Aprendi na escola, quando criança, que o petróleo era um "combustível fóssil". Ele era o resultado de um processo da decomposição de seres que haviam morrido há milhares de anos, suas carcaças soterradas sob a pressão de toneladas de rocha sedimentaria. E a ideia principal deste Surreal Revelation é esta: montamos sociedades inteiras fundamentadas por esta substância, este chorume de carcaça.
Montamos sociedades inteiras fundamentadas em morte.
Karl Benz criou o que conhecemos como o carro moderno em 1886 [fonte]. Ou seja, em um piscar de olhos de 130 anos, se comparado com os milênios de existência da raça humana. Mas nesses 130 anos, sociedades inteiras passaram a serem fundamentadas pela economia das montadoras de carro. Estive tentando achar o trecho do documentário do Michael Moore onde ele mostrava uma cidade americana que havia sido montada em volta de uma fábrica da GM, onde todos trabalhavam. Quando a GM resolveu que aquela fábrica específica não estava mais gerando os lucros desejados, a fábrica foi fechada e a cidade morreu com níveis elevadíssimos de desemprego, depressão e suicídio.
No Brasil, tínhamos a chance de usar os caudalosos rios naturais do país para a navegação. Outro ótimo documentário chamado Entre Rios mostrava como a maioria das cidades que "deram certo" eram criadas em torno de uma estratégia de transporte que ia do mais amplo e de maior capacidade, para o mais individual e menor. O começo de tudo eram os portos, onde as mercadorias chegavam de barco e eram carregadas em trens. As linhas férreas levavam tudo para os centros urbanos onde um sistema de transporte público garantia acesso às mais variadas partes da cidade. Finalmente, se você tivesse que ir a um lugar muito específico, podia valer-se do veículo individual: um carro ou moto. Isso garantia que muita gente indo para os mesmo lugares usava pouco combustível, ocupava pouco espaço e causava menos transtorno para todos os envolvidos.
Até que as montadoras americanas resolveram expandir seu mercado para o Brasil. Não vou me alongar neste raciocínio, o documentário faz isso de forma maravilhosa. Mas como resultado, hoje transportamos boa parte das cargas através do país por meio de "veículos individuais", os caminhões dessas montadoras. A construção de algumas das nossas principais cidades subverteu toda essa ordem e passou a privilegiar as estradas para veículos individuais em vez de todas as outras esferas dessa hierarquia. Ainda temos um serviço de transporte público pífio e transitar entre cidades por meio de transporte ferroviário ainda é um sonho com ares de impossibilidade europeia.
A contraparte disso é que muita gente fez muito mais dinheiro. As transportadoras receberam por cada caminhão nas estradas em vez de por uma grande locomotiva. As montadoras receberam por cada veículo para cada família (as vezes dois ou mais veículos por família) em vez de construir veículos de transporte público que carregavam dezenas de pessoas. E principalmente, as entidades ligadas ao petróleo aumentaram seu consumo da substância por cada indivíduo.
E as consequências dessa expansão das montadoras todo mundo conhece: nesses 130 anos, nós destruímos o mundo a tal ponto que se fala em irreversibilidade. As estradas estão abarrotadas de veículos, não existe mais "hora do rush" porque toda hora é do rush. Níveis de stress explodiram. E hoje quando as montadoras mostram resultados abaixo do esperado, todos entram em pânico. O governo corta impostos no setor. O horário nobre é recheado de propagandas de feirões prorrogados porque supostamente "foram um sucesso na semana passada". Diz o meu pai que toda essa algazarra é feita pelo setor automobilístico, enquanto o sucro-alcooleiro do qual minha família descende enfrenta uma das maiores crises da sua história e a mídia nem menciona o fato.
Estou me afastando demais do cerne do assunto. A indústria automobilística responde a uma outra indústria, a petroleira. Se detonamos o mundo em 130 anos com automóveis, isso aconteceu em grande parte porque eles usam derivados de petróleo em sua fabricação e rodam com combustíveis derivados dele também, que emitem todos esses poluentes.
E há alternativas. Há MUITAS alternativas. Mas no ponto em que estamos, o petróleo já gerou fortunas, sistemas e dependência em níveis tão astronômicos, que os envolvidos lutarão para mantê-los funcionando. Lutarão mesmo. Lutarão guerras em países longínquos por motivos fictícios. Tudo para ter mais petróleo para manter tudo girando.
E a cada novo dia, nossa sociedade continua fundamentada em morte.
Há qualquer coisa de perversamente poético ou xamânico nisso. A morte de eras mortas e enterradas é trazida à tona para provocar morte ambiental, morte belicosa e morte moral.