quinta-feira, janeiro 12, 2012

Hoje à noite a Lexy chegou em casa e me ligou para dizer que tinha passado por duas situações complicadas na rua, dessas de quase-assalto. Duas, na mesma noite. Talvez por causa do meu assalto em Dezembro, eu ainda esteja sensível ao assunto. Ando pelas ruas com isso na cabeça, analisando cada pessoa, refazendo mil estratégias a cada momento para simplesmente atravessar a rua. E eu vou continuar assim por algum tempo. Mas a gente sabe que não adianta, né? Que algum dia, daqui a uns cinco, talvez dez anos, eu vou ter me acalmado em relação a isso, e vou estar novamente andando em uma rua deserta pensando em algum desses dilemas da vida, olhando para o chão. E aí outro desses vai chegar, e vai me "pedir ajuda".

Por enquanto, tudo na minha cabeça são previsões de um pessimismo vil e negro como pixe. De ser orgulhoso e não me curvar à violência, ao mau funcionamento dessa cidade e o seu estilo de vida imposto, insalubre e injusto. De continuar insistindo em caminhar, em viver direito, do meu jeito. E de algum dia, daqui a quase uma década, finalmente dar de cara com o rapaz que terá de fato aquele caco de vidro, aquela navalha, aquele pedaço de pau. Previsões pessimistas de que algum dia essa cidade vai conseguir me matar se eu não fugir dela a tempo. Eu, que posso fugir dela.

Mas em primeiro lugar, 99% de todas as minhas previsões e palpites falham...

E depois, quem há de me garantir que esse mesmo incidente não aconteça lá, mesmo eu tendo sentido a completa segurança e liberdade que eu tinha de andar pelas ruas à noite com a atenção totalmente dispersa em questões masculistas? Quem há de me garantir que eu não vou topar com uma gangue de chavs, ou ciganos, ou qualquer outra etnia menos favorecida?

Por enquanto, eu continuo apenas com essa sensação horrível e tola de alarme na cabeça. Como morar em uma zona de guerra, onde a qualquer momento os oficiais da Gestapo podem me parar na rua devido à minha descendência judaica.
O único que posso fazer é andar pela rua nesse misto de preconceito e precaução. Atravessando sempre que vejo algum rapaz de aparência humilde, que sugira a necessidade de roubar. Um rapaz sem mochila nas costas ou nada nas mãos, pra poder fugir da polícia mais facilmente. Um rapaz de havaianas (encanei com isso, apesar do primeiro cara que me assaltou na vida usar tênis da Reebok), que ele pode tirar pra ser mais silencioso quando fugir no escuro. Um rapaz de blusão largo para esconder a arma e o lucro do assalto, com gorro ou boné para esconder o rosto das câmeras de vigilância.

Um rapaz. Sempre um rapaz. Cruel ironia eu ser forçado a ter esses sexismos...

terça-feira, janeiro 10, 2012

Balanço de 2011

À medida em que a vida vai adquirindo contornos mais sérios, eu vou tendo menos tempo pra escrever por aqui. Questão de escolher de maneira sóbria quais são as suas bolas de golfe e o que é a areia [1]. O blog ainda está longe de terminar. Ele é parte intrínseca da minha presença virtual, de quem eu sou no mundo real também. Mas com certeza, eu já percebi que nesse ano, como dizia a Chebel, "I need to be living, not internerding...".

Mas vamos ao que interessa. Janeiro está quase na metade e eu ainda não fiz o balanço do ano passado. Um ano que dificilmente será superado (eu já não disse isso?), onde eu...

• ...estruturei muito melhor tudo o que eu pensava do Masculismo [1][2][3][4][5][6][7][8][9]
• ...comecei a encontrar pontos onde, apesar de diferentes, as compreensões do masculino dos ingleses e a minha se encontravam. [1]
• ...observei ativistas, protestantes e gente alternativa de verdade com visões de mundo e ideologias muito interessantes. [1][2][
• ...recebi gente lá em Londres para afastar a minha saudade. [1]
• ...conheci uma turma que não estava nem totalmente do lado masculino e nem do feminino. E estava vivendo perfeitamente bem com isso! [1][2][3][4][5]
• ...fiz vários vídeos! [1][2][3][4]
• ...percebi as crises, incoerências e o caos da faculdade em Londres. Quando a academia vira empresa, o caos se instala. Seja em que país for! [1][2]
• ...convivi com gente nova, estranha, estressante e interessante. [1][2]
• ...observei os "odds and ends" de Londres. [1][2][3]
• ...coloquei meu trabalho para inglês ver! [1][2][3][4]
• ...aproveitei que ninguém me conhecia tanto assim em Londres para ousar, dando início a uma mudança sorrateira de personalidade em direção a algo mais sexualmente ambíguo [1][2][3][4][5]
• ...visitei a Romênia, à procura do lendário e do verdadeiro conde Drácula! Aproveitei para aprender um nada de romeno. [1]
• ...comecei a cair na real em relação a ser artista, ao mercado e à academia, ao meu futuro. [1][2]
• ...me envolvi com o catálogo da turma, uma responsabilidade cheia de dor e de delícia. [1][2]
• ...assisti bem de perto à Europa entrando em crise. [1]
• ...tive que deixar a rotina gostosa de um lugar onde eu fui realmente muito feliz por um ano, para voltar ao meu país de origem e me readaptadar a estar entre conhecidos novamente. [1][2][3]
• ...tive meus choques culturais, desgostos nativos e pequenas frustrações de volta no meu país. A vida aqui jamais será a vida de lá. [1][2][3][4]


E o que será de 2012?
O ano promete muito. E embora esse muito seja muito trabalho e muitas obrigações, são também muitas possibilidades, muito gosto de vida adulta. Se tudo correr bem, será um ano em que eu...

• ...colocarei um pouco de lado as megalomanias da adolescência, o sonho não realizado e atualmente muito questionado de virar artista plástico de carreira.
• ...começarei a dar aulas de educação artística no meu saudoso Colégio Bandeirantes.
• ...investirei mais e melhor na carreira de idiomas.
• ...finalmente sairei da casa dos pais para ter o meu lugarzinho!
• ...continuarei interessado nas questões masculinas e nas ambiguidades de gênero, tentando levar uma vida que seja fiel à ideologia.
• ...voltarei brevemente à minha Londres para a cerimônia de graduação do mestrado.
• ...viajarei mais com a minha Lexy!