Em conversa com minha Lexy há algum tempo, começamos a falar sobre o ponto em que meu trabalho por aqui está, onde eu estou começando a misturar elementos masculinos e femininos, ao mesmo tempo tentando manter a identidade heterossexual masculina. É um equilíbrio complicado, mas possível. Comecei a conversa porque eu lembrei que ela tinha mencionado que nenhum dos integrantes do New York Dolls, banda americana da década de 70, eram homossexuais, apesar de todos eles abusarem de um visual extremamente feminino (ao ponto do deboche [1][2]).
Ela fez uma análise brilhante da minha intenção, que levou a uma conexão com as bandas de glam rock dos anos 80 e 90. Ela me passou algumas referências de bandas que como Cinderella, Motley Crüe e Poison, em que os integrantes não tinham medo de integrar detalhes muito femininos (e às vezes não tão debochados quanto os New York Dolls) no seu visual. Aliás, o que eu achei muito interessante era justamente o fato deles poderem "femininizar" sua imagem e ainda manterem uma carga heterossexual tamanha, que eram tidos como símbolos sexuais masculinos e cobiçados pelas groupies. Eles eram um símbolo de que a masculinidade não era algo a ser provado pela aparência, mas pela auto-confiança. Se você confiasse na sua própria masculinidade, você podia usar o que bem entendesse. Lembro bem de ter crescido nessa época e passar pela fase de querer ser um astro de rock, com essas cabeleiras gigantescas.
Não tenho informação suficiente para afirmar categoricamente, mas eu acho que houveram reações negativas. Nos anos 80, as artes plásticas estavam vendo a volta do "gênio artístico masculino" na pintura como reação à arte feminista e houve uma reaparição de pinturas enormes carregadas de tinta e de pintores que personificavam figuras mais machonas. E os anos 90 viram um dos meus estilos favoritos na música, o grunge, que não tinha nada dos detalhes femininos do visual de antes e passou por um recrudescimento e masculinização, embora tivesse representantes que encarnavam um pouco daquele estilo do looser desajustado e bem diferente do homem dito ideal. A discussão passava a ser mais mental do que visual. Então esse ideal heterossexual misturado e meio andrógino andou adormecido por um tempo (corrija-me se eu estiver errado, meu amor).
A primeira década do século 21 viu uma volta de algumas dessas coisas. Posso citar o excêntrico Marilyn Manson [1] como uma versão macabra de uma coisa andrógina (e sobre o qual eu escrevi aqui). E ando relativamente interessado em de alguma forma usar Brian Molko, vocalista da banda Placebo como assunto de alguns trabalhos. Quando a banda começou a fazer sucesso, ele se apresentava com um visual carregado na androginia [1], chegando a ter trejeitos um pouco afetados [2] e que me parecia até estudados pelo modo como se repetiam [3][4]. Eu mesmo achei, ao conhecer a banda, que tratava-se de uma mulher. Mas no decorrer da carreira, o visual andrógino passou a ficar mais comportado e "plausível" [1][2 - does this ring a bell?]. Depois de um tempo, Molko aposentou o estilo andrógino mais elaborado, embora ainda execute alguns dos trejeitos nas apresentações. Mas fez um certo estardalhaço na mídia em 2005, com o nascimento do seu filho. O que me leva às questões de paternidade que os caras do glam rock mantinham debaixo do pano... Enfim, ele está se tornando um intereses para mim atualmente, porter passado por todas essas fases que podem ser relacionadas à pesquisa. Veremos para onde isso vai.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quinta-feira, março 31, 2011
Finding the Father, by Robert Bly
By now I no longer take Bly as a serious reference in my work, although one of his books was part of the start of everything. But I always come back to this poem. And I can't explain it, but it really moves me.
FINDING THE FATHER by Robert Bly
My friend, this body offers to carry us for nothing - as the ocean carries logs.
So on some days the body wails with its great energy;
it smashes up the boulders,
lifting small crabs, that flow around the sides.
Someone knocks on the door.
We do not have time to dress.
He wants us to go with him through the blowing and rainy streets,
to the dark house.
We will go there, the body says,
and there find the father whom we have never met,
who wandered out in a snowstorm the night we were born,
and who then lost his memory,
and has lived since longing for his child,
whom he saw only once...
while he worked as a shoemaker,
as a cattle herder in Australia,
as a restaurant cook who painted at night.
When you light the lamp you will see him.
he sits there behind the door....
the eyebrows so heavy,
the forehead so light....
lonely in his whole body,
waiting for you.
FINDING THE FATHER by Robert Bly
My friend, this body offers to carry us for nothing - as the ocean carries logs.
So on some days the body wails with its great energy;
it smashes up the boulders,
lifting small crabs, that flow around the sides.
Someone knocks on the door.
We do not have time to dress.
He wants us to go with him through the blowing and rainy streets,
to the dark house.
We will go there, the body says,
and there find the father whom we have never met,
who wandered out in a snowstorm the night we were born,
and who then lost his memory,
and has lived since longing for his child,
whom he saw only once...
while he worked as a shoemaker,
as a cattle herder in Australia,
as a restaurant cook who painted at night.
When you light the lamp you will see him.
he sits there behind the door....
the eyebrows so heavy,
the forehead so light....
lonely in his whole body,
waiting for you.
terça-feira, março 29, 2011
Todas as generalizações são perigosas.
Resolvi escrever isto por aqui só pra digerir... É que estou lendo teoria pesada para o primeiro trabalho escrito do mestrado e tanta coisa está fazendo referência ao Masculismo e ao atual clima político de Londres, que eu achei uma pena me conscientizar disso e depois esquecer quando o meu trabalho enveredar por outros caminhos.
Como forma de fundamentar o meu trabalho em alguma teoria (para que ele não fosse apenas baseado em experiências pessoais), comecei a ler sobre o pós-estruturalismo (Derridá, Foucault, Saussure, Althusser, Kristeva). A teoria tem suas ligações com o pós-modernismo, sobre o qual eu já escrevi por aqui [1][2][3][4]. De forma bem resumida, o pós-estruturalismo postulava que não havia uma verdade "la fora", mas que todas as nossas verdades eram construções de linguagem (significantes e significados).
Nesse contexto, o que mais me interessa é a possibilidade de que não exista de fato um sexo (gender) masculino de verdade, mas que o masculino seja sim um elaborado constructo social, uma idéia. Pesquisando essa idéia, cheguei no Feminist Practice and Poststructuralist Theory de Chris Weedon. Não é o livro mais bem escrito que eu já li, mas dá um apanhado decente do pós-estruturalismo e da sua relação com o feminismo (e consequentemente com o masculismo).
Em um determinado capítulo sobre linguagem e como os significados das coisas mudam de acordo com o contexto, Weedon mencionou os protestos da era Thatcher em 1984-85. O texto diz: "os conflitos de interesses fundamentais involvidos na questão levartam a uma situação em que as ações dos sindicalistas, políticos e da polícia receberam significados radicalmente diferentes em diferentes grupos de interesse. [...] Os mineiradores foram simultaneamente vistos como marginais criminosos e homens comuns de bem, ansioso para proteger seus sustentos e comunidades; os policiais eram ao mesmo tempo defensores da lei e agentes dos interesses classistas para os quais qualquer vestígio de moralidade e decência tinha desaparecido." Me interessei por esse trecho especificamente porque eu já tinha notado e talvez até escrito por aqui algo similar em relação aos protestos atuais. Porque aqui também havia protestantes pacíficos e protestantes violentos, policiais pacificadores e policiais brutais. Não havia verdade absoluta e o ato de um indivíduo de um desses grupos tinha o poder de gerar toda uma "verdade" que não passava de uma generalização perigosa sobre os grupos em questão.
E todas as generalizações são perigosas.
Especialmente no contexto do pós-estruturalismo.
Como forma de fundamentar o meu trabalho em alguma teoria (para que ele não fosse apenas baseado em experiências pessoais), comecei a ler sobre o pós-estruturalismo (Derridá, Foucault, Saussure, Althusser, Kristeva). A teoria tem suas ligações com o pós-modernismo, sobre o qual eu já escrevi por aqui [1][2][3][4]. De forma bem resumida, o pós-estruturalismo postulava que não havia uma verdade "la fora", mas que todas as nossas verdades eram construções de linguagem (significantes e significados).
Nesse contexto, o que mais me interessa é a possibilidade de que não exista de fato um sexo (gender) masculino de verdade, mas que o masculino seja sim um elaborado constructo social, uma idéia. Pesquisando essa idéia, cheguei no Feminist Practice and Poststructuralist Theory de Chris Weedon. Não é o livro mais bem escrito que eu já li, mas dá um apanhado decente do pós-estruturalismo e da sua relação com o feminismo (e consequentemente com o masculismo).
Em um determinado capítulo sobre linguagem e como os significados das coisas mudam de acordo com o contexto, Weedon mencionou os protestos da era Thatcher em 1984-85. O texto diz: "os conflitos de interesses fundamentais involvidos na questão levartam a uma situação em que as ações dos sindicalistas, políticos e da polícia receberam significados radicalmente diferentes em diferentes grupos de interesse. [...] Os mineiradores foram simultaneamente vistos como marginais criminosos e homens comuns de bem, ansioso para proteger seus sustentos e comunidades; os policiais eram ao mesmo tempo defensores da lei e agentes dos interesses classistas para os quais qualquer vestígio de moralidade e decência tinha desaparecido." Me interessei por esse trecho especificamente porque eu já tinha notado e talvez até escrito por aqui algo similar em relação aos protestos atuais. Porque aqui também havia protestantes pacíficos e protestantes violentos, policiais pacificadores e policiais brutais. Não havia verdade absoluta e o ato de um indivíduo de um desses grupos tinha o poder de gerar toda uma "verdade" que não passava de uma generalização perigosa sobre os grupos em questão.
E todas as generalizações são perigosas.
Especialmente no contexto do pós-estruturalismo.
quarta-feira, março 23, 2011
Changes
"Are you wearing make up?" asked French colleague Fanny. I suppose she was the fourth or fifth person to ask that day, but she was the only one to say it so loud. As usual, I acted nonchallantly and answered I was only using eyeliner. The choker was also something that drew attention, but I had worn it a couple of time before around here. And it wasn't my first time with the make up either. Throughout most of my presentations as the frontman for the Butcher's Daughter, I alternated between two different types eyeliners and other ambiguously gendered wears. The very fact that I had chosen to keep the name of the band as the Butcher's Daughter, knowing that it would likely be associated to me, already said something of my desire to test issues of gender. But perhaps the most significative detail about all this is that I was impossibly embarrassed to show my face like that to my family. I allowed myself to experiment outside the home, but I was always terribly frightened of their reaction, their critique. And this submission to their opinion was again evidenced by the fact that I edited my post about the Animal video to remove the paragraph about being naked in the park after receiving startled comments about it from the family.
Still, a change in my work was needed. I was failing miserably in my attempt to promote gender equality. Mostly because I, as a character, dressed and behaved as a male stereotype. My colleagues picked up on it and whenever I did something that escaped the stereotype, they would point it out and sneer. They were never serious about it like school bullies might have been to me in the past, but I felt championing manhood had landed me into the same vulnerability I was trying to escape.
The heart of the change I am talking about dealt with going from a position where I was championing masculinity and consequently slipping unconsciously into unwanted machismo (the denial of anything female); to a position closer to what current Feminism was about, advocating true gender equality and a blur in the distinction between gender roles.
So I was orchestrating a radical shift. A very radical shift. And for that to happen, a change in personality would have to occur as well. I could no longer afford to be that concerned with exterior critique if I wanted to explore all the possibilities of my work out here. The time was now: together with a change in seasons (from a season about death to a season about life) and the change from Unit 1 of our course (for experimentarion) and Unit 2 (for resolution). By the time the second unit of our course started, I wanted to be so completely different, that it would take by surprise everyone in Chelsea who had grown used to my male stereotype. And make up was a fairly light introduction to it.
At the moment, a few things have really caught my eye:
• I had a fairly long chat with my Lexy about rock bands in recent decades which revelled in using female attire (make-up, hair, clothing accessories) but still gave off a concept of heterossexual men (albeit highly sexualized men). Motley Crüe, Cinderella, The New York Dolls... The list is huge. And it feels to me like these men were so self-confident, that what they wore made little difference on how they were perceived. So they were free to actually wear anything, gender-wise.
• Our course leader Brian Chalkley's drag queen character Dawn Chalkley. Most people treat Dawn and Brian as separate things, even separate entities (on one particular emails, someone wrote to him: "I thought this could interest you, or Dawn."). That is to say, there is a performatic element which makes it clearly finite. Once the performance is over, Dawn becomes Brian. It's a lie and the lie is over. Going back to that idea of reality in art, I'm interested in something that can be (or at least look like it will be) an everlasting persona. The real me. And this real me isn't a drag queen character with another name, but a more gender-neutral version of me. And even if I gave up on this and went back to being a stereotyped male after the M.A. course because of personal concerns, there would still be the possibility of dragging this ungendered persona on indefinitely.
• Comming in contact with students from Middle-Eastern backgrounds, I was told muslim cultures place great value on hair as a sensual element. That is why women aren't allowed to wear their hair loose. On one particular occasion, I asked one of these students if she would still have to cover her head if she shaved her hair off. She didn't know what to think about that. In fact, shaving her head had never crossed her mind, such was the value placed on hair in her culture. But it got me to thinking about hair. How long does mine take to grow, how my beard and thick eyebrows today shape who I am (the man I am). This is one thing I could experiment with around here and go back to normal once I went back home.
• I feel it's relevant to mention the coincidence that I'm taking this turn into feminizing the male at the same moment when this is happening. It wasn't a conscious thing, and I'm loving the coincidence. No, you won't see me cosplaying as her, because I think it's more of a symbolic thing: it's as if an inner feminine aspect of myself was crossing over into the outer realm. But it will manifest itself differently out here. Does that make sense?
Still, some of these changes are going to have to wait. I'm travelling to Romania in April and the customs people need to be able to recognize my passport photo...
Still, a change in my work was needed. I was failing miserably in my attempt to promote gender equality. Mostly because I, as a character, dressed and behaved as a male stereotype. My colleagues picked up on it and whenever I did something that escaped the stereotype, they would point it out and sneer. They were never serious about it like school bullies might have been to me in the past, but I felt championing manhood had landed me into the same vulnerability I was trying to escape.
The heart of the change I am talking about dealt with going from a position where I was championing masculinity and consequently slipping unconsciously into unwanted machismo (the denial of anything female); to a position closer to what current Feminism was about, advocating true gender equality and a blur in the distinction between gender roles.
So I was orchestrating a radical shift. A very radical shift. And for that to happen, a change in personality would have to occur as well. I could no longer afford to be that concerned with exterior critique if I wanted to explore all the possibilities of my work out here. The time was now: together with a change in seasons (from a season about death to a season about life) and the change from Unit 1 of our course (for experimentarion) and Unit 2 (for resolution). By the time the second unit of our course started, I wanted to be so completely different, that it would take by surprise everyone in Chelsea who had grown used to my male stereotype. And make up was a fairly light introduction to it.
At the moment, a few things have really caught my eye:
• I had a fairly long chat with my Lexy about rock bands in recent decades which revelled in using female attire (make-up, hair, clothing accessories) but still gave off a concept of heterossexual men (albeit highly sexualized men). Motley Crüe, Cinderella, The New York Dolls... The list is huge. And it feels to me like these men were so self-confident, that what they wore made little difference on how they were perceived. So they were free to actually wear anything, gender-wise.
• Our course leader Brian Chalkley's drag queen character Dawn Chalkley. Most people treat Dawn and Brian as separate things, even separate entities (on one particular emails, someone wrote to him: "I thought this could interest you, or Dawn."). That is to say, there is a performatic element which makes it clearly finite. Once the performance is over, Dawn becomes Brian. It's a lie and the lie is over. Going back to that idea of reality in art, I'm interested in something that can be (or at least look like it will be) an everlasting persona. The real me. And this real me isn't a drag queen character with another name, but a more gender-neutral version of me. And even if I gave up on this and went back to being a stereotyped male after the M.A. course because of personal concerns, there would still be the possibility of dragging this ungendered persona on indefinitely.
• Comming in contact with students from Middle-Eastern backgrounds, I was told muslim cultures place great value on hair as a sensual element. That is why women aren't allowed to wear their hair loose. On one particular occasion, I asked one of these students if she would still have to cover her head if she shaved her hair off. She didn't know what to think about that. In fact, shaving her head had never crossed her mind, such was the value placed on hair in her culture. But it got me to thinking about hair. How long does mine take to grow, how my beard and thick eyebrows today shape who I am (the man I am). This is one thing I could experiment with around here and go back to normal once I went back home.
• I feel it's relevant to mention the coincidence that I'm taking this turn into feminizing the male at the same moment when this is happening. It wasn't a conscious thing, and I'm loving the coincidence. No, you won't see me cosplaying as her, because I think it's more of a symbolic thing: it's as if an inner feminine aspect of myself was crossing over into the outer realm. But it will manifest itself differently out here. Does that make sense?
Still, some of these changes are going to have to wait. I'm travelling to Romania in April and the customs people need to be able to recognize my passport photo...
terça-feira, março 22, 2011
Tutorial 5
40 minutes from Camberwell to Chelsea College. More than enough. Or so I thought when I boarded that morning's 436 close to St. Gile's Church. And despite that morning's unusually slow traffic, I really thought I would make it. But then the bus detoured at Oval station, a couple of stops away from my destination, due to engineering works. It went past the first option to get back on track because, being a double bus (one of those known as "bendy-buses" around here), it couldn't make that turn. It proceeded to take me all the way to Lambeth and back, spending an extra 15 minutes of what I would normally take to get to college.
As a result, my first tutorial with Stephen Wilson was rather short. I didn't have the initial 5 minutes I would usually take to set things up and consequently spend some of our conversation waiting for my computer to fire up and searching for files. I had no time to show him the Butcher's Daughter, no time to show the recent plans for performances. All I could do was give him an overview of what I was interested in and show him the button performance and the video in Burgess Park, as well as plans for the skirt I was thinking of designing.
I had seen Stephen around, but had no idea he was him. Stephen was a short man with a very friendly demeanor. Despite the delay, he made me feel fairly at ease at first, asking me about my origins and how long I'd been in London. Then, as we entered the territory of gender discussions, he began to show a more poignant side, with remarks that weren't entirely new to me, but were still very relevant and which signalled a fast mind when it came to grasping what I was about. The curious thing was that I just couldn't find anything about him on the internet. The name brought me to politicians and athletes, but no one related to the arts. I would later find that he prided himself in not having any info up on the net. Although I never got to approach the subject in our conversation, because of time constraints.
As for the button performance, Stephen insinuated that I was still generalizing. Although it was no longer the generalization about men as a whole gender, it was now the generalization about Brazilian and British culture. His most valuable piece of advice in this sense was to stop trying to state things and truths and try to ask instead. I wasn't a Brazilian, from a culture that was like this and that. I should instead ask why, as a Brazilian, I personally felt this and that way. This would open the possibility for people to engage with the discussion if they chose to, or simply dismiss it as my personal view on this or that subject. So, in a nutshell, I should get even more personal. This was again that first piece of advice Dawn Mellor had given me. And I was trying to do that, but still hadn't succeeded.
For a while, the discussion went into the subject of what I was dressing for the performance. Because that jacket and shirt were extremely male. As a response, I presented to him the plans I had for he skirt I wanted to design. Something that would be worn with that same jacket and shirt, but would be a skirt nonetheless. And in a culture that saw Scotish men wearing kilts as a norm, discusssing the skirt seemed somewhat relevant. I did however express my wish to avoid the drag queen scenario.
This lead us into a discusssion about characters. Because he envisioned me performing this or other future performances as a sort of a drag-queenish character. It was at that point that I showed him the animal video and the idea of the real in art, the avoidance of representation. I didn't want to be a character, I wanted to be me. It seemed a complex concept to grasp quickly, and let to some confusion.
Finally, we spoke about further searches for something that British culture still considered feminine. My recent talk with Adam Walker brought back to mind the question about why it was so hard for Britain to see men as child-minders, nannies, au pairs. The concept of the male dealing with kids as a paedophile here felt way stronger to me than it would be in my country. But even there, I don't remember having male teachers in my primary school.
I did envision a few ideas for future performances. Bringing a wardrobe and going with the audience through the process of choosing the appropriate clothes that didn't make me look either patriarchically masculine, nor drag-queenishly feminine. Or presenting myself as a male au pair. They are still ideas that deal with a heavy level of representation, creating a character.
As a final advice, Stephen Wilson told me not to make it comfortable. If I brought the gender issue to a situation where people were indeed comfortable with what I was saying, nothing would linger with them afterwards. Much like what Dexter Dalwood had pointed out about the one-night stand relationship and the long-lasting relationship. Making it comfortable would make this a cute one-night stand and nothing else.
As a result, my first tutorial with Stephen Wilson was rather short. I didn't have the initial 5 minutes I would usually take to set things up and consequently spend some of our conversation waiting for my computer to fire up and searching for files. I had no time to show him the Butcher's Daughter, no time to show the recent plans for performances. All I could do was give him an overview of what I was interested in and show him the button performance and the video in Burgess Park, as well as plans for the skirt I was thinking of designing.
I had seen Stephen around, but had no idea he was him. Stephen was a short man with a very friendly demeanor. Despite the delay, he made me feel fairly at ease at first, asking me about my origins and how long I'd been in London. Then, as we entered the territory of gender discussions, he began to show a more poignant side, with remarks that weren't entirely new to me, but were still very relevant and which signalled a fast mind when it came to grasping what I was about. The curious thing was that I just couldn't find anything about him on the internet. The name brought me to politicians and athletes, but no one related to the arts. I would later find that he prided himself in not having any info up on the net. Although I never got to approach the subject in our conversation, because of time constraints.
As for the button performance, Stephen insinuated that I was still generalizing. Although it was no longer the generalization about men as a whole gender, it was now the generalization about Brazilian and British culture. His most valuable piece of advice in this sense was to stop trying to state things and truths and try to ask instead. I wasn't a Brazilian, from a culture that was like this and that. I should instead ask why, as a Brazilian, I personally felt this and that way. This would open the possibility for people to engage with the discussion if they chose to, or simply dismiss it as my personal view on this or that subject. So, in a nutshell, I should get even more personal. This was again that first piece of advice Dawn Mellor had given me. And I was trying to do that, but still hadn't succeeded.
For a while, the discussion went into the subject of what I was dressing for the performance. Because that jacket and shirt were extremely male. As a response, I presented to him the plans I had for he skirt I wanted to design. Something that would be worn with that same jacket and shirt, but would be a skirt nonetheless. And in a culture that saw Scotish men wearing kilts as a norm, discusssing the skirt seemed somewhat relevant. I did however express my wish to avoid the drag queen scenario.
This lead us into a discusssion about characters. Because he envisioned me performing this or other future performances as a sort of a drag-queenish character. It was at that point that I showed him the animal video and the idea of the real in art, the avoidance of representation. I didn't want to be a character, I wanted to be me. It seemed a complex concept to grasp quickly, and let to some confusion.
Finally, we spoke about further searches for something that British culture still considered feminine. My recent talk with Adam Walker brought back to mind the question about why it was so hard for Britain to see men as child-minders, nannies, au pairs. The concept of the male dealing with kids as a paedophile here felt way stronger to me than it would be in my country. But even there, I don't remember having male teachers in my primary school.
I did envision a few ideas for future performances. Bringing a wardrobe and going with the audience through the process of choosing the appropriate clothes that didn't make me look either patriarchically masculine, nor drag-queenishly feminine. Or presenting myself as a male au pair. They are still ideas that deal with a heavy level of representation, creating a character.
As a final advice, Stephen Wilson told me not to make it comfortable. If I brought the gender issue to a situation where people were indeed comfortable with what I was saying, nothing would linger with them afterwards. Much like what Dexter Dalwood had pointed out about the one-night stand relationship and the long-lasting relationship. Making it comfortable would make this a cute one-night stand and nothing else.
segunda-feira, março 21, 2011
Critical Research Paper
Comecei a rever anotações e livros lidos para escrever um primeiro rascunho do trabalho escrito que eu tenho que entregar no mestrado. Nossa primeira data de entrega é agora em Abril, no dia 11.
Rever essas anotações foi refrescante. Eu percebi o quanto eu tinha sido distraído por questões menos importantes, pela política local, experimentos de técnica e até pela minha Filha do Açogueiro, deixando de lado o motivo que me trouxera até aqui. Acabei por me encontrar em um estado confuso, onde eu não sabia mais exatamente o que eu estava fazendo, o que relatar por aqui, ou qual dos três ou quatro caminhos diferentes que a minha arte estava tomando deveria ser escrito nesse rascunho. No fim das contas, tendo revisitado tudo que fiz por aqui, não encontrei razões suficientemente fortes para abandonar a questão masculista, mesmo que ela não funcionasse como eu queria por aqui. Aliás, talvez o próprio fato dela não funcionar aqui viraria o meu trabalho: a exploração das diferenças culturais na forma como o homem contemporâneo é percebido tanto pela cultura latina à qual eu pertenço e pela européia onde eu estou desenvolvendo o trabalho. Talvez o meu objetivo maior seja de fato executar meu papel como bridgehead de uma maneira positiva, exportando não o estilo de vida europeu como um todo (o que me faria cúmplice do colonialismo), mas apenas a visão européia da igualdade entre os sexos ("genders", não "sexes", lembra?). Como fazer isso? Bom, se eu soubesse, o processo não teria graça...
Mas outro gosto delicioso que eu tive de rever as minhas anotações foi encontrar pequenas citações que eu escrevia nos cantos das páginas, em balõezinhos de pensamento de história em quadrinhos. São pensamentos que nem sempre têm a ver com o masculismo. São divertidos, filosóficos, inspiradores:
• Do meu favorito Warren Farrell: "uma mulher pode ter ou não sucesso na carreira e ainda conseguir amor. Mas um homem que é apenas bonito e não tem sucesso, o que acontece com ele?"
• FEMINISMO procura formas de chegar ao PODER
MASCULISMO procura formas de compensar a perda do PODER
• Estatísticas na Inglaterra
SUICÍDIO
- 17 em cada 100,000 homens em 2008
- 6 em cada 100,000 mulheres em 2008
EXPECTATIVA DE VIDA:
- 81,9 anos para mulheres
- 77,7 anos para homens
• Para Lacan, o real é traumático. Se você não consegue traduzi-lo em linguagem, ele torna-se trauma, neurose.
• No Freud, Fabric & Fetish de Ann Hamlyn: teoristas vistos como fetishismo por palavras, a fobia de lidar com o real e sensorial.
Freud achava que mulheres eram naturalmente fetishistas: "homem gosta de mulher e mulher gosta de dinheiro"... ¬¬
• Do The Rules of No-Game de Anthony Wilden: "uma vaca não pode destruir o pasto que a alimenta"
• Se tudo aponta para um estado patriarcal onde os homens controlam o mercado de arte, para onde vão a maioria das mulheres estudantes de arte depois da gradução? Porque minha classe no bacharelado tinha 43 alunos e apenas 6 homens...
• Bell Hooks em Angry Women: "Eu ainda acho que os homens ainda não deram nome e lidaram com algumas de suas 'mazelas da infância (boyhood)' da mesma forma como o feminismo deu a nós mulheres os meios para nomear algumas das tragédias de nossa vida adulta na sociedade sexista."
• "No dia em que o aluno atingiu o nível máximo na sua disciplina, o mestre virou para ele e disse: agora BRINQUE!" Achei lindo essa. Porque acontece assim com qualquer habilidade que aprendemos. Me fez lembrar dos atletas de saltos ornamentais brincando depois da competição, dos acróbatas do circo brincando na cama-elástica, de vários dos meus textos e uns poucos dos meus desenhos...
• "A arte burguesa prende o artista em uma prisão invisível ao colocá-lo supostamente acima do trabalhador comum."
• Do Banksy: "As pessoas sempre pensam que, se elas se vestirem como revolucionários (rebeldes), elas não necessariamente precisarão se comportar como um."
Rever essas anotações foi refrescante. Eu percebi o quanto eu tinha sido distraído por questões menos importantes, pela política local, experimentos de técnica e até pela minha Filha do Açogueiro, deixando de lado o motivo que me trouxera até aqui. Acabei por me encontrar em um estado confuso, onde eu não sabia mais exatamente o que eu estava fazendo, o que relatar por aqui, ou qual dos três ou quatro caminhos diferentes que a minha arte estava tomando deveria ser escrito nesse rascunho. No fim das contas, tendo revisitado tudo que fiz por aqui, não encontrei razões suficientemente fortes para abandonar a questão masculista, mesmo que ela não funcionasse como eu queria por aqui. Aliás, talvez o próprio fato dela não funcionar aqui viraria o meu trabalho: a exploração das diferenças culturais na forma como o homem contemporâneo é percebido tanto pela cultura latina à qual eu pertenço e pela européia onde eu estou desenvolvendo o trabalho. Talvez o meu objetivo maior seja de fato executar meu papel como bridgehead de uma maneira positiva, exportando não o estilo de vida europeu como um todo (o que me faria cúmplice do colonialismo), mas apenas a visão européia da igualdade entre os sexos ("genders", não "sexes", lembra?). Como fazer isso? Bom, se eu soubesse, o processo não teria graça...
Mas outro gosto delicioso que eu tive de rever as minhas anotações foi encontrar pequenas citações que eu escrevia nos cantos das páginas, em balõezinhos de pensamento de história em quadrinhos. São pensamentos que nem sempre têm a ver com o masculismo. São divertidos, filosóficos, inspiradores:
• Do meu favorito Warren Farrell: "uma mulher pode ter ou não sucesso na carreira e ainda conseguir amor. Mas um homem que é apenas bonito e não tem sucesso, o que acontece com ele?"
• FEMINISMO procura formas de chegar ao PODER
MASCULISMO procura formas de compensar a perda do PODER
• Estatísticas na Inglaterra
SUICÍDIO
- 17 em cada 100,000 homens em 2008
- 6 em cada 100,000 mulheres em 2008
EXPECTATIVA DE VIDA:
- 81,9 anos para mulheres
- 77,7 anos para homens
• Para Lacan, o real é traumático. Se você não consegue traduzi-lo em linguagem, ele torna-se trauma, neurose.
• No Freud, Fabric & Fetish de Ann Hamlyn: teoristas vistos como fetishismo por palavras, a fobia de lidar com o real e sensorial.
Freud achava que mulheres eram naturalmente fetishistas: "homem gosta de mulher e mulher gosta de dinheiro"... ¬¬
• Do The Rules of No-Game de Anthony Wilden: "uma vaca não pode destruir o pasto que a alimenta"
• Se tudo aponta para um estado patriarcal onde os homens controlam o mercado de arte, para onde vão a maioria das mulheres estudantes de arte depois da gradução? Porque minha classe no bacharelado tinha 43 alunos e apenas 6 homens...
• Bell Hooks em Angry Women: "Eu ainda acho que os homens ainda não deram nome e lidaram com algumas de suas 'mazelas da infância (boyhood)' da mesma forma como o feminismo deu a nós mulheres os meios para nomear algumas das tragédias de nossa vida adulta na sociedade sexista."
• "No dia em que o aluno atingiu o nível máximo na sua disciplina, o mestre virou para ele e disse: agora BRINQUE!" Achei lindo essa. Porque acontece assim com qualquer habilidade que aprendemos. Me fez lembrar dos atletas de saltos ornamentais brincando depois da competição, dos acróbatas do circo brincando na cama-elástica, de vários dos meus textos e uns poucos dos meus desenhos...
• "A arte burguesa prende o artista em uma prisão invisível ao colocá-lo supostamente acima do trabalhador comum."
• Do Banksy: "As pessoas sempre pensam que, se elas se vestirem como revolucionários (rebeldes), elas não necessariamente precisarão se comportar como um."
terça-feira, março 15, 2011
Tutorial com Chandetti e as performances de Natoli
Ainda pensando sobre a verdade na arte, tive essa semana aquele tutorial de grupo com o Marco Chandetti. O tutorial em si foi muito interessante. Mostrei a performance e escultura sobre o botão e o meu vídeo do parque. Ainda estou processando tudo o que Marco e os meu colegas me disseram, mas no geral tive boas respostas em relação às performances. São as coisas que têm suscitado os melhores feedbacks por aqui. Um dos meus colegas, o italiano Iacopo Natoli, comentou no entanto que o vídeo jamais faria juz à performance. E apesar daquela parte mais imatura de mim querer negar isso (por querer algo físico e vendável para as galerias, como um vídeo), todo o resto de mim concordava. Principalmente na situação do vídeo no parque. O principal daquela experiência era o estar naquele parque. Era tudo o que eu escrevi no post sobre aquela experiência. Tudo que eu fizesse em termos de documentação seria mais uma camada entre quem assiste à experiência e o fato concreto e real dela. Ou seja, eu não sou um animal andando na floresta no escuro. O fato de eu ser um ser humano contemporâneo em um parque no meio de Londres já é uma camada de separação. Um vídeo sobre um ser humano em um parque em Londres seria outra camada. Um texto sobre o vídeo, uma terceira. Até que a experiência em si se perde para quem vê o trabalho. O que Iacopo queria dizer era que quanto mais próximo do real eu estivesse, melhor seria o trabalho. E eu concordava plenamente. O pregar o botão era outra coisa. A escultura feita sobre o vídeo, feito da performance, feita sobre a experiência de nunca ter pregado um botão.
Antes de continuarmos o tutorial de grupo para ver o trabalho de Iacopo e dos outros, eles mencionaram algumas referências que ainda preciso procurar. Haley Newman aparentemente documentava performances que nunca ocorreram. Ela criava documentação falsa. Achei interessante, e que talvez ela me ensinasse uma coisa ou outra sobre como documentar melhor essas coisas que tenho feito. Mencionaram Francis Alys sobre performances e Guy Debord sobre essa questão da realidade na arte.
E então passamos a ver um trabalho de Iacopo (ele em si não é muito bom de documentação, mas aqui está: [1][2]). Ele nos levou para uma sala da biblioteca da faculdade conhecida como a Sala Silenciosa, onde pode-se levar livros para ler em um ambiente totalmente silencioso. Carpetes e papel de parede abafam os ruídos, celulares não são permitidos e não há computadores ou outras máquinas murmurando aquele zumbido distante. Todo mundo respeita o lugar e não fala enquanto está lá dentro. Absoluto silêncio. Tanto que ouve-se o roçar dos tecidos das calças quando andamos. Uma vez que estávamos todos lá (uns dez alunos, Marco Chiandetti e mais dois leitores que não pertenciam à turma), Iacopo tirou do bolso diversas pilhas de papel cortado em quadrados, cada um com uma letra do alfabeto, e organizou-os em uma linha, alfabeticamente. Havia vários quadrados de cada letra. Então ele tomou alguns quadrados e soletrou:
NÃO PODEMOS FALAR AQUI
Rimos baixinho. Ele não fez mais nada. Pasou-se um tempo até que um dos colegas tomasse a iniciativa de pegar algumas letras e escrever:
OLÁ
Também resolvi me divertir e escrevi:
NÃO É MUITO EFICIENTE EM TERMOS DE TEMPO (E de fato, demorei para escrever tudo isso)
Um dos nossos colegas resolveu não brincar e falou em voz alta: "Eu acho que convenções são um saco, então eu vou falar". Ele foi imediatamente repreendido pelos outros, que escreveram com os papéis coisas como "SHH" ou "SILÊNCIO" ou gesticularam.
Depois de um tempo, resolvemos sair para discutir lá fora.
A performance de Iacopo tinha funcionado muito bem. Engajou todo mundo, era diretamente relacionada ao lugar em que estava acontecendo e à situação daquele tutorial. Era verdadeira. Tanto que alguém depois viria a perguntar "mas e se alguém ali fosse cego?" Obviamente, Iacopo teria feito outra coisa. A questão é que ele pensou naquela performance especificamente para aquele lugar e aquela platéia de poucas pessoas que ele conhecia muito bem.
Mas havia ainda uma outra questão muito pertinente e importante no que ele tinha feito. Porque ele poderia simplesmente ter colocado folhas de papel em branco e trazido canetas. E todo mundo escreveria. Seria mais rápido e prático.
Mas não seria tão divertido.
Se ele tivesse feito isso, não seria mais sequer uma performance. Seria a situação em si. Eu senti que precisava de alguma distância da situação real para transformar aquilo em performance. Era preciso pelo menos uma camada de separação. Algo que passasse da situação em si, como ela se apresenta na vida real, para um segundo momento: talvez uma crítica, uma sátira, um jogo. Mas não mais do que isso, ou viraria algo muito irreal.
Acho que, se considerei David Ben White o meu mestre de pintura entre os alunos, talvez Iacopo Natoli fosse o meu mestre de performance.
Antes de continuarmos o tutorial de grupo para ver o trabalho de Iacopo e dos outros, eles mencionaram algumas referências que ainda preciso procurar. Haley Newman aparentemente documentava performances que nunca ocorreram. Ela criava documentação falsa. Achei interessante, e que talvez ela me ensinasse uma coisa ou outra sobre como documentar melhor essas coisas que tenho feito. Mencionaram Francis Alys sobre performances e Guy Debord sobre essa questão da realidade na arte.
E então passamos a ver um trabalho de Iacopo (ele em si não é muito bom de documentação, mas aqui está: [1][2]). Ele nos levou para uma sala da biblioteca da faculdade conhecida como a Sala Silenciosa, onde pode-se levar livros para ler em um ambiente totalmente silencioso. Carpetes e papel de parede abafam os ruídos, celulares não são permitidos e não há computadores ou outras máquinas murmurando aquele zumbido distante. Todo mundo respeita o lugar e não fala enquanto está lá dentro. Absoluto silêncio. Tanto que ouve-se o roçar dos tecidos das calças quando andamos. Uma vez que estávamos todos lá (uns dez alunos, Marco Chiandetti e mais dois leitores que não pertenciam à turma), Iacopo tirou do bolso diversas pilhas de papel cortado em quadrados, cada um com uma letra do alfabeto, e organizou-os em uma linha, alfabeticamente. Havia vários quadrados de cada letra. Então ele tomou alguns quadrados e soletrou:
NÃO PODEMOS FALAR AQUI
Rimos baixinho. Ele não fez mais nada. Pasou-se um tempo até que um dos colegas tomasse a iniciativa de pegar algumas letras e escrever:
OLÁ
Também resolvi me divertir e escrevi:
NÃO É MUITO EFICIENTE EM TERMOS DE TEMPO (E de fato, demorei para escrever tudo isso)
Um dos nossos colegas resolveu não brincar e falou em voz alta: "Eu acho que convenções são um saco, então eu vou falar". Ele foi imediatamente repreendido pelos outros, que escreveram com os papéis coisas como "SHH" ou "SILÊNCIO" ou gesticularam.
Depois de um tempo, resolvemos sair para discutir lá fora.
A performance de Iacopo tinha funcionado muito bem. Engajou todo mundo, era diretamente relacionada ao lugar em que estava acontecendo e à situação daquele tutorial. Era verdadeira. Tanto que alguém depois viria a perguntar "mas e se alguém ali fosse cego?" Obviamente, Iacopo teria feito outra coisa. A questão é que ele pensou naquela performance especificamente para aquele lugar e aquela platéia de poucas pessoas que ele conhecia muito bem.
Mas havia ainda uma outra questão muito pertinente e importante no que ele tinha feito. Porque ele poderia simplesmente ter colocado folhas de papel em branco e trazido canetas. E todo mundo escreveria. Seria mais rápido e prático.
Mas não seria tão divertido.
Se ele tivesse feito isso, não seria mais sequer uma performance. Seria a situação em si. Eu senti que precisava de alguma distância da situação real para transformar aquilo em performance. Era preciso pelo menos uma camada de separação. Algo que passasse da situação em si, como ela se apresenta na vida real, para um segundo momento: talvez uma crítica, uma sátira, um jogo. Mas não mais do que isso, ou viraria algo muito irreal.
Acho que, se considerei David Ben White o meu mestre de pintura entre os alunos, talvez Iacopo Natoli fosse o meu mestre de performance.
sexta-feira, março 11, 2011
"Gender" & "Sex"
Continuo voltando para algo que um dos membros da platéia disse na minha performance do botão no Q-Art Convenor. Ele tinha dito que a questão toda que eu estava tratando tinha a ver com gender roles [algo como "papéis de cada sexo"], e não com orientação sexual. Foi um comentário brilhante e acho que a idéia estivera na minha cabeça em algum nível inconsciente, mas eu nunca me preocupei em formular. O que eu estava tentando fazer ao pregar o botão e em outros experimentos mais recentes, era de fato "dessexualizar" as atitudes femininas executadas por homens.
Na verdade, há um componente linguístico importante que eu tenho que explicar melhor aqui. Há no inglês uma diferência entre "gender" e "sex". Porém no português, ambos são mencionados como "sexo". O primeiro é a separação entre masculino e feminino, enquanto o segundo é mais relacionado ao ato sexual em si. Evito usar "gênero" no português, porque carrega significados completamente irrelevantes: um gênero de filme (terror, drama, romance, suspense, etc...), por exemplo.
Meu trabalho, agora entendo, estava muito mais no âmbito do "gender" do que do "sex". Portanto, quando menciono a dessexualização do ato feminino executado pelo indivíduo masculino, o que eu quero dizer é que quero que o meu trabalho trate da questão política do "gender" e das gender roles, e permita que os homens tratem de tarefas e hábitos femininos, sem entrar desnecessariamente na questão do "sex", da orientação sexual.
Agora fiquei curioso a respeito dos efeitos que essa falta de diferenciação entre os termos pode ter nas culturas latinas. Será que está de fato dificultando a compreensão dessa separação? A pesquisar quando eu voltar...
Na verdade, há um componente linguístico importante que eu tenho que explicar melhor aqui. Há no inglês uma diferência entre "gender" e "sex". Porém no português, ambos são mencionados como "sexo". O primeiro é a separação entre masculino e feminino, enquanto o segundo é mais relacionado ao ato sexual em si. Evito usar "gênero" no português, porque carrega significados completamente irrelevantes: um gênero de filme (terror, drama, romance, suspense, etc...), por exemplo.
Meu trabalho, agora entendo, estava muito mais no âmbito do "gender" do que do "sex". Portanto, quando menciono a dessexualização do ato feminino executado pelo indivíduo masculino, o que eu quero dizer é que quero que o meu trabalho trate da questão política do "gender" e das gender roles, e permita que os homens tratem de tarefas e hábitos femininos, sem entrar desnecessariamente na questão do "sex", da orientação sexual.
Agora fiquei curioso a respeito dos efeitos que essa falta de diferenciação entre os termos pode ter nas culturas latinas. Será que está de fato dificultando a compreensão dessa separação? A pesquisar quando eu voltar...
Notes on "Animal"
I thought it could be relevant to write about my experience for Mark McGowan’s performance workshops about “becoming an animal and the revolution” before the rawness of it drowned away on the day’s many trivial tasks. I had not yet read the text he linked on the Facebook page, about Delueze and Guattari’s notion of becoming-animal. But I suppose in some way, I experienced something of what the text describes.
My idea was simple: I had seen foxes in Burgess Park, close to where I’m staying, and I wanted to film them. Simply because I had never seen a real fox before. But I decided I wasn’t just going to stride up to the park, camera in hand, and chase after the animals. I would try to become like them.
I chose night-time to do this, because that was when I usually saw them. But also because I felt there was something about being an animal like a fox, a rare and untamed one, that fit well with the night. The dark allowed for stealthier movement and these animals wanted to keep out of sight.
The beginning wasn’t easy. Close to my apartment, I still felt somewhat too human. And most of the things I tried just felt silly and awkward. I wanted to hide away from the passing people and cars, but ducking behind the nearest wall felt improper. Like I was about to commit a crime. A human crime. I was afraid of being caught on CCTV and being interpreted as a burglar of sorts. But once I reached the park, I felt more confident there would be no cameras around.
On my entrance to the park, I was greeted by a cat. It responded amiably to my body language and came close, despite the fact we were interacting in the very middle of the street, unsheltered. There was something fairly poetic about the encounter, in a narrative way. As if that cat had been some gatekeeper into the realm of animals. Further along the street, I found another cat. But this time, instead of greeting it and beckoning it to come close, I dashed towards it to scare it. I wanted to experience the other feeling, of a real threat. Even if I was the threat. The park at night seemed scary to me, as if I’d probably experience some grade of violence in there, being mugged or running into people doing heavy drugs, for example. And I wanted to get some reference of that feeling before coming in. I wanted the cat to teach me when to run.
In the park, there was a noticeable change.
I stood on the edge of the light, looking into the silhouettes of the trees in the dark and the city lights beyond the park. Was there a presence there somewhere? A threat? I couldn’t know. People walking their dogs seemed to sprout from the darkness itself and walk past me. But once I actually stepped into the dark and my eyes adjusted, I gained a whole new awareness. One that I could never express in video. It felt like going through a veil into a sort of parallel dimension. I had a notion of the entire park before me, and of people walking in the light as if they were incapable of seeing me. I could see the silhouettes of other people moving in the shadows and understand each of their purposes. I could walk among the trees, out of sight, and observe anything that ventured into the park.
And that’s how I found the foxes. One of them trotted past one of the lamp posts in the distance and I knew. More than that, I knew they had a natural way of keeping out of sight: since I could only see other people by noticing their silhouettes against the city lights, the smaller animals were kept out of sight because their figures never reached eye-level to be seen against the lights. They were always camouflaged against the dark grass. But once I crouched to their level, I could spot two of them in the distance.
There was some defiance to them. They would lay on the paved walkways, just being there, until they had a glimpse of someone on the horizon. Then they would rush to the bushes on the far end of the park. There was an exhilarating comprehension that, if they were under the lights, they were on the other side of that veil, on the realm of light. Which meant they couldn’t see me. It allowed me to get amazingly close to them, until the sound of me stepping on the grass alerted them.
After they had gone, I played with this newfound skill a while longer. Keeping out of sight of people. The hardest thing was to remember to look in every direction. And I believe I blew my cover several times by just dashing from behind the trees before noticing this or that pedestrian on a nearby walkway. Which I’m sure made me look somewhat like a stalker. But I didn’t care. I went back into the darkness and lay low. The rush of adrenaline in this game was so soothing, that after an hour of doing this, I realized I no longer felt the cold night air.
I noticed, when I stepped out of the darkness into the light, that I was once again on that side of the veil. Things in the darkness were no longer visible and all the spatial notion I had was restricted to the dimly-lit walkways and the faraway city lights. I was making my way back into being a human.
My idea was simple: I had seen foxes in Burgess Park, close to where I’m staying, and I wanted to film them. Simply because I had never seen a real fox before. But I decided I wasn’t just going to stride up to the park, camera in hand, and chase after the animals. I would try to become like them.
I chose night-time to do this, because that was when I usually saw them. But also because I felt there was something about being an animal like a fox, a rare and untamed one, that fit well with the night. The dark allowed for stealthier movement and these animals wanted to keep out of sight.
The beginning wasn’t easy. Close to my apartment, I still felt somewhat too human. And most of the things I tried just felt silly and awkward. I wanted to hide away from the passing people and cars, but ducking behind the nearest wall felt improper. Like I was about to commit a crime. A human crime. I was afraid of being caught on CCTV and being interpreted as a burglar of sorts. But once I reached the park, I felt more confident there would be no cameras around.
On my entrance to the park, I was greeted by a cat. It responded amiably to my body language and came close, despite the fact we were interacting in the very middle of the street, unsheltered. There was something fairly poetic about the encounter, in a narrative way. As if that cat had been some gatekeeper into the realm of animals. Further along the street, I found another cat. But this time, instead of greeting it and beckoning it to come close, I dashed towards it to scare it. I wanted to experience the other feeling, of a real threat. Even if I was the threat. The park at night seemed scary to me, as if I’d probably experience some grade of violence in there, being mugged or running into people doing heavy drugs, for example. And I wanted to get some reference of that feeling before coming in. I wanted the cat to teach me when to run.
In the park, there was a noticeable change.
I stood on the edge of the light, looking into the silhouettes of the trees in the dark and the city lights beyond the park. Was there a presence there somewhere? A threat? I couldn’t know. People walking their dogs seemed to sprout from the darkness itself and walk past me. But once I actually stepped into the dark and my eyes adjusted, I gained a whole new awareness. One that I could never express in video. It felt like going through a veil into a sort of parallel dimension. I had a notion of the entire park before me, and of people walking in the light as if they were incapable of seeing me. I could see the silhouettes of other people moving in the shadows and understand each of their purposes. I could walk among the trees, out of sight, and observe anything that ventured into the park.
And that’s how I found the foxes. One of them trotted past one of the lamp posts in the distance and I knew. More than that, I knew they had a natural way of keeping out of sight: since I could only see other people by noticing their silhouettes against the city lights, the smaller animals were kept out of sight because their figures never reached eye-level to be seen against the lights. They were always camouflaged against the dark grass. But once I crouched to their level, I could spot two of them in the distance.
There was some defiance to them. They would lay on the paved walkways, just being there, until they had a glimpse of someone on the horizon. Then they would rush to the bushes on the far end of the park. There was an exhilarating comprehension that, if they were under the lights, they were on the other side of that veil, on the realm of light. Which meant they couldn’t see me. It allowed me to get amazingly close to them, until the sound of me stepping on the grass alerted them.
After they had gone, I played with this newfound skill a while longer. Keeping out of sight of people. The hardest thing was to remember to look in every direction. And I believe I blew my cover several times by just dashing from behind the trees before noticing this or that pedestrian on a nearby walkway. Which I’m sure made me look somewhat like a stalker. But I didn’t care. I went back into the darkness and lay low. The rush of adrenaline in this game was so soothing, that after an hour of doing this, I realized I no longer felt the cold night air.
I noticed, when I stepped out of the darkness into the light, that I was once again on that side of the veil. Things in the darkness were no longer visible and all the spatial notion I had was restricted to the dimly-lit walkways and the faraway city lights. I was making my way back into being a human.
Animal
Continuo a transição da ordem para o caos. Resultado disso é que não tenho tido disciplina suficiente para escrever aqui enquanto uma das épocas mais produtivas transcorre rapidamente.
A arte que surge desses mergulhos na loucura sempre tem um caráter dúbio. Por um lado, eu considero serem as melhores coisas que eu faço, cheias de um impacto visceral, por vezes cheias daquela verdade que eu mencionei. Por outro lado, receio mostrá-las a algumas pessoas que conhecem um lado mais pacato meu. Receio do ridículo. Mais ainda, receio de parecer mesmerizado pelo ridículo, achando-o maravilhoso. Mas vou arriscar.
Recentemente comecei a participar de uns workshops de performance dados pelo artista Mark McGowan. Embora eu não tenha gostado inicialmente do trabalho dele, o primeiro workshop (do qual eu não participei...) teve resultados interessantes entre os meus colegas. Nesse segundo, ele estabeleceu o tema "becoming an animal" [tornando-se um animal] e a regra de que quem quisesse participar deveria fazer um vídeo sobre o tema e postá-lo na página da turma de mestrado no Facebook.
Interessado no tema desde a época das minhas fotos de fantasmas, passei a semana pensando no que fazer. Idéias simples, insossas, banais. Até que lembrei das raposas que por vezes tinha visto perto do Burgess Park à noite. Essa idéia me fez lembrar de outra, de um texto antigo que eu tinha escrito sobre um animal-homem que, vivendo no meio da floresta, tinha que ficar acordado e atento à noite para não ser devorado por predadores.
Num daqueles impulsos impensados, peguei minha câmera e fui em direção ao Burgess Park.
A arte que surge desses mergulhos na loucura sempre tem um caráter dúbio. Por um lado, eu considero serem as melhores coisas que eu faço, cheias de um impacto visceral, por vezes cheias daquela verdade que eu mencionei. Por outro lado, receio mostrá-las a algumas pessoas que conhecem um lado mais pacato meu. Receio do ridículo. Mais ainda, receio de parecer mesmerizado pelo ridículo, achando-o maravilhoso. Mas vou arriscar.
Recentemente comecei a participar de uns workshops de performance dados pelo artista Mark McGowan. Embora eu não tenha gostado inicialmente do trabalho dele, o primeiro workshop (do qual eu não participei...) teve resultados interessantes entre os meus colegas. Nesse segundo, ele estabeleceu o tema "becoming an animal" [tornando-se um animal] e a regra de que quem quisesse participar deveria fazer um vídeo sobre o tema e postá-lo na página da turma de mestrado no Facebook.
Interessado no tema desde a época das minhas fotos de fantasmas, passei a semana pensando no que fazer. Idéias simples, insossas, banais. Até que lembrei das raposas que por vezes tinha visto perto do Burgess Park à noite. Essa idéia me fez lembrar de outra, de um texto antigo que eu tinha escrito sobre um animal-homem que, vivendo no meio da floresta, tinha que ficar acordado e atento à noite para não ser devorado por predadores.
Num daqueles impulsos impensados, peguei minha câmera e fui em direção ao Burgess Park.
quinta-feira, março 10, 2011
O retrato de Dawn Mellor
"Você fez um retrato da Dawn Mellor? Quero ver!" disse Brian Chalkley entusiasmado. Estavamos conversando sobre um concurso de retratos que abriu inscrições esta semana. O prêmio era de £1000. Frustração por não ter meus cerca de vinte e poucos retratos diversos feitos ao longo dos anos aqui comigo. Tinha inscrito meu retrato da minha primeira tutora, meio desacreditando que pudesse chegar a algum lugar. O sentimento se intensificou depois que vi alguns dos meus concorrentes.
Mas então veio esse comentário de Brian. Me surpreendeu, porque o retrato estivera encostado na minha parede há muito tempo, e certamente ele tinha passado por aqui enquanto ele estava à mostra. A verdade é que eu o estava escondendo. Não tinha gostado e nem levava a sério algo que eu tinha pintado em um impulso de raiva. Mantinha-o meio coberto também para que Dawn não o visse, já que tinha qualquer coisa de ofensivo nele. Mas depois fui saber por Nataliia, minha colega ucraniana, que Dawn já o tinha visto e perguntara sorrindo se era ela.
Hoje à tarde, Hanna, uma colega da República Tcheca, me encontrou no corredor. "Pablo! Er... Pedro! Eu adorei seu retrato da Dawn Mellor! Você venderia ele para mim?"
Por um momento, achei que fosse uma brincadeira de mau gosto. Hanna já se pronunciara abertamente avessa ao meu projeto do masculismo e sempre mantinha uma certa distância de mim. Estranhei o interesse. Mas ela insistiu que falava sério.
Estou pensando em quanto cobrar sobre um trabalho que não gostei, que seria chato de levar de volta ao meu país, e para uma colega que está tão interessada assim.
Mais do que isso, estou pensando: será que o quadro de Dawn tem aquela verdade que eu mencionei?
Mas então veio esse comentário de Brian. Me surpreendeu, porque o retrato estivera encostado na minha parede há muito tempo, e certamente ele tinha passado por aqui enquanto ele estava à mostra. A verdade é que eu o estava escondendo. Não tinha gostado e nem levava a sério algo que eu tinha pintado em um impulso de raiva. Mantinha-o meio coberto também para que Dawn não o visse, já que tinha qualquer coisa de ofensivo nele. Mas depois fui saber por Nataliia, minha colega ucraniana, que Dawn já o tinha visto e perguntara sorrindo se era ela.
Hoje à tarde, Hanna, uma colega da República Tcheca, me encontrou no corredor. "Pablo! Er... Pedro! Eu adorei seu retrato da Dawn Mellor! Você venderia ele para mim?"
Por um momento, achei que fosse uma brincadeira de mau gosto. Hanna já se pronunciara abertamente avessa ao meu projeto do masculismo e sempre mantinha uma certa distância de mim. Estranhei o interesse. Mas ela insistiu que falava sério.
Estou pensando em quanto cobrar sobre um trabalho que não gostei, que seria chato de levar de volta ao meu país, e para uma colega que está tão interessada assim.
Mais do que isso, estou pensando: será que o quadro de Dawn tem aquela verdade que eu mencionei?
quinta-feira, março 03, 2011
Big macho painters
Ainda pensando sobre as discussões dos pintores.
Esse embate do pintor com a obra, que normalmente envolve camadas grossas de tinta, telas enormes e um fervor produtivo tremendo, são o que eu imagino ser associado pelas feministas aos "grandes pintores machos". Há uma discussão no feminismo de que a pintura de grande escala é reduto dos homens, do qual elas não conseguem fazer parte. Prova disso é que são raras as pintoras de sucesso na história da arte, e ainda mais raras as que trabalham em grande escala. Eu sinto que espera-se mais destreza e controle de uma pintora, e mais energia e explosão de um pintor. Mas isso são generalizações perigosas e contradizíveis que ninguém quer admitir.
Uma colega turca recentemente comentou que queria começar a fazer pinturas grandes. Estava interessada na relação do tamanho do corpo e os movimentos dela com o tamanho da tela. Adverti sobre essa generalização, comentando que em uma pintura masculina, seriam observados os gestos, enquanto que na pintura feminina, haveria a fetichização do corpo da pintora fazendo aquilo. Uma mulher comentando sobre a relação do corpo dela com qualquer coisa facilmente cairia na discussão feminista da mulher como corpo, a objetificação da mulher. E ela claramente não estava interessada na questão. Por outro lado, é difícil cair nessa questão quase sexual quando se fala da relação do corpo de um homem com uma pintura.
E quanto a mim? Eu, que estava fazendo cartões postais diminutos em aquarela. Havia uma recusa consciente de fazer parte do estereótipo do grande pintor machão. Mas eu já estava começando a sentir que era recusar por recusar. O problema não era o pintor machão em si, mas o sistema em torno dele, que o protegia e mantinha pintoras semelhantes de fora. Mas então? Será que eu deveria tentar redimir o grande pintor machão adotando sua mídia? Começo a pensar que talvez eu deva simplesmente ignorar a questão. Fazer pintura em grandes formatos se eu quiser, sem medo de ser feliz, porque afinal eu sou um homem mesmo. E deixar essa discussão para acontecer fora das telas, nas rodinhas sociais durante as vernissages. Nem tudo PRECISA virar assunto de pintura.
Esse embate do pintor com a obra, que normalmente envolve camadas grossas de tinta, telas enormes e um fervor produtivo tremendo, são o que eu imagino ser associado pelas feministas aos "grandes pintores machos". Há uma discussão no feminismo de que a pintura de grande escala é reduto dos homens, do qual elas não conseguem fazer parte. Prova disso é que são raras as pintoras de sucesso na história da arte, e ainda mais raras as que trabalham em grande escala. Eu sinto que espera-se mais destreza e controle de uma pintora, e mais energia e explosão de um pintor. Mas isso são generalizações perigosas e contradizíveis que ninguém quer admitir.
Uma colega turca recentemente comentou que queria começar a fazer pinturas grandes. Estava interessada na relação do tamanho do corpo e os movimentos dela com o tamanho da tela. Adverti sobre essa generalização, comentando que em uma pintura masculina, seriam observados os gestos, enquanto que na pintura feminina, haveria a fetichização do corpo da pintora fazendo aquilo. Uma mulher comentando sobre a relação do corpo dela com qualquer coisa facilmente cairia na discussão feminista da mulher como corpo, a objetificação da mulher. E ela claramente não estava interessada na questão. Por outro lado, é difícil cair nessa questão quase sexual quando se fala da relação do corpo de um homem com uma pintura.
E quanto a mim? Eu, que estava fazendo cartões postais diminutos em aquarela. Havia uma recusa consciente de fazer parte do estereótipo do grande pintor machão. Mas eu já estava começando a sentir que era recusar por recusar. O problema não era o pintor machão em si, mas o sistema em torno dele, que o protegia e mantinha pintoras semelhantes de fora. Mas então? Será que eu deveria tentar redimir o grande pintor machão adotando sua mídia? Começo a pensar que talvez eu deva simplesmente ignorar a questão. Fazer pintura em grandes formatos se eu quiser, sem medo de ser feliz, porque afinal eu sou um homem mesmo. E deixar essa discussão para acontecer fora das telas, nas rodinhas sociais durante as vernissages. Nem tudo PRECISA virar assunto de pintura.
Verdade
Os pintores da classe resolveram promover discussões sobre pintua a cada duas sextas-feiras. Tenho participado delas, embora ainda não tenha aparecido a chance para mostrar meus cartões postais.
Essas discussões sobre pintura, o embate do Interim Show, algumas conversas com colegas e até o caráter quase não-performático da minha performance (que a aproxima de uma conversa aberta com a platéia) despertaram em mim um interesse sobre a verdade na arte. Nas discussões dos pintores, vi surgirem duas vertentes: pintores que, como eu, ilustram uma cena da melhor maneira possível e tentam contar uma história; e pintores como David Ben White, que organiza as discussões, e cuja pintura lida mais com o embate direto entre pintor e material.
David está participando hoje de uma exposição na Studio 1.1 em Shoreditch, leste de Londres. Detesto Shoreditch: chegar lá é um peregrinação (talvez proposital para atrair apenas os interessados) e o bairro é um dos poucos lugares em londres onde a pixação nas portas das lojas corre solta. Sensação de bairro decadente. Ainda assim, é onde estão todas as galerias do momento.
As pinturas recentes de David Ben White exemplificam nessa mídia o que eu quero dizer por verdade na arte. Eu acho que cada pintura de David são na verdade duas. Primeiro, com uma técnica estranha de diluir muito a tinta a óleo e aplicá-la sobre compensado de madeira, ele monta um cenário doméstico pintado de forma bem ilustrativa, mas talvez despropositalmente "descuidada". Ele deixa o óleo severamente diluído escorrer, arruma detalhes com o dedo, não se preocupa muito com fotorealismo. Mas consegue resultados figurativos decentes. Suas imagens partem de fotos que ele mesmo tira dos ambientes domésticos de sua casa. Tudo sempre monocromático. Num segundo momento (e talvez uma segunda pintura) ele cobre parte do que fez com padrões abstratos de uma tinta pesada, densa, às vezes misturada com areia e argamassa. Formas sempre planas, sem volume (luz e sombra). Tudo sempre bem colorido. Esse ato de cobrir a pintura anterior cria relações bem interessantes. Porque o fundo tem perspectiva, volume, profundidade. Todo um jogo de ilusão. Daí o abstrato lembra que aquilo é uma pintura bidimensional, não dá pra "entrar" no quadro. Ele faz questão de evidenciar o ato de "cobrir", deixando buracos nesses padrões abstratos através dos quais dá pra ver a continuação da ilustração por baixo. Às vezes, David brinca de fazer o abstrato sair de dentro de algo na ilustração, como a textura do vapor saíndo de uma chaleira. Ou ainda cobre um lustre do teto que antes tinha volume com a cor chapada do padrão abstrato, como uma silhueta do que era. E essas brincadeiras criam um elo entre a primeira pintura ilustrativa e a segunda abstrata. Mas às vezes ele ignora esse elo e deixa as duas coisas separadas, o abstrato completamente independente da imagem anterior. Há um outro pintor que eu gosto muito que também transita livremente entre o abstrato e o ilustrativo. No entanto, David não chegou e nem se preocupa em chegar ao nível de virtuosismo ilustrativo de Richter. E acho que Richter nunca chegou a se preocupar em colocar a ilustração e o abstrato para conversarem.
Quando menciono que David exemplifica o que eu quero dizer com verdade na arte, quero dizer que tudo o que há para ser entendido da pintura dele está alí, nas obras. Apesar dele ter pessoalmente um discurso onde diz estar interessado na estética do doméstico e em sua própria casa, nada disso importa de fato na pintura dele, que continuaria valendo se ele estivesse pintando sua casa, catedrais barrocas ou marinas inglesas. De fato, acho que lhe faria bem livrar-se um pouco desse discurso.
É diferente, por exemplo, do meu Rapto das Sabinas, onde é preciso conhecer o mito romano para usufruir do humor do quadro; ou mesmo da minha série do TBC, onde é preciso conhecer os atores ou as peças para apreciar a importância daquilo. O que eu quero dizer é que as minhas pinturas dependem de coisas externas. As dele são objetos completos, seu sentido contido nelas mesmas. Ele pinta como um pintor. Eu, como um escritor. Aliás, ele mesmo recentemente se juntou, espontaneamente e sem estímulo de minha parte, ao grupo de pessoas que me acham melhor escritor que artista...
Enfim, enquanto estiver aqui, tentando quase sem êxito ser um artista, vou passar a procurar fazer algo que seja um pouco mais "real", no sentido que as pinturas dele são. Ele, neste contexto, passa a ser uma espécie de mestre (no contexto dos escritos do Robert Bly) para mim no curso, e alguém cuja opinião e arte eu passei a respeitar, ainda que no começo não tivesse gostado da estética de seu trabalho (obviamente pela falta do virtuosismo ilustrativo que tão facilmente me agrada...).
É uma pena que o site dele não esteja atualizado. Tem apenas pinturas mais antigas e não tão refinadas e maduras quanto as atuais. Coisas de antes do mestrado. Não tão "verdadeiras".
Essas discussões sobre pintura, o embate do Interim Show, algumas conversas com colegas e até o caráter quase não-performático da minha performance (que a aproxima de uma conversa aberta com a platéia) despertaram em mim um interesse sobre a verdade na arte. Nas discussões dos pintores, vi surgirem duas vertentes: pintores que, como eu, ilustram uma cena da melhor maneira possível e tentam contar uma história; e pintores como David Ben White, que organiza as discussões, e cuja pintura lida mais com o embate direto entre pintor e material.
David está participando hoje de uma exposição na Studio 1.1 em Shoreditch, leste de Londres. Detesto Shoreditch: chegar lá é um peregrinação (talvez proposital para atrair apenas os interessados) e o bairro é um dos poucos lugares em londres onde a pixação nas portas das lojas corre solta. Sensação de bairro decadente. Ainda assim, é onde estão todas as galerias do momento.
As pinturas recentes de David Ben White exemplificam nessa mídia o que eu quero dizer por verdade na arte. Eu acho que cada pintura de David são na verdade duas. Primeiro, com uma técnica estranha de diluir muito a tinta a óleo e aplicá-la sobre compensado de madeira, ele monta um cenário doméstico pintado de forma bem ilustrativa, mas talvez despropositalmente "descuidada". Ele deixa o óleo severamente diluído escorrer, arruma detalhes com o dedo, não se preocupa muito com fotorealismo. Mas consegue resultados figurativos decentes. Suas imagens partem de fotos que ele mesmo tira dos ambientes domésticos de sua casa. Tudo sempre monocromático. Num segundo momento (e talvez uma segunda pintura) ele cobre parte do que fez com padrões abstratos de uma tinta pesada, densa, às vezes misturada com areia e argamassa. Formas sempre planas, sem volume (luz e sombra). Tudo sempre bem colorido. Esse ato de cobrir a pintura anterior cria relações bem interessantes. Porque o fundo tem perspectiva, volume, profundidade. Todo um jogo de ilusão. Daí o abstrato lembra que aquilo é uma pintura bidimensional, não dá pra "entrar" no quadro. Ele faz questão de evidenciar o ato de "cobrir", deixando buracos nesses padrões abstratos através dos quais dá pra ver a continuação da ilustração por baixo. Às vezes, David brinca de fazer o abstrato sair de dentro de algo na ilustração, como a textura do vapor saíndo de uma chaleira. Ou ainda cobre um lustre do teto que antes tinha volume com a cor chapada do padrão abstrato, como uma silhueta do que era. E essas brincadeiras criam um elo entre a primeira pintura ilustrativa e a segunda abstrata. Mas às vezes ele ignora esse elo e deixa as duas coisas separadas, o abstrato completamente independente da imagem anterior. Há um outro pintor que eu gosto muito que também transita livremente entre o abstrato e o ilustrativo. No entanto, David não chegou e nem se preocupa em chegar ao nível de virtuosismo ilustrativo de Richter. E acho que Richter nunca chegou a se preocupar em colocar a ilustração e o abstrato para conversarem.
Quando menciono que David exemplifica o que eu quero dizer com verdade na arte, quero dizer que tudo o que há para ser entendido da pintura dele está alí, nas obras. Apesar dele ter pessoalmente um discurso onde diz estar interessado na estética do doméstico e em sua própria casa, nada disso importa de fato na pintura dele, que continuaria valendo se ele estivesse pintando sua casa, catedrais barrocas ou marinas inglesas. De fato, acho que lhe faria bem livrar-se um pouco desse discurso.
É diferente, por exemplo, do meu Rapto das Sabinas, onde é preciso conhecer o mito romano para usufruir do humor do quadro; ou mesmo da minha série do TBC, onde é preciso conhecer os atores ou as peças para apreciar a importância daquilo. O que eu quero dizer é que as minhas pinturas dependem de coisas externas. As dele são objetos completos, seu sentido contido nelas mesmas. Ele pinta como um pintor. Eu, como um escritor. Aliás, ele mesmo recentemente se juntou, espontaneamente e sem estímulo de minha parte, ao grupo de pessoas que me acham melhor escritor que artista...
Enfim, enquanto estiver aqui, tentando quase sem êxito ser um artista, vou passar a procurar fazer algo que seja um pouco mais "real", no sentido que as pinturas dele são. Ele, neste contexto, passa a ser uma espécie de mestre (no contexto dos escritos do Robert Bly) para mim no curso, e alguém cuja opinião e arte eu passei a respeitar, ainda que no começo não tivesse gostado da estética de seu trabalho (obviamente pela falta do virtuosismo ilustrativo que tão facilmente me agrada...).
É uma pena que o site dele não esteja atualizado. Tem apenas pinturas mais antigas e não tão refinadas e maduras quanto as atuais. Coisas de antes do mestrado. Não tão "verdadeiras".
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