sábado, junho 28, 2008

The dead man

There was a dead man on the corner just outside my building last night. Gunshot wound to the head. At first, I didn't notice him. Never even noticed all the comotion on the street. I was on my way to buy brownies for desert from the nearby bakery. In upper class neighborhoods, when violence erupts, no one actually screams or runs like in the movies. We keep our mild and civilized tone of voice while calling the police. I stoped on the curb, looking up to gaze at the green light and wait for my turn to walk, faintly noticing the people around me: the couple who had walked in front of me up the block whispering to each other, the man anxiously talking on his mobile phone, the guy lying on the street right next to me on the curb. Had I taken another step and I would have kicked his leg. I took another step to my left to avoid having to step over him when the lights turned red and then looked down to see him. It seems incredibly stupid of when I think of it now to have ignored him up to that point. Ignored him until he was so close. How often do you see a man lying motionless on the street?
The foot I had almost kicked was clad in simple tennis shoes. His right leg was stretched with his foot awkwardly turned inward: a position no living man would sustain unless there was a propper reason for it. His other leg was bent outward, toward the street. He wore bright orange shorts and a red shirt (how could I have missed those screaming colours?). Both of his arms were under his body, as if he had held onto something on his stomach. His head was turned slightly to the right, but still facing the ground. And then there was all the blood. It was still flowing from him, but now very slowly, indicating that the heart was no longer pumping. And it was that same unreal movie-like shade of crimson, only it seemed thicker. Oozing from the side of his head and slowly reaching the gutter. Pink froth floating along.
The sight of his blood faintly triggered that sense of reality, as if things were really there, suddenly more focused. That cliche about having lived in a daydream and suddenly awakening. It lasted for about five seconds. Long enough for me to realize I was standing next to a dead body and needed to move. Long enough to fear being connected to what had just happened there.
And then the lights turned red and I was on the move and that other part of me kicked in. The one that I hardwired into myself as a kid to counter the actions of schoolyard bullies. The one that says I should never react instantly to what is happening, because that's what they want and it's a mistake. Just pretend it's all very normal and go about your business while you give your brain time to think about what to do next. Do not react. This protocol has been so deeply conditioned into my behaviour, that it switches on in every stressful situation nowadays.
So I crossed the street, went into the bakery and payed five bucks on a box of brownies. All very casual and ordinary. The police cars sped by the bakery as I was at the cash registers, the cashiers giggling nervoursly and asking each other what was going on: "is he dead?", "I don't know, I'm not going out there, I'm scared of these things!".
On my way back, the officers were aproaching the body as if it were rigged with explosives and ready to burst. As one gropped for the pulse on the dead man's wrist, the other asked beside the vehicle: "is he zeroed?". Affirmative. He is dead. On the curb, a small crowd of half-a-dozen upper-class citizens had gathered like mourners on an early wake. I stood beside them with my plastic bag of brownies on one hand. That unreactive program in me told me not to be affraid and to actually experience this, witness this. Had there been less people around, I would have drawn closer, hunkered around beside him. A perverse part of me wanted to know if he was still warm. I had never seen a real bullet wound before. It made me curious.
Most of all, it surprised me that I wasn't as... startled or upset about it as one should be. Perhaps it was the programming: I just didn't allow myself to be upset about it. I went back home, had dinner and made my mind not to speak about it until the next day, when it would all be gone into the past. Then again, I suppose the fact that I am writting this down hints that it bothered me to some minimal extent.

quinta-feira, junho 26, 2008

Tenho passado noites no ateliê, mesmo com o frio. O macacão de pintura sobre a roupa esquenta o suficiente. Tenho receio de relatar essas coisas, porque tenho uma superstição de que quando eu falo, as coisas não acontecem. Parte de mim já está apostando quanto tempo esse ímpeto vai durar.
Ímpeto é a palavra certa. Estou fazendo duas pinturas grandes ao mesmo tempo, coisas antigas que nunca terminei, e já cogitando começar uma terceira, um retrato da Lexy. É o que eu sempre quis fazer: começar a sessão com as pinceladas vigorosas necessárias pra cobrir um fundo de cor uniforme ou fazer um degradê perfeito, e depois pendurar a tela pra secar enquanto faço detalhes mais minuciosos em outra. E dividir tanto o ímpeto e maravilhamento como o saco cheio entre as duas telas, pra não cansar e desistir de nenhuma delas.

Ontem, saíndo de lá, tranquei a porta e dei de cara com uma pintura em azulejo que tem logo na entrada da casa. É uma pintura de um artista relativamente importante, cujo nome esqueci. Ela mostra um grupo de negros: dois garotos pequenos, dois homens adultos e uma mulher, todos sentados no chão. O que sempre gostei dessa pintura é a expressão dos rostos, porque ela conta uma história enorme. A mulher está de braços cruzados, a cabeça baixa para sua direita, os olhos fechados. Tem uma expressão no rosto de um sofrimento resignado, daquele que literalmente diz "eu sofro sim, sinta pena de mim". Expressão de quem usa a pena alheia como estratéga de defesa. Mas não é a expressão de uma mulher fraca. Ela é corpulenta, forte, resistente. Mas injustiçada, sofrida. Ouso dizer: é uma expressão de escrava. Ao seu lado, os dois homens adultos têm rostos tão parecidos e estão tão juntos, um olhando sobre o ombro do outro, que são obviamente irmãos. Sua relação com a mulher é desconhecida e um deles coloca-lhe a mão no ombro. Esse gesto e seu olhar de cabeça baixa, lateral e culpado, pede desculpas por alguma injustiça que lhe fizeram. Ou talvez não seja tanta culpa, mas um compadecimento diante da companheira injustiçada. O fato é que nada é dito na pintura sobre o que aconteceu à mulher. Mas eu sempre tive a impressão de que os responsáveis pelo sofrimento dela são os irmãos. Aos pés da mulher, uma das crianças senta-se quase de costas para nós, olhando para cima, para o rosto da mulher (mãe?), com aquela expressão dopada de boca aberta que as crianças bem pequenas fazem quando estão perscrutando essas coisas do mundo adulto. É uma ilustração perfeita dessa expressão. O outro moleque está encolhido no outro canto do quadro, perto dos homens adultos e oposto à mulher. Não fica muito claro, mas tenho uma noção bem diáfana de que ele antagoniza com ela. Como se talvez eles dois tenham brigado feio e os outros personagens só estão lá, assistindo e tentando acalmar a situação.

terça-feira, junho 24, 2008

Esses dias fui ler um pouco a respeito do movimento grunge na música dos anos 90. Talvez eu fosse muito pequeno na época para me informar sobre os ideais do movimento e perceber o quanto era interessante. Pelo que eu entendi, o grunge foi o filho do movimento punk de duas décadas antes. Este tinha como premissa uma libertação total dos aspectos da hierarquia e autoridade considerados inúteis por seus integrantes. Como consequência direta desse ideal, pregavam a filosfia do "do it yourself" onde, se você não gostava de alguma coisa, fazia a sua própria do seu jeito. Daí o surgimento de inúmeras bandas de punk rock com integrantes que mal sabiam tocar seus instrumentos, mas tinham uma noção clara do que queriam em uma música. A banda mais famosa do gêrero foram os Ramones. Não lembro onde foi que eu li (provavelmente no ótimo livro Rockers, com as fotos do Bob Gruen, que dei para Lexy), mas um dos integrantes da banda chegou a dizer que, se você tem um instrumento e sabe fazer três notas nele, já pode montar uma banda de punk rock. E isso eram os Ramones. No mesmo livro, li que eles apareciam para tocar carregando os instrumentos em sacolas de compras, com total desleixo e negligência.

O grunge, em sua época, pegou essa mesma contestação do punk e aplicou à indústria fonográfica. Descontentes com o modo como as gravadoras gerenciavam as bandas e lucravam em cima dos discos, criaram meios de distribuir a música longe das grandes gravadoras, às vezes gravando eles mesmos, de forma independente. Li mesmo sobre a atitude do Pearl Jam, notória e duradoura banda do gênero, que comprou a briga com a Ticketmaster nos EUA e a obrigou a diminuir seu lucro sobre os ingressos da turnê da banda para poder repassar esse desconto aos fãs. Diferente do punk, o grunge diminuía na violência alegre e sarcástica pra adotar algo mais raivoso e deprimido.
Porém a banda mais famosa do grunge foi o Nirvana de Kurt Cobain e Dave Grohl. Assim como os Ramones, o Nirvana tinha músicos que não sabiam tocar, um vocalista com uma voz bizarra e sem muita habilidade a não ser o grito estridente e letras não muito poéticas. Cobain cometeu suicídio em 1994, supostamente por não conseguir lidar com a fama. O ato só fez aumentar o mito da banda, porque todo mundo viu nisso um protesto contra a tendência de movimentos alternativos ganharem popularidade e serem incorporados ao mainstream. Como se ele pretendesse ser verdadeiramente grunge, alternativo e rebelde ou morrer tentando. De fato, a maioria das bandas não durou nem dez anos, acabando asim que o grunge em si, como movimento, deixou de ser alternativo, perdendo o cerne da sua filosofia.

Inicialmente, eu compararia a filosofia punk ao que, nas artes visuais, foi representado pelo Duchamp mais de meio século antes. Porque ele também abriu as portas para pessoas comuns e sem qualquer conhecimento técnico tentarem se passar por artistas plásticos. Era, de certa forma, a filosofia do "do it yourself" que ele estava propondo com os seus ready-mades.

Eu ia comparar o grunge ao Pollock e contemporâneos, mas eles tinham toda uma questão política de serem o símbolo da luta americana contra o comunismo russo representado pela arte ilustrativa. Aliás, pra mim eles só tinham isso, porque a técnica realmente era pobre e bagunçada (daí a base da minha comparação). Mas o grunge não teve nada de político. Pelo menos não assim, diretamente.
Então, pensando um pouco, acabei lembrando do Basquiat. Grafiteiro de muro, ele foi elevado ao status de artista com a ajuda do Andy Warhol, que seguia a mesma linha do Duchamp (o "do it yourself", onde tudo pode ser arte e todos podem ser artistas). Me pareceu uma linhagem parecida com aquela entre o punk e o grunge. No mais, Basquiat também não tinha lá muita técnica, mas tinha muito ímpeto. E, como a maioria das bandas de grunge, morreu relativamente jovem, no auge da carreira. Sem falar que a própria palavra "grunge" tem uma conotação de sujeira em inglês, e o grafitti, por estar na rua, é naturalmente sujo.

Engraçado: agora que vejo, eu me identifico bastante com o grunge (do Pearl Jam, não do Nirvana, porque esse pra mim é só barulho mesmo), por não saber muito de música e querer ser vocal de banda mesmo assim. Mas pela minha obssessão por técnica nas artes visuais (ouvi um termo ótimo esses dias: tech-whore), tenho minha dificuldade em gostar do Basquiat. Ou mesmo do Duchamp.
Chego a acreditar que a diferença entre o meu atual estado de leve depressão e o ser feliz achando que minha vida está evoluíndo é de pouco mais que R$500,00 mensais.

From Freak Angels

I still get asked with appalling regularity “where my ideas come from.”

Here’s the deal. I flood my poor ageing head with information. Any information. Lots of it. And I let it all slosh around in the back of my brain, in the part normal people use for remembering bills, thinking about sex and making appointments to wash the dishes.

Eventually, you get a critical mass of information. Datum 1 plugs into Datum 2 which connects to Datum 3 and Data 4 and 5 stick to it and you’ve got a chain reaction. A bunch of stuff knits together and lights up and you’ve got what’s called “an idea”.

And for that brief moment where it’s all flaring and welding together, you are Holy. You can’t be touched. Something impossible and brilliant has happened and suddenly you understand what it would be like if Einstein’s brain was placed into the body of a young tyrannosaur, stuffed full of amphetamines and suffused with Sex Radiation.

That is what has happened to me tonight. I am beaming Sex Rays across the world and my brain is all lit up with Holy Fire. If I felt like it, I could shag a million nuns and destroy their faith in Christ.

From my chair.

See, this is the good bit about writing. It’s what keeps you going. It’s the wild rush of “shit, did I think of that?” with all kinds of weird chemicals shunting around your brain and ideas and images and moments and storyforms all opening up snapsnapsnap in your mind, a mass of new and unrealised possibilities.

It’s ten past two in the morning, and I’m completely wired, caught up in the new thing, shivering and laughing and glowing in the dark. Just as well it’s the middle of the night. No-one would be safe from me right now. I could read their minds and take over their heartbeats with a glare.

Faster than the speed of anyone.

That’s how it works.

quinta-feira, junho 12, 2008

Dia dos Namorados gostoso no Friday's, se embebedando no bar e comendo quesadilla. E não dá pra ler os posts da galera falando que passar o Dia dos Namorados a sós é gostoso sem sentir um pouco de pena pelo autor. Eita, abaixa que lá vem pedra!
Desde que abri minha conta do Twitter e comecei a seguir o How Stuff Works, recebo quase diariamente fatos interessantes sobre uma série de coisas.
Hoje, dia dos namorados, recebi um sobre o amor.
Sempre foi um assunto bem complicado pra mim. Porque tenho minhas impressões a respeito que acabam sendo muito... racionais e científicas. Seguindo aquela idéia de que a vida não passa de um complexo emaranhado de reações físicas e químicas, o amor sempre me pareceu um jogo de chave e fechadura entre estímulos de um e receptores do outro. Entre ações, opiniões, tiques, peculiaridades e perversões de um e da capacidade de outro de tolerar e até extrair prazer dessas coisas.
E claro que essa idéia sempre pareceu absurda pra todo mundo, já que o amor era talvez o mais sagrado dos Assuntos Místicos ditos inexplicáveis, como a arte, a vida e deus.
O que parecia absurdo para mim era que esses assuntos perdessem seu encanto para as pessoas apenas porque eram explicados de uma forma palpável e compreensível em vez de serem atribuídos a "forças ocultas". E daí que a atração física é gerada por hormônios e questões de similaridade? Eu me sinto apaixonado do mesmo jeito e a explicação do truque não me tira o prazer de experimentá-lo. Da mesma forma, porque é que eu sou considerado herege se acredito que o deus católico não é aquele velhinho barbudo e simpático, mas o conjunto de todas as reações físicas e químicas do universo? Eu sinto o mesmo maravilhamento e humildade diante dessa hipótese do que qualquer cristão fervoroso (sem falar que nem o deus deles e nem a minha versão atendem realmente a preces porque nós somos ínfimos demais para sermos ouvidos...). E daí se a minha noção de arte desconsidera o tal "dom" que dizem que algumas pessoas tem e outras não? O produto dessa arte acaba sendo igualmente instigante. Ou seja, no fim das contas, a magia ainda está lá. Só que eu estou falando dela com palavras feias e sem misticismo.

quarta-feira, junho 04, 2008

Muitos posts atrasados, escritos em arquivos txt durante o trabalho e que depois não acho tempo ou saco pra postar aqui. Aguenta aí que aqui vem uma avalanche de posts...

terça-feira, junho 03, 2008

Projeto Religare

O que dar de presente para alguém que já deu os melhores presentes?
Lexy me dera o aniversário mais gostoso dos últimos anos. Eu não recebia esse tipo de adoração e devoção desde meus aniversários de infância. Presentes feitos por ela, pensados de acordo com o que eu sou, minha simbologia, presentes muito pessoais. Nada daquelas besteiras compradas por impulso. Era uma coisa difícil de retribuir.

O projeto começou dois meses antes do aniversário. Um deles dedicado ao planejamento. Quando maio chegou, comecei a por em prática tudo. Os horários de almoço incluíam a procura de imagens e recursos para montar a divulgação. Aproveitando um acesso ao Orkut (cada vez mais raro hoje em dia para mim, por causa dos bloqueios da agência e a internet podre de casa...), consegui os endereços de seus amigos mais queridos.
A primeira fase do projeto seria uma ação muito simples: em seu aniversário do ano anterior, ela queixara-se de que ninguém ligou e poucos compareceram à balada marcada no Inferno. Nós dois já estamos acostumados à vida multipla e simultânea que se leva nesta cidade, mas ao menos faz-se tempo para visitar amigos importantes em seus aniversários... Convencido de que eu correria um sério risco de fracassar se marcasse uma balada, resolvi ao menos cuidar do outro assunto, os telefonemas. Porque imaginei que, lembrando a todos com alguma antecedência e insistindo um pouco, eu conseguiria alguns telefonemas de amigos queridos para alegrar a aniversariante. O primeiro flyer foi disparado uma semana antes da data.

Enquanto isso, a segunda fase do projeto corria. Com o ateliê reativado, passei a dedicar algumas horas após o trabalho à construção de alguns presentes interessantes. Em uma época onde madeira leve era escassa por causa de problemas aduaneiros (de acordo com os vendedores...), eu tive que ser criativo na escolha de materiais e ferramentas. Trabalhei nas poucas horas em que ela não esperava qualquer contato meu, como se o dia transcorresse normalmente, mas tive que abrir o jogo na última semana e dizer que estava passando algumas horas no ateliê.

E então, naqueles últimos dias antes do fim, ela adoeceu. Daquelas coisas que ninguém espera: intoxicação alimentar e stress. Com direito a visita ao PS de hospital e muito soro na veia. Males de um semestre particularmente vil na faculdade. O fato mudou parte dos planos e os presentes que teriam sido entregues na fazenda, tiveram que acontecer na cidade. Aquele feriado foi passado entre as fases finais de construção no ateliê e cuidados na casa dela.

Finalmente, aquele domingo chegou. Me encontrou, em suas primeiras horas, dormindo sobre o meu teclado no computador de casa, enquanto eu batalhava minha internet podre para enviar o segundo flyer, lembrando a todos mais uma vez de ligar naquele dia. Havia sempre nos flyers a nota pedindo para que não revelassem que eu pedira para ligarem. Tive medo de que, se ela soubesse, ela pensaria que os telefonemas eram menos verdadeiros, porque as pessoas não lembraram dela por si próprias. Mas ao mesmo tempo, tive vontade de contar para revelar que eu era responsável por aquilo. Se o fizesse, eu sabia que a ação perderia seu impacto. Mas como era difícil manter esse segredo! Os telefonemas começaram pela manhã. Teve gente ligando que misteriosamente conseguiu o número dela mesmo sem ela ter divulgado. Teve muita gente que ela não esperava ouvir naquele dia. E claro, sempre tem um ou outro que, mesmo com toda a divulgação, não consegue vencer a preguiça e executar um gesto tão banal.

Apareci na casa dela no fim da manhã. Ela abriu a porta e deu de cara com um vaso de tulipas. As primeiras flores de verdade que eu lhe dei em pouco mais de um ano de namoro (ultrajante, eu sei...). De lá, depois do primeiro almoço decente que ela tinha há dias por causa da intoxicação, fomos ao ateliê.
Sentei-a na poltrona de couro encostada no canto e pedi que esperasse. Dali a pouco eu aparecia com uma caixa de papelão que coloquei em uma mesinha. Comecei então a contar a história.
"Se estivéssemos na fazenda, ela acordaria de manhã e veria pela janela ao leste um enorme balão branco em formato de coração amarrado à árvore no campinho de futebol. Chegando lá, eu lhe daria uma agulha, dizendo-lhe: 'esta é kaze, a caixa de ar'. Estourando o balão, ela encontraria em meio ao confete um rolinho de papel amarrado. No papel, os estudos e a impressão final de um logotipo criado especialmente para ela. Para que começasse a deixar sua marca nas imagens que coloca na internet, nos trabalhos da faculdade, em tudo. Assim como eu tenho o meu leão de pedra.
"Seguindo para o norte, em direção ao campo onde se plantava milho há algum tempo e a terra ainda é fofa, encontraríamos uma pá fincada no chão, sobre o logotipo desenhado. Cavando alguns centímetros do chão, ela chegaria a uma caixa. Construída em MDF, mais resistente ao peso e pressão, e com as laterais revestidas de argila, esta seria chi, a caixa de terra. Quebrando os lacres de argila e abrindo a tampa, ela encontraria o segundo presente: um periférico para o laptop dela, cuidadosamente embalado.
"Então desceríamos a elevação para o oeste, em direção à represa. Perto da margem, uma caixa pintada de azul chamaria a atenção. Uma das fotos dela, de nossa série de fotos na caixa branca, decora a tampa da mizu, a caixa de água. Na frente da caixa, um lacre é feito de tinta guache. O guache é solúvel em água e é tudo o que é preciso para abrir a caixa. Dentro dela, deitadas no forro de veludo, estão quatro tulgaridas, misturas de tulipas e margaridas feitas de plástico (assistindo a cena de "O Todopoderoso" em que Jim Carrey dá tulgaridas à Jennifer Aniston, ela exclamou que eu nunca lhe dera tulgaridas, querendo dizer que eu nunca lhe dera flores em geral...).
"Finalmente, subiríamos para o sul, em direção à entrada da fazenda. De lá daria para ver o morro que pegou fogo há alguns anos, e que todos nós da fazenda ajudamos a apagar. O céu naquela noite fora vermelho vivo. Perto da entrada estaria uma caixa prateada. Hi, a caixa de fogo, é forrada de alumínio. a tampa é lacrada com cera na qual está delicadamente desenhado o logotipo dela. Com a ajuda de um isqueiro e algum cuidado, a caixa seria aberta, revelando um livro de fotos de astros do rock que ela tanto queria. O livro documenta uma das primeiras exposições que visitamos juntos, do trabalho do fotógrafo Bob Gruen.
"Percorrendo as quatro posições, faríamos um quadrado em torno da casa. A mais complexa das três formas básicas da filosofia religiosa que eu vi na Itália. Relacionada aos quatro elementos, quatro pontos cardeais, quatro estações e tantas outras coisas. Tem paralelos nas religiões das culturas chinesa, celta e wicca."

Mas mesmo depois desses dois meses e o jantar que se seguiu, depois de tantos presentinhos pensado e executados com a dificuldade da falta de tempo, senti ainda não ter retribuído o meu aniversário. É estranho: o namoro com ela me apresentou a um outro tipo de relacionamento, uma coisa mais justa. Onde não estamos exatamente cobrando um do outro, mas somos em vez disso impelidos a retribuir gestos tão delicados de carinho com outros de mesmo teor e acabamos sempre gerando no outro a vontade de retribuir essa retribuição. E assim sucessivamente.
É fácil ser um total idiota e cobrar carinho na base da reclamação. Difícil é fazer desse outro jeito, e inspirar a devoção do outro através da sua própria.

Ei, psiu! Te amo.