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terça-feira, maio 15, 2012

Pina, Wenders e honestidade

Fui assistir Pina do Wim Wenders. Pra dizer a verdade, não gostei tanto quanto imaginava que gostaria.

Eu queria sim que minha vida fosse como os filmes do Wenders. Fotografia impecável, pelo menos três idiomas e muita poesia. Aos poucos, vou me rodeando de gente que me permite fazer isso. Começar uma conversa em português, ter passagens em inglês e um pequeno parêntesis cômico em italiano.

Não, a razão de eu não ter gostado do filme não tem nada a ver com Wenders. Tem a ver com a dança. Arrisco dizer que tenha a ver com a arte. E principalmente comigo mesmo e com acontecimentos recentes. Alguém recentemente me fez pensar bastante sobre honestidade. Mais do que isso, sobre ser honesto consigo mesmo para poder ser honesto com os outros. Essa noção aparentemente óbvia, ligada a outros questionamentos que eu estava tendo sobre a índole masculina brasileira, tem feito um considerável estrago na minha vida. Mas é um daqueles estragos que você sabe que merece, e pelos quais precisa passar. Pra se tornar um homem melhor. E isso é assunto para um outro longo post que talvez eu nunca chegue a escrever.

No meio da trilha de destruição que essa honestidade está deixando, encontra-se a minha capacidade de apreciar arte. Uma capacidade que antes era baseada em uma espécie de tolerância, como se, frente a uma obra daquelas áridas, meio abstratas e herméticas, eu dissesse "muito bem, eu não estou me relacionando com essa coisa, mas se está aqui, deve ter alguma importância e beleza que eu ainda não captei". Eu ignorava o sentimento negativo de isolamento que eu sentia, o enfado, o tédio, para quem sabe poder chegar a um nível de compreensão e maravilhamento mais adiante. Resumindo, eu fazia cara de conteúdo.
Mas dessa vez, vendo o filme com honestidade, eu resolvi não ignorar. Houve partes em que eu dormi MESMO. Houveram coreografias que não me diziam NADA. Movimentos espasmódicos que claramente eram o fim de algum longo e tortuoso processo do dançarino, mas que não queriam dizer nada para o expectador final que eu sou. Arte hoje às vezes é um processo. E faz sentido quando se vê desde o começo, como fez sentido para quem acompanhou o meu processo todo em Londres e entendeu porque que eu emergi de cabeça raspada, lixando minhas unhas em uma lixadeira mecânica. Porque que eu me embrenhei pelas baladas de Brixton. Porque que a Filha do Açougueiro teve que fugir. Mas pra quem pega o bonde andando, isso não passa de loucura estéril.
Quiçá eu devesse ter lido mais, pesquisado mais sobre a Pina Bausch antes de ir ver o filme. Ela era apenas um nome e uma noção de uma mulher daquelas.

E no entanto, há momentos de grande beleza no filme. Alguns são obra do Wenders: as tomadas do metrô alemão; as cenas nas paisagens desertas; a fila de dançarinos morbidamente sorridentes repetindo os movimentos de primavera, verão, outono e inverno; as construções meio Bauhauss onde algumas das cenas acontecem. Outras são Pina e seus bailarinos: a garota que se enrola nos braços do amado que foge dela; a outra que cai para os lados a cada passo, segura de que seu parceiro a segurará poucos centímetros antes de atingir o chão; os dançarinos jogando baldes d'água na rocha enorme no palco, me lembrando ondas na arrebentação.

Percebo que o meu estado recente me deixou um pouco avesso ao drama. Talvez um pouco mais frio, endurecendo a carapaça externa pela qual todas as artes futuras terão que penetrar pra me fazer sentir algo de fato.

E como será o efeito disso quando (e se) eu voltar a de fato fazer arte?

segunda-feira, maio 07, 2012

Foi um daqueles momentos cinematográficos. "Cara, eu ouvi sobre o assunto do seu mestrado e tive uma ideia de um roteiro!" me disse uma das minhas colegas de licenciatura. Ela fumava enquanto eu tomava um café no intervalo entre as aulas. Passou a me contar sobre essa história de um rapaz heterossexual que, por curiosidade, acaba indo parar em uma área da cidade frequentada por transsexuais e afins. Vai sozinho, claro, para evitar o questionamento dos amigos. E durante o curta-metragem, passa uma noite incrivelmente poética, hedonista e livre, deixando o preconceito de lado por algum tempo. Participa das baladas, deixa-se seduzir pelas criaturas desse lugar estranho e oferece ao expectador uma visão muito sincera de um feminino encarnado por homens. No fim da aventura, ele retorna a uma espécie de "normalidade", podendo deixar pra trás pra sempre o seu preconceito. Ela disse que seria uma história legal. "Então..." eu respondi. "Deixa eu te contar umas coisas..."

domingo, abril 15, 2012

Vermelho

Fui assistir Vermelho com o Antônio e o Bruno Fagundes. Os atores são pai e filho. Os personagens, Mark Rothko e Ken, são mestre e aprendiz de pintor. Essa coerência metalinguística ficou bem legal, e me deu muita vontade de voltar àquela questão da falta de um mestre. Na peça, Ken se apresenta a Rothko e começa a trabalhar para ele como assistente de ateliê. Ele é ansioso pela aprovação do mestre, que o trata como ninguém. Mas aos poucos, Rothko vai ensinando-o a ver a pintura, a encará-la com seriedade, a ter discernimento (e não apenas achar tudo "legal"). Até que eventualmente, há aquele momento sublime em que o aprendiz consegue apontar toda a megalomania e o egocentrismo do mestre e provar que ele também não é ninguém. Ou melhor, que ainda que tenha feito história, ele também é humano, preso ao seu tempo, e passível de um dia se tornar obsoleto. É a superação do mestre pelo aprendiz.
Há na peça uma energia forte, masculina, obviamente advinda dos personagens, que encarnam aquele estereótipo do pintor machão, rude, briguento. Não é à toa que a comparação entre Rothko e Pollock é feita durante boa parte da peça. Os dois, pintores machões (Pollock, até bem machista). Eu ainda não sei o que sinto a respeito desse estereótipo. Mas não gostaria de ser incluído nele algum dia.
Na época da minha graduação, eu tive a chance de ter Dora Longo Bahia como mestre. Mas eu era imaturo, arrogante, e vindo de uma geração que se dá ao luxo de desistir e ir procurar chances mais brandas ao ego diante do primeiro sinal de confronto. Tá certo que ela não facilitava muito as coisas. Mas bons mestres não afagam o seu ego desde o começo. Como resultado, eu pouco aproveitei esse relacionamento, e não tirei nenhuma chance disso além da boa nota no meu trabalho final da faculdade. Hoje, aos 30 anos, eu acho que eu teria maturidade e humildade para encarar um mestre como se deve. Para sofrer o necessário e aprender com isso.
Será que um dia eu ainda serei um mestre (que, diga-se de passagem, é mais do que apenas ser um professor de artes...)?
A peça também me deixou com vontade de voltar a fazer arte que nem essa do Rothko. Daquelas que precisam de muito tempo, muita paciência, muito gosto e discernimento pra apreciar. De demorar-se horas escolhendo o tom certo da cor (e não apenas pegar qualquer cor que vem no tubinho de tinta...), decidindo se é a relação certa com a outra cor. Dessas pequenices que não querem dizer nada para quem não está disposto a dedicar-se a essa fruição. Desse tipo de arte que eu até me divirto fazendo, mas não tenho a coragem de mostrar.

Quem sabe um dia...
Quem sabe com o mestre certo...

terça-feira, janeiro 10, 2012

Balanço de 2011

À medida em que a vida vai adquirindo contornos mais sérios, eu vou tendo menos tempo pra escrever por aqui. Questão de escolher de maneira sóbria quais são as suas bolas de golfe e o que é a areia [1]. O blog ainda está longe de terminar. Ele é parte intrínseca da minha presença virtual, de quem eu sou no mundo real também. Mas com certeza, eu já percebi que nesse ano, como dizia a Chebel, "I need to be living, not internerding...".

Mas vamos ao que interessa. Janeiro está quase na metade e eu ainda não fiz o balanço do ano passado. Um ano que dificilmente será superado (eu já não disse isso?), onde eu...

• ...estruturei muito melhor tudo o que eu pensava do Masculismo [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...comecei a encontrar pontos onde, apesar de diferentes, as compreensões do masculino dos ingleses e a minha se encontravam. [1]
• ...observei ativistas, protestantes e gente alternativa de verdade com visões de mundo e ideologias muito interessantes. [1][2][
• ...recebi gente lá em Londres para afastar a minha saudade. [1]
• ...conheci uma turma que não estava nem totalmente do lado masculino e nem do feminino. E estava vivendo perfeitamente bem com isso! [1][2][3][4][5]
• ...fiz vários vídeos! [1][2][3][4]
• ...percebi as crises, incoerências e o caos da faculdade em Londres. Quando a academia vira empresa, o caos se instala. Seja em que país for! [1][2]
• ...convivi com gente nova, estranha, estressante e interessante. [1][2]
• ...observei os "odds and ends" de Londres. [1][2][3]
• ...coloquei meu trabalho para inglês ver! [1][2][3][4]
• ...aproveitei que ninguém me conhecia tanto assim em Londres para ousar, dando início a uma mudança sorrateira de personalidade em direção a algo mais sexualmente ambíguo [1][2][3][4][5]
• ...visitei a Romênia, à procura do lendário e do verdadeiro conde Drácula! Aproveitei para aprender um nada de romeno. [1]
• ...comecei a cair na real em relação a ser artista, ao mercado e à academia, ao meu futuro. [1][2]
• ...me envolvi com o catálogo da turma, uma responsabilidade cheia de dor e de delícia. [1][2]
• ...assisti bem de perto à Europa entrando em crise. [1]
• ...tive que deixar a rotina gostosa de um lugar onde eu fui realmente muito feliz por um ano, para voltar ao meu país de origem e me readaptadar a estar entre conhecidos novamente. [1][2][3]
• ...tive meus choques culturais, desgostos nativos e pequenas frustrações de volta no meu país. A vida aqui jamais será a vida de lá. [1][2][3][4]


E o que será de 2012?
O ano promete muito. E embora esse muito seja muito trabalho e muitas obrigações, são também muitas possibilidades, muito gosto de vida adulta. Se tudo correr bem, será um ano em que eu...

• ...colocarei um pouco de lado as megalomanias da adolescência, o sonho não realizado e atualmente muito questionado de virar artista plástico de carreira.
• ...começarei a dar aulas de educação artística no meu saudoso Colégio Bandeirantes.
• ...investirei mais e melhor na carreira de idiomas.
• ...finalmente sairei da casa dos pais para ter o meu lugarzinho!
• ...continuarei interessado nas questões masculinas e nas ambiguidades de gênero, tentando levar uma vida que seja fiel à ideologia.
• ...voltarei brevemente à minha Londres para a cerimônia de graduação do mestrado.
• ...viajarei mais com a minha Lexy!

quinta-feira, outubro 06, 2011

Gisele and Hopeless Men

Nana comentou recentemente que a Gisele Bundchen tinha aparecido em um comercial da marca de lingerie Hope [1][2][3] que a fez pensar em mim. E eu fiquei muito feliz com essa lembrança suscitada pelo comercial, onde a modelo "ensina" que dar notícias ruins aos homens vestindo lingerie diminui o impacto do problema e a consequente bronca. Fiquei feliz, porque enquanto muita gente comentava sobre o mau gosto do comercial ao supostamente objetificar as mulheres (há controvérsias, já que uma vertente atual do feminismo até enxerga nisso uma espécie de poder feminino), Nana não pode deixar de perceber o quanto o comercial denigria os homens. De fato, eu sempre detestei essa idéia de homens cegados pela mera promessa de sexo, do sexo usado como mecanismo de controle.

Pensando em escrever este post, lembrei de outro comercial que rolou no começo do ano, a tentativa da Bombril de continuar na cabeça do consumidor depois da saída do Carlos Moreno, o garoto Bombril. Nessa nova campanha, a Marisa Orth, Dani Calabresa e Monica Iozzi fazem uma apelo para que "mulheres evoluídas" forcem seus homens retrógrados a ajudarem nos afazeres domésticos.

Apesar das duas campanhas terem esse apelo para a guerra dos sexos, acho que é muito válido ressaltar algumas diferenças cruciais. A campanha da Bombril tem aquele ar de brincadeira com um fundo de verdade. O jeito absurdo e caricato das humoristas não está insinuando que a mulher evoluída trate o homem de fato feito cachorro. Tudo tem um ar de sátira que é muito difícil de levar a sério. No entanto, ela consegue comunicar nas entrelinhas um retrato da utopia atual, onde as mulheres têm liberdade para ter pulso mais firme, e os homens têm a possibilidade de "evoluírem" também e passarem a ser mais presentes na vida doméstica. A idéia é que, na vida real, longe da sátira, ambos os sexos passem a respeitar um ao outro de forma mais igualitária. Quem ataca esse comercial de cara por ser sexista (tá, confesso, eu pensei em fazer isso quando vi...) está perdendo boa parte da mensagem e fazendo uma leitura simplista da coisa.

O comercial da Hope é outra coisa e esse eu não tenho receio em criticar. Ele procura ser mais uma espécie de verdade em tom de brincadeira. A Gisele é uma das chamadas figuras aspiracionais, aquela que algumas mulheres querem ser. Sendo assim, ela é muito mais passível de seduzir (não no sentido sexual) a espectadora a agir de fato desse jeito, a usar o que o comercial chama de "charme da mulher brasileira" pra subjugar o homem. Como eu mencionei antes, há quem ache que o uso consciente desse dito poder feminino é uma forma de feminismo atual, enquanto que outras pessoas criticam o comercial por voltar a objetificar a mulher. No caso do homem insinuado nesse comercial, não há dúvidas: ele é torpe, controlado por sexo e sem esperança de evoluir além disso.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Amargas lições finais

As notas saíram hoje.
A maioria das pessoas dizia não se importar, mas no momento em que recebia o envelope, hesitava ao abrir, sentindo o coração disparar. Era afinal o resultado de um ano inteiro.
As minhas reações foram diferentes. Eu também dizia não me importar. E continuei não me importando, enquanto recebia e abria o envelope. Lá estava o veredito: "PASS".

Eu passei. Que bom.

Mas essa frieza toda foi mudando quando continuei lendo os documentos. Havia três qualificações possíveis: "PASS", "MERIT" e "DISTINCTION", sendo a última a mais alta. Eu havia passado simplesmente. Meu coração ficou pequeno.
A verdade é que todo mundo passa. Até aquela aluna que deu as caras na faculdade um punhado de vezes e fez um trabalho pífio na exposição final passou. Mas eu achava que tinha feito tudo certo dessa vez, que tinha gerado influência com minha participação no catálogo da turma, tinha demonstrado crescimento pessoal no tanto que a minha mentalidade e até aparência mudaram ao longo do ano, tinha mostrado serviço fazendo peças que chamaram atenção na exposição final e tinha desenvolvido uma pesquisa acadêmica sólida com referências atuais.
Mais do que isso, eu achei que tivesse feito toda a política necessária. Nem tive tempo de comentar aqui, mas na semana antes da exposição final abrir, estive entre os quatro finalistas do prêmio GAM, um conceituado prêmio dado os alunos que demonstraram maior desenvolvimento durante o ano. Tenho consciência de que essa indicação veio devido ao bom relacionamento que cultivei com Brian Chalkley, nosso líder do curso, que escoltou os juízes do prêmio pela faculdade e com certeza teve grande influência na escolha do ganhador (que no final das contas, não fui eu...).
Eu achava que depois de tudo isso, eu merecia ao menos o "MERIT"...

Na carreira de artes, passar com um "PASS" ou mesmo o "DISTINCTION" não quer dizer muita coisa para efeitos de carreira. Não é algo que faça muita diferença no currículo e há até uma lei em Londres que proíbe empregadores de investigar notas, podendo apenas saber se o potencial empregado passou ou não no curso que ele diz ter feito. Mas já faz tempo que a minha questão aqui deixou de ser uma questão de carreira. Esse "PASS" é uma coisa pessoal pra mim. Fez com que eu me sentisse rebaixado pessoalmente. Insuficiente.

Como sempre, eu não pude evitar as comparações. Soube de três alunos que ganharam "DISTINCTION". Todos britânicos. Todos fazendo um tipo de arte sem ideologia prática, um fazer pelo fazer. Eu até gostei de um deles, pelo humor. Mas a questão é que deu pra entender o padrão. E deu pra entender como eu estava fora dele.
Soube ainda da colega da República Tcheca que ganhou o GAM. E de rumores de que esses prêmios eram frequentemente dados a alunos do leste europeu por algum motivo. Rumor corroborado pela colega polonesa que tinha ganhado o prêmio de escultura da CASS Arts no ano passado.

No fim das contas, quais foram as lições finais aqui? Eu aprendi o tipo de arte que é levada a sério, e que é bem diferente do tipo de coisa que eu faço. No entanto, se eu adaptasse minha arte pra ser adequada a isso, eu seria considerado falso, vendido, prostituído. Eu aprendi que toda a política de que eu sou capaz me leva longe, mas não até o fim. Para ir até o fim e ganhar prêmios, oportunidades de carreira e etc, eu precisaria ter o tipo de arte levada a sério, aquela que eu não tenho. Aprendi ainda que muita coisa depende de variáveis sobre as quais eu não tenho o menor controle ou escolha (como ser do leste europeu, por exemplo).

Eu termino o ano em Chelsea sem ganhar nenhum prêmio, sem ser aceito em nenhuma exposição com curadoria, sem ter vendido nada e com um "PASS". Sinto que paguei por um diploma e nada mais.
Não foi um ano inútil. Eu descobri muito sobre mim e a masculinidade que eu herdei da cultura brasileira, fiz trabalhos dos quais eu gostei muito e que muita gente veio elogiar. Mas eu sempre sobro com essa sensação de que eu sou ótimo para entreter meus amigos e familiares (não me entendam mal, eles são tudo pra mim), mas insuficiente para qualquer instituição de arte. E só isso não faz carreira.

Tenho pensado no futuro, na volta para o meu país, com igual pessimismo. Eu também não sou ninguém lá, não estou fazendo a arte que tá na moda por lá e sei menos ainda de como fazer a política necessária para a carreira naquele contexto. Há uma parte de mim que quer simplesmente não ter que se importar mais com isso, aposentar a arte como carreira e resolver o resto da vida com a carreira de idiomas que tem me respeitado e recompensado mais. Outra parte quer dar um tempo nas artes e tentar a literatura por um ano. E uma terceira parte quer experimentar fazer esse outro tipo de arte que é levada a sério, embora EU não consiga levá-la a sério...

sexta-feira, setembro 09, 2011

Endgame - the Final Show

Our final show closed to the public yesterday. It was a success for the critics, but a marketing failure. I didn`t mind. I have become clearly aware that my work here turned into more of a personal journey than the career strategy it started out as.

Setting up the final show, I believe, was the final and most revealing experience. I chose two pieces for it: the Male Varnish video and an instalation for the college’s parade ground that would be a gigantic version of one of my phallics done back in November.

I chose Male Varnish mostly because of eveyone’s opinions. Most people considered it the best video I had, the best performance. I agreed. It was brave, but also sent a somewhat clear message. It had been executed apropriately, with good equipment and editing. I wanted to project the video onto my wall space, but couldn’t find a projector and settled for a screen. This posed a problem, because I was quite afraid of having that screen stolen throughout the show. So I decided to build an extension of the wall with the screen built in. I also wanted to write some of the things about my teenage traumas that I had been exploring in text on the wall.
It was a wonderful, organic experience. It changed as I progressed. I became very interested in the manliness of the carpentry required for the task, in the haphazard results of someone who had never done that before (and wasn’t sure how to be a carpenter or a man). I was also interested in the fact that the timbers I was using for structure had belonged to a student who exhibited last year in the same space I was exhibiting now. As a result, the boring text-ladden wall I first had in mind was cut in places to reveal the structure behind it and the text was scrapped, giving way to a shinny, high gloss surface that mimicked the gloss of nail varnish, establishing another connection to the video displayed on the built-in screen. I even added tiny buttons on the wall that went right through to push the buttons on the screen.

The other piece, which I adequately named Big Phallic, was a ten meter high fabric banner that would hang from one of the towers in one of the buildings. Straight away, it put me through very feminine issues of selecting fabric, learning how to use a sewing machine to prepare it, sewing parts by hand and just keeping all that fabric neat and clean. But other parts were very masculine. The two days spent elbow-deep in acetone to transfer the image of a gigantic fountain pen onto the fabric, the phallic nature of the challenge of doing something so big and the complex rope system that would keep the piece in place were all things that I contemplated as very nice conflations with the feminine side.
It wasn’t all easy. once tied to the building, the fabric piece acted as a sail, billowing up with the wind and harnessing tremendous pulling power. It was so strong, that on a particular day, it lifted two metal railings tied to its base to keep it down. They flew some two meters into the air and almost smashed nearby windows before being contained by college staff. I reviewed my roping system and things wend smoothly after that. It was actually quite fun to see a system like that working.

There was a third piece that was only visible in the opening night. I was wearing it. It was a skirt designed in collaboration with costume designer Anastasios Kleisias. It mimicked the same fabrics as my shirt, vest and velvet jacket I was wearing on top. Despite it being a skirt, we had managed a certain might to it. I felt powerful parading around the college in it. Closer to that stereotype of the vampire.

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Nossa exposição final fechou para o público ontem. Foi um sucesso de crítica, mas um fracasso de mercado. Não me importei. Tornei-me muito ciente de que meu trabalho por aqui virou mais uma jornada pessoal do que a estratégia de carreira que era no começo.

Montar a exposição final, acredito, foi a última e mais reveladora experiência. Eu escolhi duas obras para isso: o vídeo Male Varnish e uma instalação para o pátio da faculdade que seria uma versão gigantesca de um dos meus phallics feitos em Novembro.

Eu escolhi o Male Varnish principalmente por causa das opiniões da turma. A maioria considerou-o o melhor vídeo que eu tenho, a melhor performance. Concordo. Ela é corajosa, mas também tem uma mensagem clara. Ela foi executada direito, com bom equipamento e edição de vídeo. Eu quis projetar o vídeo na parede do meu espaço, mas não consegui encontrar um projetor e me contentei com uma tela. Isto gerou um problema, porque eu tinha receio de que ela fosse roubada no meio da exposição. Então eu decidi montar uma extensão da parede com a tela embutida. Eu também queria escrever algumas das coisas sobre traumas adolescentes que eu tinha explorado em texto na parede.
Foi uma experiência maravilhosa e bem orgânica. Ela mudou à medida que avançou. Fiquei muito interessado no caráter masculino da carpintaria necessária para a obra, nos resultados toscos de alguém que nunca havia feito isso antes (e não tinha muita certeza de como ser um carpinteiro ou um homem adulto). Também me interessei pelo fato dis sarrafos que eu estava usando para a estrutura terem pertencido a um estudante que expôs no ano passado no mesmo espaço em que eu estava expondo neste ano. Como resultado, a parede maçante e cheia de texto que eu tinha em mente no começo teve alguns pedaços cortados para revelar a estrutura atrás dela e desisti do texto, que deu lugar a uma superfície brilhante que imitava o brilho do esmalte de unha, estabelecendo outra conexão com o vídeo mostrado na tela embutida. Eu até consegui fazer uns pequenos botões na parede que atravessavam até o outro lado para controlar os botões da tela.

A outra obra, que eu adequadamente chamei de Big Phallic, era um banner em tecido de dez metros de altura que ficaria pendurado de uma das torres em um dos prédios. Logo no começo, ele me fez passar por práticas bem femininas de selecionar tecido, aprender a usar a máquina de costura para prepará-lo, costurar partes à mão e manter tudo aquilo organizado e limpo. Mas outras partes eram bem masculinas. Os dois dias passados em acetona até os cotovelos para transferir a imagem da gigantesca caneta tinteiro para o tecido, a natureza fálica do desafio de fazer algo tão grande e o complexo sistema de cordas que prenderia a obra no lugar eram todas coisas que eu contemplei como belos encontros com o lado feminino.
Nem tudo foi fácil. Uma vez amarrado ao prédio, o tecido agia como uma vela, inflando com o vento e acumulando um tremendo poder de tração. Era tão forte, que um dia levantou as duas barreiras de metal amarradas à sua baase para mante-lo esticado no lugar. Elas subiram dois metros no ar e quase quebraram as portas de vidro ao lado, antes de serem contidas pelos funcionários da faculdade. Eu revi o meu sistema de cordas e as coisas correram bem depois disso. Foi até divertido ver todo aquele sistema funcionando.

Havia uma terceira obra que só foi vista na noite da abertura. Eu a estava usando. Era uma saia criada em colaboração com o designer de figurino Anastasios Kleisias. Ela imitava os mesmos tecidos da minha camisa, colete e palitó de veludo que eu estava usando. Apesar de ser uma saia, conseguimos dar-lhe um certo poder. Eu me sentia imponente trajando aquilo pela faculdade. Mais próximo do estereótipo do vampiro.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Carpinteiro de unhas feitas.

Achei importante separar um tempo para documentar isso por aqui, ainda que rapidamente.

Resolvi que a parte principal do meu trabalho na exposição final vai ser a versão finalizada do Male Varnish (essa do link foi apenas um estudo e não coloco a versão final online porque possívies compradores na exposição final iriam querer algo com tiragem limitada e exclusividade...). Na versão final, antes de pintar as unhas, eu as lixo em uma lixadeira da oficina de madeira da faculdade e ainda uso um polidor para polir e remover resíduos antes de pintar.
Resolvii ainda construir uma parede extra no meu espaço da exposição, para colocar a tela do vídeo embutida na parede e poder ainda escrever e desenhar na parede também. Tenho passado os dias em uma febril atividade de carpintaria, construíndo a parede.

Flashback para o fim de semana anterior.
Visitei Allyson, um maquiador brasileiro que se apresenta como drag queen por aqui. Ally, como ele se apelida, foi a principal entrevista da minha dissertação (substituíndo o não-cooperativo Lady Lloyd), confirmando como segunda opinião várias das minhas visões da sociedade brasileira referentes à masculinidade. Conversamos muito e resolvi fazer um dos vídeos de entrevista com ele, como aquele em que Neba corta o meu cabelo e barba. A primeira visita era para combinarmos direito o que íamos fazer e arranjar uma data.
Conversa vai, conversa vem. Ele me falava das interpretações errôneas e diferenças entre cross-dressers, drag queens e afins. Eu explicava a exposição final, os meus vídeos e a liberdade que eu sentia em uma cultura diferente da brasileira.

Mas quando expliquei sobre a parede que eu ia ter que construir esta semana, ele olhou de canto de olho para minhas unhas que já haviam voltado a crescer depois do vídeo (e que eu planejava ter confortavelmente longas para a abertura da exposição, fazendo a ligação com o vídeo em si). Sem conseguir se conter, Allyson pediu permissão e começou a fazer minhas unhas. Lixando, cortando... Com gestos de quem já faz isso há anos, arranjou um pequeno vidrinho de base para unhas e começou a passar. Disse que aquilo iria proteger as minhas unhas durante a atividade dessa semana, evitando que quebrassem.
Passei o domingo admirando o estranho brilho que elas tinham, e o quase imperceptível aumento de peso. Extremidades cuidadas e singelas em mãos peludas de homem. Era algo estranho, mas curioso, interessante. Me lembrava trechos dos livros de Anne Rice onde Lestat (ou Louis) descrevia suas unhas como tendo um brilho estranho depois que ele foi transformado em vampiro.

Enquanto escrevo aqui (as unhas já voltando a clicar nas teclas, indicando que já ficaram grandes demais), percebo que a proteção da base já descascou em vários lugares, revelando a superfície fosca da unha verdadeira. Era de se esperar: passei dois dias levantando madeiras, arrancando pregos, escalando andaimes, usando uma miríade de ferramentas. Não me importei. A base estava aí para isso mesmo, para receber o castigo destinado às unhas. Para dar lugar a esse aspecto de algo que era cuidado e perfeito, mas foi devidamente usado. Me interessei muito pelo contraste masculino/feminino desses eventos. Pela coisa meio cômica, meio bonita, de ser esse carpinteiro (machão...) de unhas feitas. Aprendi que é desse tipo de estranheza que eu devo me inspirar para falar do Masculismo no meu trabalho.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Texto do catálogo

Achei relevante fazer uma curta nota disso por aqui.

Saíndo da faculdade hoje, minha colega irlandesa Fiona comentou: "Sabe o seu texto do catálogo (cada um de nós enviou um pequeno texto sobre nosso projeto em Chelsea este ano)? Eu achei esse texto brilhante! Você mudou muito o seu jeito de falar sobre o seu trabalho, está perfeito."
Claro, ela refere-se a esse texto em comparação a como eu me apresentei no começo do curso. Esse comentário fez o meu dia!

Abaixo, o texto do catálogo traduzido:

"Eu sou um homem branco ocidental heterossexual. Mas eu não sou o Patriarcado. Meu trabalho em video-performance, literatura e pintura tenta fazer a crônica de uma procura por um modo alternativo de existência que não me aliene do meu corpo e minhas emoções como condição para a masculinidade. É um caminho que deve ser percorrido cuidadosamente, ou corro o risco de ser compreendido como um crítico contra o Feminismo e suas importantes conquistas ou um partidário de masculinidades essencialistas e ultrapassadas. Meu trabalho nunca foi sobre isso. Em vez disso, ele lida com minha experiência pessoal de masculinidade brasileira, na esperança de que outros se identifiquem com minhas questões e compartilhem suas próprias 'mazelas de meninice [boyhood]'.

Eu ainda acho que os homens não nomearam e lidaram com suas 'mazelas de meninice' da mesma forma que o feminismo deu às mulheres jeitos de nomear algumas das tragédias da nossa 'adultice' na sociedade sexista. - Bell Hooks"

sábado, julho 30, 2011

Dissertação de dia, balada de noite

O professor Cussans insistia que a minha dissertação não tinha uma pergunta acadêmica adequada. O que eu sempre detestei da academia era a problematização até das coisas mais simples. Eu já tinha apresentado três possíveis questões acadêmicas a serem desenvolvidas na minha dissertação e todas tinham problemas. "O que é o homem contemporâneo?" A pergunta já saia por terra na primeira referência pesquisada, que me revelou que, na era pós-moderna, qualquer conceito (como "homem", por exemplo) é fluido e maleável, incapaz de ser definido e dependente de uma miríade de conceitos que o rodeiam. "A prática de artistas masculinos adotarem alter egos femininos ainda se mantém relevante após as mudanças propostas pelo Feminismo?" Legal, mas eu teria que especificar o que é relevância e para quem a prática ainda é relevante. "Existe uma suposta ligação entre hábitos (práticas) e orientação sexual?" Bom, eu ainda teria que especificar quem faz a suposição e quais hábitos são esses em questão.

No começo de Julho, eu finalmente cheguei a uma questão aceitável. Eu ia pesquisar as áreas de Vauxhall e Soho, notoriamente conhecidas como redutos LGBT onde as delimitações entre os sexos (genders) eram mais imprecisas, atrás de exemplos de preconceito sistêmico (não partido da opinião de indivíduos) contra o sexo masculino.
A pesquisa juntou detalhes que eu percebera de canto de olho durante o ano inteiro e outras coisas que eu pensara logo no começo. Acabei pesquisando o exército por aqui. O serviço militar inglês é opcional (ao contrátio da nossa dita democracia livre americana) e aberto a ambos os sexos. No entanto, determinadas unidades, como as de infantaria, são apenas masculinas. Em uma curta sessão de bate-papo online com representantes do exército, perguntei a respeito dessas unidades. Um deles respondeu:

Embora o exército reconheça a capacidade de muitas mulheres em apresentar os requisitos necessários, o exército questiona o impacto de ter equipes mistas e como isso afetaria a sua coesão em combates de curta distância.

A resposta bem elaborada mostrava que o assunto já tinha sido discutido. E pra dizer a verdade, eu via o sentido em não criar unidades com ambos os sexos. No entanto, por que não criar unidades masculinas e femininas separadas? Por que só homens? Esse raciocínio perigava ser duplamente sexista: considerando mulheres inadequadas para esse tipo de combate por limitações físicas, ou considerando homens mais descartáveis e adequados para unidades com muitas baixas.
Outro assunto que eu pesquisei foram as escolas primárias inglêsas. Depois da entrevista com um colega do curso que fora professor primário, passei a me interessar pelo medo britânico do professor pedófilo. Apesar de ter encontrado casos noticiados de mulheres (grupos delas até) envolvidas em casos de abuso infantil, o maior medo ainda era em relação aos homens. As escolas das áreas pesquisadas mantinham um corpo docente com uma média de 10% a 15% de professores homens. Obviamente, nenhuma escola quis comentar a respeito.

Quando a noite caía nesses bairros, eu aproveitava para ir às baladas locais. Além do Escape, que eu já frequentava pelo karaokê e para tentar arranjar entrevistas com as drags e crossdressers, eu passei algumas noites na Royal Vauxhall Tavern, que apresentava artistas da chamada queer culture (a palavra "queer" normalmente tem conotações de homossexualismo, mas aqui é usada para qualquer prática sexual que desvie da dita "normalidade"). E aqui eu preciso admitir abertamente: descobri um novo e fascinante mundo.

Estamos entrando em águas perigosamente pessoais e controversas... Segurem-se.

Demorei muito a escrever sobre isso porque percebi ao longo dessa minha experiência o quanto muito disso aqui era diferente da experiência que eu tinha do meu país. E o quanto a fama do Brasil de país sexualizado onde tudo era permitido por causa do Carnaval esbarrava em uma realidade católica conservadora que voltava a reprimir tudo na Quarta-feira de cinzas. Que via todo queer como "viado" (no sentido mais pejorativo da palavra) e que pintava o Brasil como um país retrógrado em comparação com os "frios e tediosos" ingleses. Demorei a escrever, porque ainda não conseguia prever as reações de gente que lê estas páginas (que desde alguns relacionamentos passados passaram a ser escritas com mais zelo pelos sentimentos dos outros...). Mas também porque eu não conseguia definir onde eu me colocava nisso, e isso causava certa confusão que me impedia de escrever. O meu processo todo no
mestrado me fizera rever traumas de infância que tinham colocado em questão a minha orientação sexual e experiências adolescentes que confirmaram minha heterossexualidade em meio a tantas outras questões emocionais complicadas. Mas eu continuava discordando da masculinidade brasileira que eu experimentei. Achava-a entediante, mentirosa e muito, muito conservadora. Além disso, percebi que eu fora ensinado a ter vergonha da minha criatividade sexual, a considerar todos os desvios do padrão católico conservador como "perversão", algo a ser reprimido ou contado em voz baixa e embaraçada.

Mas então havia Londres. Onde o coordenador do curso de mestrado de uma faculdade de renome apresentava-se como drag sem medo de ser feliz. Onde projetos como o Torture Garden organizavam festas de fetiche comentadas em artigos nos jornais gratúitos do metrô como qualquer balada normal. Onde as práticas de BDSM ("Bondage, Domination, Sadism, Masochism") eram vistas como opções de uma vida sexual sadia e criativa, tão naturais quanto preferir ruivas a morenas. Onde apresentadoras burlescas tinha um certo status decadente de celebridades.
Aqui, longe de tudo e de todos que me conheciam antes, eu passei a me permitir mais. Passei a ir nas apresentações burlescas em Vauxhall, nas festas fetichistas em Brixton, nos bares drags de Soho. Quer saber? Estar nesses lugares fez saltar aos olhos o quanto as baladas na minha cidade eram uma mentira. As discotecas comuns eram palco de um jogo de aparência na cultura brasileira, onde eu tinha a impressão de que todo mundo dizia estar lá pra "dançar, beber e se divertir", mas estava lá de fato para pegar alguém. Eram lugares de um erotismo velado, onde as roupas mantinham a decência mas as atitudes não. Aqui nesses lugares de Londres ao menos a coisa era menos hipócrita. As pessoas estavam lá pelo erotismo sim, e não escondiam isso.
Embora uma parte de mim ainda tivesse medo desses lugares, pela educação católica que eu recebi , o tanto que eu me sentia à vontade neles me fazia querer ir mais e mais a fundo. O medo era baseado em todas aquelas premissas estúpidas que alimentam a homofobia no meu país: o medo de que me meter com essa gente me tornaria homossexual, o medo de alguém me pegar à força e me forçar a algo que eu não queria, um medo de contaminação. O sentir-me à vontade era baseado em um mar de novidades que eu experimentava em cada lugar: o "não é não" na porta da balada em Brixton que era respeitado como um mandamento religioso, o quão bem eu me sentia nas roupas incomuns que eu podia usar em Vauxhall e o quanto eu parecia atrair a atenção dos rapazes em Soho sem fazer qualquer esforço. Esse último detalhe era curiosíssimo, porque eu sempre invejara a capacidade feminina de simplesmente estar na balada e atraír interessados enquanto que nós homens tínhamos que correr atrás. E embora eu não me interessasse por rapazes, esse interesse deles por mim fazia um bem incomparável à auto-estima, descontadas as reações homofóbicas.

terça-feira, junho 28, 2011

Nota

E por falar na avaliação com as duas Dawns, hoje recebi a nota. O número era mais ou menos o que eu esperava: 63. Na média da turma, que ficou nos 60. Eu achava que receberia algo assim, depois de perceber como meu nervosismo de rever Dawn Mellor influenciara na minha apresentação. Recebi altas notas em experimentação e técnica (adorei!), porém uma nota um pouco mais humilde em conhecimento do tema.

Mais interessante do que a nota foram as anotações que ela escreveu a respeito do trabalho. Senti que conquistei ao menos um mínimo respeito dela, e isso muito me agradou. Abaixo, traduzo o que ela escreveu.

1) Ótima experimentação em termos de formato (media) do trabalho. Desenvolveu estratégias performáticas através de formatos em vídeo e ao vivo.

2) Precisa desenvolver distanciamento crítico e talvez uma estratégia para comunicar isso, dada a por vezes confusa combinação de metas políticas objetivas, material autobiográfico e regras performáticas fictícias. [Eu nem sabia que tinha tudo isso!]

3) Relationamento discursivo com outros alunos é bom e aberto.

4) Temas interessantes relacionados à identidade cultural latinoamericana abordados por uma perspectiva pessoal.

5) Precisa chegar a um posicionamento para fazer julgamentos auto-críticos sobre o trabalho.

A seriedade que vira piada

Tentando dar umas dicas para Louise, uma colega irlandesa que queria começar um blog, mostrei o meu blog profisssional. Ela, uma artista que trabalha principalmente com vídeos, viu alguns dos vídeos que ela nunca tinha visto antes, como o Semiotics of the Workshop e o Male Varnish.
Uma coisa estranha e interessante acontece com esses vídeos. Incluo no grupo também a performance do botão. São trabalhos que eu desenvolvi com um intuito sério. Eu queria que fossem trabalhos relativamente sérios no começo. O primeiro estudo para a performance do botão foi feito no estúdio de Chelsea, em absoluto silêncio, como um ato quase religioso. Nesse caso, o trabalho mudou e passou a ser sátira antes da versão final. Mas nos outros dois, eu realmente produzi a coisa com um certo intuito sério, pra levantar questões políticas sérias. Mas o resultado saiu cômico. É aquele cômico meio sarcástico, de rolar os olhos, mas é uma graça interessante. Eu acho que não me ofendo como faria nos primeiros anos da faculdade quando um trabalho "desandava" desse jeito, em parte por já ter amadurecido e aprendido a respeitar essas mudanças que o trabalho faz sozinho, mas também em parte porque a crítica política (política aqui mencionada como gender politics, não política de governo) continua lá. Mesmo que vestida de bizarra comédia.

Louise acha que a força desses trabalhos, em especial do Male Varnish está na naturalidade do ato. Eu estou mesmo experimentando pintar as unhas e tentando fazer isso direito. E estou mesmo usando verniz de madeira. Eu não estou montando uma cena como nos outros ou tentando atuar como um comediante. Eu estou sendo eu mesmo.

Me faz pensar no que mais eu posso fazer com essa carga de realismo cômico. Mais ainda, me faz pensar no que Dawn Mellor diria. Percebi que, na ansiedade da minha avaliação, não mostrei esses vídeos a ela... ¬¬

Tutorial 6

A long time had passed and a lot had happened since my last tutorial with Stephen Wilson. I had pondered about my clothes, traveled to Romania and rekindled my love for vampires, linked gender politics with vampirism through the character of Dr. Frank-N-Further, and had a few other experiences I didn't note down here. I was changed. Completely. And Stephen Wilson was pleased.

I was prepared this time as well. After wasting a good deal of time on our first tutorial due to a diverted bus, I made sure to be in College a full 45 minutes before our appointment. Stephen, surprisingly, showed up 15 minutes early. Nonetheless, I was prepared.
And just to vindicate my previous forgetfulness, I started by offering him a small box of brigadeiros, the Brazilian dessert I had been making on several occasion here in London. There was a point to be made with them. I wanted to get from him the same surprised expression I had gotten from many of my colleagues, when they realized those delicate treats had been carefuly made by a man (of course, by now, I was less of the traditional barbecueing male and more closely related to this sort of gastronomy).

The result was interesting: Stephen Wilson denied them. He mentioned having an issue with personal space and not accepting anything from other people.
A while ago, I can't remember when or where, an older man had given me something to eat. I can't even remember who it was (and it was probably someone from the course), but I do remember that feeling of being fed, of biting something off the fingers of another man. There was something provocative about the act, something latently homo erotic. It would have bothered me were I not dealing with these issues as part of my research.
I had thought of a performance with brigadeiros as my final piece. Of feeding men in an audience during a performance in that same way, causing that feeling of strangeness and sexual doubt on them. With Stephen, this had perhaps happened before the actual act of feeding (and I never intended to feed them to him...). We talked about that event, which I recalled as best as I could, mentioning it probably had happened in Soho, that neighborhood in London famous for its transgendered nightlife. He extrapolated the idea, filling in the gaps left by my faulty memory with much of his own personal fears of that sort of unwanted intimacy. And we envisioned another sort of performance. One where an audience would feed each other, men feeding men, women feeding women, to take it away from me as a character and closer to each participant's issues with sexuality, gender and intimacy.
I was somewhat thrilled at the idea that my art could revolve around food. It resonated, for me, with Graysson Perry's pottery: something girly, but where that female aspect would come as both a defining thing in the life of the artist and a critique to everyone else.

I got other interesting reactions from other pieces, as I took him through all the violent changes that had happened since we last spoke. He had told me "not to make things confortable", and I had delighted in taking that advice to heart. The video of Neba shaving my head seemed interesting in itself, and the photography that followed (some of it still unpublished on any of my other media) definitely fit that description, being quite outright provocative. But a lot of it eventually stubled on stereotypes that I wasn't doing enough to question. And that made the work dangerously shallow.
The feeding performance, on the other hand, had "a good energy", he said. I agreed. And I'm thinking of ways of running this through my classmates before taking it any further, to see their opinions.

We also talked about characters. Some of my photos had been an attempt to develop a character that would take the place of my absent Butcher's Daughter. And I suppose this character is still going to happen, when I go back to a more conservative lifestyle back in my own country. It'll be the dormant form my transgression will take. But that's a bit too convoluted to explain.
But while we talked about characters, I mentioned the first researched I had done on Oreet Ashery and the first interview with Benedetta de Alessi. What interested me about them was that they had practical reasons for separate alter egos. Oreet was dealing with Jewish rituals that excluded women and wouldn't be able to penetrate these societies without her male character. Benedetta created her character of the little boy Oscar because she was interested in that particular stereotype of the boy and in "being over-emotional and romantic, or in tears, as a male". That is to say, she couldn't have done it as a grown woman, because it would invalidade the whole experience.
Drag characters were something different. And Stephen Wilson mentioned a conference held a few years back that asked the question: "is drag dead"? The actual question is: is there anything left for drag to question to maintain its transgressive status? In a world of stay-at-home dads and men wearing make up, drag is simply becoming an exageration of questions that aren't really relevant anymore.
My upcoming interview with Brian "Dawn" Chalkley might give me some more info on the matter.
Meanwhile, Lady Lloyd is still giving me the silent treatment.

domingo, junho 19, 2011

Da ligação entre atitudes e orientação sexual

Tive uma conversa interessante na noite anterior, em uma festa na casa de uma de minhas colegas. Uma amiga dela, ao ser apresentada a mim, fez aquela pergunta: "então, que tipo de arte você faz?"

Senta, que lá vem a história....

Depois de ter que responder desengonçadamente essa pergunta uma porção de vezes, acabei desenvolvendo um começo decente. Eu estou interessado em política de gênero (gender politics, por aqui todo artista já ouviu falar disso por causa das feministas), mas pelo lado masculino, depois do feminismo. A resposta é suscinta, adequada, e ainda deixa a pessoa com aquele gosto de "legal, quero saber mais a respeito".

Apesar das diferenças culturais que eu tenhno ressaltado por aqui, conversas com não-artistas sempre são cheias de interesse, de concordar, de achar legal. Nossa conversa demorou mais de uma hora, entre trocar experiências e tirar dúvidas. E no final, eu tinha saído disso com mais um ponto interessante a considerar: essa ligação entre atitudes e orientação sexual.
Se bem me lembro, conversávamos sobre a entrada das mulheres no mercado de trabalho e outras "masculinizações" que aconteceram no século XX. E em algum momento, me veio essa idéia: hoje já é perfeitamente normal que as mulheres façam determinadas coisas que antes eram masculinas. E não se questiona sua orientação sexual por causa disso (ainda há algumas excessões, claro...).
Não seria ótimo para um homem poder escolher opções similares sem precisar pensar nessa ligação entre atitude e orientação sexual? Não seria ótimo poder pensar sobre o próprio corpo, como mencionei no post anterior, ou sobre cuidar dos filho e etc, sem que isso enviasse uma mensagem errada?

Me fez pensar em uma perfomance que não sei se ainda terei energia e tempo pra montar. Uma em que eu começaria perguntando para a platéia aquela pergunta que virou clichê: "does this shirt make me look gay?" ["essa camisa me faz parecer gay?"]. E daí ir progredindo para coisas mais e mais desafiadoras nessa questão. Pintar as unhas, passar maquiagem, etc. Onde está o limite?

No-body

Acho que eu não cheguei a comentar sobre essa idéia por aqui ainda.

Andei lendo o Male Order da Rowena Chapman, uma coletânea de textos do final dos anos 80 que já discutia com certa seriedade as questões masculinas. Fiquei impressionado ao perceber como a discussão andou muito pouco de lá pra cá, apesar de já ter mostrado resultados interessantes.
Mas achei muito interessante que um dos textos (não anotei qual...) desenvolvia mais a fundo a idéia já conhecida de que o homem é o observador que objetifica a mulher. De acordo com o texto, a mulher como objeto de desejo é corpo, é visual. Era uma das coisas criticadas pelo feminismo antigo, da década de 70, e pelas vertentes posteriores em uma forma mais kitsch.
Mas o interessante do texto era considerar a situação do homem observador. Como observador, ele não tem corpo. Quando muito, ele tem um orgão simbólico, o falo, cujo poder como símbolo é transferido (fetishisado) para objetos alheios ao corpo do homem: o carro, a caneta dourada, a arma, a ferramenta, etc. Mas o corpo físico do homem... Bem, esse é escondido, ignorado, façamos de conta que não existe. Por que? Ah, porque é feio, ninguém quer ver um pinto... Sinceramente, certas partes mais íntimas da anatomia feminina são tão feias quanto.
A questão é que o corpo masculino ainda é em grande parte um tabu. Ele é escondido e o homem que o aprecia recebe o carimbo: [GAY!]
E não é apenas na apreciação do corpo do outro. Cuidados masculinos com o corpo são aceitos quando se fala da barba, esse símbolo de masculinidade que eu recentemente ataquei. Mas além disso, cuidados com a pele, com formas adequadas de depilação, ou até mesmo o considerar depilar-se por questão higiênica ou de conforto, cuidados com unhas, cabelo, alimentação... Tudo isso ainda pertence àquela área cinzenta que, mesmo aqui em Londres, os igleses defendem dizendo que "os tempos mudaram e homens podem discutir isso". Mas o fazem em tom baixo, olhando para os lados depois de ter medido a outra pessoa dos pés a cabeça pra saber se ela não vai achar estranho.

Eu tenho sim começado a pensar.
Depois dos desajeitados primeiros experimentos de Maio, comecei a considerar o comprimento adequado e confortável das unhas. Comecei a pensar na vasta quantidade de pelos que me cobrem o corpo e o quanto eu não gosto disso. Comecei a ver maneiras de lidar com isso sem passar outro mês me coçando inteiro (sério, cada vez que o vento batia e eu sentia calafrios, as raizes dos pelos raspados giravam dentro da pele - como centenas de agulhas afiadíssimas). Tenho ido a aberturas de exposição e outros eventos públicos importantes com uma ponderada quantidade de maquiagem apenas para esconder imperfeições, sem exageros.

Eu tenho um corpo. Você pensa no seu?

quarta-feira, junho 15, 2011

The Chosen Ones

O verão teoricamente começou por aqui. Mas Londres ainda não percebeu. Média de 18º.

Ainda não consegui garantir a entrevista com Lady Lloyd. Mas andei pesquisando os outros que me interessaram.

Brian "Dawn" Chalkley dispensa apresentações. Coordenador do nosso curso de mestrado, ele se apresenta como seu alter ego, a perniciosa e exibida Dawn. Aliás, fará uma apresentação amanhã, na galeria Beers.Lambert, em uma exposição à qual me inscrevi e não fui selecionado, só com artistas lidando com questões de gênero. Nas suas apresentações, Dawn geralmente lê o "Tranny Manifesto", uma lista de frases que especificam tudo que ela é a favor. Coisas kitsch, uma mistura de cinismo bem realista e provocação debochada. Ela não está fazendo nada além de inserir detalhes pessoais de suas noitadas com executivos. Esses homens malvados que só querem o seu corpo. Daí você lembra que ela é ele... E todo mundo sabe disso, porque a maquiagem exagerada não está lá para esconder, mas para realçar o fato.

Bem diferente dele, a ex-aluna italiana Benedetta de Alessi, mestranda de Chelsea em 2009, é conhecida na internet como Oscar. Era. Oscar, uma versão atualizada e emo do jovem Werther de Goethe, cometeu suicídio no ano passado, depois de deixar uma última mensagem ao seu amante P. Benedetta fazia um esforço para que sua identidade feminina não fosse descoberta. Fotos em que ela atingia uma bem elaborada androginia ilustravam o blog de Oscar. Muitas das fotos dele ainda criança, que eram de fato fotos da própria Benedetta, naquela fase assexuada da infância. De sua parte, Benedetta estava interessada na representação do jovem atualmente, e nas várias semelhanças da cultura jovem de hoje com a cultura do romantismo, de onde surgiu Werther. Mas por que um alter ego masculino então? O que havia nessa questão que ela não podia explorar como uma mulher? Suspeito houvessem outros motivos pela escolha. Motivos anteriores ao trabalho de mestrado dela aqui em Chelsea.

Fora do âmbito da faculdade, Oreet Ashery me fora indicada por várias pessoas. A artista tinha um alter ego masculino, o judeu ortodoxo Marcus Fisher, com o qual ela investigava os rituais do judaísmo que só podíam ser presenciados por homens e os ambientes onde "homens eram homens" (Já estou ansioso pra saber o que ela achava dessa premissa, como definia-se "homens" nesses ambientes). Ela sim tinha um motivo muito específico para a escolha do alter ego do sexo oposto, mas me pergunto o quão estreita tornou-se a relação entre criador e criatura com o passar do tempo. Será que ela chegou ao ponto de adotar alguns dos hábitos de Fisher? Habitos de "homens"? Estou quase convencido de que Oreet jamais poderia efetuar aquela fusão entre masculino e feminino que tornaria o alter ego obsoleto. Para isso, ela teria que mudar todo o judaísmo. Mas acho que a nossa conversa ainda pode trazer detalhes muito interessantes.

Finalmente, fazendo a volta completa e voltando ao tema inicial, andei pesquisando Grayson Perry. Talvez a figura mais estranha do bando. Perry trabalha fazendo vasos de porcelana delicada, nos quais, à moda grega, ele pinta imagens provocantes que questionam limites de gênero. Com uma cabeleira natural loira ao estilo He-Man, ele por vezes encarna seu alter ego Claire, uma garotinha de vestido (que não é filha de açougueiros). Vale lembrar, Perry é casado com uma psicóloga e tem uma filha. O que o coloca no âmbito heterossexual (enquanto que eu ainda tenho dúvidas a respeito de Brian). Pessoalmente, acho que ele já incorpora tanto do lado feminino, que questiono a necessidade da separação entre ele e seu alter ego. Acho que ele já é ambos meio que ao mesmo tempo.
Um detalhe interessante pescado da página da Wikipedia sobre ele: ele menciona que seu trabalho reflete sobre sua criação como menino e a "ausência de aconselhamento adequado sobre conduta masculina". Adoraria conversar largamente com ele e trocar estranhices...

Este post me fez bem. Ajudou a organizar as idéias. Faz parte da minha tentativa de sair aos poucos do caos para a disciplina de novo. Mas desta vez trazendo um pouco das peculiaridades do outro lado junto comigo.
Às vezes sinto pena de não ter mantido a disciplina e escrito mais sobre o processo todo por aqui. Meu trabalho e minha cabeça já mudaram tanto, mas perdi o link entre o antes e o depois. Teria sido interessante documentar. Enfim, vamos adiante!

quarta-feira, junho 08, 2011

Finalmente, a questão

Agora que a minha calvície já virou de conhecimento público depois das fotos que apareceram no Facebook [1] [2], resolvi postar os textos que estavam esperando o vídeo de Neba me raspando a cabeça. A faculdade continua dificultando a edição desse vídeo, privilegiando os alunos da graduação que estão há uma semana da sua exposição final e precisam editar trabalhos. Então voudar continuidade à história, e vocês verão o vídeo quando ele acontecer...

Ah, sim... Se você não sabe quem é Neba, os textos que eu publiquei foram este, este e este. Leia, que você vai entender.

Bom, depois destes remendos cronológicos, preciso contar de hoje à noite.
O professor Cussans tinha indicado na nossa avaliação que eu ainda não tinha desenvolvido uma boa questão acadêmica para pesquisar. Tentei pensar nisso conscientemente, mas eu sabia que, no meu momento atual, ela viria do inconsciente, quando eu menos esperasse, e que tentar forçar a barra só ia piorar.
Achei uma possível questão quando achei a Filha do Açogueiro na antiga Foundry. Voltei a pensar na idéia de que ela viera ao mundo real simbolizando uma fusão entre minhas personas masculina e feminina, ambas agora no mundo real.
Dentre as leituras que o professor me recomendou, fui ler sobre Grayson Perry, Oreet Ashery e uma mestranda de Chelsea em 2009 chamada Benedetta de Alessi. Todos eles tinham criado alter egos do sexo oposto. As duas últimas pessoas eram mulheres com alter egos masculinos. E antes deles havia Duchamp com sua Rrose Selavy e tandos outros.

Mas o que trouxe a minha questão à tona foi perceber que todos eles haviam mantido uma separação clara entre suas identidades e seus alter egos.

Era o mesmo problema que apontei aqui em relação à personagem drag do professor Brian Chalkley. Quando a arte acabava, aquela personagem entrava em um estado de suspensão, latência, momentaneamente deixava de existir. E o artista voltava ao seu gênero original.

Então a pergunta (que ainda estou elaborando melhor...) seria: "por que é preciso um personagem separado?" Ou então: "seria possível incorporar o personagem, fundi-lo à identidade principal para que as características do gênero oposto exploradas através dele passassem a ser características da identidade principal?"
Fiquei muito feliz com o ímpeto investigativo que isso desperto em mim. Queria entrevistar esses artistas. Perguntar sobre os personagens e como eles tinham mudado seus hábitos. Perguntar se a divisão entre personagem e artista tinha sido borrada com os anos e entender os casos em que ela persistia.

Corte repentino para um bar no distrito do baixo meretrício perto de Leicester Square. O Escape ficava em Brewer Street, uma rua conhecida pelos sex shops e comunidade GLBT. Eu estivera no Escape um par de vezes, atraído por curiosidade ao único karaokê disponível e barato que eu encontrara, sugestivamente chamado Trannyoke. O evento acontecia às quartas no Escape, liderado por uma drag que atendia pelo nome de Lady Lloyd. O lugar, como a maioria dos karaokês, mostrava pouca clientela, apesar de Lloyd e uma trupe de outras figuras manterem o clima bem animado.
Eu estava de novo no Escape, novamente aproveitando a noite de pouco movimento para cantar, causar uma impressão favorável em Lady Lloyd e com sorte conseguir que ele(a - putz, que gênero eu uso?) concordasse em ceder-me uma entrevista. A noite correu muito bem, rápida e sem complicações. Lloyd me deu seu e-mail e disse-me para procurá-lo(a - isso é meio desconfortável...) no Facebook. E que adoraria fazer parte dessa entrevista.

Adorei o modo como terminamos a conversa, com Lady Lloyd avisando que teríamos que combinar algo durante a noite, porque de dia ele(a - tá, vou parar com isso...) não existia. Vampírico, dividido, perfeito para a entrevista...

sábado, junho 04, 2011

Brick Lane e a volta da garota desaparecida

Naquele fim de semana, também passei pela Brick Lane. A rua emblemática de Londres tornou-se um dos points mais recentes, tomando um pouco do monopólio de Camden Town.
Na verdade, era uma questão tribal.
Camden tornara-se o reduto de uma cultura punk, gótica e clubber. Eram culturas que tinham um visual mais violento, mas uma índole muito boa se você conseguisse passar a barreira do visual. Eu mesmo adorava o visual, e junto com minha Lexy, tínhamos visitado Camden várias vezes para comprar nossos pinduricalhos de couro e caveiras.
Brick Lane era outro território. Quando o punk e gótico virou mainstream demais, surgiram alternativas, etre elas os hipsters. E é em Brick Lane que eles comprar suas roupas estilo "minha avó tinha" e almoçam culinária vegetariana do oriente médio ou algo do gênero.
[Tá, deu pra notar que eu sou mais da outra tribo mesmo...]
E por que é que eu tinha ido a um lugar desses? Além de ter ouvido falar muito a respeito, eu estava procurando uma pela de roupa. Sim, roupa. Não, eu não ia aderir à moda hipster. Eu estava interessado em achar algo ridiculamente barato que parecesse vagamente com os trajes da Butcher's Daughter, já que preparava o terreno para ela ser "encontrada" depois de seus dois meses de ausência. Não achei nada que não tivesse estampas floridas. Voltei de mãos vazias.

No caminho de volta, além de ver o vídeo de Dinh Q. Le, resolvi dar uma passada por Old Street. Eu estivera por lá pela primeira vez antes da viagem para a Romênia, em um tour guiado pelo bairro para ver o grafite dos artistas locais. Lá, tinha encontrado duas obras de grafiteiros conterrâneos: um grafite enorme do Zezão e outro do Milo Tchais. E tinha ficado com essa idéia fixa na cabeça de que, se minha açogueira ruiva tinha fugido dos cartões, ela deveria aparecer lá, nas ruas de Londres, perdida e misteriosamente atraída por esses grafites. Mas como executar a idéia?
O local em questão era um terreno vazio, servindo de estacionamento até o último dia de Maio, quando seria fechado para medições e a construção de um hotel. Eu estivera rondando aquele local por semanas, esperando uma chance. As leis em Londres contra o grafite são severas, e as câmeras de vigilância, presentes em todos os lugares, me intimidaram bastante. Ficava imaginando que ter problemas com a lei sendo um estrangeiro não seria boa idéia...
Mas naquele sábado, encontrei o local aberto.
Um par de trabalhadores russos construia um pequeno chalé em um dos cantos do terreno. Não souberam me dizer quem era responsável pelo local. Sem esmorecer, corri para a faculdade para pegar meu material. Eu tinha feito uma pintura da minha personagem em jornal: o plano era fazer um "paste up", colando o jornal na parede como lambe-lambe e passando uma camada de cola por cima para proteger das intempéries.
Mas quando voltei, os portões estavam fechados novamente...
Quase desisti de todo o negócio. Aquele era o último fim de semana para aquilo. Mas então, vi a porta da galeria ao lado aberta. Qual não foi minha surpresa ao perceber que se tratava de uma galeria onde uma colega tcheca estava expondo um de seus trabalhos em uma exposição em grupo! O assunto me ajudou a ganhar crédito com os donos da galeria, que eram de fato os responsáveis atuais pelo local ao lado.
O dono da galeria, o também tcheco Yarda, deu uma olhada no meu jornal e nas imagens da Butcher's Daughter na internet, e não hesitou em me dar permissão não só para colar o jornal, como para pintar a personagem diretamente na parede, se eu quisesse. Se eu quisesse? Claro que queria!http://www.blogger.com/img/blank.gif
Assim que, na terça seguinte, voltei para o local com os materiais apropriados e passei o dia trabalhando. E na noite de quarta, anunciei ao Facebook que eu tinha encontrado minha pequena e truculenta ruiva, perdida e desorientada, em um terreno vazio em Londres!

"Delirante, ela insistia que não era real nesta realidade.
A cena deveria acontecer como seu eu, seu pai, a tivesse encontrado e a estivesse levando para casa. Mas eu era de fato seu pai? Eu jamais trabalhara em açougues e o pai para quem ela escrevia sempre fora outro além de mim na minha compreensão dos cartões postais. No mais, ela também era meu alter ego feminino. Eu era o criador, pai, e ao mesmo tempo a existência paralela dela."
[do blog profissional]

Dinh Q. Lê e as mazelas de pai pra filho

No sábado passado, fui até a Whitechapel Gallery assistir ao vídeo de do artista vietnamita Dinh Q. Le. O vídeo, separando a tela ao meio, uma delas passando cenas do ator Charlie Sheen no filme Platoon, e a outra com cenas de seu pai, Martin Sheen em Apocalypse Now. A montagem de Le era muito interessante. O começo tinha um filho olhando com um misto de preocupação e confusão para a tela ao lado (originalmente olhando para o horizonte no filme), onde o pai, isolado em um quarto de hotel, enlouquecia lentamente, lidando com os efeitos psicológicos do pós-guerra. O filho então vai seguir os passos do pai, anacronicamente participando até da mesma guerra. Há até um brevedueto de cenas em que o pai pergunta ao filho por que ele entrou para o exército, e o filho responde que seu pai e avô tinham lutado pelo país e ele queria fazer o mesmo, ao que o pai responde que com certeza ele não ia aprender nada sobre si mesmo trabalhan do em alguma fábrica no interior dos EUA. Pai e filho estão presos, escravizados por uma lógica circular que se reproduz de geração para geração, e que os faz vítimas seduzidas de uma violência que sequer lhes diz respeito e um horror que eles enfrentam com medo e deleite. As cenas emblemáticas se repetem em ambos os filmes, com pai e filho atravessando um tipo de rito de passagem para a masculinidade adulta que exige que eles matem seus superiores. A montagem termina com uma inversão, onde o pai olha com um misto de preocupação e culpa para um filho que lida à sua maneira com o lento enlouquecer dos traumas de guerra, seu espírito paradoxalmente quebrado e fortificado pelo horror que ele procurou voluntariamente (?) seguindo os passos do pai.

O resto são contingências que parecem se encaixar perfeitamente. O fato do artista ser vietnamita faz da obra algo um pouco menos americanófilo. E os recentes escândalos envolvendo Sheen Filho parecem incrementar ainda mais a imagem do moleque que aprendeu da influência patológica de um pai que provavelmente também aprendeu da influência patológica de um avô (e assim sucessivamente...).

segunda-feira, maio 30, 2011

Retorno à Ordem

Já faz algum tempo que meus posts por aqui têm rareado. Desde depois que voltei da Romênia. Aliás, editando os vídeos da viagem, a memória já começa a ganhar aquele tom de incerteza, como seu eu tivesse sonhado que estive por lá. Não acredito. Foi uma imersão na minha fantasia de infância, e o gosto foi muito bom. Mas estou digredindo....

Não tenho escrito muito, porque as semanas desde logo antes da viagem começaram a me dar aqueles sinais de que eu estava mergulhando em outra daquelas épocas de caos visceral que me acontecem de tempos em tempos. Eu cedo aos impulsos mais viscerais e vou cometer loucuras, ou pensar sobre os assuntos que eu censuro nas épocas de ordem. E andei pensando muito mesmo. Sobre os traumas de adolescência e o porquê de eu estar tão obcecado com questões de gênero. Andei cometendo as pequenas loucuras relativas a isso tudo, raspando não só o cabelo e a barba para conversar com um eu mais antigo e mais feminino. Andei me disciplinando a não roer as unhas como sempre faço para vê-las crescer e ponderar a utilidade e a beleza/estranheza de unhas longas em homens. E como sempre, nesse meu reinventar-me que geralmente me faz meio peculiar, fui ficando um pouco mais isolado, um pouco mais anti-social. Ensimesmado. Como um psicopata que sabe que deve esconder o crime que cometeu, mas ainda deleita-se nele. Andei me deleitando com uma androginia malformada, vampírica como o conde do Murnau, confortável e sedutora. Mas que ao mesmo tempo tinha meus colegas perguntando detalhes ou passando reto sem me reconhecer.

Mas quando o caos vem, ele toma conta de tudo. Há alguns dias, acordei e me dei conta da situação. Meu banheiro tinha mais pelos no chão do que eu. O quadro de cortiça onde eu andava organizando idéias do mestrado era uma coleção de começos sem desenvolvimento. O blog tinha vários posts atrasados enquanto eu tentava editar o vídeo de Neba raspando-me a cabeça, para manter a surpresa. Eu já não estava conseguindo coordenar as tarefas domésticas como antes. As unhas causavam mais erros no digitar das traduções (embora fossem fantásticas para descascar laranjas...).
Mas acho que nada disso me incomodava assim tremendamente. O que andava me roendo era o modo como minha produção de arte para o mestrado tinha se tornado tão experimental, mas tão experimental, que dissolvera-se em nada. Tornara-se um viver, uma mudança nos modos de vida. Mas além de mim mesmo, eu não tinha mais nada para mostrar. Nada para inscrever nas exposições, para mostrar aos tutores. O caos, como sempre, trouxera gosto à vida, mas um gosto que era saboreado no presente, sem memórias para virarem passado, e sem planos para o futuro.

Comecei a perceber uma vontade de organizar as minhas coisas, de traçar planos factíveis, metas. Vontade de voltar a pintar para ter um produto apresentável. Vontade de aproveitar o aprendizado dessa época de me reinventar para consolidar algumas coisas e abandonar outros experimentos que não tinham levado a nada. Engraçado, eu nunca tinha documentado meus retornos à ordem. Sempre escrevi por aqui das épocas em que eu cansava da vida regrada e descia essa espiral do caos. Mas nunca tinha marcado os momentos em que eu caía em mim e percebia que o caos não estava mais rendendo. Esses momentos de nada.