Consegui a passagem para a Itália através de milhagens que meus pais tiham com o programa Smiles da Varig. Já na compra das passagens, tínhamos um receio: as notícias sobre a situação da compania não eram boas. Mas enfim, tudo que me importava na época era conseguir as passagens. E consegui.
Mas assim como deixei o "por que não?" ferrar minha noite no episódio com a Flami, essa atitude inconsequente esta me criando seus problemas agora.
Minha mãe me escreveu do Brasil para dizer que a Varig estava sendo comprada por outras empresas e que, enquanto a mudança não acontecia, ela estava cancelando diversas linhas. Entre elas a linha Milão - São Paulo, que eu usaria pra voltar em Agosto... Pânico momentaneo.
A Varig, de acordo com o site deles, não tem lojas em Londres. Mas pelo Orkut, me falaram do guichê da empresa no aeroporto de Heathrow, bem perto de Acton. Fui até lá alguns dias atrás, pra tentar mudar a passagem para outras companias da Star Aliance, grupo da qual a Varig faz parte. Sugestão de minha mãe, que tinha ouvido histórias nos jornais de gente que ficou exilada por horas nos aeroportos tentando embarcar em algum outro vôo, pandemônio total. Melhor prevenir do que remediar, certo?
No guichê da Varig (atendido em português...), me disseram que nenhuma das companias da Star Aliance teria vôos naquelas semanas de Agosto. Mesmo se eu saísse de outros países. Mas me afirmaram na maior cara de pau que aquele meu vôo aconteceria normalmente e que eles só tinham cancelado a compra de passagens. Ceeeeeeerto. Não era nada do que minha mãe tinha visto nos jornais. Certo de que a Varig estava me enrolando pra não perder cliente e que eu teria que passar por todo o inferno no dia da viagem, disse um "OK", sorri e sai, tendo que ir para o trabalho.
[Cenas dos próximos capítulos...]
Na segunda, vou aos guichês da TAP, Lufthansa, United e Delta Airlines, tentar ver se consigo mudar minha passagem através deles.
Quem tiver informações relevantes, não demore em mandar. E fiquem de olho em qualquer notícia que sair nos jornais de gente que encontrou soluções.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
sexta-feira, junho 30, 2006
quinta-feira, junho 29, 2006
London by night & the Ginglik
Saí bastante na semana passada, graças à turma da Flami (ainda que esta tenha voltado para a Itália). Pude ter uma boa noção de como é a vida noturna londrina, interessante não só pela profusão de pubs e baladas, mas pelos costumes.
Seguindo uma dica certeira da Naomi, levei Emily a um pub chamado Waxy O'Connors. Um labirinto de três andares com vários bares e mesas escondidas, aconchegantes; a dois minutos do Leicester Square.
A cultura de pub, apesar de ser muito diferente da cultura de boteco brasileira, parece ter se infiltrado imperceptivel e confortavelmente na minha rotina. O pub, como o próprio nome sugere, é um lugar publico. Uma sala de estar pública. Os ingleses têm uma cultura de não permitir que as pessoas entrem em suas casas: isso seria ter muita intimidade. Então se encontram no pub. Bebem muito. MUITO. Mas quando chega a meia noite, os gerentes de pub não fazem cerimônia e enxotam todos os clientes pra fora, pra fechar o recinto.
Atualmente, a moda são os gastropubs, como esse onde eu trabalho. Pubs com restaurantes embutidos, que servem comida inglesa e francesa, coisa muito chique e relativamente cara.
Metade de toda vida noturna inglesa vai até a meia-noite. E um terço de todos os londrinos só vai até aí mesmo, voltando pra casa depois para trabalhar no dia seguinte. Uns poucos escolhem uma de duas continuações para a noite.
Uma são as baladas caseiras. Quer dizer, não exatamente "caseiras", porque as pessoas não vão exatamente para a casa de ninguém. Organizam uma festinha em algum lugar, tudo muito low budget e desorganizado. O mais comum é irem a um squat: são apartamentos ou casas abandonados dos quais as pessoas se apropriam para fazer festinhas ou mesmo morar. Eventualmente, o governo desapropria os "moradores" ou lhes concede o título de proprietários por usucapião (é assim que se escreve?). Enfim, essas festas são bem estilo Casa da Xiclet, bebidas em copos de plástico, alguma droga leve, um DJ iniciante tocando alguma seleção bizarra, tudo meio caindo aos pedaços e os ingleses fingindo que não se importam. Aliás, fica muito claro por esses detalhes e pelas poucas casas que visitei (incluíndo os apartamentos de Mary e Theo em Perugia), que os ingleses típicos têm uma ojeriza por limpar e organizar. Como se o considerassem trabalho vil e humilhante, para estrangeiros, e portanto indigno de seu esforço.
Frequentei algumas dessas com a turma de estudantes de arte da Flamni, todos tentando parecerem muito artistas, muito experimentais. Pelo menos conheciam suas referências, coisa que fazia a conversa bem interessante. Ocorria aquela troca de carícias artísticas, um elogiando o trabalho do outro, perguntando, discutindo. Gostei do clima, apesar do cenário ser um lixo.
A outra possibilidade de continuação para a noite eram as baladas tradicionais. Visitei poucas, algumas com a turma da Faride antes que ela partisse. Eram discotecas que tocavam daquelas músicas com batida latina do Morlacchi e um pouco da música pop londrina.
Na segunda, depois da Royal Academy, visitei sozinho uma dessas perto de casa. O Ginglik ficava em Shepherd's Bush, a vizinhança onde Theo morava antes de ir para Perugia. Sugestão da inglesinha, o lugar era um banheiro público, reformado e transformado em uma espécie de casa de espetáculos. No ex-banheiro feminino, um bar onde tomei meu primeiro absinto com açucar flambado e água (o jeito tradicional). O ex-banheiro masculino hoje abrigava sofás, poltronas, cadeiras e uma enorme tela de projeção, onde passei a noite vendo curtas-metragens e conversando com um vampirinho levemente interessado, que não me dava muitas pistas sobre sua nacionalidade. Dentre os curtas, um deles mostrava crianças surdo-mudas que se comunicavam por linguagem de sinais. Uma narradora "traduzia". Lindo: tipo de coisa que Taís teria gostado.
A cada noite, o Ginglik faz alguma coisa interessante. Noites de curtas-metragens, bandas independentes, exposições de arte... Peguei o número dos organizadores. Qem sabe.
Termino este (longo) post com uma nota sobre a paquera londrina. Fiquei impressionado com o modo como os ingleses vão direto ao assunto. Por mais que os brasileiros sejam diretos, sempre tem uns cinco minutos de conversa, de saber de onde a pessoa vem, para onde vai... Os ingleses dizem que não querem perder tempo. Já chegam dizendo o que querem. Observo e me parece até meio ofensivo para as mulheres. Mas por alguma razão elas aceitam e o sistema todo funciona. Fica claro que o negócio aqui é confiar no próprio taco e mandar o respeito às favas.
(That's why I'm not getting any...)
Seguindo uma dica certeira da Naomi, levei Emily a um pub chamado Waxy O'Connors. Um labirinto de três andares com vários bares e mesas escondidas, aconchegantes; a dois minutos do Leicester Square.
A cultura de pub, apesar de ser muito diferente da cultura de boteco brasileira, parece ter se infiltrado imperceptivel e confortavelmente na minha rotina. O pub, como o próprio nome sugere, é um lugar publico. Uma sala de estar pública. Os ingleses têm uma cultura de não permitir que as pessoas entrem em suas casas: isso seria ter muita intimidade. Então se encontram no pub. Bebem muito. MUITO. Mas quando chega a meia noite, os gerentes de pub não fazem cerimônia e enxotam todos os clientes pra fora, pra fechar o recinto.
Atualmente, a moda são os gastropubs, como esse onde eu trabalho. Pubs com restaurantes embutidos, que servem comida inglesa e francesa, coisa muito chique e relativamente cara.
Metade de toda vida noturna inglesa vai até a meia-noite. E um terço de todos os londrinos só vai até aí mesmo, voltando pra casa depois para trabalhar no dia seguinte. Uns poucos escolhem uma de duas continuações para a noite.
Uma são as baladas caseiras. Quer dizer, não exatamente "caseiras", porque as pessoas não vão exatamente para a casa de ninguém. Organizam uma festinha em algum lugar, tudo muito low budget e desorganizado. O mais comum é irem a um squat: são apartamentos ou casas abandonados dos quais as pessoas se apropriam para fazer festinhas ou mesmo morar. Eventualmente, o governo desapropria os "moradores" ou lhes concede o título de proprietários por usucapião (é assim que se escreve?). Enfim, essas festas são bem estilo Casa da Xiclet, bebidas em copos de plástico, alguma droga leve, um DJ iniciante tocando alguma seleção bizarra, tudo meio caindo aos pedaços e os ingleses fingindo que não se importam. Aliás, fica muito claro por esses detalhes e pelas poucas casas que visitei (incluíndo os apartamentos de Mary e Theo em Perugia), que os ingleses típicos têm uma ojeriza por limpar e organizar. Como se o considerassem trabalho vil e humilhante, para estrangeiros, e portanto indigno de seu esforço.
Frequentei algumas dessas com a turma de estudantes de arte da Flamni, todos tentando parecerem muito artistas, muito experimentais. Pelo menos conheciam suas referências, coisa que fazia a conversa bem interessante. Ocorria aquela troca de carícias artísticas, um elogiando o trabalho do outro, perguntando, discutindo. Gostei do clima, apesar do cenário ser um lixo.
A outra possibilidade de continuação para a noite eram as baladas tradicionais. Visitei poucas, algumas com a turma da Faride antes que ela partisse. Eram discotecas que tocavam daquelas músicas com batida latina do Morlacchi e um pouco da música pop londrina.
Na segunda, depois da Royal Academy, visitei sozinho uma dessas perto de casa. O Ginglik ficava em Shepherd's Bush, a vizinhança onde Theo morava antes de ir para Perugia. Sugestão da inglesinha, o lugar era um banheiro público, reformado e transformado em uma espécie de casa de espetáculos. No ex-banheiro feminino, um bar onde tomei meu primeiro absinto com açucar flambado e água (o jeito tradicional). O ex-banheiro masculino hoje abrigava sofás, poltronas, cadeiras e uma enorme tela de projeção, onde passei a noite vendo curtas-metragens e conversando com um vampirinho levemente interessado, que não me dava muitas pistas sobre sua nacionalidade. Dentre os curtas, um deles mostrava crianças surdo-mudas que se comunicavam por linguagem de sinais. Uma narradora "traduzia". Lindo: tipo de coisa que Taís teria gostado.
A cada noite, o Ginglik faz alguma coisa interessante. Noites de curtas-metragens, bandas independentes, exposições de arte... Peguei o número dos organizadores. Qem sabe.
Termino este (longo) post com uma nota sobre a paquera londrina. Fiquei impressionado com o modo como os ingleses vão direto ao assunto. Por mais que os brasileiros sejam diretos, sempre tem uns cinco minutos de conversa, de saber de onde a pessoa vem, para onde vai... Os ingleses dizem que não querem perder tempo. Já chegam dizendo o que querem. Observo e me parece até meio ofensivo para as mulheres. Mas por alguma razão elas aceitam e o sistema todo funciona. Fica claro que o negócio aqui é confiar no próprio taco e mandar o respeito às favas.
(That's why I'm not getting any...)
terça-feira, junho 27, 2006
The Royal Academy of Arts.
Estive um pouco insatisfeito com o modo como a vida no pub estava tomando todo meu tempo e energia e me levando de volta àquele estado pré-viagem de preguiça, conformismo e marasmo. Então organizei um mega dia de folga na segunda.
Chovia pouco. Mas francamente, estou me acostumando a viver dias maravilhosos quando chove em Londres. É como um sinal divino: quando chove, os acontecimentos do dia prometem. Depois de uma manhão que demorou para engrenar, desci em Picaddilly Circus e caminhei os poucos quarteirões atél a Royal Academy of Arts.
[Pausa para digressão explicativa]
Lembram-se da ucraniana e a canadense que puxaram conversa no desfile ao qual Flami me levou? Se eu estava visitando a R.A.A., era graças à sugestão de Emily, a canadense com quem eu estive saindo na semana passada. Garota meiga, meio tímida, sempre vestindo seus vestidinhos leves como uma versão loira, sorridente e adolescente de minha Alice. O esmalte carcomido nas unhas das mãos que sempre estavam juntas, o olhar amistoso e verde e um sorriso cativante. Esteve por aqui durante uma semana, antes de ir para Anterdã (não riam...) fazer uma pós-graduação em arte. Havia sugerido a exposição de um canadense na Tate Modern, mas como já tive uma overdose de Tate, resolvi ver coisas novas e fui na sua segunda sugestão, a Royal Academy.
[/Pausa para digressão explicativa]
Os prédios da R.A. me lembravam muito os prédios onde eu passei quatro anos imerso no curso de artes. De fato, ambas as fundações tinham um mesmo jeito. Logo na entrada, uma escultura gigantesca, de uns dez metros, era uma garota grávida, a pele dissecada em metade do corpo para revelar os músculos, alguns ossos e o ventre aberto com uma criança dentro. Era a Virgin Mother de Damien Hirst, um dos artistas da polêmica e famosa exposição Sensations de 1997. Hirst é mais conhecido por suas instalações de animais seccionados, mostrando os órgãos internos, ou aquela do tubarão inteiro conservado e enclausurado em um gigantesco aquário de formol, e portanto imóvel (tubarões precisam nadar para respirar...).
Em segundos, reconheci algo de muito familiar na posição da garota, mas acima de tudo, em seu rosto. Eu tinha visto aquele rosto muito recentemente. Na Tate Modern. Sim, era a Little Dancer do Degas, uma estátua cujo corpo nu era feito de bronze, com roupas feitas de pano real. A contraparte de Hirst não só tinha sido despida, como ainda dissecada e aparentemente violentada. Ainda mantinha algo de sua forma original: a posição dos pés, do rosto, uma das mãos ainda nas costas, onde deveria segurar a outra que agora protegia o volume obceno do ventre.
Senti um choque diante dessa profanação de uma obra antiga. Mas era um choque muito estimulante. Me levava a procurar quantas violações Hirst havia cometido: a autoral, reinterpretando a obra original; a pedófila, engravidando uma personagem de quinze anos; a física, removendo-lhe a pele; e a conceitual, chamando esse monte de violações de "virgem". Dentro da Academia, encontraria ainda outra estátua em tamanho menor da mesma obra, mas rachada e com membros caídos no chão, entitulada Corruption: chegava quase a ser sarcástico e sádico, de tanto que insistia no tema.
Muitas coisas me chamaram a atenção dentro da galeria. Escrever tudo aqui faria este post desnecessariamente longo e vocês já estão entediados. Mas vou encerrar apenas falando de mais um dos pontos altos da exposição.
Conheci as obras do indiano Anish Kapoor em uma das Bienais de São Paulo. Na época, não me chamou a atenção, porque eu estava evitando abstratos. Ele cobria enormes formas geométricas com pó fino de pigmentos de cores fortes. Azuis, vermelhos, amarelos. E era só isso. Fui encontrar uma outra obra na Tate, que era um cilindro gigante de cerâmica com uma abertura pela qual dava pra ver o interior esmaltado que funcionava como espelho. Mas a Tate não deixava ninguém entrar no cilindro. Na R.A., depois de compreender esse meu sentido de religare que tinha relação intrínseca com a geometria, fui encontrar as obras que me cativaram.
Em uma das salas, Kapoor colocara uma esfera simples recoberta de um esmalte cromado. O efeito era belíssimo, porque ela refletia toda a sala, usando um efeito de física simples. Dava pra ver absolutamente toda a sala naquela esfera. E adiante, o meu favorito: uma colossal calota de metal polido. Era simples, quase banal. Parecia uma antena parabólica. Mas te atraía por causa da brincadeira com conceitos de física simples. A sua imagem espelhada na calota aparecia invertida. Aí você caminhava lentamente em sua direção e de repente passava o ponto focal da calota, vendo a sua imagem se diluir e voltar, de cabeça pra cima. O fundo continuava estranhamente distante (lembram da diferença entre "imagem real" e "imagem virtual" nas aulas de física óptica?). Mas não era só uma questão visual. Parado em certo ponto diante da calota (o centro da esfera da qual ela fazia parte, mas isso é complicado de explicar...), eu falava e ouvia minha voz sendo refletida de volta pra mim, amplificada, alheia. Andando mais um pouco pra frente, encontrando o ponto focal, eu podia ouvir de uma só vez todos os sons da sala sendo refletidos para aquele ponto. E quando falava, minha voz se dissipava mais longe do que o normal. E o mais legal era que eu entendia tudo isso, os conceitos de física. Entendia como tudo funcionava e explicava para as pessoas ao meu redor. Precisaria desenhar para explicar melhor, mas a maioria das pessoas entendia. Me senti inspirado a fazer coisas semelhantes, justamente por ter essa educação sobre física desde o colégio e que muitos dos meus colegas do curso de artes tinham ignorado ou esquecido.
Estas obras do Kapoor falavam para mim mais da realidade do que qualquer pintura ou escultura figurativa. Mais do que as incríceis pinturas do Richter. Porque lidavam especificamente com elementos da realidade com os quais as pessoas não estava acostumadas a lidar em uma galeria (física elementar, por exemplo).
Saí da galeria com algumas informações sobre cursos de pós-graduação. Imaginem eu tendo aula na mesma faculdade do Damien Hirst!
Próxima parada, depois de um café na esquina e tempo para digerir tudo que eu tinha visto: o Ginglik, um pub em Shepherd's Bush que havia sido sugerido pela Theo em Perugia. Mas isso fica para o próximo post.
Chovia pouco. Mas francamente, estou me acostumando a viver dias maravilhosos quando chove em Londres. É como um sinal divino: quando chove, os acontecimentos do dia prometem. Depois de uma manhão que demorou para engrenar, desci em Picaddilly Circus e caminhei os poucos quarteirões atél a Royal Academy of Arts.
[Pausa para digressão explicativa]
Lembram-se da ucraniana e a canadense que puxaram conversa no desfile ao qual Flami me levou? Se eu estava visitando a R.A.A., era graças à sugestão de Emily, a canadense com quem eu estive saindo na semana passada. Garota meiga, meio tímida, sempre vestindo seus vestidinhos leves como uma versão loira, sorridente e adolescente de minha Alice. O esmalte carcomido nas unhas das mãos que sempre estavam juntas, o olhar amistoso e verde e um sorriso cativante. Esteve por aqui durante uma semana, antes de ir para Anterdã (não riam...) fazer uma pós-graduação em arte. Havia sugerido a exposição de um canadense na Tate Modern, mas como já tive uma overdose de Tate, resolvi ver coisas novas e fui na sua segunda sugestão, a Royal Academy.
[/Pausa para digressão explicativa]
Os prédios da R.A. me lembravam muito os prédios onde eu passei quatro anos imerso no curso de artes. De fato, ambas as fundações tinham um mesmo jeito. Logo na entrada, uma escultura gigantesca, de uns dez metros, era uma garota grávida, a pele dissecada em metade do corpo para revelar os músculos, alguns ossos e o ventre aberto com uma criança dentro. Era a Virgin Mother de Damien Hirst, um dos artistas da polêmica e famosa exposição Sensations de 1997. Hirst é mais conhecido por suas instalações de animais seccionados, mostrando os órgãos internos, ou aquela do tubarão inteiro conservado e enclausurado em um gigantesco aquário de formol, e portanto imóvel (tubarões precisam nadar para respirar...).
Em segundos, reconheci algo de muito familiar na posição da garota, mas acima de tudo, em seu rosto. Eu tinha visto aquele rosto muito recentemente. Na Tate Modern. Sim, era a Little Dancer do Degas, uma estátua cujo corpo nu era feito de bronze, com roupas feitas de pano real. A contraparte de Hirst não só tinha sido despida, como ainda dissecada e aparentemente violentada. Ainda mantinha algo de sua forma original: a posição dos pés, do rosto, uma das mãos ainda nas costas, onde deveria segurar a outra que agora protegia o volume obceno do ventre.
Senti um choque diante dessa profanação de uma obra antiga. Mas era um choque muito estimulante. Me levava a procurar quantas violações Hirst havia cometido: a autoral, reinterpretando a obra original; a pedófila, engravidando uma personagem de quinze anos; a física, removendo-lhe a pele; e a conceitual, chamando esse monte de violações de "virgem". Dentro da Academia, encontraria ainda outra estátua em tamanho menor da mesma obra, mas rachada e com membros caídos no chão, entitulada Corruption: chegava quase a ser sarcástico e sádico, de tanto que insistia no tema.
Muitas coisas me chamaram a atenção dentro da galeria. Escrever tudo aqui faria este post desnecessariamente longo e vocês já estão entediados. Mas vou encerrar apenas falando de mais um dos pontos altos da exposição.
Conheci as obras do indiano Anish Kapoor em uma das Bienais de São Paulo. Na época, não me chamou a atenção, porque eu estava evitando abstratos. Ele cobria enormes formas geométricas com pó fino de pigmentos de cores fortes. Azuis, vermelhos, amarelos. E era só isso. Fui encontrar uma outra obra na Tate, que era um cilindro gigante de cerâmica com uma abertura pela qual dava pra ver o interior esmaltado que funcionava como espelho. Mas a Tate não deixava ninguém entrar no cilindro. Na R.A., depois de compreender esse meu sentido de religare que tinha relação intrínseca com a geometria, fui encontrar as obras que me cativaram.
Em uma das salas, Kapoor colocara uma esfera simples recoberta de um esmalte cromado. O efeito era belíssimo, porque ela refletia toda a sala, usando um efeito de física simples. Dava pra ver absolutamente toda a sala naquela esfera. E adiante, o meu favorito: uma colossal calota de metal polido. Era simples, quase banal. Parecia uma antena parabólica. Mas te atraía por causa da brincadeira com conceitos de física simples. A sua imagem espelhada na calota aparecia invertida. Aí você caminhava lentamente em sua direção e de repente passava o ponto focal da calota, vendo a sua imagem se diluir e voltar, de cabeça pra cima. O fundo continuava estranhamente distante (lembram da diferença entre "imagem real" e "imagem virtual" nas aulas de física óptica?). Mas não era só uma questão visual. Parado em certo ponto diante da calota (o centro da esfera da qual ela fazia parte, mas isso é complicado de explicar...), eu falava e ouvia minha voz sendo refletida de volta pra mim, amplificada, alheia. Andando mais um pouco pra frente, encontrando o ponto focal, eu podia ouvir de uma só vez todos os sons da sala sendo refletidos para aquele ponto. E quando falava, minha voz se dissipava mais longe do que o normal. E o mais legal era que eu entendia tudo isso, os conceitos de física. Entendia como tudo funcionava e explicava para as pessoas ao meu redor. Precisaria desenhar para explicar melhor, mas a maioria das pessoas entendia. Me senti inspirado a fazer coisas semelhantes, justamente por ter essa educação sobre física desde o colégio e que muitos dos meus colegas do curso de artes tinham ignorado ou esquecido.
Estas obras do Kapoor falavam para mim mais da realidade do que qualquer pintura ou escultura figurativa. Mais do que as incríceis pinturas do Richter. Porque lidavam especificamente com elementos da realidade com os quais as pessoas não estava acostumadas a lidar em uma galeria (física elementar, por exemplo).
Saí da galeria com algumas informações sobre cursos de pós-graduação. Imaginem eu tendo aula na mesma faculdade do Damien Hirst!
Próxima parada, depois de um café na esquina e tempo para digerir tudo que eu tinha visto: o Ginglik, um pub em Shepherd's Bush que havia sido sugerido pela Theo em Perugia. Mas isso fica para o próximo post.
sábado, junho 24, 2006
Mais do pub
-"Olha, ele já tá inventando os próprios truques!"- se surpreendia Hodi, uma das garçonetes, enquanto me ouvia explicar a uma das novatas o meu jeito de identificar os diferentes tamanhos de facas no meio do bolo de talheres a serem polidos. A maioria da turma pegava um punhado de facas, batia os cabos na mesa e assim podia ver qual faca era maior e qual era menor (há diferentes lugares pra guardar cada uma). Eu explicava à novata Leslie que eu as reconhecia por um detalhe na base da lâmina, onde ela encontrava o cabo, e que eu sentia nos dedos ao polir cada faca, jogando-a no lugar certo.
A próxima fase depois do ponto de ativação é a criação dos seus próprios pequenos truques e macetes. Jeitinhos que mostram que você entendeu tão bem a coisa, que não precisa mais seguir os modelos dados no início. Eu ainda não sou a versão masculina da Naomi (que está sendo promovida a uma posição de gerência no restaurante!), mas estou criando meus próprios jeitos.
A comida do pub é fantástica. Tem dias em que eu não recebo áreas específicas do pub pra cuidar, e fico fazendo o que eu chamo de trabalho de camarão: esses animais limpam o fundo do mar, retirando tudo o que não presta, assim como eu passo apenas retirando os pratos e copos vazios, oferecendo mais uma cerveja, trocando cinzeiros cheios por vazios. Nesses dias, de vez em quando sobra alguma sobremesa que os clientes não quizeram, uma porção de alguma coisa que ninguém pediu, algo do gênero. Dividimos entre nós. Estou ficando um perito nas sobremesas do pub especialmente.
E ai, pensando nessas delícias, há quem pense que os cozinheiros devem ser seres maravilhosos, delicados, sábios. Pois bem... Temos Simon que realmente é assim. Bondoso, calmo, com um conhecimento aparentemente infinito de especiarias e pequenos detalhes saborosos. O resto é uma verdadeira comédia. Não só rapazes como Julian, o gordinho que é sempre assediado pelos outros cozinheiros e que lembra o Barbara do Loucademia de Polícia. São caras como Abdoul um grandalhão rabugento e truculento que vive falando de sexo com um sotaque árabe e tanta sujeira debaixo das unhas que você juraria que ele é um mecânico. Carmine é o típico italiano: cara de pegador, inglês com aquele sotaque fortíssimo, trezentas receitas de doces como tiramisu, bolinhos de polenta e etc, sem falar no amplo uso de gesticulação. Ou o meu personagem favorito, O'Neill: cabelo estilo Beatles, sotaque de Manchester (muitas vezes incompreensível...), se diverte contando-me bizarros casos sexuais seus ou de amigos, muito rude quando a pressão aumenta nos turnos lotados, mas depois sempre vem pedir desculpas.
A próxima fase depois do ponto de ativação é a criação dos seus próprios pequenos truques e macetes. Jeitinhos que mostram que você entendeu tão bem a coisa, que não precisa mais seguir os modelos dados no início. Eu ainda não sou a versão masculina da Naomi (que está sendo promovida a uma posição de gerência no restaurante!), mas estou criando meus próprios jeitos.
A comida do pub é fantástica. Tem dias em que eu não recebo áreas específicas do pub pra cuidar, e fico fazendo o que eu chamo de trabalho de camarão: esses animais limpam o fundo do mar, retirando tudo o que não presta, assim como eu passo apenas retirando os pratos e copos vazios, oferecendo mais uma cerveja, trocando cinzeiros cheios por vazios. Nesses dias, de vez em quando sobra alguma sobremesa que os clientes não quizeram, uma porção de alguma coisa que ninguém pediu, algo do gênero. Dividimos entre nós. Estou ficando um perito nas sobremesas do pub especialmente.
E ai, pensando nessas delícias, há quem pense que os cozinheiros devem ser seres maravilhosos, delicados, sábios. Pois bem... Temos Simon que realmente é assim. Bondoso, calmo, com um conhecimento aparentemente infinito de especiarias e pequenos detalhes saborosos. O resto é uma verdadeira comédia. Não só rapazes como Julian, o gordinho que é sempre assediado pelos outros cozinheiros e que lembra o Barbara do Loucademia de Polícia. São caras como Abdoul um grandalhão rabugento e truculento que vive falando de sexo com um sotaque árabe e tanta sujeira debaixo das unhas que você juraria que ele é um mecânico. Carmine é o típico italiano: cara de pegador, inglês com aquele sotaque fortíssimo, trezentas receitas de doces como tiramisu, bolinhos de polenta e etc, sem falar no amplo uso de gesticulação. Ou o meu personagem favorito, O'Neill: cabelo estilo Beatles, sotaque de Manchester (muitas vezes incompreensível...), se diverte contando-me bizarros casos sexuais seus ou de amigos, muito rude quando a pressão aumenta nos turnos lotados, mas depois sempre vem pedir desculpas.
quinta-feira, junho 22, 2006
Falei que conheci um croata no Mill Hill, certo? Hoje ele era o único croata dentro do pub, rodeado de australianos. Entrou mudo e saiu calado pra ninguém perceber, enquanto seu time empatava de 2 a 2 contra a Austrália e era eliminado da copa. Do outro lado do pub, eu assistia à cara de senilidade do Zagalo ao lado de um Parreira que parecia uns dez anos mais velho do que realmente é, murcho, esgotado. No campo, Ronaldo era apenas um jogador gordo no primeiro tempo. O time todo dando uma forcinha pra ajudá-lo a fazer aquele tão sonhado gol que o colocaria acima do Pelé como artilheiro de todas as copas. Esqueci de mencionar no outro post sobre a copa que os comentaristas ingleses são ácidos e não perdoam. Tiravam sarro o tempo todo do Ronaldo, das caras e bocas do outro Ronaldinho, dos brasileiros que tomaram um gol feio dos japoneses.
Ao meu lado, alguns dos poucos brasileiros de Acton. Uma garota que se esgoelava a cada investida brasileira, o namorado que não sabia onde enfiar a cara, meia dúzia de anônimos sem rosto e... uma espanhola com a camiseta do Brasil.
Terminado o jogo, fui jogar bilhar com os australianos, gente mais bonita, mais divertida e não tão estridente.
No Orkut, fiquei sabendo do Guanabara: um bar perto da estação de Holborn, no centro, onde a brazucada toda se encontrava para os jogos. Guanabara, Copacabana... obviamente jamais verei um estabelecimento brasileiro no extrerior com um nome de referência paulista.
Ao meu lado, alguns dos poucos brasileiros de Acton. Uma garota que se esgoelava a cada investida brasileira, o namorado que não sabia onde enfiar a cara, meia dúzia de anônimos sem rosto e... uma espanhola com a camiseta do Brasil.
Terminado o jogo, fui jogar bilhar com os australianos, gente mais bonita, mais divertida e não tão estridente.
No Orkut, fiquei sabendo do Guanabara: um bar perto da estação de Holborn, no centro, onde a brazucada toda se encontrava para os jogos. Guanabara, Copacabana... obviamente jamais verei um estabelecimento brasileiro no extrerior com um nome de referência paulista.
quarta-feira, junho 21, 2006
Claire mais uma vez, e a epifania do fim
Assim como tinha encontrado Claire em Roma, antes de vir para Londres, encontrei-a de novo por aqui. Me mandou um SMS um dia desses, dizendo que estava em Londres por alguns dias. Aparentemente está viajando toda a Europa, ficando aqui e ali na casa de pessoas conhecidas, amigos de família.
Nos encontramos na Millenium Bridge, para pouco depois descobrirmos que estávamos morando perto um do outro: ela está em Ealing Broadway, pouco ao norte do pub. Enfim, a australiana não mudara muito. O mesmo rosto, a mesma obssessão por livros de escritores ingleses antigos, O mesmo excesso de educação de senhorita dos anos 50 (que gradualmente me fazia colocar o rosto dela na figura imaginada da Sra. Sparrow...). Afinal, tinham-se passado apenas um mês e meio.
Ela, no entanto, não teve a mesma opinião sobre mim. Achou-me com um rosto mais magro, talvez efeito da barba. De qualquer jeito, paramos para comer em um dos lugares na margem sul do Tâmisa (uma daquelas aventuras gastronômicas que mencionei), enquanto dividimos histórias do mês que se passou desde que nos vimos e da pouca informação que tínhamos sobre a turma deixada em Perugia.
Mas foi na volta que me deu um daqueles estalos epifânicos. Porque me percebi contando para ela sobre como eu estava me sentindo e como tinha saudades de casa. De como conseguia perceber a saudade na voz das pessoas no Brasil que falavam comigo ao telefone. Mas principalmente, de como eu tinha visto um pouco de Londres em Maio, mas que esta primeira metade de Junho tinha passado em um marasmo de quem já não está aproveitando tudo que devia aproveitar. Porque chega uma hora em que a vontade de fazer isso passa e você só quer voltar pra casa mesmo.
Esse era o estalo epifânico: eu quero voltar para casa. Eu quero voltar. Não porque eu precise, por causa da graduação do curso de publicidade, por causa da falta de grana, porque alguém estava mandando, por isso ou aquilo. Porque eu quero. Eu passo os dias contando o tempo que ainda me resta aqui, não com a tristeza de que a viagem esteja acabando, mas com a ansiedade de fazer tudo que eu quero fazer quando voltar. Talvez um dia eu venha de novo, mais organizado, ainda mais maduro e com recursos pra efetivamente viver aqui. Mas por enquanto, eu quero voltar.
Assim que a decisão por enquanto é essa: a menos que um milagre aconteça e eu encontre o trabalho perfeito aqui em Londres com um estúdio de animação, economizo uma grana em Julho, compro algumas coisas, tomo o avião em Agosto e volto para casa.
Para a verdadeira Casa.
Nos encontramos na Millenium Bridge, para pouco depois descobrirmos que estávamos morando perto um do outro: ela está em Ealing Broadway, pouco ao norte do pub. Enfim, a australiana não mudara muito. O mesmo rosto, a mesma obssessão por livros de escritores ingleses antigos, O mesmo excesso de educação de senhorita dos anos 50 (que gradualmente me fazia colocar o rosto dela na figura imaginada da Sra. Sparrow...). Afinal, tinham-se passado apenas um mês e meio.
Ela, no entanto, não teve a mesma opinião sobre mim. Achou-me com um rosto mais magro, talvez efeito da barba. De qualquer jeito, paramos para comer em um dos lugares na margem sul do Tâmisa (uma daquelas aventuras gastronômicas que mencionei), enquanto dividimos histórias do mês que se passou desde que nos vimos e da pouca informação que tínhamos sobre a turma deixada em Perugia.
Mas foi na volta que me deu um daqueles estalos epifânicos. Porque me percebi contando para ela sobre como eu estava me sentindo e como tinha saudades de casa. De como conseguia perceber a saudade na voz das pessoas no Brasil que falavam comigo ao telefone. Mas principalmente, de como eu tinha visto um pouco de Londres em Maio, mas que esta primeira metade de Junho tinha passado em um marasmo de quem já não está aproveitando tudo que devia aproveitar. Porque chega uma hora em que a vontade de fazer isso passa e você só quer voltar pra casa mesmo.
Esse era o estalo epifânico: eu quero voltar para casa. Eu quero voltar. Não porque eu precise, por causa da graduação do curso de publicidade, por causa da falta de grana, porque alguém estava mandando, por isso ou aquilo. Porque eu quero. Eu passo os dias contando o tempo que ainda me resta aqui, não com a tristeza de que a viagem esteja acabando, mas com a ansiedade de fazer tudo que eu quero fazer quando voltar. Talvez um dia eu venha de novo, mais organizado, ainda mais maduro e com recursos pra efetivamente viver aqui. Mas por enquanto, eu quero voltar.
Assim que a decisão por enquanto é essa: a menos que um milagre aconteça e eu encontre o trabalho perfeito aqui em Londres com um estúdio de animação, economizo uma grana em Julho, compro algumas coisas, tomo o avião em Agosto e volto para casa.
Para a verdadeira Casa.
Desconfio que a Sr. Sparrow possa ter sido uma geóloga. Por causa do incidente relativo ao urânio que relatei no outro post, e pelo jeito como ela fala do explorador Livingstone (Já ouviu a frase: "Doctor Livingstone, I presume?"?) que esteve na África em 1871: "Ela parece ter sido um pouco de tudo, cientista, explorador, missionário e até meio geólogo. Belíssimos mapas cheios de detalhes." Me pareceu como se o fato dele mexer com geologia chamasse em particular a atenção da Sra. Sparrow. No mais, se encaixa com as outras pistas que tenho: os motoristas, para levar os pesquisadores até os locais, os assistentes de laboratório, para analisar terra coletada e realizar experimentos, e as contas de companias que desejam prospectar o solo da região.
Enfim, acho que agora só vou saber se encontrar a Sra. Sparrow pessoalmente. As cartas acabaram. Agora me restam os relatos da França em 1972.
Enfim, acho que agora só vou saber se encontrar a Sra. Sparrow pessoalmente. As cartas acabaram. Agora me restam os relatos da França em 1972.
Há uma parte do Gunnersbury Park que é um extenso gramado, com vários campos de futebol colocados um ao lado do outro. É um mar verde com os gols brancos quase imperceptíveis, confundindo-se com o céu azul-claro na luz forte dos dias de verão. Bem ao longe, as casinhas inglesas. Bem ao longe. E contrastando bastante com toda essa paisagens estão as manchas pretas no gramado: uma multidão de corvos (No inglês, há uma diferença ainda não compreendida entre raven e crow...).
Estou no meio do gramado de Gunnersbury Park, vestido de preto como eles, sob o sol. Eles me olham e mantém uma distancia segura de mim, abrindo passagem enquanto eu avanço. Paro em um cero ponto e deixo a mochila escorregar do meu ombro, caindo no gramado. Suspiro. Na minha mão, um triangulo equilatero de borracha amarelo fosforecente. A brisa sopra. Os pelos do meu corpo apontam a dire&cceilão. Giro o corpo um pouco e lanço o triangulo no ar: os corvos alçam vôo assustados, enquanto a peça faz um giro completo, vindo cair poucos metros à minha frente.
Comprei o estranho bumerangue em Camden Town, durante a segunda de minhas visitas feitas ao lugar. Há muita coisa interessante por lá. É como a Galeria do Rock em São Paulo, elevada à enésima potência e muito mais interessante. Na verdade, dá a impressão de que sua contraparte paulista é apenas uma cópia mal feita.
Feliz de voltar ao hábito do bumerangue, planejo fazer outras incurs&otide;es em Camden Town, para comprar mais pequenas tranqueiras estilosas.
Estou no meio do gramado de Gunnersbury Park, vestido de preto como eles, sob o sol. Eles me olham e mantém uma distancia segura de mim, abrindo passagem enquanto eu avanço. Paro em um cero ponto e deixo a mochila escorregar do meu ombro, caindo no gramado. Suspiro. Na minha mão, um triangulo equilatero de borracha amarelo fosforecente. A brisa sopra. Os pelos do meu corpo apontam a dire&cceilão. Giro o corpo um pouco e lanço o triangulo no ar: os corvos alçam vôo assustados, enquanto a peça faz um giro completo, vindo cair poucos metros à minha frente.
Comprei o estranho bumerangue em Camden Town, durante a segunda de minhas visitas feitas ao lugar. Há muita coisa interessante por lá. É como a Galeria do Rock em São Paulo, elevada à enésima potência e muito mais interessante. Na verdade, dá a impressão de que sua contraparte paulista é apenas uma cópia mal feita.
Feliz de voltar ao hábito do bumerangue, planejo fazer outras incurs&otide;es em Camden Town, para comprar mais pequenas tranqueiras estilosas.
terça-feira, junho 20, 2006
C'mon England!
(Slogan minimalista de apoio à seleção inglesa...)
Minha mãe perguntou como é o clima de copa do mundo por aqui. Porque no Brasil, o país inteiro entra em recesso pra assistir o jogo.
A Inglaterra, como bom país europeu, continua funcionando. Tudo. é claro que todas as TVs disponíceis estão sintonizadas no jogo. E as pessoas trabalham com um olho no peixe e outro no gato, mas o país funciona normalmente.
Mas pra ter uma idéia melhor de como são os torcedores, resolvi dar uma de jornalista e fui colher informações no meu pub local favorito, o Mill Hill. Dia de jogo da Inglaterra contra a Suécia. Todos os desocupados (como eu...) estavam lá. Gosto do Mill Hill porque tem uma galera da minha idade. Garotas inglesas levemente acima do peso, polacas com seu idioma sensual e australianos de havaianas.
Quando a copa começ, achei estranho ver em todos os lugares as bandeiras brancas com cruzes vermelhas. Esperava encontrar o Union Jack, aquela bandeira azul com o asterisco vermelho. Depois fui inferir que esta era para o Reino Unido inteiro, enquanto aquela era especificamente para a Inglaterra. O Mill Hill estava todo decorado de bandeirinhas desde a primeira vez que o vi.
O pub lotado. Cerveja e gente bêbada pra todos os lados. Varios pintam o rosto de branco com a cruz vermelha: fica legal e penso que, se fosse fazer o mesmo com a bandeira brasileira, o resultado seria ridículo.
Assim como no Brasil, a publicidade local é lotada de temáticas futebolísticas. O Beckham é adorado como o próximo Cristo e a seleção é mencionada como se fossem um esquadrão de heróis do exército indo combater em alguma Guerra Mundial.
Os gols são comemorados de uma forma muito inglesa. Quer dizer, a galera pula assim que a bola balança o capim no fundo da rede, grita até estourar a garganta e faz todas as macaquices que todo mundo faz. Mas para dentro de dez segundos pra assumir aquela postura inglesa de "very nice goal indeed" e tomar mais um gole de Guiness. No Brasil, você ouve a cidade inteira rugir. Aqui o barulho não sai do pub.
Por outro lado, o clima todo de ver um jogo no pub é muito mais interessante. Porque no Brasil, você se junta com uma panelinha de amigos em um lugar privado e comemora com gente conhecida. Embora tenha-se essa falsa noção de comemorar a copa com o país inteiro, o jeito brasileiro é um pouco mais intimista (pelo menos a minha experiência...). Aqui você está no meio do pub e todo mundo conversa com todo mundo abertamente sobre o gol, sobre os acontecimentos do jogo, sobre tudo. Eu acabei conversando com um croata e um sulafricano. Nao encontrei brasileiros... Você chega com a sua panelinha, mas aos poucos vai se misturando com o resto da galera. Achei mais amistoso.
Em resumo, essas foram minhas impressões da coisa toda da copa por aqui. Se bem que eu não sou assim tão entusiasta do assunto pra realmente prestar atenção na coisa.
Minha mãe perguntou como é o clima de copa do mundo por aqui. Porque no Brasil, o país inteiro entra em recesso pra assistir o jogo.
A Inglaterra, como bom país europeu, continua funcionando. Tudo. é claro que todas as TVs disponíceis estão sintonizadas no jogo. E as pessoas trabalham com um olho no peixe e outro no gato, mas o país funciona normalmente.
Mas pra ter uma idéia melhor de como são os torcedores, resolvi dar uma de jornalista e fui colher informações no meu pub local favorito, o Mill Hill. Dia de jogo da Inglaterra contra a Suécia. Todos os desocupados (como eu...) estavam lá. Gosto do Mill Hill porque tem uma galera da minha idade. Garotas inglesas levemente acima do peso, polacas com seu idioma sensual e australianos de havaianas.
Quando a copa começ, achei estranho ver em todos os lugares as bandeiras brancas com cruzes vermelhas. Esperava encontrar o Union Jack, aquela bandeira azul com o asterisco vermelho. Depois fui inferir que esta era para o Reino Unido inteiro, enquanto aquela era especificamente para a Inglaterra. O Mill Hill estava todo decorado de bandeirinhas desde a primeira vez que o vi.
O pub lotado. Cerveja e gente bêbada pra todos os lados. Varios pintam o rosto de branco com a cruz vermelha: fica legal e penso que, se fosse fazer o mesmo com a bandeira brasileira, o resultado seria ridículo.
Assim como no Brasil, a publicidade local é lotada de temáticas futebolísticas. O Beckham é adorado como o próximo Cristo e a seleção é mencionada como se fossem um esquadrão de heróis do exército indo combater em alguma Guerra Mundial.
Os gols são comemorados de uma forma muito inglesa. Quer dizer, a galera pula assim que a bola balança o capim no fundo da rede, grita até estourar a garganta e faz todas as macaquices que todo mundo faz. Mas para dentro de dez segundos pra assumir aquela postura inglesa de "very nice goal indeed" e tomar mais um gole de Guiness. No Brasil, você ouve a cidade inteira rugir. Aqui o barulho não sai do pub.
Por outro lado, o clima todo de ver um jogo no pub é muito mais interessante. Porque no Brasil, você se junta com uma panelinha de amigos em um lugar privado e comemora com gente conhecida. Embora tenha-se essa falsa noção de comemorar a copa com o país inteiro, o jeito brasileiro é um pouco mais intimista (pelo menos a minha experiência...). Aqui você está no meio do pub e todo mundo conversa com todo mundo abertamente sobre o gol, sobre os acontecimentos do jogo, sobre tudo. Eu acabei conversando com um croata e um sulafricano. Nao encontrei brasileiros... Você chega com a sua panelinha, mas aos poucos vai se misturando com o resto da galera. Achei mais amistoso.
Em resumo, essas foram minhas impressões da coisa toda da copa por aqui. Se bem que eu não sou assim tão entusiasta do assunto pra realmente prestar atenção na coisa.
Que meda....
Agora eu tenho internet em casa, graças às traquinagens do Frasier. Que meda! Por enquanto tô achando ótima a possibilidade de blogar antes de ir dormir todo dia. Mas quero só ver quanto tempo vai levar até o grandalhão encontrar alguma coisa pra encrencar comigo relativa ao computador.
Believe in the cuddle
Ontem fui visitar Flaminia. Quando estive com o senhor Zeller em Milão, ele me deu seu endereço dizendo que Flami, como ele a chamava, era uma estudante de arte que morava na rua dele. Garota bonita e inteligente.
Demorou até encontrá-la porque ela não respondia aos e-mails e Livio não tinha seu telefone inglês. Finalmente, quando ela resolveu vir até mim, nos encontramos em Farringdon. A estação ficava nas áreas meio degradadas do nordeste londrino, perto de Hackney onde, segundo eu tinha ouvido, estavam muitos dos brasileiros.
Flami foi uma aventura veloz e surreal assim como Londres. Em menos de doze horas, ela me colocou em contato com diversos estudantes de artes, tentou falar com um amigo que tem um estúdio de animação, me fez ir até a casa dela em Hackney, voltar com a bicicleta "emprestada" da amiga dela, e ainda me colocou como modelo de última hora em uma balada/desfile dos estudantes de moda no qual ela estava participando.
Explico um pouco.
Flami era a versão européia da Thaís Albuquerque, minha colega do curso de artes (assim como Fabiana era a Gisela européia e Michelle era o Tato DiLascio italiano): alta, cabelo curto, jeito caótico mas muito doce, fala meio incoerente sobre seu universo interior, roupas estranhamente interessantes, total incapacidade de organizar qualquer coisa.
O caos era tamanho, que encontro dificuldade para escrever sobre ela agora. Nem eu consigo organizá-la.
Depois de passar um tempo no pub em Farringdon, bebendo shandy (cerveja e sprite) e falando de arte (vários pontos em comum!), fomos visitar alguns amigos dela que poderiam me colocar em contato com estúdios de animação. Tudo feito, nada resolvido. Fomos até este lugar onde aconteceria a balada. Era um evento organizado por uma das estudantes de moda para levantar dinheiro para ajudar o tratamento de uma amiga com leucemia. Achei o gesto maravilhoso. Ainda que o resultado estivesse para o mundo da moda como as primeiras exposições da Casa da Xiclet estavam para o mundinho de arte paulista (com direito ao mesmo nível de gambiarra e desorganização...). Na entrada, paguei £3 e carimbaram minha mão com um carimbo feito de imã, onde dava pra grudar palavras de borracha, formando uma frase diferente a cada carimbada. A minha: Believe in the cuddle. Ceeeeerto... Flami apareceu sorrindo, toda bom humor, perguntando o que iria vestir no desfile. Às tantas me apresenta para a organizadora e diz que eu posso servir de modelo também. Estive a ponto de recusar. Mas então esse algo que esteve sendo cultivado durante toda a viagem entrou em ação e eu pensei: "por que não?".
Com algum tempo antes do desfile, Flami voltou para casa, me levando junto. A casa, claro, era tão zoneada quanto a dona. Pratos e copos espalhados por aí ha dias, aquela impressão de casa pós-balada. Coisas penduradas no lustre da sala, calcinhas no chão. Tomou um de seus trabalhos, uma caixa com um cenário construído dentro, amarrou-a na bicicleta e disse-me para levar a bicicleta de sua coinquilina, para ajudá-la a levar outras coisas. Por que não, certo?
Depois de uma viagem perigosa com a caixa, voltamos à balada. O estudante de moda coreano que me vestiu chamava-se Yong (pronunciavam como "Yawn", bocejo). Enquanto me vestia, me agradecia profusamente pela chance de expôr seu trabalho. Sensação estranha: sentia como se eu é que devesse agracede-lo por me permitir participar do evento. Mas achei interessante a diferença de abordagem. A roupa era uma mistura de masculino e feminino. Cetim amarrado em laços, junto com lã que se juntava aos meus pelos e cabelo cacheado formando uma composição perfeita. A organizadora achou que não poderia haver modelo melhor para aquela peça.
O desfile em si foi curto. Andei junto com Flami. Sorriamos, improvisavamos, curtíamos. Não era o desfile tradicional. Pelo contrário, era muito mais interessante.
A balada terminou comigo conversando com outros "modelos": todos estudantes da faculdade de artes, escultoras, pintores, gente que fazia arte digital... Uma escultora ucraniana e uma artista de objetos canadense pareciam muito interessadas no brasileiro. Estive a ponto de terminar a noite no pub ao lado com elas, até que percebi que Flami ainda teria que levar as coisas que trouxe de volta. Incluindo uma bicicleta que eu pilotara. Ela não tinha pensado nisso. Eu tinha considerado, mas o "por que não?" me fizera ignorar as consequências. Não podia abandoná-la agora. Assim que anotei o telefone das garotas, peguei a bicicleta e voltei com Flami até sua casa em Hackney, tarde da noite, xingando baixinho pessoas que não tem um mínimo de senso de organização e sorrindo pra disfarçar quando ela me olhava.
De volta à casa dela, sentei no sofá e esperei enquanto ela me fazia chá e começava a cozinhar um pouco de macarrão para nós. Flami, segundo ouvira, era lendária na cozinha.
Mas então o celular tocou, e tão rápido como o resto do dia acontecera, ela me enxotou da casa, tendo que ir socorrer uma amiga em Soho.
Com um misto de maravilha, insatisfação e revolta perante a sensação de ter sido usado, peguei meu nightbus para casa. Tinha muito o que pensar sobre ela, sobre as pessoas que ela me apresentara, sobre a velocidade do dia. Ficava entre me armar contra estas pessoas caóticas, contra a violência que elas inflingiam na minha personalidade excessivamente organizada, ou desejá-las, desejar a velocidade das novidades e de realidades tão alheias à minha.
De qualquer jeito, Flami voltaria à Itália dentro de alguns dias. Good ridance...?
Deu pra perceber como ela me deixou confuso?
Demorou até encontrá-la porque ela não respondia aos e-mails e Livio não tinha seu telefone inglês. Finalmente, quando ela resolveu vir até mim, nos encontramos em Farringdon. A estação ficava nas áreas meio degradadas do nordeste londrino, perto de Hackney onde, segundo eu tinha ouvido, estavam muitos dos brasileiros.
Flami foi uma aventura veloz e surreal assim como Londres. Em menos de doze horas, ela me colocou em contato com diversos estudantes de artes, tentou falar com um amigo que tem um estúdio de animação, me fez ir até a casa dela em Hackney, voltar com a bicicleta "emprestada" da amiga dela, e ainda me colocou como modelo de última hora em uma balada/desfile dos estudantes de moda no qual ela estava participando.
Explico um pouco.
Flami era a versão européia da Thaís Albuquerque, minha colega do curso de artes (assim como Fabiana era a Gisela européia e Michelle era o Tato DiLascio italiano): alta, cabelo curto, jeito caótico mas muito doce, fala meio incoerente sobre seu universo interior, roupas estranhamente interessantes, total incapacidade de organizar qualquer coisa.
O caos era tamanho, que encontro dificuldade para escrever sobre ela agora. Nem eu consigo organizá-la.
Depois de passar um tempo no pub em Farringdon, bebendo shandy (cerveja e sprite) e falando de arte (vários pontos em comum!), fomos visitar alguns amigos dela que poderiam me colocar em contato com estúdios de animação. Tudo feito, nada resolvido. Fomos até este lugar onde aconteceria a balada. Era um evento organizado por uma das estudantes de moda para levantar dinheiro para ajudar o tratamento de uma amiga com leucemia. Achei o gesto maravilhoso. Ainda que o resultado estivesse para o mundo da moda como as primeiras exposições da Casa da Xiclet estavam para o mundinho de arte paulista (com direito ao mesmo nível de gambiarra e desorganização...). Na entrada, paguei £3 e carimbaram minha mão com um carimbo feito de imã, onde dava pra grudar palavras de borracha, formando uma frase diferente a cada carimbada. A minha: Believe in the cuddle. Ceeeeerto... Flami apareceu sorrindo, toda bom humor, perguntando o que iria vestir no desfile. Às tantas me apresenta para a organizadora e diz que eu posso servir de modelo também. Estive a ponto de recusar. Mas então esse algo que esteve sendo cultivado durante toda a viagem entrou em ação e eu pensei: "por que não?".
Com algum tempo antes do desfile, Flami voltou para casa, me levando junto. A casa, claro, era tão zoneada quanto a dona. Pratos e copos espalhados por aí ha dias, aquela impressão de casa pós-balada. Coisas penduradas no lustre da sala, calcinhas no chão. Tomou um de seus trabalhos, uma caixa com um cenário construído dentro, amarrou-a na bicicleta e disse-me para levar a bicicleta de sua coinquilina, para ajudá-la a levar outras coisas. Por que não, certo?
Depois de uma viagem perigosa com a caixa, voltamos à balada. O estudante de moda coreano que me vestiu chamava-se Yong (pronunciavam como "Yawn", bocejo). Enquanto me vestia, me agradecia profusamente pela chance de expôr seu trabalho. Sensação estranha: sentia como se eu é que devesse agracede-lo por me permitir participar do evento. Mas achei interessante a diferença de abordagem. A roupa era uma mistura de masculino e feminino. Cetim amarrado em laços, junto com lã que se juntava aos meus pelos e cabelo cacheado formando uma composição perfeita. A organizadora achou que não poderia haver modelo melhor para aquela peça.
O desfile em si foi curto. Andei junto com Flami. Sorriamos, improvisavamos, curtíamos. Não era o desfile tradicional. Pelo contrário, era muito mais interessante.
A balada terminou comigo conversando com outros "modelos": todos estudantes da faculdade de artes, escultoras, pintores, gente que fazia arte digital... Uma escultora ucraniana e uma artista de objetos canadense pareciam muito interessadas no brasileiro. Estive a ponto de terminar a noite no pub ao lado com elas, até que percebi que Flami ainda teria que levar as coisas que trouxe de volta. Incluindo uma bicicleta que eu pilotara. Ela não tinha pensado nisso. Eu tinha considerado, mas o "por que não?" me fizera ignorar as consequências. Não podia abandoná-la agora. Assim que anotei o telefone das garotas, peguei a bicicleta e voltei com Flami até sua casa em Hackney, tarde da noite, xingando baixinho pessoas que não tem um mínimo de senso de organização e sorrindo pra disfarçar quando ela me olhava.
De volta à casa dela, sentei no sofá e esperei enquanto ela me fazia chá e começava a cozinhar um pouco de macarrão para nós. Flami, segundo ouvira, era lendária na cozinha.
Mas então o celular tocou, e tão rápido como o resto do dia acontecera, ela me enxotou da casa, tendo que ir socorrer uma amiga em Soho.
Com um misto de maravilha, insatisfação e revolta perante a sensação de ter sido usado, peguei meu nightbus para casa. Tinha muito o que pensar sobre ela, sobre as pessoas que ela me apresentara, sobre a velocidade do dia. Ficava entre me armar contra estas pessoas caóticas, contra a violência que elas inflingiam na minha personalidade excessivamente organizada, ou desejá-las, desejar a velocidade das novidades e de realidades tão alheias à minha.
De qualquer jeito, Flami voltaria à Itália dentro de alguns dias. Good ridance...?
Deu pra perceber como ela me deixou confuso?
Everyone says hi
Acordei com essa música do Bowie na cabeça hoje. TInha ouvido ela no supermercado ha alguns dias e, na hora, não me pareceu nada além da coincidência de ouvir uma música familiar. Mas hoje de manhã, com ela tocando incessantemente na minha cabeça, prestei atenção na letra.
Said you'd took a big trip
They said you moved away
Happened oh so quietly, they say
Should've took a picture
Something I could keep
Buy a little frame, something cheap
For you
Everyone says hi
Said you sailed a big ship
Said you sailed away
Didn't know the right thing to say
I'd love to get a letter
Like to know what's what
Hope the weather's good and it's not too hot
For you
Everyone says hi
Everyone says hi
Everyone says
Don't stay in a sad place
Where they don't care how you are
Everyone says hi
If the money is lousy
You can always come home
We can do the old things
(Doo wap wap wha oo)
We can do all the bad things
(Doo wap wap)
If the food gets too eerie
You can always phone home
We could do all the good things
(Doo wap wap wha oo)
We could do it, we could do it, we could do it
(Doo wap wap oooo)
Don't stay in a bad place
Where they don't care how you are
Everyone says hi
Everyone says hi
Everyone says hi
(Everyone says hi)
And the girl next door
(Everyone says hi)
And the guy upstairs
(Everyone says hi)
Everyone says hi
(Everyone says hi)
And your mum and dad
(Everyone says hi)
Everyone says hi
(Everyone says hi)
And your big fat dog
(Everyone says hi)
Everyone says hi
(Everyone says hi)
Everyone says
Said you'd took a big trip
They said you moved away
Happened oh so quietly, they say
Should've took a picture
Something I could keep
Buy a little frame, something cheap
For you
Everyone says hi
Said you sailed a big ship
Said you sailed away
Didn't know the right thing to say
I'd love to get a letter
Like to know what's what
Hope the weather's good and it's not too hot
For you
Everyone says hi
Everyone says hi
Everyone says
Don't stay in a sad place
Where they don't care how you are
Everyone says hi
If the money is lousy
You can always come home
We can do the old things
(Doo wap wap wha oo)
We can do all the bad things
(Doo wap wap)
If the food gets too eerie
You can always phone home
We could do all the good things
(Doo wap wap wha oo)
We could do it, we could do it, we could do it
(Doo wap wap oooo)
Don't stay in a bad place
Where they don't care how you are
Everyone says hi
Everyone says hi
Everyone says hi
(Everyone says hi)
And the girl next door
(Everyone says hi)
And the guy upstairs
(Everyone says hi)
Everyone says hi
(Everyone says hi)
And your mum and dad
(Everyone says hi)
Everyone says hi
(Everyone says hi)
And your big fat dog
(Everyone says hi)
Everyone says hi
(Everyone says hi)
Everyone says
domingo, junho 18, 2006
As crianças inglesas parecem doentes.
Conversei sobre isso com a Taís quando ela esteve por aqui e até agora não consegui entender direito o que é que lhes faz tanto mal por aqui. Se é a cidade, o modo de vida, os hábitos ingleses ou uma predisposição genética. Mas algo aqui não faz nada bem ao crescimento das crianças.
Toda grande cidade, quando visitada pela primeira vez, inflinge toda sorte de violências no viajante. Parte da violência psicológica que sofri em Londres vinha da figura dos bebês: aquelas peles pálido-azuladas, quase transparentes, de um modo que eu acreditava quase poder ver os órgãos internos; os olhos saltados parecendo doer com a luz do sol; a feição magra, frágil, meio tísica. Mães carregando pequenas larvas nos carrinhos.
Daí elas crescem e atingem uma perfeição assustadoramente utópica aos seis ou sete. Vestem vestidinhos xadrez e camisetas e têm o aspecto da minha Alice, mas loiros e de olhos azuis. São anormalmente educados, proferindo uma insistência de por favores e obrigados e elogiando sem rodeios ou vergonha as pessoas, de um modo muito inglês. Frequentemente dizem gostar do meu cabelo, o que inicia uma longa e divertida conversa no pub.
Segue um período de total decadência. A pré-adolescência é alimentada à base de todo tipo de excessos açucarados e artificiais que eles mastigam, mesmo sem fome, o dia inteiro. Passam o dia comendo e atingem uma puberdade... larga. São excessivamente rebeldes, indisciplinados, desinteressados. Não se reconhece neles o período anterior. Acabam, de maneira geral, virando pessoas como Mary, com uma necessidade de satirizar e ser conceitualmente violenta; ou como Theo, interiorizando essa violência transmutada em auto-destruição e uma aceitação da idéia de que só vieram ao mundo para se ferrarem.
Ainda assim, de alguma maneira, chegam aos vinte e tantos atingindo uma espécie de equilibrio são, na medida do possível. São muito sociáveis, com bastante estilo e alguns resíduos de boa educação.
Me fazem perceber que eu talvez não tenha sido tão diferente crescendo em São Paulo. Ainda assim, Londres me dá uma impressão de ser uma cidade de muita prosperidade para adultos, mas um lugar que eu evitaria para ter filhos.
Conversei sobre isso com a Taís quando ela esteve por aqui e até agora não consegui entender direito o que é que lhes faz tanto mal por aqui. Se é a cidade, o modo de vida, os hábitos ingleses ou uma predisposição genética. Mas algo aqui não faz nada bem ao crescimento das crianças.
Toda grande cidade, quando visitada pela primeira vez, inflinge toda sorte de violências no viajante. Parte da violência psicológica que sofri em Londres vinha da figura dos bebês: aquelas peles pálido-azuladas, quase transparentes, de um modo que eu acreditava quase poder ver os órgãos internos; os olhos saltados parecendo doer com a luz do sol; a feição magra, frágil, meio tísica. Mães carregando pequenas larvas nos carrinhos.
Daí elas crescem e atingem uma perfeição assustadoramente utópica aos seis ou sete. Vestem vestidinhos xadrez e camisetas e têm o aspecto da minha Alice, mas loiros e de olhos azuis. São anormalmente educados, proferindo uma insistência de por favores e obrigados e elogiando sem rodeios ou vergonha as pessoas, de um modo muito inglês. Frequentemente dizem gostar do meu cabelo, o que inicia uma longa e divertida conversa no pub.
Segue um período de total decadência. A pré-adolescência é alimentada à base de todo tipo de excessos açucarados e artificiais que eles mastigam, mesmo sem fome, o dia inteiro. Passam o dia comendo e atingem uma puberdade... larga. São excessivamente rebeldes, indisciplinados, desinteressados. Não se reconhece neles o período anterior. Acabam, de maneira geral, virando pessoas como Mary, com uma necessidade de satirizar e ser conceitualmente violenta; ou como Theo, interiorizando essa violência transmutada em auto-destruição e uma aceitação da idéia de que só vieram ao mundo para se ferrarem.
Ainda assim, de alguma maneira, chegam aos vinte e tantos atingindo uma espécie de equilibrio são, na medida do possível. São muito sociáveis, com bastante estilo e alguns resíduos de boa educação.
Me fazem perceber que eu talvez não tenha sido tão diferente crescendo em São Paulo. Ainda assim, Londres me dá uma impressão de ser uma cidade de muita prosperidade para adultos, mas um lugar que eu evitaria para ter filhos.
sábado, junho 17, 2006
Ponto de ativação
Ainda não sei muito bem se isso acontece em qualquer aprendizado. Mas ao menos para mim, quando se trata de uma técina de arte (pintura, fotografia ou mesmo literatura, música e etc) ou uma habilidade física (os exercícios de solo do circo, a cama elástica, teclar no computador, jogar volley... servir em um pub), percebo que existe um ponto de ativação.
Quando começo a aprender esta coisa nova, tudo que existe é o esforço contínuo de copiar os modelos apresentados. copiar o estilo daquele desenhista famoso da Marvel, fazer tantas piruetas no ar quanto meu instrutor do circo, ter as mesmas respostas espertas e movimentos fluíddos da Naomi no pub. Esse esforço continua e eu não percebo, enquanto estou fazendo isso, o que realmente importa para ser bom nestas ações ou mesmo como elas funcionam exatamente. Eu só estou copiando.
Pode demorar dias ou mesmo anos. Mas eventualmente, um click acontece. Um momento pontual depois do qual há uma nova e sensivelmente maior compreensão sobre o assunto. Passo a entender como as coisas funcionam, e com esse entendimento vem a liberdade: a possibilidade não só de criar, mas de sair das enrrascadas, se proteger do impacto e executar pequenas ações que modificam a totalidade da coisa.
Depois do ponto de ativação, você pode desenhar qualquer coisa, as suas coisas. Você pode se jogar no ar e girar o corpo no momento preciso para cair como quiser, sem medo do chão. Você pode ter cinco, seis mesas sob seu controle e ter todo mundo feliz, podendo até parar pra conversar com alguma delas.
O ponto de ativação no pub chegou há uma semana, mais ou menos. Facilitou muito a coisa, mas ainda preciso de muita prática.
Quando começo a aprender esta coisa nova, tudo que existe é o esforço contínuo de copiar os modelos apresentados. copiar o estilo daquele desenhista famoso da Marvel, fazer tantas piruetas no ar quanto meu instrutor do circo, ter as mesmas respostas espertas e movimentos fluíddos da Naomi no pub. Esse esforço continua e eu não percebo, enquanto estou fazendo isso, o que realmente importa para ser bom nestas ações ou mesmo como elas funcionam exatamente. Eu só estou copiando.
Pode demorar dias ou mesmo anos. Mas eventualmente, um click acontece. Um momento pontual depois do qual há uma nova e sensivelmente maior compreensão sobre o assunto. Passo a entender como as coisas funcionam, e com esse entendimento vem a liberdade: a possibilidade não só de criar, mas de sair das enrrascadas, se proteger do impacto e executar pequenas ações que modificam a totalidade da coisa.
Depois do ponto de ativação, você pode desenhar qualquer coisa, as suas coisas. Você pode se jogar no ar e girar o corpo no momento preciso para cair como quiser, sem medo do chão. Você pode ter cinco, seis mesas sob seu controle e ter todo mundo feliz, podendo até parar pra conversar com alguma delas.
O ponto de ativação no pub chegou há uma semana, mais ou menos. Facilitou muito a coisa, mas ainda preciso de muita prática.
quinta-feira, junho 15, 2006
Dia 15
Hoje é o dia 15 de Junho.
Significa que, em teoria, eu já passei metade do meu tempo londrino. Um mês e meio. E que daqui a outro mês e meio, se as coisas não derem uma guinada utópica para melhor, eu começarei a preparar minha volta ao Brasil, que deve acontecer no dia 8 de Agosto.
Não pensem que estou sentado vendo os dias passarem. Estou trabalhando por essa guinada utópica: seguindo a sugestão da Taís, fui procurar os grandes animadores que vi nos festivais do Anima Mundi em São Paulo, os melhores deles sempre ingleses, e comecei a enviar e-mail a torto e a direito. Veremos o que eu pesco. Duas ou três empresas de design e publicidade também entraram no esquema.
No resto da vida, tudo parece ter invertido.
O pub hoje em dia me dá uma sensação gostosa de desafio que me faz querer o próximo turno. Está na possibilidade de exercitar o pensamento organizacional, a atenção a um certo número de mesas e o que cada uma está fazendo, como em um jogo onde tudo acontece ao mesmo tempo. E temos aqui outro movimento circular desta viagem: comecei com o jogo de percorrer Perugia, termino com o jogo de servir um restaurante. Claro que os turnos ainda me dão um pouco de medo. Sei que ainda estou errando bastante. Mas ao menos meus antagonistas já parecem me tecer alguns elogios de vez em quando. E como escrevi, os elogios me fazem continuar. Ontem tive dois clientes que voltaram ao pub e mostraram-se felizes de serem atendidos por mim, o brasileiro simpático. Faz bem pro ego.
A casa, por outro lado, vai de mal a pior. O que era antes o foco do meu conforto hoje em dia é um lugar de tensão. Meu quarto é ótimo, sempre organizado do jeito que eu gosto e uma delícia em termos de conforto. Mas para chegar até ele, passo por Frasier e Hellen, que se revelam cada vez mais anti-sociais, estressados e grossos. Sam, que eu achei que seria a personagem da irmã anti-social, mostrou-se um amor de pessoa, mas raramente está em casa. Sempre que torno ao lar, rezo para não encontrar o casal, ou para que já estejam dormindo; e para que a vegetariana esteja por lá. É uma situação tão desconfortável, que percebi hoje que já não tenho aquele prazer em ficar na casa, em cuidar do jardim, em limpar a sala e organizar tudo. Passo o menor tempo possível em casa. Ajudado em parte pela profusão de turnos que tenho recebido no pub.
Por último, levou metade do meu tempo em Londres, mas finalmente adquiri uma espécie de estabilidade financeira com o trabalho e os gastos da casa. Não estou mais gastando em reais. O salário do pub, complementado com as gorjetas (que, incrivelmente, chegam a dobrar o valor do salário!), pagam pelo aluguel, comida e ainda me sobra um pouco para curtir Londres.
Inicia-se a reta final da viagem, que promete ser um pouco mais alegre que a minha primeira metade de tempo inglês.
Significa que, em teoria, eu já passei metade do meu tempo londrino. Um mês e meio. E que daqui a outro mês e meio, se as coisas não derem uma guinada utópica para melhor, eu começarei a preparar minha volta ao Brasil, que deve acontecer no dia 8 de Agosto.
Não pensem que estou sentado vendo os dias passarem. Estou trabalhando por essa guinada utópica: seguindo a sugestão da Taís, fui procurar os grandes animadores que vi nos festivais do Anima Mundi em São Paulo, os melhores deles sempre ingleses, e comecei a enviar e-mail a torto e a direito. Veremos o que eu pesco. Duas ou três empresas de design e publicidade também entraram no esquema.
No resto da vida, tudo parece ter invertido.
O pub hoje em dia me dá uma sensação gostosa de desafio que me faz querer o próximo turno. Está na possibilidade de exercitar o pensamento organizacional, a atenção a um certo número de mesas e o que cada uma está fazendo, como em um jogo onde tudo acontece ao mesmo tempo. E temos aqui outro movimento circular desta viagem: comecei com o jogo de percorrer Perugia, termino com o jogo de servir um restaurante. Claro que os turnos ainda me dão um pouco de medo. Sei que ainda estou errando bastante. Mas ao menos meus antagonistas já parecem me tecer alguns elogios de vez em quando. E como escrevi, os elogios me fazem continuar. Ontem tive dois clientes que voltaram ao pub e mostraram-se felizes de serem atendidos por mim, o brasileiro simpático. Faz bem pro ego.
A casa, por outro lado, vai de mal a pior. O que era antes o foco do meu conforto hoje em dia é um lugar de tensão. Meu quarto é ótimo, sempre organizado do jeito que eu gosto e uma delícia em termos de conforto. Mas para chegar até ele, passo por Frasier e Hellen, que se revelam cada vez mais anti-sociais, estressados e grossos. Sam, que eu achei que seria a personagem da irmã anti-social, mostrou-se um amor de pessoa, mas raramente está em casa. Sempre que torno ao lar, rezo para não encontrar o casal, ou para que já estejam dormindo; e para que a vegetariana esteja por lá. É uma situação tão desconfortável, que percebi hoje que já não tenho aquele prazer em ficar na casa, em cuidar do jardim, em limpar a sala e organizar tudo. Passo o menor tempo possível em casa. Ajudado em parte pela profusão de turnos que tenho recebido no pub.
Por último, levou metade do meu tempo em Londres, mas finalmente adquiri uma espécie de estabilidade financeira com o trabalho e os gastos da casa. Não estou mais gastando em reais. O salário do pub, complementado com as gorjetas (que, incrivelmente, chegam a dobrar o valor do salário!), pagam pelo aluguel, comida e ainda me sobra um pouco para curtir Londres.
Inicia-se a reta final da viagem, que promete ser um pouco mais alegre que a minha primeira metade de tempo inglês.
Contraproducente
Percebo que alguns dos aspectos da minha estadia em Londres são contraproducentes a uma série de mudanças que muita gente no Brasil estava promovendo em mim.
Pra citar algumas, Taís sempre me dizia que eu tentava fazer tudo sozinho sem pedir ajuda de ninguém. Dizia-me que não era ruim pedir ajuda e que eu devia tentar de vez em quando. Por aqui, seja no trabalho ou em casa, sempre que tento pedir ajuda para alguma coisa, as pessoas me reprimem, me dizem para fazê-lo sozinho, para procurar meios de me virar. Compreendi que, embora eu tentasse resolver muitos dos meus projetos pessoais no Brasil sozinho e sem pedir ajuda de ninguém, gerando essa opinião da Taís, eu ainda era uma pessoa muito mentalmente preguiçosa no que diz respeito a coisas mais simples do dia a dia. Do tipo de pessoa que pergunta onde esta alguma coisa antes mesmo de procurar, porque é mais fácil.
Sem falar na quantidade de gente que tentava me provar que compensa ser um pouco mais humano e menos mecânico, que é irrelevante tentar ser perfeito, metódico e preciso. Aqui, trabalhando no pub, essas características são cobradas em peso e eu sinto a falta de prática dos anos que passei tentando me humanizar.
Na verdade, não é uma questão de dar um passo atrás em um desenvolvimento pessoal que já estava avanÇando em direções opostas. Trata-se de experimentar os jeitos antigos e ver que eu posso ser as duas coisas. Pedir ajuda e ser auto-suficiente. Ser preciso e eficiente, porém cálido ao mesmo tempo. Uma coisa não exclui a outra.
Pra citar algumas, Taís sempre me dizia que eu tentava fazer tudo sozinho sem pedir ajuda de ninguém. Dizia-me que não era ruim pedir ajuda e que eu devia tentar de vez em quando. Por aqui, seja no trabalho ou em casa, sempre que tento pedir ajuda para alguma coisa, as pessoas me reprimem, me dizem para fazê-lo sozinho, para procurar meios de me virar. Compreendi que, embora eu tentasse resolver muitos dos meus projetos pessoais no Brasil sozinho e sem pedir ajuda de ninguém, gerando essa opinião da Taís, eu ainda era uma pessoa muito mentalmente preguiçosa no que diz respeito a coisas mais simples do dia a dia. Do tipo de pessoa que pergunta onde esta alguma coisa antes mesmo de procurar, porque é mais fácil.
Sem falar na quantidade de gente que tentava me provar que compensa ser um pouco mais humano e menos mecânico, que é irrelevante tentar ser perfeito, metódico e preciso. Aqui, trabalhando no pub, essas características são cobradas em peso e eu sinto a falta de prática dos anos que passei tentando me humanizar.
Na verdade, não é uma questão de dar um passo atrás em um desenvolvimento pessoal que já estava avanÇando em direções opostas. Trata-se de experimentar os jeitos antigos e ver que eu posso ser as duas coisas. Pedir ajuda e ser auto-suficiente. Ser preciso e eficiente, porém cálido ao mesmo tempo. Uma coisa não exclui a outra.
terça-feira, junho 13, 2006
Otra vez adiós , mejicana
Faride partiu hoje de manhã para a Espanha. Vai ficar por lá por tempo indefinido, gravando um curta-metragem. Sem ela e com Anna um pouco ocupada com um amor que vem vizitá-la, estarei novamente sozinho aqui em Londres.
É estranho: quando Faride partiu de Perugia o acontecimento foi triste, mas havia no ar uma estranha sensação de que eu voltaria a vê-la. Mas agora, me despedi como se não me importasse, embora em minha mente a frase se repetisse: "And that was the last I saw of the mexican".
Essas coisas de intuição não significam nada. Principalmente em se trantando de uma intuição incompetente como a minha. De qualquer jeito, combinamos de nos encontrar no mês que vem em Perugia (se o dinheiro permitir...) para o Umbria Jazz, um festival que acontece todo ano em Perugia e que era muito propagandeado quando estava por lá. Who knows.
Durante a semana que morei com elas, Faride me falou que o serviço postal de Londres sempre entregava cartas amarradas com elásticos de cor magenta. A partir de então, comecei a percebê-los jogados nas ruas em grande quantidade. E em pouco tempo, passei a recolhê-los, lavá-los e fazer uma daquelas bolas de elástico que eu fazia quando trabalhei na agência de publicidade. Eram tantos elásticos que eu recolhia e colocava no pulso, que às vezes tinha que parar de reclher porque o pulso já estava completamente coberto deles.
Ontem, na despedida de Faride, estreguei-lhe a bolinha, que em um mês crescera mais do que a de um ano de agência. Disse-lhe que estava dando de presente a ela o meu primeiro mês de Londres.
E obviamente, já comecei outra.
É estranho: quando Faride partiu de Perugia o acontecimento foi triste, mas havia no ar uma estranha sensação de que eu voltaria a vê-la. Mas agora, me despedi como se não me importasse, embora em minha mente a frase se repetisse: "And that was the last I saw of the mexican".
Essas coisas de intuição não significam nada. Principalmente em se trantando de uma intuição incompetente como a minha. De qualquer jeito, combinamos de nos encontrar no mês que vem em Perugia (se o dinheiro permitir...) para o Umbria Jazz, um festival que acontece todo ano em Perugia e que era muito propagandeado quando estava por lá. Who knows.
Durante a semana que morei com elas, Faride me falou que o serviço postal de Londres sempre entregava cartas amarradas com elásticos de cor magenta. A partir de então, comecei a percebê-los jogados nas ruas em grande quantidade. E em pouco tempo, passei a recolhê-los, lavá-los e fazer uma daquelas bolas de elástico que eu fazia quando trabalhei na agência de publicidade. Eram tantos elásticos que eu recolhia e colocava no pulso, que às vezes tinha que parar de reclher porque o pulso já estava completamente coberto deles.
Ontem, na despedida de Faride, estreguei-lhe a bolinha, que em um mês crescera mais do que a de um ano de agência. Disse-lhe que estava dando de presente a ela o meu primeiro mês de Londres.
E obviamente, já comecei outra.
segunda-feira, junho 12, 2006
Just enough
Mudei para um quarto menor dentro da casa desde o começo do mês. O aluguél abaixou consideravelmente, é claro, e acho que a economia vai me pagar as outras contas da casa.
Mas me fez pensar um bocado em uma questão fundamental da minha vida: os excessos. O quarto no qual eu estava antes tinha mais ou menos o tamanho do meu quarto na Itália. Cama de viúva e tudo. Mas depois de dois meses naquele quarto perugino, ficou muito claro pra mim que todo aquele espaço era um excesso desnecessário. Eu não tive tempo de preenche-lo como eu queria e ele permaneceu até os últimos dias como um enorme quarto branco e quase vazio, com muito poucas coisas. Aqui, o amplo espaço aberto começou a me incomodar também (quer dizer, isso e o papel de parede floral rosa da senhora Sparrow...). Mudei para um quartinho menor onde todas as minhas coisas o preenchem perfeitamente e têm seus espaços certos, onde você percebe as pendências porque são as únicas coisas fora de lugar. É um espaço feito à medida do meu corpo. Coloquei minhas fotos triestinas e romanas na parede (ainda preciso revelar um filme de fotos inglesas...) e organizei tudo de um modo que me dá prazer ficar no quarto à noite.
Mas não pensei apenas nessa questão de espaço. Hoje em dia vive-se um estilo onde a plenitude se confunde com o excesso. Você come bem quando a comida é bem feita, mas sobretudo quando você come muito. Até doer. A balada é boa quando tem diversões inéditas, mas sobretudo quando você bebe muito. Até cair. Você baseia sua auto-estima na quantidade de mulheres que pega e só se sente completo quando perde a conta. Você considera que curtiu a viagem quando passou por vinte países em dez dias, visitando cinco museus em cada um.
Francamente, eu alcanço a plenitude através da saciedade. Porque assim como a falta incomoda, o excesso também perturba. A satisfação está em ter o suficiente. Comer até saciar a fome e não porque mamãe diz pra comer tudo. Beber porque você curte o gosto da bebida e não porque os amigos dizem que é legal e transgressor encher a cara e passar mal no dia seguinte. Lembrar de um número modesto de mulheres, mas tê-las para sempre como as personagens mais importantes da sua história. Conhecer uma cidade por inteiro e sem culpa de não ter ido tomar ácido em Amsterdã enquanto você estava na Europa.
Cada um tem seu ponto de saciedade. Just enough.
Mas me fez pensar um bocado em uma questão fundamental da minha vida: os excessos. O quarto no qual eu estava antes tinha mais ou menos o tamanho do meu quarto na Itália. Cama de viúva e tudo. Mas depois de dois meses naquele quarto perugino, ficou muito claro pra mim que todo aquele espaço era um excesso desnecessário. Eu não tive tempo de preenche-lo como eu queria e ele permaneceu até os últimos dias como um enorme quarto branco e quase vazio, com muito poucas coisas. Aqui, o amplo espaço aberto começou a me incomodar também (quer dizer, isso e o papel de parede floral rosa da senhora Sparrow...). Mudei para um quartinho menor onde todas as minhas coisas o preenchem perfeitamente e têm seus espaços certos, onde você percebe as pendências porque são as únicas coisas fora de lugar. É um espaço feito à medida do meu corpo. Coloquei minhas fotos triestinas e romanas na parede (ainda preciso revelar um filme de fotos inglesas...) e organizei tudo de um modo que me dá prazer ficar no quarto à noite.
Mas não pensei apenas nessa questão de espaço. Hoje em dia vive-se um estilo onde a plenitude se confunde com o excesso. Você come bem quando a comida é bem feita, mas sobretudo quando você come muito. Até doer. A balada é boa quando tem diversões inéditas, mas sobretudo quando você bebe muito. Até cair. Você baseia sua auto-estima na quantidade de mulheres que pega e só se sente completo quando perde a conta. Você considera que curtiu a viagem quando passou por vinte países em dez dias, visitando cinco museus em cada um.
Francamente, eu alcanço a plenitude através da saciedade. Porque assim como a falta incomoda, o excesso também perturba. A satisfação está em ter o suficiente. Comer até saciar a fome e não porque mamãe diz pra comer tudo. Beber porque você curte o gosto da bebida e não porque os amigos dizem que é legal e transgressor encher a cara e passar mal no dia seguinte. Lembrar de um número modesto de mulheres, mas tê-las para sempre como as personagens mais importantes da sua história. Conhecer uma cidade por inteiro e sem culpa de não ter ido tomar ácido em Amsterdã enquanto você estava na Europa.
Cada um tem seu ponto de saciedade. Just enough.
domingo, junho 11, 2006
Stalking Mrs. Sparrow
Já que os ingleses não têm Orkut nem o costume de manter um blog ou fotolog, tenho que suprir minhas vontades de stalker de outros modos...
Quando comecei a morar na casa em Acton Town, involuntariamente comecei a colher informações sobre a antiga moradora da casa. Não havia intenção de fazê-lo, mas a mente de um stalker monta estes quebra-cabeças e armazena essas informações automaticamente e com prazer.
Vizinhos me falaram tratar-se de uma senhora, o que encaixou com a escolha do papel de parede com estampas florais meio cafonas. Dias depois, uma carta chegou, endereçada a uma senhora J. Sparrow. E dei a história por encerrada, seguro de que a presença dos novos havitantes da casa tivesse apagado os traços dela. Até que acidentalmente tirei uma das gavetas da minha cômoda do lugar enquanto limpava o quarto e encontrei, no interior do móvel, amassadas contra o fundo, um maç de cartas e anotações de viagem.
Eram ao todo seis cartas de várias páginas, escritas em papel azul A5 e caneta tinteiro para a mãe da senhora Sparrow, relatando acontecimentos da época que ela viveu em Salisbury, Rodésia, na África, nos anos de 1958 e 1959. Como que a própria senhora Sparrow estava com as cartas endereçadas à sua mã:e, isso eu não entendi direito. Mas suponho que, depois que a mãe morreu, ela as tomou de volta. Fora isso, duas folhas de um diário de viagem relatavam dias passados na França em 1972, uma folha de poesia e organogramas de um evento relacionado a floricultura (daí o belo jardim e o papel de parede...), que suponho que ela tenha feito depois de se aposentar, em 2001.
Frente à descoberta, escondi meu tesouro dos outros habitantes da casa, que me diriam para entregá-lo aos atuais proprietários, que deveriam conhecê-la. Faria isso, mas antes queria ler as cartas, conhecer a senhora Sparrow. Flutuava no fundo de minha mente uma sensação de estar fazendo algo condenável. Mas eu ignorei a sensação.
Até agora, li três das cartas. Descobri que ela se chama Joan pelo organograma do evento e que seu aniversário é em Maio. Vivendo em Rodésia, ela estava morando sozinha pela primeira vez. Não pude evitar uma sensação de identificação. Morando pela primeira vez sozinho e em outro continente, tendo que se adaptar à cultura local. Descobri também que ela era (talvez ainda seja) presbiteriana praticante e estava na África a trabalho, embora ainda não tenha conseguido entender o que ela fazia. Nas cartas, menciona que a compania onde trabalhava tinha motoristas, assistentes de laboratório e contas de clientes. Suponho que fosse algo relacionado a medicina. Na útima carta que li, ela menciona um incidente relacionado a uma notícia de jornal que falava de gente que ia até lá atrá de jazidas de urânio, esperando enriquecer com a mineiração do elemento. O modo como ela escreve sobre o incidente me faz pensar que ela e a compania tenham algo a ver com o assunto e apenas recentemente me dei conta de que ela poderia trabalhar em um jornal: toda empresa tem motoristas, os assistentes poderiam ser de um laboratório fotográfico e as contas.... bom, não sei.
Enfim, estou praticando um outro tipo de stalking mais intuitivo, de estar em contato com objetos, salas, memorabilia pessoal. E gostando muito mais do que a vertente virtual da coisa.
Quando comecei a morar na casa em Acton Town, involuntariamente comecei a colher informações sobre a antiga moradora da casa. Não havia intenção de fazê-lo, mas a mente de um stalker monta estes quebra-cabeças e armazena essas informações automaticamente e com prazer.
Vizinhos me falaram tratar-se de uma senhora, o que encaixou com a escolha do papel de parede com estampas florais meio cafonas. Dias depois, uma carta chegou, endereçada a uma senhora J. Sparrow. E dei a história por encerrada, seguro de que a presença dos novos havitantes da casa tivesse apagado os traços dela. Até que acidentalmente tirei uma das gavetas da minha cômoda do lugar enquanto limpava o quarto e encontrei, no interior do móvel, amassadas contra o fundo, um maç de cartas e anotações de viagem.
Eram ao todo seis cartas de várias páginas, escritas em papel azul A5 e caneta tinteiro para a mãe da senhora Sparrow, relatando acontecimentos da época que ela viveu em Salisbury, Rodésia, na África, nos anos de 1958 e 1959. Como que a própria senhora Sparrow estava com as cartas endereçadas à sua mã:e, isso eu não entendi direito. Mas suponho que, depois que a mãe morreu, ela as tomou de volta. Fora isso, duas folhas de um diário de viagem relatavam dias passados na França em 1972, uma folha de poesia e organogramas de um evento relacionado a floricultura (daí o belo jardim e o papel de parede...), que suponho que ela tenha feito depois de se aposentar, em 2001.
Frente à descoberta, escondi meu tesouro dos outros habitantes da casa, que me diriam para entregá-lo aos atuais proprietários, que deveriam conhecê-la. Faria isso, mas antes queria ler as cartas, conhecer a senhora Sparrow. Flutuava no fundo de minha mente uma sensação de estar fazendo algo condenável. Mas eu ignorei a sensação.
Até agora, li três das cartas. Descobri que ela se chama Joan pelo organograma do evento e que seu aniversário é em Maio. Vivendo em Rodésia, ela estava morando sozinha pela primeira vez. Não pude evitar uma sensação de identificação. Morando pela primeira vez sozinho e em outro continente, tendo que se adaptar à cultura local. Descobri também que ela era (talvez ainda seja) presbiteriana praticante e estava na África a trabalho, embora ainda não tenha conseguido entender o que ela fazia. Nas cartas, menciona que a compania onde trabalhava tinha motoristas, assistentes de laboratório e contas de clientes. Suponho que fosse algo relacionado a medicina. Na útima carta que li, ela menciona um incidente relacionado a uma notícia de jornal que falava de gente que ia até lá atrá de jazidas de urânio, esperando enriquecer com a mineiração do elemento. O modo como ela escreve sobre o incidente me faz pensar que ela e a compania tenham algo a ver com o assunto e apenas recentemente me dei conta de que ela poderia trabalhar em um jornal: toda empresa tem motoristas, os assistentes poderiam ser de um laboratório fotográfico e as contas.... bom, não sei.
Enfim, estou praticando um outro tipo de stalking mais intuitivo, de estar em contato com objetos, salas, memorabilia pessoal. E gostando muito mais do que a vertente virtual da coisa.
Ping pong
Hoje fui trabalhar de moral baixa.
Tinha feito um turno muito gostoso ontem à noite, mas o telefonema do chefe simplesmente me colocou em um humor derrotista imbatível. E então cheguei hoje de manhã no pub e o gerente que controlava o turno, um de meus antagonistas, me colocou no controle de uma área de mesas no jardim do pub, dizendo que estava me dando essa área porque precisava de alguém que fosse good with people... A frase me pegou tão de surpresa que eu até parei o que eu estava fazendo, arrumando os talheres. Ele percebeu a incredulidade no meu olhar e perguntou: "you don't think you're good with people?". Er... não. Na verdade, eu até fujo de serviços onde eu tenho que interagir com pessoas. Mas obviamente não mencionei isso a ele. Ele me disse que estávamos recebendo boas gorjetas das minhas mesas e que os clientes gostavam do meu jeito. E me pareceu bem curioso o fato de que eu estava fazendo todas aquelas besteiras relacionadas à metodologia do pub, coisa que eu achava que tiraria de letra; e me dando tão bem no relacionamento com as pessoas, coisa que eu tinha até medo.
O que aconteceu no turno foi mágico. Era realmente eu? O elogio do meu gerente de turno teve tal efeito em mim, que eu estava até fazendo a outra parte, a metodologia, direito. Sempre feliz, com um sorriso e uma resposta esperta para cada cliente. Impressionante o que um elogio na hora certa consegue fazer. Terminando o dia, eu estava até me relacionando melhor com os colegas de trabalho.
Vou parar de escrever tanto sobre o trabalho.
Começa a acontecer uma daquelas coincidências que acabam virando superstições minhas: cada vez que reclamo do trabalho, a coisa melhora. E cada vez que relato um dia bom, a coisa piora. Passemos a outros assuntos.
And now, for something completely different.
Tinha feito um turno muito gostoso ontem à noite, mas o telefonema do chefe simplesmente me colocou em um humor derrotista imbatível. E então cheguei hoje de manhã no pub e o gerente que controlava o turno, um de meus antagonistas, me colocou no controle de uma área de mesas no jardim do pub, dizendo que estava me dando essa área porque precisava de alguém que fosse good with people... A frase me pegou tão de surpresa que eu até parei o que eu estava fazendo, arrumando os talheres. Ele percebeu a incredulidade no meu olhar e perguntou: "you don't think you're good with people?". Er... não. Na verdade, eu até fujo de serviços onde eu tenho que interagir com pessoas. Mas obviamente não mencionei isso a ele. Ele me disse que estávamos recebendo boas gorjetas das minhas mesas e que os clientes gostavam do meu jeito. E me pareceu bem curioso o fato de que eu estava fazendo todas aquelas besteiras relacionadas à metodologia do pub, coisa que eu achava que tiraria de letra; e me dando tão bem no relacionamento com as pessoas, coisa que eu tinha até medo.
O que aconteceu no turno foi mágico. Era realmente eu? O elogio do meu gerente de turno teve tal efeito em mim, que eu estava até fazendo a outra parte, a metodologia, direito. Sempre feliz, com um sorriso e uma resposta esperta para cada cliente. Impressionante o que um elogio na hora certa consegue fazer. Terminando o dia, eu estava até me relacionando melhor com os colegas de trabalho.
Vou parar de escrever tanto sobre o trabalho.
Começa a acontecer uma daquelas coincidências que acabam virando superstições minhas: cada vez que reclamo do trabalho, a coisa melhora. E cada vez que relato um dia bom, a coisa piora. Passemos a outros assuntos.
And now, for something completely different.
sábado, junho 10, 2006
Spoken a moment too soon
Hoje de manhã recebi um telefonema do meu chefe lá no pub.
Acho que eu devia colocar um toque específico no meu celular, bem soturno, para quando me ligam do pub, porque nunca é coisa boa.
Foi muito franco comigo, muito direto ao assunto, e me disse que no momento, eu tenho gente contra e a favor do meu trabalho no pub. Ou seja, gente que percebeu como eu estou evoluindo e aprendendo, e gente que acha que eu não estou fazendo o suficiente. O turno de ontem não ajudou muito a coisa: dois turnos em um dia, sendo que o último foi pesadíssimo, com uma gerente que não tem muita capacidade de organização (mas em compensa&cceil;ão adora descer a lenha em mim quando eu faço besteira...). Já é palpável o meu níl;vel de stress.
Ou seja que a situação é a seguinte: ou eu consigo conquistar meus antagonistas nas próximas semanas, ou perco o trabalho justamente quando estava chegando no ponto que eu queria, quando os ganhos começam a superar os gastos. Se o último acontecer, n&aatilde;o sei se vou ter saco pra continuar por aqui.
Rezem. Emboira eu saiba que alguns rezarão pela minha volta.
Acho que eu devia colocar um toque específico no meu celular, bem soturno, para quando me ligam do pub, porque nunca é coisa boa.
Foi muito franco comigo, muito direto ao assunto, e me disse que no momento, eu tenho gente contra e a favor do meu trabalho no pub. Ou seja, gente que percebeu como eu estou evoluindo e aprendendo, e gente que acha que eu não estou fazendo o suficiente. O turno de ontem não ajudou muito a coisa: dois turnos em um dia, sendo que o último foi pesadíssimo, com uma gerente que não tem muita capacidade de organização (mas em compensa&cceil;ão adora descer a lenha em mim quando eu faço besteira...). Já é palpável o meu níl;vel de stress.
Ou seja que a situação é a seguinte: ou eu consigo conquistar meus antagonistas nas próximas semanas, ou perco o trabalho justamente quando estava chegando no ponto que eu queria, quando os ganhos começam a superar os gastos. Se o último acontecer, n&aatilde;o sei se vou ter saco pra continuar por aqui.
Rezem. Emboira eu saiba que alguns rezarão pela minha volta.
sexta-feira, junho 09, 2006
Atualizando o pub
As coisas têm melhorado bastante no trabalho.
Percebi uma enorme quantidade de vampiros entre os funcionários. E eles nem tentam esconder: é tão interessante estar na Europa...
Fora isso, comecei a ter os primeiros turnos perfeitos (ou quase). Daqueles onde eu não faço (quase) nada errado, não recebo nenhum esporro ou apenas erro pequenas coisinhas irrelevante. Com o tempo você vai pegando o ritmo (alucinante) do trabalho, um estado de espírito onde você é como um tubarão: precisa sempre estar em movimento, porque se parar, morre. Acaba ganhando aquele jeito de fluir por entre as mesas, de alcançar os copos vazios em um gesto contínuo, de empilhar os pratos nos braços daquele modo quase impossível. E de fazer o multi-tasking. Importantíssimo. Cinco, seis mesas sob sua responsabilidade e você sabe o que está acontecendo em todas elas. Você leva os copos vazios de uma enquanto traz a comida de outra nos braços, tem na cabeç o pedido de bebidas de uma terceira e o prato principal da quarta. A adrenalina de tudo isso faz com que você nem perceba o cansaço, que só dá as caras quando você finalmente senta no final da noite.
Algumas coisas começam a acontecer pela primeira vez. Por exemplo, a primeira vez que me perguntaram o que era um prato e eu sabia tudo. E ainda tinha experimentado pra ter uma opinião do que era melhor. Nomes como bernaise, hollandaise, aioli, beurre blanc. E você conhece tudo. Mas nem tudo é essa maravilha: tive também os meus primeiros copos quebrados (e descobri que eu não pago por eles...) e a primeira vez que eu errei o cálculo da conta no final. Mas acontece... O importante é não perder a compostura e nem achar que o dia vai ser uma merda porque começou mal. O meu melhor turno começou com dois copos quebrados.
Por fim, começo a ganhar o respeito de gente que me tratava como o novato. Gregor já me fala com mais jeito, sem me humilhar. Até sorri de vez em quando. E é gostoso ouvir o seu polonês quando fala com Kasia, cheio de "Ch"s e "J"s sensuais na boca da cigana polonesa.
Mas uma das coisas mais importantes que estou aprendendo no bar é lidar com gente. Percebi que foi um dos meus maiores problemas no ano que passei na agência de publicidade. Porque até podia fazer um trabalho decente, mas não sabia me relacionar com meus colegas, com clientes, com ninguém. Fui educado para fazer um bom trabalho e não para ser sociável. Mas em áreas como a publicidade e os restaurantes, a sociabilidade pode fazer toda a diferença quando os clientes dão a gorgeta (que aliás, vem aumentando para mim a cada dia).
Percebi uma enorme quantidade de vampiros entre os funcionários. E eles nem tentam esconder: é tão interessante estar na Europa...
Fora isso, comecei a ter os primeiros turnos perfeitos (ou quase). Daqueles onde eu não faço (quase) nada errado, não recebo nenhum esporro ou apenas erro pequenas coisinhas irrelevante. Com o tempo você vai pegando o ritmo (alucinante) do trabalho, um estado de espírito onde você é como um tubarão: precisa sempre estar em movimento, porque se parar, morre. Acaba ganhando aquele jeito de fluir por entre as mesas, de alcançar os copos vazios em um gesto contínuo, de empilhar os pratos nos braços daquele modo quase impossível. E de fazer o multi-tasking. Importantíssimo. Cinco, seis mesas sob sua responsabilidade e você sabe o que está acontecendo em todas elas. Você leva os copos vazios de uma enquanto traz a comida de outra nos braços, tem na cabeç o pedido de bebidas de uma terceira e o prato principal da quarta. A adrenalina de tudo isso faz com que você nem perceba o cansaço, que só dá as caras quando você finalmente senta no final da noite.
Algumas coisas começam a acontecer pela primeira vez. Por exemplo, a primeira vez que me perguntaram o que era um prato e eu sabia tudo. E ainda tinha experimentado pra ter uma opinião do que era melhor. Nomes como bernaise, hollandaise, aioli, beurre blanc. E você conhece tudo. Mas nem tudo é essa maravilha: tive também os meus primeiros copos quebrados (e descobri que eu não pago por eles...) e a primeira vez que eu errei o cálculo da conta no final. Mas acontece... O importante é não perder a compostura e nem achar que o dia vai ser uma merda porque começou mal. O meu melhor turno começou com dois copos quebrados.
Por fim, começo a ganhar o respeito de gente que me tratava como o novato. Gregor já me fala com mais jeito, sem me humilhar. Até sorri de vez em quando. E é gostoso ouvir o seu polonês quando fala com Kasia, cheio de "Ch"s e "J"s sensuais na boca da cigana polonesa.
Mas uma das coisas mais importantes que estou aprendendo no bar é lidar com gente. Percebi que foi um dos meus maiores problemas no ano que passei na agência de publicidade. Porque até podia fazer um trabalho decente, mas não sabia me relacionar com meus colegas, com clientes, com ninguém. Fui educado para fazer um bom trabalho e não para ser sociável. Mas em áreas como a publicidade e os restaurantes, a sociabilidade pode fazer toda a diferença quando os clientes dão a gorgeta (que aliás, vem aumentando para mim a cada dia).
segunda-feira, junho 05, 2006
Waiting
Conversei com Anna sobre minhas frustrações no trabalho. Detesto a sensação de ser um novato inexperiente e de constantemente estar fazendo besteira e sendo repreendido pelos outros. Todo mundo me dá o mesmo conselho: sou inexperiente, é natural que eu erre, vai passar com o tempo e blah, blah, blah... Claro, mas nada disso me impede de ter que lidar com altos níveis de frustração a cada turno e me sentir um completo idiota. Anna no entanto me confortou com um tipo diferente de conselho. Contou-me sobre sua própria experiência em pubs e sobre como eu devia ter sempre em mente que este era um trabalho temporário. O que mais me chamou a atenção foi sua escolha de palavras: sendo um garçom (waiter), I was waiting (esperando). Esperando por Agosto, esperando voltar ao Brasil, esperando continuar a vida e ter uma carreira decente. Estas pessoas descontavam sua frustraÇão em mim porque waiting tornara-se a vida deles. Eu seguiria em frente para outras coisas mais interessantes, mas eles só tinham isso a que se dedicarem, e portanto o faziam com obstinação.
domingo, junho 04, 2006
Sábado perfeito em Greenwich. Ou pelo menos o mais perfeito dos dias londrinos até hoje. Um sol quase brasileiro no céu. Acordo no quarto de Faride. O café da manhã é servido no jardim às duas da tarde. Coisa grande e farta, estilo brunch. Converso com um arquiteto sobre arte e minha visita ao Tate e percebo a delícia que é conversar com arquitetos, porque eles prestam atencão na forma, na cor, na linha, em todas as coisas básicas de imagens que eu como artista vivo percebendo, mas que os artistas da minha idade menosprezam, concentrados sempre na piadinha, na história pra contar, na "subversão do sistema". Preciso encontrar mais arquitetos. Alguém trouxe um par de swings. Faride comeca a girá-los e tem jeito para a coisa. Peco licensa para a francesa de voz gostosa e bikini com a qual estou então conversando e vou praticar um pouco dos meus próprios movimentos de circo, junto da mexicana. A galera gosta. Mais tarde, badminton: estou comecando a me interessar muito pelos esportes estranhos dos ingleses, que são versões personalizadas de esportes mais conhecidos. As raquetes de badminton são leves e os jogadores parecem ninjas de filme: parados, imóveis em concentracão. E então se movem com um floreio da raquete que corta o ar com aquele som de espada e rebatem a peteca em gestos que parecem irreais. Anna se diverte e diverte aos outros: mais surreal que os movimentos é ver esta menina de voz suave e boas-maneiras britânicas, que sempre pede licensa e por favor e desculpa, de repente propor de fazermos sons orgásmicos a cada rebatida e comecar a fazer todo tipo de trocadilhos com o nome das petecas em inglês (shuttlecock).
O sol se poe e ainda faz um pouco de calor. Mostro minhas fotos na internet para Faride e ela se enche de vontade de fazer minhas fotos de escrever e desenhar com luz. De noite, ela sai para trabalhar e as últimas horas do dia são passadas em conversa mais intimista com Anna enquanto comemos comida indiana. Sobre cultura gótica e o que é o amor e o submundo homossexual e a infância.
Quando Anna adormece, estou terminando de ver um Monthy Python. Tomo o ônibus às duas da manhã, para chegar em casa quase às quatro e ter que acordar para trabalhar às nove. Ainda assim, me sinto incrivelmente bem. Suspeito que fiz besteira indo morar tão longe delas, seguindo os conselhos das Gracas inglesas sobre bons bairros londrinos. E tento me lembrar de dias com os amigos brasileiros que tenham me deixado assim tão pleno e satisfeito.
O sol se poe e ainda faz um pouco de calor. Mostro minhas fotos na internet para Faride e ela se enche de vontade de fazer minhas fotos de escrever e desenhar com luz. De noite, ela sai para trabalhar e as últimas horas do dia são passadas em conversa mais intimista com Anna enquanto comemos comida indiana. Sobre cultura gótica e o que é o amor e o submundo homossexual e a infância.
Quando Anna adormece, estou terminando de ver um Monthy Python. Tomo o ônibus às duas da manhã, para chegar em casa quase às quatro e ter que acordar para trabalhar às nove. Ainda assim, me sinto incrivelmente bem. Suspeito que fiz besteira indo morar tão longe delas, seguindo os conselhos das Gracas inglesas sobre bons bairros londrinos. E tento me lembrar de dias com os amigos brasileiros que tenham me deixado assim tão pleno e satisfeito.
sábado, junho 03, 2006
Vou voltar com as Alices... Só preciso de um pouco de tempo para encontrar um scanner decente.
Estava pensando nisso antes de dormir estes dias. Sobre como eu estava escolhendo personagens de contos infantis e subvertendo seus significados pueris para adaptá-los a significados pessoais, mais maduros. E então hoje visitei Faride e Anna e no computador, tocavam uma música onde a rosa do Pequeno Príncipe falava uma de suas frases mais célebres: "Você cuidou de mim e agora quer me colher. Como posso me defender se você me tirou os espinhos?". O Pequeno Príncipe sempre me pareceu o mais adulto dos contos infantis, falando sobre o lado cáustico do amor, a fidelidade, a morte e outros temas muito maduros para criancas.
Estive também pensando sobre o fato de eu ter escolhido Alice quando comecei a viajar. Porque antes eu era Peter Pan. Suponho que, inconscientemente, o que me atraiu à figura de Alice foi justamente o fato dela ser uma garotinha aparentemente indefesa. Porque Pan pode ser um garoto, mas continua sendo um guerreiro. E não me sentia um guerreiro. Me sentia uma crianca indefesa se aventurando em um mundo estranho e potencialmente perigoso.
Estava pensando nisso antes de dormir estes dias. Sobre como eu estava escolhendo personagens de contos infantis e subvertendo seus significados pueris para adaptá-los a significados pessoais, mais maduros. E então hoje visitei Faride e Anna e no computador, tocavam uma música onde a rosa do Pequeno Príncipe falava uma de suas frases mais célebres: "Você cuidou de mim e agora quer me colher. Como posso me defender se você me tirou os espinhos?". O Pequeno Príncipe sempre me pareceu o mais adulto dos contos infantis, falando sobre o lado cáustico do amor, a fidelidade, a morte e outros temas muito maduros para criancas.
Estive também pensando sobre o fato de eu ter escolhido Alice quando comecei a viajar. Porque antes eu era Peter Pan. Suponho que, inconscientemente, o que me atraiu à figura de Alice foi justamente o fato dela ser uma garotinha aparentemente indefesa. Porque Pan pode ser um garoto, mas continua sendo um guerreiro. E não me sentia um guerreiro. Me sentia uma crianca indefesa se aventurando em um mundo estranho e potencialmente perigoso.
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