Um dos meus alunos me entregou hoje uma sacolinha. Disse que era um presente de dia do professor. Confesso que recebi o mimo um pouco desconfiado: eu nunca tinha recebido nada assim e nem esperava criar esse impacto na cabeça de alguém tão cedo. Por que logo eu de todos os professores? Ele não precisava de nota, era um bom aluno. Também duvido que tivesse feito isso para muitos outros professores, pois os pais teriam desembolsado uma quantia salgada para mimar professores. Me pareceu algo sincero e exclusivo. Me senti especial.
Dentro da sacola, uns poucos produtos da Phebo. O presente gerou sensações engraçadas. Meu pai usava Phebo e eu identificava os perfumes ao estilo de masculinidade dele. Por isso, senti minha "adultice" confirmada com esse presente. O estilo de masculino paterno que eu lembrava na minha infância era um para o qual sabonetes com "1/4 de creme hidratante" ainda eram algo inexistente ou irrelevante. Um estilo que sentia um tipo de validação naquela sensação de pele esticada depois do banho. Eu lembro que eu gostava da sensação (talvez por gostar da ligação aspiracional que ela tinha com meu pai). Era um prazer meio bronco, meio rústico. Uma das minhas colegas professoras chamou de um prazer meio S&M. Eu não o estranharia depois das baladas do meu ano passado...
Havia também o deleite do perfume, que na infância fora marcadamente diferente dos perfumes dos meus produtos infantis. Era alheio, era mais complexo. Era daquele universo simbólico do moleque imberbe que se maravilha com os produtos de barbearia do pai.
Esse significado todo me pegou tão de surpresa que nem agradeci o aluno o suficiente. Preciso fazer isso!
Já fiquei sabendo que amanhã ganharei um outro presentinho. Enquanto isso, fico aqui pensando que deveria ter feito mais pela minha inspiradora professora de história do que apenas uma homenagem sincera no Facebook. Ela tinha que saber o quanto tinha sido importante.
E de preferência, enquanto ela estava viva.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quarta-feira, outubro 17, 2012
quinta-feira, setembro 20, 2012
Elephant on the Bridge
I watched The Bridges of Madison County a few months back. And I thought the movie created this awkward elephant in the room. I wondered if it brought up the same issues on other people's minds as it did in mine. Here we have the story of this housewife who isn't particularly unhappy with her married life, but who isn't completely fulfilled either (is anybody ever completely fulfilled with marriage?). One day, while the husband and teenage kids are away on a trip, she meets this handsome, adventurous photographer who happens to be passing by and will only be there for a short while. They have a torrid love affair that lasts but a few days and when he is set to leave, she must make the choice of simply packing up her things and misteriously disappearing with him, or letting go of what could probably be the love of her life in favor of the safe and reliable family she has built over the years. In the end, she takes what could be considered the "moral" path (written in quotation marks, because once she has effectively cheated on her husband, morality becomes something to be questioned), and stays with the family. That is to say, she does "the right thing" (also written in quotation marks, as something to be heavily questioned...).
I remember hearing about The Bridges of Madison County from so many acquaintances who were married women. They would all say such wonderful things about the movie, about the actors portraying the couple (Merril Streep and Clint Eastwood), about the love they shared and how heartbreaking it was to see those final scenes when she makes the choice. And i hadn't realized until I saw the movie what a big elephant in the room it was. Because it was presented in such a beautiful way, that there was no way any emotionally sane person wouldn't be seduced by the story, wouldn't savour the love affair, wouldn't want them to be together. Still, it was the story of a wife cheating on her fully functional family. Plainly put, the movie sets a situation where it is difficult to concile reason and emotion. The question that lingers in my head and that I'd like to ask my married acquaintances is: "are you then seduced by the idea of having an affair like that (fast, intense, adventurous; but with a very high price to pay)?"
[Author's note: "fully functional family" sounds awful, like comparing a family to an appliance. I lack a better antonym for "disfunctional"...]
I guess the actual question is, does the movie make them think about leaving fully functional relationships for a good adventure? I know a fair share of people that would mindlessly answer "of course!". But when it really comes down to it, it's a really tough step to take! And that brings me to another movie ending, in Little Children. But I'm not going to bother you with spoilers on that.
quarta-feira, setembro 19, 2012
Bliss
Andei sumido do blog. Quase dois meses. Um dos hiatos mais longos por aqui ever.
Fato é que antes de continuar, há assuntos complicados em um post insalubre que vai repercutir muito mal, mas que eu sinto a necessidade de colocar por aqui só para documentar a vida e fechar ciclos. Talvez o faça em algum momento. Mas não agora.
Agora eu queria postar para a família que lê o blog e a quem infelizmente as duas carreiras concomitantes não me permitem visitar com a frequência que eu gostaria. Queria escrever para dizer que, apesar dos assuntos supracitados, a vida vai muito bem. Mesmo.
Há uma sensação de contentamento nos dias. É um contentamento bem diferente da alegria meio melancólica e solitária de Londres, daquela aventura louca e maravilhosa de experimentar o impublicável e enfrentar os traumas passados. Mas é um contentamento. A palavra adequada vem do inglês: bliss (ainda existe o iogurte?). Um bliss que chega até a dar um pouco de medo, porque como a vida é sempre feita de altos e baixos, vai fazer uma baita falta quando eu deixar de ter. Mas não vamos sofrer de véspera, vamos curtir.
Bliss no trabalho do colégio. Onde eu chego e os inspetores que me conheciam de garoto e aluno me dizem "bom dia, professor". Onde a equipe de artes pergunta a minha opinião, quer saber, quer que eu dê ideias. E as idéias que eu dou são aprovadas e levadas a cabo. Eles também dão idéias fabulosas e me dão vontade de voltar a produzir arte (assim que eu conseguir algum tempo para reativar o ateliê...). Onde coisas estão sob minha responsabilidade e eu, pela primeira vez em muito tempo, me sinto amplamente capacitado para gerenciá-las (embora a quantidade delas seja um tanto atordoante...). Hoje estava pensando que é, além da empresa de tradução, uma das primeiras empresas que me contratam onde eu sinto a transparência e o respeito. Onde eu sinto que não tem jogo escondido, não tem discursos prontos para me convencer de como esse emprego é incrível e eu seria louco em abandoná-lo, não tem maracutaia contratual, evasão fiscal, parcela do salário "por fora", sacanagem com o meu FGTS e etc. Respeito. Assim dá gosto de trabalhar.
O colégio é onde eu lido com alunos da metade da minha idade que me fascinam com o modo como (alguns d')eles absorvem o que eu estou ensinando. Eles são um espelho que me faz sentir ainda muito jovem e paradoxalmente já bem experiente. Eles me lembram de mim, nessa idade. E de como eu queria ser nessa idade também. É moralmente questionável, eu sei, mas hoje com a experiência e atrevimento que eu tenho, eu me faço facilmente amigo da turminha popular que eu criticava mas da qual queria fazer parte na minha época de aluno. É uma sensação de que eu finalmente entendi o que é ser cool. Pelo menos para a idade deles... E eles reagem a isso. É gostoso de ver. Às favas com as críticas.
Bliss também na outra carreira, de uma rotina gostosa também. Receber de vez em quando uma mensagem da simpática Erika com mais um arquivo a ser traduzido, chegar em casa e relaxar antes de começar o "segundo turno" do dia. Neste mês me deram a primeira tradução de áudio, tradução simultânea onde eu tinha que gravar minha voz traduzindo em tempo real uma outra gravação. Achei o desafio interessante e me deu uma sensação de estar progredindo, sendo "promovido". E embora eu às vezes relaxe um pouco e perca a qualidade, a Simone, uma chefe que é uma melhor amiga, sabe me dar o puxão de orelha no tom adequado pra separar o profissional do pessoal. Trabalho de casa, na hora que eu quero, mas às vezes dá vontade de ir lá fazer uma visita no escritório, que fica há poucos quarteirões de casa. Só pra falar da vida.
Entre uma dezena de laudas e outra, eu faço uma pausa para aproveitar o bliss do meu apê. Desço para fazer ginástica quando a academia ainda está aberta. Nesta semana, aproveitando o calor infernal e seco que parece não ter fim tão cedo, terminei uma sessão caindo na piscina. Fiquei boiando lá e sentindo o corpo esfriar, e foi aí que essa palavra me veio à cabeça: bliss. Periga isso tornar-se um hábito. Depois de esfriar um pouco, volto pra cima para fazer comida e um café antes de voltar à tradução. O meu espacinho pequeno porém suficiente já está ficando com uma cara muito gostosa, com plantas, meus quadros e boas idéias de design vindas do Pinterest da minha mãe.
Bliss também em ver a Lexy aos poucos estruturando seu negócio, livre das amarras de empresas, seguindo o que meu pai disse ser o caminho da minha geração: o empreendedorismo. Os brownies ainda trazem pouco retorno financeiro (o que ainda gera bastante ansiedade...), mas há um ar muito promissor nas conversas, nas pessoas que curtem a página do Facebook dela, nas parcerias que até eu estou tentando ajudar a forjar. Gostosos também são os nossos domingos indo ao parque, e ela tentando acompanhar o pique que eu tenho tido desde que comecei a andar de skate.
Claro que há os amargores. Quando eles não estão presentes, a vida fica monótona e eu me ponho a fazer daquelas loucuras meio destrutivas (embora cheias de poesia). Tem sempre para onde desenvolver a vida, os projetos que nunca conseguimos arranjar tempo para fazer, os percalços da carreira de professor que eu ainda preciso aprender a resolver, as feridas das quedas de skate, a decoração do apê que sempre anda lenta demais pela falta de grana. Sem falar nos assuntos insalubres.
No entanto, há que se prestar atenção no positivo da vida. O resto a gente resolve aos poucos. Sem pressa. Se não resolver também, paciência.
Fato é que antes de continuar, há assuntos complicados em um post insalubre que vai repercutir muito mal, mas que eu sinto a necessidade de colocar por aqui só para documentar a vida e fechar ciclos. Talvez o faça em algum momento. Mas não agora.
Agora eu queria postar para a família que lê o blog e a quem infelizmente as duas carreiras concomitantes não me permitem visitar com a frequência que eu gostaria. Queria escrever para dizer que, apesar dos assuntos supracitados, a vida vai muito bem. Mesmo.
Há uma sensação de contentamento nos dias. É um contentamento bem diferente da alegria meio melancólica e solitária de Londres, daquela aventura louca e maravilhosa de experimentar o impublicável e enfrentar os traumas passados. Mas é um contentamento. A palavra adequada vem do inglês: bliss (ainda existe o iogurte?). Um bliss que chega até a dar um pouco de medo, porque como a vida é sempre feita de altos e baixos, vai fazer uma baita falta quando eu deixar de ter. Mas não vamos sofrer de véspera, vamos curtir.
Bliss no trabalho do colégio. Onde eu chego e os inspetores que me conheciam de garoto e aluno me dizem "bom dia, professor". Onde a equipe de artes pergunta a minha opinião, quer saber, quer que eu dê ideias. E as idéias que eu dou são aprovadas e levadas a cabo. Eles também dão idéias fabulosas e me dão vontade de voltar a produzir arte (assim que eu conseguir algum tempo para reativar o ateliê...). Onde coisas estão sob minha responsabilidade e eu, pela primeira vez em muito tempo, me sinto amplamente capacitado para gerenciá-las (embora a quantidade delas seja um tanto atordoante...). Hoje estava pensando que é, além da empresa de tradução, uma das primeiras empresas que me contratam onde eu sinto a transparência e o respeito. Onde eu sinto que não tem jogo escondido, não tem discursos prontos para me convencer de como esse emprego é incrível e eu seria louco em abandoná-lo, não tem maracutaia contratual, evasão fiscal, parcela do salário "por fora", sacanagem com o meu FGTS e etc. Respeito. Assim dá gosto de trabalhar.
O colégio é onde eu lido com alunos da metade da minha idade que me fascinam com o modo como (alguns d')eles absorvem o que eu estou ensinando. Eles são um espelho que me faz sentir ainda muito jovem e paradoxalmente já bem experiente. Eles me lembram de mim, nessa idade. E de como eu queria ser nessa idade também. É moralmente questionável, eu sei, mas hoje com a experiência e atrevimento que eu tenho, eu me faço facilmente amigo da turminha popular que eu criticava mas da qual queria fazer parte na minha época de aluno. É uma sensação de que eu finalmente entendi o que é ser cool. Pelo menos para a idade deles... E eles reagem a isso. É gostoso de ver. Às favas com as críticas.
Bliss também na outra carreira, de uma rotina gostosa também. Receber de vez em quando uma mensagem da simpática Erika com mais um arquivo a ser traduzido, chegar em casa e relaxar antes de começar o "segundo turno" do dia. Neste mês me deram a primeira tradução de áudio, tradução simultânea onde eu tinha que gravar minha voz traduzindo em tempo real uma outra gravação. Achei o desafio interessante e me deu uma sensação de estar progredindo, sendo "promovido". E embora eu às vezes relaxe um pouco e perca a qualidade, a Simone, uma chefe que é uma melhor amiga, sabe me dar o puxão de orelha no tom adequado pra separar o profissional do pessoal. Trabalho de casa, na hora que eu quero, mas às vezes dá vontade de ir lá fazer uma visita no escritório, que fica há poucos quarteirões de casa. Só pra falar da vida.
Entre uma dezena de laudas e outra, eu faço uma pausa para aproveitar o bliss do meu apê. Desço para fazer ginástica quando a academia ainda está aberta. Nesta semana, aproveitando o calor infernal e seco que parece não ter fim tão cedo, terminei uma sessão caindo na piscina. Fiquei boiando lá e sentindo o corpo esfriar, e foi aí que essa palavra me veio à cabeça: bliss. Periga isso tornar-se um hábito. Depois de esfriar um pouco, volto pra cima para fazer comida e um café antes de voltar à tradução. O meu espacinho pequeno porém suficiente já está ficando com uma cara muito gostosa, com plantas, meus quadros e boas idéias de design vindas do Pinterest da minha mãe.
Bliss também em ver a Lexy aos poucos estruturando seu negócio, livre das amarras de empresas, seguindo o que meu pai disse ser o caminho da minha geração: o empreendedorismo. Os brownies ainda trazem pouco retorno financeiro (o que ainda gera bastante ansiedade...), mas há um ar muito promissor nas conversas, nas pessoas que curtem a página do Facebook dela, nas parcerias que até eu estou tentando ajudar a forjar. Gostosos também são os nossos domingos indo ao parque, e ela tentando acompanhar o pique que eu tenho tido desde que comecei a andar de skate.
Claro que há os amargores. Quando eles não estão presentes, a vida fica monótona e eu me ponho a fazer daquelas loucuras meio destrutivas (embora cheias de poesia). Tem sempre para onde desenvolver a vida, os projetos que nunca conseguimos arranjar tempo para fazer, os percalços da carreira de professor que eu ainda preciso aprender a resolver, as feridas das quedas de skate, a decoração do apê que sempre anda lenta demais pela falta de grana. Sem falar nos assuntos insalubres.
No entanto, há que se prestar atenção no positivo da vida. O resto a gente resolve aos poucos. Sem pressa. Se não resolver também, paciência.
quinta-feira, agosto 02, 2012
O Laerte recentemente publicou um par de textos [1] [2] muito relevantes sobre o tratamento psicanalítico.
Me chamou muito a atenção ele mencionar o tratamento da psicanálise como um esforço de "retificação e responsabilização" do indivíduo. No meu caso, posso sentir exatamente esse tipo de coisa, ao ser levado nas sessões a responder por uma série de idiossincrasias. Coisas que eu julgava serem a forma "correta" de se viver, e que no entanto, para novamente citar o texto, não passavam de "culpar ou demandar certas coisas dos outros (e do destino), que [eram] na verdade demandas insensatas".
Sensatez, aliás, passa a ser outra palavra interessante. Making sense, fazer sentido. Quando eu penso nisso, penso em agir de forma lógica e coerente, de acordo com o lado racional. E vou dizer uma coisa: eu cansei da coerência. Eu fico aqui escrevendo sobre a era pós-moderna e como não há qualquer obrigação por coerência estilística na arte hoje, mas acho que a coisa vai bem além. Não há qualquer obrigação por coerência hoje. Ponto.
Eu acho que a gente acaba negando muito do nosso lado subjetivo para poder ser coerente. Quando se fala em homens então, a coisa é pior ainda. E eu neguei mesmo. Muita coisa.
A terapia tem mostrado muita coisa conflitante, muito paradoxo, muita contradição. Mas também tem me deixado mais à vontade com as incoerências. Com poder dizer "sim, eu penso coisas conflitantes", "sim, eu quero um pouco de tudo". E na verdade, talvez essa seja a forma "correta" de se viver.
(""""""""""""""correta"""""""""""""" assim, com MUITAS áspas).
Me chamou muito a atenção ele mencionar o tratamento da psicanálise como um esforço de "retificação e responsabilização" do indivíduo. No meu caso, posso sentir exatamente esse tipo de coisa, ao ser levado nas sessões a responder por uma série de idiossincrasias. Coisas que eu julgava serem a forma "correta" de se viver, e que no entanto, para novamente citar o texto, não passavam de "culpar ou demandar certas coisas dos outros (e do destino), que [eram] na verdade demandas insensatas".
Sensatez, aliás, passa a ser outra palavra interessante. Making sense, fazer sentido. Quando eu penso nisso, penso em agir de forma lógica e coerente, de acordo com o lado racional. E vou dizer uma coisa: eu cansei da coerência. Eu fico aqui escrevendo sobre a era pós-moderna e como não há qualquer obrigação por coerência estilística na arte hoje, mas acho que a coisa vai bem além. Não há qualquer obrigação por coerência hoje. Ponto.
Eu acho que a gente acaba negando muito do nosso lado subjetivo para poder ser coerente. Quando se fala em homens então, a coisa é pior ainda. E eu neguei mesmo. Muita coisa.
A terapia tem mostrado muita coisa conflitante, muito paradoxo, muita contradição. Mas também tem me deixado mais à vontade com as incoerências. Com poder dizer "sim, eu penso coisas conflitantes", "sim, eu quero um pouco de tudo". E na verdade, talvez essa seja a forma "correta" de se viver.
(""""""""""""""correta"""""""""""""" assim, com MUITAS áspas).
Combate
"...e na minha situação de hoje eu acho que eu teria como enfrentar um desses encontros de X anos de formandos do colégio".
"Enfrentar..." sublinhou o analista.
Nas nossas sessões, esse assunto tem aparecido bastante. Tenho algum receio de escrever a respeito, porque eu sei que todo mundo vai ficar reparando nisso quando lidar comigo. Mas resolvi que isso vai fazer parte do processo terapêutico todo.
O fato é que ele começou a insistir no fato de que eu encaro a grande maioria dos relacionamentos interpessoais que eu tenho como uma espécie de combate ou negociação (para evitar os comentários que surgirão sobre a minha escolha belicosa de termos...). Exceto por raríssimas exceções. Raríssimas mesmo. E mesmo essas, eu tenho a tendência a estragar. Vide exemplos recentes.
Eu não posso dizer com certeza que os anos de educação no meu antigo colégio tenham sido os únicos responsáveis por isso. Quiçá a tendência venha de antes disso e tenha sido apenas potencializada pela formação competitiva do colégio. E no entanto, eu ainda não enxergo como encarar as coisas de outro jeito. Eu só vejo o caráter cáustico dos relacionamentos amorosos, a competição profissional entre os colegas de trabalho e faculdade, o wrestling pela aprovação da família. Há sempre a consideração pelo Outro. E isso é sempre um combate, com estratégias, ganhos e perdas. É possível ser de outro jeito? Não totalmente, eu acho. Mas é possível ser menos assim, como percebo pelos meus exemplos próximos. Ou gente que simplesmente adota a estratégia de "não jogar o jogo". Mas mesmo isso é uma estratégia, né?
Falamos do colégio. E é engraçado, porque isso me trouxe a um exemplo paradoxal de mim mesmo. Eu sou assim, de encarar as coisas como esse combate, mas sempre adotando as vias mais passive-aggressive, evitando o confronto direto e violento, fazendo de tudo para evitar brigas. Como se enxergasse o confronto, mas tivesse medo dele. Minha atuação como professor é o exemplo perfeito: faço de tudo para dominar a classe, mas ainda sou cheio de pudores para dar broncas e excluir da sala, por receio dos alunos . Os alunos percebem. E testam limites.
Talvez tenha sido cedo para escrever aqui. Eu ainda preciso pensar mais sobre o assunto. Voltei para casa me perguntando se o melhor seria aprender a confrontar diretamente, perder esse medo e evoluir; ou seguir os exemplos de quem se excluiu do jogo, largar esse papel e me exilar do convívio social.
O importante é: eu de certa forma cansei disso. Concordo com o analista (e com boa parte dos comentários que virão) que há de existir outro modo de conviver.
"Enfrentar..." sublinhou o analista.
Nas nossas sessões, esse assunto tem aparecido bastante. Tenho algum receio de escrever a respeito, porque eu sei que todo mundo vai ficar reparando nisso quando lidar comigo. Mas resolvi que isso vai fazer parte do processo terapêutico todo.
O fato é que ele começou a insistir no fato de que eu encaro a grande maioria dos relacionamentos interpessoais que eu tenho como uma espécie de combate ou negociação (para evitar os comentários que surgirão sobre a minha escolha belicosa de termos...). Exceto por raríssimas exceções. Raríssimas mesmo. E mesmo essas, eu tenho a tendência a estragar. Vide exemplos recentes.
Eu não posso dizer com certeza que os anos de educação no meu antigo colégio tenham sido os únicos responsáveis por isso. Quiçá a tendência venha de antes disso e tenha sido apenas potencializada pela formação competitiva do colégio. E no entanto, eu ainda não enxergo como encarar as coisas de outro jeito. Eu só vejo o caráter cáustico dos relacionamentos amorosos, a competição profissional entre os colegas de trabalho e faculdade, o wrestling pela aprovação da família. Há sempre a consideração pelo Outro. E isso é sempre um combate, com estratégias, ganhos e perdas. É possível ser de outro jeito? Não totalmente, eu acho. Mas é possível ser menos assim, como percebo pelos meus exemplos próximos. Ou gente que simplesmente adota a estratégia de "não jogar o jogo". Mas mesmo isso é uma estratégia, né?
Falamos do colégio. E é engraçado, porque isso me trouxe a um exemplo paradoxal de mim mesmo. Eu sou assim, de encarar as coisas como esse combate, mas sempre adotando as vias mais passive-aggressive, evitando o confronto direto e violento, fazendo de tudo para evitar brigas. Como se enxergasse o confronto, mas tivesse medo dele. Minha atuação como professor é o exemplo perfeito: faço de tudo para dominar a classe, mas ainda sou cheio de pudores para dar broncas e excluir da sala, por receio dos alunos . Os alunos percebem. E testam limites.
Talvez tenha sido cedo para escrever aqui. Eu ainda preciso pensar mais sobre o assunto. Voltei para casa me perguntando se o melhor seria aprender a confrontar diretamente, perder esse medo e evoluir; ou seguir os exemplos de quem se excluiu do jogo, largar esse papel e me exilar do convívio social.
O importante é: eu de certa forma cansei disso. Concordo com o analista (e com boa parte dos comentários que virão) que há de existir outro modo de conviver.
quarta-feira, agosto 01, 2012
Tinha muita coisa que eu precisava escrever.
PRECISAVA mesmo. Pra poder continuar com o blog.
Mas eu estou me sentindo extremamente vulnerável à crítica. Sim, porque estou cada vez mais ciente das falhas de caráter mesmo... E consciente do quanto quem lê estas páginas conhece justamente estas falhas.
Me falta estômago para seguir adiante.
É... Quem diria que até eu um dia chegaria naquela coisa torpe de expôr todo meu âmago e depois reclamar de me sentir exposto... Pela primeira vez em muito tempo, essa exposição me incomoda. Eu não duvido da minha capacidade de argumentar contra comentários de anonimas ou mesmo de amigos que se identificam. Eu posso argumentar até exaurir a outra pessoa, mas vai ser só uma defesa, eu ainda estarei errado e sabendo que estou errado.O que incomoda é me perceber errado mesmo. E querer falar sobre isso para todo mundo sem sofrer consequências, sabe? Só falar. Que todo mundo saiba que eu SEI que tenho meus problemas. E que eu preciso de suporte. Não de pointing fingers.
Mas tá, Vamos acordar e enfrentar a realidade. Eu vou tentar escrever e aguentar as pedradas. Faz parte do tratamento mesmo.
terça-feira, julho 24, 2012
Anima Mundi 2012
Começa amanhã a 20ª edição do Anima Mundi (site oficial). Pensar que o festival já tem 20 edições e é um dos três maiores festivais do gênero no mundo diz muito sobre como o Brasil passou a respeitar esse tipo de arte nas últimas duas décadas. Eu mesmo acompanhei várias edições, desde os anos 2000. O festival acontecia em duas salinhas no prédio da FIESP na época em que eu comecei a frequentar. Lembro até hoje de ter visto um filme dos irmãos Quay que me impressionou muito, mas que não foi muito bem compreendido pelo público. De lá pra cá, o festival ganhou lugares mais privilegiados, como o CCBB no centro da cidade e o Memorial da América Latina, onde três sala exibem mais de 500 filmes estrangeiros e nacionais e outras barraquinhas fornecem ao visitante a chance de testar sua habilidade em várias técnicas de animação. Já experimentei animação com areia, massinha, zootrópio e a animação convencional. Ainda não fiz o pixilation, que é sempre concorrido por não depender da habilidade de desenho das pessoas. Mas o auge foi há umas três edições, quando a turma do estúdio japonês Pika Pika veio fazer animação com lightpainting (desenho com lanterna captado por uma câmera tirando fotos em velocidade bem lenta). Cada ano traz novas surpresas.Alguns nomes se destacam nesta edição do festival. Don Hertzfeld (sim, aquele do Genre que a minha turma de 9º ano viu nesse segundo bimestre!) está aí com uma animação pra lá de grotesca, mesmo com traços bem simples. Tem bons filmes de stop motion como o Ponto de Equilíbrio de Analúcia Godoi e Cafeka de Natalia Cristine. Kim Jin Ma traz o Noodle Fish, uma animação legal com desenhos feitos na areia. Amir Admoni traz o Linear, que eu aposto que foi baseado nas esculturas diminutas do artista de rua britânico Slinkachu. E Morten Helgeland traz uma visão hilária da guerra entre uma senhora de idade e as lesmas no seu jardim em Slug Invasion. E em um clima mais triste vem o Mentiras são Contadas em Julho de Rogério Vilela. Tem muitas outras coisas boas por aí, então vale a pena simplesmente comprar sessões a esmo e ver o que a sorte traz.
O festival acontece no CCBB e no Memorial da América Latina, de 25 a 29 de Julho.
As sessões começam às 10:00 da manhã e a última sessão do dia acontece às 23:00.
Aproveite!
quinta-feira, junho 28, 2012
Crônicas de Professor
O Clube de Desenho dos Excluídos
"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.
"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"
No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.
Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.
Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.
Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.
A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para uma das meninas.
Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.
Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.
"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.
"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"
No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.
Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.
Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.
Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.
A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para uma das meninas.
Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.
Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.
sexta-feira, junho 15, 2012
Binge gaming
Tem gente que bebe, tem gente que renderiza.
Do blog da Lu
Pois é... Eu jogo.
Eu falava meio brincando que jogar vídeo game era que nem vício pra mim. Que nem alcoolismo, essas coisas. É um clichê que o bêbado bebe para esquecer da vida. É uma "diversão" que tira sua cabeça de um momento doloroso qualquer. E ele não consegue se livrar daquilo em parte por um imperativo biológico, mas em parte também porque no momento em que ele fica sóbrio, ele tem que lidar com os problemas (às vezes insolúveis) que continuam lá. Em suma, ele bebe para "não ser" por algum tempo.
Nos meses recentes, eu tenho tentado "não ser" um pouquinho também. Eu sempre me policiei bastante no sentido de não ter consoles de games em casa e nem instalar jogos complexos no computador, nada que pudesse me viciar demais ou me tirar da realidade por mais do que alguns minutos (afinal, apesar do vício, todo mundo precisa de algum descanso). Fiquei apenas (e inevitavelmente) com os jogos online em browser, daqueles que não precisa instalar nada no computador. Desde Londres que o meu game para "jogar socialmente" é o Mahjongg Dark Dimensions (dá pra perceber o quanto eu jogo porque eu devo ainda estar na lista de pontuações mais altas do dia...). Dá pra terminar em uns 15 minutos. E como toda droga, tem seus efeitos. No meu caso, é um estimulante. E eu usava em Londres para dar uma acordada durante as traduções que eu fazia de madrugada.
Só que nos meses recentes eu tenho me dado esses intervalos com mais frequência. Mais do que "socialmente". Talvez porque queira "não ser" mais frequentemente, como o bêbado que bebe para esquecer o problema que continua lá. E esses excessos têm seus efeitos nocivos (ou você acha que excesso de vídeo game é só a mãe enlouquecendo porque você não sai do quarto?). Eu percebo a "bebedeira" quando fecho os olhos e ainda consigo ver as pecinhas. O jogo continua na minha cabeça. E ele não vai parar. Há uma infinidade de pecinhas na escuridão, surgindo da névoa para serem clicadas e pareadas. Cubinhos a perder de vista.
No feriado, me apresentaram o Drop-7. Agora eu posso "não ser" nas viagens de metrô também. Patético, não? Pior de tudo é que junta uma droga na outra e eu começo a atribuir valores numéricos para as forminhas bizarras do Mahjongg. Triângulos vermelhos, por algum motivo inexplicável, valem 4 (4 do que?). Pirando legal...
Apesar do nível da coisa estar perigando neuroses, o vício ainda não me incapacitou. Eu não jogo enquanto estou com pessoas, enquanto estou no colégio, enquanto consigo ocupar a cabeça com outras coisas. A vida segue (talvez em um ritmo mais lento do que eu gostaria), apesar da bebedeira. E no entanto, tem os dias de folga, onde não trabalho e não traduzo, em que já passei uma boa porcentagem do dia nos jogos. Me preocupo.
Em inglês, há um termo que se usa quando as pessoas se entregam totalmente ao excesso, perdendo toda a dignidade e o controle. Going on a binge, ou no caso da bebida, binge drinking.
Tenho passado algum tempo binge gaming.
segunda-feira, junho 11, 2012
Pessoas livres
"Psor, você passa base na unha?" me perguntou uma luna da 6ª série. Sem titubear, respondi que sim, que gostava do brilho e que deixava minhas unhas mais fortes. O cuidado com as unhas é um detalhe de uma série de pequenos cuidados aos quais eu me acostumei em Londres, e que eu fazia porque faziam com que eu me sentisse bem. Se tivesse mais tempo, cuidaria de mais coisas, mais detalhes. Depilação e hidratação. Mimos pessoais que com certeza me enquadrariam no rótulo do metrossexual. Eu já não dou a mínima para esses rótulos. Preferia rotular-me "complicado" e viver à margem do que os outros pensam a respeito disso.
Experimento com isso uma sensação única de liberdade. Até de poder. O não me ferir mais com o comentário maldoso, com o desprezo alheio, com o nojo causado pela incompreensão, tem um efeito "aikido" onde eu posso devolver o insulto como provocação. Mais do que isso, é muito libertador não me sentir mais na obrigação de me enquadrar no modelo de masculinidade antigo. Deixar eles que vivam com seu próprio medo de "não ser macho o suficiente". Não há nada mais poderoso do que simplesmente não jogar o jogo. É meio como "trollar" o Patriarcado...
Mas apesar de atualmente ter uma facilidade pra fazer isso em relação à minha sexualidade, andei muito ensimesmado, pensando que eu não tinha essa mesma liberdade com outras áreas da minha vida.
Andei vendo um pouco disso com o novo analista ao contar que eu já fizera terapia para me tratar de problemas com ansiedade. Estes eram derivados da sensação que eu tinha de que "os outros" esperavam coisas de mim. "Os outros" eram pais, família, namoradas, amigos, empregadores, sociedade em geral. Coisas eram comportamentos, moral, conduta. E como eu era incapaz de agir de acordo, eu sentia uma dose de culpa e inadequação que me levavam à ansiedade. Minha primeira terapeuta me ajudou a superar o assunto levando-me a ver que ninguém esperava nada de mim, e que eu era livre para ser eu. Esse ponto de vista funcionou melhor em alguns assuntos do que em outros.
Passei o feriado em Campos do Jordão. Uma cidade que sempre trouxe à tona esses sentimentos de inadequação [1]. Era, em uma cidade, tudo o que me incomodara na minha adolescência no colégio. Os adolescentes ricos (o perfil "balada Vila Olímpia", como eu dizia ao meu analista), as baladas superfaturadas, o jogo de aparências onde todo mundo era igual e eu era diferente, os excessos de toda natureza, a diversão fingida. Eu conseguia gradualmente me sentir menos mal em relação a esse ambiente. Sentia menos necessidade de ir para o centro garimpar entradas para a balada da moda. Menos necessidade de que me notassem. Menos necessidade de "fazer parte".
Na sexta, chegou meu irmão. Alguém teve que ir pegá-lo na rodoviária porque já faz meses que ele vendeu o carro. Anda com as roupas que consegue (muitas vezes, as que meus pais dão...). Continua morando em uma garagem transformada em estúdio de música. Vive com dívidas e problemas relacionados. Não tem perspectivas de melhoras financeiras. E no entanto, como Lexy bem observou, vive feliz. Com o que faz, com a vida que leva, com sua garagem e suas roupas maltrapilhas. Mais do que isso, quando a família tira sarro, ele ri junto e todos ficam com uma sensação de que tirar sarro não o forçará a "fazer parte". Ele vive à margem do que os outros pensam sobre seu estado financeiro como eu vivo à margem do que pensam da minha sexualidade.
Durante uma das saídas para o centro da cidade, conversei com uma das minhas primas, Adriana. Durante a minha adolescência frustrada em Campos, ela liderava a matilha de primas que descolavam VIPs e entradas gratuitas para as baladas superfaturadas. Podiam escolher a dedo com quem queriam ficar, e parecia que nada nem ninguém tinha mais poder do que elas naquele meio, e nenhuma delas tinha mais poder do que Adriana. Essa, claro, era a visão totalmente romanceada que eu tinha delas na época. Conversar com Adriana (realmente conversar com ela...) me trouxe uma outra história. A de alguém que nunca se sentiu como parte da "turminha popular" (será que ALGUÉM algum dia se sentiu?), que camelou para alcançar o status que tinha e nunca se sentiu feliz com o poder que conseguiu. Aos 25, ela aposentou a vida de glamour. Mais adiante, largou o emprego em imobiliárias para abrir uma empresa de doces. Casou-se com um rapaz que não tinha nada do perfil que elas procuravam nas baladas de Campos. Planeja ter um filho em breve. E mais do que tudo, parece feliz vivendo também à margem do que a "turminha popular" pensa sobre ela.
No fim, não pude deixar de pensar em Nana. Porque eu percebera uma coisa similar quando cortamos contato. Ela havia se isolado do mundo, de quem a obrigara a estudar, a ter ambição, emprego, essas coisas prosaicas que a empurraram para a depressão. Quando eu a empurrei em direção a essas coisas, ela me cortou também. Nem eu, um amigo íntimo de mais de uma década, valia ela trair-se desse jeito. O que ela queria me ensinar (se é que se importava comigo para se dar ao trabalho de "me ensinar" alguma coisa), era que ela arranjaria essas coisas quando e se quisesse, não para ter a minha aprovação. Já não tenho contato algum com ela para saber se está feliz, mas não parece minimamente incomodada de viver à margem mesmo do que eu penso dela.
E quanto a mim?
Voltando ao cerne deste post e da questão atual, eu estava cada vez juntando mais bagagem para discutir com o meu analista. O que é que eu fazia de fato para mim? E o que é que eu fazia pela aprovação d'Os Outros? Quanto dessa aprovação era real ou imaginada por mim? Quanto que Os Outros de fato se importavam com o que eu fazia da vida, o que eu vestia, onde eu me divertia?
Do jeito que a questão está na minha cabeça, há alguns pontos-chave. Dentre eles, o meu atual emprego no meu antigo colégio (que vale um posto mais adiante...). Para quem que eu estou fazendo isso? Para ter honra perante a família? Para parecer importante na reunião de 15 anos de formandos do colégio? Para encher a boca e dizer (pra quem?) que eu sou professor com mestrado em artes, por uma questão de orgulho? Será que eu sequer gosto mesmo de arte?
Deu pra ver a extensão do problema, né?
Eu tenho algumas respostas, embora respostas neste terreno pantanoso de dúvida sejam suscetíveis à maré. Eu sei que gosto de idiomas e não me importaria de viver de tradução se isso pagasse o que eu ganho no colégio. Eu sei que gosto de me vestir bem (do meu jeito...) e de morar onde estou morando (mas não mais dos vizinhos...). E que essas coisas não têm tanto a ver com o que os outros acham e sim com um prazer estético meu. Eu sei que gosto de Londres. E por enquanto é só.
O resto ainda está aberto ao debate.
Experimento com isso uma sensação única de liberdade. Até de poder. O não me ferir mais com o comentário maldoso, com o desprezo alheio, com o nojo causado pela incompreensão, tem um efeito "aikido" onde eu posso devolver o insulto como provocação. Mais do que isso, é muito libertador não me sentir mais na obrigação de me enquadrar no modelo de masculinidade antigo. Deixar eles que vivam com seu próprio medo de "não ser macho o suficiente". Não há nada mais poderoso do que simplesmente não jogar o jogo. É meio como "trollar" o Patriarcado...
Mas apesar de atualmente ter uma facilidade pra fazer isso em relação à minha sexualidade, andei muito ensimesmado, pensando que eu não tinha essa mesma liberdade com outras áreas da minha vida.
Andei vendo um pouco disso com o novo analista ao contar que eu já fizera terapia para me tratar de problemas com ansiedade. Estes eram derivados da sensação que eu tinha de que "os outros" esperavam coisas de mim. "Os outros" eram pais, família, namoradas, amigos, empregadores, sociedade em geral. Coisas eram comportamentos, moral, conduta. E como eu era incapaz de agir de acordo, eu sentia uma dose de culpa e inadequação que me levavam à ansiedade. Minha primeira terapeuta me ajudou a superar o assunto levando-me a ver que ninguém esperava nada de mim, e que eu era livre para ser eu. Esse ponto de vista funcionou melhor em alguns assuntos do que em outros.
Passei o feriado em Campos do Jordão. Uma cidade que sempre trouxe à tona esses sentimentos de inadequação [1]. Era, em uma cidade, tudo o que me incomodara na minha adolescência no colégio. Os adolescentes ricos (o perfil "balada Vila Olímpia", como eu dizia ao meu analista), as baladas superfaturadas, o jogo de aparências onde todo mundo era igual e eu era diferente, os excessos de toda natureza, a diversão fingida. Eu conseguia gradualmente me sentir menos mal em relação a esse ambiente. Sentia menos necessidade de ir para o centro garimpar entradas para a balada da moda. Menos necessidade de que me notassem. Menos necessidade de "fazer parte".
Na sexta, chegou meu irmão. Alguém teve que ir pegá-lo na rodoviária porque já faz meses que ele vendeu o carro. Anda com as roupas que consegue (muitas vezes, as que meus pais dão...). Continua morando em uma garagem transformada em estúdio de música. Vive com dívidas e problemas relacionados. Não tem perspectivas de melhoras financeiras. E no entanto, como Lexy bem observou, vive feliz. Com o que faz, com a vida que leva, com sua garagem e suas roupas maltrapilhas. Mais do que isso, quando a família tira sarro, ele ri junto e todos ficam com uma sensação de que tirar sarro não o forçará a "fazer parte". Ele vive à margem do que os outros pensam sobre seu estado financeiro como eu vivo à margem do que pensam da minha sexualidade.
Durante uma das saídas para o centro da cidade, conversei com uma das minhas primas, Adriana. Durante a minha adolescência frustrada em Campos, ela liderava a matilha de primas que descolavam VIPs e entradas gratuitas para as baladas superfaturadas. Podiam escolher a dedo com quem queriam ficar, e parecia que nada nem ninguém tinha mais poder do que elas naquele meio, e nenhuma delas tinha mais poder do que Adriana. Essa, claro, era a visão totalmente romanceada que eu tinha delas na época. Conversar com Adriana (realmente conversar com ela...) me trouxe uma outra história. A de alguém que nunca se sentiu como parte da "turminha popular" (será que ALGUÉM algum dia se sentiu?), que camelou para alcançar o status que tinha e nunca se sentiu feliz com o poder que conseguiu. Aos 25, ela aposentou a vida de glamour. Mais adiante, largou o emprego em imobiliárias para abrir uma empresa de doces. Casou-se com um rapaz que não tinha nada do perfil que elas procuravam nas baladas de Campos. Planeja ter um filho em breve. E mais do que tudo, parece feliz vivendo também à margem do que a "turminha popular" pensa sobre ela.
No fim, não pude deixar de pensar em Nana. Porque eu percebera uma coisa similar quando cortamos contato. Ela havia se isolado do mundo, de quem a obrigara a estudar, a ter ambição, emprego, essas coisas prosaicas que a empurraram para a depressão. Quando eu a empurrei em direção a essas coisas, ela me cortou também. Nem eu, um amigo íntimo de mais de uma década, valia ela trair-se desse jeito. O que ela queria me ensinar (se é que se importava comigo para se dar ao trabalho de "me ensinar" alguma coisa), era que ela arranjaria essas coisas quando e se quisesse, não para ter a minha aprovação. Já não tenho contato algum com ela para saber se está feliz, mas não parece minimamente incomodada de viver à margem mesmo do que eu penso dela.
E quanto a mim?
Voltando ao cerne deste post e da questão atual, eu estava cada vez juntando mais bagagem para discutir com o meu analista. O que é que eu fazia de fato para mim? E o que é que eu fazia pela aprovação d'Os Outros? Quanto dessa aprovação era real ou imaginada por mim? Quanto que Os Outros de fato se importavam com o que eu fazia da vida, o que eu vestia, onde eu me divertia?
Do jeito que a questão está na minha cabeça, há alguns pontos-chave. Dentre eles, o meu atual emprego no meu antigo colégio (que vale um posto mais adiante...). Para quem que eu estou fazendo isso? Para ter honra perante a família? Para parecer importante na reunião de 15 anos de formandos do colégio? Para encher a boca e dizer (pra quem?) que eu sou professor com mestrado em artes, por uma questão de orgulho? Será que eu sequer gosto mesmo de arte?
Deu pra ver a extensão do problema, né?
Eu tenho algumas respostas, embora respostas neste terreno pantanoso de dúvida sejam suscetíveis à maré. Eu sei que gosto de idiomas e não me importaria de viver de tradução se isso pagasse o que eu ganho no colégio. Eu sei que gosto de me vestir bem (do meu jeito...) e de morar onde estou morando (mas não mais dos vizinhos...). E que essas coisas não têm tanto a ver com o que os outros acham e sim com um prazer estético meu. Eu sei que gosto de Londres. E por enquanto é só.
O resto ainda está aberto ao debate.
terça-feira, junho 05, 2012
De volta ao divã
Voltei oficialmente a fazer terapia. Desta vez, análise.Ainda é meio apertado no meu orçamento, que ainda conta com parcelas dos móveis do apê novo. Mas é necessário, com tudo que tem se passado nos meses recentes. Não para resolver questões práticas como crises de ansiedade, mas pra rever como minha cabeça está estruturada, por que eu saboto as coisas que eu saboto, por que tudo vai tão bem e ainda assim há essa sensação de fracasso.
O começo é mesmo uma rotina tediosa de recontar todas as histórias pessoais que eu já contei a terapeutas passados, a infância fora do país, os traumas de colégio, os tropeços dos primeiros relacionamentos, a influência de família, colégio, amigos, classe social. Mas curiosamente, recontando dessa vez, comecei a prestar atenção a outras coisas. Sabe, é como um daqueles filmes que você revê depois de um tempo e começa a perceber uns detalhes da trama que não tinha percebido. Coisas que não mudam o final que você já conhece, mas dão um gosto a mais e uma compreensão a mais para os eventos que acontecem no clímax do filme. Recentemente assisti Hannibal de novo, desse jeito. Revendo detalhes. Como eu gosto desse personagem!
Mais do que tudo, na terapia a gente vai percebendo como fez as coisas errado. Como nos deixamos cair em abismos que cavamos com nossos próprios pés. E como fizemos coisas certas também, mas pra essas não precisa de terapia, né? Não, eu ainda não sou um caso tão perdido e complicado assim. Dessa vez é apenas uma questão de fine tunning.
Acho que a questão agora é: será que o blog já perdeu leitores o suficiente para que eu possa voltar a ser pessoal e íntimo por aqui e escrever o que eu for descobrindo nessa jornada?
Será que eu de fato me importo com isso? Já não sei mais.
O começo é mesmo uma rotina tediosa de recontar todas as histórias pessoais que eu já contei a terapeutas passados, a infância fora do país, os traumas de colégio, os tropeços dos primeiros relacionamentos, a influência de família, colégio, amigos, classe social. Mas curiosamente, recontando dessa vez, comecei a prestar atenção a outras coisas. Sabe, é como um daqueles filmes que você revê depois de um tempo e começa a perceber uns detalhes da trama que não tinha percebido. Coisas que não mudam o final que você já conhece, mas dão um gosto a mais e uma compreensão a mais para os eventos que acontecem no clímax do filme. Recentemente assisti Hannibal de novo, desse jeito. Revendo detalhes. Como eu gosto desse personagem!
Mais do que tudo, na terapia a gente vai percebendo como fez as coisas errado. Como nos deixamos cair em abismos que cavamos com nossos próprios pés. E como fizemos coisas certas também, mas pra essas não precisa de terapia, né? Não, eu ainda não sou um caso tão perdido e complicado assim. Dessa vez é apenas uma questão de fine tunning.
Acho que a questão agora é: será que o blog já perdeu leitores o suficiente para que eu possa voltar a ser pessoal e íntimo por aqui e escrever o que eu for descobrindo nessa jornada?
Será que eu de fato me importo com isso? Já não sei mais.
segunda-feira, maio 21, 2012
Random literature
The sadness came, as I was told it would. I could scarcely believe it would, since it was meant to be one of the most accomplished periods of my life. The sadness came like winter rain comes in my country. A brief warning, perhaps a chill on an otherwise sunny and warm day. And those who had been seasoned well would know how to watch out for these signs. Weeks went by like days and on the next one my heart faced the most fiersome storm it had ever witnessed, the gales lashing at me throughout the night and thunder keeping sleep at bay. But time passed. And now this mourning is but the grayness of lingering clouds, damping the mood of the days. Every now and then the weather forecast predicts a foggy night or a rainny Tuesday afternoon. But the clouds are always there. It's been days. Perhaps a month already. Few things have any noticeable color anymore. And it seems these clouds will stay here for a long time.
terça-feira, maio 15, 2012
Na adolescência, quando eu costumava teorizar sobre o universo, confortei o Piero em tempos ruins dizendo-lhe que a vida tinha um tipo de equilíbrio. E que, se ele passava por uma época particularmente ruim, era porque uma época muito boa seria paga depois. Claro que não havia nenhuma base lógica para isso. Essa filosofia era inteiramente baseada na fé. Não na fé cristã, mas na fé de que a existência deveria ser boa, justa.
Depois de passar provavelmente o melhor ano da minha vida até este ponto no ano passado, eu acho que estou pagando por ele este ano.
E tá foda.
Depois de passar provavelmente o melhor ano da minha vida até este ponto no ano passado, eu acho que estou pagando por ele este ano.
E tá foda.
Pina, Wenders e honestidade
Fui assistir Pina do Wim Wenders. Pra dizer a verdade, não gostei tanto quanto imaginava que gostaria.
Eu queria sim que minha vida fosse como os filmes do Wenders. Fotografia impecável, pelo menos três idiomas e muita poesia. Aos poucos, vou me rodeando de gente que me permite fazer isso. Começar uma conversa em português, ter passagens em inglês e um pequeno parêntesis cômico em italiano.
Não, a razão de eu não ter gostado do filme não tem nada a ver com Wenders. Tem a ver com a dança. Arrisco dizer que tenha a ver com a arte. E principalmente comigo mesmo e com acontecimentos recentes. Alguém recentemente me fez pensar bastante sobre honestidade. Mais do que isso, sobre ser honesto consigo mesmo para poder ser honesto com os outros. Essa noção aparentemente óbvia, ligada a outros questionamentos que eu estava tendo sobre a índole masculina brasileira, tem feito um considerável estrago na minha vida. Mas é um daqueles estragos que você sabe que merece, e pelos quais precisa passar. Pra se tornar um homem melhor. E isso é assunto para um outro longo post que talvez eu nunca chegue a escrever.
No meio da trilha de destruição que essa honestidade está deixando, encontra-se a minha capacidade de apreciar arte. Uma capacidade que antes era baseada em uma espécie de tolerância, como se, frente a uma obra daquelas áridas, meio abstratas e herméticas, eu dissesse "muito bem, eu não estou me relacionando com essa coisa, mas se está aqui, deve ter alguma importância e beleza que eu ainda não captei". Eu ignorava o sentimento negativo de isolamento que eu sentia, o enfado, o tédio, para quem sabe poder chegar a um nível de compreensão e maravilhamento mais adiante. Resumindo, eu fazia cara de conteúdo.
Mas dessa vez, vendo o filme com honestidade, eu resolvi não ignorar. Houve partes em que eu dormi MESMO. Houveram coreografias que não me diziam NADA. Movimentos espasmódicos que claramente eram o fim de algum longo e tortuoso processo do dançarino, mas que não queriam dizer nada para o expectador final que eu sou. Arte hoje às vezes é um processo. E faz sentido quando se vê desde o começo, como fez sentido para quem acompanhou o meu processo todo em Londres e entendeu porque que eu emergi de cabeça raspada, lixando minhas unhas em uma lixadeira mecânica. Porque que eu me embrenhei pelas baladas de Brixton. Porque que a Filha do Açougueiro teve que fugir. Mas pra quem pega o bonde andando, isso não passa de loucura estéril.
Quiçá eu devesse ter lido mais, pesquisado mais sobre a Pina Bausch antes de ir ver o filme. Ela era apenas um nome e uma noção de uma mulher daquelas.
E no entanto, há momentos de grande beleza no filme. Alguns são obra do Wenders: as tomadas do metrô alemão; as cenas nas paisagens desertas; a fila de dançarinos morbidamente sorridentes repetindo os movimentos de primavera, verão, outono e inverno; as construções meio Bauhauss onde algumas das cenas acontecem. Outras são Pina e seus bailarinos: a garota que se enrola nos braços do amado que foge dela; a outra que cai para os lados a cada passo, segura de que seu parceiro a segurará poucos centímetros antes de atingir o chão; os dançarinos jogando baldes d'água na rocha enorme no palco, me lembrando ondas na arrebentação.
Percebo que o meu estado recente me deixou um pouco avesso ao drama. Talvez um pouco mais frio, endurecendo a carapaça externa pela qual todas as artes futuras terão que penetrar pra me fazer sentir algo de fato.
E como será o efeito disso quando (e se) eu voltar a de fato fazer arte?
Eu queria sim que minha vida fosse como os filmes do Wenders. Fotografia impecável, pelo menos três idiomas e muita poesia. Aos poucos, vou me rodeando de gente que me permite fazer isso. Começar uma conversa em português, ter passagens em inglês e um pequeno parêntesis cômico em italiano.
Não, a razão de eu não ter gostado do filme não tem nada a ver com Wenders. Tem a ver com a dança. Arrisco dizer que tenha a ver com a arte. E principalmente comigo mesmo e com acontecimentos recentes. Alguém recentemente me fez pensar bastante sobre honestidade. Mais do que isso, sobre ser honesto consigo mesmo para poder ser honesto com os outros. Essa noção aparentemente óbvia, ligada a outros questionamentos que eu estava tendo sobre a índole masculina brasileira, tem feito um considerável estrago na minha vida. Mas é um daqueles estragos que você sabe que merece, e pelos quais precisa passar. Pra se tornar um homem melhor. E isso é assunto para um outro longo post que talvez eu nunca chegue a escrever.
No meio da trilha de destruição que essa honestidade está deixando, encontra-se a minha capacidade de apreciar arte. Uma capacidade que antes era baseada em uma espécie de tolerância, como se, frente a uma obra daquelas áridas, meio abstratas e herméticas, eu dissesse "muito bem, eu não estou me relacionando com essa coisa, mas se está aqui, deve ter alguma importância e beleza que eu ainda não captei". Eu ignorava o sentimento negativo de isolamento que eu sentia, o enfado, o tédio, para quem sabe poder chegar a um nível de compreensão e maravilhamento mais adiante. Resumindo, eu fazia cara de conteúdo.
Mas dessa vez, vendo o filme com honestidade, eu resolvi não ignorar. Houve partes em que eu dormi MESMO. Houveram coreografias que não me diziam NADA. Movimentos espasmódicos que claramente eram o fim de algum longo e tortuoso processo do dançarino, mas que não queriam dizer nada para o expectador final que eu sou. Arte hoje às vezes é um processo. E faz sentido quando se vê desde o começo, como fez sentido para quem acompanhou o meu processo todo em Londres e entendeu porque que eu emergi de cabeça raspada, lixando minhas unhas em uma lixadeira mecânica. Porque que eu me embrenhei pelas baladas de Brixton. Porque que a Filha do Açougueiro teve que fugir. Mas pra quem pega o bonde andando, isso não passa de loucura estéril.
Quiçá eu devesse ter lido mais, pesquisado mais sobre a Pina Bausch antes de ir ver o filme. Ela era apenas um nome e uma noção de uma mulher daquelas.
E no entanto, há momentos de grande beleza no filme. Alguns são obra do Wenders: as tomadas do metrô alemão; as cenas nas paisagens desertas; a fila de dançarinos morbidamente sorridentes repetindo os movimentos de primavera, verão, outono e inverno; as construções meio Bauhauss onde algumas das cenas acontecem. Outras são Pina e seus bailarinos: a garota que se enrola nos braços do amado que foge dela; a outra que cai para os lados a cada passo, segura de que seu parceiro a segurará poucos centímetros antes de atingir o chão; os dançarinos jogando baldes d'água na rocha enorme no palco, me lembrando ondas na arrebentação.
Percebo que o meu estado recente me deixou um pouco avesso ao drama. Talvez um pouco mais frio, endurecendo a carapaça externa pela qual todas as artes futuras terão que penetrar pra me fazer sentir algo de fato.
E como será o efeito disso quando (e se) eu voltar a de fato fazer arte?
terça-feira, maio 08, 2012
Um post frívolo
Depois dos acontecimentos recentes da minha vida pessoal não postados por aqui (já que o blog deixou de ser sobre a minha vida pessoal há muitos anos...), resolvi seguir aquele conselho feminino e ir cortar o cabelo pra tirar o peso da cabeça - literal e figurativamente. Eu adoro aquele termo do inglês: getting pampered. É uma expressão de "ser bem tratado", "ser mimado".
Acho que se eu fosse trilhardário, instalaria uma daquelas pias de lavar cabelo em casa e teria alguém para fazer isso pra mim no final de cada dia. Poucas coisas são tão relaxantes quanto alguém mexendo nos cabelos assim.
Na cadeira do barbeiro, café em uma mão e jornal na outra. Li uma notícia dizendo que a venda de automóveis na cidade havia caído e que os estoques atualmente somam cerca de 43 dias de vendas. Achei curioso e muito interessante. Quiçá a cidade esteja tomando jeito.
Na saída, aquela olhadela básica com os dois espelhos. Mais fácil deixar a cabeça em ordem por fora do que por dentro. Esse último ainda leva um tempo.
Acho que se eu fosse trilhardário, instalaria uma daquelas pias de lavar cabelo em casa e teria alguém para fazer isso pra mim no final de cada dia. Poucas coisas são tão relaxantes quanto alguém mexendo nos cabelos assim.
Na cadeira do barbeiro, café em uma mão e jornal na outra. Li uma notícia dizendo que a venda de automóveis na cidade havia caído e que os estoques atualmente somam cerca de 43 dias de vendas. Achei curioso e muito interessante. Quiçá a cidade esteja tomando jeito.
Na saída, aquela olhadela básica com os dois espelhos. Mais fácil deixar a cabeça em ordem por fora do que por dentro. Esse último ainda leva um tempo.
segunda-feira, maio 07, 2012
Foi um daqueles momentos cinematográficos.
"Cara, eu ouvi sobre o assunto do seu mestrado e tive uma ideia de um roteiro!" me disse uma das minhas colegas de licenciatura. Ela fumava enquanto eu tomava um café no intervalo entre as aulas. Passou a me contar sobre essa história de um rapaz heterossexual que, por curiosidade, acaba indo parar em uma área da cidade frequentada por transsexuais e afins. Vai sozinho, claro, para evitar o questionamento dos amigos. E durante o curta-metragem, passa uma noite incrivelmente poética, hedonista e livre, deixando o preconceito de lado por algum tempo. Participa das baladas, deixa-se seduzir pelas criaturas desse lugar estranho e oferece ao expectador uma visão muito sincera de um feminino encarnado por homens. No fim da aventura, ele retorna a uma espécie de "normalidade", podendo deixar pra trás pra sempre o seu preconceito. Ela disse que seria uma história legal.
"Então..." eu respondi. "Deixa eu te contar umas coisas..."
quarta-feira, maio 02, 2012
Aluguel
Eu atualmente estou pagando o aluguel de um apartamento.
Eu pago por aproximadamente 35 metros quadrados com varanda (e ganchos de rede...) em uma kitchenette.
Eu pago pra que seja o espaço necessário e nada mais, fácil de cuidar sozinho.
Eu pago por piscina, sala de ginástica e sauna para fazer uma pausa das traduções de vez em quando.
Eu pago por vizinhos jovens, que não enchem o saco e ouvem raridades do Bowie com o volume nas alturas e eu não tenho nem como reclamar porque adoro.
Eu pago por uma entrada com boa segurança e porteiros simpáticos.
Eu pago por internet wi-fi gratúita no saguão e na silenciosa sala de estudos (que tem um suspeito cheiro de urina...)
Eu pago por uma vaga na garagem onde ninguém tem lugar fixo e a gente para onde quer desde que não tranque ninguém.
Eu pago para estar a apenas três quarteirões de distância da Paulista e poder na verdade prescindir do carro durante toda a semana.
Eu pago para precisar de apenas vinte minutos de transporte público para ir a qualquer lugar: a casa dos meus pais, a faculdade, o colégio e minha Lexy.
Eu pago pelas manhãs vendo as pontas dos ciprestes (os "dedos dos mortos") no cemitério da Consolação ao acordar e a paz sepulcral em meio à cidade antes de dormir.
Eu pago por uma janela grande sem vizinhos que me espiem, para suprir minha necessidade exibicionista sem perigo real.
Eu pago por um prédio que tem um misterioso primeiro andar, sem janelas, que faz com que eu me confunda sempre que tento localizar a minha lá da sala de ginástica.
Eu pago para ver as menores formigas que eu já vi na vida, invadindo meu açucareiro e andando por cima da água no prato onde ele foi colocado - um minúsculo exército de Jesuses que não se sente intimidado pela fossa em volta do castelo.
Eu pago pela sensação de ser adulto, de conquista, de ter o que é meu, bought and paid for.
Eu pago um preço alto. Mas vale cada centavo.
Aguardem o open house em breve.
domingo, abril 15, 2012
Vermelho
Fui assistir Vermelho com o Antônio e o Bruno Fagundes. Os atores são pai e filho. Os personagens, Mark Rothko e Ken, são mestre e aprendiz de pintor. Essa coerência metalinguística ficou bem legal, e me deu muita vontade de voltar àquela questão da falta de um mestre. Na peça, Ken se apresenta a Rothko e começa a trabalhar para ele como assistente de ateliê. Ele é ansioso pela aprovação do mestre, que o trata como ninguém. Mas aos poucos, Rothko vai ensinando-o a ver a pintura, a encará-la com seriedade, a ter discernimento (e não apenas achar tudo "legal"). Até que eventualmente, há aquele momento sublime em que o aprendiz consegue apontar toda a megalomania e o egocentrismo do mestre e provar que ele também não é ninguém. Ou melhor, que ainda que tenha feito história, ele também é humano, preso ao seu tempo, e passível de um dia se tornar obsoleto. É a superação do mestre pelo aprendiz.
Há na peça uma energia forte, masculina, obviamente advinda dos personagens, que encarnam aquele estereótipo do pintor machão, rude, briguento. Não é à toa que a comparação entre Rothko e Pollock é feita durante boa parte da peça. Os dois, pintores machões (Pollock, até bem machista). Eu ainda não sei o que sinto a respeito desse estereótipo. Mas não gostaria de ser incluído nele algum dia.
Na época da minha graduação, eu tive a chance de ter Dora Longo Bahia como mestre. Mas eu era imaturo, arrogante, e vindo de uma geração que se dá ao luxo de desistir e ir procurar chances mais brandas ao ego diante do primeiro sinal de confronto. Tá certo que ela não facilitava muito as coisas. Mas bons mestres não afagam o seu ego desde o começo. Como resultado, eu pouco aproveitei esse relacionamento, e não tirei nenhuma chance disso além da boa nota no meu trabalho final da faculdade. Hoje, aos 30 anos, eu acho que eu teria maturidade e humildade para encarar um mestre como se deve. Para sofrer o necessário e aprender com isso.
Será que um dia eu ainda serei um mestre (que, diga-se de passagem, é mais do que apenas ser um professor de artes...)?
A peça também me deixou com vontade de voltar a fazer arte que nem essa do Rothko. Daquelas que precisam de muito tempo, muita paciência, muito gosto e discernimento pra apreciar. De demorar-se horas escolhendo o tom certo da cor (e não apenas pegar qualquer cor que vem no tubinho de tinta...), decidindo se é a relação certa com a outra cor. Dessas pequenices que não querem dizer nada para quem não está disposto a dedicar-se a essa fruição. Desse tipo de arte que eu até me divirto fazendo, mas não tenho a coragem de mostrar.
Quem sabe um dia...
Quem sabe com o mestre certo...
Há na peça uma energia forte, masculina, obviamente advinda dos personagens, que encarnam aquele estereótipo do pintor machão, rude, briguento. Não é à toa que a comparação entre Rothko e Pollock é feita durante boa parte da peça. Os dois, pintores machões (Pollock, até bem machista). Eu ainda não sei o que sinto a respeito desse estereótipo. Mas não gostaria de ser incluído nele algum dia.
Na época da minha graduação, eu tive a chance de ter Dora Longo Bahia como mestre. Mas eu era imaturo, arrogante, e vindo de uma geração que se dá ao luxo de desistir e ir procurar chances mais brandas ao ego diante do primeiro sinal de confronto. Tá certo que ela não facilitava muito as coisas. Mas bons mestres não afagam o seu ego desde o começo. Como resultado, eu pouco aproveitei esse relacionamento, e não tirei nenhuma chance disso além da boa nota no meu trabalho final da faculdade. Hoje, aos 30 anos, eu acho que eu teria maturidade e humildade para encarar um mestre como se deve. Para sofrer o necessário e aprender com isso.
Será que um dia eu ainda serei um mestre (que, diga-se de passagem, é mais do que apenas ser um professor de artes...)?
A peça também me deixou com vontade de voltar a fazer arte que nem essa do Rothko. Daquelas que precisam de muito tempo, muita paciência, muito gosto e discernimento pra apreciar. De demorar-se horas escolhendo o tom certo da cor (e não apenas pegar qualquer cor que vem no tubinho de tinta...), decidindo se é a relação certa com a outra cor. Dessas pequenices que não querem dizer nada para quem não está disposto a dedicar-se a essa fruição. Desse tipo de arte que eu até me divirto fazendo, mas não tenho a coragem de mostrar.
Quem sabe um dia...
Quem sabe com o mestre certo...
segunda-feira, abril 09, 2012
Jogos Vorazes
Meu alunos no colégio só falam da trilogia Jogos Vorazes, e eu queria muito comentar a respeito, depois de ter visto o primeiro filme. Devo no entanto aproveitar a oportunidade para falar de várias outras coisas e fazer um amarrado do que tem se passado.
Cenas recentes.
Tive uma aula particularmente complicada com uma turma da 7ª série que não parecia minimamente interessada em saber das festas folclóricas nacionais que estávamos estudando. O assunto já fora trazido à equipe de professores: eu achava que os alunos, nascidos e criados em sua maioria nesta mesma cidade, não tinham motivos para se interessarem por festas folclóricas de longínquos estados do nordeste. E nem mesmo pelas festas dos estados mais próximos. Só mostravam alguma empatia ao falarmos de Festa Junina, e quando muito, do Bumba-meu-boi. Claro, a equipe me disse que, como educador, eu devia encontrar meios de fazer essas festas folclóricas parecerem interessantes. Ainda estou esperando sugestões de como fazer isso...
Às tantas, perdi a paciência e chamei a atenção da classe inteira. Um dos alunos, mais desinibido, interrompeu a bronca: "Mas professor, sem querer ofender, pra que é que nós temos que estudar arte?". Eu temia a pergunta mais do que a fatídica "de onde vem os bebês?" que eu teria que responder a qualquer filho meu. A verdade é que eu mesmo não sabia (das artes, não dos bebês...). Eu me graduara e fizera um mestrado em artes. Fizera-o por vontade, por gosto (diletantismo?). Mas no fundo, nunca havia visto o sentido nisso tudo. Eu fazia de coração, mas a cabeça não entendia. Essa mentalidade, sem dúvida advinda da minha educação neste mesmo colégio, voltada para questões práticas, úteis, eficientes, com certeza tivera seu impacto no quão pouco eu conseguira me dedicar seriamente (de corpo e alma) a uma carreira como artista plástico. Eu continuava preso fundamentalmente a uma pergunta parecida, embora elaborada de forma mais madura: "pra que gastar tempo, dinheiro e cérebro em uma prática que essencialmente não executa nenhum serviço prático?" Eu ainda via arte como uma brincadeira, um parlor trick. Dá pra ver porque é que eu nunca dei muito certo, né?
O colégio, claro, estava querendo mudar esse jeito de pensar. Percebera que uma educação voltada apenas às questões práticas gerava formandos excelentes no tocante a ganhar dinheiro, porém profundamente incomodados com um vazio interior que fortuna nenhuma preenchia. Posso dizer por causos de amigos próximos que as consequências desse vazio chegaram a ser fatais para pelo menos um colega meu... Eu era parte desse processo, cria dessa mentalidade: parecia adequado que eu, percebendo as falhas daquela formação anterior, ajudasse a apontar o caminho para a nova formação.
Eu pensei em muitas formas de responder essa questão do meu aluno. Pensei em falar de estatísticas, do quanto o mercado de arte faturava, para dar uma dimensão palpável, quantíficável, compreensível para esse jeito de pensar que o colégio já instilava nos alunos (e já na 7ª série...). Mas se ele podia fazer tanto ou mais dinheiro como um engenheiro ou advogado, isso de nada o convenceria. E de qualquer forma, estudar arte não o faria automaticamente um artista de sucesso (assim como estudar matemática não o faria automaticamente um engenheiro de sucesso, e etc.). Pensei em falar de identidade, mas isso por si só já era um caminho espinhento na minha própria história. Parte da minha família era do nordeste e nem por isso eu gostava da cultura do sertão. Fora atrás da minha origem italiana e acabara me identificando muito mais com a cultura britânica, da qual não tenho descendência alguma. Eu sentia que havia sim algo a dizer aí. Algo sobre como temos que conhecer nossas origens para poder questioná-las e encontrar nossa verdadeira identidade. Algo sobre como eu começara com origens nordestinas e já fora aos confins da Walachia procurar minha identidade entre os vampiros históricos da Romênia.
E por falar em vampiros, mencionei o clássico da Anne Rice a um dos outros professores depois das aulas. Ele me falou de workshops que aconteciam entre os professores, onde era explorado o sentimento que alguns dos mais velhos tinham de que os mais novos estavam chegando para tirar os seus lugares. Lembrei logo da cena em que Armand diz a Louis que ele receia que chegue a época em que ele, contando já 400 anos, não consiga mais acompanhar as mudanças do mundo. E em seguida, pede que Louis, um vampiro recém-criado, seja seu elo de ligação com a época atual. No entanto, Armand continua tendo sua relevância, ao contar a Louis sobre a moral dos vampiros mais velhos, e porque eles tentarão matar sua pequena Cláudia, transformada em vampira ainda na infância.
Saíndo do colégio naquele dia, mencionei que Entrevista com o Vampiro talvez tivesse sido o Jogos Vorazes da minha época (dizer "na minha época" com 30 anos de idade ainda parece um anacronismo?). Foi pelo menos um dos contos que fizeram a cabeça de muita gente mais adepta à subcultura gótica. Eu poderia escrever largamente sobre como a história tem muito mais densidade do que qualquer das sagas mais recentes, mas minha opinião seria claramente enviesada. Os livros de Rice foram adequados a uma espécie de "revival" do gótico da minha geração de adolescentes. Porém tenho que admitir que Jogos Vorazes faz sim muito mais sentido para uma geração adolescente que já acompanha mais de uma dezena de edições do Big Brother e a grotesca cadeia de eventos televisionados que começou com o 11 de Setembro e hoje nos traz imagens de um país invadido e subjugado que não teve nada a ver com o assunto.
Então vamos ao que interessa: como que Jogos Vorazes me ajudará a responder a questão do meu aluno e trazer o estudo de artes para algo mais concreto para eles?
A resposta está na crítica.
A mais nova saga adolescente mostra um grupo de 24 jovens, dois de cada distrito do país fictício Panem, sendo colocados em uma arena para lutar entre si até só restar um. A carnificina é televisionada em uma espécie de reality show para uma população futurista de um distrito hierarquicamente superior que é totalmente apática ao fato de que são adolescentes de 13 a 18 anos abatendo uns aos outros como animais. Tudo isso sob um pretexto fraco e inverossímil de que a doação desses jovens como "Tributos" para o distrito superior inexplicavelmente fará com que os distritos subjugados desistam da idéia de organizar outro levante armado contra o superior. É, eu também não entendi a lógica nisso...
O que deu pra entender, e que eu acho que talvez seja a pouca parte louvável da saga, foi a crítica dupla sendo feita na história. A escritora Suzanne Collins disse em uma entrevista que teve a idéia para o livro enquanto mudava de canais na TV, entre um reality show e notícias da guerra do Iraque. A primeira crítica está no reality show no livro dela, que assim como as versões mais recentes do Big Brother, é mais "show" do que "reality". Eles nos trazem participantes que estão cientes demais de como manipular o público do outro lado da tela pode ser uma estratégia mais eficaz do que insistir na realidade do que está acontecendo do lado deles, na arena/casa dos Brothers. Há cada vez mais relacionamentos de fachada e polêmicas desnecessárias em prol de alavancar simpatia do público. Onde foi parar o "reality" de um grupo de pessoas sendo elas mesmas? Jogos Vorazes retrata isso, na medida em que a personagem principal encena um relacionamento de fachada para ganhar apoio do público, que pode lhe "patrocinar" ítens de sobrevivência dentro da arena; e na medida em que os organizadores do jogo moldam a imagem pública dela para tirar proveito disso.
Os organizadores do reality show talvez sejam o maior alvo desta crítica. No filme, eles mudam regras de forma cínica, manipulam o ambiente e os jogadores, tudo para cativar ainda mais o público. Mais uma vez, não há "reality", só o "show". Eles não deixam as coisas acontecerem naturalmente. No Big Brother e derivados, a coisa não é muito diferente (tá legal, não tem armas, bolas de fogo ou cães do inferno...). Já imaginou o que aconteceria se todos os "brothers" fossem colocados na casa e todo mundo se desse muito bem e não houvesse conflito? O programa seria um porre, com muito mais choradeira na hora em que um dos novos BFFs fosse eliminado por regras do jogo. Os organizadores precisam fomentar a discórdia, as rivalidades, o conflito. Eles precisam criar mocinhos e bandidos, mesmo que isso seja claramente artificial.
Quem assiste Jogos Vorazes deveria estar ciente de que os organizadores querem vender um determinado perfil que leva ao sucesso. O Big Brother não é diferente. E é por isso que a grande maioria dos participantes são rapazes bombados e garotas curvilíneas. Vez por outra, há um negro, um homossexual, uma gordinha ou um participante mais velho para dizer que o programa está contemplando todo tipo de gente, e até acontece de algum deles vencer de vez em quando, mas não dá pra negar que o perfil de sucesso sendo vendido pelos programas é o da beleza física.
A segunda crítica da história é relativa à guerra do Iraque. Na história, o distrito hierarquicamente superior venceu a guerra civil contra os outros distritos por ter tecnologia superior. Depois instituiu esse regime de "pão e circo" aos outros distritos e a seus próprios habitantes, mantendo-os distraídos com um programa de televisão. Os distritos vencidos são retratados lugares de baixa tecnologia, de pessoas com roupas pobres passando necessidade. Enquanto que o distrito superior tem cores, luzes, pessoas com cabelos impraticáveis e apelo pop. Lembra um pouco o Oriente Médio e os EUA, não? Interessante ver que a história está sendo escrita por uma americana, mas coloca os EUA simbólicos como os vilões da história. Na verdade, não é o primeiro filme a fazer críticas severas contra o imperialismo americano. Mas é legal ver cada vez mais filmes deixando claro que nem os americanos estão mais acreditando nessa de "luta contra o terrorismo".
Mais do que tudo, o livro serve como um aviso à geração adolescente que ficou fascinada por ele: prestem atenção, vocês estão sendo sedados pela mídia. Acordem!
O formidável aqui é que esse aviso está sendo veiculado através de um livro que virou best-seller e gerou um blockbuster adolescente nos cinemas. Ou seja, o aviso contra a mídia está sendo veiculado na própria mídia. E o sistema o veicula tranquilamente, crente de que o público já está tão sedado que nem vai perceber a crítica.
Termino este texto prolixo lembrando de uma passagem do filme onde um dos personagens diz que, se ninguém assistisse aos Jogos Vorazes, o programa e a doação de "Tributos" perderiam seu sentido e seriam cancelados. Seria maravilhoso poder fazer isso com um programa na vida real que já teve mais de uma dezena de edições e perdeu totalmente o seu sentido...
Cenas recentes.
Tive uma aula particularmente complicada com uma turma da 7ª série que não parecia minimamente interessada em saber das festas folclóricas nacionais que estávamos estudando. O assunto já fora trazido à equipe de professores: eu achava que os alunos, nascidos e criados em sua maioria nesta mesma cidade, não tinham motivos para se interessarem por festas folclóricas de longínquos estados do nordeste. E nem mesmo pelas festas dos estados mais próximos. Só mostravam alguma empatia ao falarmos de Festa Junina, e quando muito, do Bumba-meu-boi. Claro, a equipe me disse que, como educador, eu devia encontrar meios de fazer essas festas folclóricas parecerem interessantes. Ainda estou esperando sugestões de como fazer isso...
Às tantas, perdi a paciência e chamei a atenção da classe inteira. Um dos alunos, mais desinibido, interrompeu a bronca: "Mas professor, sem querer ofender, pra que é que nós temos que estudar arte?". Eu temia a pergunta mais do que a fatídica "de onde vem os bebês?" que eu teria que responder a qualquer filho meu. A verdade é que eu mesmo não sabia (das artes, não dos bebês...). Eu me graduara e fizera um mestrado em artes. Fizera-o por vontade, por gosto (diletantismo?). Mas no fundo, nunca havia visto o sentido nisso tudo. Eu fazia de coração, mas a cabeça não entendia. Essa mentalidade, sem dúvida advinda da minha educação neste mesmo colégio, voltada para questões práticas, úteis, eficientes, com certeza tivera seu impacto no quão pouco eu conseguira me dedicar seriamente (de corpo e alma) a uma carreira como artista plástico. Eu continuava preso fundamentalmente a uma pergunta parecida, embora elaborada de forma mais madura: "pra que gastar tempo, dinheiro e cérebro em uma prática que essencialmente não executa nenhum serviço prático?" Eu ainda via arte como uma brincadeira, um parlor trick. Dá pra ver porque é que eu nunca dei muito certo, né?
O colégio, claro, estava querendo mudar esse jeito de pensar. Percebera que uma educação voltada apenas às questões práticas gerava formandos excelentes no tocante a ganhar dinheiro, porém profundamente incomodados com um vazio interior que fortuna nenhuma preenchia. Posso dizer por causos de amigos próximos que as consequências desse vazio chegaram a ser fatais para pelo menos um colega meu... Eu era parte desse processo, cria dessa mentalidade: parecia adequado que eu, percebendo as falhas daquela formação anterior, ajudasse a apontar o caminho para a nova formação.
Eu pensei em muitas formas de responder essa questão do meu aluno. Pensei em falar de estatísticas, do quanto o mercado de arte faturava, para dar uma dimensão palpável, quantíficável, compreensível para esse jeito de pensar que o colégio já instilava nos alunos (e já na 7ª série...). Mas se ele podia fazer tanto ou mais dinheiro como um engenheiro ou advogado, isso de nada o convenceria. E de qualquer forma, estudar arte não o faria automaticamente um artista de sucesso (assim como estudar matemática não o faria automaticamente um engenheiro de sucesso, e etc.). Pensei em falar de identidade, mas isso por si só já era um caminho espinhento na minha própria história. Parte da minha família era do nordeste e nem por isso eu gostava da cultura do sertão. Fora atrás da minha origem italiana e acabara me identificando muito mais com a cultura britânica, da qual não tenho descendência alguma. Eu sentia que havia sim algo a dizer aí. Algo sobre como temos que conhecer nossas origens para poder questioná-las e encontrar nossa verdadeira identidade. Algo sobre como eu começara com origens nordestinas e já fora aos confins da Walachia procurar minha identidade entre os vampiros históricos da Romênia.
E por falar em vampiros, mencionei o clássico da Anne Rice a um dos outros professores depois das aulas. Ele me falou de workshops que aconteciam entre os professores, onde era explorado o sentimento que alguns dos mais velhos tinham de que os mais novos estavam chegando para tirar os seus lugares. Lembrei logo da cena em que Armand diz a Louis que ele receia que chegue a época em que ele, contando já 400 anos, não consiga mais acompanhar as mudanças do mundo. E em seguida, pede que Louis, um vampiro recém-criado, seja seu elo de ligação com a época atual. No entanto, Armand continua tendo sua relevância, ao contar a Louis sobre a moral dos vampiros mais velhos, e porque eles tentarão matar sua pequena Cláudia, transformada em vampira ainda na infância.
Saíndo do colégio naquele dia, mencionei que Entrevista com o Vampiro talvez tivesse sido o Jogos Vorazes da minha época (dizer "na minha época" com 30 anos de idade ainda parece um anacronismo?). Foi pelo menos um dos contos que fizeram a cabeça de muita gente mais adepta à subcultura gótica. Eu poderia escrever largamente sobre como a história tem muito mais densidade do que qualquer das sagas mais recentes, mas minha opinião seria claramente enviesada. Os livros de Rice foram adequados a uma espécie de "revival" do gótico da minha geração de adolescentes. Porém tenho que admitir que Jogos Vorazes faz sim muito mais sentido para uma geração adolescente que já acompanha mais de uma dezena de edições do Big Brother e a grotesca cadeia de eventos televisionados que começou com o 11 de Setembro e hoje nos traz imagens de um país invadido e subjugado que não teve nada a ver com o assunto.
Então vamos ao que interessa: como que Jogos Vorazes me ajudará a responder a questão do meu aluno e trazer o estudo de artes para algo mais concreto para eles?
A resposta está na crítica.
A mais nova saga adolescente mostra um grupo de 24 jovens, dois de cada distrito do país fictício Panem, sendo colocados em uma arena para lutar entre si até só restar um. A carnificina é televisionada em uma espécie de reality show para uma população futurista de um distrito hierarquicamente superior que é totalmente apática ao fato de que são adolescentes de 13 a 18 anos abatendo uns aos outros como animais. Tudo isso sob um pretexto fraco e inverossímil de que a doação desses jovens como "Tributos" para o distrito superior inexplicavelmente fará com que os distritos subjugados desistam da idéia de organizar outro levante armado contra o superior. É, eu também não entendi a lógica nisso...
O que deu pra entender, e que eu acho que talvez seja a pouca parte louvável da saga, foi a crítica dupla sendo feita na história. A escritora Suzanne Collins disse em uma entrevista que teve a idéia para o livro enquanto mudava de canais na TV, entre um reality show e notícias da guerra do Iraque. A primeira crítica está no reality show no livro dela, que assim como as versões mais recentes do Big Brother, é mais "show" do que "reality". Eles nos trazem participantes que estão cientes demais de como manipular o público do outro lado da tela pode ser uma estratégia mais eficaz do que insistir na realidade do que está acontecendo do lado deles, na arena/casa dos Brothers. Há cada vez mais relacionamentos de fachada e polêmicas desnecessárias em prol de alavancar simpatia do público. Onde foi parar o "reality" de um grupo de pessoas sendo elas mesmas? Jogos Vorazes retrata isso, na medida em que a personagem principal encena um relacionamento de fachada para ganhar apoio do público, que pode lhe "patrocinar" ítens de sobrevivência dentro da arena; e na medida em que os organizadores do jogo moldam a imagem pública dela para tirar proveito disso.
Os organizadores do reality show talvez sejam o maior alvo desta crítica. No filme, eles mudam regras de forma cínica, manipulam o ambiente e os jogadores, tudo para cativar ainda mais o público. Mais uma vez, não há "reality", só o "show". Eles não deixam as coisas acontecerem naturalmente. No Big Brother e derivados, a coisa não é muito diferente (tá legal, não tem armas, bolas de fogo ou cães do inferno...). Já imaginou o que aconteceria se todos os "brothers" fossem colocados na casa e todo mundo se desse muito bem e não houvesse conflito? O programa seria um porre, com muito mais choradeira na hora em que um dos novos BFFs fosse eliminado por regras do jogo. Os organizadores precisam fomentar a discórdia, as rivalidades, o conflito. Eles precisam criar mocinhos e bandidos, mesmo que isso seja claramente artificial.
Quem assiste Jogos Vorazes deveria estar ciente de que os organizadores querem vender um determinado perfil que leva ao sucesso. O Big Brother não é diferente. E é por isso que a grande maioria dos participantes são rapazes bombados e garotas curvilíneas. Vez por outra, há um negro, um homossexual, uma gordinha ou um participante mais velho para dizer que o programa está contemplando todo tipo de gente, e até acontece de algum deles vencer de vez em quando, mas não dá pra negar que o perfil de sucesso sendo vendido pelos programas é o da beleza física.
A segunda crítica da história é relativa à guerra do Iraque. Na história, o distrito hierarquicamente superior venceu a guerra civil contra os outros distritos por ter tecnologia superior. Depois instituiu esse regime de "pão e circo" aos outros distritos e a seus próprios habitantes, mantendo-os distraídos com um programa de televisão. Os distritos vencidos são retratados lugares de baixa tecnologia, de pessoas com roupas pobres passando necessidade. Enquanto que o distrito superior tem cores, luzes, pessoas com cabelos impraticáveis e apelo pop. Lembra um pouco o Oriente Médio e os EUA, não? Interessante ver que a história está sendo escrita por uma americana, mas coloca os EUA simbólicos como os vilões da história. Na verdade, não é o primeiro filme a fazer críticas severas contra o imperialismo americano. Mas é legal ver cada vez mais filmes deixando claro que nem os americanos estão mais acreditando nessa de "luta contra o terrorismo".
Mais do que tudo, o livro serve como um aviso à geração adolescente que ficou fascinada por ele: prestem atenção, vocês estão sendo sedados pela mídia. Acordem!
O formidável aqui é que esse aviso está sendo veiculado através de um livro que virou best-seller e gerou um blockbuster adolescente nos cinemas. Ou seja, o aviso contra a mídia está sendo veiculado na própria mídia. E o sistema o veicula tranquilamente, crente de que o público já está tão sedado que nem vai perceber a crítica.
Termino este texto prolixo lembrando de uma passagem do filme onde um dos personagens diz que, se ninguém assistisse aos Jogos Vorazes, o programa e a doação de "Tributos" perderiam seu sentido e seriam cancelados. Seria maravilhoso poder fazer isso com um programa na vida real que já teve mais de uma dezena de edições e perdeu totalmente o seu sentido...
terça-feira, março 27, 2012
Caught in the undertow
Em inglês, usa-se a expressão stream of consciousness geralmente para falar do fluir das idéias, do modo como uma leva à outra, às vezes se fundindo em um raciocínio rápido e que não necessariamente segue uma lógica coerente. "Stream", aliás, é palavra usada para designar um riacho.
Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:
Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?
Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.
Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).
Pois bem, eis um exemplo típico do meu stream of consciousness atual:
Acho que eu consigo me planejar para ir comprar talheres e copos lá na 25 de Março na terça de manhã. Bom, primeiro tenho que passar no apartamento para pegar o carro: acho que deixá-lo no eletricista e pegar no fim do dia. Vejamos: um ônibus até o metro, e do metrô para a 25. Será que eu tenho crédito no Bilhete Único? Preciso estar de volta antes das 15:00 para avaliar as últimas apresentações dos meus alunos da 9a série. Ai, para tudo! Vou precisar chegar no colégio uma hora mais cedo porque esqueci de publicar na internet o gabarito do exercício que passei! Tem Wi-fi por aqui? A outra professora deve ter me mandado as respostas que ela montou. Eu sei que não vou conseguir publicar isso de casa porque hoje tenho que terminar a tradução. Peraí... Hoje tem tradução? Eu vejo isso depois. Melhor deixar uma nota no celular, ou eu vou esquecer. Aliás, já esqueci de ligar para o pessoal daquele cheque que voltou! Hoje era o último dia. Será que meu nome foi para o Serasa? A última vez que eu falei com eles foi ontem, nos intervalos das aulas de licenciatura. E por falar nisso, eu ainda não comecei aquela pesquisa sobre os diferentes tipos de escola para a aula de didática. E quando que eu vou marcar a reunião com o diretor do colégio pra falar da filosofia de ensino para essa pesquisa? A secretária dele falou pra ver um horário depois do almoço. Almoço! Eu ainda não marquei o almoço com a Bia que me escreveu. Ou o happy hour com o Laerte, que me ligou. Nem a visita à Nana pra pegar as caixas para a minha mudança. Sem falar da passada na casa do meu irmão, pra pegar o meu microfone para as aulas. Bom, no fim de semana não dá, porque tem encontro com a equipe de educação artística e com aquele filósofo/artista. Aliás, que pinturas legais as dele! E o meu ateliê continua cheio de caixas que não são minhas e com a poeira e o abandono de um ano inteiro... Aproveito quando for lá pra passar um tempo com a vovó. Poxa, estou devendo uma visita à outra vovó também! Tô morrendo de vontade de passar um tempo com elas, limpar o ateliê e voltar a pintar aquele papel giantesco que eu trouxe de Londres. Falando em afazeres artísticos, preciso terminar o desenho que eu ia mostrar para as 6as séries... E Londres! Ainda não comprei a passagem para Julho, para a cerimônia de graduação do mestrado! Pelo menos a inscrição já tá feita. Que horas são agora? Acho que ainda dá tempo de... o que é que eu ia fazer agora?
Há alguns dias, ocorreu-me o pensamento perturbador de que eu tinha deixado a publicidade porque ela estava comendo a minha vida e me deixando em um estado morto no qual eu não tinha tempo ou energia para as coisas que realmente me importavam; e que a nova rotina entre colégio, traduções, sair da casa dos pais, licenciatura e empreitadas artísticas estaria me matando do mesmo jeito. Resolvi essa angústia pensando que a publicidade me matava em prol de algo completamente irrelevante para a minha vida (e a dos outros...). A minha atual rotina pelo menos tem um sabor utilitário, relevante, pertinente. Um sabor mais acentuado de satisfação pessoal. E afinal, a única outra alternativa para esse "morrer" é eximir-me de toda e qualquer responsabilidade e não cultivar ambição alguma na vida.
Mas isso seria pior do que esse lento morrer (verbo - um pocesso). Isso seria estar morto (adjetivo - algo acabado).
quinta-feira, março 15, 2012
Referência
Aparentemente, com menos de dois meses de colégio, eu acabo de ser eleito a referência de uma das minhas turmas da sétima série (entre professores, funcionários, administradores e etc...) em um trabalho onde eles elegeram os adultos nos quais eles se espelham.
That is all....
That is all....
terça-feira, março 13, 2012
Educating on the Edge
O tempo passa rápido e ando com a cabeça tão ocupada por questões do meu trabalho no colégio, que não tenho calma para deitar algumas poucas linhas aqui sobre tudo o que tem acontecido por lá. Não me aborreço com isso. O fato é que, pela primeira vez desde que comecei a trabalhar (em qualquer das áreas que tentei...), estou realmente me importando com o que eu faço. Me importando em fazer o melhor trabalho possível, em encontrar soluções criativas. Vou para casa pensando no trabalho do colégio quase todos os dias. E curiosamente, me sentindo muito estimulado por isso. O estímulo não é só para ser um bom professor, mas também para fazer os próprios exercícios que eu proponho aos meus alunos. Estou desenhando meus sapatos, construíndo máquinas de fotografia rudimentares, gravando vídeos sobre a cidade, e até arriscando escrever uma marchinha de carnaval. E adorando tudo! Ainda que viva constantemente sem tempo para nada.
Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:
• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.
• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...
• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios.
A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.
• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:
Devido a toda essa atividade febril, resolvi escrever sobre esse mês que se passou por aqui, em um post ao estilo dos antigos odds and ends que eu escrevia em Londres. Vamos lá:
• Há algumas semanas, mandei pela primeira vez os meus primeiros 4 alunos para a coordenação. Um misto de sentimentos: pavor deles passarem a me odiar como odiavam a professore anterior, deleite pela sensação de vingança e poder, sentimento de dever cumprido ao reestabelecer os limites e o respeito que eles estavam perdendo por mim. A coordenadora foi enfática ao me aconselhar: tem aluno que testa o professor mesmo, que inconscientemente pede para que lhe imponham limites. Na nossa conversa com os alunos, não abusei da raiva. Mostrei como o comportamento deles tinha complicado muito a avaliação para a classe inteira; salientei como eles eram brilhantes quando separados (e de fato finalizavam raciocínios bem complexos), mas que potencializavam os efeitos destrutivos um do outro quando sentavam juntos; e expliquei como eu também estivera na mesma situação, em que discutir quem estava afim de quem era muito mais interessante do que qualquer aula.
Eles já eram conhecidos da coordenação. Já sabiam os procedimentos. Eles mesmos se comprometeram a sentar separados durante as aulas, trato que eles têm cumprido. Tenho dúvidas do quanto disso são respostas prontas para evitar maiores aborrecimentos com a coordenação. Mas desde então, as aulas têm corrido bem.
Me chamou a atenção quando a coordenadora avisou para um deles que, conforme avisos anteriores, os pais dele seriam chamados desta vez. Ele se agitou na cadeira, se esforçou para conter o choro. O rapaz não fizera nada além de conversar demais e de forma inapropriada durante a aula, mas temia a reprimenda dos pais como se tivesse assaltado ou matado alguém. Passei o resto do dia pensando muito sobre essa autoridade axiomática dos pais. E sobre o meu próprio pai, que nunca me bateu ou gritou comigo, mas de quem eu sempre tive medo quando cometi meus pequenos delitos.
• Em um assunto relacionado, na licenciatura, conversamos sobre a importância do "não". Do impor limites. E de como a atual geração de pais morre de medo de ter que dizer "não" aos filhos. São pais que foram educados por pais que diziam "não porque não", sem dar razões. Acham isso absurdo e querem dialogar com os filhos. Querem ser melhores amigos dos filhos adolescentes, que estão na idade onde o que menos querem é ser os melhores amigos dos pais ("ai, pai, que mico!"). E esse querer tem consequências nefastas. Percebo isso nos quatro rapazes dos quais falei. Em outros que gritam obcenidades e impropérios no meio da explicação do professor, interrompendo da forma mais rude possível. Nos que sobem na mesa. Nos que negociam regalias absurdas com o professor. O professor não tem essa autoridade axiomática, porque os pais não a ensinaram aos filhos. Ensinaram a dialogar, a negociar. Claro, isso vai fazer muito bem a eles quando adultos, mas enquanto crianças, causa apenas situações onde eu gasto fatias cada vez maiores da aula em negociação, enquanto professores passados teriam dito "não", marcado um ponto negativo e dado o assunto por encerrado.
Claro, eu também preciso aprender a dizer não. Ainda tenho medo. Mas ando fazendo progressos. E percebendo os efeitos positivos.
De qualquer jeito, eu sei que esses pensamentos são meio conservadores e o assunto ainda dá muito pano pra manga...
• Como conciliar a necessidade de impor limites e avaliar os alunos dentro de um critério justo para todos? Há pensadores atuais sobre educação que provam que cada pessoa tem uma inteligência diferente. Portanto, avaliar a todos pelo mesmo critério, pela mesma prova, seria uma atitude errada. No entanto, customizar uma avaliação específica para cada estudante, levando em conta as inteligências específicas de mais de quase 500 alunos diferentes (e esses são apenas os que tem aula comigo, ainda tem os da outra professora...) seria impraticável. O colégio, conhecido como um colégio tradicional que procura ser mais progressivo, atualmente enfrenta o desafio de caminhar a tênue linha entre impor limites para formar caráter, e respeitar as diferentes inteligências de cada aluno. A questão é melhor expressa na pergunta:"onde se encaixam os alunos que não se encaixam?". E minha família e amigos estão cheios de exemplos de indivíduos que nunca tiraram as notas mais altas, mas seguiram adiante para terem carreiras brilhantes por outros meios. A resposta, acredito eu, está em ver o colégio como o provedor de um serviço. Outros colégios proverão variações do mesmo serviço, como sabores diferentes do mesmo tipo de alimento. Cada um tem o seu sabor preferido e é irreal supor que todo mundo vai gostar do mesmo sabor. Acredito que o colégio não tem realmente a obrigação de se adaptar a todos os alunos. Mas os pais têm a obrigação de investigar qual filosofia de ensino (qual sabor - tradicional, Waldorf, Construtivista, Montessoriano, etc...) é o mais adequado para o seu filho. O raciocínio é inverso.
• Pra pensar mais sobre essas e outras questões, sugir os vídeos do Ken Robinson no TED Talks e no RSAnimate, respectivamente abaixo:
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
Nova Nod
Desci do ônibus. Caminhando em direção ao semáforo, ouvi o ruído alto, seco, breve e grave. Segundos depois, um sedã preto furou o farol vermelho acelerando. Deixava para trás uma trilha de destruição da qual faziam parte outros dois veículos. Há meio quarteirão de lá, uma base comunitária da polícia. Debati por alguns segundos se deveria aconselhar os motoristas dos carros que restaram sobre os policiais. Estavam em uma posição onde não podiam ver a base. Idéia melhor: vou falar com os policiais.
Enquanto comentava o que havia visto, um rapaz chega na base comunitária com o celular no ouvido, quase perdendo o fôlego. "Fomos alvejados", diz ele. E em seguida cita para os guardas um modelo de carro e placa. Dois dos policiais montam nas motos e saem em perseguição ao sedã preto. Há um pouco de confusão entre os policiais e o rapaz, que nervoso, não faz muito sentido. Um dos policiais começa a perder a paciência. E eu começo a entender. O sedã era a vítima. Um terceiro homem aparece em cena, um dos motoristas que ficou no rastro de destruição do sedã. Diz que uma moto deu meia volta e subiu a rua. Os policiais de moto estão indo pelo lado errado e a moto do agressor, sobre a qual tem-se apenas descrições vagas e nenhuma placa, já está longe. Depois de perceber que as vítimas têm muito mais informação do que eu, vou me subtraíndo da cena até desaparecer. O pouco de ajuda que eu podia prestar, já foi prestado. Mas assim como no assalto que sofri em Dezembro, volto a pensar nos "e se".
Todos nós somos muito pouco equipados para reagir eficientemente nessas situações. Eu estava na melhor posição possível para ver a placa do sedã. E nem me passou pela cabeça. Nossa reação natural é olhar para o estouro, para o epicentro do ocorrido, e não para o único indivíduo fugindo do local.
Mas ainda que eu tivesse reagido dessa forma mais "correta", eu teria incorrido em outro erro de estratégia: o de não raciocinar sobre quem é o agressor. No nosso país, na nossa cidade tumultuada, caótica e congestionada, um agressor teria pouquíssimos motivos para escolher um sedã para um crime depois do qual ele tem que fugir durante o horário de pico. Arriscando incorrer no perigo e na injustiça do estereótipo, acho que um agressor teria mais motivos para escolher uma moto. Ágil, rápida e igual a tantas outras. E a vítima, um carro grande, resistente, apto a furar a força o trânsito na sua tentativa de fuga. As madames entopem a Oscar Freire de SUVs que elas não conseguem estacionar.
Fico curioso para saber de gente que tenha presenciado situações em que o agressor fugiu em uma Mercedes, um Hummer, uma BMW. Na nossa cidade.
Não posso deixar de pensar em uma associação pejorativa. Horas antes, eu estivera conversando com uma das professoras de educação artística. Ficamos muito entusiasmados quando começamos os dois a falar de uma exposição de Anselm Kiefer acontecida no final dos anos 90 no MAM. Eu, um adolescente que nem tinha sido equipado para reagir eficientemente neste outro tipo de situação e pelo menos ver o nome do artista. Ela, uma jovem guia de exposições que estava trabalhando em uma exposição que marcou sua vida.
Fui atormentado pelas pinturas que vi durante anos. Porque as imagens ficaram na minha cabeça, e eu nunca lembrei do nome do artista até essa conversa de hoje. As pinturas tiveram tanto impacto porque Kiefer usava referências ao mito sumério (e posteriormente hebraico) de Lilith, e eu estava no amadurecer da minha fase gótica. Veria, poucos anos mais tarde, o nome ressurgir nos jogos de RPG de vampiros, nos episódios de Evangelion, em pesquisas na internet. Os quadros também eram bem sujos, viscerais, bem "estética de decomposição". Algo que eu associaria depois aos anos 90 em si, ao grunge, uma das minhas paixões estéticas visuais e musicais (a MTV nunca mais teve vinhetas legais depois daquela época...).
Na série de quadros chamada de Lilith, que Kiefer fez inspirado em sua visita a São Paulo no fim dos anos 80, ele usa vestidos sujos e engessados na pintura para personificar a entidade mitológica. Os críticos dizem que Lilith aparece nas pinturas como se trouxesse o caos violento à cidade e "às obras de Niemeyer", que aparentemente devem simbolizar uma espécie de harmonia para ele e para os críticos europeus.
Na mitologia hebraica, depois que o relacionamento entre Adão e Lilith se desfaz, ela é banida para as "terras selvagens" (em alguns textos, a mesma Nod para o qual Caim foi banido), onde os filhos que ela tem com os demônios locais são chamados de "Lilim" e nascem e morrem às centenas todos os dias, completamente ignorados.
Perdoem-me se não me ufano com o atual momento econômico do país, as perspectivas dele ser uma potência do novo milênio e tudo que tem aparecido na mídia. A verdade é que uma parte de mim que eu gostaria que não existisse continua se sentindo de acordo com as pinturas de Kiefer.
Talvez estejamos mesmo em uma espécie de Nova Nod.
Talvez sejamos todos Lilim.
Enquanto comentava o que havia visto, um rapaz chega na base comunitária com o celular no ouvido, quase perdendo o fôlego. "Fomos alvejados", diz ele. E em seguida cita para os guardas um modelo de carro e placa. Dois dos policiais montam nas motos e saem em perseguição ao sedã preto. Há um pouco de confusão entre os policiais e o rapaz, que nervoso, não faz muito sentido. Um dos policiais começa a perder a paciência. E eu começo a entender. O sedã era a vítima. Um terceiro homem aparece em cena, um dos motoristas que ficou no rastro de destruição do sedã. Diz que uma moto deu meia volta e subiu a rua. Os policiais de moto estão indo pelo lado errado e a moto do agressor, sobre a qual tem-se apenas descrições vagas e nenhuma placa, já está longe. Depois de perceber que as vítimas têm muito mais informação do que eu, vou me subtraíndo da cena até desaparecer. O pouco de ajuda que eu podia prestar, já foi prestado. Mas assim como no assalto que sofri em Dezembro, volto a pensar nos "e se".
Todos nós somos muito pouco equipados para reagir eficientemente nessas situações. Eu estava na melhor posição possível para ver a placa do sedã. E nem me passou pela cabeça. Nossa reação natural é olhar para o estouro, para o epicentro do ocorrido, e não para o único indivíduo fugindo do local.
Mas ainda que eu tivesse reagido dessa forma mais "correta", eu teria incorrido em outro erro de estratégia: o de não raciocinar sobre quem é o agressor. No nosso país, na nossa cidade tumultuada, caótica e congestionada, um agressor teria pouquíssimos motivos para escolher um sedã para um crime depois do qual ele tem que fugir durante o horário de pico. Arriscando incorrer no perigo e na injustiça do estereótipo, acho que um agressor teria mais motivos para escolher uma moto. Ágil, rápida e igual a tantas outras. E a vítima, um carro grande, resistente, apto a furar a força o trânsito na sua tentativa de fuga. As madames entopem a Oscar Freire de SUVs que elas não conseguem estacionar.
Fico curioso para saber de gente que tenha presenciado situações em que o agressor fugiu em uma Mercedes, um Hummer, uma BMW. Na nossa cidade.
Fui atormentado pelas pinturas que vi durante anos. Porque as imagens ficaram na minha cabeça, e eu nunca lembrei do nome do artista até essa conversa de hoje. As pinturas tiveram tanto impacto porque Kiefer usava referências ao mito sumério (e posteriormente hebraico) de Lilith, e eu estava no amadurecer da minha fase gótica. Veria, poucos anos mais tarde, o nome ressurgir nos jogos de RPG de vampiros, nos episódios de Evangelion, em pesquisas na internet. Os quadros também eram bem sujos, viscerais, bem "estética de decomposição". Algo que eu associaria depois aos anos 90 em si, ao grunge, uma das minhas paixões estéticas visuais e musicais (a MTV nunca mais teve vinhetas legais depois daquela época...).
Na série de quadros chamada de Lilith, que Kiefer fez inspirado em sua visita a São Paulo no fim dos anos 80, ele usa vestidos sujos e engessados na pintura para personificar a entidade mitológica. Os críticos dizem que Lilith aparece nas pinturas como se trouxesse o caos violento à cidade e "às obras de Niemeyer", que aparentemente devem simbolizar uma espécie de harmonia para ele e para os críticos europeus.
Na mitologia hebraica, depois que o relacionamento entre Adão e Lilith se desfaz, ela é banida para as "terras selvagens" (em alguns textos, a mesma Nod para o qual Caim foi banido), onde os filhos que ela tem com os demônios locais são chamados de "Lilim" e nascem e morrem às centenas todos os dias, completamente ignorados.
Perdoem-me se não me ufano com o atual momento econômico do país, as perspectivas dele ser uma potência do novo milênio e tudo que tem aparecido na mídia. A verdade é que uma parte de mim que eu gostaria que não existisse continua se sentindo de acordo com as pinturas de Kiefer.
Talvez estejamos mesmo em uma espécie de Nova Nod.
Talvez sejamos todos Lilim.
quinta-feira, fevereiro 09, 2012
Impressões novas do antigo colégio
E eis que começaram as aulas do Band.
Tem tanta coisa pra escrever sobre isso, que acho que vou adotar aquele esquema de parágrafos não necessariamente relacionados.
Primeiramente, eu passei uns dois anos lecionando inglês para empresários muito mais velhos (com idades para serem pais dos alunos de agora). Era um estilo de vida gostoso, onde eu trabalhava às sete da manhã, antes do expediente; ao meio dia, durante o horário de almoço deles; ou às sete da tarde, no fim do seu dia de trabalho. E entre isso tudo, eu tinha o dia livre para ir ao ateliê pintar, botar em andamento os meus planos para fazer o mestrado, complementar os ganhos com as traduções, que eu podia fazer confortavelmente em casa. Apesar de agora eu ter horários de trabalho mais sisudos, eu sinto um pouco daquela velha tranquilidade em dedicar pelo menos alguns poucos dias da semana a um emprego fixo, de carteira assinada, em uma empresa consistente. Quem me conhece, sabe que eu sempre gostei das antigas hierarquias, ainda que eu tenha me dado muito bem vivendo como um freelancer nesses anos recentes.
Foi muito gostoso também rever os professores. Um gostoso estranho, mas muito gostoso. É comovente ver os inspetores que cuidam da criançada nos corredores me chamando de "professor Leão". Há um anacronismo nisso, porque na minha cabeça eu ainda sou aluno de muitos dos meus atuais "colegas de trabalho", que lecionam no Band há vinte, às vezes trinta anos (na reunião de professores, cheguei a perguntar se havia algum outro perdido como eu por ali que lecionasse há... três anos?). Mais do que isso, eu ainda não me sinto assim tão adulto. Sinto-me mais próximo da turma do colegial do que do status de professor, e esse é um daqueles momentos com o qual sonhamos na infância de de repente se perceber adulto. Não sei se faz sentido para vocês leitores: mentalmente, eu me sinto bem na minha atual posição, embora me sinta fisicamente ainda como um dos alunos.
Mas é ensinando essa turma que eu vou descobrindo sozinho o que esses doze anos desde que saí do meio daquelas paredes de tijolos vermelhos significaram em termos de crescimento pessoal e intelectual. Do adolescente inseguro de si, achando que arte era muito simbolismo e um pouco de técnica; para um adulto que entende sua própria imagem e sabe que arte é mais a respeito de um jeito de pensar. Imaginem, naquelas épocas no fim dos anos 90, eu sequer sabia das tecnologias atuais de imagem, de pixels, RGB, CMYK e resolução; e agora tenho que mencionar isso aos alunos que conhecem Photoshop. Eu não sabia que fotografia era a respeito de luz e não a respeito de câmeras; e agora tenho que mostrar a eles que eles acham que sabem isso, mas na verdade não sabem. Eu tinha um ódio mortal por lápis de cor, e agora tenho que convencê-los de que experimentar até com giz de cera pode ser uma coisa bacana. E que o tal do simbolismo que eles acham que o Band os está ensinando nas aulas de literatura, levará na verdade uma jornada de muitos anos para aprender a perceber e dominar. Trocando em miúdos, eu percebi, comparando com essas mentes jovens e impetuosas, que eu fui angariando um considerável poder e maturidade como artista que eu nem tinha percebido. E é muito gostoso de perceber! Só que mais gostoso ainda, é finalmente ter a chance de explicar do jeito que não me explicaram. E que eu acho que teria feito com que eu entendesse tudo muito mais rápido. Será?
As caras não mudaram. A grande maioria dos antigos professores estão lá. E os alunos têm aquela cara de alunos do Band. Não, não é porque uma boa porcentagem seja de origem oriental... É cara de aluno do Band, não tem outro jeito de dizer. Sejamos claros, o Band não é o Brasil. Os alunos estão sendo preparados para lidar com o mundo. Para lidar com uma sofisticação de inspiração européia na tecnologia, no modo de pensar, na moral. Uma sofisticação que não é a realidade cotidiana do resto do país. E isso tem pontos positivos e negativos. É no entanto temeroso nivelar por baixo, e preparar esses alunos para serem ativistas em prol dessa sofisticação tem sim dado bons resultados em projetos de sustentabilidade, ação social e interação com escolas no exterior. Eu ainda estou pensando muito nisso, mas me parece como uma tentativa louvável de exercer um papel de bridgehead positivo (lembra? [1][2]). Claro, isso deve ser feito com todo o cuidado possível para evitar os efeitos negativos, mas não vou entrar nessa discussão.
Mencionei que as caras eram as mesmas. Notei no entanto algumas ausências. Da minha septagenária professora de português que se aposentou, por exemplo, e a quem devo o fato de saber o uso correto de crases, pronomes oblíquos e outros detalhes que escapam o secretariês. De alguns inspetores que eu gostava muito também. Mas principalmente de Cinília, por quem eu largara a publicidade definitivamente. Quanto de mim estava empenhado em ser um bom professor só pra me desculpar por não ter conseguido chegar lá naquele dia? Quanto de mim queria ser um professor junto com ela?
Para terminar este longo post sobre o meu novo emprego, precisei falar sobre o caso da antiga estagiária de educação artística. Almoçando com uma das coordenadoras do curso, ela me contou porque a garota havia saído, sendo que ela trabalhava bem. Eu a conhecia, tendo-a visto em uma das primeiras edições do Dr. Sketchy's Anti-art School na cidade. Como eu, ela apreciava o iniciante burlesco paulista antes mesmo de eu ir para Londres e passar a admitir abertamente que também era a minha praia. No entanto, depois de algum tempo, a história começou a se espalhar entre os alunos. A decisão de sair foi dela. Fique pensando nisso por algum tempo. Por um lado, eu respeitava o quão abertamente ela vivia esse lado e o quanto ela desafiava a moral retrógrada de um país que tem o carnaval, mas prende qualquer um que ouse exibir demais do corpo fora do sambódromo. Por outro, eu reconhecia que há certas maturidades sexuais que não cabem em um ambiente com jovens que estão começando a descobrir sua própria sexualidade incipiente. Não é uma questão de revelar ou não, mas sim de como abordar esses assuntos. Mas principalmente, acho que é uma questão de vida pública e privada, e saber não misturar esses âmbitos. Será que eu consigo?
Outra coisa que ficou na minha cabeça: ela pediu para sair, não foram os professores ou nem mesmo os pais de alunos que exigiram sua demissão. Mas imagino que a interpretação dos alunos que tiveram contato com ela tenha sido a de que um colégio ultra-conservador não soube lidar com uma pessoa alternativa. Se foi assim, foi uma repercussão negativa de conservadorismo para um colégio que na verdade está se esforçando para ser progressivo, e que aparentemente a teria orientado e auxiliado a lidar com os alunos se ela tivesse persistido.
Por último, a questão levantou a pergunta: o que está sendo abordado em termos de educação sexual e práticas alternativas no colégio? A pesquisar...
Tem tanta coisa pra escrever sobre isso, que acho que vou adotar aquele esquema de parágrafos não necessariamente relacionados.
Primeiramente, eu passei uns dois anos lecionando inglês para empresários muito mais velhos (com idades para serem pais dos alunos de agora). Era um estilo de vida gostoso, onde eu trabalhava às sete da manhã, antes do expediente; ao meio dia, durante o horário de almoço deles; ou às sete da tarde, no fim do seu dia de trabalho. E entre isso tudo, eu tinha o dia livre para ir ao ateliê pintar, botar em andamento os meus planos para fazer o mestrado, complementar os ganhos com as traduções, que eu podia fazer confortavelmente em casa. Apesar de agora eu ter horários de trabalho mais sisudos, eu sinto um pouco daquela velha tranquilidade em dedicar pelo menos alguns poucos dias da semana a um emprego fixo, de carteira assinada, em uma empresa consistente. Quem me conhece, sabe que eu sempre gostei das antigas hierarquias, ainda que eu tenha me dado muito bem vivendo como um freelancer nesses anos recentes.
Foi muito gostoso também rever os professores. Um gostoso estranho, mas muito gostoso. É comovente ver os inspetores que cuidam da criançada nos corredores me chamando de "professor Leão". Há um anacronismo nisso, porque na minha cabeça eu ainda sou aluno de muitos dos meus atuais "colegas de trabalho", que lecionam no Band há vinte, às vezes trinta anos (na reunião de professores, cheguei a perguntar se havia algum outro perdido como eu por ali que lecionasse há... três anos?). Mais do que isso, eu ainda não me sinto assim tão adulto. Sinto-me mais próximo da turma do colegial do que do status de professor, e esse é um daqueles momentos com o qual sonhamos na infância de de repente se perceber adulto. Não sei se faz sentido para vocês leitores: mentalmente, eu me sinto bem na minha atual posição, embora me sinta fisicamente ainda como um dos alunos.
Mas é ensinando essa turma que eu vou descobrindo sozinho o que esses doze anos desde que saí do meio daquelas paredes de tijolos vermelhos significaram em termos de crescimento pessoal e intelectual. Do adolescente inseguro de si, achando que arte era muito simbolismo e um pouco de técnica; para um adulto que entende sua própria imagem e sabe que arte é mais a respeito de um jeito de pensar. Imaginem, naquelas épocas no fim dos anos 90, eu sequer sabia das tecnologias atuais de imagem, de pixels, RGB, CMYK e resolução; e agora tenho que mencionar isso aos alunos que conhecem Photoshop. Eu não sabia que fotografia era a respeito de luz e não a respeito de câmeras; e agora tenho que mostrar a eles que eles acham que sabem isso, mas na verdade não sabem. Eu tinha um ódio mortal por lápis de cor, e agora tenho que convencê-los de que experimentar até com giz de cera pode ser uma coisa bacana. E que o tal do simbolismo que eles acham que o Band os está ensinando nas aulas de literatura, levará na verdade uma jornada de muitos anos para aprender a perceber e dominar. Trocando em miúdos, eu percebi, comparando com essas mentes jovens e impetuosas, que eu fui angariando um considerável poder e maturidade como artista que eu nem tinha percebido. E é muito gostoso de perceber! Só que mais gostoso ainda, é finalmente ter a chance de explicar do jeito que não me explicaram. E que eu acho que teria feito com que eu entendesse tudo muito mais rápido. Será?
As caras não mudaram. A grande maioria dos antigos professores estão lá. E os alunos têm aquela cara de alunos do Band. Não, não é porque uma boa porcentagem seja de origem oriental... É cara de aluno do Band, não tem outro jeito de dizer. Sejamos claros, o Band não é o Brasil. Os alunos estão sendo preparados para lidar com o mundo. Para lidar com uma sofisticação de inspiração européia na tecnologia, no modo de pensar, na moral. Uma sofisticação que não é a realidade cotidiana do resto do país. E isso tem pontos positivos e negativos. É no entanto temeroso nivelar por baixo, e preparar esses alunos para serem ativistas em prol dessa sofisticação tem sim dado bons resultados em projetos de sustentabilidade, ação social e interação com escolas no exterior. Eu ainda estou pensando muito nisso, mas me parece como uma tentativa louvável de exercer um papel de bridgehead positivo (lembra? [1][2]). Claro, isso deve ser feito com todo o cuidado possível para evitar os efeitos negativos, mas não vou entrar nessa discussão.
Mencionei que as caras eram as mesmas. Notei no entanto algumas ausências. Da minha septagenária professora de português que se aposentou, por exemplo, e a quem devo o fato de saber o uso correto de crases, pronomes oblíquos e outros detalhes que escapam o secretariês. De alguns inspetores que eu gostava muito também. Mas principalmente de Cinília, por quem eu largara a publicidade definitivamente. Quanto de mim estava empenhado em ser um bom professor só pra me desculpar por não ter conseguido chegar lá naquele dia? Quanto de mim queria ser um professor junto com ela?
Para terminar este longo post sobre o meu novo emprego, precisei falar sobre o caso da antiga estagiária de educação artística. Almoçando com uma das coordenadoras do curso, ela me contou porque a garota havia saído, sendo que ela trabalhava bem. Eu a conhecia, tendo-a visto em uma das primeiras edições do Dr. Sketchy's Anti-art School na cidade. Como eu, ela apreciava o iniciante burlesco paulista antes mesmo de eu ir para Londres e passar a admitir abertamente que também era a minha praia. No entanto, depois de algum tempo, a história começou a se espalhar entre os alunos. A decisão de sair foi dela. Fique pensando nisso por algum tempo. Por um lado, eu respeitava o quão abertamente ela vivia esse lado e o quanto ela desafiava a moral retrógrada de um país que tem o carnaval, mas prende qualquer um que ouse exibir demais do corpo fora do sambódromo. Por outro, eu reconhecia que há certas maturidades sexuais que não cabem em um ambiente com jovens que estão começando a descobrir sua própria sexualidade incipiente. Não é uma questão de revelar ou não, mas sim de como abordar esses assuntos. Mas principalmente, acho que é uma questão de vida pública e privada, e saber não misturar esses âmbitos. Será que eu consigo?
Outra coisa que ficou na minha cabeça: ela pediu para sair, não foram os professores ou nem mesmo os pais de alunos que exigiram sua demissão. Mas imagino que a interpretação dos alunos que tiveram contato com ela tenha sido a de que um colégio ultra-conservador não soube lidar com uma pessoa alternativa. Se foi assim, foi uma repercussão negativa de conservadorismo para um colégio que na verdade está se esforçando para ser progressivo, e que aparentemente a teria orientado e auxiliado a lidar com os alunos se ela tivesse persistido.
Por último, a questão levantou a pergunta: o que está sendo abordado em termos de educação sexual e práticas alternativas no colégio? A pesquisar...
quinta-feira, janeiro 12, 2012
Hoje à noite a Lexy chegou em casa e me ligou para dizer que tinha passado por duas situações complicadas na rua, dessas de quase-assalto. Duas, na mesma noite. Talvez por causa do meu assalto em Dezembro, eu ainda esteja sensível ao assunto. Ando pelas ruas com isso na cabeça, analisando cada pessoa, refazendo mil estratégias a cada momento para simplesmente atravessar a rua. E eu vou continuar assim por algum tempo. Mas a gente sabe que não adianta, né? Que algum dia, daqui a uns cinco, talvez dez anos, eu vou ter me acalmado em relação a isso, e vou estar novamente andando em uma rua deserta pensando em algum desses dilemas da vida, olhando para o chão. E aí outro desses vai chegar, e vai me "pedir ajuda".
Por enquanto, tudo na minha cabeça são previsões de um pessimismo vil e negro como pixe. De ser orgulhoso e não me curvar à violência, ao mau funcionamento dessa cidade e o seu estilo de vida imposto, insalubre e injusto. De continuar insistindo em caminhar, em viver direito, do meu jeito. E de algum dia, daqui a quase uma década, finalmente dar de cara com o rapaz que terá de fato aquele caco de vidro, aquela navalha, aquele pedaço de pau. Previsões pessimistas de que algum dia essa cidade vai conseguir me matar se eu não fugir dela a tempo. Eu, que posso fugir dela.
Mas em primeiro lugar, 99% de todas as minhas previsões e palpites falham...
E depois, quem há de me garantir que esse mesmo incidente não aconteça lá, mesmo eu tendo sentido a completa segurança e liberdade que eu tinha de andar pelas ruas à noite com a atenção totalmente dispersa em questões masculistas? Quem há de me garantir que eu não vou topar com uma gangue de chavs, ou ciganos, ou qualquer outra etnia menos favorecida?
Por enquanto, eu continuo apenas com essa sensação horrível e tola de alarme na cabeça. Como morar em uma zona de guerra, onde a qualquer momento os oficiais da Gestapo podem me parar na rua devido à minha descendência judaica.
O único que posso fazer é andar pela rua nesse misto de preconceito e precaução. Atravessando sempre que vejo algum rapaz de aparência humilde, que sugira a necessidade de roubar. Um rapaz sem mochila nas costas ou nada nas mãos, pra poder fugir da polícia mais facilmente. Um rapaz de havaianas (encanei com isso, apesar do primeiro cara que me assaltou na vida usar tênis da Reebok), que ele pode tirar pra ser mais silencioso quando fugir no escuro. Um rapaz de blusão largo para esconder a arma e o lucro do assalto, com gorro ou boné para esconder o rosto das câmeras de vigilância.
Um rapaz. Sempre um rapaz. Cruel ironia eu ser forçado a ter esses sexismos...
Por enquanto, tudo na minha cabeça são previsões de um pessimismo vil e negro como pixe. De ser orgulhoso e não me curvar à violência, ao mau funcionamento dessa cidade e o seu estilo de vida imposto, insalubre e injusto. De continuar insistindo em caminhar, em viver direito, do meu jeito. E de algum dia, daqui a quase uma década, finalmente dar de cara com o rapaz que terá de fato aquele caco de vidro, aquela navalha, aquele pedaço de pau. Previsões pessimistas de que algum dia essa cidade vai conseguir me matar se eu não fugir dela a tempo. Eu, que posso fugir dela.
Mas em primeiro lugar, 99% de todas as minhas previsões e palpites falham...
E depois, quem há de me garantir que esse mesmo incidente não aconteça lá, mesmo eu tendo sentido a completa segurança e liberdade que eu tinha de andar pelas ruas à noite com a atenção totalmente dispersa em questões masculistas? Quem há de me garantir que eu não vou topar com uma gangue de chavs, ou ciganos, ou qualquer outra etnia menos favorecida?
Por enquanto, eu continuo apenas com essa sensação horrível e tola de alarme na cabeça. Como morar em uma zona de guerra, onde a qualquer momento os oficiais da Gestapo podem me parar na rua devido à minha descendência judaica.
O único que posso fazer é andar pela rua nesse misto de preconceito e precaução. Atravessando sempre que vejo algum rapaz de aparência humilde, que sugira a necessidade de roubar. Um rapaz sem mochila nas costas ou nada nas mãos, pra poder fugir da polícia mais facilmente. Um rapaz de havaianas (encanei com isso, apesar do primeiro cara que me assaltou na vida usar tênis da Reebok), que ele pode tirar pra ser mais silencioso quando fugir no escuro. Um rapaz de blusão largo para esconder a arma e o lucro do assalto, com gorro ou boné para esconder o rosto das câmeras de vigilância.
Um rapaz. Sempre um rapaz. Cruel ironia eu ser forçado a ter esses sexismos...
terça-feira, janeiro 10, 2012
Balanço de 2011
À medida em que a vida vai adquirindo contornos mais sérios, eu vou tendo menos tempo pra escrever por aqui. Questão de escolher de maneira sóbria quais são as suas bolas de golfe e o que é a areia [1]. O blog ainda está longe de terminar. Ele é parte intrínseca da minha presença virtual, de quem eu sou no mundo real também. Mas com certeza, eu já percebi que nesse ano, como dizia a Chebel, "I need to be living, not internerding...".
Mas vamos ao que interessa. Janeiro está quase na metade e eu ainda não fiz o balanço do ano passado. Um ano que dificilmente será superado (eu já não disse isso?), onde eu...
• ...estruturei muito melhor tudo o que eu pensava do Masculismo [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...comecei a encontrar pontos onde, apesar de diferentes, as compreensões do masculino dos ingleses e a minha se encontravam. [1]
• ...observei ativistas, protestantes e gente alternativa de verdade com visões de mundo e ideologias muito interessantes. [1][2][
• ...recebi gente lá em Londres para afastar a minha saudade. [1]
• ...conheci uma turma que não estava nem totalmente do lado masculino e nem do feminino. E estava vivendo perfeitamente bem com isso! [1][2][3][4][5]
• ...fiz vários vídeos! [1][2][3][4]
• ...percebi as crises, incoerências e o caos da faculdade em Londres. Quando a academia vira empresa, o caos se instala. Seja em que país for! [1][2]
• ...convivi com gente nova, estranha, estressante e interessante. [1][2]
• ...observei os "odds and ends" de Londres. [1][2][3]
• ...coloquei meu trabalho para inglês ver! [1][2][3][4]
• ...aproveitei que ninguém me conhecia tanto assim em Londres para ousar, dando início a uma mudança sorrateira de personalidade em direção a algo mais sexualmente ambíguo [1][2][3][4][5]
• ...visitei a Romênia, à procura do lendário e do verdadeiro conde Drácula! Aproveitei para aprender um nada de romeno. [1]
• ...comecei a cair na real em relação a ser artista, ao mercado e à academia, ao meu futuro. [1][2]
• ...me envolvi com o catálogo da turma, uma responsabilidade cheia de dor e de delícia. [1][2]
• ...assisti bem de perto à Europa entrando em crise. [1]
• ...tive que deixar a rotina gostosa de um lugar onde eu fui realmente muito feliz por um ano, para voltar ao meu país de origem e me readaptadar a estar entre conhecidos novamente. [1][2][3]
• ...tive meus choques culturais, desgostos nativos e pequenas frustrações de volta no meu país. A vida aqui jamais será a vida de lá. [1][2][3][4]
E o que será de 2012?
O ano promete muito. E embora esse muito seja muito trabalho e muitas obrigações, são também muitas possibilidades, muito gosto de vida adulta. Se tudo correr bem, será um ano em que eu...
• ...colocarei um pouco de lado as megalomanias da adolescência, o sonho não realizado e atualmente muito questionado de virar artista plástico de carreira.
• ...começarei a dar aulas de educação artística no meu saudoso Colégio Bandeirantes.
• ...investirei mais e melhor na carreira de idiomas.
• ...finalmente sairei da casa dos pais para ter o meu lugarzinho!
• ...continuarei interessado nas questões masculinas e nas ambiguidades de gênero, tentando levar uma vida que seja fiel à ideologia.
• ...voltarei brevemente à minha Londres para a cerimônia de graduação do mestrado.
• ...viajarei mais com a minha Lexy!
Mas vamos ao que interessa. Janeiro está quase na metade e eu ainda não fiz o balanço do ano passado. Um ano que dificilmente será superado (eu já não disse isso?), onde eu...
• ...estruturei muito melhor tudo o que eu pensava do Masculismo [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...comecei a encontrar pontos onde, apesar de diferentes, as compreensões do masculino dos ingleses e a minha se encontravam. [1]
• ...observei ativistas, protestantes e gente alternativa de verdade com visões de mundo e ideologias muito interessantes. [1][2][
• ...recebi gente lá em Londres para afastar a minha saudade. [1]
• ...conheci uma turma que não estava nem totalmente do lado masculino e nem do feminino. E estava vivendo perfeitamente bem com isso! [1][2][3][4][5]
• ...fiz vários vídeos! [1][2][3][4]
• ...percebi as crises, incoerências e o caos da faculdade em Londres. Quando a academia vira empresa, o caos se instala. Seja em que país for! [1][2]
• ...convivi com gente nova, estranha, estressante e interessante. [1][2]
• ...observei os "odds and ends" de Londres. [1][2][3]
• ...coloquei meu trabalho para inglês ver! [1][2][3][4]
• ...aproveitei que ninguém me conhecia tanto assim em Londres para ousar, dando início a uma mudança sorrateira de personalidade em direção a algo mais sexualmente ambíguo [1][2][3][4][5]
• ...visitei a Romênia, à procura do lendário e do verdadeiro conde Drácula! Aproveitei para aprender um nada de romeno. [1]
• ...comecei a cair na real em relação a ser artista, ao mercado e à academia, ao meu futuro. [1][2]
• ...me envolvi com o catálogo da turma, uma responsabilidade cheia de dor e de delícia. [1][2]
• ...assisti bem de perto à Europa entrando em crise. [1]
• ...tive que deixar a rotina gostosa de um lugar onde eu fui realmente muito feliz por um ano, para voltar ao meu país de origem e me readaptadar a estar entre conhecidos novamente. [1][2][3]
• ...tive meus choques culturais, desgostos nativos e pequenas frustrações de volta no meu país. A vida aqui jamais será a vida de lá. [1][2][3][4]
E o que será de 2012?
O ano promete muito. E embora esse muito seja muito trabalho e muitas obrigações, são também muitas possibilidades, muito gosto de vida adulta. Se tudo correr bem, será um ano em que eu...
• ...colocarei um pouco de lado as megalomanias da adolescência, o sonho não realizado e atualmente muito questionado de virar artista plástico de carreira.
• ...começarei a dar aulas de educação artística no meu saudoso Colégio Bandeirantes.
• ...investirei mais e melhor na carreira de idiomas.
• ...finalmente sairei da casa dos pais para ter o meu lugarzinho!
• ...continuarei interessado nas questões masculinas e nas ambiguidades de gênero, tentando levar uma vida que seja fiel à ideologia.
• ...voltarei brevemente à minha Londres para a cerimônia de graduação do mestrado.
• ...viajarei mais com a minha Lexy!
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