sábado, dezembro 12, 2015


Faleceu na madrugada de hoje, dia 12/12/2015, aos 89 anos, minha avó Nydia Licia Pincherle Cardoso

Qualquer um que escrevesse este texto falaria da carreira dela. Eu acho essa uma tarefa ingrata. Frequentemente eu mesmo me cobro de ter que saber tudo a respeito da minha avó e meu avô, por acreditar que só assim eu mostro o respeito devido às lendas que eles foram. E que lendas que eles foram! Leiam as matérias de imprensa, leiam os sites, a Enciclopédia Itaú Cultural, leiam os livros da Coleção Aplauso! Leiam a autobiografia dela. Se é informação que vocês procuram, não peçam pra mim. Eu não vou saber ser objetivo. Eu não sou historiador, e muitas outras pessoas muito mais sérias devem ter feito pesquisas muito mais completas do que o meu conhecimento deles, tendo mais propriedade pra falar da vida deles do que eu. Eu sou só o neto. Mas talvez por isso mesmo, por ter convivido com ela como neto, e por ter um gosto pela escrita, que me escolheram para este texto. Eu mesmo teria exigido estar nesta posição, para poder honrar ela apropriadamente. Porque daqui, dá pra falar da Nydia como pessoa. Uma coisa, por exemplo, que eu jamais vou poder experimentar a respeito do meu avô Sérgio, de quem sobrou para mim apenas a lenda do teatro. E embora seja importante misturar nesse meu texto a memória da atriz Nydia Licia, eu quero falar da minha avó. Eu acho que isso tem mais valor e mais da alma dela pra mim. Vovó Dona Nydia, como passei a chama-la quando pequeno, ao ouvir uma cozinheira chama-la assim.

Vovó Dona Nydia nasceu em Trieste, 30 de Março de 1926. Filha de Giacomo Giuseppe Pincherle, médico especializado no tratamento de tuberculose; e Alice Schwarzkopf, preparadora vocal de cantores de ópera. Vejam bem, uma pessoa ligada à medicina e outra ligada às artes. Talvez daí tenha surgido um padrão na família comparável àquela família do 100 anos de Solidão, um intercalar-se de artistas como nós, netos da Nydia artista, e médicos de tuberculose, como sua filha Sylvia. E talvez por isso que Trieste sempre me pareceu uma terra mística. Onde cantores de ópera meio tísicos ensinavam lendas germanas às crianças através de espetáculos musicais, enquanto tratavam seus pulmões entre o pinheiral da “Pineta del Carso”, o sanatório de meu bisavô. Uma terra que já estava tão ao norte da Itália, quase na fronteira com a Áustria, que havia impresso na vó Dona Nydia aqueles cabelos loiros e olhos claros, o porte e os modos germânicos contidos, e uma infância repleta de um folklore europeu alpino, bem diferente do que eu percebia como italiano. Era a terra do Bora, o vento de inverno que chegava a 200 km/h e gelava apenas um lado das árvores, varrendo pedestres das ruas e dobrando placas. Eu visitei essa Trieste em 2006, passeei pelas colinas e tirei uma foto atendendo ao pedido de minha avó, que me disse para “beijar o mar” dela, o Adriático. Ela não visitava Trieste desde a década de 70 ou 80.
Mais tarde na vida, eu soube de outra Trieste. A que não podia existir no mesmo lugar físico do que aquela terra mística da vó Dona Nydia. Devia ser outra coisa, em uma dimensão paralela na qual nem o Bora ou a ópera chegavam. Da qual trens partiam cheios de italianos para campos de concentração fora do país. E na qual um médico judeu tinha que vender a preço irrisório um dos hospitais mais respeitados da região. Foi dos horrores dessa realidade paralela que eles fugiram para o  Brasil.
Eles largaram tudo na Itália e vieram para este lado do Atlântico. Eu sei que essa história já não é nova, muita gente aqui tem uma história dessas na família. Então eu pulo os pormenores e vou a dois pontos que interessam. Primeiramente, esse lento recomeçar do nada me ensinou quando adulto que bens materiais são só coisas. Que a vida pode ser mais simples. Que importa mais quem você é e não o que você tem. Ela vivia uma vida pacata e simples nestes anos mais recentes, mas vejam o impacto que ela causou. Ela vivia em uma vila pequena e escondida, sem alardes, mas tinha o porte físico, a dicção e a distinção de uma diva. Ela não tinha, ela era. Em segundo lugar, e talvez a ideia que mais me deleite, ela fugiu dos regimes totalitários europeus e, assim como muitos daqueles fugitivos, viveu até quase 90 anos de idade. Sobreviveu a muitos dos que seriam seus captores. E não apenas sobreviveu: ela veio para o Brasil, e com Pietro Maria Bardi, participou do começo do MASP, conhecendo Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Aldemir Martins, Marcelo Grassmann, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia... A lista é enorme. Porém mais importante: foram artistas modernos. E o teatro que surgiu do contato com essa cena cultural era um teatro moderno. Entende? Foram artistas da “arte degenerada” que os regimes totalitários tentaram obliterar. Ela ter vivido até quase 90 anos e contribuído para a solidificação da arte moderna no Brasil foi seu último chute no traseiro do nazi-fascismo.

Mas como eu disse, dessa Nydia Licia para a vovó Dona Nydia, há uma separação tão imensa que eu preciso fazer essa separação até aqui, no texto. Eu conheci uma outra pessoa, que eu queria relembrar pra vocês. A única ligação dela com a Nydia Licia é uma memória distante na minha infância da década de 80, de saber que ela viajava de avião entre o Rio e São Paulo. Eu não sabia o que ela fazia no Rio, sabia apenas que era “coisa de atriz”. Mas ela vinha direto para nosso apartamento do lado do aeroporto, trazendo um punhado de sachês com mel que eram oferecidos no café da manhã do vôo, e dava de colherzinha para mim e para meu irmão João. De volta à casa dela na vila, ela transformava esse hábito de nos adoçar a vida em uma brincadeira doce de esconder chocolates na sala e nos guiar até eles pelo “quente ou frio”. E nossos olhos passeavam por aquela casa! Por estantes lotadas de livros em diversos idiomas, por quadros que fizeram parte de minha educação visual e que anos mais tarde eu saberia serem esboços de cenário, por aquarelas da mãe dela, por móveis ornados de estilos diferentes e às vezes conflitantes. Tudo parecia ter uma história. E tudo, embora de cores diversas, me lembrava um tom de bege meio dourado. Era o tom dela, dos móveis dela, das roupas dela. É difícil explicar sinestesia, mas era o tom até do perfume dela: um daqueles perfumes numerados específicos, 4711. Um perfume que combinava com seu gesto de usar seus casacos por cima dos ombros, sem de fato vestir as mangas. Um perfume que combinava com seus gestos e serenidade meio felinos. Ela adorava gatos, e os da vila a recebiam como uma deles. Como a rainha deles. Acho que vou lembrar dela no olhar de todos os gatos. Na memória infantil de minha mãe, que tantas vezes havia sido colocada para dormir ninada pela canção de Tutu Marambá cantada por minha avó, ela assumia essa identidade deste gato que cantava nos telhados à noite. Não era muito distante da realidade da Nydia Licia que ninava sua garotinha antes de sair para a peça da noite na Companhia Nydia Licia-Sérgio Cardoso. E por essa identificação, sempre a chamava de . A simplificação monossilábica de gato? Ou a corruptela infantil de Tutu Marambá?

Acima de tudo, minha memória mais acessível da vovó Dona Nydia era sua paixão pelo natal. Embora judia, ela adorava o natal. Época em que ela trazia a mim e meu irmão para perto dela e lia os épicos contos de natal da Turma do Mickey que parodiavam o Guerra nas Estrelas, ou a coleção de Asterix que ela adorava. Hoje me pergunto por que ela não lia os contos germanos de sua infância. Nos finais de ano, a casa dela enchia-se da fragrância de pinheiro, quando ela mandava trazer um pinheiro de verdade para colocar no canto da sala dela. Ela o decorava com toda sua extensa coleção de adornos natalinos, de origens e estilo diversos. Na noite após a montagem da árvore, ela apagava as luzes da sala e acendia velas fixadas na árvore. E então eu e meu irmão caçávamos entre as bolotas coloridas os peixinhos de chocolate embrulhados em papel alumínio que ela conseguia das freiras morando perto da casa dela. Havia algo muito adequado para a época de festas e desejos de paz no fato desta judia confraternizar com freiras católicas e montar aquela árvore que enchia sua sala de presença. Nos anos mais recentes, ela delegava funções: meu irmão, o engenheiro, balanceava a árvore amarrando-a com fios de nylon para evitar desastres enquanto eu, o artista plástico, montava o “presépio da lareira”. Dito assim entre aspas porque não era um presépio mesmo. Ela tirava tudo de sua lareira desativada e deixava-me construir alguma cena festiva com os enfeites natalinos antes mesmo de enfeitar a árvore. Meu presépio tinha primazia criativa. Esse mashup de referências natalinas faziam dela uma pessoa que, aos 89 anos, continuava sendo totalmente atual, até mesmo fortemente pós moderna. O pós moderno é esta justaposição descompromissada de referências que, mesmo divergentes, chegam em uma coerência estética. O natal dela era pós moderno.
Ela sempre me incentivou como artista. Talvez tenha lhe faltado pulso para fazer de mim um ator. A família sabe que eu demonstrei interesse. Ou talvez, do jeito dela, ela tenha preferido me dar liberdade para ser o artista que eu quisesse ser. João tornou-se músico e ela foi sua preparadora vocal, seguindo os passos da mãe. Eu tornei-me artista plástico e ela me deu um quarto na casa dela que passou a ser meu ateliê. Já com dificuldade de subir a escada escorregadia até ele, vovó me interrompia no meio da tarde para que eu descesse para uma xícara de cappuccino instantâneo e contos de sua vida épica. Ela sabia, mais do que ninguém e mesmo que o jogo hoje fosse outro, o que era ser um artista jovem, ainda ingênuo, em início de carreira. E talvez aqui esteja condensada toda a falta que ela vai me fazer: avó, referência histórica, mentora artística, mecenas e até merendeira. Que vácuo enorme para preencher...

Quando eu era bem criança, cinco anos de idade, eu tive um sonho do qual ainda me lembro. Por um motivo besta que não convém contar,  eu havia morrido e ido para o céu. O céu do meu sonho era um lugar à meia-luz. Uma coxia de teatro (embora na época eu não soubesse o que ou como era uma coxia), com luzes apagadas e a pouca iluminação vinda de algum lá fora qualquer. A impressão era mesmo de um teatro ocioso, sem peças sendo encenadas. Eu via muitas cordas, madeira e dobradiças, enquanto era levado por alguma presença desconhecida para perto de uma figura sentada lá no canto. Uma figura que eu inexplicavelmente sabia ser o meu avô, sentada em um banquinho em frente a um tabuleiro de xadrez. Como eu já disse, nunca conheci o Sérgio de verdade, que não fosse a lenda do teatro. E portanto desconheço se ele jogava xadrez. Ele me disse para ficar quietinho. Porque ali, todo mundo estava relaxando, ficando quietinho. Na monotonia dos adultos, que as crianças ainda não entendem, eu me distraía observando meu avô. Não seu rosto, que eu não conhecia de verdade no mundo real, mas observando as asas dele. Um par meio mambembe de asas de madeira. Operadas com cordas, polias e dobradiças. Asas de teatro, que ele operava comicamente de vez em quando. E nesse faz de conta gostoso de adulto, de saber que a realidade é outra mas querer brincar de acreditar na fantasia, eu fico visualizando essa imagem da vovó Dona Nydia chegando nessa coxia no céu. Não a vovó Dona Nydia, mas a Nydia linda e capaz da década de 50. Pra sentar junto do meu avô do outro lado da mesa de xadrez e ficar quietinha. Operando vez por outra seu par de asinhas de teatro.


Para sempre Vovó Dona Nydia. Para sempre .

terça-feira, novembro 17, 2015

Por que estudar Arte (Attack on Paris version)

Há uns quatro anos, quando comecei a dar aula no Colégio, um aluno me perguntou por que eles estavam estudando artes, cinema, coisas do tipo. Afinal, não cai no vestibular, né?

Se explicados sob a perspectiva do poder da mídia, os acontecimentos recentes na Europa respondem por mim. Os ataques recentes a Paris mataram 129 pessoas, causando comoção mundial e tingindo o Facebook de fotos de perfil com as cores da França. O impacto desse ataque, em termos de valor simbólico, não chega aos pés do impacto do ataque às Torres Gêmeas nos Estados Unidos em 2001. Até porque morreram mais pessoas nos Estados Unidos (estimativas falam de números superiores a 3000 pessoas entre os terroristas, passageiros dos aviões, ocupantes das Torres, bombeiros e outros funcionários de serviços de emergência).

Tenho dificuldade em estimar a quantidade de árabes (iraquianos, iranianos, ou sírios) mortos por ataques de bombardeio americanos ou franceses. Dificuldade porque não há identificação específica para cada incidente (como em "ataque às Torres Gêmeas" ou "Atentado em París"). Sem delimitar isso, não se pode contar onde começam e onde terminam as mortes (desde o começo das guerras contra os árabes? desde que os franceses começaram a bombardear Raqqa? ou só o bombardeio deste domingo?). Ou seja, não há amostragem do quão grande é a tragédia do lado de lá.

[DISCLAIMER: não considero nenhuma tragédia superior ou inferior à outra. Tudo que tem acontecido é péssimo. Mas há valor didático no modo como essas tragédias estão sendo noticiadas.]

Na mídia, as coberturas são tão diferentes e parciais quanto a mídia daqui é ao falar deste ou daquele partido político. Por lá, a cobertura do incidente na França mostra pessoas em desespero chorando pela violência "inexplicável", propriedades e vidas irremediavelmente destruídas. Sobre os incidentes na Síria, mostram os reluzentes jatos de guerra franceses, como se vendessem o carro do ano. Como se aquilo fosse certo. Jornais proclamam que os bombardeios acertaram acampamentos de treino de terroristas e que nenhum civil morreu no ataque, mas grupos no Twitter comentam que o ataque acertou um estádio, um museu, clínicas, um hospital e prédios do governo. Será que ninguém saiu ferido mesmo?  Em quem acreditar?

Nesse ponto do texto, o garoto que me perguntou a razão de estudar Artes já deve ter parado de ler. Mas caso ele ainda esteja acompanhando, vou resumir a moral da história. Estamos muito bem informados da miséria e da tristeza na França (com “apenas 129 mortos), mas temos apenas uma vaga noção glamourizada da violência na Síria. A imagem das Torres Gêmeas nos chega em gloriosas fotos em HD, mas ninguém lembra do quão lindo era o Iraque antes dos ataques americanos. 

Os EUA e a França entenderam a importância da mídia, das artes e da expressão. Eles entenderam que, usadas corretamente, essas coisas fazem mais efeito do que centenas de bombas. Elas convertem milhares de pessoas no mundo inteiro para o lado de quem souber usá-las. O garoto que me perguntou a respeito vestia Abercrombie e cantarolava músicas americanas: ele nem percebia, mas já tinha sido colonizado através de anos de exposição a filmes de Hollywood e bandas de música pop.

Você estuda arte no Colégio para entender que estão te contando só um lado da história. SEMPRE. É o lado de quem entendeu e investiu na importância da mídia. Você estuda arte para ter consciência de como estão te colonizando. Você estuda arte pra poder escolher se quer aprender a usar essa ferramenta, e para qual finalidade.

Você estuda arte para não ser controlado por ela.


domingo, abril 26, 2015

Sobre Autoridade na Escola

Na Colômbia e um pouco aqui no Brasil, eu peguei um estilo de escola que insistia um tanto em uma disciplina quase militar, que punia quem desobedecia ou se insubordinava sem clemência ou negociação. Jã não existia a palmatória ou qualquer outro tipo de castigo físico. Estes tinham sido abolidos pelos nossos professores, que haviam sofrido bastante com esses tipos de punição e, lembrando da dor, não se sentiam à vontade para aplica-los a nós, seus alunos.

A geração de professores e pais que cuidou da minha havia abolido o castigo físico, mas ainda exercia uma autoridade punitiva e absoluta, que não admitia ser questionada. A autoridade que, ao ser perguntada sobre os por quês, respondia: "porque eu sou seu professor/pai e eu estou mandando". Não negociava e raramente se explicava.

Minha geração ainda achava tudo aquilo muito injusto, relacionando esse tipo de autoridade inquestionável e absoluta aos regimes totalitários que estes mesmos adultos diziam serem deshumanos e cruéis. Minha geração experimentou ser uma autoridade mais clemente e conciliadora, democrática, aberta ao diálogo e à negociação, querendo explicar ao invés de impor.

Nosso experimento gerou filhos e alunos sem limites, pois se limites podem ser negociados, eles podem ser superados. Esta nova geração venceu seus adultos pela insistência e habilidade de negociação superior, conseguindo o que queriam apesar das regras e ameaças.

Alguém me pergunta que tipo de professores esta geração será, se eles não conhecem disciplina e limite. E eu imagino que serão professores extremamente autoritários. Afinal, se eles são acostumados desde pequenos a sempre terem o que querem e a reagirem agressivamente sem serem punidos por isso, eles reagirão autoritários e despóticos a todo aluno que não responder de acordo com a vontade deles. E vamos retroceder para autoridades totalitárias novamente.

A pergunta que permanece é: quando e como voltaremos daí para os castigos corporais?

quinta-feira, março 19, 2015

Surreal revelation XVIII: Petróleo

Aprendi na escola, quando criança, que o petróleo era um "combustível fóssil". Ele era o resultado de um processo da decomposição de seres que haviam morrido há milhares de anos, suas carcaças soterradas sob a pressão de toneladas de rocha sedimentaria. E a ideia principal deste Surreal Revelation é esta: montamos sociedades inteiras fundamentadas por esta substância, este chorume de carcaça.

Montamos sociedades inteiras fundamentadas em morte.

Karl Benz criou o que conhecemos como o carro moderno em 1886 [fonte]. Ou seja, em um piscar de olhos de 130 anos, se comparado com os milênios de existência da raça humana. Mas nesses 130 anos, sociedades inteiras passaram a serem fundamentadas pela economia das montadoras de carro. Estive tentando achar o trecho do documentário do Michael Moore onde ele mostrava uma cidade americana que havia sido montada em volta de uma fábrica da GM, onde todos trabalhavam. Quando a GM resolveu que aquela fábrica específica não estava mais gerando os lucros desejados, a fábrica foi fechada e a cidade morreu com níveis elevadíssimos de desemprego, depressão e suicídio.

No Brasil, tínhamos a chance de usar os caudalosos rios naturais do país para a navegação. Outro ótimo documentário chamado Entre Rios mostrava como a maioria das cidades que "deram certo" eram criadas em torno de uma estratégia de transporte que ia do mais amplo e de maior capacidade, para o mais individual e menor. O começo de tudo eram os portos, onde as mercadorias chegavam de barco e eram carregadas em trens. As linhas férreas levavam tudo para os centros urbanos onde um sistema de transporte público garantia acesso às mais variadas partes da cidade. Finalmente, se você tivesse que ir a um lugar muito específico, podia valer-se do veículo individual: um carro ou moto. Isso garantia que muita gente indo para os mesmo lugares usava pouco combustível, ocupava pouco espaço e causava menos transtorno para todos os envolvidos.

Até que as montadoras americanas resolveram expandir seu mercado para o Brasil. Não vou me alongar neste raciocínio, o documentário faz isso de forma maravilhosa. Mas como resultado, hoje transportamos boa parte das cargas através do país por meio de "veículos individuais", os caminhões dessas montadoras. A construção de algumas das nossas principais cidades subverteu toda essa ordem e passou a privilegiar as estradas para veículos individuais em vez de todas as outras esferas dessa hierarquia. Ainda temos um serviço de transporte público pífio e transitar entre cidades por meio de transporte ferroviário ainda é um sonho com ares de impossibilidade europeia.

A contraparte disso é que muita gente fez muito mais dinheiro. As transportadoras receberam por cada caminhão nas estradas em vez de por uma grande locomotiva. As montadoras receberam por cada veículo para cada família (as vezes dois ou mais veículos por família) em vez de construir veículos de transporte público que carregavam dezenas de pessoas. E principalmente, as entidades ligadas ao petróleo aumentaram seu consumo da substância por cada indivíduo.

E as consequências dessa expansão das montadoras todo mundo conhece: nesses 130 anos, nós destruímos o mundo a tal ponto que se fala em irreversibilidade. As estradas estão abarrotadas de veículos, não existe mais "hora do rush" porque toda hora é do rush. Níveis de stress explodiram. E hoje quando as montadoras mostram resultados abaixo do esperado, todos entram em pânico. O governo corta impostos no setor. O horário nobre é recheado de propagandas de feirões prorrogados porque supostamente "foram um sucesso na semana passada". Diz o meu pai que toda essa algazarra é feita pelo setor automobilístico, enquanto o sucro-alcooleiro do qual minha família descende enfrenta uma das maiores crises da sua história e a mídia nem menciona o fato.

Estou me afastando demais do cerne do assunto. A indústria automobilística responde a uma outra indústria, a petroleira. Se detonamos o mundo em 130 anos com automóveis, isso aconteceu em grande parte porque eles usam derivados de petróleo em sua fabricação e rodam com combustíveis derivados dele também, que emitem todos esses poluentes.

E há alternativas. Há MUITAS alternativas. Mas no ponto em que estamos, o petróleo já gerou fortunas, sistemas e dependência em níveis tão astronômicos, que os envolvidos lutarão para mantê-los funcionando. Lutarão mesmo. Lutarão guerras em países longínquos por motivos fictícios. Tudo para ter mais petróleo para manter tudo girando.

E a cada novo dia, nossa sociedade continua fundamentada em morte.

Há qualquer coisa de perversamente poético ou xamânico nisso. A morte de eras mortas e enterradas é trazida à tona para provocar morte ambiental, morte belicosa e morte moral.

segunda-feira, outubro 13, 2014

Pra onde vai tudo aquilo que eu estudei no mestrado? Como lidar com uma dura realidade que tem me provado, pouco a pouco, que realmente não existe igualdade de gênero? Como aceitar que aquilo é discurso, retórica, utopia, mas que a realidade... bem, sabe como é, a realidade é complicada.

Estou encontrando dificuldade até de escrever por aqui de forma coerente. Escrever de forma que eu consiga dar vazão às minhas opiniões e sentimentos, coisa que sempre foi o propósito do blog, mas sem magoar ou parecer extremamente conservador.

Talvez, quem sabe, eu seja mesmo conservador. Ando me pegando com algumas ideias muito parecidas com as do meu pai e de outros amigos endinheirados. Me preocupo um pouco com isso. Me preocupo mais porque meu pai, seguindo estas ideias de direita, hoje anda defendendo aquelas ideias do direito de portar armas e alguns velhos machismos. Me preocupo de seguir este caminho e vir a achar estas ideias normais no futuro.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Para Sabrina, sobre ansiedade


Primeiro, adorei que você me escreveu pra perguntar sobre ansiedade em resposta ao texto sobre depressão. Faz muito bem para nós saber que o nosso conhecimento e experiência de vida podem realmente ajudar alguém para além "daquilo que cai no vestibular". 
Eu demorei um pouco pra responder (o que, para uma pessoa ansiosa pode ser terrível, eu sei), porque sempre que eu começava, eu me pegava contando toda a minha história de vida e de como e porque eu tive ansiedade, em vez de entrar logo no assunto como eu fiz com o texto da depressão. É mais difícil pra mim falar sobre isso, porque minha perspectiva é muito de dentro do problema. Com a depressão foi mais fácil, porque eu era um espectador assistido ao drama, sem participar dele. Mas vamos tentar... 

"Solitaire" (2004)
óleo sobre madeira
A respeito da vontade
de não sentir nada
Eu não sou especialista nesses transtornos. Sou apenas alguém com alguma sensibilidade que observa essas coisas. Mas eu frequentemente penso na ansiedade como o oposto completo da depressão. Onde a depressão é uma falta de sentido e de sentimento na vida, a ansiedade é um excesso muito violento de sentimentos e significados imaginados, quase paranóicos em relação a tudo. Você sente demais, você conjectura demais, você atribui significados demais a coisas que talvez não tenham significado nenhum. Tudo parece ter consequências pesadas demais que PRECISAM ser consideradas (ênfase no "parece")! Faz sentido? Nas épocas de crise, tudo que eu queria era poder não sentir nada... 

Bom, eu vejo que não vou conseguir falar do assunto sem falar da minha experiência. Então, pra resumir e tirar logo do caminho a minha história, eu tive uma adolescência de me mudar bastante, viajar muito, começar de novo algumas tantas vezes. Esse movimento todo gerou na minha cabeça uma auto-avaliação constante: será que eu estou agindo certo? A pergunta, na verdade, era "será que eu estou sendo normal"? Ela me afetava bastante, porque moramos fora do Brasil, e como estrangeiro você se pergunta isso bastante. Achei importante falar desse questionamento e auto-avaliação, porque nele está uma das bases da ansiedade (pelo menos do modo como eu a encarei): a ideia de que os outros esperam algo de nós. Esperam que tenhamos determinadas atitudes, que nos encaixemos em determinados estilos, que tenhamos determinados objetivos de vida. Nós não sabemos ao certo o que acontece com quem não corresponde a essas expectativas todas, sabemos apenas que queremos corresponder. Queremos que os outros gostem de nós. Isso é muito importante, mas eu volto a isso daqui a pouco... 

"Sickness" (2004)
Óleo sobre tela
A respeito do enjôo
Me chamou muito a atenção duas coisas que você escreveu: primeiro que você acha que os outros devem te achar muito estranha. E depois, que você tem pavor da ideia de vomitar em público. Essas duas coisas foram muito parte da minha história também. A ansiedade se manifesta em cada pessoa de formas muito diferentes. Pra mim, ela começou com crises de amidalite antes de cada viagem que a família fazia ou provas na escola. Depois, na adolescência, ela mudou para algo mais pontual e instantâneo, um enjôo forte que acontecia em toda balada, toda situação social onde eu achava que estava sendo julgado (ênfase no "achava", porque ninguém estava prestando a mínima atenção em mim...). Ele atacava de repente, as coisas literalmente perdiam a cor, a graça, eu sentia o sangue fugir do meu rosto (devia estar ficando pálido), perdia as forças e começava a me concentrar apenas nesse enjôo. Só existia o enjôo. 
Eu tinha muito medo de mostrar aos outros que eu estava passando mal. Medo como o seu, de me acharem estranho, incapaz de fazer algo tão banal quanto se divertir em uma balada. E isso, claro, alimentava o ciclo (ansiedade dá enjôo, que me dá medo, que gera mais ansiedade, que dá mais enjôo, que gera mais medo...).Então, durante MUITO tempo, eu escondi isso. Eu passei mal sozinho. Tinha ainda mais medo de vomitar em público também. E cheguei a fazê-lo apenas uma vez por causa de ansiedade, em um hotel onde passávamos férias. Bem no saguão do hotel, enquanto eu procurava desesperadamente por um banheiro. O mais importante desse episódio foi que ele não foi o fim do mundo. Ele não significou NADA. Ninguém sequer lembrava disso no dia seguinte.

As coisas pioraram muito antes de melhorarem. O vestibular me levou ao pior período de ansiedade. Porque eu achava que todo mundo esperava que eu passasse direto. Porque eu achava que esperavam que eu fizesse USP. Porque eu achava que esperavam que eu tivesse uma "carreira de verdade" além das artes plásticas. Eu achava que esperavam muito de mim. De novo, ênfase em todos esses "achava". Minha ansiedade alcançou picos insuportáveis. Eu comecei a pensar que eu teria que lidar com ela a vida toda. Eu comecei a imaginar outros 50, 60 anos de enjôos e sentimentos de inadequação. Eu comecei a cogitar dar um fim nisso mais cedo... 

E foi aí que eu procurei ajuda. 

Eu comecei terapia já em um ponto em que a cadeia de raciocínio era tão automática, que o primeiro sinal de enjôo já disparava pensamentos de morte. A terapia me ajudou primeiramente dando um nome a isso que eu sentia (até então, eu apelidava isso de "a síndrome", porque não sabia que era ansiedade...). Depois, me ajudou a entender qual era o peso disso que eu achava que os outros esperavam de mim. Por último, me ajudou a entender que ninguém esperava nada de mim. A única pessoa que esperava algo de mim era eu mesmo. E eu conseguia negociar comigo mesmo. 
Eu considero que me curei de fato quando viajei pela primeira vez, sozinho, para a Europa. Poderia ter sido Ásia, África, ou até aqui do lado, em Sergipe ou Espírito Santo. O que importou foi que eu viajei sozinho. E me hospedei em um lugar onde eu era sim estrangeiro, em meio a muitos outros estrangeiros. Todo mundo agia diferente e não tinha um "normal". Mais do que isso, ninguém tinha ouvido falar de Bandeirantes, de USP, de FAAP (eu acabei fazendo DUAS faculdades por causa disso tudo...). Eu não era nem classe média-alta. Eu era nada. E como nada, eu podia ser tudo. E em um lugar onde todos eram estrangeiros, eu podia agir como eu quisesse e querer o que eu quisesse. 

Eu nunca me senti tão leve... 

Depois dessa viagem, eu compreendi algumas coisas. Primeiro, o poder de entender que ninguém esperava nada de mim. Nem os meus pais esperavam algo de mim de fato: eles queriam apenas que eu fosse feliz e auto-suficiente (se isso ia ser alcançado como artista plástico, arquiteto, vendedor de sapatos ou camelô da 25 de Março, não importava...). Eu que tinha que gostar de mim mesmo e do que eu fazia, não os outros. Comecei a estudar coisas de meu interesse e a mudar meu visual para algo que eu gostasse. Parei de ir nas baladas que os meus amigos iam e procurei outras onde eu pudesse fazer coisas que eu gostava (karaokê, baladas de gótico, etc...). Danem-se os outros. 
Depois, entendi que ser estranho e único me tornava muito mais interessante do que todo mundo que queria ser "normal". E isso tem uma ressonância muito peculiar na adolescência: você quer fazer parte do Bando e ser normal, mas ao mesmo tempo quer ser único e melhor do que os outros. Essa tensão é o que gera a ansiedade. Eu escolhi ser diferentão mesmo. E me orgulhar disso. A barba esquisita é parte desse processo, aliás... 
Por último, eu entendi que revelar isso aos meus amigos de confiança e pedir ajuda nas horas mais tensas aliviava MUITO o peso disso tudo. Tive namoradas que sentaram comigo no canto das baladas até o enjôo passar, amigos que conversavam comigo sobre outras coisas para me distrair da auto-avaliação, pais que me contaram suas próprias histórias de ansiedade. Mas sendo que você já me procurou pra pedir ajuda, acho que não preciso enfatizar essa parte! Você fez muito bem em fazer isso! 

Então, pra fechar esse texto enorme: ninguém espera nada de você. Seja você mesma, diferente, única, estranha e maravilhosa. Converse consigo mesma para entender do que você gosta, use as suas roupas com vontade e com orgulho, considere no Ensino Médio as carreiras que te fascinam e não apenas as que dão dinheiro (o dinheiro vem para quem é apaixonado pelo que faz - vide eu que estou ganhando a vida com arte). 

As coisas não têm todo esse peso, importância e significado que você acha que elas têm. Seja leve. 

quinta-feira, agosto 21, 2014

Resposta para Dora

Não tenho mais escrito por aqui, e acho que o blog está morrendo mesmo. Mas neste ato de morrer, tornou-se também o lugar onde eu venho deixar minhas catarses, meus pontos finais, as soluções dos traumas e conflitos que marcaram meus vinte anos.

Coisas como o pensamento de hoje de tarde.

Por algum motivo, me peguei pensando sobre meus trabalhos dos últimos anos da faculdade de artes. E nessa corrente de pensamento, na série final de retratos que foi meu trabalho de graduação. E sempre que lembro dele, lembro da relação complexa que eu tinha com minha orientadora, Dora Longo Bahia. Como ela parecia escarnecer o fato de que eu estava defendendo como trabalho de graduação uma simples série de retratos. Mais do que isso, escarnecia o fato de eu, um homem, estar pintando retratos suspirosos de mulheres pelas quais eu tinha alguma fixação. Já naquela época, e sem ter estudado os assuntos que levariam ao meu mestrado, eu já conseguia entender que o escárnio dela representava mais do que aquilo que estava na superfície da situação. Era uma mulher forte, independente e contemporânea (leia-se após o estabelecimento dos ideais feministas como parte do status quo), zombando de uma atitude minha que era tingida de um machismo antigo, já bem capenga e moribundo, que nem percebia o quão patriarcal estava sendo. A atitude do pintor homem objetificando mulheres como musas de suas pinturas. Eternizando uma beleza que era apenas beleza, sem conteúdo. Hoje revejo minha série de retratos e tenho pruridos ideológicos em relação ao que eu fiz naquela época.

Mas o pensamento que me ocorreu esta tarde era mais específico do que isso.
Na época da minha banca de graduação, Dora lançou uma pergunta que me assombrou até o dia da banca. Eu morria de medo que meus avaliadores a fizessem porque, segundo Dora, minha resposta não era satisfatória:

"Se a série de retratos (em pintura) é produzida a partir da cópia fiel e realista dos retratos fotográficos destas mulheres, qual é o sentido de se fazer pintura? Por que não simplesmente apresentar as fotos?"

Hoje, tendo compreendido um quê sobre a verdade na arte, compreendi melhor a pergunta. As fotos tinham uma qualidade em si muito mais próxima destas mulheres. Eram o primeiro ato apaixonado de captar a beleza delas. A pintura era um fac-simile de um fac-simile. Perdia força. E tendo compreendido um quê também sobre meu próprio ato de obsessão sobre estas mulheres, compreendi também melhor a resposta. Uma resposta que, por outro lado, validaria esta cópia da cópia como um ato técnico que também tinha seu valor. Quase 11 anos depois da banca de graduação, eu acho que cheguei no que eu deveria ter respondido para minha orientadora.

Dora, o que eu faço é captar, me apropriar da beleza destas mulheres. Desconsideremos (como eu desconsiderava na época) todo o assunto da teoria de gênero (Feminismo, Masculismo, Patriarcado, Big Macho Painters...) que está implícito neste ato. Falemos apenas do ato em si. É um ato obsessivo, de moleque apaixonado que não sabe falar com garotas. De alguém que está procurando, ciente disso, um jeito de sublimar tesão não correspondido. Como ato de fruição estética, eu admito que há mais valor na minha experiência enquanto estou pintando os retratos, do que na experiência de quem vê o retrato pintado e não passa pelo processo. É arte para mim mesmo. Masturbação mesmo.
Neste ato, o mero fotografar da menina é um ato paralelo a uma ficada descompromissada de uma noite. É o usufruto momentâneo e raso da beleza desta garota pelo visor de uma máquina, congelando a imagem com o apertar de um botão, sem prestar atenção em muitos detalhes. Do ponto de vista do meu relacionamento com esta imagem (não com a menina, tenha isto em mente), é um relacionamento superficial, fugaz. Eu terei uma compreensão geral dela, das cores, da gestalt. Ela, a menina (e a imagem também, suponho...), merece mais do que isso.
Pintar o retrato da foto é um ato de obsessão e respeito maior. É paralelo a um namoro, romance de compromisso. É o usufruto demorado, estudado e cuidadoso de cada curva, cada tom acertado de cor naquela luz e naquela pose específica. Um errar e corrigir frequente, como o que fazemos em relacionamentos sérios ao tentar nos adequar ao parceiro. Na minha visão, é um respeito muito maior. Chame-o de objetificação muito maior, de obsessão doentia, chame-o de inocência ou ingenuidade. Não me importo: eu estava pintando para meu próprio deleite, como disse.

Você também pinta a partir de fotografias, né? Mas o que eu vi foram pinturas sem esta paixão estetico-erótica minha. Técnica apuradíssima na cópia realista das imagens, mas sem tesão. Se eu fosse novamente traçar paralelos, diria que é mais como uma transa em uma festa de fetiche. E eu conheço festas de fetiche... O deleite de fazer muito mais do que uma ficada descompromissada (muito mais do que uma fotografia), porém ainda menos do que um namoro firme. Não tenho nada contra. Aliás, até acho instigante. Mas, embora menos obsessivo, também me parece menos respeitoso.

Then again, você não me parecia alguém de namoros firmes.

[Claro que eu não poderia ter dito estas coisas em uma banca de graduação. Elas ficam apenas aqui, como a catarse que eu precisava em relação à Dora e àquela banca. E claro que, tendo estudado teoria de gênero, toda aquela série ganhou nuanças muito mais complexas e desagradáveis para mim, como mencionei.]

sábado, junho 14, 2014

Para Bárbara, sobre depressão


Dia desses recebi a notícia de que uma aluna do Colégio não estava mais vindo às aulas devido a um caso bem sério de depressão. Ela não tem Facebook e eu não tive outro meio de entrar em contato com ela, mas queria muito escrever para ela. Pensei em escrever por aqui e torcer para que, de boca em boca, esta mensagem chegasse até ela de alguma maneira. Depois percebi que estava escrevendo não só para ela, mas para muitos casos de adolescentes com os quais entro em contato, e que estão passando por coisas assim. 

Eu mesmo nunca tive depressão. Pelo menos nada mais sério do que os pensamentos de morte comuns da adolescência. E demorou muito tempo até que eu entendesse o que era este enorme cachorro preto. Eu precisei de filmes como "Melancholia" (Lars von Trier) e a convivência íntima com amigos vitimados pelo cachorro que conseguiram me levar além do muro de ignorância que se ergue entre os deprimidos e o resto do mundo. O tanto que eu gostava dessas pessoas me fez continuar do lado delas sem criticar, até que eu entendesse que aquilo era real. Que elas não estavam apenas com preguiça da vida. Que elas não estavam tristinhas por brigar com o namorado. Que elas não estavam fazendo manha pra chamar atenção. Elas estavam doentes. Mesmo. 

De novo, eu nunca tive depressão. Tudo que eu posso fazer como alguém que vê de fora, é fazer o possível para entender do meu jeito e não colocar mais tijolos naquele muro de preconceitos. O que eu entendi depois de ler muito e perguntar muito é que parte disso é biológico, é um problema relacionado a neurotransmissores no cérebro. O cérebro é um órgão, e como tal, pode adoecer. Isso se resolve com remédios. Mas eles resolvem sintomas pontuais para aliviar o peso, e não resolvem as causas. Estas devem ser curadas pela luta diária dessa pessoa em criar sentido para a vida. Pra fazer até as coisas mais mundanas e banais. E eu não quero ser pretensioso, achando que arte vai curar isso, mas acredito mesmo, pessoalmente, honestamente, que pode ajudar.

Eu não vou fazer a conversa de auto-ajuda de professor tradicional, de te dizer que a vida é linda e você ainda não percebeu. Até porque ela não é. Ela é dura, injusta e irracional. E ninguém sente isso mais do que o adolescente. Uma colega professora me deu o que pensar nesses dias ao dizer que muita gente menciona a adolescência como a melhor época da sua vida. Imaginei o que sentiria um adolescente passando por todo esse tumulto ao ouvir isso. Se ESTA é a melhor época da vida, que grande porcaria vai ser todo o resto! E eu acho bem o contrário: você está sim na pior época da sua vida. Seu inferno particular. Não vou me alongar nos motivos de eu achar isso, qualquer adolescente fala disso melhor do que eu. A boa notícia é que, se esta é a pior época da sua vida, o que vem depois só pode ser melhor. Você só precisa passar dessa época, aguentar um pouco. A vida fica deliciosa depois, se você se abrir para ela e procurar o que é que te agrada, sem preconceitos ou pudores. Ela fica deliciosa quando você vê aos poucos tudo o que você é e consegue fazer se desenvolver e virar um poder. Um verdadeiro poder. Dá trabalho, mas como qualquer obra de arte, você faz sedento pelo resultado, não choramingando o processo. Quem sabe, talvez você até chegue a curtir os processos. Como em qualquer obra de arte. Pra dizer a verdade, é aí que a arte ajuda: naquele "procurar o que é que te agrada" e poder explorá-lo sem pudores, sob a chancela de arte. E isso que te agrada vai criar uma ilha de conforto nessa coisa dura, injusta e irracional. E esse conforto vai virar um continente com tempo e dedicação. A dureza, injustiça e irracionalidade jamais desaparecerão por completo, mas pelo menos você vai ter terra firme no meio disso. 

Os meus vinte anos foram infinitamente melhores e mais cheios de significado do que a adolescência. E os meus trinta estão sendo a melhor época da minha vida. Desconfio que essa avaliação mude quando eu chegar aos quarenta.
  
Então aguente firme. Você é linda. Você tem um talento a ser nutrido. Você tem um caminho a percorrer. E a vista no caminho é de tirar o fôlego. Espero que você entenda que eu não estou dizendo que a vida é linda, mas que ela pode ficar. 

Em tempo, e mais uma vez, eu nunca tive depressão. Em vez disso, eu lutei por anos com um outro cachorro, o da ansiedade. Mas isso dá todo um outro texto, para uma outra pessoa. 


=============================


I recently got word that one of the students from the School was not showing up to class due to a very bad case of depression. She has no Facebook account and I had no other way of getting in touch with her, but I really wanted to write to her. I thought about writing here in hopes that this message could reach her somehow, passing from person to person. Then I realised I wasn't writing only for her, but for many other cases of teenagers I've come across, who are dealing with stuff like that. 
I myself have never had depression. At least nothing more serious than the average death wishes of teenage. And it took a long time until I understood what this huge black dog was. It took me movies like "Melancholia" (Lars von Trier) and the close proximity to friends who were victims of the dog and were able to take me beyond the wall of ignorance that rises between the depressed and the rest of the world. What love I had for these people made me stick around without criticising them long enough for me to understand that this was real. They weren't merely being lazy about dealing with life. They weren't feeling down because they had a fight with the boyfriend. They weren't just being bitchy to draw attention. They were sick. For real. 
Once again, I've never had depression. The only thing I could do as someone who sees this from the outside, was to try my best to understand it in my own way and not add anymore bricks to that wall of misconceptions. And what I understood after reading a lot and asking a lot is that a part of this is biological, it's a problem with neurotransmitters in the brain. The brain is an organ, and as such, it can get sick. This can be dealt with using medication. But medication solves the specific symptoms to lighten the burden, it does not attack the causes. These must be cured through the individual's daily struggle to create meaning in living. To carry out even the most mundane and trivial tasks. And I don't want to be pretentious, thinking that art will heal this, but I really believe, personally, honestly, that it might help.
I'm not going to go into the whole self-help talk a traditional teacher would, of telling you that life is beautiful and you just haven't noticed it yet. Because it's not. Life is hard, unfair and irrational. And nobody feels that more than the teenager. A teacher colleague of mine gave me much food for thought recently by saying that some people mention teenage as the best time of their lives. Imagine what a teenager would think upon hearing that if he or she was going through all this turmoil. If THIS is the best time of my life, what a load of crap the rest of it is going to be! And I believe in quite the opposite: you are indeed in the worst time of your life. Your own private hell. I'm not going to try to explain this opinion of mine, any teenager can talk about this better than I can. The good news is that, if this is the worst time of your life, what comes later can only take a turn for the better. All you need to do is get through this stage, hold on a bit longer. Life turns out to be delicious after this, if you open up to it and actively look for what it is that pleases you, unabashedly and with an open mind. It turns out to be delicious when you slowly but surely see everything you are and everything you can do evolve and become your power. Real power. It's hard work, but as with any work of art, you do it out of a thirst for the result, not whining about the process. Who knows, you might even enjoy the processes. As with any work of art. To tell you the truth, that's where art helps: in "looking for what it is that pleases you" and being able to explore it unabashedly, under the guise of art. And this thing that pleases you will create an island of comfort within this hard, unfair and irrational thing. And this comfort will turn into a continent if you give it time and dedication. The hardness, unfairness and irrationality will never disappear completely, but at least you will have dry land in the middle of it. 
My twenties were infinitely better and more meaningful than my teens. And my thirties are being the best time of my life. I suspect this assessment will change once I reach my forties. 
So hod on. You are beautiful. You have a talent that must be nurtured. You have a path to travel. And the view along the way is breathtaking. I hope you understand that I am not saying life is beautiful, but it can be made so.  
In time, and once again, I have never had depression. Instead, I fought for years with another dog, that of anxiety. But that's a whole other text, for a whole other person.

segunda-feira, março 24, 2014

Equipe do Mural - Semana 1

Vou tentar resumir a história até o momento, aproveitando que estamos ainda no começo. 

Desde que cheguei para dar aulas no Colégio, uma das coisas que me chamou a atenção foi que a professora de Artes que dava aulas antes de mim tinha conseguido um verdadeiro milagre: havia agora trabalhos de arte dos alunos espalhados por algumas paredes do Colégio. O milagre se dava pelo fato de que o arquiteto responsável pela identidade visual do Colégio era radicalmente contra qualquer desses tipos de "interferências", zelando sempre por paredes ou imaculadamente cinzas de concreto, ou com tijolo aparente, que de fato haviam se tornado a marca registrada da instituição. No meu primeiro ano, eu convivi com um enorme mural no pátio, que era uma mistura de referências da história da arte, da Mona Lisa, ao Abaporu. Só que durante as reformas das férias deste ano, devido à colocação de novos aparelhos de ar condicionado, o mural foi danificado, e alguém ordenou que fosse pintado por cima. Fiquei feliz com a reação dos coordenadores, que acharam aquilo um absurdo e prontamente montaram planos para refazer o mural. Eu me candidatei a chefiar a empreitada, que passaria a dar um objetivo para o meu curso de pintura que saíra do Memorial da America Latina no ano passado por causa de uma enchente e um incêndio (sem relação com a minha presença por lá, diga-se de passagem...) e agora estava sendo ministrado no Colégio mesmo. 

Ao contrário do que eu tinha feito no ano passado, anunciei o curso para pessoas que já tivessem alguma experiência de pintura, para montar uma equipe que não precisasse começar do zero em suas noções de cores, materiais e etc. 

A nossa primeira reunião trouxe uma colcha de retalhos de jovens artistas. Muita gente que desenhava, uns poucos que pintavam. Retratos, paisagens, esqueletos, modelos de moda... Eu sentia que dava pra trabalhar com estes poucos. Mas apesar de perceber que eles tinham conhecimento técnico, tinha medo de que eles não conseguissem se soltar, falar de assuntos mais pessoais, aqueles verdadeiramente interessantes, que fariam o Colégio perceber o mural, levá-lo a sério. Eu não queria que o mural acabasse sendo uma pinturinha comportada para papai e mamãe verem. 

Afinal, o que eu queria com o mural? Eram vários impulsos que me moviam... 
É claro que eu queria que o mural tivesse referências da história da arte. Não dá pra ignorar o passado, as origens, os grandes mestres. Mas fazer só isso seria um desperdício de espaço, esforço e esperteza. 
Um outro professor do Colégio tinha recentemente feito uma turma de fotografia extra-curricular, onde ele conseguira explorar com os alunos as opiniões que eles tinham de adolescência. Eles tinham expressado toda a dor, as ansiedades e as dúvidas dessa idade. Eu queria que o mural fosse mais assim. Que ele não exaltasse o Colégio por obrigação, mas também reconhecesse que tinha muita coisa aqui que fazia a adolescência valer a pena. 
Também queria que ele servisse como um chamado para atacar uma mentalidade vigente no Colégio desde a época em que eu era aluno, e que considerava arte uma futilidade. E quem era interessado por arte um diletante estúpido, ou pior, um CDF. Eu queria que o mural desse status a quem faz arte mesmo. A quem sente, a quem presta atenção nas coisas, a quem põe a mão na massa e entende de estética, design. 

E nesse último quesito, fiquei muito feliz quando algumas outras pessoas apareceram no segundo encontro. Eram alunos do segundo ano, algumas que tinham participado do curso de pintura do ano passado. Muita gente com ares de grafiteiros, de gente descolada, ou daquele jeito que na minha época era chamado de gótico, passou a ser emo e hoje era chamado às vezes de hipster. Eles eram desprezado em alguns círculos por serem diferentões, mas eram a turminha popular de outros círculos. Eu gostava bastante dessa gente porque eles experimentavam a vida. Roupas diferentes, novos jeitos de se comportar, de se querer, e principalmente de fazer. Eles não tinham medo. Se ficasse ruim, jogavam fora e começavam de novo. 

Eu ainda não vou dar nome aos bois (e vacas, sem intenção pejorativa...). Ainda é cedo, e eu suponho que muitos desse grupo ainda vão desistir e outros ainda vão entrar. Mas basta dizer que eu acho que temos uma mistura MUITO saudável de todo tipo de gente que o Colégio tem. Tipo um Breakfast Club do Colégio. São pessoas estranhas, e é isso que eu gosto em todos eles. 

No nosso primeiro encontro de trabalho mesmo, eu mostrei a eles como fazer transferência com thinner e fizemos novas edições de dois dos meus Phallics de Londres. Depois propus a eles para criarmos algum espaço para podermos falar anonimamente sobre tudo. Uma das meninas propôs uma conta de e-mail. Todo mundo tem a senha e pode mandar mensagens aos integrantes do grupo por esse e-mail. Ninguém sabe quem mandou. Acho que vai ser bom para desinibir essa turma. Se pudermos quebrar a barreira da timidez e do medo da reação dos outros, acho que esse grupo vai ter ótimas perspectivas.   

Miopia seletiva

Eu percebi o problema pela primeira vez durante o meu segundo ano de aulas no Colégio, em uma aula sobre proporção humana. Além de ter todo o esquema de proporções do corpo (as 7 cabeças e tal) projetado na frente da sala, tinha feito outros rabiscos e desenhado outro corpo ao lado da projeção. No que, até então, era uma imagem corriqueira das minhas aulas, eu estava passando por entre as mesas, respondendo a chamados de alunos que queriam saber apenas uma coisa: "Psor, tá certo?" Eu ia respondendo com toda sinceridade, sim, não, quase lá, tá errado aqui e ali. Mas em uma turma particularmente barulhenta, me vi sobrecarregado de alunos pedindo minha atenção por essa pergunta tão simples. E aí me bateu: por que é que eles perguntam, se a resposta está diretamente na frente deles? Passei a responder de uma forma até um pouco mais grossa, dizendo "largue o lápis, olhe para a lousa".
"Mas psor, me diz você se está certo!"
"Largue o lápis, olhe para a lousa".
Os alunos demoravam algumas repetições até fazer o que eu estava pedindo. Depois eu perguntava: "está parecido com o seu caderno ali no pescoço da figura?"
"Mas psor...."
"Está parecido com o seu caderno?" eu insistia.
"Não mas..."
"Então não está certo, né?"
O aluno reagia não como se fosse contrariado, mas como se levantar a cabeça e olhar para o que estava sendo colocado diante deles fosse uma tarefa árdua, pensar na informações fosse exaustivo. Ter o rápido sim ou não do professor era muito mais confortável.

Essa aparente miopia dos alunos, que incapacitava por vezes até os que se sentavam à frente de enxergar as respostas dispostas diante dos olhos deles, ganhou ares de seletividade mais adiante, no final daquele ano. Na última aula de um 9º ano, que jamais teria aula comigo de novo, eu me dei por vencido diante de uma classe totalmente descontrolada, que não respondia a pedidos de silêncio nem ao silêncio do professor, mas continuava me rodeando em volta da minha mesa, pedindo orientação sobre o que estudar para a prova. O problema ali era que todos os que me rodeavam estavam essencialmente perguntando a mesma coisa, mas todos queriam uma resposta tête-a-tête, única, para aquele indivíduo.
Vencido, eu abri um Word projetado na lousa e passei a escrever as orientações para a prova. A quem me perguntava, eu respondia lacônico: "na lousa..." e voltava a escrever. A balbúrdia não cessou, mas os alunos passaram a ler, todos juntos, às mensagens que eu projetava, voltando depois à mesa para fazer mais perguntas.
Mas o que mais me chamou a atenção foi quando, entre os alunos lá na frente, eu vi alguns deles tirando seus iPhones para fotografar a tela. Mudei de fonte de letra, e passei a escrever:

[perceberam como ninguém dá a mínima para o que eu falar, mas se eu escrever, todo mundo lê e ainda fotografa? Entendamos assim: contato direto não funciona, vocês precisam ler depois uma foto do que eu ia dizer agora. São três graus de separação: fala - escrita - foto. Quanto mais separado eu estiver de vocês, mas atenção eu terei?]

A ideia parecia familiar. Me lembrava daquela outra cena comum das aulas, quando algum dos alunos perguntava: "Psor, isso tá no site do Colégio?". E a partir do momento em que eu respondia afirmativamente, aquele aluno ia perder qualquer atenção na aula e passar a jogar em seu iPad, crente de que poderia ter o mesmo efeito assistindo à aula ou pegando os arquivos do site. Ninguém mais escrevia nada. Quando muito, fotografavam uma tela projetada lá na frente. A foto, claro, jamais seria vista por eles.

Hoje aconteceu a cena mais recente dessas. Ultrajado porque ninguém lhe disse que os sketchbooks valeriam nota, um aluno do 8º ano me confrontou, dizendo que essa informação não estava no site do Colégio. Aproveitava ainda para confrontar as datas erradas que eu tinha colocado no site sobre a entrega de um exercício fotográfico. Incrédulo, eu só pude questionar se a minha presença lá na frente ainda valia alguma coisa. Eu tinha avisado sobre o valor dos sketchbooks na primeira aula do ano, e anotado no canto da lousa, como de praxe para qualquer lição de casa, a data da entrega do exercício. Mas de nada importava, o site do Colégio ditava as regras. Era ao site que eles respondiam. O site era tudo. Eu, ali na frente, era uma distração barulhenta, incompreensível como os professores do Charlie Brown. Comentei com a classe, que eu conseguira miraculosamente acalmar, que do jeito que as coisas estavam, o Colégio poderia disponibilizar aulas no site, e ninguém precisava estar lá. Alunos pesquisariam em casa, professores só viriam ao Colégio para administrar provas.

E por mais que, no fundo da cabeça de qualquer um, essa possibilidade parecesse tentadora, havia uma falha desumana nesse tipo de raciocínio, e ela tinha absolutamente tudo a ver com a minha matéria. Eu viera a compreender ao final do meu segundo ano de aulas, que o que eu deveria estar ensinando a estes alunos não era a história do surgimento da fotografia, ou que misturando cores primárias nós chegamos às secundárias. Não era a sucessão de movimentos de arte ou o jeito "certo" de fazer um roteiro de filme. Eles precisavam aprender uma coisa ainda mais básica. Uma coisa que eles estavam perdendo com o avanço tecnológico. Uma coisa que eles talvez só fossem perceber muito depois de se formarem da faculdade, quando a vida perdesse o sentido e parecesse fria demais. Eles precisavam aprender a ver.

Eles precisam aprender a ver em vez de apenas enxergar. A ouvir em vez de apenas escutar. Sentir em vez de só tocar (continuo achando o touchscreen a maior ironia desta época...). No âmbito da Lexy, ela diria ainda em saborear em vez de apenas experimentar. Era uma questão de percepção. Estes alunos estavam com a percepção tão embotada, tão atrofiada, tão esquecida, que haviam desenvolvido esse tipo de miopia seletiva, de visão meramente funcional, que só servia para navegar o ambiente sem bater nas mesas. Porque nem para ler servia direito. Para isso, tinha algum professor que lia por eles. As respostas estavam diante deles, assim como aquele desenho de proporção estivera, e eles não conseguiam VER!!

E naquele momento de compreender isso, eu tive raiva. Deles, dos pais deles, dos iPads e iPhones deles, de toda essa situação. De mim, por toda a impotência diante do valor cada vez mais questionável que eu tinha como professor. E a questão não era que eu achasse que seria substituído pela internet e aparelhos de mão. A questão é que estas coisas jamais ensinariam a estes alunos sobre percepção. Elas eram necessárias hoje, faziam parte da realidade deles. Mas valiam à pena se o preço a pagar era o esvaziamento dos sentidos?

Com toda a raiva, eu ao menos havia entendido a importância que os professores tinham, e que parecia cada vez mais indiscutível, na era da informática.