Cheguei em casa e percebi que tinha cansado de doer.
Meus dias foram longos períodos de sentir falta da
Genka. Porque foi perfeito. Porque foi carinho. Do melhor. Do jeito que eu tava precisando. Essa falta era uma dor doce, uma dor melancólica e gostosa do tipo que gente como eu adora e da qual se nutre pra criar coisas fantásticas.
De vez em quando eu fazia uns intervalos entre uma saraivada de memórias do corpo dela e um esforço herculeo para manter a lembrança do som de sua voz na mente. Nesses intervalos eu fazia algo de produtivo: telefonava para um amigo, visitava uma exposição, fazia um pouco de arte. Mas aí voltava a me afundar naquele mar.
E tinha também a outra dor. A Dança. Aquela que eu tinha feito com a
Bia e com a
Lee e agora estava entrando na coreografia final com a
Taís. Aquele fim de coreografia que vira um passo a três entre eu, a garota em questão e seu atual respectivo. É a única parte desse padrão, que eu insito em repetir a cada relacionamento, que ainda me proporciona alguma variação. Da primeira vez, odiei tanto o rapaz que não podia sequer ouvir as músicas que ele ouvia.
Phil Collins tornou-se o alvo da minha raiva. Pior ainda era a sensação de ser substituído por um fã de
Phil Collins. Na segunda vez, o rapaz era tão meu amigo, que não tive como nutrir qualquer ódio por ele. Ainda por cima porque fui para a Europa e não tive que presenciar a cena até ter criado imunidade emocional suficiente pra que sequer importasse mais. E agora, na terceira vez, me esforcei para sequer conhecê-lo. Tinha cansado dessa parte da Dança. Mas ele apareceu, e é um rapaz tão legal que eu poderia muito bem ser um bom amigo. E serei.
Mas isso não tira a dor.
Quando cheguei no meu quarto hoje de madrugada, depois de ter saído de uma festa onde, pela primeira vez na vida, ver uma ex minha com seu atual me incomodou ao ponto de eu ter que ir embora, resolvi começar a me proteger um pouco. Porque gente como eu, que se nutre dos sentimentos mais pesados, não percebe quando tem uma overdose deles e comça a fazer mal a si mesmo. Tirei da parede do quarto os quadros que estavam pendurados: o díptico "Nada por mim" (
[1] [2]). Resolvi também tirar outros traços dela que estavam ainda espalhados pelo quarto. Tinha pensado em fazer isso em algum momento específico, um daqueles rituais dos quais eu preciso. Mas suponho que nenhum momento seria mais propício e eu apenas ficaria me martirizando ainda mais enquanto esperasse pelo momento certo.
E então, a questão: o que colocar no lugar?
A parede vazia pedia por quadros e passou pela cabeça colocar de novo alguns dos meus retratos, que sempre foram meus trabalhos favoritos. Mas então percebi que a idéia me dava repulsa. Porque todos os quadros me causavam, em maior ou menor grau, aquele efeito de dilacerar o peito. Eram afinal todas mulheres pelas quais eu nutrira algum sentimento, em maior ou menor grau, e as histórias sempre tinham finais vagamente perturbadores. Não, nenhum deles...
Eu estava cansado de tanto doer.