domingo, outubro 11, 2009

Educação Artística

Soube recentemente que o Ministério da Educação andou promovendo reformas no ensino de arte nas escolas. Dentre outras coisas, tornou obrigatório a partir do ano que vem o ensino de música nas escolas de Ensino Fundamental. Achei até que a medida foi tardia. Em outros países onde estive, a música é parte obrigatória do programa de qualquer escola. Aprendi a tocar aquela odiosa flauta doce quando criança por causa disso. Embora tenha esquecido quase tudo do instrumento assim que saí daquele colégio em outro país, as noções de canto me acompanham pela vida toda e facilitaram o episódio da banda de rock que tive em 2007. Mas não é apenas isso, me deram uma noção de música, de composição e de compositores.
De volta à terra natal, tive aulas de educação artística no restante do Ensino Fundamental. Eram aulas de qualidade questionável. Embora ensinassem o desenho de perspectiva, coisa que eu veria novamente no curso de desenho que fiz na adolescência e uma terceira vez quando entrei para a faculdade de arte, o resto de seu conteúdo era praticamente irrelevante. Por exemplo, passamos um semestre vendo o Futurismo, um movimento das vanguardas do século XX que não chega a ser mais do que uma nota de rodapé nos livros de história da arte sobre a época e pouco nos ensinou das importantes mudanças de pensamento que ocorreram nas primeiras décadas do século. Não é de se espantar que o colégio onde estudei fosse notório pela quantidade de alunos que saíam de lá para entrar em faculdades de engenharia e que as estatísticas apontasse pouquíssimos alunos interessados pelos cursos superiores de artes plásticas.
Mas o ensino deficitário de arte na adolescência tem outras consequências visíveis na população do país. Estive conversando com Marília "Bombom" Jardim, uma performance artist conhecida da Lexy que acabou virando boa amiga e colaboradora em projetos de arte. Discutímos recentemente sobre a situação dos colecionadores de arte na cidade e do que de fato chega ao mercado. Obras que na maioria das vezes têm um apelo pop ou decorativo, produzidas por artistas que não estão realmente interessados em fazer qualquer ligação com a história da arte, compradas por gente endinheirada que nada entende do que está comprando e escolhe de acordo com a reputação do artista ou o quanto a obra vai combinar com a sala de estar. Poucos são os colecionadores que de fato entendem de arte: uma elite cultural. Poucos também são os artistas, depois desse tempo todo em que o MEC menosprezou o ensino de arte nas escolas. Bombom parece ser uma pessoa com boa formação artística em colégio construtivista, que sabe o que está fazendo e como aquilo se enquadra na história. De minha parte, tenho que me admitir fruto do colégio onde estudei, e confessar que talvez ainda esteja pensando na minha produção como algo isolado da história, como o fazem todos os outros pintores da minha geração. Afinal, nossas técnicas são centenárias e voltam aos resultados vistos antes dessas décadas de abstração e negação da pintura de cavalete. Na verdade, sequer consideramos muito do que se passou na arte das últimas décadas quando escolhemos o bom e velho óleo sobre tela. Sei que no futuro chamarão este momento de uma espécie de "retorno à ordem e à técnica". Concordo, mas não deixa de ser justamente um retorno, uma espécie de retrocesso.

Voltado à questão dos Ensino Fundamental, passei no meu antigo colégio esta semana. Conversei com professores e com o diretor para ter uma noção do que é preciso para tornar-me um professor de artes do colégio. E fiquei sinceramente maravilhado com o modo como as determinações do MEC mudaram o ensino de arte por lá. O curso agora é bem prático, ensinando desenho, depois pintura, e então fotografia e vídeo nos últimos anos. Os alunos fazem. Não apenas isso, encontrei nos trabalhos que vi, referências a artistas desde Da Vinci até Andy Warhol, e técnicas tão alternativas para crianças quanto a xilogravura, que só fui conhecer no segundo ano da faculdade.
Régis, o coordenador do curso, me conta que alguns vetibulares já estão perguntando até sobre os metaesquemas do Hélio Oiticica, como aconteceu na última prova do recém-criado curso de direito da FGV. Claro: crie essa necessidade no vestibular e todos os colégios passarão a ensinar a matéria.
O assunto todo me deixou interessado: com essa nova determinação do MEC, a demanda por professores de arte vai crescer. É aí que eu entro: já estou pesquisando como e onde fazer a licenciatura...