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sábado, dezembro 12, 2015


Faleceu na madrugada de hoje, dia 12/12/2015, aos 89 anos, minha avó Nydia Licia Pincherle Cardoso

Qualquer um que escrevesse este texto falaria da carreira dela. Eu acho essa uma tarefa ingrata. Frequentemente eu mesmo me cobro de ter que saber tudo a respeito da minha avó e meu avô, por acreditar que só assim eu mostro o respeito devido às lendas que eles foram. E que lendas que eles foram! Leiam as matérias de imprensa, leiam os sites, a Enciclopédia Itaú Cultural, leiam os livros da Coleção Aplauso! Leiam a autobiografia dela. Se é informação que vocês procuram, não peçam pra mim. Eu não vou saber ser objetivo. Eu não sou historiador, e muitas outras pessoas muito mais sérias devem ter feito pesquisas muito mais completas do que o meu conhecimento deles, tendo mais propriedade pra falar da vida deles do que eu. Eu sou só o neto. Mas talvez por isso mesmo, por ter convivido com ela como neto, e por ter um gosto pela escrita, que me escolheram para este texto. Eu mesmo teria exigido estar nesta posição, para poder honrar ela apropriadamente. Porque daqui, dá pra falar da Nydia como pessoa. Uma coisa, por exemplo, que eu jamais vou poder experimentar a respeito do meu avô Sérgio, de quem sobrou para mim apenas a lenda do teatro. E embora seja importante misturar nesse meu texto a memória da atriz Nydia Licia, eu quero falar da minha avó. Eu acho que isso tem mais valor e mais da alma dela pra mim. Vovó Dona Nydia, como passei a chama-la quando pequeno, ao ouvir uma cozinheira chama-la assim.

Vovó Dona Nydia nasceu em Trieste, 30 de Março de 1926. Filha de Giacomo Giuseppe Pincherle, médico especializado no tratamento de tuberculose; e Alice Schwarzkopf, preparadora vocal de cantores de ópera. Vejam bem, uma pessoa ligada à medicina e outra ligada às artes. Talvez daí tenha surgido um padrão na família comparável àquela família do 100 anos de Solidão, um intercalar-se de artistas como nós, netos da Nydia artista, e médicos de tuberculose, como sua filha Sylvia. E talvez por isso que Trieste sempre me pareceu uma terra mística. Onde cantores de ópera meio tísicos ensinavam lendas germanas às crianças através de espetáculos musicais, enquanto tratavam seus pulmões entre o pinheiral da “Pineta del Carso”, o sanatório de meu bisavô. Uma terra que já estava tão ao norte da Itália, quase na fronteira com a Áustria, que havia impresso na vó Dona Nydia aqueles cabelos loiros e olhos claros, o porte e os modos germânicos contidos, e uma infância repleta de um folklore europeu alpino, bem diferente do que eu percebia como italiano. Era a terra do Bora, o vento de inverno que chegava a 200 km/h e gelava apenas um lado das árvores, varrendo pedestres das ruas e dobrando placas. Eu visitei essa Trieste em 2006, passeei pelas colinas e tirei uma foto atendendo ao pedido de minha avó, que me disse para “beijar o mar” dela, o Adriático. Ela não visitava Trieste desde a década de 70 ou 80.
Mais tarde na vida, eu soube de outra Trieste. A que não podia existir no mesmo lugar físico do que aquela terra mística da vó Dona Nydia. Devia ser outra coisa, em uma dimensão paralela na qual nem o Bora ou a ópera chegavam. Da qual trens partiam cheios de italianos para campos de concentração fora do país. E na qual um médico judeu tinha que vender a preço irrisório um dos hospitais mais respeitados da região. Foi dos horrores dessa realidade paralela que eles fugiram para o  Brasil.
Eles largaram tudo na Itália e vieram para este lado do Atlântico. Eu sei que essa história já não é nova, muita gente aqui tem uma história dessas na família. Então eu pulo os pormenores e vou a dois pontos que interessam. Primeiramente, esse lento recomeçar do nada me ensinou quando adulto que bens materiais são só coisas. Que a vida pode ser mais simples. Que importa mais quem você é e não o que você tem. Ela vivia uma vida pacata e simples nestes anos mais recentes, mas vejam o impacto que ela causou. Ela vivia em uma vila pequena e escondida, sem alardes, mas tinha o porte físico, a dicção e a distinção de uma diva. Ela não tinha, ela era. Em segundo lugar, e talvez a ideia que mais me deleite, ela fugiu dos regimes totalitários europeus e, assim como muitos daqueles fugitivos, viveu até quase 90 anos de idade. Sobreviveu a muitos dos que seriam seus captores. E não apenas sobreviveu: ela veio para o Brasil, e com Pietro Maria Bardi, participou do começo do MASP, conhecendo Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Aldemir Martins, Marcelo Grassmann, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia... A lista é enorme. Porém mais importante: foram artistas modernos. E o teatro que surgiu do contato com essa cena cultural era um teatro moderno. Entende? Foram artistas da “arte degenerada” que os regimes totalitários tentaram obliterar. Ela ter vivido até quase 90 anos e contribuído para a solidificação da arte moderna no Brasil foi seu último chute no traseiro do nazi-fascismo.

Mas como eu disse, dessa Nydia Licia para a vovó Dona Nydia, há uma separação tão imensa que eu preciso fazer essa separação até aqui, no texto. Eu conheci uma outra pessoa, que eu queria relembrar pra vocês. A única ligação dela com a Nydia Licia é uma memória distante na minha infância da década de 80, de saber que ela viajava de avião entre o Rio e São Paulo. Eu não sabia o que ela fazia no Rio, sabia apenas que era “coisa de atriz”. Mas ela vinha direto para nosso apartamento do lado do aeroporto, trazendo um punhado de sachês com mel que eram oferecidos no café da manhã do vôo, e dava de colherzinha para mim e para meu irmão João. De volta à casa dela na vila, ela transformava esse hábito de nos adoçar a vida em uma brincadeira doce de esconder chocolates na sala e nos guiar até eles pelo “quente ou frio”. E nossos olhos passeavam por aquela casa! Por estantes lotadas de livros em diversos idiomas, por quadros que fizeram parte de minha educação visual e que anos mais tarde eu saberia serem esboços de cenário, por aquarelas da mãe dela, por móveis ornados de estilos diferentes e às vezes conflitantes. Tudo parecia ter uma história. E tudo, embora de cores diversas, me lembrava um tom de bege meio dourado. Era o tom dela, dos móveis dela, das roupas dela. É difícil explicar sinestesia, mas era o tom até do perfume dela: um daqueles perfumes numerados específicos, 4711. Um perfume que combinava com seu gesto de usar seus casacos por cima dos ombros, sem de fato vestir as mangas. Um perfume que combinava com seus gestos e serenidade meio felinos. Ela adorava gatos, e os da vila a recebiam como uma deles. Como a rainha deles. Acho que vou lembrar dela no olhar de todos os gatos. Na memória infantil de minha mãe, que tantas vezes havia sido colocada para dormir ninada pela canção de Tutu Marambá cantada por minha avó, ela assumia essa identidade deste gato que cantava nos telhados à noite. Não era muito distante da realidade da Nydia Licia que ninava sua garotinha antes de sair para a peça da noite na Companhia Nydia Licia-Sérgio Cardoso. E por essa identificação, sempre a chamava de . A simplificação monossilábica de gato? Ou a corruptela infantil de Tutu Marambá?

Acima de tudo, minha memória mais acessível da vovó Dona Nydia era sua paixão pelo natal. Embora judia, ela adorava o natal. Época em que ela trazia a mim e meu irmão para perto dela e lia os épicos contos de natal da Turma do Mickey que parodiavam o Guerra nas Estrelas, ou a coleção de Asterix que ela adorava. Hoje me pergunto por que ela não lia os contos germanos de sua infância. Nos finais de ano, a casa dela enchia-se da fragrância de pinheiro, quando ela mandava trazer um pinheiro de verdade para colocar no canto da sala dela. Ela o decorava com toda sua extensa coleção de adornos natalinos, de origens e estilo diversos. Na noite após a montagem da árvore, ela apagava as luzes da sala e acendia velas fixadas na árvore. E então eu e meu irmão caçávamos entre as bolotas coloridas os peixinhos de chocolate embrulhados em papel alumínio que ela conseguia das freiras morando perto da casa dela. Havia algo muito adequado para a época de festas e desejos de paz no fato desta judia confraternizar com freiras católicas e montar aquela árvore que enchia sua sala de presença. Nos anos mais recentes, ela delegava funções: meu irmão, o engenheiro, balanceava a árvore amarrando-a com fios de nylon para evitar desastres enquanto eu, o artista plástico, montava o “presépio da lareira”. Dito assim entre aspas porque não era um presépio mesmo. Ela tirava tudo de sua lareira desativada e deixava-me construir alguma cena festiva com os enfeites natalinos antes mesmo de enfeitar a árvore. Meu presépio tinha primazia criativa. Esse mashup de referências natalinas faziam dela uma pessoa que, aos 89 anos, continuava sendo totalmente atual, até mesmo fortemente pós moderna. O pós moderno é esta justaposição descompromissada de referências que, mesmo divergentes, chegam em uma coerência estética. O natal dela era pós moderno.
Ela sempre me incentivou como artista. Talvez tenha lhe faltado pulso para fazer de mim um ator. A família sabe que eu demonstrei interesse. Ou talvez, do jeito dela, ela tenha preferido me dar liberdade para ser o artista que eu quisesse ser. João tornou-se músico e ela foi sua preparadora vocal, seguindo os passos da mãe. Eu tornei-me artista plástico e ela me deu um quarto na casa dela que passou a ser meu ateliê. Já com dificuldade de subir a escada escorregadia até ele, vovó me interrompia no meio da tarde para que eu descesse para uma xícara de cappuccino instantâneo e contos de sua vida épica. Ela sabia, mais do que ninguém e mesmo que o jogo hoje fosse outro, o que era ser um artista jovem, ainda ingênuo, em início de carreira. E talvez aqui esteja condensada toda a falta que ela vai me fazer: avó, referência histórica, mentora artística, mecenas e até merendeira. Que vácuo enorme para preencher...

Quando eu era bem criança, cinco anos de idade, eu tive um sonho do qual ainda me lembro. Por um motivo besta que não convém contar,  eu havia morrido e ido para o céu. O céu do meu sonho era um lugar à meia-luz. Uma coxia de teatro (embora na época eu não soubesse o que ou como era uma coxia), com luzes apagadas e a pouca iluminação vinda de algum lá fora qualquer. A impressão era mesmo de um teatro ocioso, sem peças sendo encenadas. Eu via muitas cordas, madeira e dobradiças, enquanto era levado por alguma presença desconhecida para perto de uma figura sentada lá no canto. Uma figura que eu inexplicavelmente sabia ser o meu avô, sentada em um banquinho em frente a um tabuleiro de xadrez. Como eu já disse, nunca conheci o Sérgio de verdade, que não fosse a lenda do teatro. E portanto desconheço se ele jogava xadrez. Ele me disse para ficar quietinho. Porque ali, todo mundo estava relaxando, ficando quietinho. Na monotonia dos adultos, que as crianças ainda não entendem, eu me distraía observando meu avô. Não seu rosto, que eu não conhecia de verdade no mundo real, mas observando as asas dele. Um par meio mambembe de asas de madeira. Operadas com cordas, polias e dobradiças. Asas de teatro, que ele operava comicamente de vez em quando. E nesse faz de conta gostoso de adulto, de saber que a realidade é outra mas querer brincar de acreditar na fantasia, eu fico visualizando essa imagem da vovó Dona Nydia chegando nessa coxia no céu. Não a vovó Dona Nydia, mas a Nydia linda e capaz da década de 50. Pra sentar junto do meu avô do outro lado da mesa de xadrez e ficar quietinha. Operando vez por outra seu par de asinhas de teatro.


Para sempre Vovó Dona Nydia. Para sempre .

quinta-feira, setembro 11, 2014

Para Sabrina, sobre ansiedade


Primeiro, adorei que você me escreveu pra perguntar sobre ansiedade em resposta ao texto sobre depressão. Faz muito bem para nós saber que o nosso conhecimento e experiência de vida podem realmente ajudar alguém para além "daquilo que cai no vestibular". 
Eu demorei um pouco pra responder (o que, para uma pessoa ansiosa pode ser terrível, eu sei), porque sempre que eu começava, eu me pegava contando toda a minha história de vida e de como e porque eu tive ansiedade, em vez de entrar logo no assunto como eu fiz com o texto da depressão. É mais difícil pra mim falar sobre isso, porque minha perspectiva é muito de dentro do problema. Com a depressão foi mais fácil, porque eu era um espectador assistido ao drama, sem participar dele. Mas vamos tentar... 

"Solitaire" (2004)
óleo sobre madeira
A respeito da vontade
de não sentir nada
Eu não sou especialista nesses transtornos. Sou apenas alguém com alguma sensibilidade que observa essas coisas. Mas eu frequentemente penso na ansiedade como o oposto completo da depressão. Onde a depressão é uma falta de sentido e de sentimento na vida, a ansiedade é um excesso muito violento de sentimentos e significados imaginados, quase paranóicos em relação a tudo. Você sente demais, você conjectura demais, você atribui significados demais a coisas que talvez não tenham significado nenhum. Tudo parece ter consequências pesadas demais que PRECISAM ser consideradas (ênfase no "parece")! Faz sentido? Nas épocas de crise, tudo que eu queria era poder não sentir nada... 

Bom, eu vejo que não vou conseguir falar do assunto sem falar da minha experiência. Então, pra resumir e tirar logo do caminho a minha história, eu tive uma adolescência de me mudar bastante, viajar muito, começar de novo algumas tantas vezes. Esse movimento todo gerou na minha cabeça uma auto-avaliação constante: será que eu estou agindo certo? A pergunta, na verdade, era "será que eu estou sendo normal"? Ela me afetava bastante, porque moramos fora do Brasil, e como estrangeiro você se pergunta isso bastante. Achei importante falar desse questionamento e auto-avaliação, porque nele está uma das bases da ansiedade (pelo menos do modo como eu a encarei): a ideia de que os outros esperam algo de nós. Esperam que tenhamos determinadas atitudes, que nos encaixemos em determinados estilos, que tenhamos determinados objetivos de vida. Nós não sabemos ao certo o que acontece com quem não corresponde a essas expectativas todas, sabemos apenas que queremos corresponder. Queremos que os outros gostem de nós. Isso é muito importante, mas eu volto a isso daqui a pouco... 

"Sickness" (2004)
Óleo sobre tela
A respeito do enjôo
Me chamou muito a atenção duas coisas que você escreveu: primeiro que você acha que os outros devem te achar muito estranha. E depois, que você tem pavor da ideia de vomitar em público. Essas duas coisas foram muito parte da minha história também. A ansiedade se manifesta em cada pessoa de formas muito diferentes. Pra mim, ela começou com crises de amidalite antes de cada viagem que a família fazia ou provas na escola. Depois, na adolescência, ela mudou para algo mais pontual e instantâneo, um enjôo forte que acontecia em toda balada, toda situação social onde eu achava que estava sendo julgado (ênfase no "achava", porque ninguém estava prestando a mínima atenção em mim...). Ele atacava de repente, as coisas literalmente perdiam a cor, a graça, eu sentia o sangue fugir do meu rosto (devia estar ficando pálido), perdia as forças e começava a me concentrar apenas nesse enjôo. Só existia o enjôo. 
Eu tinha muito medo de mostrar aos outros que eu estava passando mal. Medo como o seu, de me acharem estranho, incapaz de fazer algo tão banal quanto se divertir em uma balada. E isso, claro, alimentava o ciclo (ansiedade dá enjôo, que me dá medo, que gera mais ansiedade, que dá mais enjôo, que gera mais medo...).Então, durante MUITO tempo, eu escondi isso. Eu passei mal sozinho. Tinha ainda mais medo de vomitar em público também. E cheguei a fazê-lo apenas uma vez por causa de ansiedade, em um hotel onde passávamos férias. Bem no saguão do hotel, enquanto eu procurava desesperadamente por um banheiro. O mais importante desse episódio foi que ele não foi o fim do mundo. Ele não significou NADA. Ninguém sequer lembrava disso no dia seguinte.

As coisas pioraram muito antes de melhorarem. O vestibular me levou ao pior período de ansiedade. Porque eu achava que todo mundo esperava que eu passasse direto. Porque eu achava que esperavam que eu fizesse USP. Porque eu achava que esperavam que eu tivesse uma "carreira de verdade" além das artes plásticas. Eu achava que esperavam muito de mim. De novo, ênfase em todos esses "achava". Minha ansiedade alcançou picos insuportáveis. Eu comecei a pensar que eu teria que lidar com ela a vida toda. Eu comecei a imaginar outros 50, 60 anos de enjôos e sentimentos de inadequação. Eu comecei a cogitar dar um fim nisso mais cedo... 

E foi aí que eu procurei ajuda. 

Eu comecei terapia já em um ponto em que a cadeia de raciocínio era tão automática, que o primeiro sinal de enjôo já disparava pensamentos de morte. A terapia me ajudou primeiramente dando um nome a isso que eu sentia (até então, eu apelidava isso de "a síndrome", porque não sabia que era ansiedade...). Depois, me ajudou a entender qual era o peso disso que eu achava que os outros esperavam de mim. Por último, me ajudou a entender que ninguém esperava nada de mim. A única pessoa que esperava algo de mim era eu mesmo. E eu conseguia negociar comigo mesmo. 
Eu considero que me curei de fato quando viajei pela primeira vez, sozinho, para a Europa. Poderia ter sido Ásia, África, ou até aqui do lado, em Sergipe ou Espírito Santo. O que importou foi que eu viajei sozinho. E me hospedei em um lugar onde eu era sim estrangeiro, em meio a muitos outros estrangeiros. Todo mundo agia diferente e não tinha um "normal". Mais do que isso, ninguém tinha ouvido falar de Bandeirantes, de USP, de FAAP (eu acabei fazendo DUAS faculdades por causa disso tudo...). Eu não era nem classe média-alta. Eu era nada. E como nada, eu podia ser tudo. E em um lugar onde todos eram estrangeiros, eu podia agir como eu quisesse e querer o que eu quisesse. 

Eu nunca me senti tão leve... 

Depois dessa viagem, eu compreendi algumas coisas. Primeiro, o poder de entender que ninguém esperava nada de mim. Nem os meus pais esperavam algo de mim de fato: eles queriam apenas que eu fosse feliz e auto-suficiente (se isso ia ser alcançado como artista plástico, arquiteto, vendedor de sapatos ou camelô da 25 de Março, não importava...). Eu que tinha que gostar de mim mesmo e do que eu fazia, não os outros. Comecei a estudar coisas de meu interesse e a mudar meu visual para algo que eu gostasse. Parei de ir nas baladas que os meus amigos iam e procurei outras onde eu pudesse fazer coisas que eu gostava (karaokê, baladas de gótico, etc...). Danem-se os outros. 
Depois, entendi que ser estranho e único me tornava muito mais interessante do que todo mundo que queria ser "normal". E isso tem uma ressonância muito peculiar na adolescência: você quer fazer parte do Bando e ser normal, mas ao mesmo tempo quer ser único e melhor do que os outros. Essa tensão é o que gera a ansiedade. Eu escolhi ser diferentão mesmo. E me orgulhar disso. A barba esquisita é parte desse processo, aliás... 
Por último, eu entendi que revelar isso aos meus amigos de confiança e pedir ajuda nas horas mais tensas aliviava MUITO o peso disso tudo. Tive namoradas que sentaram comigo no canto das baladas até o enjôo passar, amigos que conversavam comigo sobre outras coisas para me distrair da auto-avaliação, pais que me contaram suas próprias histórias de ansiedade. Mas sendo que você já me procurou pra pedir ajuda, acho que não preciso enfatizar essa parte! Você fez muito bem em fazer isso! 

Então, pra fechar esse texto enorme: ninguém espera nada de você. Seja você mesma, diferente, única, estranha e maravilhosa. Converse consigo mesma para entender do que você gosta, use as suas roupas com vontade e com orgulho, considere no Ensino Médio as carreiras que te fascinam e não apenas as que dão dinheiro (o dinheiro vem para quem é apaixonado pelo que faz - vide eu que estou ganhando a vida com arte). 

As coisas não têm todo esse peso, importância e significado que você acha que elas têm. Seja leve. 

quinta-feira, agosto 21, 2014

Resposta para Dora

Não tenho mais escrito por aqui, e acho que o blog está morrendo mesmo. Mas neste ato de morrer, tornou-se também o lugar onde eu venho deixar minhas catarses, meus pontos finais, as soluções dos traumas e conflitos que marcaram meus vinte anos.

Coisas como o pensamento de hoje de tarde.

Por algum motivo, me peguei pensando sobre meus trabalhos dos últimos anos da faculdade de artes. E nessa corrente de pensamento, na série final de retratos que foi meu trabalho de graduação. E sempre que lembro dele, lembro da relação complexa que eu tinha com minha orientadora, Dora Longo Bahia. Como ela parecia escarnecer o fato de que eu estava defendendo como trabalho de graduação uma simples série de retratos. Mais do que isso, escarnecia o fato de eu, um homem, estar pintando retratos suspirosos de mulheres pelas quais eu tinha alguma fixação. Já naquela época, e sem ter estudado os assuntos que levariam ao meu mestrado, eu já conseguia entender que o escárnio dela representava mais do que aquilo que estava na superfície da situação. Era uma mulher forte, independente e contemporânea (leia-se após o estabelecimento dos ideais feministas como parte do status quo), zombando de uma atitude minha que era tingida de um machismo antigo, já bem capenga e moribundo, que nem percebia o quão patriarcal estava sendo. A atitude do pintor homem objetificando mulheres como musas de suas pinturas. Eternizando uma beleza que era apenas beleza, sem conteúdo. Hoje revejo minha série de retratos e tenho pruridos ideológicos em relação ao que eu fiz naquela época.

Mas o pensamento que me ocorreu esta tarde era mais específico do que isso.
Na época da minha banca de graduação, Dora lançou uma pergunta que me assombrou até o dia da banca. Eu morria de medo que meus avaliadores a fizessem porque, segundo Dora, minha resposta não era satisfatória:

"Se a série de retratos (em pintura) é produzida a partir da cópia fiel e realista dos retratos fotográficos destas mulheres, qual é o sentido de se fazer pintura? Por que não simplesmente apresentar as fotos?"

Hoje, tendo compreendido um quê sobre a verdade na arte, compreendi melhor a pergunta. As fotos tinham uma qualidade em si muito mais próxima destas mulheres. Eram o primeiro ato apaixonado de captar a beleza delas. A pintura era um fac-simile de um fac-simile. Perdia força. E tendo compreendido um quê também sobre meu próprio ato de obsessão sobre estas mulheres, compreendi também melhor a resposta. Uma resposta que, por outro lado, validaria esta cópia da cópia como um ato técnico que também tinha seu valor. Quase 11 anos depois da banca de graduação, eu acho que cheguei no que eu deveria ter respondido para minha orientadora.

Dora, o que eu faço é captar, me apropriar da beleza destas mulheres. Desconsideremos (como eu desconsiderava na época) todo o assunto da teoria de gênero (Feminismo, Masculismo, Patriarcado, Big Macho Painters...) que está implícito neste ato. Falemos apenas do ato em si. É um ato obsessivo, de moleque apaixonado que não sabe falar com garotas. De alguém que está procurando, ciente disso, um jeito de sublimar tesão não correspondido. Como ato de fruição estética, eu admito que há mais valor na minha experiência enquanto estou pintando os retratos, do que na experiência de quem vê o retrato pintado e não passa pelo processo. É arte para mim mesmo. Masturbação mesmo.
Neste ato, o mero fotografar da menina é um ato paralelo a uma ficada descompromissada de uma noite. É o usufruto momentâneo e raso da beleza desta garota pelo visor de uma máquina, congelando a imagem com o apertar de um botão, sem prestar atenção em muitos detalhes. Do ponto de vista do meu relacionamento com esta imagem (não com a menina, tenha isto em mente), é um relacionamento superficial, fugaz. Eu terei uma compreensão geral dela, das cores, da gestalt. Ela, a menina (e a imagem também, suponho...), merece mais do que isso.
Pintar o retrato da foto é um ato de obsessão e respeito maior. É paralelo a um namoro, romance de compromisso. É o usufruto demorado, estudado e cuidadoso de cada curva, cada tom acertado de cor naquela luz e naquela pose específica. Um errar e corrigir frequente, como o que fazemos em relacionamentos sérios ao tentar nos adequar ao parceiro. Na minha visão, é um respeito muito maior. Chame-o de objetificação muito maior, de obsessão doentia, chame-o de inocência ou ingenuidade. Não me importo: eu estava pintando para meu próprio deleite, como disse.

Você também pinta a partir de fotografias, né? Mas o que eu vi foram pinturas sem esta paixão estetico-erótica minha. Técnica apuradíssima na cópia realista das imagens, mas sem tesão. Se eu fosse novamente traçar paralelos, diria que é mais como uma transa em uma festa de fetiche. E eu conheço festas de fetiche... O deleite de fazer muito mais do que uma ficada descompromissada (muito mais do que uma fotografia), porém ainda menos do que um namoro firme. Não tenho nada contra. Aliás, até acho instigante. Mas, embora menos obsessivo, também me parece menos respeitoso.

Then again, você não me parecia alguém de namoros firmes.

[Claro que eu não poderia ter dito estas coisas em uma banca de graduação. Elas ficam apenas aqui, como a catarse que eu precisava em relação à Dora e àquela banca. E claro que, tendo estudado teoria de gênero, toda aquela série ganhou nuanças muito mais complexas e desagradáveis para mim, como mencionei.]

quarta-feira, abril 24, 2013

Evangelion Rebuild 1.01

Quase dez anos depois de assistir a série de anime que influenciou a minha vida, fiquei sabendo que os criadores resolveram fazer um reboot da série. O Evangelion original, em vinte e poucos episódios, foi refeito em alguns (quatro?) filmes de duas horas cada. Tenho encontrado meios de ter acesso a isso.

Fiquei com vontade de escrever a respeito porque esta experiência tem me trazido de volta sentimentos que eu acreditava terem sido esquecidos, deixados naquela época de fim de adolescência. Sentimentos gostosos de se emocionar junto com um seriado de desenho animado.
Mas é diferente agora. Eu cresci, amadureci, e de uma forma muito simbólica, sou também um reboot daquele adolescente que eu era. Expandido, melhorado, com personagens (personas) adicionais e novos efeitos especiais.
O seriado ganhou toda uma roupagem nova, um visual muito mais dark. Os Angels estão muito mais repugnantes, viscerais mesmo. E o que mais me impressionou foi como toda a paisagem emocional dos personagens foi completamente retrabalhada, para ficar muito mais clara, muito mais envolvente e permitir uma identificação muito maior. Ainda estou apenas no primeiro filme, e já me apaixonei de novo por Ayanami, senti um mundo de pena por Shinji, e outro mundo de ódio por seu pai.

Mas rever o seriado também me trás de volta alguns conceitos há muito esquecidos no blog, e que viriam a calhar hoje em dia. O seriado tem muitos termos ligados à psicologia e religião. Eu lembro com grande afeto de usar largamente o conceito do Campo AT para falar do quanto permitimos que outras pessoas se aproximem, penetrem na nossa intimidade, e o quanto as mantemos afastadas. Lidar com alunos é estabelecer todo um novo embate de Campos AT que eu nem considerava naquela época.

Engraçado como o mundo dá voltas. Quiçá isto seja o início de algo, como o seriado foi antigamente.

Ou quiçá eu esteja novamente me apegando de mais a passados gostosos que deveriam ser superados.

Anyway, se vocês (nem sei mais quem são "vocês"...) quiserem me acompanhar, cá está. Eu adoraria ter compania, embora não consiga lembrar de ninguém que tenha curtido o anime comigo antigamente e que teria o mesmo gosto e compreensão nostálgicos que eu estou tendo.






[EDIT: Achei um dublado em português!!]

quinta-feira, janeiro 17, 2013

A Timeless Place: Oblivion


Previously: [][]

I came to visit this place with Lexy, knowing that perhaps this would be one of the last times that Utinga would be there. At least the Utinga of my childhood, which was inherently tied to the family's ownership of the sugar plant. But the current generation of the family lacked any interest whatsoever in managing the factory. We watched the family's great wealth dwindle over the years, even though Utinga itself remained fairly unchanged - except, as noted on a previous post, for those who died and those who were born within the family and its servants... the city had been founded to house the factory workers and the family of owners and managers. When the factory was sold to foreign buyers a little over a couple of years ago, we naturally assumed that was the end of that. At least for the family. As for the workers and the sugar plant, there was talk of it being dismantled, scrapped. It still stands there as I write, churning the machinery and spewing out pure, refined sugar. It even keeps the family name on its front. But should it ever truly end, I believe Utinga will go with it.

Today, after lunch, I went down to aunt Suzy's place. It was a large manor sitting on the side of the hill that overlooked Utinga's train station. Lexy seemed surprised at the sheer size of the house and it dawned on me that i had never considered it to be a mansion, having spent so many summers there and knowing every nook and cranny of the place. The house itself had remained stagnant like most of the city. The large trees beside it overgrown with parasitic vines drooping from them, white and ghostly like cobwebs, which had always been there. Our room - the one me and my brother had spent our childhood sleeping in - was still unchanged as well: the wooden ceiling with that aluminum ceiling fan threatening to fall on us while we slept and even our old, worn bodyboards with their incoherent neon hues resting atop the closet like they probably had been for years. The floor tiles in the bathroom, in candy-hued yellow and pink still contrasted with the black tiles on the walls. The two pianos in the dinning hall still managed to play my brother's Debussy. I didn't check, but I was sure the porches and balconies would still have that assortment of perfectly kept deck furniture from sometime around the 1930s and the yard would still be in regal order despite the aggressiveness of the surrounding flora. The train still went past the house at around 5pm. Time was kept by a set of wall clocks placed around the house, and you could hear their ticking if things were silent enough.

But as much as I would like to believe that this place would remain like this forever, it was already changing very noticeably. The changes felt like little flaws in the composition, little things that were out of place. It was the way the new locomotives on the trains were silent enough so that I could only hear them when they blew their whistle going past the station, instead of hearing that chugging of machinery a couple of minutes before, coming from afar. It was in the way three of the wall clocks had stopped, probably wanting in vain for time to actually stop there. It was in the increasing number of defective keys in the pianos my brother played.
But other things made de passage of time more terrifyingly obvious. For starters, there had been no Christmas celebration there that year. Aunt Suzy hadn`t even ordered for the Christmas tree to be set up. There wasn`t a trace of Christmas anywhere.
The servants were getting really old. Nita, someone I had always regarded as a plump girl who was an amazing cook and sometimes watched over me and my brother, was now showing clear signs of old age. Thin, a bit slower on the gestures, a bit more wrinkled.
But the final blow to my heart was finding aunt Suzy herself, sitting on the living room chairs watching TV. Nothing special about her watching TV, it was the way I had always remembered her (though the TV kept getting louder over the years...). What was startling was her figure. Withered and thin, so thin she found it difficult to move at all. Her hair had finally turned grey and there seemed to be more skin than the bones to support it. People mentioned she wasn`t eating properly, barely drank anything, just smoked her cigarettes and drank coffee. My visit had to do with her arrival back from the hospital, after she had to be nurtured back to some measure of health there. She appeared to us all like someone who was giving up. On everything: the house, the sugar plant, even her own body. It was understandable. She was one of the last survivors of her generation, apart from one of her sisters who still lived in Maceió. There had been four girls and two boys (one of them my grandfather). The years had taken most of them away, including aunt Margot, who had always appeared to me as the head of the family ("matriarch" would have been the wrong term: she never had any children), and who sat with aunt Suzy in that living room. It felt like her story had ended and all that was left was the existence in that house, defying time and oblivion.

As we left the house, going back to my cousin`s house further up on the hill, my mind wandered through all the melancholy poetry of what was happening there. I thought of that place, and how the remaining wall clocks would stop, halting time so that the next Christmas and New Year`s Eve would forever be kept at bay. The house would freeze in time in the year 2013. No 5pm train would ever be heard again, silent engines or not. The thriving aggressive nature surrounding the house would break through the defences, coming to sunbathe on the deck chairs, to silence my brother`s pianos for good, to make its own makeshift Christmas trees all over the house and to take back the seashell collection that the aunts had stolen from the beaches years ago. Possibly to finally be hit by the fall of that aluminium ceiling fan.
In the living room, the TV would be silent. Those small and comfortable rocking chairs would be motionless. Aunt Suzy would still be sitting on the big chair in front of the TV, her skin turned into the bark of a thriving tree that would preserve her placid and somewhat apathetic eyes.

Outside of the spell that locked the house in time, the rest of the family would go on with their lives. Possibly leaving Utinga once that house was sold and going to live in Maceió. The city was growing and becoming a place of opportunity and my cousins (some of them who I remembered as toddlers until just recently) were finding their ways to make their own wealth in due time. Nothing to do with sugar. Time kept going, faster and faster. Into the future.

Away from oblivion.



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Anteriormente: [][]

Eu vim visitar este lugar com a Lexy, sabendo que talvez esta fosse uma das últimas vezes que Utinga estaria lá. Pelo menos a Utinga da minha infância, que era inerentemente ligada ao controle que a família tinha da usina de açúcar. Mas a geração atual da família não tinha o menor interesse em gerenciar a usina. Assistimos enquanto a grande fortuna da família minguava com os anos, embora Utinga em si permanecesse relativamente inalterada - exceto, como comentado em um post anterior, por aqueles que morriam e aqueles que nasciam entre a família e seus empregados... A cidade fora fundada para abrigar os trabalhadores da usina e as famílias de donos e gerentes. Quando a usina foi vendida para compradores estrangeiros pouco mais de dois anos atrás, nós naturalmente assumimos que era o fim daquilo. Pelo menos para a família. Quanto aos trabalhadores e à usina, havia rumores de que ela seria desmontada. Ela ainda está de pé por lá, enquanto eu escrevo, girando o maquinário e cuspindo açúcar puro e refinado. Ela até mantém o nome da família na sua fachada. Mas se algum dia terminasse de vez, acredito que Utinga em si sucumbiria junto. 

Hoje, depois do almoço, desci para a casa de tia Suzy. Era uma grande mansão sentada em um dos lados da colina que se erguia atrás da estação de trem de Utinga. Lexy pareceu surpresa com o tamanho enorme da casa e me ocorreu que eu nunca havia considerado ela uma mansão, tendo passado tantos verões lá e conhecido cada dobra e rachadura do lugar. A casa em si permanecia estagnada como a maior parte da cidade. As árvores grandes ao seu lado infestadas de trepadeiras parasíticas, brancas e fantasmagóricas como teias de aranha, que sempre estiveram lá. Nosso quarto - no qual eu e meu irmão passamos nossa infância dormindo - ainda não havia sido mudado: o teto de madeira com aquele ventilador de alumínio ameaçando cair sobre nós enquanto dormíamos e até as nossas antigas e gastas pranchas de bodyboard, com seus tons de neón incoerentes descansavam sobre o armário como haviam permanecido há anos. Os azulejos no chão do banheiro ainda tinham seus tons de amarelo e rosa parecendo bala de goma e contrastando com os azulejos pretos nas paredes. Os dois pianos na sala de jantar ainda conseguiam tocar o Debussy do meu irmão. Eu não olhei, mas tinha certeza de que as varandas ainda tinham aquele ajuntamento de móveis de varanda mais ou menos da década de 1930, mantidos em perfeito estado, e que os jardins ainda estariam em perfeita ordem apesar da agressividade da flora local. O trem ainda passava pela casa por volta das 5 da tarde. O tempo era informado por uma coleção de relógios de parede colocados pela casa, e era possível ouvir seu tique-taque se tudo estivesse silencioso o suficiente. 

Porém por mais que eu quisesse acreditar que este lugar permaneceria assim para sempre, ele já estava mudando perceptivelmente. As mudanças eram sentidas como falhas na composição, pequenas coisas que estavam fora de lugar. Era o modo como as novas locomotivas nos trens eram silenciosas o suficiente para que eu só conseguisse ouví-las quando elas apitavam perto da estação, em vez de ouvir aquele ruído grave de máquinas vindo de longe alguns minutos antes. Era o jeito como três dos relógios de parede tinham parado, provavelmente querendo em vão que o tempo de fato parasse lá. Era o número cada vez maior de teclas defeituosas no piano que meu irmão tocava. 
Mas outras coisas deixavam a passagem do tempo ainda mais terrivelmente óbvia. Para começar, não houve comemoração de natal este ano. Tia Suzy nem sequer havia ordenado que montassem a árvore de natal. Não havia traço algum de natal em lugar nenhum.
Os empregados estavam ficando velhos. Nita, alguém que eu sempre reconhecera como uma garota curvilínea que cozinhava muito bem e às vezes cuidava de mim e do meu irmão, estava agora demonstrando sinais claros da idade. Fina, um pouco mais lenta nos gestos, um pouco mais enrugada. 
Porém o golpe final no meu coração foi encontrar a própria tia Suzy, sentada nas poltronas da sala de estar, assistindo TV. Nada especial sobre ela assistir TV, era como eu sempre me lembrava dela (embora o volume da TV ficasse mais alto com o passar dos anos...). O que era surpreendente era sua figura. Esmaecida e magra, tão magra que tinha dificuldade de fazer o mínimo movimento. Seu cabelo finalmente tornara-se acinzentado e parecia haver mais pele do que os ossos para suportá-la. Pessoas diziam que ela não estava comendo direito, mal bebia nada, apenas fumava cigarros e bebia café. Minha visita tinha a ver com sua chegada do hospital, onde ela tinha sido alimentada para que voltasse a alguma medida de saúde. Ela parecia para todos nós como alguém que estava desistindo. De tudo: da casa, da usina de açúcar, até de seu próprio corpo. Era compreensível. Ela era uma das últimas sobreviventes da sua geração da família, fora uma de suas irmãs que ainda morava em Maceió. Tinham sido quatro garotas e dois garotos (um deles o meu avô). Os anos haviam levado a maioria deles, incluíndo a tia Margô, que sempre me parecera como a líder da família ("matriarca"seria o termo errado: ela nunca tivera filhos), e que se sentava com tia Suzy naquela sala de estar. Parecia que sua história tinha acabado e tudo que sobrara era a existência naquela casa, desafiando o tempo e o esquecimento.     

Enquanto partíamos da casa, voltando para a casa das minhas primas mais para cima da colina, minha mente passeava pela poesia melancólica do que estava acontecendo lá. Eu imaginava aquele lugar, e como os relógios restantes parariam de funcionar, parando o tempo de forma que o próximo natal e reveillon seriam para sempre mantidos à distância. A casa pararia no tempo no ano de 2013. Nenhum trem das 5 seria ouvido novamente, com ou sem motores silenciosos. A natureza agressiva e verdejante ao redor da casa atravessaria as defesas, vindo tomar sol nas cadeiras da varanda, ou silenciar os pianos do meu irmão para sempre, ou fazer suas próprias árvores de natal mambembes pela casa e levar de volta a coleção de conchas que as tias tinham roubado das praias há muitos anos. Possivelmente finalmente seria acertada pela queda daquele ventilador de alumínio.
Na sala de estar, a TV estaria quieta. Aquelas pequenas e confortáveis cadeiras de balanço estariam paradas. Tia Suzy ainda estaria sentada na poltrona em frente à TV, sua pele transformada na casca de uma árvore frondosa que preservaria seus olhos plácidos e consideravelmente apáticos.


Fora do feitiço que trancaria a casa no tempo, o resto da família continuaria com suas vidas. Possivelmente deixando Utinga uma vez que a casa fosse vendida e indo morar em Maceió. A cidade estava crescendo e virando um lugar de oportunidade e meus primos (alguns que eu ainda considerava crianças até pouco tempo), estava encontrando seus jeitos de fazer suas próprias fortunas no tempo certo. Nada relacionado ao açúcar. O tempo continuava avançando, mais e mais rápido.  Em direção ao futuro.

Para longe do esquecimento.

Closing a cycle (sayonara, imouto-chan)

Despite the advice of psychoanalyst readers of this blog, I really need to begin this post by apologizing in advance. It will render me a lot of discussion with a lot of people involved. But I can't avoid being minimally committed to what little art I still do and I do consider this blog as a form of art, in a loose sense. That said, I need to close a cycle here that is being closed in my life, to explain a few things to myself, put all the anger away and move on. Otherwise this blog and the things in my head will remain incomplete. This might have dire consequences to the blog, given the long pauses that have happened.

Please notice that it took me something around nine months to write this post. The feelings included in it are no longer current, but I felt it would be important to write them down here anyway.

While I was getting another bunch of things to move from my parents' apartment to my own, I came across my collection of Video Girl Ai manga. It was such a pleasant time in my life. I'm constantly searching for other manga that touch my soul like that one. But I decided not to bring these magazines home yet. There was a metaphor contained in that whole story and taking them home would worsen my current withdrawal symptoms and the sadness. At that time, I had a childish tendency to compare the characters in that romance to people in my own. The main character, Ai Amano, a VideoGirl, was initially compared to Lee, but after a short time (and for a long time after that) that character was transferred to Nana. 

The VideoGirl came into the life (literally - from a video tape, she crossed the TV screen into the real world) of a pure-hearted boy who was having sentimental problems. She would serve him as a guide, as a companion while the boy healed, as an advisor in matters of the heart. And theoretically, she would never fall in love. In the case of Ai Amano, whose tape had been executed in a faulty VCR, she appeared with a few glitches. Among those, the ability to fall in love.

In my life, the character meant someone with whom I could have a relationship of complete trust and intimacy, being able to speak of all the subjects I would normally consider taboo when talking to girlfriends (the promiscuity, perversions, gender ambiguity, loyalty, etc...). Because after all, we weren't in any commitment, so there was no implied contract of any sort of loyalty between us, and each had their own affairs. This person was a best friend, and that friendship came before any love relationship, and that allowed for this unconditional freedom. There was however that delicious tension of something between the two.

Nana had been my VideoGirl for a while. We had total access to each other, through blogs, late night chatter on Skype or MSN, the short period we were in the same college class. At any moment, we knew quite well what was going on in each other's lives. We gave each other advice regarding relationships, regarding life. But contrary to a VideoGirl, a normal boy like me had the ability to fall in love. And so, in 2007, when she broke up her 7-year relationship with her boyfriend, I mustered enough courage to tell her. I caught her by surprise, and sweetly and tenderly, she dismissed me. She told me I was like a brother to her (something that would later provide me with the nickname of "Nii-san" - "older brother" in Japanese). Placed in the farthest reaches of the "familyzone" (further away even than the "friendzone"), I accepted the situation and buried any feeling I had. If I was more propper, I would have done what most people do and would have disappeared from her life. Cut off any contact. Sometime later, that would be the final lesson she would teach me.

The fact is I didn't want to be like most people. I wanted to be different, I wanted to be me. More than anything, I wanted to keep this person with whom I could open up, completely unafraid of being judged. After an initial moment's discomfort, life continued normally for both of us. She went back to her boyfriend. And I watched from the rafters while she took that downward spiral through depression, while she got pregnant from the unwanted daughter that would heal her from it, while she broke apart the relationship with the child's father that had lasted for as long as we knew each other.

Five years later. I was spending the year in London for my Masters' degree and our talks had gone back to what they were before I was exiled into the "familyzone". And they were good talks. Talks that were worth burying my feelings like I had done. VideoGirl talks. While I shaved my hair, while I faced my teenage traumas, while I reviewed sexuality, my native culture and my place in the world, she was someone who listened without judging. More than that, she was someone who even applauded and encouraged my attitudes, instead of just tolerating my strangeness. I never heard a single word of censorship from her. And I was someone who, when she found herself a single unemployed post-depressive mother, had been there to tell her she was still worth it. She had always been worth it and would always be. We were each giving the other what the other needed at that time. Falling in love was an obvious thing to happen. And when we talked openly about it, everything I had buried for five years burst up from the ground again and flourished. Neither of us had any control over it. And I must admit: it was beautiful. Writing anything about it would only cheapen what happened, but I can say it was beautiful.

Of course, my being in London was convenient. It gave us the possibility of sleeping on that and thinking it over. Because it wouldn't be that simple. She had ditched me in 2007 and, ever since then, I had started another good relationship that was full of understanding with Lexy. Five years. My longest relationship to date. With someone who went out on a limb to please me, to win my family over and chase her own dreams. Someone whom I'd come to respect as I had never respected any of the previous girlfriends. Someone who also listened to me throughout all the process of change that I had gone through in London and was also going through her own changes in life. 

Nana was never a big challenge for Lexy. Because Lexy was someone who would fight for things, for life, someone who liked achieving things. Lexy was an overachiever. Nana, on the other hand, just wanted some peace. She was concerned with her own happiness, and in a certain way, she wanted to be left alone. She didn't care about challenges. Challenges had lost any meaning to her after she recovered from depression (and these illnesses do have a way of putting things in perspective...). She didn't want to fight for anything, the only thing that mattered to her was happiness: pure, simple, limitless and with no concessions. And therefore, when I became a challenge, when I became something to fight for, she had no second thoughts about disconnecting from me and giving up the fight.

I suffered. I suffered a lot with the break-up of a friendship that had lasted for over 10 years. And however, she did teach me a lot. First of all, she opened my eyes regarding several of my little personal illusions. As I had mentioned in Laerte's post, she made me see how I had a tendency to "blame or demand certain things of others (and fate) that were in fact senseless demands". I had a rather vague idea that the world was fair. And in a fair world, those 10+ years I spent getting through her hard times, even if from afar, would be worth something. In a fair world, the fact that I had placed friendship over feelings would have been worth something, perhaps the continuation of that friendship. It would be worth reciprocity from her behalf in this recent situation. But of course, all of that was an illusion: we do not live in a fair world and those who really believe that have a lot of growing up to do. I had a lot of growing up to do.
No. We live in a cynical world, as a friend in London once said. A world that will laugh at you if you believe this sort of thing. I'm not saying Nana was laughing at me. She was simply trying to prove a fact of life: that she had no obligation whatsoever to deal with the likes of me.

She also opened my eyes as to a sort of pride that I had regarding my role in this story. Come to think of it, she had spent the greater part of those 10 years of our friendship dating someone else with whom she had shared a house and with whom she had eventually conceived a child. And then I watched her isolate that same person from her life and only failed to do it completely because their daughter still bonded them together for practical reasons (though, if she could, she would indeed completely ignore the existence of that person after that).
What right did I have to think I could be any more valuable than that person if I hadn't even shared my life with her that way? What right did I have to think that I was deserving of any more special treatment than the one dispensed on him, and that she would think twice or have any remorse in excluding me from her life in the same way? What's more: I didn't have "practical bonds" with her, so she could savor our complete and utter disconnection.

I decided to write this when I noticed a few months back that I had been excluded from her list of friends on Facebook. An apparently trivial, almost childish fact. A fact that might mean the world to people of my students' ages, and that an adult was supposed to ignore. But to me, it meant something. Because without Facebook or access to her blog and Tumblr, she was shutting down any form of contact I could have with her. Any whatsoever. Blocking any possibility that I may know what was going on with my alleged friend. The only way of contacting her again would be to call or write an e-mail (direct contact), which is something I promised her I wouldn't do on our last squabble ("don't worry, I will not bother you again"). And anyhow, I presume that even this sort of contact will soon be cut off as well.
On what little contact we had after that, she became colder and more aggressive. Until the final e-mail came in November, telling me not to contact her again. Ever. As she signed off, she called me by my real name and signed it with hers. It was a very symbolic and violent gesture. We had NEVER used our real names.

Before finishing this post, I need to make it clear that, despite it all, it isn't my intention to turn Nana into a sort of villain. It would be unfair to do it merely because I am the losing side of this story. It is actually quite the opposite, I believe she deserves some sort of recognition for reaching a sort of consciousness about herself that very few people have. I would have said "very few women", but the fact is I believe even very few men have it nowadays. A consciousness of placing her own happiness above everything. Rigorously everything: above matters of equivalence (that which is "fair"), above matters or morality, above friendships of over a decade. Quite the contrary, her happiness is worth A LOT. And she won't allow ANYTHING to threaten it. The careless would label her dangerously selfish. Feminists would call her a free woman.

I'll start simply calling her Mariana. Or even Anonymous. If I have reasons to call her anything at all.

Finally, I mentioned of the dire consequences for this blog. It was created vaguely around the same time I met her (a little more than a year later) and completed its 10th year in April, exactly on the day before she started her new relationship and began cutting all ties with me [1st post]. And since I just love coincidences like that with an almost religious fervor, I gave serious thought to closing down the blog. It would be a perfect cycle.

But alas, we're still here, I just felt I couldn`t give in to this. This cycle needed this closure and I needed to keep going on. Taking her advice on that final e-mail, I had to learn to put the past behind.
I believe I won`t be writing as often on this blog. I came to realise I wrote a great deal of things because I knew she was reading. I must learn again to write for myself. And as this post gets closer to the bottom of the page and can no longer be easily retrieved by readers (since the blog`s archive settings are busted...), so too will I put this whole story and pain aside.

quinta-feira, agosto 02, 2012

O Laerte  recentemente publicou um par de textos [1] [2] muito relevantes sobre o tratamento psicanalítico.

Me chamou muito a atenção ele mencionar o tratamento da psicanálise como um esforço de "retificação e responsabilização" do indivíduo. No meu caso, posso sentir exatamente esse tipo de coisa, ao ser levado nas sessões a responder por uma série de idiossincrasias. Coisas que eu julgava serem a forma "correta" de se viver, e que no entanto, para novamente citar o texto, não passavam de "culpar ou demandar certas coisas dos outros (e do destino), que [eram] na verdade demandas insensatas".

Sensatez, aliás, passa a ser outra palavra interessante. Making sense, fazer sentido. Quando eu penso nisso, penso em agir de forma lógica e coerente, de acordo com o lado racional. E vou dizer uma coisa: eu cansei da coerência. Eu fico aqui escrevendo sobre a era pós-moderna e como não há qualquer obrigação por coerência estilística na arte hoje, mas acho que a coisa vai bem além. Não há qualquer obrigação por coerência hoje. Ponto.
Eu acho que a gente acaba negando muito do nosso lado subjetivo para poder ser coerente. Quando se fala em homens então, a coisa é pior ainda. E eu neguei mesmo. Muita coisa.
A terapia tem mostrado muita coisa conflitante, muito paradoxo, muita contradição. Mas também tem me deixado mais à vontade com as incoerências. Com poder dizer "sim, eu penso coisas conflitantes", "sim, eu quero um pouco de tudo". E na verdade, talvez essa seja a forma "correta" de se viver.

(""""""""""""""correta"""""""""""""" assim, com MUITAS áspas).

Combate

"...e na minha situação de hoje eu acho que eu teria como enfrentar um desses encontros de X anos de formandos do colégio".

"Enfrentar..." sublinhou o analista.

Nas nossas sessões, esse assunto tem aparecido bastante. Tenho algum receio de escrever a respeito, porque eu sei que todo mundo vai ficar reparando nisso quando lidar comigo. Mas resolvi que isso vai fazer parte do processo terapêutico todo.
O fato é que ele começou a insistir no fato de que eu encaro a grande maioria dos relacionamentos interpessoais que eu tenho como uma espécie de combate ou negociação (para evitar os comentários que surgirão sobre a minha escolha belicosa de termos...). Exceto por raríssimas exceções. Raríssimas mesmo. E mesmo essas, eu tenho a tendência a estragar. Vide exemplos recentes.

Eu não posso dizer com certeza que os anos de educação no meu antigo colégio tenham sido os únicos responsáveis por isso. Quiçá a tendência venha de antes disso e tenha sido apenas potencializada pela formação competitiva do colégio. E no entanto, eu ainda não enxergo como encarar as coisas de outro jeito. Eu só vejo o caráter cáustico dos relacionamentos amorosos, a competição profissional entre os colegas de trabalho e faculdade, o wrestling pela aprovação da família. Há sempre a consideração pelo Outro. E isso é sempre um combate, com estratégias, ganhos e perdas. É possível ser de outro jeito? Não totalmente, eu acho. Mas é possível ser menos assim, como percebo pelos meus exemplos próximos. Ou gente que simplesmente adota a estratégia de "não jogar o jogo". Mas mesmo isso é uma estratégia, né?

Falamos do colégio. E é engraçado, porque isso me trouxe a um exemplo paradoxal de mim mesmo. Eu sou assim, de encarar as coisas como esse combate, mas sempre adotando as vias mais passive-aggressive, evitando o confronto direto e violento, fazendo de tudo para evitar brigas. Como se enxergasse o confronto, mas tivesse medo dele. Minha atuação como professor é o exemplo perfeito: faço de tudo para dominar a classe, mas ainda sou cheio de pudores para dar broncas e excluir da sala, por receio dos alunos . Os alunos percebem. E testam limites.

Talvez tenha sido cedo para escrever aqui. Eu ainda preciso pensar mais sobre o assunto. Voltei para casa me perguntando se o melhor seria aprender a confrontar diretamente, perder esse medo e evoluir; ou seguir os exemplos de quem se excluiu do jogo, largar esse papel e me exilar do convívio social.

O importante é: eu de certa forma cansei disso. Concordo com o analista (e com boa parte dos comentários que virão) que há de existir outro modo de conviver.

terça-feira, maio 15, 2012

Pina, Wenders e honestidade

Fui assistir Pina do Wim Wenders. Pra dizer a verdade, não gostei tanto quanto imaginava que gostaria.

Eu queria sim que minha vida fosse como os filmes do Wenders. Fotografia impecável, pelo menos três idiomas e muita poesia. Aos poucos, vou me rodeando de gente que me permite fazer isso. Começar uma conversa em português, ter passagens em inglês e um pequeno parêntesis cômico em italiano.

Não, a razão de eu não ter gostado do filme não tem nada a ver com Wenders. Tem a ver com a dança. Arrisco dizer que tenha a ver com a arte. E principalmente comigo mesmo e com acontecimentos recentes. Alguém recentemente me fez pensar bastante sobre honestidade. Mais do que isso, sobre ser honesto consigo mesmo para poder ser honesto com os outros. Essa noção aparentemente óbvia, ligada a outros questionamentos que eu estava tendo sobre a índole masculina brasileira, tem feito um considerável estrago na minha vida. Mas é um daqueles estragos que você sabe que merece, e pelos quais precisa passar. Pra se tornar um homem melhor. E isso é assunto para um outro longo post que talvez eu nunca chegue a escrever.

No meio da trilha de destruição que essa honestidade está deixando, encontra-se a minha capacidade de apreciar arte. Uma capacidade que antes era baseada em uma espécie de tolerância, como se, frente a uma obra daquelas áridas, meio abstratas e herméticas, eu dissesse "muito bem, eu não estou me relacionando com essa coisa, mas se está aqui, deve ter alguma importância e beleza que eu ainda não captei". Eu ignorava o sentimento negativo de isolamento que eu sentia, o enfado, o tédio, para quem sabe poder chegar a um nível de compreensão e maravilhamento mais adiante. Resumindo, eu fazia cara de conteúdo.
Mas dessa vez, vendo o filme com honestidade, eu resolvi não ignorar. Houve partes em que eu dormi MESMO. Houveram coreografias que não me diziam NADA. Movimentos espasmódicos que claramente eram o fim de algum longo e tortuoso processo do dançarino, mas que não queriam dizer nada para o expectador final que eu sou. Arte hoje às vezes é um processo. E faz sentido quando se vê desde o começo, como fez sentido para quem acompanhou o meu processo todo em Londres e entendeu porque que eu emergi de cabeça raspada, lixando minhas unhas em uma lixadeira mecânica. Porque que eu me embrenhei pelas baladas de Brixton. Porque que a Filha do Açougueiro teve que fugir. Mas pra quem pega o bonde andando, isso não passa de loucura estéril.
Quiçá eu devesse ter lido mais, pesquisado mais sobre a Pina Bausch antes de ir ver o filme. Ela era apenas um nome e uma noção de uma mulher daquelas.

E no entanto, há momentos de grande beleza no filme. Alguns são obra do Wenders: as tomadas do metrô alemão; as cenas nas paisagens desertas; a fila de dançarinos morbidamente sorridentes repetindo os movimentos de primavera, verão, outono e inverno; as construções meio Bauhauss onde algumas das cenas acontecem. Outras são Pina e seus bailarinos: a garota que se enrola nos braços do amado que foge dela; a outra que cai para os lados a cada passo, segura de que seu parceiro a segurará poucos centímetros antes de atingir o chão; os dançarinos jogando baldes d'água na rocha enorme no palco, me lembrando ondas na arrebentação.

Percebo que o meu estado recente me deixou um pouco avesso ao drama. Talvez um pouco mais frio, endurecendo a carapaça externa pela qual todas as artes futuras terão que penetrar pra me fazer sentir algo de fato.

E como será o efeito disso quando (e se) eu voltar a de fato fazer arte?

quarta-feira, maio 02, 2012

Aluguel

Eu atualmente estou pagando o aluguel de um apartamento. Eu pago por aproximadamente 35 metros quadrados com varanda (e ganchos de rede...) em uma kitchenette. Eu pago pra que seja o espaço necessário e nada mais, fácil de cuidar sozinho. Eu pago por piscina, sala de ginástica e sauna para fazer uma pausa das traduções de vez em quando. Eu pago por vizinhos jovens, que não enchem o saco e ouvem raridades do Bowie com o volume nas alturas e eu não tenho nem como reclamar porque adoro. Eu pago por uma entrada com boa segurança e porteiros simpáticos. Eu pago por internet wi-fi gratúita no saguão e na silenciosa sala de estudos (que tem um suspeito cheiro de urina...) Eu pago por uma vaga na garagem onde ninguém tem lugar fixo e a gente para onde quer desde que não tranque ninguém. Eu pago para estar a apenas três quarteirões de distância da Paulista e poder na verdade prescindir do carro durante toda a semana. Eu pago para precisar de apenas vinte minutos de transporte público para ir a qualquer lugar: a casa dos meus pais, a faculdade, o colégio e minha Lexy. Eu pago pelas manhãs vendo as pontas dos ciprestes (os "dedos dos mortos") no cemitério da Consolação ao acordar e a paz sepulcral em meio à cidade antes de dormir. Eu pago por uma janela grande sem vizinhos que me espiem, para suprir minha necessidade exibicionista sem perigo real. Eu pago por um prédio que tem um misterioso primeiro andar, sem janelas, que faz com que eu me confunda sempre que tento localizar a minha lá da sala de ginástica. Eu pago para ver as menores formigas que eu já vi na vida, invadindo meu açucareiro e andando por cima da água no prato onde ele foi colocado - um minúsculo exército de Jesuses que não se sente intimidado pela fossa em volta do castelo. Eu pago pela sensação de ser adulto, de conquista, de ter o que é meu, bought and paid for. Eu pago um preço alto. Mas vale cada centavo. Aguardem o open house em breve.

terça-feira, março 27, 2012

Caught in the undertow

Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.

Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:

Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?

Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.

Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Nova Nod

Desci do ônibus. Caminhando em direção ao semáforo, ouvi o ruído alto, seco, breve e grave. Segundos depois, um sedã preto furou o farol vermelho acelerando. Deixava para trás uma trilha de destruição da qual faziam parte outros dois veículos. Há meio quarteirão de lá, uma base comunitária da polícia. Debati por alguns segundos se deveria aconselhar os motoristas dos carros que restaram sobre os policiais. Estavam em uma posição onde não podiam ver a base. Idéia melhor: vou falar com os policiais.
Enquanto comentava o que havia visto, um rapaz chega na base comunitária com o celular no ouvido, quase perdendo o fôlego. "Fomos alvejados", diz ele. E em seguida cita para os guardas um modelo de carro e placa. Dois dos policiais montam nas motos e saem em perseguição ao sedã preto. Há um pouco de confusão entre os policiais e o rapaz, que nervoso, não faz muito sentido. Um dos policiais começa a perder a paciência. E eu começo a entender. O sedã era a vítima. Um terceiro homem aparece em cena, um dos motoristas que ficou no rastro de destruição do sedã. Diz que uma moto deu meia volta e subiu a rua. Os policiais de moto estão indo pelo lado errado e a moto do agressor, sobre a qual tem-se apenas descrições vagas e nenhuma placa, já está longe. Depois de perceber que as vítimas têm muito mais informação do que eu, vou me subtraíndo da cena até desaparecer. O pouco de ajuda que eu podia prestar, já foi prestado. Mas assim como no assalto que sofri em Dezembro, volto a pensar nos "e se".
Todos nós somos muito pouco equipados para reagir eficientemente nessas situações. Eu estava na melhor posição possível para ver a placa do sedã. E nem me passou pela cabeça. Nossa reação natural é olhar para o estouro, para o epicentro do ocorrido, e não para o único indivíduo fugindo do local.
Mas ainda que eu tivesse reagido dessa forma mais "correta", eu teria incorrido em outro erro de estratégia: o de não raciocinar sobre quem é o agressor. No nosso país, na nossa cidade tumultuada, caótica e congestionada, um agressor teria pouquíssimos motivos para escolher um sedã para um crime depois do qual ele tem que fugir durante o horário de pico. Arriscando incorrer no perigo e na injustiça do estereótipo, acho que um agressor teria mais motivos para escolher uma moto. Ágil, rápida e igual a tantas outras. E a vítima, um carro grande, resistente, apto a furar a força o trânsito na sua tentativa de fuga. As madames entopem a Oscar Freire de SUVs que elas não conseguem estacionar.
Fico curioso para saber de gente que tenha presenciado situações em que o agressor fugiu em uma Mercedes, um Hummer, uma BMW. Na nossa cidade.

LilithNão posso deixar de pensar em uma associação pejorativa. Horas antes, eu estivera conversando com uma das professoras de educação artística. Ficamos muito entusiasmados quando começamos os dois a falar de uma exposição de Anselm Kiefer acontecida no final dos anos 90 no MAM. Eu, um adolescente que nem tinha sido equipado para reagir eficientemente neste outro tipo de situação e pelo menos ver o nome do artista. Ela, uma jovem guia de exposições que estava trabalhando em uma exposição que marcou sua vida.
Fui atormentado pelas pinturas que vi durante anos. Porque as imagens ficaram na minha cabeça, e eu nunca lembrei do nome do artista até essa conversa de hoje. As pinturas tiveram tanto impacto porque Kiefer usava referências ao mito sumério (e posteriormente hebraico) de Lilith, e eu estava no amadurecer da minha fase gótica. Veria, poucos anos mais tarde, o nome ressurgir nos jogos de RPG de vampiros, nos episódios de Evangelion, em pesquisas na internet. Os quadros também eram bem sujos, viscerais, bem "estética de decomposição". Algo que eu associaria depois aos anos 90 em si, ao grunge, uma das minhas paixões estéticas visuais e musicais (a MTV nunca mais teve vinhetas legais depois daquela época...).
Na série de quadros chamada de Lilith, que Kiefer fez inspirado em sua visita a São Paulo no fim dos anos 80, ele usa vestidos sujos e engessados na pintura para personificar a entidade mitológica. Os críticos dizem que Lilith aparece nas pinturas como se trouxesse o caos violento à cidade e "às obras de Niemeyer", que aparentemente devem simbolizar uma espécie de harmonia para ele e para os críticos europeus.

Na mitologia hebraica, depois que o relacionamento entre Adão e Lilith se desfaz, ela é banida para as "terras selvagens" (em alguns textos, a mesma Nod para o qual Caim foi banido), onde os filhos que ela tem com os demônios locais são chamados de "Lilim" e nascem e morrem às centenas todos os dias, completamente ignorados.
Perdoem-me se não me ufano com o atual momento econômico do país, as perspectivas dele ser uma potência do novo milênio e tudo que tem aparecido na mídia. A verdade é que uma parte de mim que eu gostaria que não existisse continua se sentindo de acordo com as pinturas de Kiefer.

Talvez estejamos mesmo em uma espécie de Nova Nod.
Talvez sejamos todos Lilim.