Recentemente estive envolvido com a produção de um encarte de CD para um projeto do meu irmão. A experiência, embora uma nulidade financeira, foi muito gratificante em outros vários aspectos.
Primeiro, porque fazia muito tempo que eu não fazia freelas em casa. Lembro do fiasco que foi o anterior, uma comunicação visual para uma loja de roupas. Uma bagunça, noites sem dormir, tensão com o chefe da agência da época e um design muito ruim que não agradou o cliente. Mas assim como tudo na vida, vamos evoluindo, “passando de nível”, como em um jogo. Este encarte já rolou de uma forma muito mais tranqüila, e em poucos dias eu já tinha tudo pronto. Deu pra perceber como a rotina de tentativa e erro na agência já me deu bons resultados fora dela, tanto no prever os possíveis erros na gráfica, quanto nas sacadas de design que facilmente agradam o cliente. Tudo parece mais simples, como andar de bicicleta: no começo parece ilógico como alguém consegue se equilibrar em duas rodas, mas depois você faz sem perceber.
Claro, rolaram os stresses. A entrega em cima da hora nunca muda, as informações do cliente chegam depois que o prazo estoura e é você quem tem que correr, a gráfica não te passa nenhuma especificação e depois reclama que você mandou errado, etc...
Mas pelo menos eu já não me descabelo tanto quanto antes. Apenas um batimento cardíaco mais acelerado e um tamborilar de dedos sobre a mesa enquanto o lento computador grava os arquivos.
Outro aspecto gratificante foram as pessoas com as quais trabalhei. O produtor musical Daniel Barra é uma simpatia em pessoa. Jeito despojado, bem brasileiro. Desses que sabe que as coisas serão feitas às pressas e nas coxas, mas não se preocupa com isso. No fim, tudo dá certo e ele ainda consegue material de qualidade.
Outro parceiro interessante foi o grafiteiro Rafael Calazans, conhecido como Highraff, que fez a capa do encarte. Muito solícito, me passou as imagens vetorizadas, facilitando muito o meu trabalho. Ainda quero aproveitar o contato para fazer algumas perguntas. Estou pensando em escrever sobre os acontecimentos do ano passado com opiniões de grafiteiros, galeristas, guias da Bienal e etc. Uma pseudo-reportagem. Será que ele toparia?
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
domingo, dezembro 28, 2008
40ª Anual de Artes Plásticas da FAAP
A correria do fim de ano não me deixou escrever sobre a abertura da Anual de Artes Plásticas da FAAP, que aconteceu no mês passado.
Se eu dissesse que todas as edições da Anual têm um quê de repetitivas, eu é que estaria sendo repetitivo. Este ano, a sensação de deja vu ficou por conta do Paisagem inventadade um Guga Szabzon: uma tela onde a linha desenhada era substituída pela linha costurada. Deve ser a terceira ou quarta edição da Anual que conta com o mesmo trabalho. Na 34ª edição do evento, onde apresentei o retrato de Taís e a Virgem e o Menino, a colega Mariana Whately já tinha apresentado o mesmo trabalho, costurado durante a época em que ela estava hospitalizada devido a um acidente de trânsito. Claro, o fato leva a pensar em como mais de uma pessoa pode ter a mesma idéia, discussões sobre o inconsciente coletivo e toda aquela ladainha. Mas o que eu realmente me pergunto é o que o coordenador do curso de artes plásticas, Marcos Moraes, acha disso e porque é que ele permite que os diversos curadores que já organizaram a Anual continuem escolhendo esse mesmo trabalho, essa mesma idéia, ano após ano.
Falando em repetição, mas desta vez em outro contexto, eu quase não percebi o Esquadria de Tiago Tebet. Porque, como o nome diz, era apenas uma esquadria de alumínio pendurada no alto da parede. Mas depois que percebi tratar-se de um óleo sobre tela, a coisa começou a tomar outro sentido. Tebet conhece, ou ao menos deveria conhecer, o H de Julian Opie que atualmente encontra-se na Tate Modern em Londres [1][2][3]. Além da semelhança física entre ambos os trabalhos, eles têm aquele truque conceitual de fazer o visitante passar pela obra sem perceber que de fato é uma obra, e quando este finalmente percebe o trabalho, passa a perguntar-se sobre a própria natureza da obra de arte. Talvez um ponto positivo possa ser dado ao trabalho de Tebet porque, enquanto Opie de fato reproduzia uma esquadria em alumínio, como o objeto real, este aluno conseguiu um efeito similar com uma pintura. Um simulacro que, colocado convenientemente fora do alcance do público e em condições de iluminação meio precárias, não tem muita dificuldade de se passar por real.
Antes de prosseguir aos meus preferidos desta Anual, cito outros que me chamaram a atenção. Aline Yoshida apresentou um trabalho delicado que em muito me lembrou o tipo de poesia da Rivane Neuenschwander. Eram uma dezena de folhas de papel sulfite simples, nas quais estavam impressas em alto relevo frases quase imperceptíveis, mas de uma força tocante: "I need some meaning I can memorize", "é como não viver nunca", "feliz mas querendo morrer", "never-ending-nothing", "chorei em vários tons e velocidades diferentes", "waiting for something to say", entre outras. Frases de alguém que, como eu há algum tempo, estava vivendo um eterno nada, um marasmo de apatia, enquanto esperava algo novo acontecer. Um novo significado para a vida, uma nova causa, uma novidade qualquer. Um qualquer coisa. Enquanto isso, ela se desesperava com a própria pequenice, falta de grandeza espiritual. Falta até de conteúdo. Quis muito falar com Yoshida. Saber se suas frases eram suas ou de outros autores interessantes. Saber se eu tinha compreendido. Saber se ela era de fato como eu.
Em outro lugar, o menos conceitual e mais prático trabalho de Prieto Júnior era uma tela enorme coberta de betume e tinta acrílica. Me interessei muito pela tela porque era um escuro sujo, meio grunge. O tipo de fundo que iria muito bem com as minhas pinturas negras de metáforas deformadas. Melhor do que os meus fundos daquele preto chapado e infinito. O betume misturado à tinta acrílica dava uns efeitos irregulares, incontroláveis. Uma textura interessante e colorida, mesmo que o resultado geral continuasse sendo preto, sujo, feio. Um contraste bacana que me deu muito em que pensar para as próximas pinturas. Acho que vou passar a ter fundos mais instigantes.
Minhas duas obras favoritas não foram pinturas. Eis aí outra repetição: pinturas raramente são minhas obras favoritas nas Anuais. Aquela faculdade ainda há de produzir pintores que realmente me cativem algum dia.
Flávia Junqueira é uma conhecida minha. Amiga da Lu e uma daquelas pessoas com as quais eu gostaria muito de conviver mais, por parecerem ter um pouco daquela poesia tão densa que dá pra coletar e guardar, sabe? Flávia apresentou uma série de três fotos (colossalmente ampliadas e emolduradas...) entitulada Na companhia das coisas. Nelas, ela quase desaparece em meio a um mar de coisas. São centenas de peças de roupa (foto), ou brinquedos e outras bugigangas antigas de seu quarto, ou os livros e bibelôs de um escritório. As fotos são meticulosamente produzidas (e ela, maquiada, também), com uma boa iluminação e um arranjo dos elementos que dá a entender que ela teve um assistente muito paciente.
Mas meu trabalho favorito da exposição foi a performance que tive a sorte de ver. Alguns minutos após a abertura, comecei a ouvir o distinto som de rodas de skate batendo contra o piso de madeira do salão. Guilherme Duque Peters tinha colocado uma mesa das salas de aula da faculdade no espaço de exposição, cheia de livros de história da arte. Sem pressa ou ansiedade, ele empilhava um livro por vez no chão, ao lado da mesa. A cada livro, ele tomava distância, colocava seu skate no chão e partia pra cima, saltando por cima dos livros para então colocar mais um na pilha. Caravaggio, Rembrandt, Schiele, Klimt, a escolha dos livros não parecia seguir qualquer critério. Apenas a história da arte hoje considerada "acadêmica". Ele só parou quando foi derrubado por Toulouse-Lautrec, colocando a pilha de volta sobre a mesa e encerrando a performance, chamada Over the top em referência à manobra de skate, mas também ao ato de transpôr o obstáculo.
Claro que escolher uma performance como trabalho favorito foge um pouco do meu perfil de viciado em técnica. Mas vale para mostrar como estou interessado na invasão qua a cultura de rua em geral tem promovido sobre a cultura acadêmica. Grafite, picho, skate. Houve uma época em que eu desdenharia tudo isso sem motivo algum, apenas por ser não-acadêmico. Da mesma forma que qualquer acadêmico desdenhava cultura de rua. Como se fosse menos importante, menos real, menos "sério". Mas hoje acho que eles têm questionado muito mais a natureza do que é considerado arte do que qualquer obra técnica. A performance de Duque Peters é o tipo de protesto relativamente bem-humorado que se vê nos próprios livros de história da arte que ele estava tentando superar. Um ato afirmativo, altivo, claro. "Eu existo! Não me ignore!" diz o seu salto sobre os séculos de arte institucionalizada, "Eu quero prevalecer!". Talvez não seja tão violento e nem venda tantos jornais quanto os outros ataques da cultura de rua, mas tem muito mais classe.
Se eu dissesse que todas as edições da Anual têm um quê de repetitivas, eu é que estaria sendo repetitivo. Este ano, a sensação de deja vu ficou por conta do Paisagem inventadade um Guga Szabzon: uma tela onde a linha desenhada era substituída pela linha costurada. Deve ser a terceira ou quarta edição da Anual que conta com o mesmo trabalho. Na 34ª edição do evento, onde apresentei o retrato de Taís e a Virgem e o Menino, a colega Mariana Whately já tinha apresentado o mesmo trabalho, costurado durante a época em que ela estava hospitalizada devido a um acidente de trânsito. Claro, o fato leva a pensar em como mais de uma pessoa pode ter a mesma idéia, discussões sobre o inconsciente coletivo e toda aquela ladainha. Mas o que eu realmente me pergunto é o que o coordenador do curso de artes plásticas, Marcos Moraes, acha disso e porque é que ele permite que os diversos curadores que já organizaram a Anual continuem escolhendo esse mesmo trabalho, essa mesma idéia, ano após ano.
Falando em repetição, mas desta vez em outro contexto, eu quase não percebi o Esquadria de Tiago Tebet. Porque, como o nome diz, era apenas uma esquadria de alumínio pendurada no alto da parede. Mas depois que percebi tratar-se de um óleo sobre tela, a coisa começou a tomar outro sentido. Tebet conhece, ou ao menos deveria conhecer, o H de Julian Opie que atualmente encontra-se na Tate Modern em Londres [1][2][3]. Além da semelhança física entre ambos os trabalhos, eles têm aquele truque conceitual de fazer o visitante passar pela obra sem perceber que de fato é uma obra, e quando este finalmente percebe o trabalho, passa a perguntar-se sobre a própria natureza da obra de arte. Talvez um ponto positivo possa ser dado ao trabalho de Tebet porque, enquanto Opie de fato reproduzia uma esquadria em alumínio, como o objeto real, este aluno conseguiu um efeito similar com uma pintura. Um simulacro que, colocado convenientemente fora do alcance do público e em condições de iluminação meio precárias, não tem muita dificuldade de se passar por real. Antes de prosseguir aos meus preferidos desta Anual, cito outros que me chamaram a atenção. Aline Yoshida apresentou um trabalho delicado que em muito me lembrou o tipo de poesia da Rivane Neuenschwander. Eram uma dezena de folhas de papel sulfite simples, nas quais estavam impressas em alto relevo frases quase imperceptíveis, mas de uma força tocante: "I need some meaning I can memorize", "é como não viver nunca", "feliz mas querendo morrer", "never-ending-nothing", "chorei em vários tons e velocidades diferentes", "waiting for something to say", entre outras. Frases de alguém que, como eu há algum tempo, estava vivendo um eterno nada, um marasmo de apatia, enquanto esperava algo novo acontecer. Um novo significado para a vida, uma nova causa, uma novidade qualquer. Um qualquer coisa. Enquanto isso, ela se desesperava com a própria pequenice, falta de grandeza espiritual. Falta até de conteúdo. Quis muito falar com Yoshida. Saber se suas frases eram suas ou de outros autores interessantes. Saber se eu tinha compreendido. Saber se ela era de fato como eu.
Em outro lugar, o menos conceitual e mais prático trabalho de Prieto Júnior era uma tela enorme coberta de betume e tinta acrílica. Me interessei muito pela tela porque era um escuro sujo, meio grunge. O tipo de fundo que iria muito bem com as minhas pinturas negras de metáforas deformadas. Melhor do que os meus fundos daquele preto chapado e infinito. O betume misturado à tinta acrílica dava uns efeitos irregulares, incontroláveis. Uma textura interessante e colorida, mesmo que o resultado geral continuasse sendo preto, sujo, feio. Um contraste bacana que me deu muito em que pensar para as próximas pinturas. Acho que vou passar a ter fundos mais instigantes.
Minhas duas obras favoritas não foram pinturas. Eis aí outra repetição: pinturas raramente são minhas obras favoritas nas Anuais. Aquela faculdade ainda há de produzir pintores que realmente me cativem algum dia.
Flávia Junqueira é uma conhecida minha. Amiga da Lu e uma daquelas pessoas com as quais eu gostaria muito de conviver mais, por parecerem ter um pouco daquela poesia tão densa que dá pra coletar e guardar, sabe? Flávia apresentou uma série de três fotos (colossalmente ampliadas e emolduradas...) entitulada Na companhia das coisas. Nelas, ela quase desaparece em meio a um mar de coisas. São centenas de peças de roupa (foto), ou brinquedos e outras bugigangas antigas de seu quarto, ou os livros e bibelôs de um escritório. As fotos são meticulosamente produzidas (e ela, maquiada, também), com uma boa iluminação e um arranjo dos elementos que dá a entender que ela teve um assistente muito paciente. Mas meu trabalho favorito da exposição foi a performance que tive a sorte de ver. Alguns minutos após a abertura, comecei a ouvir o distinto som de rodas de skate batendo contra o piso de madeira do salão. Guilherme Duque Peters tinha colocado uma mesa das salas de aula da faculdade no espaço de exposição, cheia de livros de história da arte. Sem pressa ou ansiedade, ele empilhava um livro por vez no chão, ao lado da mesa. A cada livro, ele tomava distância, colocava seu skate no chão e partia pra cima, saltando por cima dos livros para então colocar mais um na pilha. Caravaggio, Rembrandt, Schiele, Klimt, a escolha dos livros não parecia seguir qualquer critério. Apenas a história da arte hoje considerada "acadêmica". Ele só parou quando foi derrubado por Toulouse-Lautrec, colocando a pilha de volta sobre a mesa e encerrando a performance, chamada Over the top em referência à manobra de skate, mas também ao ato de transpôr o obstáculo.
Claro que escolher uma performance como trabalho favorito foge um pouco do meu perfil de viciado em técnica. Mas vale para mostrar como estou interessado na invasão qua a cultura de rua em geral tem promovido sobre a cultura acadêmica. Grafite, picho, skate. Houve uma época em que eu desdenharia tudo isso sem motivo algum, apenas por ser não-acadêmico. Da mesma forma que qualquer acadêmico desdenhava cultura de rua. Como se fosse menos importante, menos real, menos "sério". Mas hoje acho que eles têm questionado muito mais a natureza do que é considerado arte do que qualquer obra técnica. A performance de Duque Peters é o tipo de protesto relativamente bem-humorado que se vê nos próprios livros de história da arte que ele estava tentando superar. Um ato afirmativo, altivo, claro. "Eu existo! Não me ignore!" diz o seu salto sobre os séculos de arte institucionalizada, "Eu quero prevalecer!". Talvez não seja tão violento e nem venda tantos jornais quanto os outros ataques da cultura de rua, mas tem muito mais classe.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Andei pensando sobre essa clareza dos últimos meses.
Principalmente na idéia de que muito teria sido diferente na minha vida se tivessem me falado de certas coisas logo que eu saí da faculdade. Claro, esses conselhos da vida sempre estiveram aí, debaixo do meu nariz. Mas tem coisas que se não falam, nós não vemos. E se vemos, ignoramos.
Saí da faculdade de artes plásticas com o medo da pobreza instilado em mim pelas instituições nas quais cresci e pelas minhas próprias conclusões errôneas. O medo me levou à publicidade e a quatro anos de nada. E só agora eu aceito que estou no caminho totalmente errado.
Que sejam ditas então algumas verdades básicas às novas gerações de artistas plásticos ainda em formação.
Em primeiro lugar, estejam preparados psicologicamente para passarem sim os primeiros anos após a faculdade em um voto de pobreza. Não achem que a dependência do dinheiro de papai acaba após a formatura, porque ela ainda continua algum tempo além da faculdade. Esta não é uma profissão institucionalizada onde faz-se estágio ainda na graduação e processos seletivos para entrar em empresas concorridas. É uma profissão de empregos temporários e de caça à próxima fonte de renda. Mas saibam e entendam que esse primeiro período de pobreza é fundamental. Aprende-se na marra a garimpar o sustento com atividades menores, que não interfiram negativamente na produção artística que, durante a faculdade, ganhou momento, inércia. Mais importante para o artista do que arranjar emprego fixo, é manter esse momento, continuar produzindo na mesma intensidade que se produzia na faculdade. Quem diminui o ritmo para procurar emprego de carteira assinada está decretando seu suicídio como artista profissional e relegando a arte à condição de hobby.
E eis aqui a segunda lição: manter esse momento é fundamental para comunicar o seu comprometimento. Nisso a arte assemelha-se a um verdadeiro business: os possíveis investidores em arte (galeristas, curadores, colecionadores, produtores culturais, etc) não vão investir seu tempo e dinheiro em gente não-comprometida. Ainda que você tenha um trabalho fantástico e revolucionário, se você não mostra comprometimento e perseverância, que garantia eles têm de que você não vai deixá-los na mão porque foi promovido no outro emprego e precisa trabalhar mais horas? Ou que você vai continuar estudando arte e evoluíndo em vez de estudar a mais nova versão dos programas de computador necessários para o seu outro emprego? Ou seja, trocando em miúdos, esse comprometimento é uma questão de foco. É você poder ser (ou pelo menos parecer) uma pessoa que sabe dizer não ao que não importa e persistir no que importa, seja lá o que isso for. Esses investidores querem que seu foco seja na arte e que, dado a chance de escolher entre um emprego assalariado e uma oportunidade de arte, você não seja tentado pelo dinheiro.
Cabe aqui um pequeno parágrafo de alívio.
A vida do artista plástico não vai ser para sempre esse eterno voto de pobreza e viver com os pais até os 30. Se você sobreviveu esse primeiro período de pobreza e aprendeu a desenvolver um trabalho de arte coeso e convincente, o próximo passo é a pós-graduação. A oportunidade de voltar à academia como uma espécie de oficial de patente mais alta. Ter acesso a algumas regalias, bolsas de pesquisa, contatos mais interessantes. E depois disso, a possibilidade de ensinar em faculdades, onde finalmente o sustento passa a ser algo mais garantido, sem comprometer a produção artística. Até porque você precisará estar atuando no mercado apra ser considerado um professor relevante.
Quanto a mim, como eu disse, fui pelo caminho completamente errado. Intimidado pela perspectiva da pobreza, desbravei a selva das pequenas agências de publicidade, achando que o dinheiro estaria por aí e que, com um pouco de sorte, alguém relevante descobriria as pinturas que eu fazia nas poucas horas vagas. O resultado foi óbvio: passei três anos cansado demais pra ter saco para terminar uma pintura (desperdiçando totalmente o momento pós-faculdade) e quem viu meus trabalhos e gostou, não investiu porque eu claramente não estava comprometido. O golpe de misericórdia veio da comparação com meus ex-colegas: com seus trabalhos temporários como guias de exposição e professores de desenho e pintura, estavam ganhando tanto ou mais do que eu na publicidade. Com a diferença de que suas pesquisas artísticas estavam evoluindo e a minha não. Estavam até viajando tanto quanto eu, indo para a Europa, porém para fazerem residências artísticas e continuar a pesquisa.
Well, fuck this... I’m outta here!
Já devia há muito tempo ter tomado essa decisão. Em seis meses, reabri o ateliê, retomei contatos, reiniciei processos. No início, apenas levando adiante idéias e pinturas antigas que eu tinha anotado e esquecido. Eu não tinha momento ou inspiração para idéias novas. Mas gradualmente, fui voltando a ter aqueles flashes, aqueles insights, aquela coisa pseudo-mística que se atribui ao artista. Era como se, de fato, eu nunca deixara de ter.
E nesse lento caminhar, essa sensação de clareza foi se assentando. Uma sensação do que importava e do que era dispensável. Sabe, antes disso o foco era algo emocionalmente caro. Custava-me dizer não aos projetos paralelos, aos eventos legais e aos favores a amigos para me focar no relevante. Custava-me sentir a frustração deles, mas eu ignorava a minha.
Estou botando a casa em ordem nesse aspecto. Saíndo de projetos estéreis que não levam a nada, me desculpando por favores com os quais não posso me comprometer, deixando diversões para depois das responsabilidades. Pensando um pouco mais no meu futuro e menos no presente dos outros. Egoísmo? Julgue como quiser. Não sinto mais pudor em dizer não.
E agora?
Enquanto estou colhendo os frutos destes últimos seis meses em uma exposição que abre nesta quarta na Escola São Paulo, vou planejando e colocando em movimento as coisas para o ano que vem. Há uma sensação gostosa de possibilidade no ar. Daquela que se tem diante de um vasto horizonte aberto, a possibilidade de ir para qualquer lado na velocidade que eu quiser. Medo? Claro que eu tenho. De ir mais rápido do que eu posso aguentar. De correr, correr e não achar nada nem nunca alcançar o horizonte. Não tem soluções fáceis: é incerto, mas é empolgante e desesperador. E pela primeira vez na vida eu realmente quero enfrentar.
É engraçado, mas a imagem que me vem à cabeça sobre estes anos passados na publicidade era bem o oposto. Era como viver nesta metrópole: prédios por todos os lados. Só é possível enxergar até a próxima esquina, alguns metros adiante, e mesmo que está do seu lado tem que falar alto para ser ouvido. Vez por outra se vê um horizonte entre os prédios, mas dura segundos e chegar lá é complicado. Era bem assim: eu só tinha olhos e consciência para as atividades da semana atual e não via futuro além disso. Oportunidades perfeitas do meu lado tinham que falar alto para serem ouvidas. Era uma rotina fácil. E era segura, chata e ainda mais desesperadora.
Principalmente na idéia de que muito teria sido diferente na minha vida se tivessem me falado de certas coisas logo que eu saí da faculdade. Claro, esses conselhos da vida sempre estiveram aí, debaixo do meu nariz. Mas tem coisas que se não falam, nós não vemos. E se vemos, ignoramos.
Saí da faculdade de artes plásticas com o medo da pobreza instilado em mim pelas instituições nas quais cresci e pelas minhas próprias conclusões errôneas. O medo me levou à publicidade e a quatro anos de nada. E só agora eu aceito que estou no caminho totalmente errado.
Que sejam ditas então algumas verdades básicas às novas gerações de artistas plásticos ainda em formação.
Em primeiro lugar, estejam preparados psicologicamente para passarem sim os primeiros anos após a faculdade em um voto de pobreza. Não achem que a dependência do dinheiro de papai acaba após a formatura, porque ela ainda continua algum tempo além da faculdade. Esta não é uma profissão institucionalizada onde faz-se estágio ainda na graduação e processos seletivos para entrar em empresas concorridas. É uma profissão de empregos temporários e de caça à próxima fonte de renda. Mas saibam e entendam que esse primeiro período de pobreza é fundamental. Aprende-se na marra a garimpar o sustento com atividades menores, que não interfiram negativamente na produção artística que, durante a faculdade, ganhou momento, inércia. Mais importante para o artista do que arranjar emprego fixo, é manter esse momento, continuar produzindo na mesma intensidade que se produzia na faculdade. Quem diminui o ritmo para procurar emprego de carteira assinada está decretando seu suicídio como artista profissional e relegando a arte à condição de hobby.
E eis aqui a segunda lição: manter esse momento é fundamental para comunicar o seu comprometimento. Nisso a arte assemelha-se a um verdadeiro business: os possíveis investidores em arte (galeristas, curadores, colecionadores, produtores culturais, etc) não vão investir seu tempo e dinheiro em gente não-comprometida. Ainda que você tenha um trabalho fantástico e revolucionário, se você não mostra comprometimento e perseverância, que garantia eles têm de que você não vai deixá-los na mão porque foi promovido no outro emprego e precisa trabalhar mais horas? Ou que você vai continuar estudando arte e evoluíndo em vez de estudar a mais nova versão dos programas de computador necessários para o seu outro emprego? Ou seja, trocando em miúdos, esse comprometimento é uma questão de foco. É você poder ser (ou pelo menos parecer) uma pessoa que sabe dizer não ao que não importa e persistir no que importa, seja lá o que isso for. Esses investidores querem que seu foco seja na arte e que, dado a chance de escolher entre um emprego assalariado e uma oportunidade de arte, você não seja tentado pelo dinheiro.
Cabe aqui um pequeno parágrafo de alívio.
A vida do artista plástico não vai ser para sempre esse eterno voto de pobreza e viver com os pais até os 30. Se você sobreviveu esse primeiro período de pobreza e aprendeu a desenvolver um trabalho de arte coeso e convincente, o próximo passo é a pós-graduação. A oportunidade de voltar à academia como uma espécie de oficial de patente mais alta. Ter acesso a algumas regalias, bolsas de pesquisa, contatos mais interessantes. E depois disso, a possibilidade de ensinar em faculdades, onde finalmente o sustento passa a ser algo mais garantido, sem comprometer a produção artística. Até porque você precisará estar atuando no mercado apra ser considerado um professor relevante.
Quanto a mim, como eu disse, fui pelo caminho completamente errado. Intimidado pela perspectiva da pobreza, desbravei a selva das pequenas agências de publicidade, achando que o dinheiro estaria por aí e que, com um pouco de sorte, alguém relevante descobriria as pinturas que eu fazia nas poucas horas vagas. O resultado foi óbvio: passei três anos cansado demais pra ter saco para terminar uma pintura (desperdiçando totalmente o momento pós-faculdade) e quem viu meus trabalhos e gostou, não investiu porque eu claramente não estava comprometido. O golpe de misericórdia veio da comparação com meus ex-colegas: com seus trabalhos temporários como guias de exposição e professores de desenho e pintura, estavam ganhando tanto ou mais do que eu na publicidade. Com a diferença de que suas pesquisas artísticas estavam evoluindo e a minha não. Estavam até viajando tanto quanto eu, indo para a Europa, porém para fazerem residências artísticas e continuar a pesquisa.
Well, fuck this... I’m outta here!
Já devia há muito tempo ter tomado essa decisão. Em seis meses, reabri o ateliê, retomei contatos, reiniciei processos. No início, apenas levando adiante idéias e pinturas antigas que eu tinha anotado e esquecido. Eu não tinha momento ou inspiração para idéias novas. Mas gradualmente, fui voltando a ter aqueles flashes, aqueles insights, aquela coisa pseudo-mística que se atribui ao artista. Era como se, de fato, eu nunca deixara de ter.
E nesse lento caminhar, essa sensação de clareza foi se assentando. Uma sensação do que importava e do que era dispensável. Sabe, antes disso o foco era algo emocionalmente caro. Custava-me dizer não aos projetos paralelos, aos eventos legais e aos favores a amigos para me focar no relevante. Custava-me sentir a frustração deles, mas eu ignorava a minha.
Estou botando a casa em ordem nesse aspecto. Saíndo de projetos estéreis que não levam a nada, me desculpando por favores com os quais não posso me comprometer, deixando diversões para depois das responsabilidades. Pensando um pouco mais no meu futuro e menos no presente dos outros. Egoísmo? Julgue como quiser. Não sinto mais pudor em dizer não.
E agora?
Enquanto estou colhendo os frutos destes últimos seis meses em uma exposição que abre nesta quarta na Escola São Paulo, vou planejando e colocando em movimento as coisas para o ano que vem. Há uma sensação gostosa de possibilidade no ar. Daquela que se tem diante de um vasto horizonte aberto, a possibilidade de ir para qualquer lado na velocidade que eu quiser. Medo? Claro que eu tenho. De ir mais rápido do que eu posso aguentar. De correr, correr e não achar nada nem nunca alcançar o horizonte. Não tem soluções fáceis: é incerto, mas é empolgante e desesperador. E pela primeira vez na vida eu realmente quero enfrentar.
É engraçado, mas a imagem que me vem à cabeça sobre estes anos passados na publicidade era bem o oposto. Era como viver nesta metrópole: prédios por todos os lados. Só é possível enxergar até a próxima esquina, alguns metros adiante, e mesmo que está do seu lado tem que falar alto para ser ouvido. Vez por outra se vê um horizonte entre os prédios, mas dura segundos e chegar lá é complicado. Era bem assim: eu só tinha olhos e consciência para as atividades da semana atual e não via futuro além disso. Oportunidades perfeitas do meu lado tinham que falar alto para serem ouvidas. Era uma rotina fácil. E era segura, chata e ainda mais desesperadora.
quinta-feira, novembro 20, 2008
Aniversário - clareza
[A pedidos...]
Sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Não choveu no meu aniversário. Isso por sí só já diz muita coisa. Há um decreto divino que estabelece que em todo dia 15 de novembro os céus verterão água. Pode ser, como no caso do ano passado, uma garoa fina. Pode ser um daqueles dilúvios de verão. Mas sempre chove. Neste ano, os céus estiveram perfeitamente limpos o dia inteiro e a noite contou com uma temperatura muito agradável.
A balada foi no Berlin, que quem conhece disse ter ótima música. O ambiente me lembrava uma versão menor e com pessoas mais comportadas do extinto Atari. E embora o primeiro DJ tenha sido terrível, o que seguiu depois da banda de punk-rock tocou músicas latinas bem interessantes.
Minha Lexy cometeu a loucura de trazer um bolo à festa, que acabou sendo repartido entre mais do que apenas os convidados, mas foi uma loucura gostosa, de generosidade, de delícia. Ajudou-me ainda a fazer um flyer do evento e a montar uma lista de e-mails para mandar.
E como estou eu com essa idade toda? Bom, sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Nesses meses que antecederam o aniversário, a vida dotou-se de uma extraordinária clareza. Sobre quem eu sou hoje e o que quero ser daqui pra frente. Sobre o que vou fazer no ano que vem. Sobre uma carreira de arte e uma produção que eu retomei este ano. Sobre o que eu quero dizer na minha pintura daqui pra frente. Sobre quem eu quero que esteja comigo daqui pra frente.
É claro que houve a discussão de quem foi e quem deixou de ir. Mas mesmo essa discussão foi recebida com uma clareza dolorosa. Você não sai da sua confortável preguiça e adia compromissos menores e gasta dinheiro e vai para um boteco que não toca o seu tipo de música e conversa com pessoas que não falam o seu tipo de papo por qualquer conhecido seu. Em uma cidade onde todo mundo lida com pelo menos cinco turmas separadas (a do colégio, a da faculdade, a do prédio, a do trabalho e a família) e quinhentos outros micro-universos isolados, você só responde ao chamado de pessoas que realmente valem a pena. E não há tristeza, culpa ou pena de mim mesmo quando digo que eu sei que pra muita gente eu não valho a pena. Eu sou um conhecido. Um conhecido legal, mas apenas um conhecido. Eu também não vou às suas festinhas de aniversário. Todos nós temos lugares muito melhores para ir.
Mas assim como o meu projeto do ano que vem é mudar quem eu sou e o que eu faço, o jeito com o qual eu me relaciono com as pessoas também há de mudar. Pra ganhar importância, relevância, crédito. Pra ser alguém para quem é alguém pra mim.
Sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Não choveu no meu aniversário. Isso por sí só já diz muita coisa. Há um decreto divino que estabelece que em todo dia 15 de novembro os céus verterão água. Pode ser, como no caso do ano passado, uma garoa fina. Pode ser um daqueles dilúvios de verão. Mas sempre chove. Neste ano, os céus estiveram perfeitamente limpos o dia inteiro e a noite contou com uma temperatura muito agradável.
A balada foi no Berlin, que quem conhece disse ter ótima música. O ambiente me lembrava uma versão menor e com pessoas mais comportadas do extinto Atari. E embora o primeiro DJ tenha sido terrível, o que seguiu depois da banda de punk-rock tocou músicas latinas bem interessantes.
Minha Lexy cometeu a loucura de trazer um bolo à festa, que acabou sendo repartido entre mais do que apenas os convidados, mas foi uma loucura gostosa, de generosidade, de delícia. Ajudou-me ainda a fazer um flyer do evento e a montar uma lista de e-mails para mandar.
E como estou eu com essa idade toda? Bom, sabe quando uma coisa é esquisita, mas muito boa?
Nesses meses que antecederam o aniversário, a vida dotou-se de uma extraordinária clareza. Sobre quem eu sou hoje e o que quero ser daqui pra frente. Sobre o que vou fazer no ano que vem. Sobre uma carreira de arte e uma produção que eu retomei este ano. Sobre o que eu quero dizer na minha pintura daqui pra frente. Sobre quem eu quero que esteja comigo daqui pra frente.
É claro que houve a discussão de quem foi e quem deixou de ir. Mas mesmo essa discussão foi recebida com uma clareza dolorosa. Você não sai da sua confortável preguiça e adia compromissos menores e gasta dinheiro e vai para um boteco que não toca o seu tipo de música e conversa com pessoas que não falam o seu tipo de papo por qualquer conhecido seu. Em uma cidade onde todo mundo lida com pelo menos cinco turmas separadas (a do colégio, a da faculdade, a do prédio, a do trabalho e a família) e quinhentos outros micro-universos isolados, você só responde ao chamado de pessoas que realmente valem a pena. E não há tristeza, culpa ou pena de mim mesmo quando digo que eu sei que pra muita gente eu não valho a pena. Eu sou um conhecido. Um conhecido legal, mas apenas um conhecido. Eu também não vou às suas festinhas de aniversário. Todos nós temos lugares muito melhores para ir.
Mas assim como o meu projeto do ano que vem é mudar quem eu sou e o que eu faço, o jeito com o qual eu me relaciono com as pessoas também há de mudar. Pra ganhar importância, relevância, crédito. Pra ser alguém para quem é alguém pra mim.
sexta-feira, novembro 14, 2008
28ª Bienal de São Paulo
Não há como não ser influenciado pelas opiniões a respeito da Bienal. Estão em toda parte, superadas apenas pelas opiniões sobre a vitória de Obama para a presidencia dos EUA. E para quem se liga mais em arte do que em política, é impossível pensar em outra coisa.
Fui sozinho à minha primeira visita à Bienal deste ano. Queria dar o devido tempo às obras que me chamassem a atenção, sem lidar com a pressa alheia. Porém, mais do que isso, queria que minha opinião sobre o evento e as obras fosse só minha. Porque quando estou com alguém nessas exposições, tenho a tendência a fazer o papel de advogado do diabo, defendendo trabalhos que, em outras circunstâncias, eu teria desprezado.
As matérias de jornal se enganam ao dizer que esta edição da Bienal conta com um andar vazio. Na verdade é um andar e meio. O primeiro piso do prédio da Bienal tem sua primeira metade, logo antes da rampa, que não está propriamente vazio, mas quase. Pelo que relatam os textos estilosamente aplicados na dita rampa, essa primeira parte tem o propósito de servir como uma espécie de praça pública, um espaço aberto e verdadeiramente público. Essa era, segundo os curadores, a idéia inicial de Niemeyer para aquele espaço. Só não pude dizer que o espaço está vazio porque ainda estavam por lá os restos do palco do show do Fischerspooner, que a galerinha mais hype disse que foi ótimo. Além disso, há uma curiosa, embora sorrateira videoinstalação do Rubens Mano em um cubículo imperceptível abraçando uma coluna, e a intervenção da turma da Anarcademia (espécie de coletivo de jovens artistas formado pelos asseclas da Dora).
Por causa da "intervenção" dos pixadores no andar vazio, a entrada para a Bienal propriamente dita é agora controlada por um forte esquema de segurança, que inclui detectores de metal, guarda-volumes para bolsas suspeitas e muitos homens de preto. Meus parabéns à turma do Pixobomb... Podem não ter mudado a opinião pública sobre o pixo, mas mudaram a atitude da Bienal, que ficou bem menos receptiva.
Logo na entrada, dei de cara com o Mundo Explicado do argentino Erick Beltrán. Me pareceu um projeto interessante, valendo-se da interatividade com o público e da noção popular (de "nao-especialistas", como ele chama o público) sobre diversos assuntos para criar uma espécie de enciclopédia de conhecimentos gerais e explicações chucras do mundo. O projeto contava com uma pequena equipe de editores, uma impressora off-set e um intrincado sistema de dados.
Outro detalhe que me chamou a atenção no primeiro andar foi o projeto Talisman de Paul Ramirez Jonas. Um chaveiro instalado na Bienal entregava supostas cópias da chave do pavilhão em troca de cópias das chaves dos visitantes. O visitante pode, teoricamente, vir até o pavilhão pela manhã para abrir a Bienal daquele dia. Uma troca interessante, mas acho que depois do ataque ao segundo andar, ações desse tipo ganham outros ares e muitos medos.
Mas o que realmente toma boa parte da atenção e relevância do primeiro andar é a sessão de vídeos. Os curadores desta edição devem ser realmente apaixonados pela mídia, já que dedicaram uma área dividida em várias partes intensamente organizadas a essa forma de expressão. Trata-se quase de uma mostra dentro da mostra, relatando um pouco dos primeiros experimentos em video arte, questões políticas relacionadas e vídeos com uma linguagem mais recente. O mais interessante dessa área de vídeos é que seu conteúdo muda a cada semana. Não sei exatamente o que pensar disso: se a estratégia foi divisada para conseguir expor tão vasto acervo, ou para convencer o visitante a voltar inúmeras vezes, aumentando assim as estatísticas desta edição do evento. Quiçá seja por ambos os motivos.
E então, o segundo andar. O andar "vazio". Escrito assim, entre aspas, porque uma das entradas para os escorregadores do belga Carsten Höller fica aqui. E já fica aqui a minha primeira crítica sobre o segundo andar: se é para ser vazio, que seja realmente vazio. Da forma como está, virou "o andar do escorregador". No mais, embora eu admita que é algo relativamente impressionante estar naquele enorme andar vazio, qualquer visitante assíduo do Ibirapuera vê aquilo se olhar através das enormes janelas do pavilhão nas épocas em que ele está fechado e sem exposições. Ou seja, nenhuma novidade. Até cheguei a murmurar maravilhado sobre como seria legal andar de patins naquele chão perfeitamente liso. Ah, é... pra isso tem a marquise lá fora. Ou seja, nenhuma novidade MESMO.
Encontrei Marcela Tiboni no andar vazio. Vendo-a chegar à distância e reconhecendo-a através da minha miopia. Marcela organizou o corpo de monitores desta edição, chegando até a me mandar um e-mail convidando-me a participar. Vontades de largar a agência de publicidade e ir... Conversamos sobre o ocorrido no domingo de abertura, sobre os pixadores. Ela estava lá no embate entre eles e os seguranças e contou da violência de ambas as partes. Relatou ainda que depois daquilo, muita gente ia ao segundo andar só pra fazer rebeldia gratuita, se comportar mal e gritar aos quatro ventos que estava sendo agredido por seguranças d'O Sistema. Achei talvez a parte mais interessante e estimulante da minha visita ao segundo andar: ouvir em primeira mão o relato do outro lado da história. O de quem tem que lidar com os pixadores na prática, e não apenas fazer divagações teóricas sobre a validade artística dos atos deles. Marcela não queria saber da validade de porra nenhuma. Tinha sido agredida por gente que viera atrapalhar seu trabalho e não teria um pingo de simpatia por aqueles pixadores, artistas ou não. E isso tudo era mais real e dizia mais a ela do que qualquer arte.
O terceiro andar é, via de regra, o melhor da Bienal. Em quase todas as edições que fui. E embora eu não tenha visto tudo por estar começando a sentir os efeitos do cansaço (a impaciência, a dispersão...), gostei muito do que consegui ver. Logo de cara, passei quase uma hora no trabalho de minha ídola Sophie Calle. Assim como os vídeos, a montagem de Calle era uma mostra dentro da mostra. Centrando-se em um trabalho específico, La Filature (A Perseguição), com fotos e anotações penduradas em uma parede sobre a experiência que fez pedindo que sua mãe contratasse um detetive para segui-la, a montagem trazia também cadeiras às quais estavam amarrados exemplares de um livro documentando a experiência simbiótica entre Calle e o escritorPaul Auster. Ele criou uma personagem baseada nas pesquisas e performances de Calle sobre intimidade e identidade para um de seus livros, enquanto ela procurou viver as performances e situações que a personagem de Auster viveu. Nesse processo, diversos dos trabalhos anteriores de Calle foram descritos e documentados no livro, que serve quase como um catálogo da carreira da artista. Poderia escrever um post separado sobre Sophie Calle (talvez o faça algum dia...). Seu trabalho parece validar atitudes tidas como perversas como o voyeurismo, a obssessão e todas as atitudes de um bom stalker.
Logo ao lado, o aguardado trabalho de Marina Abramovic não tinha nada a ver com a fundação que ela criou depois de separar-se de Ulay, como eu tinha previsto. Era um trabalho antigo, uma coleção de auto-retratos em vídeo. Ela os chamava de retratos por serem closes de seu rosto em diversas situações. Fez-me lembrar dos meus retratos, que eram justamente isso: ilustrações de rostos que tomavam toda a tela. Deu vontade de fazer vídeos como os dela. Mas acho que falta-me a poesia. Abramovic também figurou em diversos vídeos da área de vídeos do primeiro andar. Vários deles com o ex-parceiro. Não tenho certeza, mas acho que tem um vídeo dela para cada semana da Bienal na última sessão da área do primeiro andar.
De saída, fiquei com vontade de escrever nas máquinas alteradas de Rivane Neuenschwander. O trabalho também era antigo e conhecido, das máquinas de escrever modificadas, mas a interação do público é sempre interessante. Às vezes acho-a mais interessante do que o próprio trabalho da artista, por ser uma amostra de criatividade anônima, pública, desconhecida. Mas não escrevi nas máquinas. Porque, conforme eu tinha escrito antes, o trabalho de Rivane precisa de seu próprio tempo e dedicação. É um trabalho sutil, delicado, para sentar, apreciar e pensar a respeito por alguns minutos. E colocado assim, no fim de uma longa exposição de várias horas, acaba vitimado pelo cansaço e impaciência do visitante que já saturou-se de arte e quer ir para casa.
Também não desci pelos escorregadores do Carsten Höller. O trabalho faz sucesso e a fila para acessá-lo é consideravelmente longa. Não tiro o mérito do trabalho: embora ele não convide a uma reflexão tão profunda quanto outros trabalhos, é divertido e mantem as crianças ocupadas. Mas quem sabe uma próxima vez...
Fui sozinho à minha primeira visita à Bienal deste ano. Queria dar o devido tempo às obras que me chamassem a atenção, sem lidar com a pressa alheia. Porém, mais do que isso, queria que minha opinião sobre o evento e as obras fosse só minha. Porque quando estou com alguém nessas exposições, tenho a tendência a fazer o papel de advogado do diabo, defendendo trabalhos que, em outras circunstâncias, eu teria desprezado.
As matérias de jornal se enganam ao dizer que esta edição da Bienal conta com um andar vazio. Na verdade é um andar e meio. O primeiro piso do prédio da Bienal tem sua primeira metade, logo antes da rampa, que não está propriamente vazio, mas quase. Pelo que relatam os textos estilosamente aplicados na dita rampa, essa primeira parte tem o propósito de servir como uma espécie de praça pública, um espaço aberto e verdadeiramente público. Essa era, segundo os curadores, a idéia inicial de Niemeyer para aquele espaço. Só não pude dizer que o espaço está vazio porque ainda estavam por lá os restos do palco do show do Fischerspooner, que a galerinha mais hype disse que foi ótimo. Além disso, há uma curiosa, embora sorrateira videoinstalação do Rubens Mano em um cubículo imperceptível abraçando uma coluna, e a intervenção da turma da Anarcademia (espécie de coletivo de jovens artistas formado pelos asseclas da Dora).
Por causa da "intervenção" dos pixadores no andar vazio, a entrada para a Bienal propriamente dita é agora controlada por um forte esquema de segurança, que inclui detectores de metal, guarda-volumes para bolsas suspeitas e muitos homens de preto. Meus parabéns à turma do Pixobomb... Podem não ter mudado a opinião pública sobre o pixo, mas mudaram a atitude da Bienal, que ficou bem menos receptiva.
Logo na entrada, dei de cara com o Mundo Explicado do argentino Erick Beltrán. Me pareceu um projeto interessante, valendo-se da interatividade com o público e da noção popular (de "nao-especialistas", como ele chama o público) sobre diversos assuntos para criar uma espécie de enciclopédia de conhecimentos gerais e explicações chucras do mundo. O projeto contava com uma pequena equipe de editores, uma impressora off-set e um intrincado sistema de dados.
Outro detalhe que me chamou a atenção no primeiro andar foi o projeto Talisman de Paul Ramirez Jonas. Um chaveiro instalado na Bienal entregava supostas cópias da chave do pavilhão em troca de cópias das chaves dos visitantes. O visitante pode, teoricamente, vir até o pavilhão pela manhã para abrir a Bienal daquele dia. Uma troca interessante, mas acho que depois do ataque ao segundo andar, ações desse tipo ganham outros ares e muitos medos.
Mas o que realmente toma boa parte da atenção e relevância do primeiro andar é a sessão de vídeos. Os curadores desta edição devem ser realmente apaixonados pela mídia, já que dedicaram uma área dividida em várias partes intensamente organizadas a essa forma de expressão. Trata-se quase de uma mostra dentro da mostra, relatando um pouco dos primeiros experimentos em video arte, questões políticas relacionadas e vídeos com uma linguagem mais recente. O mais interessante dessa área de vídeos é que seu conteúdo muda a cada semana. Não sei exatamente o que pensar disso: se a estratégia foi divisada para conseguir expor tão vasto acervo, ou para convencer o visitante a voltar inúmeras vezes, aumentando assim as estatísticas desta edição do evento. Quiçá seja por ambos os motivos.
E então, o segundo andar. O andar "vazio". Escrito assim, entre aspas, porque uma das entradas para os escorregadores do belga Carsten Höller fica aqui. E já fica aqui a minha primeira crítica sobre o segundo andar: se é para ser vazio, que seja realmente vazio. Da forma como está, virou "o andar do escorregador". No mais, embora eu admita que é algo relativamente impressionante estar naquele enorme andar vazio, qualquer visitante assíduo do Ibirapuera vê aquilo se olhar através das enormes janelas do pavilhão nas épocas em que ele está fechado e sem exposições. Ou seja, nenhuma novidade. Até cheguei a murmurar maravilhado sobre como seria legal andar de patins naquele chão perfeitamente liso. Ah, é... pra isso tem a marquise lá fora. Ou seja, nenhuma novidade MESMO.
Encontrei Marcela Tiboni no andar vazio. Vendo-a chegar à distância e reconhecendo-a através da minha miopia. Marcela organizou o corpo de monitores desta edição, chegando até a me mandar um e-mail convidando-me a participar. Vontades de largar a agência de publicidade e ir... Conversamos sobre o ocorrido no domingo de abertura, sobre os pixadores. Ela estava lá no embate entre eles e os seguranças e contou da violência de ambas as partes. Relatou ainda que depois daquilo, muita gente ia ao segundo andar só pra fazer rebeldia gratuita, se comportar mal e gritar aos quatro ventos que estava sendo agredido por seguranças d'O Sistema. Achei talvez a parte mais interessante e estimulante da minha visita ao segundo andar: ouvir em primeira mão o relato do outro lado da história. O de quem tem que lidar com os pixadores na prática, e não apenas fazer divagações teóricas sobre a validade artística dos atos deles. Marcela não queria saber da validade de porra nenhuma. Tinha sido agredida por gente que viera atrapalhar seu trabalho e não teria um pingo de simpatia por aqueles pixadores, artistas ou não. E isso tudo era mais real e dizia mais a ela do que qualquer arte.
O terceiro andar é, via de regra, o melhor da Bienal. Em quase todas as edições que fui. E embora eu não tenha visto tudo por estar começando a sentir os efeitos do cansaço (a impaciência, a dispersão...), gostei muito do que consegui ver. Logo de cara, passei quase uma hora no trabalho de minha ídola Sophie Calle. Assim como os vídeos, a montagem de Calle era uma mostra dentro da mostra. Centrando-se em um trabalho específico, La Filature (A Perseguição), com fotos e anotações penduradas em uma parede sobre a experiência que fez pedindo que sua mãe contratasse um detetive para segui-la, a montagem trazia também cadeiras às quais estavam amarrados exemplares de um livro documentando a experiência simbiótica entre Calle e o escritorPaul Auster. Ele criou uma personagem baseada nas pesquisas e performances de Calle sobre intimidade e identidade para um de seus livros, enquanto ela procurou viver as performances e situações que a personagem de Auster viveu. Nesse processo, diversos dos trabalhos anteriores de Calle foram descritos e documentados no livro, que serve quase como um catálogo da carreira da artista. Poderia escrever um post separado sobre Sophie Calle (talvez o faça algum dia...). Seu trabalho parece validar atitudes tidas como perversas como o voyeurismo, a obssessão e todas as atitudes de um bom stalker.
Logo ao lado, o aguardado trabalho de Marina Abramovic não tinha nada a ver com a fundação que ela criou depois de separar-se de Ulay, como eu tinha previsto. Era um trabalho antigo, uma coleção de auto-retratos em vídeo. Ela os chamava de retratos por serem closes de seu rosto em diversas situações. Fez-me lembrar dos meus retratos, que eram justamente isso: ilustrações de rostos que tomavam toda a tela. Deu vontade de fazer vídeos como os dela. Mas acho que falta-me a poesia. Abramovic também figurou em diversos vídeos da área de vídeos do primeiro andar. Vários deles com o ex-parceiro. Não tenho certeza, mas acho que tem um vídeo dela para cada semana da Bienal na última sessão da área do primeiro andar.
De saída, fiquei com vontade de escrever nas máquinas alteradas de Rivane Neuenschwander. O trabalho também era antigo e conhecido, das máquinas de escrever modificadas, mas a interação do público é sempre interessante. Às vezes acho-a mais interessante do que o próprio trabalho da artista, por ser uma amostra de criatividade anônima, pública, desconhecida. Mas não escrevi nas máquinas. Porque, conforme eu tinha escrito antes, o trabalho de Rivane precisa de seu próprio tempo e dedicação. É um trabalho sutil, delicado, para sentar, apreciar e pensar a respeito por alguns minutos. E colocado assim, no fim de uma longa exposição de várias horas, acaba vitimado pelo cansaço e impaciência do visitante que já saturou-se de arte e quer ir para casa.
Também não desci pelos escorregadores do Carsten Höller. O trabalho faz sucesso e a fila para acessá-lo é consideravelmente longa. Não tiro o mérito do trabalho: embora ele não convide a uma reflexão tão profunda quanto outros trabalhos, é divertido e mantem as crianças ocupadas. Mas quem sabe uma próxima vez...
domingo, novembro 02, 2008
Acho que já faz mais de seis meses que a banda se apresentou pela última vez, no Manifesto. O fato teve o gosto daquelas coincidências que só aconteciam na Itália: o Manifesto foi o mesmo lugar da nossa primeira apresentação, e pareceu o fim perfeito para tudo, o fechamento de um ciclo. A partir daí foi tudo ladeira abaixo até a fatídica conversa em Julho, em um Starbucks. Não vou falar de motivos, mas achei que precisava colocar uma nota disso aqui. Senti na época que não devia, mas hoje sinto que ficou esse vácuo, essa notícia não noticiada, porque muita gente ainda vem me perguntar sobre os próximos shows.
A banda acabou mesmo.
Cada um foi para o seu canto. Pessoalmente, eu voltei a ser artista plástico. Reabri o ateliê em Junho, um mês antes, e voltei a pintar com alguma disciplina que me faltava desde que saí da faculdade, e que estava dedicando à banda. Faz mais sentido: estudei para isso, me interesso por isso, já tenho conhecimento nessa área para me considerar mais que um leigo nisso. No rock, eu sempre serei um leigo. Um leigo com voz, mas um leigo.
And yet, houve uma época em que fazer arte com o afinco e maravilhamento de um leigo, para que até leigos entendessem, era parte da minha ideologia...
Por falar na voz, o lado positivo disso tudo é que já não penso mais na minha garganta. Me dei conta disso hoje: não consigo lembrar quando foi que deixei de pigarrear, tossir seco e viver com um incômodo na garganta. Cada ensaio tinha um prazer como arrancar casca de ferida: é delicioso, mas você sabe que faz mal e reabre um machucado. Mesmo assim, você não consegue parar de fazer. Comparação bizarra, né?
Quer outra coisa bizarra? Nas piores épocas desse meu relacionamento laríngico, eu tinha medo de calejar a garganta, perder a voz e ter que gastar uma fortuna com tratamentos para algo que surgiu de um hobby. Até aí, uma preocupação normal, iniciada pelos conselhos de outros cantores amadores. O bizarro era que havia uma outra preocupação dessas meio infundadas, ridículas, mas que ficava ecoando num recôndito abafado da mente: o câncer. A observação de casos de câncer na família me levou a ter uma crença supersticiosa de que a doença se desenvolve em órgãos usados abusivamente, constantemente maltratados. Câncer cerebral nos mais brilhantes, de laringe nos fumantes, de pâncreas nas doceiras. Mórbido, bizarro e ridículo ao mesmo tempo, eu sei...
Mas enfim, hoje tudo isso são medos do passado. Eu volto a me divertir nos karaokês quando possível e a cantar por prazer e não por obrigação auto-imposta.
Também sentirei muitas saudades daquela época.
Saudades do palco e daquele momento único, que pontilhava meus meses de lembranças e fazia o ano ser mais longo. Saudades de fazer arte de tempo e não de matéria. E saudade de ter aquele conjunto de amigos. Era muito bom e muito tenso ao mesmo tempo. Bom, porque eram amigos que se preocupavam, que se interessavam, que me queriam por perto, presente, enquanto outros nem sabem se eu voltei da Europa ainda. E isso é cada vez mais raro nesta cidade ocupada. Era bom ser parte de algo, não estar sozinho.
[Sabe quando você tem aquela noção de que um post tem alto potencial de causar respostas enfurecidas de gente que entendeu tudo errado?]
A banda acabou mesmo.
Cada um foi para o seu canto. Pessoalmente, eu voltei a ser artista plástico. Reabri o ateliê em Junho, um mês antes, e voltei a pintar com alguma disciplina que me faltava desde que saí da faculdade, e que estava dedicando à banda. Faz mais sentido: estudei para isso, me interesso por isso, já tenho conhecimento nessa área para me considerar mais que um leigo nisso. No rock, eu sempre serei um leigo. Um leigo com voz, mas um leigo.
And yet, houve uma época em que fazer arte com o afinco e maravilhamento de um leigo, para que até leigos entendessem, era parte da minha ideologia...
Por falar na voz, o lado positivo disso tudo é que já não penso mais na minha garganta. Me dei conta disso hoje: não consigo lembrar quando foi que deixei de pigarrear, tossir seco e viver com um incômodo na garganta. Cada ensaio tinha um prazer como arrancar casca de ferida: é delicioso, mas você sabe que faz mal e reabre um machucado. Mesmo assim, você não consegue parar de fazer. Comparação bizarra, né?
Quer outra coisa bizarra? Nas piores épocas desse meu relacionamento laríngico, eu tinha medo de calejar a garganta, perder a voz e ter que gastar uma fortuna com tratamentos para algo que surgiu de um hobby. Até aí, uma preocupação normal, iniciada pelos conselhos de outros cantores amadores. O bizarro era que havia uma outra preocupação dessas meio infundadas, ridículas, mas que ficava ecoando num recôndito abafado da mente: o câncer. A observação de casos de câncer na família me levou a ter uma crença supersticiosa de que a doença se desenvolve em órgãos usados abusivamente, constantemente maltratados. Câncer cerebral nos mais brilhantes, de laringe nos fumantes, de pâncreas nas doceiras. Mórbido, bizarro e ridículo ao mesmo tempo, eu sei...
Mas enfim, hoje tudo isso são medos do passado. Eu volto a me divertir nos karaokês quando possível e a cantar por prazer e não por obrigação auto-imposta.
Também sentirei muitas saudades daquela época.
Saudades do palco e daquele momento único, que pontilhava meus meses de lembranças e fazia o ano ser mais longo. Saudades de fazer arte de tempo e não de matéria. E saudade de ter aquele conjunto de amigos. Era muito bom e muito tenso ao mesmo tempo. Bom, porque eram amigos que se preocupavam, que se interessavam, que me queriam por perto, presente, enquanto outros nem sabem se eu voltei da Europa ainda. E isso é cada vez mais raro nesta cidade ocupada. Era bom ser parte de algo, não estar sozinho.
[Sabe quando você tem aquela noção de que um post tem alto potencial de causar respostas enfurecidas de gente que entendeu tudo errado?]
sexta-feira, outubro 31, 2008
A verdade sobre publicitários
Recebi este texto por e-mail no trabalho. Acho que ele resume toda minha frustração com a carreira de publiciotário e o porque venho tentando fazer menos disso e mais arte de verdade a cada dia.
Criação: são exatamente o tipinho que as pessoas que não conhecem nenhum publicitário imaginam como sendo um publicitário. Consideram-se o cérebro da agência de publicidade, mas na realidade são os primeiros na cadeia alimentar, diariamente estuprados por todos os outros setores da agência. Porém, estrategicamente a diretoria os oferece vagas no estacionamento, os melhores computadores disponíveis, liberdade de chegar mais tarde no trabalho (um pouquinho mais tarde), e mais algumas regalias baratas e dispensáveis, o que os fazem acreditar que são o setor de maior prestígio dentro da agência. É um prática comum dentre os criativos se masturbar olhando o espelho, uns chegam até a levar ao banheiro um espelhinho de mão escondido no meio da revista Meio & Mensagem. Dividem-se em alguns cargos/castas que variam de nome e função dentre os tipos de agência, mas que de modo geral são:
Redatores: vestem preto ou casacos Adidas, usam tênis coloridos e têm cara de nerd . São pseudo-intelectuais insuportáveis, acreditam saber mais do que todo mundo em absolutamente QUALQUER assunto. Adoram supervalorizar o próprio trabalho a ponto de demorar 3 horas para decidir se no "Compre já!" deve entrar uma exclamação ou não. Trabalham anos e anos em troca de salários mínimos, com o sonho de ganhar prêmios e dinheiro. Quando isso ocorre (se um dia ocorrer), já estão velhos, impotentes e flácidos demais para poder aproveitar. Decidem então se dedicar a escrever um livro genial, brilhante e revolucionário, que nunca será publicado.
Diretores de arte: Fumam maconha , usam calças jeans rasgadas, tênis all-star sujo e geralmente possuem brincos ou tatuagens. Reclamam o tempo inteiro sobre tudo. Às vezes saem pra almoçar apenas para reclamar: reclamam do trabalho, do clima, do atendimento do garçom, da própria barriga que não pára de crescer. Possuem olheiras e cara de sujo que são, além de estilinho, decorrentes das centenas de noites em claro e finais de semana dedicados a anúncios que não servirão pra nada além da inscrição em prêmios que só outros publicitários verão, ou para grandes e memoráveis obras de arte como o selo de "Saldão de Natal". Consideram-se grandes artistas, mas quando chegam aos trinta e muitos, frustrados com a carreira dedicada a campanhas "humanizadas" de lojas de departamento ou bancos, montam uma confecção de camisetas moderninhas e "com conceito".
Diretores de criação: "Vai tocando aí e no domingo de tarde a gente dá uma olhada". "Ainda não temos. Pensem mais nisso durante a madrugada e amanhã de manhã a gente vê". "Sei que é chato, mas vamos precisar da força de todo mundo nesse feriado. É uma concorrência muito importante que se rolar, vamos poder contratar mais gente pra dasafogar vocês e dar uma ajeitada no salário da galera". Se você nunca ouviu frases assim, não conhece nenhum diretor de criação. Esses sujeitos estão para o Yoda assim como os redatores e diretores de arte estão para os jedis. O Yoda já foi um grande jedi um dia, acumulou grande poder e conhecimento, mas acabou por virar um monstrinho velhinho e recluso que se esconde em um pântano. Um dia um garoto ambicioso com potencial para virar o mais poderoso jedi vai encontrá-lo, receber seus ensinamentos e depois da morte do mestre Yoda, vai ter sua companhia como um espírito que opina e se intromete, até que o mesmo aconteça com ele.
Atendimento: "Cara, se a gente não fizer isso, vamos perder a conta!". "Varejão! Cores fortes, título chamativo, splash falando da novidade e bastante destaque no logo e site". "Devemos criar uma comunicação criativa, envolvente e impactante. Porém não temos verba e nem prazo.". Essas frases são típicas tanto na fala quantos textos do profissional de atendimento. Provavelmente em seus teclados, cada um dos F (F1, F2, etc) é o atalho com uma dessas frases. Possuir um sorriso maroto e ser mais escorregadio que um sapo besuntado de manteiga são pré-requisitos para ser um profissional de atendimento bem-sucedido. Normalmente não conseguiram entrar na área de criação e fazem de conta que são importantes na agência. Vivem em sites de conteúdo compartilhado falando mal do pessoal da criação. Classificam-se hierarquicamente como segue:
Estagiários: tiradores de xerox, digitadores, carregadores de pasta e aprendizes de técnicas de furtividade. Por um incrível fenômeno da economia brasileira, ganham 500 reais de salário mas dirigem um C3 0Km e têm uma renda mensal que ultrapassa os 3000 reais. E, por uma coincidência incrível, seus pais são clientes dos seus colegas de outro grupo de atendimento, que sentam a uns 4 metros pro lado.
Assistentes: basicamente fazem o trabalho dos executivos e gerentes de conta, mas ganham o mesmo que a babá dos mesmos.
Executivos: nesse ponto da carreira já são peritos nas disciplinas ninja de furtividade e das bombas de fumaça. O uso de outras pessoas como escudo humano e as zarabatanas com dardos envenenados já é prática comum.
Gerentes: a única diferença do gerente de conta para um executivo de conta é a espetacular coincidência de ele ser amigo pessoal do diretor de atendimento.
Diretor de conta: são como todo mestre ninja em filmes de ação dos anos 80. À primeira vista, são beberrões e bon vivants, mas no momento de perigo revelam-se grandes mestres do subterfúgio.
Diretor de atendimento: são o Kaiser Sose da propaganda. Alguns funcionários dizem que não passam de uma lenda. Outros dizem que são ninjas tão poderosos que ninguém os vê, ninguém os ouve, mas todos ficam sabendo de seus incríveis feitos.
Puta acéfala: São um tipo curioso de profissional de atendimento, pois são denominados como qualquer um dos cargos citados acima, porém possuem designações completamente diferentes. Suas atividades se resumem a sorrir, vestir decotes e roupas justas, abaixar para pegar coisas estrategicamente derrubadas em frente a clientes e permancer alcoolizadas em festinhas e happy hours que contam com a presença de clientes e membros da diretoria.
Mídia: o dia do mídia geralmente segue um padrão muito particular, independente do sujeito ser estagiário ou diretor de mídia. Eles chegam na agência 9:30, até as 10:45 olham os e-mails pessoais, os e-mails de sacanagem, as notícias, sites de fofoca, o horóscopo, o guia da tv a cabo e, por fim, os e-mails de trabalho. Aí é o momento aonde vão até a copa pegar um café e bater papo até umas 11:30.
Então começam a decidir aonde será o almoço, que só voltam depois das 14:30. Até as 15:30 é tempo mais do que suficiente para escovar os dentes, ir ao banheiro, conversar sobre como o almoço foi gostoso e olhar mais e-mails pessoais. Aí então é hora de pegar no batente. E dá-lhe números, tabelas e valores até as 17:00, quando param para aproveitar os doces, cestas, bolos, chocolates e diversos outros mimos que receberam dos veículos de mídia (canais de tv, revistas, empresas de mídia exterior, etc). Depois, até as 18:00, é hora de combinar com os amigos sobre o show do Eric Clapton, do qual ganharam de algum veículo vários convites para o camarote VIP. Como nessa hora os colegas de outros setores da agência ainda estão trabalhando, costumam ir acompanhados de outros mídias de outras agências.
Planejamento: esses indivíduos, que costumam se auto-intitular "planners", são de fato os verdadeiros gênios da propaganda. Não por suas realizações profissionais (que na verdade não são nada mais do que pura encheção de lingüiça), mas por terem convencido o mercado inteiro que, para realizar o seu trabalho fantasticamente genial, não podem ter sua brilhante mente perturbada por problemas mundanos como prazos e baixos salários. Ganham razoavelmente bem, chegam tarde, fazem 3 horas de almoço, vão embora cedo, entram em sites de qualquer besteira o dia inteiro com o argumento de estarem pesquisando as tendências do momento e, aos 40 minutos do segundo tempo, montam um power point recheado de expressões em inglês que não fazem muito sentido ( "out of the box", "apettite appeal", "brand development") e ensaiam uma apresentação para o cliente com explicações e defesas tão enroladas e absurdas que o mesmo, com vergonha de fazer papel de estúpido, classifica como genial e os aplaude de pé.
Estúdio, RTV, Produção Gráfica e Tráfego: o dia a dia dessas áreas da agência fariam o Jack Bauer sentar num canto e chorar. Ganham miseravelmente mal, trabalham em condições desumanas e lidam diariamente com todo o tipo de explosivos, animais venenosos, ataques terroristas e invasões de extraterrestres, geralmente encaminhados a eles pelo pessoal do atendimento. E, para piorar, enquanto tentam matar um tiranossauro com um canivete, ainda precisam aturar o pessoal da criação criticando a cor desbotada do cabo do canivete e insistindo na maneira conceitualmente correta de se desviar de uma abocanhada do gigantesco animal.
Presidência e Vice-presidência: autênticos deuses do Olimpo. Ficam lá em cima se divertindo às custas dos pobres mortais, inventando desastres naturais, guerras e maldições. Só descem ao mundo dos mortais para possuir as mais belas donzelas ou deixar seus nomes marcados nas grandes batalhas, nas quais não podem se ferir".
Fonte desconhecida, mas divertida
Criação: são exatamente o tipinho que as pessoas que não conhecem nenhum publicitário imaginam como sendo um publicitário. Consideram-se o cérebro da agência de publicidade, mas na realidade são os primeiros na cadeia alimentar, diariamente estuprados por todos os outros setores da agência. Porém, estrategicamente a diretoria os oferece vagas no estacionamento, os melhores computadores disponíveis, liberdade de chegar mais tarde no trabalho (um pouquinho mais tarde), e mais algumas regalias baratas e dispensáveis, o que os fazem acreditar que são o setor de maior prestígio dentro da agência. É um prática comum dentre os criativos se masturbar olhando o espelho, uns chegam até a levar ao banheiro um espelhinho de mão escondido no meio da revista Meio & Mensagem. Dividem-se em alguns cargos/castas que variam de nome e função dentre os tipos de agência, mas que de modo geral são:
Redatores: vestem preto ou casacos Adidas, usam tênis coloridos e têm cara de nerd . São pseudo-intelectuais insuportáveis, acreditam saber mais do que todo mundo em absolutamente QUALQUER assunto. Adoram supervalorizar o próprio trabalho a ponto de demorar 3 horas para decidir se no "Compre já!" deve entrar uma exclamação ou não. Trabalham anos e anos em troca de salários mínimos, com o sonho de ganhar prêmios e dinheiro. Quando isso ocorre (se um dia ocorrer), já estão velhos, impotentes e flácidos demais para poder aproveitar. Decidem então se dedicar a escrever um livro genial, brilhante e revolucionário, que nunca será publicado.
Diretores de arte: Fumam maconha , usam calças jeans rasgadas, tênis all-star sujo e geralmente possuem brincos ou tatuagens. Reclamam o tempo inteiro sobre tudo. Às vezes saem pra almoçar apenas para reclamar: reclamam do trabalho, do clima, do atendimento do garçom, da própria barriga que não pára de crescer. Possuem olheiras e cara de sujo que são, além de estilinho, decorrentes das centenas de noites em claro e finais de semana dedicados a anúncios que não servirão pra nada além da inscrição em prêmios que só outros publicitários verão, ou para grandes e memoráveis obras de arte como o selo de "Saldão de Natal". Consideram-se grandes artistas, mas quando chegam aos trinta e muitos, frustrados com a carreira dedicada a campanhas "humanizadas" de lojas de departamento ou bancos, montam uma confecção de camisetas moderninhas e "com conceito".
Diretores de criação: "Vai tocando aí e no domingo de tarde a gente dá uma olhada". "Ainda não temos. Pensem mais nisso durante a madrugada e amanhã de manhã a gente vê". "Sei que é chato, mas vamos precisar da força de todo mundo nesse feriado. É uma concorrência muito importante que se rolar, vamos poder contratar mais gente pra dasafogar vocês e dar uma ajeitada no salário da galera". Se você nunca ouviu frases assim, não conhece nenhum diretor de criação. Esses sujeitos estão para o Yoda assim como os redatores e diretores de arte estão para os jedis. O Yoda já foi um grande jedi um dia, acumulou grande poder e conhecimento, mas acabou por virar um monstrinho velhinho e recluso que se esconde em um pântano. Um dia um garoto ambicioso com potencial para virar o mais poderoso jedi vai encontrá-lo, receber seus ensinamentos e depois da morte do mestre Yoda, vai ter sua companhia como um espírito que opina e se intromete, até que o mesmo aconteça com ele.
Atendimento: "Cara, se a gente não fizer isso, vamos perder a conta!". "Varejão! Cores fortes, título chamativo, splash falando da novidade e bastante destaque no logo e site". "Devemos criar uma comunicação criativa, envolvente e impactante. Porém não temos verba e nem prazo.". Essas frases são típicas tanto na fala quantos textos do profissional de atendimento. Provavelmente em seus teclados, cada um dos F (F1, F2, etc) é o atalho com uma dessas frases. Possuir um sorriso maroto e ser mais escorregadio que um sapo besuntado de manteiga são pré-requisitos para ser um profissional de atendimento bem-sucedido. Normalmente não conseguiram entrar na área de criação e fazem de conta que são importantes na agência. Vivem em sites de conteúdo compartilhado falando mal do pessoal da criação. Classificam-se hierarquicamente como segue:
Estagiários: tiradores de xerox, digitadores, carregadores de pasta e aprendizes de técnicas de furtividade. Por um incrível fenômeno da economia brasileira, ganham 500 reais de salário mas dirigem um C3 0Km e têm uma renda mensal que ultrapassa os 3000 reais. E, por uma coincidência incrível, seus pais são clientes dos seus colegas de outro grupo de atendimento, que sentam a uns 4 metros pro lado.
Assistentes: basicamente fazem o trabalho dos executivos e gerentes de conta, mas ganham o mesmo que a babá dos mesmos.
Executivos: nesse ponto da carreira já são peritos nas disciplinas ninja de furtividade e das bombas de fumaça. O uso de outras pessoas como escudo humano e as zarabatanas com dardos envenenados já é prática comum.
Gerentes: a única diferença do gerente de conta para um executivo de conta é a espetacular coincidência de ele ser amigo pessoal do diretor de atendimento.
Diretor de conta: são como todo mestre ninja em filmes de ação dos anos 80. À primeira vista, são beberrões e bon vivants, mas no momento de perigo revelam-se grandes mestres do subterfúgio.
Diretor de atendimento: são o Kaiser Sose da propaganda. Alguns funcionários dizem que não passam de uma lenda. Outros dizem que são ninjas tão poderosos que ninguém os vê, ninguém os ouve, mas todos ficam sabendo de seus incríveis feitos.
Puta acéfala: São um tipo curioso de profissional de atendimento, pois são denominados como qualquer um dos cargos citados acima, porém possuem designações completamente diferentes. Suas atividades se resumem a sorrir, vestir decotes e roupas justas, abaixar para pegar coisas estrategicamente derrubadas em frente a clientes e permancer alcoolizadas em festinhas e happy hours que contam com a presença de clientes e membros da diretoria.
Mídia: o dia do mídia geralmente segue um padrão muito particular, independente do sujeito ser estagiário ou diretor de mídia. Eles chegam na agência 9:30, até as 10:45 olham os e-mails pessoais, os e-mails de sacanagem, as notícias, sites de fofoca, o horóscopo, o guia da tv a cabo e, por fim, os e-mails de trabalho. Aí é o momento aonde vão até a copa pegar um café e bater papo até umas 11:30.
Então começam a decidir aonde será o almoço, que só voltam depois das 14:30. Até as 15:30 é tempo mais do que suficiente para escovar os dentes, ir ao banheiro, conversar sobre como o almoço foi gostoso e olhar mais e-mails pessoais. Aí então é hora de pegar no batente. E dá-lhe números, tabelas e valores até as 17:00, quando param para aproveitar os doces, cestas, bolos, chocolates e diversos outros mimos que receberam dos veículos de mídia (canais de tv, revistas, empresas de mídia exterior, etc). Depois, até as 18:00, é hora de combinar com os amigos sobre o show do Eric Clapton, do qual ganharam de algum veículo vários convites para o camarote VIP. Como nessa hora os colegas de outros setores da agência ainda estão trabalhando, costumam ir acompanhados de outros mídias de outras agências.
Planejamento: esses indivíduos, que costumam se auto-intitular "planners", são de fato os verdadeiros gênios da propaganda. Não por suas realizações profissionais (que na verdade não são nada mais do que pura encheção de lingüiça), mas por terem convencido o mercado inteiro que, para realizar o seu trabalho fantasticamente genial, não podem ter sua brilhante mente perturbada por problemas mundanos como prazos e baixos salários. Ganham razoavelmente bem, chegam tarde, fazem 3 horas de almoço, vão embora cedo, entram em sites de qualquer besteira o dia inteiro com o argumento de estarem pesquisando as tendências do momento e, aos 40 minutos do segundo tempo, montam um power point recheado de expressões em inglês que não fazem muito sentido ( "out of the box", "apettite appeal", "brand development") e ensaiam uma apresentação para o cliente com explicações e defesas tão enroladas e absurdas que o mesmo, com vergonha de fazer papel de estúpido, classifica como genial e os aplaude de pé.
Estúdio, RTV, Produção Gráfica e Tráfego: o dia a dia dessas áreas da agência fariam o Jack Bauer sentar num canto e chorar. Ganham miseravelmente mal, trabalham em condições desumanas e lidam diariamente com todo o tipo de explosivos, animais venenosos, ataques terroristas e invasões de extraterrestres, geralmente encaminhados a eles pelo pessoal do atendimento. E, para piorar, enquanto tentam matar um tiranossauro com um canivete, ainda precisam aturar o pessoal da criação criticando a cor desbotada do cabo do canivete e insistindo na maneira conceitualmente correta de se desviar de uma abocanhada do gigantesco animal.
Presidência e Vice-presidência: autênticos deuses do Olimpo. Ficam lá em cima se divertindo às custas dos pobres mortais, inventando desastres naturais, guerras e maldições. Só descem ao mundo dos mortais para possuir as mais belas donzelas ou deixar seus nomes marcados nas grandes batalhas, nas quais não podem se ferir".
Fonte desconhecida, mas divertida
terça-feira, outubro 28, 2008
Pensando sobre o Vazio
Deitado na cama hoje de manhã, tentando criar coragem para mais um dia maçante de publicidade, ouvi a notícia de que o segundo andar da Bienal havia sido pixado na noite de domingo, dia da abertura. A minha primeira reação, como a de muita gente, foi de revolta, raiva mesmo. Mas por volta da hora em que eu entrava no banho, comecei a ser tomado de outros sentimentos. Quanto mais pensava no assunto, mais me parecia que a revolta frente a esse ato era uma demonstração de puritanismo. Eu, que defendia as ações de Eric Haris e Dylan Klebold como uma forma de expressão desesperada, me opor a este tipo de manifestação?
Deixemos claro algumas coisas.
Eu já mencionei por aqui que ainda tenho lá meus conservadorismos que dificultam que eu aceite o pixo como forma de arte. Já foi difícil aceitar o grafite, e este apenas quando passou para o âmbito das galerias (mesmo ciente de que isso o invalidava como street art). Eu não consideraria um pixador específico um artista, nem um grupo de pixadores um coletivo. Mas preciso admitir que as ações deste grupo enorme e organizado de pixadores estão perigando por áreas que chamam a atenção de interessados em arte. Não se trata mais de moleques deixando uns poucos rabiscos estilizados em lugares aparentemente impossíveis. Não se trata daquela atitude primitiva de marcar território. Eles estão questionando. E questionando com razão e ideologia. Questionam a apropriação da estética de rua por artistas que a usam para se promoverem como alternativos dentro de instituições d’O Sistema. Questionam a apropriação dos termos “espaço e patrimônio público” por instituições que, na primeira oportunidade, vetam, proíbem e negam.
É temerário e inconseqüente dizer isso, mas essa entidade que é esse grupo de pixadores está ganhando aos poucos o meu interesse assim como o Picasso fez na época da faculdade: o conceito geral é muito instigante, embora o visual do produto final seja horrendo.
Isto posto, vamos ao ocorrido.
No domingo, dia da abertura da Bienal, um grupo de 40 pixadores (o número é basicamente sempre o mesmo...) compareceu à Bienal, inicialmente para “avaliar o terreno”. Mais tarde, entraram com as latas de tinta e começaram a intervenção no segundo andar, que permanecia vazio por decisão dos curadores. Houve choque com os seguranças e os pixadores fugiram, deixando para trás apenas uma integrante do grupo, denominada Carol, de 23 anos, que foi levada ao 36º DP da rua Tutóia.
O segundo andar da Bienal foi uma proposta esquisita desde o começo. Do ponto de vista mais mercadológico, deixar um andar vazio diminuía o espaço ocupado por arte e o número de participações possíveis, a menos que todo mundo fizesse trabalhos bem pequenos (uma impossibilidade em tempos tão megalomaníacos...). Do ponto de vista crítico, como citado por um dos que comentaram a notícia no link acima, essa proposta só fazia mostrar o “esvaziamento da importância desse tipo de mostra”. Do ponto de vista teórico, o espaço vazio devia “provocar uma reflexão a respeito do espaço”.
Sobre este último, cada pessoa tem direito à sua própria reflexão. Há quem considere Balthus um pedófilo e quem veja valor em suas pinturas. Há quem entre no segundo andar da Bienal para pensar sobre arquitetura e quem entre para pensar sobre o conceito abstrato do vazio. Há quem receba esse estímulo de forma passiva, e quem resolva agir sobre ele (como no caso dos referidos pixadores...). Ou seja, cada um reage a essa proposta do seu jeito. Se a proposta era uma reflexão sobre o espaço, achei fantástico que alguém tentasse ocupá-lo, primeira idéia que vem à cabeça em épocas de superpopulação. E mais: depois de se ver tanta proposta de arte dita “interativa” por aí, acho um retrocesso condenar uma intervenção que agrega tanto à idéia inicial.
A reação dos curadores também é algo a ser comentado. Depois do alarde feito em torno da Choque Cultural e do precedente trabalho de graduação do Rafael Augustaitiz (Rafael Pixobomb), achei que a galera tivesse entendido que todo esse barulho na mídia só fortalece a rebeldia dessa turma. De certa forma, eles são como ereção fora de hora: quanto mais você mexer e pensar nesse inconveniente, pior fica.
Deixemos claro algumas coisas.
Eu já mencionei por aqui que ainda tenho lá meus conservadorismos que dificultam que eu aceite o pixo como forma de arte. Já foi difícil aceitar o grafite, e este apenas quando passou para o âmbito das galerias (mesmo ciente de que isso o invalidava como street art). Eu não consideraria um pixador específico um artista, nem um grupo de pixadores um coletivo. Mas preciso admitir que as ações deste grupo enorme e organizado de pixadores estão perigando por áreas que chamam a atenção de interessados em arte. Não se trata mais de moleques deixando uns poucos rabiscos estilizados em lugares aparentemente impossíveis. Não se trata daquela atitude primitiva de marcar território. Eles estão questionando. E questionando com razão e ideologia. Questionam a apropriação da estética de rua por artistas que a usam para se promoverem como alternativos dentro de instituições d’O Sistema. Questionam a apropriação dos termos “espaço e patrimônio público” por instituições que, na primeira oportunidade, vetam, proíbem e negam.
É temerário e inconseqüente dizer isso, mas essa entidade que é esse grupo de pixadores está ganhando aos poucos o meu interesse assim como o Picasso fez na época da faculdade: o conceito geral é muito instigante, embora o visual do produto final seja horrendo.
Isto posto, vamos ao ocorrido.
No domingo, dia da abertura da Bienal, um grupo de 40 pixadores (o número é basicamente sempre o mesmo...) compareceu à Bienal, inicialmente para “avaliar o terreno”. Mais tarde, entraram com as latas de tinta e começaram a intervenção no segundo andar, que permanecia vazio por decisão dos curadores. Houve choque com os seguranças e os pixadores fugiram, deixando para trás apenas uma integrante do grupo, denominada Carol, de 23 anos, que foi levada ao 36º DP da rua Tutóia.
O segundo andar da Bienal foi uma proposta esquisita desde o começo. Do ponto de vista mais mercadológico, deixar um andar vazio diminuía o espaço ocupado por arte e o número de participações possíveis, a menos que todo mundo fizesse trabalhos bem pequenos (uma impossibilidade em tempos tão megalomaníacos...). Do ponto de vista crítico, como citado por um dos que comentaram a notícia no link acima, essa proposta só fazia mostrar o “esvaziamento da importância desse tipo de mostra”. Do ponto de vista teórico, o espaço vazio devia “provocar uma reflexão a respeito do espaço”.
Sobre este último, cada pessoa tem direito à sua própria reflexão. Há quem considere Balthus um pedófilo e quem veja valor em suas pinturas. Há quem entre no segundo andar da Bienal para pensar sobre arquitetura e quem entre para pensar sobre o conceito abstrato do vazio. Há quem receba esse estímulo de forma passiva, e quem resolva agir sobre ele (como no caso dos referidos pixadores...). Ou seja, cada um reage a essa proposta do seu jeito. Se a proposta era uma reflexão sobre o espaço, achei fantástico que alguém tentasse ocupá-lo, primeira idéia que vem à cabeça em épocas de superpopulação. E mais: depois de se ver tanta proposta de arte dita “interativa” por aí, acho um retrocesso condenar uma intervenção que agrega tanto à idéia inicial.
A reação dos curadores também é algo a ser comentado. Depois do alarde feito em torno da Choque Cultural e do precedente trabalho de graduação do Rafael Augustaitiz (Rafael Pixobomb), achei que a galera tivesse entendido que todo esse barulho na mídia só fortalece a rebeldia dessa turma. De certa forma, eles são como ereção fora de hora: quanto mais você mexer e pensar nesse inconveniente, pior fica.
quinta-feira, outubro 23, 2008
Há alguns dias que a turma da publicidade vem discutindo a discussão (pleonasmo, eu sei...) que rolou entre os titãs do meio, Nizan Guanaes e Fábio Fernandes, no evento Maximídia. Achei ao menos relevante deixar por aqui uma opinião a respeito, já que pelo menos por enquanto continuo publicitário...
Entendo o lado do Nizan (o que não significa, conforme explico a seguir, que concorde com ele). Ele atualmente comanda um grupo de empresas de propaganda que cuida de clientes altamente influentes, com investimentos em publicidade da ordem de milhões. Perder um só desses clientes não é uma coisa leve. São empresas cujos gerentes normalmente são homens de negócios, pessoas de números, de fatos, pouco ou nada criativas e relativamente conservadoras. Pessoas que em tempos de crise tentarão agir de forma cautelosa e ainda menos criativa. O discurso dele não é para os ouvidos da platéia do Maximídia e sim para os ouvidos de possíveis clientes que estejam prestando alguma atenção. Ele quer parecer seguro.
Mais do que isso, seu discurso tem uma alarmante semelhança com a ideologia republicana norte-americana do controle pelo medo. Diga que a situação está ruim, mais ruim do que parece. Afirme e ameace que ela vai ficar pior. Logo em seguida, ofereça-se como o salvador, o porto seguro. Votem em mim e às favas com a opinião pública.
Nizan não liga para a opinião do Fábio. Não liga para a opinião das centenas de micro-agências de publicidade que estão hoje execrando seu nome e o de suas empresas. Não tem por que ligar. Ele liga para a opinião de seus investidores. E está agindo de acordo.
Eu entendo o lado dele, mas realmente não dá pra levar a sério tanta teatralidade.
Porém também piso em ovos ao dizer que concordo plenamente com o Fábio. Porque do lado dele, o discurso parece ter aquele som de "o amor (ou a criatividade, nesse caso) conquista tudo, move montanhas, vence obstáculos". Embora seja um discurso muito mais acreditável no meio publicitário, tem ares de inconsequência romântica, como um bom bordão publicitário que te diz "beba a minha marca de refrigerante e seja hype". Parece daquele tipo de coisa que somos ensinados a gostar, daquele tipo de valor que estamos anestesiados demais para questionar. Porque ele é rosa e bonitinho e confortável.
Acho estranho um profissional, dono de uma agência/empresa ($$) ir para um painel denominado "Indústria da Comunicação - Oportunidades e Riscos" e só falar esses tipos de "slogans da publicidade para publicitários" em vez de realmente falar de indústria, de oportunidades e riscos, de coisas palpáveis.
Ou seja, é difícil escolher lados em conversa de publicitário. Pessoalmente, não estou nem com um e nem com o outro.
Entendo o lado do Nizan (o que não significa, conforme explico a seguir, que concorde com ele). Ele atualmente comanda um grupo de empresas de propaganda que cuida de clientes altamente influentes, com investimentos em publicidade da ordem de milhões. Perder um só desses clientes não é uma coisa leve. São empresas cujos gerentes normalmente são homens de negócios, pessoas de números, de fatos, pouco ou nada criativas e relativamente conservadoras. Pessoas que em tempos de crise tentarão agir de forma cautelosa e ainda menos criativa. O discurso dele não é para os ouvidos da platéia do Maximídia e sim para os ouvidos de possíveis clientes que estejam prestando alguma atenção. Ele quer parecer seguro.
Mais do que isso, seu discurso tem uma alarmante semelhança com a ideologia republicana norte-americana do controle pelo medo. Diga que a situação está ruim, mais ruim do que parece. Afirme e ameace que ela vai ficar pior. Logo em seguida, ofereça-se como o salvador, o porto seguro. Votem em mim e às favas com a opinião pública.
Nizan não liga para a opinião do Fábio. Não liga para a opinião das centenas de micro-agências de publicidade que estão hoje execrando seu nome e o de suas empresas. Não tem por que ligar. Ele liga para a opinião de seus investidores. E está agindo de acordo.
Eu entendo o lado dele, mas realmente não dá pra levar a sério tanta teatralidade.
Porém também piso em ovos ao dizer que concordo plenamente com o Fábio. Porque do lado dele, o discurso parece ter aquele som de "o amor (ou a criatividade, nesse caso) conquista tudo, move montanhas, vence obstáculos". Embora seja um discurso muito mais acreditável no meio publicitário, tem ares de inconsequência romântica, como um bom bordão publicitário que te diz "beba a minha marca de refrigerante e seja hype". Parece daquele tipo de coisa que somos ensinados a gostar, daquele tipo de valor que estamos anestesiados demais para questionar. Porque ele é rosa e bonitinho e confortável.
Acho estranho um profissional, dono de uma agência/empresa ($$) ir para um painel denominado "Indústria da Comunicação - Oportunidades e Riscos" e só falar esses tipos de "slogans da publicidade para publicitários" em vez de realmente falar de indústria, de oportunidades e riscos, de coisas palpáveis.
Ou seja, é difícil escolher lados em conversa de publicitário. Pessoalmente, não estou nem com um e nem com o outro.
sábado, outubro 18, 2008
2000e8 ao vivo
A palestra mais recente do grupo 2000e8 aconteceu na sexta, na Escola São Paulo. Desta vez com Regina Parra e Bruno Dunley, moderada por Marcos Brias (outro membro do 2000e8) devido à ausênca de última hora do moderador oficial.
A dupla seguia a tendência dessas palestras de juntar dois integrantes do grupo com pesquisas visuais bem diferentes.
Dunley foi o primeiro a expor seus trabalhos [1][2], que de cara me lembraram a neutralidade de cores das naturezas-mortas do Giorgio Morandi, que ele logo citou como uma de suas referências. E me pareceu mais que coincidência ver entre a platéia o Paulo Pasta: havia um diálogo entre as pinturas de ambos, na materialização descompromissada de vastas áreas de cor aplicada em camadas grossas de tinta, pinceladas bem visíveis. Um tibuto à cor e uma fome por sua corporificação.
Mais adiante, Dunley apresentou séries que saíam do abstrato e adentravam a pintura figurativa, ilustrando paredes, pisos de azulejo e outras partes de interiores. Alguém (acredito que tenha sido Rodolpho Parigi) comentou que a procura de Dunley parecia girar em torno de ambientes caseiros. O comentário pareceu atingi-lo com o valor de uma revelação, de algo que ele de fato não tinha percebido, mas que era uma verdade incontestável.
Nas últimas séries mostradas, ele aplicava uma linha grossa de tinta pura, sem pincelada, diretamente acima da tela. O intuito era devolver a materialidade à pintura que, enveredando para a ilustração, tinha perdido um pouco da densidade dos abstratos. Me lembrou do meu retrato de Taís, onde eu tinha colado o pedaço de tela e pintado por cima para incluir um elemento que lhe desse uma relevância tridimensional, e não apenas plana. Esse elemento final de Dunley era como a assinatura, o fechamento, a "nota fiscal" da pintura acabada, como ele chegou a comentar.
Me identifiquei mais com os trabalhos de Regina Parra. Não tanto por serem pinturas figurativas [1][2], mas por um interesse em assuntos perversos que, em seu trabalho, tinham bastante a ver com identidade e identificação. Eu já tinha visto sua série chamada Devir, de retratos de crianças que cresceriam para se tornarem assassinos. Mas ela apresentou ontem sua série mais recente, de pinturas baseadas em imagens de câmeras de vigilância. Parecendo inicialmente banais, as pinturas ganhavam enorme poder e terror depois de alguns segundos, quando se percebia de onde vinham suas referências: aquele casal com a garotinha no carro de supemercado era a família Nardoni; aquele avião na pista era o fatídico vôo da TAM que saiu da pista de Congonhas; e a que mais levantou controvérsia na noite, de um frame de um interrogatório na prisão de Guantanamo. Todas imagens que teríam sido apagadas para dar lugar a outras de igual efemeridade, mas que são valorizadas ao serem materializadas em pintura. Mais do que isso, Parra coloca uma questão digna de nota: toda essa vigilância parece irrelevante ao percebermos que ela não previne os atos horrendos que acontecem a seguir. Um olhar inútil, obsoleto, ineficaz.
Parra faz uma escolha hábil com os títulos de sua pinturas, evitando a obviedade de chamar a pintura do casal de "Nardoni" ou a do interrogatório de "Guantánamo". Ela quer sim chamar atenção para o poder destas imagens, mas sem cair no ato kitsch de fazer um julgamento socio-político, de fazer mais barulho em cima de assuntos que já foram suficientemente alardeados.
Devo ainda comentar aqui que, ao escolher as imagens de baixa resolução das câmeras de vigilância como referência, Parra lembra bastante das pinturas de mortos do Gerhard Richter[1]. Não apenas pela escolha do assunto mórbido, mas pela qualidade de imagem desfocada e de cores lavadas que as câmeras antigas e de arquivos policiais tinham. Um visual que, mesmo na pintura, lembra um monitor de TV e transforma o que seria uma ineficiência (de resolução) em uma qualidade estética. Processo parecido ao que Richter fazia quando pintou o oficial alemão ou seu famoso nu descendo as escadas.
A dupla seguia a tendência dessas palestras de juntar dois integrantes do grupo com pesquisas visuais bem diferentes.
Dunley foi o primeiro a expor seus trabalhos [1][2], que de cara me lembraram a neutralidade de cores das naturezas-mortas do Giorgio Morandi, que ele logo citou como uma de suas referências. E me pareceu mais que coincidência ver entre a platéia o Paulo Pasta: havia um diálogo entre as pinturas de ambos, na materialização descompromissada de vastas áreas de cor aplicada em camadas grossas de tinta, pinceladas bem visíveis. Um tibuto à cor e uma fome por sua corporificação.
Mais adiante, Dunley apresentou séries que saíam do abstrato e adentravam a pintura figurativa, ilustrando paredes, pisos de azulejo e outras partes de interiores. Alguém (acredito que tenha sido Rodolpho Parigi) comentou que a procura de Dunley parecia girar em torno de ambientes caseiros. O comentário pareceu atingi-lo com o valor de uma revelação, de algo que ele de fato não tinha percebido, mas que era uma verdade incontestável.
Nas últimas séries mostradas, ele aplicava uma linha grossa de tinta pura, sem pincelada, diretamente acima da tela. O intuito era devolver a materialidade à pintura que, enveredando para a ilustração, tinha perdido um pouco da densidade dos abstratos. Me lembrou do meu retrato de Taís, onde eu tinha colado o pedaço de tela e pintado por cima para incluir um elemento que lhe desse uma relevância tridimensional, e não apenas plana. Esse elemento final de Dunley era como a assinatura, o fechamento, a "nota fiscal" da pintura acabada, como ele chegou a comentar.
Me identifiquei mais com os trabalhos de Regina Parra. Não tanto por serem pinturas figurativas [1][2], mas por um interesse em assuntos perversos que, em seu trabalho, tinham bastante a ver com identidade e identificação. Eu já tinha visto sua série chamada Devir, de retratos de crianças que cresceriam para se tornarem assassinos. Mas ela apresentou ontem sua série mais recente, de pinturas baseadas em imagens de câmeras de vigilância. Parecendo inicialmente banais, as pinturas ganhavam enorme poder e terror depois de alguns segundos, quando se percebia de onde vinham suas referências: aquele casal com a garotinha no carro de supemercado era a família Nardoni; aquele avião na pista era o fatídico vôo da TAM que saiu da pista de Congonhas; e a que mais levantou controvérsia na noite, de um frame de um interrogatório na prisão de Guantanamo. Todas imagens que teríam sido apagadas para dar lugar a outras de igual efemeridade, mas que são valorizadas ao serem materializadas em pintura. Mais do que isso, Parra coloca uma questão digna de nota: toda essa vigilância parece irrelevante ao percebermos que ela não previne os atos horrendos que acontecem a seguir. Um olhar inútil, obsoleto, ineficaz.
Parra faz uma escolha hábil com os títulos de sua pinturas, evitando a obviedade de chamar a pintura do casal de "Nardoni" ou a do interrogatório de "Guantánamo". Ela quer sim chamar atenção para o poder destas imagens, mas sem cair no ato kitsch de fazer um julgamento socio-político, de fazer mais barulho em cima de assuntos que já foram suficientemente alardeados.
Devo ainda comentar aqui que, ao escolher as imagens de baixa resolução das câmeras de vigilância como referência, Parra lembra bastante das pinturas de mortos do Gerhard Richter[1]. Não apenas pela escolha do assunto mórbido, mas pela qualidade de imagem desfocada e de cores lavadas que as câmeras antigas e de arquivos policiais tinham. Um visual que, mesmo na pintura, lembra um monitor de TV e transforma o que seria uma ineficiência (de resolução) em uma qualidade estética. Processo parecido ao que Richter fazia quando pintou o oficial alemão ou seu famoso nu descendo as escadas.
quinta-feira, outubro 16, 2008
Adendos à lista de webcomics
Incluí três webcomics na minha lista crescente neste blog.
Não lembro muito bem como foi que de de cara com o Abominable Charles Christopher de Karl Kerschl. Com uma versão traduzida para o português, a tirinha conta a história de um pé-grande vivendo em uma floresta prestes a ser desmatada pelo Homem. O personagem principal em si é mudo, de uma doçura e ingenuidade comoventes. No entanto os animais falam. E muito. Acho que o que de fato me conquistou foi a tirinha dos gambás publicitários, mas aconselho a começar do começo.
Através do Abominável, descobri a delícia estética que é Kukuburi, de Ramón Perez. Infelizmente não há tradução disponível, mas vale pelos gráficos e pelo modo como ele conta a história, que gira em torno de uma garota que acidentalmente atravessa um portal para um outro mundo muito louco, onde tem início uma disputa entre o bem e o mal por esta visitante que parece ter poderes importantíssimos nesse novo mundo.
Finalmente, através de um link no VG Cats, cheguei em MS Paint Adventures. O nome sugere que a tirinha é criada inteiramente no MS Paint, programa antiquíssimo de imagem da Microsoft. Mas o próprio autor (simplesmente chamado de Andrew) confessa que, embora esse tenha sido o intuito, ele preferiu mudar para o Photoshop porque, bom, "Paint blows" (Paint é um saco). Mas manteve o visual sem anti-aliasing e bem tosco. A história desse webcomic simula os antigos RPGs de computador, com a cena acontecendo na tela e uma linha de texto onde era possível digitar o comando para o personagem. Começa com o "jogador" na pele de um detetive cheio de auto-confiança e sem noção do ridículo, que precisa apenas sair de sua sala (alguém aí jogou Crimson Room, Viridian Room ou White Chamber, da FASCO-CS?). A cada atualização, o autor recolhe as sugestões dos visitantes para a próxima ação do personagem. Os resultados são imprevisíveis e completamente hilários.
MS Paint chama a atenção pelos detalhes que só quem jogou esses jogos (e outros) lembra. A arma logo na primeira cena que, devido a um "bug" do sistema, às vezes reveza seu lugar com uma chave; as janelas falsas que dão para outras dimensões; os menus cheios de ítens sem sentido a serem coletados ao longo da aventura; os poderes de ataque dos personagens, que ficam cada vez mais complexos à medida que eles avançam de nível. O autor usa dessas coisas para criar um universo de regras muito próprias. Por exemplo, em determinado momento do começo, alguém sugeriu que o personagem pegasse as coisas de sua sala e montasse um forte. Sob o efeito do alcool, o personagem entrou na edificação e foi transportado para uma realidade alternativa, um sonho coletivo com outros personagens. A ação foi repetida inúmeras vezes para resolver os mais diversos problemas.
Em alguns momentos, principalmente depois de tanto tempo avançando, as várias pontas soltas dessa história non-sense transformam tudo em um novelo muito complexo e incompreensível. Mas o humor prevalece e o autor resolve esses impasses com muita criatividade e referências de games.
Não lembro muito bem como foi que de de cara com o Abominable Charles Christopher de Karl Kerschl. Com uma versão traduzida para o português, a tirinha conta a história de um pé-grande vivendo em uma floresta prestes a ser desmatada pelo Homem. O personagem principal em si é mudo, de uma doçura e ingenuidade comoventes. No entanto os animais falam. E muito. Acho que o que de fato me conquistou foi a tirinha dos gambás publicitários, mas aconselho a começar do começo.
Através do Abominável, descobri a delícia estética que é Kukuburi, de Ramón Perez. Infelizmente não há tradução disponível, mas vale pelos gráficos e pelo modo como ele conta a história, que gira em torno de uma garota que acidentalmente atravessa um portal para um outro mundo muito louco, onde tem início uma disputa entre o bem e o mal por esta visitante que parece ter poderes importantíssimos nesse novo mundo.
Finalmente, através de um link no VG Cats, cheguei em MS Paint Adventures. O nome sugere que a tirinha é criada inteiramente no MS Paint, programa antiquíssimo de imagem da Microsoft. Mas o próprio autor (simplesmente chamado de Andrew) confessa que, embora esse tenha sido o intuito, ele preferiu mudar para o Photoshop porque, bom, "Paint blows" (Paint é um saco). Mas manteve o visual sem anti-aliasing e bem tosco. A história desse webcomic simula os antigos RPGs de computador, com a cena acontecendo na tela e uma linha de texto onde era possível digitar o comando para o personagem. Começa com o "jogador" na pele de um detetive cheio de auto-confiança e sem noção do ridículo, que precisa apenas sair de sua sala (alguém aí jogou Crimson Room, Viridian Room ou White Chamber, da FASCO-CS?). A cada atualização, o autor recolhe as sugestões dos visitantes para a próxima ação do personagem. Os resultados são imprevisíveis e completamente hilários.
MS Paint chama a atenção pelos detalhes que só quem jogou esses jogos (e outros) lembra. A arma logo na primeira cena que, devido a um "bug" do sistema, às vezes reveza seu lugar com uma chave; as janelas falsas que dão para outras dimensões; os menus cheios de ítens sem sentido a serem coletados ao longo da aventura; os poderes de ataque dos personagens, que ficam cada vez mais complexos à medida que eles avançam de nível. O autor usa dessas coisas para criar um universo de regras muito próprias. Por exemplo, em determinado momento do começo, alguém sugeriu que o personagem pegasse as coisas de sua sala e montasse um forte. Sob o efeito do alcool, o personagem entrou na edificação e foi transportado para uma realidade alternativa, um sonho coletivo com outros personagens. A ação foi repetida inúmeras vezes para resolver os mais diversos problemas.
Em alguns momentos, principalmente depois de tanto tempo avançando, as várias pontas soltas dessa história non-sense transformam tudo em um novelo muito complexo e incompreensível. Mas o humor prevalece e o autor resolve esses impasses com muita criatividade e referências de games.
segunda-feira, outubro 06, 2008
I had read it before somewhere...
Trechos do livro Galapagos de Kurt Vonnegut. Para você, que como eu, não entende chongas de economia e ainda tem a pretensão de entender a crise econômica atual.
"México e Chile e Brazil e Argentina estavam igualmente falidos - e a Indonésia e as Filipinas e o Paquistão e a Índia e a Tailândia e a Itália e a Irlanda e a Bélgica e a Turquia. Nações inteiras estavam repentinamente na mesma situação que o San Mateo, incapazes de comprar com seu dinheiro de papel e moedas, ou suas promessas de pagar mais tarde, mesmo as coisas mais essenciais. Pessoas com qualquer mantimento para vender, compatriotas e estrangeiros, estavam se recusando a trocar seus bens por dinheiro. Eles estava de repente dizendo para pessoas com nada além de representações de riqueza em papel, "Acordem, seus idiotas! O que fez vocês pensarem que papel era tão valioso?
Ainda havia bastante comida e combustível e tal para todos os humanos no planetas, mesmo sendo tão numerosos, mas milhões e milhões deles estava começando a morrer de fome. Os mais saudáveis deles poderiam durar sem comida apenas por volta de quarenta dias, e então a morte chegaria.
E essa fome era tão puramente o produto de cérebros enormes quanto era a Nona Sinfonia de Beethoven.
Estava tudo na cabeça das pessoas. Elas tinham simplesmente mudado sua opinião sobre a riqueza de papel[...]."
Eu sei, a crise é mais complexa do que isso. Mas a visão simplista aplicada à história de Vonnegut realmente faz pensar. No fim das contas estamoss todos aqui discutindo que papel vale mais do que os outros, quando tudo não passa realmente de papel.
"México e Chile e Brazil e Argentina estavam igualmente falidos - e a Indonésia e as Filipinas e o Paquistão e a Índia e a Tailândia e a Itália e a Irlanda e a Bélgica e a Turquia. Nações inteiras estavam repentinamente na mesma situação que o San Mateo, incapazes de comprar com seu dinheiro de papel e moedas, ou suas promessas de pagar mais tarde, mesmo as coisas mais essenciais. Pessoas com qualquer mantimento para vender, compatriotas e estrangeiros, estavam se recusando a trocar seus bens por dinheiro. Eles estava de repente dizendo para pessoas com nada além de representações de riqueza em papel, "Acordem, seus idiotas! O que fez vocês pensarem que papel era tão valioso?
Ainda havia bastante comida e combustível e tal para todos os humanos no planetas, mesmo sendo tão numerosos, mas milhões e milhões deles estava começando a morrer de fome. Os mais saudáveis deles poderiam durar sem comida apenas por volta de quarenta dias, e então a morte chegaria.
E essa fome era tão puramente o produto de cérebros enormes quanto era a Nona Sinfonia de Beethoven.
Estava tudo na cabeça das pessoas. Elas tinham simplesmente mudado sua opinião sobre a riqueza de papel[...]."
Eu sei, a crise é mais complexa do que isso. Mas a visão simplista aplicada à história de Vonnegut realmente faz pensar. No fim das contas estamoss todos aqui discutindo que papel vale mais do que os outros, quando tudo não passa realmente de papel.
quinta-feira, setembro 25, 2008
Juan Francisco Casas
Um dos exercícios que Lexy fez em aula recentemente resultou em uma idéia de fazer uma ação na internet para patrocinar um artista e com isso beneficiar tanto o artista quanto a marca do produto que ele usa. O artista que eles encontraram era uma referência antiga, o espanhol Juan Francisco Casas.
Não lembro ao certo quem foi que me passou a referência pela primeira vez, mas logo de cara me pareceu aquele tipo de idéia que me fez exclamar injuriado "por que que eu não fiz isso antes!?". Ele faz retratos colossalmente grandes a partir de fotos de conhecidos. Dessas fotos que tiramos com as atuais e abundantes máquinas digitais e seus flashes frontais e estourados. As fotos em si nos levam a concluir que Casas é um fotógrafo desleixado, mas ele compensa de forma primorosa pela escolha das expressões cotidianas e debochadas de seus amigos e pela técnica apuradíssima. Tenho que admitir que, se eu de fato tivesse feito isso antes, minhas obras teriam menos gosto do que as dele.
Mas o motivo da minha exclamação injuriada não é só esse.
Ele faz tudo com canetas esferográgicas.
Isso mesmo, canetas BIC, dessas que você compra e alguém pede emprestado e não devolve. Dessas que somem dos balcões das lojas se não estiverem amarradas com barbante. Mencionar isso já faz você, leitor, pensar em desenhos lineares dos contornos dos rostos. Mas vai lá, deixa de preguiça e clica no link do site dele. Sim, é mais do que isso. São verdadeiras pinturas, com volume, sombreado e tudo em uma absurda variedade de tons monocromáticos.
Lembro de ter feito uma anotação em um dos meus cadernos, junto a um desenho do retrato de Lilian que eu estava fazendo na época, sobre como era possível fazer diferentes tons com uma caneta BIC, bastando apenas um controle mais minucioso da pressão que a mão fazia sobre o papel e na proximidade entre as linhas.
A brincadeira de Casas me lembrou ainda de uma aula de história da arte. Claro que, como é típico dessas lembranças, eu não lembro de que período da arte essa aula falava, mas contava de como os franceses daquela época dividiam artistas entre desenhistas e coloristas, sendo que estes valorizavam a precisão na cor em detrimento do desenho e aqueles faziam o contrário. Ingres, por exemplo, era um colorista, e embora sua famosa banhista turca tenha cores e efeitos de luz bem realistas, continua tendo uma estranheza no modo como sua perna direita parece atravessar a cama e ter o joelho perdido em um limbo difícil de entender.
De fato, cada abordagem tem um raciocínio diferente, um modo diferente de compreender como é formada aquela imagem, que vai influenciar na produção de uma ilustração. Todo ilustrador parece ter uma queda para um dos lados, embora tente fazer um pouco dos dois. Eu mesmo tenho uma tendência a ser colorista e a tratar imagens como áreas de cor em vez de compreendê-las como formas lineares. Mas continuo desenhando nas telas antes de começar a pintar.
O divertido sobre o trabalho de Casas é que ele claramente segue um raciocínio colorista, tratando imagens também como áreas tonais mais escuras ou mais claras sem desenhar tantas linhas, mas usa o instrumento de um desenhista e apenas uma cor, o azul BIC.
Fiquei com vontade de fazer um exercício desses...
Não lembro ao certo quem foi que me passou a referência pela primeira vez, mas logo de cara me pareceu aquele tipo de idéia que me fez exclamar injuriado "por que que eu não fiz isso antes!?". Ele faz retratos colossalmente grandes a partir de fotos de conhecidos. Dessas fotos que tiramos com as atuais e abundantes máquinas digitais e seus flashes frontais e estourados. As fotos em si nos levam a concluir que Casas é um fotógrafo desleixado, mas ele compensa de forma primorosa pela escolha das expressões cotidianas e debochadas de seus amigos e pela técnica apuradíssima. Tenho que admitir que, se eu de fato tivesse feito isso antes, minhas obras teriam menos gosto do que as dele.
Mas o motivo da minha exclamação injuriada não é só esse.
Ele faz tudo com canetas esferográgicas.
Isso mesmo, canetas BIC, dessas que você compra e alguém pede emprestado e não devolve. Dessas que somem dos balcões das lojas se não estiverem amarradas com barbante. Mencionar isso já faz você, leitor, pensar em desenhos lineares dos contornos dos rostos. Mas vai lá, deixa de preguiça e clica no link do site dele. Sim, é mais do que isso. São verdadeiras pinturas, com volume, sombreado e tudo em uma absurda variedade de tons monocromáticos.
Lembro de ter feito uma anotação em um dos meus cadernos, junto a um desenho do retrato de Lilian que eu estava fazendo na época, sobre como era possível fazer diferentes tons com uma caneta BIC, bastando apenas um controle mais minucioso da pressão que a mão fazia sobre o papel e na proximidade entre as linhas.
A brincadeira de Casas me lembrou ainda de uma aula de história da arte. Claro que, como é típico dessas lembranças, eu não lembro de que período da arte essa aula falava, mas contava de como os franceses daquela época dividiam artistas entre desenhistas e coloristas, sendo que estes valorizavam a precisão na cor em detrimento do desenho e aqueles faziam o contrário. Ingres, por exemplo, era um colorista, e embora sua famosa banhista turca tenha cores e efeitos de luz bem realistas, continua tendo uma estranheza no modo como sua perna direita parece atravessar a cama e ter o joelho perdido em um limbo difícil de entender.
De fato, cada abordagem tem um raciocínio diferente, um modo diferente de compreender como é formada aquela imagem, que vai influenciar na produção de uma ilustração. Todo ilustrador parece ter uma queda para um dos lados, embora tente fazer um pouco dos dois. Eu mesmo tenho uma tendência a ser colorista e a tratar imagens como áreas de cor em vez de compreendê-las como formas lineares. Mas continuo desenhando nas telas antes de começar a pintar.
O divertido sobre o trabalho de Casas é que ele claramente segue um raciocínio colorista, tratando imagens também como áreas tonais mais escuras ou mais claras sem desenhar tantas linhas, mas usa o instrumento de um desenhista e apenas uma cor, o azul BIC.
Fiquei com vontade de fazer um exercício desses...
terça-feira, setembro 23, 2008
Tenho curtido bastante as sequências recentes do Sin Fest. Uma das jóias dos meus links de webcomics, a tirinha virtual é atualizada todos os dias, com páginas maiores e coloridas aos domingos. A frequência de atualização não tira a qualidade de cada tirinha, quem tem personagens muito expressivos e um roteiro hilário, recheado de humor negro e tiração de sarro.
Um dos pontos fortes do roteiro sempre foi sua atitude anti-maniqueísta, onde asseclas de Deus e do diabo travam batalha sem deixar claro quem tem vantagem sobre quem. Tudo isso enquanto um sereno e mudo Buda se nega a tomar qualquer partido na briga e se retira para ouvir seu iPod.
Mas ultimamente o criador da tirinha, o desenhista Tatsuya Ishida tirou lincença da atitude em-cima-do-muro para fazer sátiras políticas dos EUA. Começou timidamente com um dos personagens resolvendo se candidatar para presidente depois de saber dos escândalos sexuais envolvendo candidatos. Sua procura por mulheres para o cargo de vice-presidente chamou a atenção de outro personagem, um porquinho travestido de mulher vendo nisso sua chance de entrar para a política. Este, por sua vez, acabou sendo uma mistura entre Britney Spears e a escandalosamente idiotica candidata a vice do McCain, Sarah Pallin. Pra completar a pornochanchada, Ishida ainda fez uma mistura de Barack Obama com Lenny Kravitz (atenção para a referência ao vídeo do fã enlouquecido da Britney no último quadrinho) e uma curta participação de um McCain desafinado e tão ridículo e insípido quanto o verdadeiro.
As últimas tirinhas que vi tinham deixado esse assunto um pouco de lado. Concentram-se atualmente na derrocada do sistema econômico americano, completo com referências ao estouro das "bolhas" econômicas e a queda da bolsa de NY. O Tio Sam emo é a cereja do bolo nessa crônica do declínio do império americano.
Um dos pontos fortes do roteiro sempre foi sua atitude anti-maniqueísta, onde asseclas de Deus e do diabo travam batalha sem deixar claro quem tem vantagem sobre quem. Tudo isso enquanto um sereno e mudo Buda se nega a tomar qualquer partido na briga e se retira para ouvir seu iPod.
Mas ultimamente o criador da tirinha, o desenhista Tatsuya Ishida tirou lincença da atitude em-cima-do-muro para fazer sátiras políticas dos EUA. Começou timidamente com um dos personagens resolvendo se candidatar para presidente depois de saber dos escândalos sexuais envolvendo candidatos. Sua procura por mulheres para o cargo de vice-presidente chamou a atenção de outro personagem, um porquinho travestido de mulher vendo nisso sua chance de entrar para a política. Este, por sua vez, acabou sendo uma mistura entre Britney Spears e a escandalosamente idiotica candidata a vice do McCain, Sarah Pallin. Pra completar a pornochanchada, Ishida ainda fez uma mistura de Barack Obama com Lenny Kravitz (atenção para a referência ao vídeo do fã enlouquecido da Britney no último quadrinho) e uma curta participação de um McCain desafinado e tão ridículo e insípido quanto o verdadeiro.
As últimas tirinhas que vi tinham deixado esse assunto um pouco de lado. Concentram-se atualmente na derrocada do sistema econômico americano, completo com referências ao estouro das "bolhas" econômicas e a queda da bolsa de NY. O Tio Sam emo é a cereja do bolo nessa crônica do declínio do império americano.
Tempo
E de repente, dois anos se passaram desde que voltei de viagem.
O mais desesperador de tudo é que não os senti passarem. Um contraste amargo quando comparado aos seis meses daquela viagem que ainda não me saem da cabeça, e que pareceram por si só terem durado dois anos inteiros, um em cada país onde fiquei.
Foi pensando nisso e em tudo que meu irmão relatou de sua própria viagem que comecei a pensar sobre como a minha percepção de tempo está intimamente ligada à memória de eventos peculiares. Semanas de pura labuta, onde cada dia não se distingue do outro, não oferecem qualquer referência que as marque na memória. O tempo entre o hoje e a última vez que algo memorável aconteceu se estica em uma massa homogênea e imensurável a não ser pelos artifícios socias: os nomes dos dias, os números nos calendários, a movimentação bancária. Mas tudo isso são de fato apenas artifícios. A impressão que tenho é que o tempo não passou.
Será assim para todo mundo? Os anos ineventuais parecem passar depressa e os sabáticos parecem equivaler a três ou quatro?
O ano passado ao menos durou um pouco mais do que este. A banda pontilhou meus meses de noites especiais onde eu vivia aquele sonho de infância de estar sob o palco e reger uma pequena multidão. Mas este... Chegamos quase ao décimo mês e nada aconteceu. Faz-me sentir um desperdício de tempo, uma velhice prematura. Velhice esta que está até no modo como escrevo hoje, cheio de floreios barrocos e rugas.
Minha vida demanda uma mudança de vida. E planos já estão sendo feitos para que o ano que vem seja novamente duradouro.
O mais desesperador de tudo é que não os senti passarem. Um contraste amargo quando comparado aos seis meses daquela viagem que ainda não me saem da cabeça, e que pareceram por si só terem durado dois anos inteiros, um em cada país onde fiquei.
Foi pensando nisso e em tudo que meu irmão relatou de sua própria viagem que comecei a pensar sobre como a minha percepção de tempo está intimamente ligada à memória de eventos peculiares. Semanas de pura labuta, onde cada dia não se distingue do outro, não oferecem qualquer referência que as marque na memória. O tempo entre o hoje e a última vez que algo memorável aconteceu se estica em uma massa homogênea e imensurável a não ser pelos artifícios socias: os nomes dos dias, os números nos calendários, a movimentação bancária. Mas tudo isso são de fato apenas artifícios. A impressão que tenho é que o tempo não passou.
Será assim para todo mundo? Os anos ineventuais parecem passar depressa e os sabáticos parecem equivaler a três ou quatro?
O ano passado ao menos durou um pouco mais do que este. A banda pontilhou meus meses de noites especiais onde eu vivia aquele sonho de infância de estar sob o palco e reger uma pequena multidão. Mas este... Chegamos quase ao décimo mês e nada aconteceu. Faz-me sentir um desperdício de tempo, uma velhice prematura. Velhice esta que está até no modo como escrevo hoje, cheio de floreios barrocos e rugas.
Minha vida demanda uma mudança de vida. E planos já estão sendo feitos para que o ano que vem seja novamente duradouro.
domingo, setembro 21, 2008
Burning Man
Como todos os anos, o festival do Burning Man aconteceu na última semana de Agosto, tendo seu último dia no "Labor Day" americano. Este ano, reuniu 50 mil pessoas na cidade de Black Rock, Nevada, nos EUA. O festival reúne gente do mundo todo durante uma semana, para uma experiência única. O foco principal do evento está na expressão, nas mais variadas formas de arte. Claro que, estando no deserto, a ocupação de espaço tem um papel fundamental na diferença entre ser visto ou completamente ignorado. Por isso, obras tridimensionais gigantescas têm vantagem sobre a pintura ou outras formas de arte mais singelas. Os participantes usam os elementos ( o calor, o vento, a areia) na criação de obras flamejantes, trabalhos que se movem, coisas altivas que enfrentam o deserto.
Mas o festival não é só isso. Muita gente deixa a participação com obras físicas para experimentar com obras interativas ou experimentos sociais. Há uma outra característica fortíssima do Burning Man que é a questão social. De acordo com o site do evento, não há regras comportamentais (exceto aquelas que preservam a saúde e segurança da comunidade). Ou seja, você não é mais o outsider, o esquisito: tem sempre alguém fazendo algo mais inusitado. Dinheiro não tem valor no evento. Tudo é feito na base da troca e da bondade entre as pessoas. Você está lá para ter uma experiência fantástica e ajudar os outros a terem o mesmo. Você está lá não só para sobreviver ao deserto, mas para fazer dessa sobrevivência uma epifania artística.
Claro que nem tudo são flores. Ao que dizem os veteranos, o sol é inclemente durante o dia, e a noite é gélida. Característica do deserto. Não há lojas de comida no lugar e cada participante deve trazer seus mantimentos (água e comida) para toda a duração do evento. Chovem recomendações de protetor solar. Mas até mesmo a dificuldade deve ser encarada como um desafio esclarecedor. Quanto você precisa para passar uma semana no deserto?
A noite de sábado é reservada para o acontecimento que dá o nome ao evento: uma gigantesca construção em forma humana é queimada durante a noite em um ritual que encerra a edição daquele ano. Pelo que eu entendi, no fogo são queimados, entre outras coisas, o lixo e restos. Tudo para manter o ideal de não deixar nada no deserto. Claro que, após a fatídica semana, grupos de voluntários permaneccem no local para ajudar a retorná-lo à sua forma anterior. O evento não deixa vestígios a não ser a profunda transformação nos visitantes.
Depois de dois anos do mais absoluto marasmo que aconteceram após minha viagem à Europa, estou dando tratos à bola de participar do evento no ano que vem. Tenho um ano inteiro para ir atrás de informação, material e burocracia. Quem se candidata e ir comigo?
Mas o festival não é só isso. Muita gente deixa a participação com obras físicas para experimentar com obras interativas ou experimentos sociais. Há uma outra característica fortíssima do Burning Man que é a questão social. De acordo com o site do evento, não há regras comportamentais (exceto aquelas que preservam a saúde e segurança da comunidade). Ou seja, você não é mais o outsider, o esquisito: tem sempre alguém fazendo algo mais inusitado. Dinheiro não tem valor no evento. Tudo é feito na base da troca e da bondade entre as pessoas. Você está lá para ter uma experiência fantástica e ajudar os outros a terem o mesmo. Você está lá não só para sobreviver ao deserto, mas para fazer dessa sobrevivência uma epifania artística.
Claro que nem tudo são flores. Ao que dizem os veteranos, o sol é inclemente durante o dia, e a noite é gélida. Característica do deserto. Não há lojas de comida no lugar e cada participante deve trazer seus mantimentos (água e comida) para toda a duração do evento. Chovem recomendações de protetor solar. Mas até mesmo a dificuldade deve ser encarada como um desafio esclarecedor. Quanto você precisa para passar uma semana no deserto?
A noite de sábado é reservada para o acontecimento que dá o nome ao evento: uma gigantesca construção em forma humana é queimada durante a noite em um ritual que encerra a edição daquele ano. Pelo que eu entendi, no fogo são queimados, entre outras coisas, o lixo e restos. Tudo para manter o ideal de não deixar nada no deserto. Claro que, após a fatídica semana, grupos de voluntários permaneccem no local para ajudar a retorná-lo à sua forma anterior. O evento não deixa vestígios a não ser a profunda transformação nos visitantes.
Depois de dois anos do mais absoluto marasmo que aconteceram após minha viagem à Europa, estou dando tratos à bola de participar do evento no ano que vem. Tenho um ano inteiro para ir atrás de informação, material e burocracia. Quem se candidata e ir comigo?
segunda-feira, setembro 15, 2008
2000e8 ao vivo
Na sexta passada, compareci novamente às palestras do grupo 2000e8. Desta vez, a conversa foi com os pintores Rodolpho Parigi e Rodrigo Bivar
A conversa teve início com um ponto muito interessante de se ouvir, com ambos explicando como a atenção atraída pela matéria de jornal há alguns meses atrás rendeu muita coisa, contatos, propostas, etc. Bivar tomou a palavra para questionar o modo como o grupo estava sendo alardeado como uma espécie de renascimento da pintura que, na opinião dele, sequer havia morrido. Comentou que para gerações anteriores de artistas, a pintura era uma questão complicada: por que pintar em uma era onde a captação e reprodução de imagens já era avançadíssima e o abstrato já tinha sido explorado à exaustão? Mas para o grupo 2000e8 (e, até certo grau, para os demais pintores atuais), essa questão estava superada (ignorada?): pintamos por gosto. O gosto pelo metier da pintura, seu processo de produção. A conversa seguiu então para um ponto que Parigi concordou, de que a arte atual havia alcançado uma situação onde, mais do que a qualidade do trabalho em si, havia uma importância exacerbada sobre as questões periféricas à arte: o mise en cene em torno do artista, da mídia, da moda, de vocativos e manchetes de jornal do tipo da "geração tinta fresca" que anunciava a matéria sobre o grupo. Ou seja, a relação com a arte, principalmente nos grandes centros, era indireta, mediada. As pessoas viam as obras pelas fotos do jornal, pelos sites, não pessoalmente.
Preciso concordar veementemente. A sensação de maravilhamento que tive diante do Eine Kleine Nachtmusik da Dorothea Tanning na Tate em Londres, por exemplo. Vê-la em livros já havia sido uma experiência poderosa, mas estar diante da obra em si, da precisão de minúcia das pinceladas, é outra coisa. E perdemos isso cada vez mais, pela possibilidade de procurar no Google e ter acesso a qualquer imagem.
Isto posto, o resto foi a apresentação dos trabalhos.
Parigi começou, apresentando seus abstratos. Seu jeito cômico, debochado e sexual aparecia nas pinturas [1][2], que misturavam cores extravagantes a efeitos de luz e formas que lembravam coisas úmidas, líquidas, orgânicas. Mas ele tinha ainda outro trabalho: abstratos gigantescos que tomavam conta de fachadas de prédios como o da Galeria Vermelho ou o interior da Nara Roesler. Ele explicava o uso exclusivo de preto para os desenhos devido à rapidez que ele precisava para executá-los. A mente trabalhava mais rápido do que as mãos, dizia ele, e a cor seria mais um dado que consumiria tempo demais para incorporar na produção. Mas havia outra coisa nisso: perguntei a ele se ele acreditava que seu trabalho em fachadas tinha algo a ver com o grafite ou pixação, aproveitando para citar o caso da Choque Cultural. E ele admitiu que tinha sua queda pela pixação. Mais do que pelo grafite, que ele considerava ingênuo. Obviamente, Parigi seria o típico alvo do protesto na Choque Cultural: o artista plástico que se apropria da linguagem do grafite/pixo sem nunca ter sentido a adrenalina transgressora de pixar sem autorização. Deve-se no entanto prestar atenção ao fato de que ele não se intitula pixador. Diz-se artista plástico, com muita propriedade. Apenas se interessa pela estética, a expressividade, e pelo conceito transgressor. De qualquer forma, deixou escapar que tem seus planos de consumar todo o ato da pixação. Proibições e tudo.
Me identifiquei, como pintor, com os trabalhos de Bivar. Apesar dele ousar menos com as cores, também pinta a partir de fotos de conhecidos. Sua procura, assim como com a Renata de Bonis na palestra anterior, é pela homogeneização. Ela procurava o menor contraste entre as cores. Ele, a menor diferença hierarquica entre os elementos da pintura. Por isso, dizia pintar um detalhe como um braço ou um rosto com o mesmo desprendimento que pintava um objeto inanimado. Entendi sua procura: era a tentativa de esvaziar os olhos de significado, ver até mesmo um corpo conhecido como não mais do que forma, sem o fardo do seu significado. Mas isso, na minha opinião, acaba sendo um detalhe pessoal de quem executa a pintura, difícil de ser compreendido por quem a observa. É como a minha sensação de lascívia ao pintar a curva de um lábio ou escolher o tom correto de uma pele de garota. O produto final, para o observador, raramente lhe transmite essa mesma experiência.
Mas será que isso torna a experiência do pintor menos válida?
O que vale mais, a experiência do artista ou a que ele causa no leigo?
A próxima palestra do grupo 2000e8 acontece no dia 17 de Outubro, às 19:30, na Escola São Paulo. Desta vez, com a presença de Bruno Dunley e Regina Parra.
A conversa teve início com um ponto muito interessante de se ouvir, com ambos explicando como a atenção atraída pela matéria de jornal há alguns meses atrás rendeu muita coisa, contatos, propostas, etc. Bivar tomou a palavra para questionar o modo como o grupo estava sendo alardeado como uma espécie de renascimento da pintura que, na opinião dele, sequer havia morrido. Comentou que para gerações anteriores de artistas, a pintura era uma questão complicada: por que pintar em uma era onde a captação e reprodução de imagens já era avançadíssima e o abstrato já tinha sido explorado à exaustão? Mas para o grupo 2000e8 (e, até certo grau, para os demais pintores atuais), essa questão estava superada (ignorada?): pintamos por gosto. O gosto pelo metier da pintura, seu processo de produção. A conversa seguiu então para um ponto que Parigi concordou, de que a arte atual havia alcançado uma situação onde, mais do que a qualidade do trabalho em si, havia uma importância exacerbada sobre as questões periféricas à arte: o mise en cene em torno do artista, da mídia, da moda, de vocativos e manchetes de jornal do tipo da "geração tinta fresca" que anunciava a matéria sobre o grupo. Ou seja, a relação com a arte, principalmente nos grandes centros, era indireta, mediada. As pessoas viam as obras pelas fotos do jornal, pelos sites, não pessoalmente.
Preciso concordar veementemente. A sensação de maravilhamento que tive diante do Eine Kleine Nachtmusik da Dorothea Tanning na Tate em Londres, por exemplo. Vê-la em livros já havia sido uma experiência poderosa, mas estar diante da obra em si, da precisão de minúcia das pinceladas, é outra coisa. E perdemos isso cada vez mais, pela possibilidade de procurar no Google e ter acesso a qualquer imagem.
Isto posto, o resto foi a apresentação dos trabalhos.
Parigi começou, apresentando seus abstratos. Seu jeito cômico, debochado e sexual aparecia nas pinturas [1][2], que misturavam cores extravagantes a efeitos de luz e formas que lembravam coisas úmidas, líquidas, orgânicas. Mas ele tinha ainda outro trabalho: abstratos gigantescos que tomavam conta de fachadas de prédios como o da Galeria Vermelho ou o interior da Nara Roesler. Ele explicava o uso exclusivo de preto para os desenhos devido à rapidez que ele precisava para executá-los. A mente trabalhava mais rápido do que as mãos, dizia ele, e a cor seria mais um dado que consumiria tempo demais para incorporar na produção. Mas havia outra coisa nisso: perguntei a ele se ele acreditava que seu trabalho em fachadas tinha algo a ver com o grafite ou pixação, aproveitando para citar o caso da Choque Cultural. E ele admitiu que tinha sua queda pela pixação. Mais do que pelo grafite, que ele considerava ingênuo. Obviamente, Parigi seria o típico alvo do protesto na Choque Cultural: o artista plástico que se apropria da linguagem do grafite/pixo sem nunca ter sentido a adrenalina transgressora de pixar sem autorização. Deve-se no entanto prestar atenção ao fato de que ele não se intitula pixador. Diz-se artista plástico, com muita propriedade. Apenas se interessa pela estética, a expressividade, e pelo conceito transgressor. De qualquer forma, deixou escapar que tem seus planos de consumar todo o ato da pixação. Proibições e tudo.
Me identifiquei, como pintor, com os trabalhos de Bivar. Apesar dele ousar menos com as cores, também pinta a partir de fotos de conhecidos. Sua procura, assim como com a Renata de Bonis na palestra anterior, é pela homogeneização. Ela procurava o menor contraste entre as cores. Ele, a menor diferença hierarquica entre os elementos da pintura. Por isso, dizia pintar um detalhe como um braço ou um rosto com o mesmo desprendimento que pintava um objeto inanimado. Entendi sua procura: era a tentativa de esvaziar os olhos de significado, ver até mesmo um corpo conhecido como não mais do que forma, sem o fardo do seu significado. Mas isso, na minha opinião, acaba sendo um detalhe pessoal de quem executa a pintura, difícil de ser compreendido por quem a observa. É como a minha sensação de lascívia ao pintar a curva de um lábio ou escolher o tom correto de uma pele de garota. O produto final, para o observador, raramente lhe transmite essa mesma experiência.
Mas será que isso torna a experiência do pintor menos válida?
O que vale mais, a experiência do artista ou a que ele causa no leigo?
A próxima palestra do grupo 2000e8 acontece no dia 17 de Outubro, às 19:30, na Escola São Paulo. Desta vez, com a presença de Bruno Dunley e Regina Parra.
terça-feira, setembro 09, 2008
Ataque à galeria Choque Cultural
Essa história do grafite está me rendendo muito assunto por aqui.
Recebi notícias hoje sobre um ataque acontecido neste fim de semana à galeria Choque Cultural, protagonizado por cerca de 30 pixadores [1][2][3]. Ao que tudo indica, o ataque foi organizado por Rafael Guedes Augustaitiz (Rafael Pixobomb), o mesmo artista que em julho deste ano tinha sido expulso da Faculdade de Belas Artes por ter apresentado como trabalho final uma ação semelhante, onde pixou as dependências da faculdade. Os donos da galeria estavam fora do país quando tudo aconteceu. A "ação" foi documentada com fotos em uma conta de Flickr onde li a maior parte da discussão gerada.
Diz-se por aí que o ataque foi um protesto dos pixadores contra a "comercialização, institucionalização e domesticação da Cultura de Rua", revoltados com a popularidade que os grafiteiros conquistaram recentemente (vendendo-se para "O Sistema"), enquanto o "pixo" ainda é marginalizado. Cabe aqui uma breve explicação que talvez eu não tenha escrito por aqui. Com a ascensão dos grafiteiros ao status de artistas, abriu-se ainda mais o abismo entre o grafite e a pixação. Entenda-se grafite como um estilo de arte predominantemente figurativo, ilustrativo, executado em muros da cidade. O pouco de texto que se vê é estilizado e abusa das cores. Já a pixação é compreendida como o ato de demarcar território (geralmente em lugares altos e de difícil acesso) com assinaturas etilizadas e pouco uso de imagem. A cor principal é o preto fosco, embora alguns pixadores experimentem com outras cores. Ambos têm fortes ligações com a questão do espaço publico e sua privatização pelas chamadas "classes burguesas" e "O Sistema". Mas de forma geral (e mesmo antes da ascensão do grafite), a primeira é vista como uma forma de expressão tolerada em maior ou menor grau, e a segunda ainda é vista por muitos com o desprezo reservado apenas a animais que mijam para marcar território.
Muito bem, vamos às questões...
Sabe-se contra o quê foi o protesto. Mas contra quem foi? Contra a galeria? Acho que isso é o mesmo que vandalizar um McDonald's e esperar que isso afete o capitalismo. Não, segundo talita virginia, uma das pessoas comentando no Flickr, o ataque não foi contra quem quer levar a arte das ruas para a galeria, mas contra quem se diz "grafiteiro" e faz "arte de rua" sem nunca ter pintado um muro. Certo. Vamos às duas questões consequentes.
Primeiro, se o ataque era contra esse tipo de falso grafiteiro, então por que detonaram a galeria em vez de ir ter com os falsários em si? E segundo, concordo que é falso dizer-se grafiteiro sem nunca ter pintado uma parede, mas se o individuo em questão se diz artista plástico e se apropria dessa estética pra usar em outro contexto (uma pintura em tela, por exemplo), ele está tão errado assim? Tem muito ex-grafiteiro que virou artista plástico. Mas os que eu conheço sempre tiveram a decência de separar as duas coisas.
A Choque Cultural nunca afirmou vender grafite. Usando de termos ambíguos, afirmou ser dedicada à estética underground. Os defensores da galeria afirmam que de fato ela nunca vendeu grafite: para isso teria que vender um muro inteiro. E isso é espaço público. Ela comercializa coisas vendáveis (telas, esculturas, revistas, etc) com a estética underground.
Fiquei surpreso ao ver muitos pixadores comentando no Flickr contra a ação. Aparentemente, há uma regra de conduta entre pixadores de que não se pixa sobre trabalho dos outros. "Atropelou é TOY", escreveu um, usando a gíria que significa, trocando uma tribo urbana pela outra, ser n00b (newbie, o novato e inexperiente que só faz besteira, entre tribos da internet) em pixação. Fez-me lembrar de outra questão recente tratada na mídia, onde os punks veteranos que tinham motivos para a violência desobediente criticaram as gangs de punks recentes, que promovem a violência pela violência. Estes pixadores parecem promover o "pixo pelo pixo", sem pensar direito na subversão que pretendiam promover. Reitero meu repúdio a esse pensamento tipicamente americano do "rebelde sem causa", do "ser diferente, único e contra O Sistema" só porque disseram que é legal. Outro dos que comentaram, jotapepabst, exemplificou essa minha sensação escrevendo "o trabalho que tava exposto na galeria era de um inglês chamado gerald laing, que tem o dobro da minha e da sua idade juntos, que participou de outro tipo de subversão em outra época... e nunca se disse grafiteiro. batalhou muitos anos pra chegar onde ele tá agora e poder viver com dignidade fazendo o trampo dele. esse cara foi atropelado, inexoravelmente. só me diz o que ele tinha a ver com a história".
A dona da galeria, Mariana Pabst Martins, não desceu do salto e deu uma resposta à altura no próprio Flickr em questão, comentando que eles tinham deixado uns quadros legais por lá, que deveriam ser muito valorizados com o ocorrido. O comentário deu o tom para o sarro da discussão, transformando o ataque sofrido em uma ajuda imprevista à galeria e ao que ela representa e completando a desmoralização do grupo de pixadores.
O resto ainda está meio confuso para mim. Há quem diga que a ação foi encomendada, como um marketing de guerrilha. Se comprovado, o feito faria apenas desmoralizar ainda mais os pixadores que participaram, por colaborarem com "O Sistema", e enaltecer a galeria entre os publicitários (mas não entre os artistas...), porque convenhamos, seria uma estratégia bizarra mas muito eficiente de gerar buzz (tá, me processem, eu uso termos publicitários...). Há quem aponte para o fato de terem tirado fotos e publicado no Flickr como indício de que o negócio foi armado. Mas para uma galera que vandaliza as coisas assinando a própria identidade, acho que segredo não é uma prioridade. De qualquer jeito, é algo a se pensar: nas fotos do Flickr, as únicas obras pixadas são as que têm moldura com vidro pra proteger...
[DISCLAIMER]
Pessoalmente, eu nunca pintei um muro que não fosse meu ou de amigos. Nunca senti a adrenalina do grafite ou pixação (coisa que, entre os comentários, parece validar alguém como artista de rua). Sou de um estilo de arte bem mais conservador e careta, longe da street art. Portanto pode-se dizer que não me cabe esse juizo de valores. Mas ainda sou livre para ter opiniões.[/DISCLAIMER]
[EDIT]Mais links adicionados em 11/09/2008[/EDIT]
Recebi notícias hoje sobre um ataque acontecido neste fim de semana à galeria Choque Cultural, protagonizado por cerca de 30 pixadores [1][2][3]. Ao que tudo indica, o ataque foi organizado por Rafael Guedes Augustaitiz (Rafael Pixobomb), o mesmo artista que em julho deste ano tinha sido expulso da Faculdade de Belas Artes por ter apresentado como trabalho final uma ação semelhante, onde pixou as dependências da faculdade. Os donos da galeria estavam fora do país quando tudo aconteceu. A "ação" foi documentada com fotos em uma conta de Flickr onde li a maior parte da discussão gerada.
Diz-se por aí que o ataque foi um protesto dos pixadores contra a "comercialização, institucionalização e domesticação da Cultura de Rua", revoltados com a popularidade que os grafiteiros conquistaram recentemente (vendendo-se para "O Sistema"), enquanto o "pixo" ainda é marginalizado. Cabe aqui uma breve explicação que talvez eu não tenha escrito por aqui. Com a ascensão dos grafiteiros ao status de artistas, abriu-se ainda mais o abismo entre o grafite e a pixação. Entenda-se grafite como um estilo de arte predominantemente figurativo, ilustrativo, executado em muros da cidade. O pouco de texto que se vê é estilizado e abusa das cores. Já a pixação é compreendida como o ato de demarcar território (geralmente em lugares altos e de difícil acesso) com assinaturas etilizadas e pouco uso de imagem. A cor principal é o preto fosco, embora alguns pixadores experimentem com outras cores. Ambos têm fortes ligações com a questão do espaço publico e sua privatização pelas chamadas "classes burguesas" e "O Sistema". Mas de forma geral (e mesmo antes da ascensão do grafite), a primeira é vista como uma forma de expressão tolerada em maior ou menor grau, e a segunda ainda é vista por muitos com o desprezo reservado apenas a animais que mijam para marcar território.
Muito bem, vamos às questões...
Sabe-se contra o quê foi o protesto. Mas contra quem foi? Contra a galeria? Acho que isso é o mesmo que vandalizar um McDonald's e esperar que isso afete o capitalismo. Não, segundo talita virginia, uma das pessoas comentando no Flickr, o ataque não foi contra quem quer levar a arte das ruas para a galeria, mas contra quem se diz "grafiteiro" e faz "arte de rua" sem nunca ter pintado um muro. Certo. Vamos às duas questões consequentes.
Primeiro, se o ataque era contra esse tipo de falso grafiteiro, então por que detonaram a galeria em vez de ir ter com os falsários em si? E segundo, concordo que é falso dizer-se grafiteiro sem nunca ter pintado uma parede, mas se o individuo em questão se diz artista plástico e se apropria dessa estética pra usar em outro contexto (uma pintura em tela, por exemplo), ele está tão errado assim? Tem muito ex-grafiteiro que virou artista plástico. Mas os que eu conheço sempre tiveram a decência de separar as duas coisas.
A Choque Cultural nunca afirmou vender grafite. Usando de termos ambíguos, afirmou ser dedicada à estética underground. Os defensores da galeria afirmam que de fato ela nunca vendeu grafite: para isso teria que vender um muro inteiro. E isso é espaço público. Ela comercializa coisas vendáveis (telas, esculturas, revistas, etc) com a estética underground.
Fiquei surpreso ao ver muitos pixadores comentando no Flickr contra a ação. Aparentemente, há uma regra de conduta entre pixadores de que não se pixa sobre trabalho dos outros. "Atropelou é TOY", escreveu um, usando a gíria que significa, trocando uma tribo urbana pela outra, ser n00b (newbie, o novato e inexperiente que só faz besteira, entre tribos da internet) em pixação. Fez-me lembrar de outra questão recente tratada na mídia, onde os punks veteranos que tinham motivos para a violência desobediente criticaram as gangs de punks recentes, que promovem a violência pela violência. Estes pixadores parecem promover o "pixo pelo pixo", sem pensar direito na subversão que pretendiam promover. Reitero meu repúdio a esse pensamento tipicamente americano do "rebelde sem causa", do "ser diferente, único e contra O Sistema" só porque disseram que é legal. Outro dos que comentaram, jotapepabst, exemplificou essa minha sensação escrevendo "o trabalho que tava exposto na galeria era de um inglês chamado gerald laing, que tem o dobro da minha e da sua idade juntos, que participou de outro tipo de subversão em outra época... e nunca se disse grafiteiro. batalhou muitos anos pra chegar onde ele tá agora e poder viver com dignidade fazendo o trampo dele. esse cara foi atropelado, inexoravelmente. só me diz o que ele tinha a ver com a história".
A dona da galeria, Mariana Pabst Martins, não desceu do salto e deu uma resposta à altura no próprio Flickr em questão, comentando que eles tinham deixado uns quadros legais por lá, que deveriam ser muito valorizados com o ocorrido. O comentário deu o tom para o sarro da discussão, transformando o ataque sofrido em uma ajuda imprevista à galeria e ao que ela representa e completando a desmoralização do grupo de pixadores.
O resto ainda está meio confuso para mim. Há quem diga que a ação foi encomendada, como um marketing de guerrilha. Se comprovado, o feito faria apenas desmoralizar ainda mais os pixadores que participaram, por colaborarem com "O Sistema", e enaltecer a galeria entre os publicitários (mas não entre os artistas...), porque convenhamos, seria uma estratégia bizarra mas muito eficiente de gerar buzz (tá, me processem, eu uso termos publicitários...). Há quem aponte para o fato de terem tirado fotos e publicado no Flickr como indício de que o negócio foi armado. Mas para uma galera que vandaliza as coisas assinando a própria identidade, acho que segredo não é uma prioridade. De qualquer jeito, é algo a se pensar: nas fotos do Flickr, as únicas obras pixadas são as que têm moldura com vidro pra proteger...
[DISCLAIMER]
Pessoalmente, eu nunca pintei um muro que não fosse meu ou de amigos. Nunca senti a adrenalina do grafite ou pixação (coisa que, entre os comentários, parece validar alguém como artista de rua). Sou de um estilo de arte bem mais conservador e careta, longe da street art. Portanto pode-se dizer que não me cabe esse juizo de valores. Mas ainda sou livre para ter opiniões.[/DISCLAIMER]
[EDIT]Mais links adicionados em 11/09/2008[/EDIT]
quinta-feira, setembro 04, 2008
Complementando
Pra complementar coisas que eu tenho postado por aqui, vi duas notícias que me chamaram a atenção recentemente.
A primeira é um de um site sobre grafite ecológico (?) que lista as 35 maiores obras de grafite reverso.
O grafite reverso, como o nome indica, é a ação executada por alguns grafiteiros que trocam as latas de spray e outros instrumentos mais rotineiros por material de limpeza. Ou seja, em vez deles gerarem ilustrações por um processo de adição, colocando tinta em superfícies públicas; eles realizam os seus trabalhos por subtração, limpando partes de superfícies imundas da cidade para criar suas imagens. Achei fantástico. Sem falar que reverte a idéia de que grafite é uma coisa suja.
A segunda notícia veio do site do Yahoo!. Parece que uma empresa está se preparando para lançar bicicletas elétricas por aqui. A idéia é suprir um crescente mercado de gente que não aguenta mais o transito desta cidade (que tem batido récordes e deixado muita gente perplexa ultimamente), mas também não gosta da idéia de chegar suado no local de trabalho logo de manhã. Embora a notícia não dê palpite sobre o preço, diz que com certeza será menos do que as motos mais baratas. Quem sabe... Agora só falta o governo acordar para a realidade e cooperar com as ciclovias.
A primeira é um de um site sobre grafite ecológico (?) que lista as 35 maiores obras de grafite reverso.
O grafite reverso, como o nome indica, é a ação executada por alguns grafiteiros que trocam as latas de spray e outros instrumentos mais rotineiros por material de limpeza. Ou seja, em vez deles gerarem ilustrações por um processo de adição, colocando tinta em superfícies públicas; eles realizam os seus trabalhos por subtração, limpando partes de superfícies imundas da cidade para criar suas imagens. Achei fantástico. Sem falar que reverte a idéia de que grafite é uma coisa suja.
A segunda notícia veio do site do Yahoo!. Parece que uma empresa está se preparando para lançar bicicletas elétricas por aqui. A idéia é suprir um crescente mercado de gente que não aguenta mais o transito desta cidade (que tem batido récordes e deixado muita gente perplexa ultimamente), mas também não gosta da idéia de chegar suado no local de trabalho logo de manhã. Embora a notícia não dê palpite sobre o preço, diz que com certeza será menos do que as motos mais baratas. Quem sabe... Agora só falta o governo acordar para a realidade e cooperar com as ciclovias.
quinta-feira, agosto 28, 2008
Citações
"The purest surrealist act would be to go into a crowd and fire at random."
"O mais puro ato surrealista seria entrar no meio de uma multidão e atirar a esmo"
André Breton, 1896-1966
Encontrei essa citação por aí. Imagino que, se a tivesse encontrado na época da faculdade, eu teria levado a cabo a performance que eu pensei em fazer na época do massacre de Columbine.
"O verdadeiro crescimento é a capacidade demonstrada por uma sociedade de transferir quantidades cada vez maiores de energia e atenção do aspecto material da vida para o aspecto não-material e, assim, evoluir em cultura, potencial de compaixão, sentido de comunidade e força democrática."
Arnold Toynbee
Essa eu encontrei no blog de uma amiga. E cheguei a pensar nessa idéia quando escrevi a monografia. Sobre como a arte é a ação de um indivíduo que está em uma sociedade tão bem estruturada, que não precisa mais gastar tempo e raciocínio com coisas basais do tipo comer ou se defender. Não restando outra responsabilidade, ele gasta esse tempo e energia na arte que, de acordo com a minha teoria, não tem função prática alguma.
"O mais puro ato surrealista seria entrar no meio de uma multidão e atirar a esmo"
André Breton, 1896-1966
Encontrei essa citação por aí. Imagino que, se a tivesse encontrado na época da faculdade, eu teria levado a cabo a performance que eu pensei em fazer na época do massacre de Columbine.
"O verdadeiro crescimento é a capacidade demonstrada por uma sociedade de transferir quantidades cada vez maiores de energia e atenção do aspecto material da vida para o aspecto não-material e, assim, evoluir em cultura, potencial de compaixão, sentido de comunidade e força democrática."
Arnold Toynbee
Essa eu encontrei no blog de uma amiga. E cheguei a pensar nessa idéia quando escrevi a monografia. Sobre como a arte é a ação de um indivíduo que está em uma sociedade tão bem estruturada, que não precisa mais gastar tempo e raciocínio com coisas basais do tipo comer ou se defender. Não restando outra responsabilidade, ele gasta esse tempo e energia na arte que, de acordo com a minha teoria, não tem função prática alguma.
28ª Bienal de São Paulo
O site da Bienal lançou há algumas semanas a lista dos 40 artistas que participarão da 28ª Bienal de São Paulo. Escrevi um post enorme a respeito, mas na espera para chegar mais perto da data do evento, acabei dando chance para que meu computador perdesse o arquivo. Cá está minha tentativa de recriá-lo.
Com o nome de 28ª Bienal de São Paulo - Em Vivo Contato, a exposição deste ano tem curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen. Pessoalmente não conheço muito de ambos, além do fato de que o nome de Mesquita sempre figura entre curadores de renome. Por exemplo, está sempre no edital do Salão de Santo André, que inclui uma área para os participantes votarem em quem será o curador.
O primeiro nome a me saltar à vista foi justamente o da minha orientadora do curso de artes, Dora Longo Bahia. Dora sempre foi, entre os alunos da fundação, uma figura lendária. Capaz de suscitar antipatia e respeito em iguais proporções, sempre rodeada de jovens artistas que atualmente ajudam em seus trabalhos. Em uma matéria no Caderno 2 da semana passada, todos apareciam em um esforço coletivo para cobrir o chão do terceiro andar do pavilhão da Bienal com uma enorme pintura baseada em padrões da arquitetura islâmica. A participação de Dora também inclui um painel onde a cada dia um de seus asseclas colocará uma obra por cima da anterior, com o intuito de criar um trabalho co-autoral.
Sinto falta das pinturas antigas de Dora. De uma época em que ela realmente pintava. Porque isso ela fazia maravilhosamente bem. Mas também não posso dizer que essa nova empreitada grupal não tenha seu charme e apelo.
O segundo andar da Bienal permanecerá completamente vazio, segundo o Caderno 2. A decisão já dotou esta edição da Beinal do apelido de "Bienal do Vazio". Mas tem para mim a cara dos trabalhos de Iran do Espírito Santo. Vindo da cidade de Mococa, no interior paulista, ele tem entre seus trabalhos mais conhecidos, tentativas de preencher espaços vazios e "atacar o padrão arquitetônico moderno de escala humana" [1]. Em exposição recente na Galeria Fortes Vilaça, ele pintou as paredes em 54 tons de cinza, criando uma sensação estranha onde não se sabe exatamente onde estão as bordas e acessos da sala. O resto da galeria permaneceu vazio [2].
A última conterrânea a me chamar a atenção na lista da Bienal foi Rivane Neuenschwander. Seus trabalhos tem aquela dicotomia de serem imagens que evocam leveza e banlidade, mas com detalhes de uma carga poética e emotiva que carrega todo o peso do mundo. Para citar exemplos, seu Andando em Círculos [2000] tinha círculos concentricos de adesivo aplicados ao chão de uma galeria que só eram visíveis depois que visitantes andavam sobre eles e deixavam suas marcas de sujeira. Carta Faminta tinha caminhos feitos em cartas por lesmas que comeram o papel. Em exposição na Fortes Vilaça em 2004, ela forrou as paredes de feltro verde e colocou máquinas de escrever modificadas (as letras substituídas por pontos) onde as pessoas podíam escrever suas mensagens indecifráveis e pregar no feltro [3]. E em Eu Desejo Seu Desejo [2003], ela cobriu as paredes da galeria com fitas de Nosso Senhor do Bonfim, impressas com os desejos de diversas pessoas [4]. Deu pra sentir o que quero dizer? Ela fala de relacionamentos humanos, de linguagem. Do que é pesado e exige delicadeza para entender.
E no entanto, é difícil imaginar que Rivane seja aproveitada em uma megaexposição como a Bienal. Seus trabalhos requerem uma paciência e contemplação, um tempo que não existe em um evento daquele tamanho, com 40 artistas para ver antes do corpo entrar em colapso por causa do cansaço. Minha dica é vê-la primeiro. Ou separar uma segunda visita para isso.
Dentre as surpresas estrangeiras, me surpreendi com a presença da dupla novaiorquina do Fischerspooner. Estava acostumado a ouvir o nome relacionado à música eletrônica, mas nunca soube que se aventuravam nas artes plásticas. A página de Wikipedia dedicada a eles conta a história do grupo, além de comparar seu trabalho ao de bandas como o Kraftwerk e Depeche Mode. Se estas referência forem corretas, podemos esperar trabalhos na Bienal que tenham uma qualidade técnica forte e temas meio viajantes e malucos. Mas não posso dizer ao certo, porque nunca vi trabalhos visuais deles. Uma procura no Google pode revelar coisas interessantes...
Meu deleite nesta edição da Bienal com certeza será a francesa Sophie Calle. Fui apresentado ao trabalho dela enquanto pintava meus retratos. Mais especificamente, quando contei a um professor o processo de stalkear e fotografar Lilian para o segundo retrato da série que pintei. Posteriormente escrevi um pouco sobre cada mulher retratada. Sophie fazia algo similar. Ela perseguia pessoas e documentava sua existência com fotografias e anotações. Na era pré-internet, era preciso fazer tudo isso pessoalmente, descobrindo os detalhes pela proximidade física com a pessoa.
Sua página de Wikipedia conta sobre alguns de seus trabalhos, muitos do quais despertam em mim a vontade de fazer coisa similar. Em Address Book [1983], ela faz cópias de uma agenda encontrada na rua antes de devolvê-la ao dono. Passa então a ligar para os contatos e perguntar a respeito do sujeito, tentando conhecer sua personalidade através dos conhecidos. Tudo é documentado com fotografias dele em atividades cotidianas. O homem em questão ameaçou processar Calle e forçou o jornal que tinha escrito sobre o trabalho a publicar uma foto da artista nua como retaliação. Duvido queCalle, que sempre se interessou muito por experiências de intimidade e identidade, tenha se incomodado com o fato.
Em The Hotel [1981], Sophie se empregou como camareira em um hotel e fotografou a bagunça criada pelos hospedes, como expressão da tentativa de cada pessoa em transformar os espaços frios e o conforto impessoal de quartos de hotel e dotá-los de identidade e familiaridade. Personalizar o genérico.
O que me interessa em Sophie Calle, além da identificação com uma stalker muito mais experiente, é o fato dela conseguir usar o status de arte para transmutar o que seria um comportamento socialmente condenável em algo de um relativo valor. Ao publicar suas conclusões, ela deixa de ser uma sociopata e torna-se artista. Quão tênue é essa linha?
E por falar em comportamentos estranhos, talvez o destaque desta Bienal fique para a iugoslava Marina Abramovic. Com uma daquelas infâncias conturbadas que normalmente geram psicóticos ou gênios da arte, ela começou a fazer performances em 1973, com sua série de apresentações intituladas Rythm (Ritmo). Cada uma testava os limites físicos e de consciência da artista. Na última e mais controversa destas performances (Rythm 0 [1974]), Marina colocou à disposição do público 72 objetos em uma mesa, para que fossem usados à vontade em seu corpo por 6 horas. O público inicialmente reagiu com pudor e respeito, mas à medida que as horas avançavam e a artista não esboçava reação, os atos ficaram cada vez mais violentos, com pessoas enterrando espinhos de rosa na pele da artista, cortando suas roupas e cabelo e alguém apontando-lhe ao rosto uma arma com uma única bala. Após seis horas, a artista se levantou, causando grande alvoroço entre o público, que fugiu temendo alguma retaliação.
Em 1976, Marina Abramovic conheceu o alemão Uwe Laysiepen (apelidado Ulay), com o qual manteve um relacionamento de forte teor metafísico durante pouco mais de uma década. Faziam tudo juntos: vestiam-se como gêmeos, moravam juntos, colaboravam em trabalhos artísticos. O relacionamento em si funcionou como um grande experimento artístico, onde ambos tentavam anular seus próprios egos para serem reconhecidos como uma entidade única, assexuada, Abramovic/Ulay.
Em 1988, realizaram seu último trabalho co-autoral. Como um meio de acabar um relacionamento extremamente simbólico, organizaram uma performance na Grande Muralha da China. Ulay começou no deserte de Gobi. Marina no Mar Amarelo. Cada um caminhou seu trajeto da Grande Muralha e, ao se encontrarem no meio, se despediram e voltaram a existirem como pessoas separadas.
Mais recentemente, Marina comprou um teatro em Hudson, perto de Nova Iorque, onde pretende criar uma ONG para a preservação de arte performática. Imagino que o trabalho nesta Bienal tenha algo a ver com essa nova empreitada.
A 28ª Bienal de São Paulo - Em Vivo Contato acontece de 26 de Outubro a 6 de Dezembro, no Parque do Ibirapuera. Ainda não tenho certeza, mas se repetirem a iniciativa dos anos anteriores para atrair o público, a entrada será gratuita.
Com o nome de 28ª Bienal de São Paulo - Em Vivo Contato, a exposição deste ano tem curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen. Pessoalmente não conheço muito de ambos, além do fato de que o nome de Mesquita sempre figura entre curadores de renome. Por exemplo, está sempre no edital do Salão de Santo André, que inclui uma área para os participantes votarem em quem será o curador.
O primeiro nome a me saltar à vista foi justamente o da minha orientadora do curso de artes, Dora Longo Bahia. Dora sempre foi, entre os alunos da fundação, uma figura lendária. Capaz de suscitar antipatia e respeito em iguais proporções, sempre rodeada de jovens artistas que atualmente ajudam em seus trabalhos. Em uma matéria no Caderno 2 da semana passada, todos apareciam em um esforço coletivo para cobrir o chão do terceiro andar do pavilhão da Bienal com uma enorme pintura baseada em padrões da arquitetura islâmica. A participação de Dora também inclui um painel onde a cada dia um de seus asseclas colocará uma obra por cima da anterior, com o intuito de criar um trabalho co-autoral.
Sinto falta das pinturas antigas de Dora. De uma época em que ela realmente pintava. Porque isso ela fazia maravilhosamente bem. Mas também não posso dizer que essa nova empreitada grupal não tenha seu charme e apelo.
O segundo andar da Bienal permanecerá completamente vazio, segundo o Caderno 2. A decisão já dotou esta edição da Beinal do apelido de "Bienal do Vazio". Mas tem para mim a cara dos trabalhos de Iran do Espírito Santo. Vindo da cidade de Mococa, no interior paulista, ele tem entre seus trabalhos mais conhecidos, tentativas de preencher espaços vazios e "atacar o padrão arquitetônico moderno de escala humana" [1]. Em exposição recente na Galeria Fortes Vilaça, ele pintou as paredes em 54 tons de cinza, criando uma sensação estranha onde não se sabe exatamente onde estão as bordas e acessos da sala. O resto da galeria permaneceu vazio [2].
A última conterrânea a me chamar a atenção na lista da Bienal foi Rivane Neuenschwander. Seus trabalhos tem aquela dicotomia de serem imagens que evocam leveza e banlidade, mas com detalhes de uma carga poética e emotiva que carrega todo o peso do mundo. Para citar exemplos, seu Andando em Círculos [2000] tinha círculos concentricos de adesivo aplicados ao chão de uma galeria que só eram visíveis depois que visitantes andavam sobre eles e deixavam suas marcas de sujeira. Carta Faminta tinha caminhos feitos em cartas por lesmas que comeram o papel. Em exposição na Fortes Vilaça em 2004, ela forrou as paredes de feltro verde e colocou máquinas de escrever modificadas (as letras substituídas por pontos) onde as pessoas podíam escrever suas mensagens indecifráveis e pregar no feltro [3]. E em Eu Desejo Seu Desejo [2003], ela cobriu as paredes da galeria com fitas de Nosso Senhor do Bonfim, impressas com os desejos de diversas pessoas [4]. Deu pra sentir o que quero dizer? Ela fala de relacionamentos humanos, de linguagem. Do que é pesado e exige delicadeza para entender.
E no entanto, é difícil imaginar que Rivane seja aproveitada em uma megaexposição como a Bienal. Seus trabalhos requerem uma paciência e contemplação, um tempo que não existe em um evento daquele tamanho, com 40 artistas para ver antes do corpo entrar em colapso por causa do cansaço. Minha dica é vê-la primeiro. Ou separar uma segunda visita para isso.
Dentre as surpresas estrangeiras, me surpreendi com a presença da dupla novaiorquina do Fischerspooner. Estava acostumado a ouvir o nome relacionado à música eletrônica, mas nunca soube que se aventuravam nas artes plásticas. A página de Wikipedia dedicada a eles conta a história do grupo, além de comparar seu trabalho ao de bandas como o Kraftwerk e Depeche Mode. Se estas referência forem corretas, podemos esperar trabalhos na Bienal que tenham uma qualidade técnica forte e temas meio viajantes e malucos. Mas não posso dizer ao certo, porque nunca vi trabalhos visuais deles. Uma procura no Google pode revelar coisas interessantes...
Meu deleite nesta edição da Bienal com certeza será a francesa Sophie Calle. Fui apresentado ao trabalho dela enquanto pintava meus retratos. Mais especificamente, quando contei a um professor o processo de stalkear e fotografar Lilian para o segundo retrato da série que pintei. Posteriormente escrevi um pouco sobre cada mulher retratada. Sophie fazia algo similar. Ela perseguia pessoas e documentava sua existência com fotografias e anotações. Na era pré-internet, era preciso fazer tudo isso pessoalmente, descobrindo os detalhes pela proximidade física com a pessoa.
Sua página de Wikipedia conta sobre alguns de seus trabalhos, muitos do quais despertam em mim a vontade de fazer coisa similar. Em Address Book [1983], ela faz cópias de uma agenda encontrada na rua antes de devolvê-la ao dono. Passa então a ligar para os contatos e perguntar a respeito do sujeito, tentando conhecer sua personalidade através dos conhecidos. Tudo é documentado com fotografias dele em atividades cotidianas. O homem em questão ameaçou processar Calle e forçou o jornal que tinha escrito sobre o trabalho a publicar uma foto da artista nua como retaliação. Duvido queCalle, que sempre se interessou muito por experiências de intimidade e identidade, tenha se incomodado com o fato.
Em The Hotel [1981], Sophie se empregou como camareira em um hotel e fotografou a bagunça criada pelos hospedes, como expressão da tentativa de cada pessoa em transformar os espaços frios e o conforto impessoal de quartos de hotel e dotá-los de identidade e familiaridade. Personalizar o genérico.
O que me interessa em Sophie Calle, além da identificação com uma stalker muito mais experiente, é o fato dela conseguir usar o status de arte para transmutar o que seria um comportamento socialmente condenável em algo de um relativo valor. Ao publicar suas conclusões, ela deixa de ser uma sociopata e torna-se artista. Quão tênue é essa linha?
E por falar em comportamentos estranhos, talvez o destaque desta Bienal fique para a iugoslava Marina Abramovic. Com uma daquelas infâncias conturbadas que normalmente geram psicóticos ou gênios da arte, ela começou a fazer performances em 1973, com sua série de apresentações intituladas Rythm (Ritmo). Cada uma testava os limites físicos e de consciência da artista. Na última e mais controversa destas performances (Rythm 0 [1974]), Marina colocou à disposição do público 72 objetos em uma mesa, para que fossem usados à vontade em seu corpo por 6 horas. O público inicialmente reagiu com pudor e respeito, mas à medida que as horas avançavam e a artista não esboçava reação, os atos ficaram cada vez mais violentos, com pessoas enterrando espinhos de rosa na pele da artista, cortando suas roupas e cabelo e alguém apontando-lhe ao rosto uma arma com uma única bala. Após seis horas, a artista se levantou, causando grande alvoroço entre o público, que fugiu temendo alguma retaliação.
Em 1976, Marina Abramovic conheceu o alemão Uwe Laysiepen (apelidado Ulay), com o qual manteve um relacionamento de forte teor metafísico durante pouco mais de uma década. Faziam tudo juntos: vestiam-se como gêmeos, moravam juntos, colaboravam em trabalhos artísticos. O relacionamento em si funcionou como um grande experimento artístico, onde ambos tentavam anular seus próprios egos para serem reconhecidos como uma entidade única, assexuada, Abramovic/Ulay.
Em 1988, realizaram seu último trabalho co-autoral. Como um meio de acabar um relacionamento extremamente simbólico, organizaram uma performance na Grande Muralha da China. Ulay começou no deserte de Gobi. Marina no Mar Amarelo. Cada um caminhou seu trajeto da Grande Muralha e, ao se encontrarem no meio, se despediram e voltaram a existirem como pessoas separadas.
Mais recentemente, Marina comprou um teatro em Hudson, perto de Nova Iorque, onde pretende criar uma ONG para a preservação de arte performática. Imagino que o trabalho nesta Bienal tenha algo a ver com essa nova empreitada.
A 28ª Bienal de São Paulo - Em Vivo Contato acontece de 26 de Outubro a 6 de Dezembro, no Parque do Ibirapuera. Ainda não tenho certeza, mas se repetirem a iniciativa dos anos anteriores para atrair o público, a entrada será gratuita.
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