quarta-feira, julho 30, 2008

Grafite

Grande é o homem que consegue reconhecer que estava errado.
A Revista da Folha da semana passada trouxe na capa uma reportagem sobre grafiteiros e como eles estão sendo reconhecidos como artistas. De fato, até o dia 25 de Agosto, a fachada do TATE Modern em Londres permanecerá decorada com obras de diversos grafiteiros de vários países, incluíndo duas de brasileiros (uma da famosa dupla osgemeos e outra de alguém que se apelida Nunca).
O fato que deu base para a matéria da revista foi o pedido de desculpas do atual prefeito Gilberto Kassab, que chamou a dupla osgemeos para uma conversa depois que seu programa Cidade Limpa passou tinta cinza por cima de um grafite histórico de 680 metros na Avenida 23 de Maio. A obra continha contribuições de grafiteiros reconhecidos tanto no mainstream quanto no underground como Nina Pandolfo, osgemeos, Vitché e Herbert Baglion. A dupla de grafiteiros chamada para a conversa parece fazer a ponte entre uma técnica relegada às ruas, considerada coisa de marginal, e a sociedade de status das galerias de arte e instituições governamentais. Deixaram de ser moleques, ganham a vida com isso de forma madura e foram provavelmente a escolha mais sensata para conversar com o prefeito.
Já a atitude da prefeitura foi o mais estereotipado possível: passar o cinza, a cor da poluição e da apatia, por cima de uma obra cheia de cor e expressividade. Entusiastas da semiótica teriam orgasmos em cima disso...

Mas escrevi a primeira frase deste post não para falar do Kassab, mas de fato para falar de mim mesmo.
Minha turma da faculdade de arte era composta de pouco mais de 40 pessoas, e uma minoria de homens. Dessa minoria, exceto por mim e outro rapaz, os outros eram todos grafiteiros ou simpatizantes do assunto. Eu os enxergava com o desdém de quem nasceu em família de classe alta, o preconceito academicista de quem praticava pintura de cavalete. O preconceito estereotipado de achar que eles eram arruaceiros de pouca inteligência. E a raiva de perceber que o grafiteiro-mor da classe, Giuliano Montijo,era premiado com bolsas de estudo em todas as exposições anuais da faculdade.

Pausa para traçar um paralelo com a história.
O rock, especialmente nas vertentes do fim do século XX, também era considerado coisa de arruaceiros acéfalos. Principalmente por ignorar as convenções do que era considerada boa música na época e permitir a exisência de movimentos como o punk já mencionado por aqui, onde não era preciso saber tocar para ter uma banda. Mas por ser extremamente popular, o estilo continuou existindo e evoluíndo até chegar na forma respeitada de hoje. Em parte porque seus expoentes desenvolveram, ao longo do tempo e da prática, suas próprias convenções do que é considerada boa música. E em parte porque existem a tanto tempo que não é possível ignorá-los como parte da história da música. Bom ou ruim, é o que a maioria das pessoas estava escutando durante metade do século passado e isso por si só já representa uma era.
O grafite já passa pelo mesmo processo. A estética já é tão desenvolvida que as pessoas no meio publicitário procuram um visual relacionado ao movimento para falar de coisas populares. Fala-se de uma "cara de grafite". E lembro de conversas entre os grafiteiros do curso de artes, que conseguiam reconhecer o estilo deste ou daquele colega por minúcias estilísticas.
Não é possível negar que o mesmo paralelo acontece no quesito histórico. Alguns painéis existem desde tempo imemoriais, como o que foi apagado na 23 de Maio. Provavelmente figuram em fotos históricas da cidade. E por serem fruto de pessoas que têm esse contato direto com a rua e a realidade da cidade, provavelmente dizem muito mais sobre o contexto histórico e com muito mais propriedade e sentimento do que qualquer pintura de cavalete produzida por um filho de classe alta, preconceituoso e isolado como eu.

Aos meus colegas de classe e aos grafiteiros em geral, minhas desculpas.

terça-feira, julho 29, 2008

Anima Mundi 2008 - aftermath

"Salvo exceções, todos os meus amigos são uns avós. Minha chefe foi comigo no Anima, mas vocês não!" - Lexy, no Twitter.

Deixo claro que gostei muito do Anima Mundi desse ano. Muito da minha satisfação estava no nível de organização que minha Lexy me ajudou a conseguir, tendo todas as sessões que eu sugeri organizadas, os ingressos comprados de antemão, os horários estrategicamente pensados. Provamos que, com boa organização, até um evento lotado fica muito agradável. Assistimos a todas as sessões do sábado e algumas dos outros dias. Até nossa chefe compareceu com a filha e mais alguns outros da agência.

No entanto, preciso também apontar que o evento desse ano já mostrou sinais de que está se desgastando. Sinais claros como a falta de uma sinalização mais adequada e principalmente de um staff mais treinado. Acho que vi crianças em todas as sessões proibidas para menores de 16, incluíndo o violento e pronográfico (mas muito bom) Princess. E como que a sessão da Blizzard pode estar na categoria "Papo Animado" se não havia ninguém da empresa lá para falar (a sessão mostrou apenas várias animações de jogos conhecidos)?

Tirando esses deslizes, o resto do evento estava de fato muito bom. A programação nos deu algumas boas surpresas. Acho que Lexy até agora não tem opinião sobre o Princess. Eu gostei, embora concorde que às vezes ficou meio gratuito demais.
A Curtas 17 tinha coisas ótimas. O belíssimo Come again in Spring sobre um velho que engana a morte. Me impressionei, porque nunca gostei de nada do National Film Board of Canada. Mas este era diferente. Ri muito com o Harmonix "Rockband" (assista no link!). A abertura é exatamente a sensação de poder que eu queria ter com a voz e nunca tive. A sessão terminou com uma aula de geografia s história muito doida em Fra Alaska til Kenya.
Em seguida pegamos a Curtas 14, que tinha diversas coisas muito boas, mas nada tão bom quanto o Oktapodi, que ganhou o prêmio de melhor filme de estudante.
A Curtas 12, do filme da Disney, decepcionou um pouco. Não era tão hilário quanto os desenhos antigos que eu assisti. Lembro de rir até ficar sem fôlego nos desenhos dele. Esse foi mais aquela risada "hehe" do que uma gargalhada.
A Curtas 07 tinha o Hot Dog do Bill Plympton (que você assiste aqui). Não tenho o que dizer: é Plympton. Sou meio suspeito pra falar porque sempre gosto das coisas dele.
Saímos no meio da sessão para conseguir pegar o workshop do grupo Tochka. Eu estava acompanhando o grupo há algum tempo, porque eles chegaram na mesma idéia que eu em relação às possibilidades da fotografia, mas levaram ao próximo passo, fazendo animações com a técnica! Fiquei muito surpreso quando soube que eles estariam no Anima Mundi e não podia deixar passar a chance de participar. Vou tentar encontrar a animação que fizemos e colocar o link por aqui.
Por causa do workshop, perdemos o segundo longa da mostra, o brasileiro Belowars. Conhecidos nossos que assistiram não pareceram muito entusiastas a respeito. É bom perceber que fizemos a escolha certa. De fato, a obra ficou em último na competição do festival.
Logo em seguida, pegamos talvez a melhor sessão de todas. A Curtas 01 tinha surpresas fantásticas: o hilário Office Noise, que tenho certeza que teve muitos simpatizantes;
o belíssimo Le Jour de Glorie, onde os mortos da guerra de trincheiras, de tão cobertos de lama, caem no chão e se fundem à terra; Franz Kafka Inaka Isha, baseado na obra do Kafka e com uma estética que faz juz ao escritor (achei que só eu ia gostar, mas todo mundo adorou); e o gostoso Glago's Guest, também da Disney.
Terminamos o sábado com o longa do Bill Plympton, Idiots and Angels. Como eu disse, é Plympton e eu gosto de tudo que ele faz. Mas confesso que esse podia ter uma meia hora a menos se o roteiro fosse bem decupado.

Pra terminar esse post que já tá lotado de link, você pode conferir os ganhadores do festival no blog oficial do evento. E se você quer ver mais curtas interessantes, a Bruna Calheiros (popular Baunilha) postou vários no blog dela.

Ufa! Já calei!

domingo, julho 27, 2008

Fazia muito tempo que eu não respondia uma dessas.

Four jobs I’ve had
1. Assistente de arte mal-pago
2. Garçom de pub
3. Mesa de informações em feira de surfwear
4. Assistente de arte um pouco menos mal-pago


Four movies I can watch over and over
1. Matrix
2. Princess Mononoke
3. The Dark Knight
4. Empate entre Entrevista com o Vampiro e Drácula do Coppola


Four places I’ve lived
1. Bogotá, Colômbia
2. São Paulo, Brasil
3. Perugia, Itália
4. Acton Town, Londres, Inglaterra


Four TV shows I love
1. Lost
2. Evangelion / Gasaraki
3. Cowboy Bebop
4. Friends


Four places I’ve vacationed
1. Maceió, Alagoas, Brasil
2. Bonito, no Pantanal
3. Bariloche / Buenos Aires (com o colégio – BLARGH!)
4. Disney (mas era inverno e não fui no Typhoon Lagoon!)


Four of my favorite dishes
1. SUSHI! Sushisushisushisushisushisushisushi!!
2. Qualquer coisa com gorgonzola, a descoberta culinária do milênio.
3. Empate técnico entre pudim de leite, pavê e marzipan
4. Sushisushisushisushisushisushisushi!!


Four sites I visit daily
1. Yahoo! Mail
2. Brainstorm #9
3. Who killed Bambi
4. Sinfest


Four places I would rather be right now
1. Em um barco no meio do mar aberto no Caribe, com tanques de mergulho
2. Em um riacho no meio da mata, fazendo trilha.
3. Em um BF Night , varando a noite jogando Battlefield na extinta VegaMax.
4. Na TATE Modern, em Londres, na frente do Eine Kleine Nachtmusik da Dorothea Tanning. Na verdade, o museu e o quadro são opcionais, o que importa é Londres.


Four bloggers I am tagging
Se eu for enumerar os blogueiros que sobraram depois do suicídio bloguístico coletivo dos últimos anos, eu dificilmente vou chegar a quatro pessoas... People grow up. Mas aparentemente, eu não.

quarta-feira, julho 23, 2008

Anima Mundi 2008 - Info

Começa hoje a edição de 2008 do Anima Mundi! E depois do sucesso que foi a nossa visita anterior altamente planejada com requintes de Guerrilha Cultural, Lexy e eu resolvemos planejar esta ainda melhor. Monitorei os jornais para saber das animações mais cotadas e vasculhamos a programação da mostra no site oficial atrás de nomes conhecidos e coisinhas interessantes. Tudo compilado e organizado em uma tabela que vocês encontram aqui.

[DISCLAIMER]
Levem em conta apenas algumas coisas.
Em primeiro lugar, nós desencanamos das sessões no CCBB, colocando na nossa programação apenas as sessões que acontecem nas três salas do Memorial da América Latina. Isso porque ir de um lugar para o outro a tempo de pegar as sessões nos pareceu meio inviável (principalmente considerando que os meios de transporte estarão lotados de gente tentando fazer justamente isso). A decisão sacrificou algumas coisas legais como a retrospectiva do Ray Harryhausen, animador de stop motion que fez muitos dos filmes de mitologia antigões ("Viagem de Sindbad", "Jasão e os Argonautas", "Duelo de Titãs"). Segundo, cada sessão de curtas passa duas vezes, portanto se você perde uma, consulte o site do evento para ver um horário alternativo. Por último, nem mesmo com tanta Guerrilha Cultural dá pra ver tudo. Tem algumas coisas legais que não entraram para a nossa planilha por questões meramente financeiras ou de tempo. Pesquise!
[/DICLAIMER]

E para quem quiser nos acompanhar em alguma das sessões desta maratona animada ou simplesmente quiser uma dica de algo legal, vai abaixo alguns comentário de coisas que achamos interessantes na edição deste ano.

Na quinta, o Curtas 10 (sala 1, às 22h00) tem como destaque o Dossiê Rê Bordosa, que conta como o Angeli matou sua famosa personagem dos quadrinhos, interpretada recentemente no cinema por Rita Lee em Wood & Stock: sexo, orégano e rock n’ roll. Não sei se é ela fazendo a voz da personagem no curta, mas há boas chances de ser.

A sexta tem como destaque o longa Pricess (sala 1, às 22h00) do dinamarquês Morgenthaler. É um desenho animado com um tema pesado (pra ver que desenho não é só coisa de criança) e uma técnica que mistura animação e live action (atores de verdade, que nem no Roger Rabbit). Pessoalmente, eu adoro temas pesados, mas quem quiser uma coisa mais leve, pode ver a sessão Portfólio (sala 3, às 21h30): uma sessão de animações publicitárias. A mesma sessão acontece no domingo (ver horário e sala abaixo) e recomendo que nós, publicitários, passemos para dar uma olhada.

O sábado é o dia mais lotado. Começa com a Curtas 17 (sala 1, às 12h00), com destaque para o Passo de Alê Abreu. Ele é figura carimbada do Anima Mundi, participou das últimas três ou quatro edições e na última estreou seu longa Garoto Cósmico. Mais adiante, o Curtas 12 (sala 1, 16h00) tem How to hook up your home theatre (Como instalar seu home theater), curta da Disney com o Pateta, naquele clássico formato pseudo-didático onde ele ensina como fazer alguma coisa do jeito errado. Logo em seguida, o Curtas 07 (sala 2, 17:00) tem o Hot Dog do Bill Plympton. Quem conhece animação, conhece Plympton, que também sempre está no festival e com animações hilárias com um estilo bem legal. Ele é americano e vive criticando o estilo de vida. Hot Dog é o terceiro curta com o personagem de um cachorro (desenhado de uma forma meio torta e irreal, mas muito engraçada). O horário seguinte tem uma escolha a ser feita. O longa Belowars (sala 1, 18h00), único brasileiro concorrendo na competição dos longas, dura mais de uma hora, e torna impossível sair da sessão para entrar na Curtas 16 (sala 2, 19h00), que tem como destaque o Weatherman de Will Beecher, que já trabalhou com o pessoal do estúdio Aardman, que faz Wallace & Gromit e o delicioso Creature Comforts que dá pra ser encontrado no YouTube. O dia termina de forma magistral com o longa Idiots and Angels (sala 1, 22h00) do já mencionado Bill Plympton.

Depois dessa maratona toda, o domingo é mais sossegado. O destaque para os rapazes fissurados em games como eu é a palestra do pessoal da Blizzard (sala 3, 15h00), famosa produtora de vídeo games que lançou sagas completas como Warcraft, Starcraft e Diablo. A palestra de Andréas Hykade acontece algumas horas depois (sala 1, 18h00). Ele é pouco conhecido, mas tem um estilo de desenho parecido com o grafite, e temas sempre mais adultos, entre crítica e erotismo. O dia termina com a sessão Portfólio (sala 3, 21h30) de animações para publicdade, ótima forma de terminar o fim de semana de animação e ainda chegar pra trabalhar na segunda com publicidade na cabeça.

Bom, as dicas ficaram quilométricas, mas ajuda quem quiser nos acompanhar em uma ou outra sessão da maratona! Eu queria botar links para imagens dos diversos animadores aqui, mas aí eu já estaria entrando naquele nível de blogagem pouco saudável que minha mãe chama de perda de tempo...

Agora, sigam-me os bons!

quinta-feira, julho 10, 2008

Explosão

O Armindo Trevisan comentava no Como Apreciar Arte que existem dois tipos de arte, uma relacionada à matéria e ao objeto físico em si; e uma outra relacionada ao tempo, à apresentação. Uma das conseqüências lógicas da constatação é que a arte de matéria (pintura, fotografia, escultura) não depende de tempo. Ou melhor, cada um escolhe seu tempo de fruição, podendo demorar-se horas (às vezes anos) para absorver completamente uma pintura ou apenas alguns segundos. Enquanto isso, a arte de tempo (música, teatro e até mesmo a literatura) não depende de matéria, mas sim daquele momento específico da apresentação onde determinado elemento é revelado para causar seu impacto. Ou seja, se você lê um clássico da literatura em papel ou na tela do computador, a obra é essencialmente a mesma: o que vale é o momento de cada estímulo ser apresentado.

Quis a vida que eu acabasse me dedicando mais às artes de matéria. Todas as questões de representação que sempre me interessaram foram do âmbito da matéria (cor, luz, textura, volume). Mas tem uma questão de tempo que sempre me seduziu muito. Por falta de termo técnico, eu chamei de explosão. Os casos mais significativos que tenho na memória são todos relacionados à música, embora eu possa citar outros se tentar lembrar. Canções que cresciam, cresciam, e então liberavam toda a energia em um único acorde/batida de percussão/grito. A dança do Michael Jackson era toda sobre explosão: em vez de fluir, ele disparava os braços, as pernas, o grito; como para dissipar uma energia que ele não conseguia conter. E era tudo pontual, em um momento específico. Procurem o clipe de Dirty Diana: o diretor de arte do clipe até ilustrou o que eu quero dizer, fazendo eletricidade emanar dos dedos do cantor a cada movimento mais explosivo.

Me seduz profundamente a vontade de executar uma explosão assim. Liberar de uma só vez toda a energia que represo durante o dia retendo emoções para evitar conflitos (poupem-me dos insights de psicólogo sobre o quanto isso é prejudicial e errado, eu já ouvi vários...).

Cheguei a experimentar, na literatura. O final de Margot era uma tentativa disso. Mas no texto, a explosão fica mais no prazer de quem lê a cena do que de quem a escreve. Não há explosão no escrever.

No teatro era mais fácil. A última coisa que fiz há alguns anos foi um monólogo apresentado na USP. Em certo momento, eu tirava do rosto a máscara de cerâmica que estava usando e a jogava no chão, pulverizando a argila seca. A platéia segurava a respiração por um deliciosamente tenso momento.

Mais recentemente, tentei na música, com a banda. Descobri que era possível faze-lo em conjunto: a banda inteira crescendo para um estouro final, como no que fizemos com o Fall to Pieces do Velvet Revolver ou momentos não tão pontuais como o Sweet Dreams are Made of This. Mas como o momento de explosão não fica exatamente sob meu comando, não é a experiência liberadora que eu esperava (apesar de ainda ser um efeito animal!). A outra possibilidade, de explodir a voz e soltar com ela toda a raiva contida, encontrou um contratempo de “hardware”: a mente e o ímpeto disparam em direção à nota e o volume perfeitos, mas a garganta não acompanha.