segunda-feira, junho 17, 2013

Aula de roteiro

Postado no Facebook, aproveitando as aulas de roteiro que dei aos meus alunos.

CENA 1: 
VIDEO: PG (Plano Geral) aéreo dos manifestantes organizando a maior manifestação pacífica em anos de história da cidade de São Paulo, tomando a Avenida Paulista. 

AUDIO: (cantos em coro mostrando indignação contra os R$3,20 do transporte, o custo da Copa, a violência policial, a corrupção, o Renan Calheiros e a PEC 37.) 


CENA 2: 
VIDEO: "Fade" para cena PC (Plano Conjunto) dos líderes do Movimento Passe Livre dialogando com o governo e a mídia toda achando essa abertura para o diálogo linda. 

AUDIO: Líder do movimento: "Só achei um absurdo sermos recebidos pelo Ministro da Segurança Pública e não pelo Ministro dos Transportes".
CENA 3:
VIDEO: "Fade" para PD (Plano Detalhe) de um canto de TV onde a manchete de um jornal afirma que o governo voltou atrás nos R$3,20 e que as manifestações pararam. 

AUDIO: Âncora do Jornal: "...o governador do Estado Geraldo Alkmin garantiu ontem que as tarifas não sofrerão mais alterações durante seu mandato".
CENA 4:
VIDEO: Corte para PC de dois adolescentes na sala de casa, assistindo TV. 

ÁUDIO: Ele: "Que bom que os protestos acabaram, né? Tanta violência...".
Ela: "É mesmo. E nós conseguimos o que queríamos. O povo brasileiro mostrou que não vai mais ser feito de panaca.˜
Ele: "É... E o Alckmin mostrou que é um cara bacana, um político legal. Metrô voltou a R$3,00. Mas sabe que eu tô com uma sensação de que a gente esqueceu alguma coisa...."
Ela: "O que?"
Ele: "Não sei... Deixa pra lá. Tira desse jornal noticiando mais um escândalo de corrupção sem solução e bota na Globo que o jogo da Copa tá começando!"

Pessoal, muita calma nessa hora. Esses políticos vão saber exatamente como desarmar essa situação e ainda saírem por cima. Prestemos atenção para não nos contentarmos com migalhas. Não deixem este roteiro virar realidade!

Considerações sobre a Revolta do Vinagre

Tentarei publicar este no blog de Artes do colégio. A parte sobre o Ai WeiWei já foi escrita aqui.

Eu ando acompanhando com muito interesse tudo relacionado aos protestos que têm ocorrido na nossa cidade. Além de perceber como os protestos mudaram minha própria posição de alienação e apatia, eles também têm me proporcionado uma ótima oportunidade para refletir um pouco sobre algumas das coisas que andei ensinando aos meus alunos de 9o ano, no curso sobre cinema. 
Atento-me especificamente a uma aula onde conversamos sobre o cinema sendo usado como ferramenta de dominação. O assunto da aula era o cinema, na forma do filme "Triunfo da Vontade" da cineasta nazista Leni Riefenstahl. Mas a rigor, a aula estende-se à mídia como um todo. Uma das estratégias de mídia que discutimos na aula consistia em omitir o emissor das mensagens. Trocando em miúdos: se você sabe QUEM emite a mensagem, você pode analisar este emissor e chegar à conclusão de que a mensagem é uma opinião de alguém de uma determinada classe social, representando determinados interesses. Mas se o emissor é oculto, a tarefa de contestar essa mensagem fica mais difícil. Nós a aceitamos como verdade mais facilmente. 

A semana pasada nos brindou com um exemplo formidável para estudo. O jornalista Arnaldo Jabor apareceu no espaço reservado a ele pela Rede Globo para emitir sua opinião sobre os protestos. De forma geral, desqualificou os protestantes, dizendo serem filhos da classe média ridiculamente protestando contra míseros R$0,20 que eles não precisavam, e descrevendo os policiais que reprimiam os protestos como as verdadeiras vítimas da violência. A opinião não era novidade. Boa parte da mídia mais conservadora repetia a mesma opinião. Mas, conforme nosso exemplo em aula, quando o William Bonner profere a notícia, sabemos que não é a opinião DELE. É uma opinião de alguém que lhe forneceu a notícia, e que permanece oculto, inquestionável, enquanto o âncora do jornal descreve os manifestantes como vândalos. Não se pode protestar contra o Bonner, seria injusto. Da mesma forma que seria injusto xingar um(a) atendente de call center pelas sacanagens perpetradas pela empresa para a qual ele/ela trabalha. "Odeie a mensagem, não o mensageiro". Mais do que isso: com o emissor oculto por trás do vasto e imponente nome da emissora de televisão mais assistida do país, a maioria das pessoas até desconfia, mas cede à ideia de que, se tamanho grupo de jornalistas está dizendo isso, eles devem saber mais do que nós. 
O caso do Jabor é diferente. Ele assina o comentário, da uma cara à opinião. O emissor não está mais oculto, ele está escancarado. E mal informado. Ele torna-se extremamente vulnerável ao ataque, à contradição de sua opinião. 
Diante da onda de denúncias de violência policial ocorrida na quinta-feira de protestos (dia 13/06), Jabor recebeu uma outra onda de vídeos em resposta ao seu comentário ([1] [2] - para citar alguns). Não teve outra opção que não a de se retratar. Mas fez isso através da CBN, tomando o constrangimento para si e evitando expor a rede Globo. 

Na segunda, eu fui ao protesto que começou na Faria Lima. Fui leve, sem nada que me tornasse uma ameaça para a polícia, pronto para correr. Meu coração acelerava com o número de gente na estação de metrô e as palavras de ordem cantadas por todos. Eu não via nada assim desde Londres, no meu mestrado. Larguei a manifestação e voltei para casa quando comecei a sentir no ar o cheiro característico dos solventes contidos nas latas de spray. Pixar propriedade alheia podia ser motivo para a polícia entrar em ação e a coisa iria escalar. Resolvi contribuir para o protesto de outras formas, incluindo este texto e a tentativa de abrir os olhos da criançada para questionar mais as informações que recebem do mundo lá fora. 

No caminho de volta para casa, fui lembrando do que eu havia escrito sobre a exposição do chinês Ai Weiwei no MISque visitei em Fevereiro deste ano. Eu soube dele pela primeira vez em Londres, uma instalação na Tate Modern onde ele lotou o piso da galeria de sementes de girassol feitas de porcelana. Milhões delas, feitas uma a uma por voluntários chineses. De lá pra cá, Wei Wei foi preso pelo governo chinês, o que causou toda uma polêmica mundial de artistas pela sua libertação, e aparentemente foi viver nos EUA ou algo assim. 

Assim como a Yaoni Sanchez que a minha mãe lê, fala corajosa e abertamente sobre as incoerências, e a miséria causada pela ditadura vigente em seu país de origem. Uma ditadura que prometeu igualdade a todos e forneceu uma igualdade de míngua e burocracia. A exposição no MIS era uma coletânea enorme de fotografias tiradas por Wei Wei e seus assistentes, documentando diversos processos de diversos dos trabalhos do artista. Todos trabalhos que falavam sem romantismos desnecessários sobre tudo o que estava acontecendo. Daquele tipo de documentação direta que qualquer blogueiro hoje faz. O que levou à já bastante recorrente pergunta: "mas isso é arte?" De fato, algumas das fotos que Wei Wei faz não chegam a ser muito mais diferentes do que o que muitos conterrâneos meus postam no Facebook, indignados com o nosso país. Nem é possível dizer que elas sejam dotadas daquela mítica "sensibilidade artística" que as separa das fotos das ditas "pessoas comuns". Mas tudo muda para ele (e para a Yaoni Sanchez), porque existe uma força opositora relevante. Isso muda tudo. Se você posta no Facebook a sua indignação contra este ou aquele partido político, esta ou aquela medida do governo, nada disso importa. Você vive em um país livre e supostamente democrático, onde você pode exercer a sua liberdade de expressão sem medo. Isso torna-se uma faca de dois gumes, porque embora você a possa expressar, a sua opinião também pode ser sumariamente ignorada. Se o governo não fizer nada a respeito (nem acatando o seu desejo de justiça, e nem prendendo você por externar o que sente), é quase como se você não tivesse dito nada. Com Wei Wei e Sanchez, a coisa é outra. Qualquer comentário dissidente e eles misteriosamente "são sumidos" por algum tempo, têm seus bens confiscados, sua vida incrivelmente dificultada. Eles precisam de muito mais coragem para dizer o que nós ouvimos tanto que chegamos a ignorar ("mais uma denúncia de corrupção..."). O choque entre a força opositora que nós não temos aqui em nosso país e a coragem deles é o que faz um gesto tão simples como tirar um autorretrato ou blogar sobre o dia-a-dia virar uma obra de arte política. Não tem absolutamente nada a ver com técnica artística. [Disclaimer: sim, eu sei que o Wei Wei tem obras de arquitetura incríveis, foi responsável em parte pelo estádio conhecido como "Ninho de Pássaro" na China e tem outras obras bem mais tecnicamente interessantes, mas estou me atendo aqui à exposição do MIS].  Encerro a reflexão fazendo a pergunta: sendo que não temos aqui tamanha força opositora que valide as nossas expressões de indignação dissidentes, o que é que nós precisaríamos fazer (como trabalho artístico/expressivo) para ter o mesmo impacto que Wei Wei e Sanchez? Talvez, na hora em que a Tropa de Choque abriu fogo contra os manifestantes na quinta, eles tenham cometido o ato que faltava para validar essa nossa grande obra de arte coletiva que aconteceu nestas últimas semanas.