Há uns
quatro anos, quando comecei a dar aula no Colégio, um aluno me perguntou por
que eles estavam estudando artes, cinema, coisas do tipo. Afinal, não cai no
vestibular, né?
Se
explicados sob a perspectiva do poder da mídia, os acontecimentos recentes na
Europa respondem por mim. Os ataques recentes a Paris mataram 129 pessoas,
causando comoção mundial e tingindo o Facebook de fotos de perfil com as cores
da França. O impacto desse ataque, em termos de valor simbólico, não chega aos
pés do impacto do ataque às Torres Gêmeas nos Estados Unidos em 2001. Até
porque morreram mais pessoas nos Estados Unidos (estimativas falam de números
superiores a 3000 pessoas entre os terroristas, passageiros dos aviões,
ocupantes das Torres, bombeiros e outros funcionários de serviços de
emergência).
Tenho
dificuldade em estimar a quantidade de árabes (iraquianos, iranianos, ou
sírios) mortos por ataques de bombardeio americanos ou franceses. Dificuldade
porque não há identificação específica para cada incidente (como em
"ataque às Torres Gêmeas" ou "Atentado em París"). Sem
delimitar isso, não se pode contar onde começam e onde terminam as mortes
(desde o começo das guerras contra os árabes? desde que os franceses começaram
a bombardear Raqqa? ou só o bombardeio deste domingo?). Ou seja, não há
amostragem do quão grande é a tragédia do lado de lá.
[DISCLAIMER:
não considero nenhuma tragédia superior ou inferior à outra. Tudo que tem
acontecido é péssimo. Mas há valor didático no modo como essas tragédias estão
sendo noticiadas.]
Na mídia,
as coberturas são tão diferentes e parciais quanto a mídia daqui é ao falar
deste ou daquele partido político. Por lá, a cobertura do incidente na França
mostra pessoas em desespero chorando pela violência "inexplicável",
propriedades e vidas irremediavelmente destruídas. Sobre os incidentes na
Síria, mostram os reluzentes jatos de guerra franceses, como se vendessem o
carro do ano. Como se aquilo fosse certo. Jornais proclamam que os bombardeios
acertaram acampamentos de treino de terroristas e que nenhum civil morreu no
ataque, mas grupos no Twitter comentam que o ataque acertou um estádio, um
museu, clínicas, um hospital e prédios do governo. Será que ninguém saiu ferido
mesmo? Em quem acreditar?
Nesse ponto
do texto, o garoto que me perguntou a razão de estudar Artes já deve ter parado
de ler. Mas caso ele ainda esteja acompanhando, vou resumir a moral da
história. Estamos muito bem informados da miséria e da tristeza na França (com
“apenas 129 mortos), mas temos apenas uma vaga noção glamourizada da violência
na Síria. A imagem das Torres Gêmeas nos chega em gloriosas fotos em HD, mas
ninguém lembra do quão lindo era o Iraque antes dos ataques americanos.
Os EUA e a
França entenderam a importância da mídia, das artes e da expressão. Eles
entenderam que, usadas corretamente, essas coisas fazem mais efeito do que
centenas de bombas. Elas convertem milhares de pessoas no mundo inteiro para o
lado de quem souber usá-las. O garoto que me perguntou a respeito vestia
Abercrombie e cantarolava músicas americanas: ele nem percebia, mas já tinha
sido colonizado através de anos de exposição a filmes de Hollywood e bandas de música
pop.
Você estuda
arte no Colégio para entender que estão te contando só um lado da história. SEMPRE.
É o lado de quem entendeu e investiu na importância da mídia. Você estuda arte
para ter consciência de como estão te colonizando. Você estuda arte pra poder
escolher se quer aprender a usar essa ferramenta, e para qual finalidade.
Você estuda
arte para não ser controlado por ela.