seu trabalho em uma agência de publicidade, onde ele usa seu mestrado em Letras para revisar redação publicitária, e passa várias horas lendo blogs de música e assistindo traillers de filmes, Twitando atualizações periodicamente sobre seu dia de trabalho para seus 74 followers. Ele não odeia de fato seu trabalho, mas sente que sua pele está cheia de vermes rastejando nela durante a maior parte do tempo em que está lá, então ele planeja se mudar para a Tailândia, ou talvez escrever um livro. Ou fazer faculdade de direito.
Não é totalmente idêntico a mim, mas é quase uma versão minha em um universo alternativo. Não vou de bicicleta para o trabalho ainda, mas o plano estava na minha cabeça há muito tempo, só esperando eu resolver a questão de chegar no trabalho suado e fedido. Estou em vias de conseguir um mestrado em artes plásticas que não vai mudar em nada o meu cargo de assistente de arte que pega serviços secundários e menores nas agências enquanto gente menos capaz pega o interessante. Passo boa parte do dia lendo webcomics e Twitando atualizações para meus 53 followers (Putz, tenho até menos do que o cara do exemplo...). Não odeio meu trabalho (de fato, é uma das agências mais gostosas e tranquilas nas quais trabalhei...), mas sinto que tudo aquilo tem um quê de perda de tempo às vezes e que eu poderia estar ganhando mais e fazendo algo que me desse mais satisfação pessoal. Planejo passar um tempo em Londres, ou talvez fazer exposições. Só não penso em fazer MAIS UMA faculdade...
O texto continua tentando explicar o fenômeno. Diz que acontece entre gente no fim dos vinte, começo dos trinta; de classe média-alta; bem educada e informada. Algo como a Charlotte, personagem de Scarlet Johansson em Lost in Translation.
Eles não conseguem tomar nenhuma decisão porque não sabem o que querem, e não sabem o que querem porque não sabem quem são, e não sabem quem são porque têm a permissão e possibilidade de serem o que eles quiserem.
Ao contrário da crise de meia-idade, onde o indivíduo se pega percebendo como tinha muitos sonhos e nenhum deles foi realizado, a crise de quarto-de-vida que a antecede encontra o indivíduo se perguntando qual é o plano, quais são os sonhos. Conheço muita gente, muita mesmo, acometida de casos severos de depressão porque não encontra gosto em nada do que faz. Lembro vagamente de diversas coisas que escrevi por aqui, sobre como o problema não era não ter aptidão alguma, mas ter várias aptidões. Sentir que cada decisão era a negação de várias outras possibilidades que talvez fossem a escolha certa.
De forma geral, o coração da crise de quarto-de-vida está nas promessas que nos foram feitas e nunca chegaram a ser realizadas. Eu acreditava, como uma boa maioria de colegas do colégio, que se eu estudasse bastante e entrasse em uma boa faculdade, eu teria um emprego rentável garantido em uma carreira criativa e interessante. A minha parte do acordo foi cumprida, mas o retorno nunca veio. Já é óbvio que não há vagas suficientes para suprir a quantidade crescente de pessoas saíndo das faculdades procurando trabalhos "criativos e interessantes" (que eu chamo de Empregos que Todos Querem). Então só estudo e boas faculdades não garantem a vida como garantiam nas gerações anteriores. De fato, esses caminhos de vida significam cada vez menos para a minha geração. Hoje vejo que as pessoas que estão de fato nos Empregos que Todos Querem são pessoas que parecem ter nascido apenas para aquilo e nada mais. Não há outra opção e eles se dedicam inteira e unicamente àquilo. Os outros, com mais do que uma única aptidão, acabam frustrados pelo que escolheram em detrimento das outras possibilidades. E esse sentimento é pesadíssimo.
Pra sair um pouco de cima do texto da Eyeweekly, fala-se muito que a educação mudaria para melhor a situação do país. Mas eu acho que a crise de quarto-de-vida mostra o contrário: com mais acesso à educação, mais pessoas estudariam para conseguir Empregos que Todos Querem, e teríamos mais pessoas concorrendo para vagas mais escassas. Claro que não posso advogar aqui que melhorar a educação no país seja uma coisa ruim (heresia!), mas tem suas consequências.
Voltando ao texto, um dos últimos parágrafos me surpreendeu fazendo uma interpretação pejorativa das mídias sociais como o Orkut e o Facebook:
Todo tipo de conhecidos meio esquecidos e amizades abandonadas reaparecem nesta planilha de razões potenciais para se sentir péssimo sobre você mesmo. Se você é tão mesquinho quanto eu, você passa boa parte do seu tempo no Facebook medindo seus próprios sentimentos de inadequação em relação direta com o sucesso dos outros. Todas essas pessoas para as quais você não dava a mínima alguns anos atrás são agora exemplos onipresentes e referências para medir todas a oportunidades que você tem ou não na vida.
Cogito saír do Orkut... Na verdade, o mais correto seria ouvir a Lexy e parar de me comparar aos outros. Se você souber como fazer isso, por favor me conte.
sábado, maio 02, 2009
O Homem da Tarja Preta
Neste feriado da sexta-feira, dia do Trabalho onde ninguém trabalha, levei Lexy para assistir comigo ao Homem da Tarja Preta, monólogo escrito pelo colunista Contardo Calligaris (que já figurou neste blog alguns posts atrás, fazendo uma ligação interessante entre a crise masculina e os atiradores em escolas) e encenado pelo ator baiano Ricardo Bittencourt no teatro Eva Hertz (no Conjunto Nacional da Paulista). A peça é curta: cerca de uma hora. A primeira parte da peça, um desbocado revelar da vida íntima de um homem de negócios cross dresser, podia ter sido um pouco menor. Mas o texto compensa logo em seguida, abordando com relevância algumas daquelas questões complicadas dos homens atuais. Admito que esperava ver ainda mais desses assuntos encenados no palco, mas só o fato da peça ser inteira dedicada a esse questionamento já é um avanço para os homens.
O personagem passa seus primeiros minutos despindo-se da roupa de homem de negócios (a real travestia) e vestindo-se de mulher para entrar no chat e se oferecer aos outros homens. Revela que nunca nada acontece de fato e que a graça não está no acontecer, mas no simples ato de oferecer-se. Daí parte para uma conversa honesta e desbocada sobre o que é ser homem numa época onde não há mais referências confiáveis do que é ser homem, do que é certo no sexo, do que o excita.
Ele aborda outros pontos dos que já mencionei por aqui além da falta de referências masculinas. A imposição feita ao homem de ser alguém na vida enquanto a mulher, mesmo após o Feminismo, ainda pode casar-se com um homem rico e considerar-se realizada (perceba que a situação oposta torna o homem "menos homem"). O medo do homem da possível tendência homossexual e como isso o enfraquece. A tênue linha que ele imagina existir que separa o homo do hetero ("Beijar outro homem, tudo bem, é divertido. Mas dar eu não dou, porque é coisa de bicha"). As múltiplas variações, graus e hierarquias de homossexualidade criadas por ele para "manter alguma dignidade" mesmo dentro de suas perversões ("Posso ser cross dresser, mas não sou viado"). O declínio do arquétipo de macho provedor em uma época onde as mulheres se sustentam. Uma geração inteira de homens que não sabem mais brigar, apáticos, passivos, domesticados.
A questão das hierarquias me pareceu particularmente interessante na peça. Ele fazia de tudo para justificar que, apesar de seu "desvio", ele ainda era macho. E em dado momento, a quantidade de referências a variações de homossexualidade era tamanha que me levou a perguntar: será tudo isso de fato necessário? Por que é que uma mulher é hetero ou lésbica enquanto um homem é heterossexual, homossexual, metrossexual, überssexual, travesti, cross dresser, drag e outras tantas variações? Aliás, porque é que uma mulher usa roupas masculinas sem perder a feminilidade e os homens rotulam, dissecam, questionam, rebaixam?
Pensando nisso, me veio à cabeça a animação simples porém relevante do Rodrigo Burdman chamada Homo Erectus. Acho difícil não rir dela. E no entanto ela ao mesmo tempo se aproveita dessa mania masculina de rotular para neutralizar aquilo de que tem medo, enquanto joga na cara o maior medo masculino e termina com sabedoria. Assista!
Mas aqui eu já estou fazendo resenha dentro de resenha e a coisa tá ficando meio complicada...
A peça está em cartaz no teatro Eva Hertz (na Livraria Cultura do Conjunto Nacional - av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3170-4059), quintas e sextas às 21hrs, até 19/6. Custa R$20 e sugiro comprar com bastante antecedência, porque lota mesmo!
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