Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, outubro 31, 2005
Faz algum tempo eu escrevi sobre como, nas grandes cidades, você é a sua carreira. É quase como uma raça. Daí que nesses dias me peguei pensando na minha situação atual. Porque não estou nem procurando emprego. Ninguém me contrataria em fim de ano e por apenas dois meses. Estou sobrevivendo de poucos freelas e o seguro-desemprego do meu emprego anterior, enquanto espero pela Itália e resolvo as burocracias. Mas a formação que tenho ainda me deixa meio noiado de vez em quando, pensando em como eu estou fora desse tipo de classificação. Para todos os efeitos, eu não sou um publicitário. Nem um artista plástico, se é que já fui. Sou apenas alguém esperando por uma viagem. Não vou mentir, embora eu esteja ultimamente tentando me livrar do condicionamento ideológico instilado em mim pelo colégio, ainda me pego julgando-me um vagal, um desocupado, mesmo que minha situação de desempregado seja justificável. Auto-estima beirando a nulidade...
Algum dia, nos filas de banco...
Atendimento preferencial:
• Deficientes físicos
• Idosos
• Mulheres grávidas ou com crianças de colo
• Pessoas que, às 14:30, ainda não almoçaram...
• Deficientes físicos
• Idosos
• Mulheres grávidas ou com crianças de colo
• Pessoas que, às 14:30, ainda não almoçaram...
segunda-feira, outubro 24, 2005
Lee citava a trama de As Horas ao falar daquelas épocas memoráveis da vida, aqueles pedaços de paraíso que ficam na memória pra sempre como referência de épocas felizes. Falava do verão que os protagonistas do filme passaram juntos e depois ficaram o resto da vida tentando reviver. Passou a ser uma espécie de referência na minha vida. Eu e Lee tivemos nosso verão também, na época em que eu a ensinei a andar de bicicleta ou nos dias que passamos em Àguas de São Pedro e que relatei no começo do blog.
Nesses dias, me peguei lembrando de outro verão: estar na cobertura de um prédio perto da Paulista onde o Jho, um dos vampiros do coven de Zion, estava morando. Tinha acabado de se mudar. Uma pechincha. Ele fez um almoço para festejar, convidou todos os vampiros e nós (eu e Taís). Comemos até não poder mais. Conversamos sobre nem lembro o que. Ao cair da tarde, Dani nos estimulou a jogar daqueles deliciosos jogos promíscuos que envolviam beijar os outros. No fim da noite, falando de circo, Taís começou com a idéia de tentar ensinar os vampiros a fazer paradas de mão. Alegria (sim, é o nome de uma delas) trocou as calças estilosas por uma samba-canção e desfilou as belíssimas pernas. Fizemos parada de mão contra a parede da varanda tendo a cidade por testemunha da proeza acrobática. Acho que foi essa cena específica, deles tentando jogar as pernas para o alto e caíndo no chão e rindo como se nada importasse, que se fixou na memória para sempre, como mais uma época da vida que eu vou estar eternamente tentando reviver.
Nesses dias, me peguei lembrando de outro verão: estar na cobertura de um prédio perto da Paulista onde o Jho, um dos vampiros do coven de Zion, estava morando. Tinha acabado de se mudar. Uma pechincha. Ele fez um almoço para festejar, convidou todos os vampiros e nós (eu e Taís). Comemos até não poder mais. Conversamos sobre nem lembro o que. Ao cair da tarde, Dani nos estimulou a jogar daqueles deliciosos jogos promíscuos que envolviam beijar os outros. No fim da noite, falando de circo, Taís começou com a idéia de tentar ensinar os vampiros a fazer paradas de mão. Alegria (sim, é o nome de uma delas) trocou as calças estilosas por uma samba-canção e desfilou as belíssimas pernas. Fizemos parada de mão contra a parede da varanda tendo a cidade por testemunha da proeza acrobática. Acho que foi essa cena específica, deles tentando jogar as pernas para o alto e caíndo no chão e rindo como se nada importasse, que se fixou na memória para sempre, como mais uma época da vida que eu vou estar eternamente tentando reviver.
Explicando...
Depois do post anterior, recebi duas ou três mensagens por diversos meios de gente que estava totalmente por fora da minha odisséia, perguntando surpresa o que queria dizer tudo aquilo. Explico.
Sempre quis viajar sozinho. Intercâmbio ou qualquer coisa assim. O colégio me deu boas oportunidades, mas meus pais sempre tinham uma desculpa e naquela época eu dependia muito deles para as questões financeiras dessa aventura. Disseram-me "espere até o colegial, porque aí você vai estar mais maduro e vai poder aproveitar mais". Mas no primeiro colegial eles estavam pagando a viagem de formatura da 8a do meu irmão. Depois disso, entrei no segundo colegial e todo o inferno do vestibular começou a chegar perto. Deixei para a faculdade. Quase no fim do curso de artes, resolvi procurar um curso de restauração de pintura na Itália. Mas novamente, apesar de eu ter ido atrás de toda a informação e documentação necessária, eles acharam o curso muito caro e não quiseram bancar. Depois de um ano trabalhando e juntando grana, desta vez eu vou pra lá pagando parte das contas. Então não tem desculpa.
Troquei o curso de restauração por um modesto curso de italiano, mas também pela possibilidade de passar um ano inteiro por lá. Serei sincero: não fosse a necessidade de estar aqui para terminar o curso de publicidade, eu tentaria ficar por lá definitivamente.
Os motivos que me levam à Itália são diversos.
O Italiano, pra começar: não vou aprender mais nada se ficar fazendo curso de idiomas. Preciso falar com as pessoas, entender como pensar em italiano. Aprender naturalmente.
Outra coisa: muitos amigos meus foram para viagens de ano inteiro e voltaram mais maduros, auto-suficientes. Sinto que me falta esse amadurecimento e o procuro nessa viagem.
Demitido do emprego e tendo terminado meu namoro, não vejo perspectivas para mim aqui e nem tenho vontade de procurar. Este país infernal perdeu a graça, se é que a teve algum dia para mim.
Por último, minha família é originalmente da Itália. Às vezes acho que trocar a Itália pelo Brasil foi uma péssima idéia. Teve seus bons motivos na época, mas hoje... Passa pela minha cabeça a idéia de, digamos, retornar a família à Itália. É um objetivo de vida que me parece mais louvável do que me matar pra conseguir outro emprego em agência publicitária e morrer de ataque cardíaco aos 50. Esse objetivo implicaria passar a viver por lá e constituir família. A quem interessar possa: essa é uma possibilidade remota. O mais provável é que eu volte ao Brasil mesmo e infarte aos 50...
Tá, eu sei, esse post ficou meio confuso. Mas tem as minhas razões dessa coisa toda. Simplificando: eu vou pra Itália tentar passar um ano por lá, procurando um sentido pra minha vida e avaliando as possibilidades de ficar por lá definitivamente depois de terminar meu curso de publicidade aqui.
COUNTDOWN: T - 3 meses
Sempre quis viajar sozinho. Intercâmbio ou qualquer coisa assim. O colégio me deu boas oportunidades, mas meus pais sempre tinham uma desculpa e naquela época eu dependia muito deles para as questões financeiras dessa aventura. Disseram-me "espere até o colegial, porque aí você vai estar mais maduro e vai poder aproveitar mais". Mas no primeiro colegial eles estavam pagando a viagem de formatura da 8a do meu irmão. Depois disso, entrei no segundo colegial e todo o inferno do vestibular começou a chegar perto. Deixei para a faculdade. Quase no fim do curso de artes, resolvi procurar um curso de restauração de pintura na Itália. Mas novamente, apesar de eu ter ido atrás de toda a informação e documentação necessária, eles acharam o curso muito caro e não quiseram bancar. Depois de um ano trabalhando e juntando grana, desta vez eu vou pra lá pagando parte das contas. Então não tem desculpa.
Troquei o curso de restauração por um modesto curso de italiano, mas também pela possibilidade de passar um ano inteiro por lá. Serei sincero: não fosse a necessidade de estar aqui para terminar o curso de publicidade, eu tentaria ficar por lá definitivamente.
Os motivos que me levam à Itália são diversos.
O Italiano, pra começar: não vou aprender mais nada se ficar fazendo curso de idiomas. Preciso falar com as pessoas, entender como pensar em italiano. Aprender naturalmente.
Outra coisa: muitos amigos meus foram para viagens de ano inteiro e voltaram mais maduros, auto-suficientes. Sinto que me falta esse amadurecimento e o procuro nessa viagem.
Demitido do emprego e tendo terminado meu namoro, não vejo perspectivas para mim aqui e nem tenho vontade de procurar. Este país infernal perdeu a graça, se é que a teve algum dia para mim.
Por último, minha família é originalmente da Itália. Às vezes acho que trocar a Itália pelo Brasil foi uma péssima idéia. Teve seus bons motivos na época, mas hoje... Passa pela minha cabeça a idéia de, digamos, retornar a família à Itália. É um objetivo de vida que me parece mais louvável do que me matar pra conseguir outro emprego em agência publicitária e morrer de ataque cardíaco aos 50. Esse objetivo implicaria passar a viver por lá e constituir família. A quem interessar possa: essa é uma possibilidade remota. O mais provável é que eu volte ao Brasil mesmo e infarte aos 50...
Tá, eu sei, esse post ficou meio confuso. Mas tem as minhas razões dessa coisa toda. Simplificando: eu vou pra Itália tentar passar um ano por lá, procurando um sentido pra minha vida e avaliando as possibilidades de ficar por lá definitivamente depois de terminar meu curso de publicidade aqui.
COUNTDOWN: T - 3 meses
sexta-feira, outubro 21, 2005
Stage 2
Ready?
GO!!!
Imaturidade típica minha: comparar toda essa odisséia de conseguir a viagem para a Itália a um jogo de video-game. Pois é, mas eu sou assim. Get used to it.
Hoje, no balcão da Varig do aeroporto, recebi minhas passagens! Era como receber um novo e crucial ítem do jogo. E percebi que tinha passado para a fase 2, onde a perspectiva de ir para a Itália é mais do que um mero sonho. Aliás, toda fase não podia deixar de ter um chefão final, certo? Se não tenho escrito muito por aqui, era porque passei estes últimos dias enfrentando o chefão da primeira fase: o consulado italiano! Três dias, várias páginas de sites e toneladas de papelada, burocracia e funcionários mal-educados.
Na verdade, o chefão desta primeira fase deveria ter sido o aeroporto e conseguir as passagens. Mas eu usei um cheat básico, peguei milhagens dos meus pais e resolvi isso logo. Sem grandes dificuldades. O consulado é outra história. Da galera que já foi pra lá, muito poucos se preocuparam em tirar passaporte europeu. Foram como turistas brasileiros e deram o famoso jeitinho. Eu resolvi pegar uma rota alternativa nesta primeira fase do jogo, com outro chefão, e conseguir um ítem oculto, por assim dizer. Uma arma que vai me dar mais poder e facilitar outras fases do jogo. Com o passaporte, acredito que seja mais fácil conseguir emprego, lugares pra ficar, conta no banco, uma série de coisas.
Fase 2: a organização até a viagem propriamente dita. Não sei muito bem qual vai ser o chefão da fase ou que ítens eu ainda preciso conseguir. Mas enfim, vou deixar a analogia de lado porque eu tenho senso do ridículo. Pouco, mas tenho. Tá bom, quase nada, eu admito...
COUNTDOWN: T - 3 meses e 4 dias.
GO!!!
Imaturidade típica minha: comparar toda essa odisséia de conseguir a viagem para a Itália a um jogo de video-game. Pois é, mas eu sou assim. Get used to it.
Hoje, no balcão da Varig do aeroporto, recebi minhas passagens! Era como receber um novo e crucial ítem do jogo. E percebi que tinha passado para a fase 2, onde a perspectiva de ir para a Itália é mais do que um mero sonho. Aliás, toda fase não podia deixar de ter um chefão final, certo? Se não tenho escrito muito por aqui, era porque passei estes últimos dias enfrentando o chefão da primeira fase: o consulado italiano! Três dias, várias páginas de sites e toneladas de papelada, burocracia e funcionários mal-educados.
Na verdade, o chefão desta primeira fase deveria ter sido o aeroporto e conseguir as passagens. Mas eu usei um cheat básico, peguei milhagens dos meus pais e resolvi isso logo. Sem grandes dificuldades. O consulado é outra história. Da galera que já foi pra lá, muito poucos se preocuparam em tirar passaporte europeu. Foram como turistas brasileiros e deram o famoso jeitinho. Eu resolvi pegar uma rota alternativa nesta primeira fase do jogo, com outro chefão, e conseguir um ítem oculto, por assim dizer. Uma arma que vai me dar mais poder e facilitar outras fases do jogo. Com o passaporte, acredito que seja mais fácil conseguir emprego, lugares pra ficar, conta no banco, uma série de coisas.
Fase 2: a organização até a viagem propriamente dita. Não sei muito bem qual vai ser o chefão da fase ou que ítens eu ainda preciso conseguir. Mas enfim, vou deixar a analogia de lado porque eu tenho senso do ridículo. Pouco, mas tenho. Tá bom, quase nada, eu admito...
COUNTDOWN: T - 3 meses e 4 dias.
quarta-feira, outubro 19, 2005
Calamidade
O Brasil é roído pela seca.
Os Estados Unidos afogados pelo Vilma
A Itália teme a gripe aviária.
E eu aqui decidindo pra onde ir, o que fazer...
Acho que a primeira atitude é deixar de assistir o telejornal.
Os Estados Unidos afogados pelo Vilma
A Itália teme a gripe aviária.
E eu aqui decidindo pra onde ir, o que fazer...
Acho que a primeira atitude é deixar de assistir o telejornal.
segunda-feira, outubro 17, 2005
Alice 11
sexta-feira, outubro 14, 2005
Shortcuts
"Vocês trazem as meninas pra casa, daí a gente conhece elas e gosta. Depois vocês terminam e a gente fica com saudade delas."
Minha mãe não é linda?
Atari ontem. Adoro aquele tipo de gente. Quem dera conhecesse mais gente assim, com esse estilo e esse verve. Aliás, nem sinal do sickness... Algum dia ainda entendo como essa coisa maldita funciona.
Alguém topa ir no Atari na semana que vem?
Minha mãe não é linda?
Atari ontem. Adoro aquele tipo de gente. Quem dera conhecesse mais gente assim, com esse estilo e esse verve. Aliás, nem sinal do sickness... Algum dia ainda entendo como essa coisa maldita funciona.
Alguém topa ir no Atari na semana que vem?
quinta-feira, outubro 13, 2005
sábado, outubro 08, 2005
Neo-amor
Estou no ateliê conversando com Thaís Albuquerque sobre relacionamentos, nosso assunto predileto. Súbito, toca o telefone. É o "Peixe" (signo dele...). Peixe foi o namorado da Thaís na época em que estavamos no curso de artes. Foi: terminaram por essas razões pelas quais os namoros terminam. Thaís atende e imediatamente conta pra ele sobre o esculacho que deu em um ex-ficante folgado. Os dois se divertem com a história, ele presta um ou outro conselho a ela e todo mundo ri. Percebo-me lembrando de Bia contando-me sobre Eduardo, atualmente seu marido; e eu contando a ela de vários casos meus.
Isso é neo-amor. Aquela coisa que os pais não entendem, de ex-namorados que continuam bons confidentes. De pessoas que continuam saíndo, ficando, transando e etc, mesmo depois do fim do namoro e que usam essa saída gradual da vida do outro para evitar dores profundas. De relacionamentos que borram os limites das oficialidades e não têm palavra para serem definidos. Adoro. Mesmo sendo, por excelência, uma coisa da nossa geraçõa "adolescentes de 25", que tem medo de assumir compromissos.
Isso é neo-amor. Aquela coisa que os pais não entendem, de ex-namorados que continuam bons confidentes. De pessoas que continuam saíndo, ficando, transando e etc, mesmo depois do fim do namoro e que usam essa saída gradual da vida do outro para evitar dores profundas. De relacionamentos que borram os limites das oficialidades e não têm palavra para serem definidos. Adoro. Mesmo sendo, por excelência, uma coisa da nossa geraçõa "adolescentes de 25", que tem medo de assumir compromissos.
Sex & the City & the Matrix
Estranho... mas hilário!
De vez em quando, o Saturday Night Live acerta no humor. De vez em quando. A maioria das vezes é só imbecil mesmo.
De vez em quando, o Saturday Night Live acerta no humor. De vez em quando. A maioria das vezes é só imbecil mesmo.
quinta-feira, outubro 06, 2005
Site pronto!
Pessoas, montei esse site com as ilustrações que fiz nesse um ano trabalhando em agência e algumas coisinhas a mais, de arte e coisinhas pessoais.
O endereço é http://www.pedroleao.com
Chique, não?
Espalhem por aí!!
O endereço é http://www.pedroleao.com
Chique, não?
Espalhem por aí!!
quarta-feira, outubro 05, 2005
Chega de adolescência!
Diz minha terapeuta que a adolescência foi uma espécie de coisa inventada socialmente. Que antes disso, passava-se da infância (que também, de certa forma, é uma convenção social) diretamente para a vida adulta, tendo apenas talvez um ritual de passagem entre um e outro. Diz ela que fez-se necessário o surgimento desse "período de latência" entre infância e vida adulta logo depois da revolução industrial, e depois de que começaram a ter "vagas" em empregos. Faz sentido: todo ano, milhares de formandos saem das faculdades dizendo-se prontos para o mercado de trabalho, mas não há emprego pra toda essa gente. Então criou-se essa estratégia de fazê-los pensar que ainda eram imaturos demais para terem as responsabilidades de um emprego de verdade. Jogou-se todos eles em estágios, que não são propriamente empregos e os transformam em uma espécie de mão de obra coringa, que faz de tudo, desde tirar xerox e fazer café, até o trabalho propriamente dito.
Algumas considerações: sendo que o número de formandos vai sempre ser maior do que o número de empregos, esse atraso vai crescer cada vez mais. Seguindo a teoria, nossos filhos só vão sair da casa dos pais e ter empregos de verdade com... uns 35 anos, mais ou menos. Outro fato é que essa estratégia funcionou tão bem que, junto com outras falhas de educação que eu e o Lala's discutimos, criou uma geração que, mesmo aos 25, ainda se acha imatura e indecisa demais pra tomar decisões que as gerações anteriores tomavam com 18 (tomo como mero exemplo a decisão de sair da casa dos pais...).
Deu pra perceber que, desde que eu li o post do Lala's, eu tô lutando contra isso obssessivamente?
Algumas considerações: sendo que o número de formandos vai sempre ser maior do que o número de empregos, esse atraso vai crescer cada vez mais. Seguindo a teoria, nossos filhos só vão sair da casa dos pais e ter empregos de verdade com... uns 35 anos, mais ou menos. Outro fato é que essa estratégia funcionou tão bem que, junto com outras falhas de educação que eu e o Lala's discutimos, criou uma geração que, mesmo aos 25, ainda se acha imatura e indecisa demais pra tomar decisões que as gerações anteriores tomavam com 18 (tomo como mero exemplo a decisão de sair da casa dos pais...).
Deu pra perceber que, desde que eu li o post do Lala's, eu tô lutando contra isso obssessivamente?
segunda-feira, outubro 03, 2005
Lord of War
Foi o filme do fim de semana.
Nicolas Cage é um traficante de armas reconhecido mundialmente que parece não sentir remorso pelo que faz, até que sua vida começa a se despedaçar e ele começa e questionar as implicações morais do seu sucesso.
[AVISO: não se lê um post sobre o filme sem ter visto o filme. A menos que você não se importe de ler uma ou outra cena interessante por aqui antes de vê-la na tela.]
Quando Lala's propôs o filme, aceitei achando que talvez trouxesse novas opiniões a considerar sobre todo o atual bafafá em torno da proibição da venda de armas. Porém, à medida que o filme ia passando, encontrei mais estímulos pra pensar na minha carreira de artista plástico trabalhando em publicidade e na minha situação de vida atual do que em metralhadoras, pistolas e granadas...
Durante anos, fiz o curso de publicidade sabendo que esta era a origem dos males do mundo, apesar deles se esforçarem pra provar o contrário. A publicidade (principalmente a não-consciente, aquela que só quer o lucro mesmo) é responsável por boa parte da frustração e destruição da auto-estima de um contingente incalculável de pessoas. E eu fiz parte daquilo sem sentir culpa. É como o traficante de armas: "eu não estou colocando a arma na cabeça das pessoas e atirando". Tá, mas algumas das empresas que contratam os serviços publicitários sim. Veja The Corporation para mais detalhes. Eu mesmo já fiz ilustrações para produtos nos quais eu não acreditava, produtos que tinham contra-indicações e não as esclareciam (aliás, meu trabalho de graduação em grupo vai ser sobre a Red Bull...), produtos que eram idênticos e tão danosos quanto os concorrentes mas usavam da publicidade pra cobrar mais caro e parecerem melhores. E durante tudo isso, não senti culpa. E não posso dizer que a sinta agora, mesmo depois de ver o filme. Mas sinto que ela virá algum dia. Um dia em que eu perceber que eu não fiz nada de relevante para a humanidade, apenas vendi mais uma marca de sabão, que também "lava mais branco". E me diziam que eu tinha tanto potencial...
Meu primeiro impulso, durante o filme, foi uma lufada de posicionamento ético. Por exemplo: hoje mesmo, pretendo avançar bastante na produção de ilustrações para um trabalho freelance que caiu no meu colo na quinta-feira. O produto, não vou revelar qual é. Mas tem a ver com a indústria tabagista. Obviamente cogitei a hipótese de, num ato patético de suposto heroísmo, dizer que não podia fazer esse serviço por estar encorajando as pessoas a fumarem ou qualquer outra besteira. Num segundo momento, pensei: a questão do cigarro realmente me incomoda tanto assim? A verdade é que não. Quando muito, deu o clima para diversas situações memoráveis da minha vida. Logo veio a segunda questão: o que me incomoda? Contra o que eu vou lutar e quais serviços eu me sentiria compelido a negar? A seguir, cenas do próximo capítulo...
No fim, percebi que, não importa a carreira escolhida, as implicações morais e éticas do que você faz sempre acabarão te alcançando. Se eu fosse artista plástico mesmo, seria a implicação de ficar sendo sustentado pelos pais e não ter dinheiro pra sustentar uma família. Com a publicidade, é vender o que eu não acredito. Sempre vai ter algo pra se culpar. É até uma questão filosófica: é possível ser totalmente inocente? No filme, o melhor conselho é "don't go to war with yourself". Se você descobrir como fazer isso, me manda um scrap, tá?
Mas acho que a melhor opinião do filme é de que o ditado "evil prevails when good men do nothing" deveria ser simplificado para "evil prevails". Afinal, o mundo prova que, não importa se você se torna um vegetariano, recicla seu lixo e participa de passeatas contra a crueldade aos animais; guerras inúteis vão continuar, a humanidade vai continuar detruíndo o planeta e você ainda vai se arrepender da sua vida quando chegar aos 60. O único que se pode fazer é tentar amenizar a sua parte na carnificina. O que, de certa forma, ainda valida o vegetarianismo, a reciclagem e as Sociedade Protetora dos Animais. Só não supõe que eles resolvam os problemas do mundo...
Outras questões interessantes do filme.
Em dada cena, perguntam a Cage por que ele faz aquilo. A resposta simples: "porque eu sou bom nisso". Questão interessante. E se você descobrisse que tem um talento nato (tá, eu esqueço que não acredito muito nisso...) para uma atividade moralmente questionável? Roubar, matar, falsificar... E se você percebesse que não é bom em nada mais além disso? Que poderia resolver todos os seus problemas causando problemas para os outros ou viver uma vidinha medíocre e pobre, porém correta?
Outro tópico recente de conversas entre pessoas que gostam de arte foi a inexistência, hoje, da figura do mecenas. Aquelas pessoas que financiavam artistas, pelo simples prazer de investir em arte, pelo status que isso lhes oferecia, e por acreditarem no artista. O filme trouxe a questão: e se você, artista, descobrisse que seu mecenas, uma raridade hoje em dia, estivesse financiando você com dinheiro de fontes discutíveis como a venda de armas, tráfico de drogas, etc.? Você abriria mão da raridade que é ser financiado desse jeito?
Minha cabeça fervilha de questões interessantes depois de ver esse filme.
Nicolas Cage é um traficante de armas reconhecido mundialmente que parece não sentir remorso pelo que faz, até que sua vida começa a se despedaçar e ele começa e questionar as implicações morais do seu sucesso.
[AVISO: não se lê um post sobre o filme sem ter visto o filme. A menos que você não se importe de ler uma ou outra cena interessante por aqui antes de vê-la na tela.]
Quando Lala's propôs o filme, aceitei achando que talvez trouxesse novas opiniões a considerar sobre todo o atual bafafá em torno da proibição da venda de armas. Porém, à medida que o filme ia passando, encontrei mais estímulos pra pensar na minha carreira de artista plástico trabalhando em publicidade e na minha situação de vida atual do que em metralhadoras, pistolas e granadas...
Durante anos, fiz o curso de publicidade sabendo que esta era a origem dos males do mundo, apesar deles se esforçarem pra provar o contrário. A publicidade (principalmente a não-consciente, aquela que só quer o lucro mesmo) é responsável por boa parte da frustração e destruição da auto-estima de um contingente incalculável de pessoas. E eu fiz parte daquilo sem sentir culpa. É como o traficante de armas: "eu não estou colocando a arma na cabeça das pessoas e atirando". Tá, mas algumas das empresas que contratam os serviços publicitários sim. Veja The Corporation para mais detalhes. Eu mesmo já fiz ilustrações para produtos nos quais eu não acreditava, produtos que tinham contra-indicações e não as esclareciam (aliás, meu trabalho de graduação em grupo vai ser sobre a Red Bull...), produtos que eram idênticos e tão danosos quanto os concorrentes mas usavam da publicidade pra cobrar mais caro e parecerem melhores. E durante tudo isso, não senti culpa. E não posso dizer que a sinta agora, mesmo depois de ver o filme. Mas sinto que ela virá algum dia. Um dia em que eu perceber que eu não fiz nada de relevante para a humanidade, apenas vendi mais uma marca de sabão, que também "lava mais branco". E me diziam que eu tinha tanto potencial...
Meu primeiro impulso, durante o filme, foi uma lufada de posicionamento ético. Por exemplo: hoje mesmo, pretendo avançar bastante na produção de ilustrações para um trabalho freelance que caiu no meu colo na quinta-feira. O produto, não vou revelar qual é. Mas tem a ver com a indústria tabagista. Obviamente cogitei a hipótese de, num ato patético de suposto heroísmo, dizer que não podia fazer esse serviço por estar encorajando as pessoas a fumarem ou qualquer outra besteira. Num segundo momento, pensei: a questão do cigarro realmente me incomoda tanto assim? A verdade é que não. Quando muito, deu o clima para diversas situações memoráveis da minha vida. Logo veio a segunda questão: o que me incomoda? Contra o que eu vou lutar e quais serviços eu me sentiria compelido a negar? A seguir, cenas do próximo capítulo...
No fim, percebi que, não importa a carreira escolhida, as implicações morais e éticas do que você faz sempre acabarão te alcançando. Se eu fosse artista plástico mesmo, seria a implicação de ficar sendo sustentado pelos pais e não ter dinheiro pra sustentar uma família. Com a publicidade, é vender o que eu não acredito. Sempre vai ter algo pra se culpar. É até uma questão filosófica: é possível ser totalmente inocente? No filme, o melhor conselho é "don't go to war with yourself". Se você descobrir como fazer isso, me manda um scrap, tá?
Mas acho que a melhor opinião do filme é de que o ditado "evil prevails when good men do nothing" deveria ser simplificado para "evil prevails". Afinal, o mundo prova que, não importa se você se torna um vegetariano, recicla seu lixo e participa de passeatas contra a crueldade aos animais; guerras inúteis vão continuar, a humanidade vai continuar detruíndo o planeta e você ainda vai se arrepender da sua vida quando chegar aos 60. O único que se pode fazer é tentar amenizar a sua parte na carnificina. O que, de certa forma, ainda valida o vegetarianismo, a reciclagem e as Sociedade Protetora dos Animais. Só não supõe que eles resolvam os problemas do mundo...
Outras questões interessantes do filme.
Em dada cena, perguntam a Cage por que ele faz aquilo. A resposta simples: "porque eu sou bom nisso". Questão interessante. E se você descobrisse que tem um talento nato (tá, eu esqueço que não acredito muito nisso...) para uma atividade moralmente questionável? Roubar, matar, falsificar... E se você percebesse que não é bom em nada mais além disso? Que poderia resolver todos os seus problemas causando problemas para os outros ou viver uma vidinha medíocre e pobre, porém correta?
Outro tópico recente de conversas entre pessoas que gostam de arte foi a inexistência, hoje, da figura do mecenas. Aquelas pessoas que financiavam artistas, pelo simples prazer de investir em arte, pelo status que isso lhes oferecia, e por acreditarem no artista. O filme trouxe a questão: e se você, artista, descobrisse que seu mecenas, uma raridade hoje em dia, estivesse financiando você com dinheiro de fontes discutíveis como a venda de armas, tráfico de drogas, etc.? Você abriria mão da raridade que é ser financiado desse jeito?
Minha cabeça fervilha de questões interessantes depois de ver esse filme.
Garotas, entendam de uma vez: sim, os rapazes gostam de situações dúbias. Eles procuram, eles fomentam essas situações.
Por situações dúbias eu quero dizer aquelas amizades coloridas que deixam namoradas enciumadas. Aqueles flertes descompromissados. DESCOMPROMISSADOS! Ou seja, a menos que você esteja dando motivos sólidos para o cara ter segundas intenções ou a menos que ele seja um canalha comprovado, NADA VAI ACONTECER. "Mas então por que ele não me conta sobre ela?". Porque ele sabe que você vai surtar. E você vai surtar. Não se faça de boa moça. O fato dele ter uma grande amiga, que deixa aquele cheiro de aventura nova no ar, vai te roer por dentro. O fato dele ter assuntos que são só entre eles dois vai te ofender. O fato dele flertar com ela, se você souber, vai roer ainda mais. Convenhamos: mulher nenhuma confia no próprio taco. Pensando bem, acho que homem nenhum também.
Mas confie no que eu digo: a menos que você dê motivos, nada vai acontecer. Ele vai sair com ela (sem você saber, é claro...), vai se divertir de maneira educada e lítica, e vai voltar pra casa pensando "e se um dia... nah, prefiro minha namorada". Mas quanto mais você proibir essa diversão dele, mais motivos vai dar pra essa última opinião mudar.
Pense nisso desse jeito: você tem vontade de que ele seja romântico pra sempre, certo? De que ele te dê pequenos presentinhos significativos, surpresinhas, conversas até as duas da manhã bebendo vinho? Ele tem uma vontade igualmente forte de poder continuar flertando com amigas.
Por favor, joguem só as pedras redondas, porque as pontudas machucam demais...
Por situações dúbias eu quero dizer aquelas amizades coloridas que deixam namoradas enciumadas. Aqueles flertes descompromissados. DESCOMPROMISSADOS! Ou seja, a menos que você esteja dando motivos sólidos para o cara ter segundas intenções ou a menos que ele seja um canalha comprovado, NADA VAI ACONTECER. "Mas então por que ele não me conta sobre ela?". Porque ele sabe que você vai surtar. E você vai surtar. Não se faça de boa moça. O fato dele ter uma grande amiga, que deixa aquele cheiro de aventura nova no ar, vai te roer por dentro. O fato dele ter assuntos que são só entre eles dois vai te ofender. O fato dele flertar com ela, se você souber, vai roer ainda mais. Convenhamos: mulher nenhuma confia no próprio taco. Pensando bem, acho que homem nenhum também.
Mas confie no que eu digo: a menos que você dê motivos, nada vai acontecer. Ele vai sair com ela (sem você saber, é claro...), vai se divertir de maneira educada e lítica, e vai voltar pra casa pensando "e se um dia... nah, prefiro minha namorada". Mas quanto mais você proibir essa diversão dele, mais motivos vai dar pra essa última opinião mudar.
Pense nisso desse jeito: você tem vontade de que ele seja romântico pra sempre, certo? De que ele te dê pequenos presentinhos significativos, surpresinhas, conversas até as duas da manhã bebendo vinho? Ele tem uma vontade igualmente forte de poder continuar flertando com amigas.
Por favor, joguem só as pedras redondas, porque as pontudas machucam demais...
domingo, outubro 02, 2005
Sickness X: o retorno... de novo.
[AVISO: post bizarro sobre minhas tormentas psicológicas, possivelmente desinteressante]
São duas horas da manhã de um domingo. Suponho que seja a melhor hora pra escrever sobre isso. Muitos motivos me levam a escrever isso. Foi ouvir a Lee falando sobre o caso clínico de depressão de uma pessoa próxima a ela e como esta pessoa descreveu o que sentia. Foi eu tentar descrever qual era o meu problema para o Lala's e constatar no final da minha narrativa que tudo aquilo era ridículo e não chegava a explicar um décimo do que eu sentia. Mas principalmente, foi voltar a ter crises mesmo depois de um ano de terapia e de ter adquirido novas compreensões do problema. Goes to show que compreender é parte da solução, mas não é tudo. De fato, fazia tempo que eu não sentia isso e me achei curado. Até semana passada...
Eu chamava isso, no começo do blog, simplesmente de sickness. Não percebi na época que a palavra que eu usava pra designar "enjôo", um dos sintomas, também designava "doença".
Muita gente me perguntou o que eu sinto. Pergunta básica. Tentarei explicar. Bem sabe a Lee que explicar estas coisas psicológicas não é tão simples quanto dizer "sinto dor no joelho" ou "sinto uma queimação no estômago". Mas inspirado pelos relatos que ela contou da pessoa próxima a ela, eu posso tentar conjurar uma imagem do que eu sinto.
Bem no centro do seu peito, unindo as costelas e protegendo órgãos vitais, está um osso chamado esterno (com "s" mesmo...). Sinto como se meu esterno inchasse, estivesse a ponto de explodir do meu peito. Como se o coração de repente contraísse com tal força, mandando sangue altamente pressurisado para o resto do corpo e já começasse a emitir uma dor muito similar a cãibra. A sensação começa então a irradiar para o resto do corpo, como se causada pelo tal sangue pressurisado. O primeiro a ser atingido é todo o aparelho digestivo: um fortíssimo enjôo se instala. É algo fora do comum porque, quando se come algo ruim, o enjôo leva à consequência natural e mecânica do vômito. Neste caso, não há vômito. Apenas o enjôo. Poderia encarar a base de uma privada por horas sem dar-lhe nada. Cena patética, eu sei. Ingerir qualquer coisa está fora de questão. Dependendo da gravidade da situação, não posso sequer mascar algo ou ter algo pendurado no pescoço que o enjôo aumenta. Finalmente, a sensação se alastra para as mãos e pés, causando formigamento, deixando-me trêmulo, e sem muito força. Na verdade essa última parece até meio incoerente, porque seriam os sintomas de baixa pressão, não do tal sangue pressurisado.
Na terapia, a conclusão óbvia foi tratar-se de ansiedade. Relatando as situações em que me acontecia, ficava claro que era desencadeada em situações em que eu sentia não ter controle nenhum: ser levado contra a minha vontade por uma massa dançante de patricinhas em uma balada da Vila Olímpia, ser completamente ignorado ou deixado falando sozinho por uma turma de pessoas que acabei de conhecer, perceber efitos indesejados de uma droga que tomei e que agora devo esperar que passe, até mesmo situações preconceituosas como me embrenhar em lugares de extrema pobreza onde eu suponho não ter acesso a serviços básicos. Enfim, simples ataque de ansiedade.
Mas então por que tenho surtos disso à noite, nessas horas da madrugada como esta em que escrevo? Por que tem dias em que devo ler até cair no sono ou me valer de distrações mais passivas como a TV pra poder enfrentar uma madrugada de vez em quando? Por que ainda há situações onde tudo vai bem e eu estou no controle e de repente meu peito quer explodir daquele jeito? Coisas ainda não explicadas...
No ano passado, eu procurei a terapia porque, durante uma crise severa disso, alguma parte sádica da minha consciência sussurrou para mim a possibilidade de eu ter que viver a vida inteira com isso. A idéia parecia desesperadora: lutar por mais cinquenta anos contra isso, no mínimo. A esse desespero juntaram-se todos os desesperos de um jovem: ter que lutar contra todas as outras necessidades e dores de um corpo que só iria definhar daqui pra frente (o desespero frente ao corpo orgânico), enquanto eu tentava dar algum objetivo para minha vida através de uma carreira (a inexistência de sentido), em um mundo que cada dia parecia mais fadado à auto-destruição devido à imbecilidade humana (a falta de esperança). Não fazia o mínimo sentido. Mais sentido fazia eu arranjar um jeito rápido e indolor de deixar de existir. Se pelo menos isso me garantisse deixar de sentir tanto... o choque de estar pensando seriamente em acabar com a vida me fez procurar ajuda logo.
Hoje vejo também que parte disso funciona como uma ferida recente: você sente o corte e dói muito. E sangra, como sangra! Aí você aguenta a dor e ela diminui até o suportável e o sangramento para. Mas fica aquela borda avermelhada em torno da ferida e aquela dorzinha latejante no fundo. E qualquer coisa que faça alguma pressão na ferida vai fazer ela doer mais e talvez abrir e começar a sangrar de novo. Acontece da mesma forma: algum evento dispara uma crise de ansiedade e ela já é tão profunda que os pensamentos suicidas são mera consequência, como o sangramento após um corte. Mas eu aguento e, como com um corte, procuro qualquer coisa pra distrarir a cabeça e não pensar na dor. A ansiedade diminui bastante e eu continuo a vida, mas sempre fica lá, bem no fundo, como uma borda de ferida inflamada. Presente sempre naquela perguta que gira obssessivamente no fundo da minha consciência: "como eu estou me sentindo?". É cíclico. Se eu conseguisse parar a pergunta, provavelmente pararia o sintoma, que me faria parar de perguntar. E qualquer evento que insinue um enjôo ou um ataque de ansiedade dispara esse mecanismo cíclico. Nas crises mais severas, minha sensibilidade é tanta que qualquer evento relacionado ao corpo e estimulos que ele receba logo dispara a pergunta. E a ferida pode voltar a abrir e a sangrar. Lá se vai meu esterno...
É quase poético, daquele jeito meio cafona clichê: o cara que sente tanto a dor da existência, que teme não suportar a própria existência. Shoot me...
Disciplina sempre foi um bom placebo. Me afundar em trabalho ou arranjar outra preocupação mais prática sempre ajudou até certo ponto. Tira a minha cabeça do ciclo até o próximo evento que abra a ferida. Mas no fim, ela continua lá, no silêncio do meu quarto quando deito pra dormir e não tem nada mais pra ocupar a cabeça. Já diziam: "cabeça vazia é a casa do diabo". So true...
Daí você que heróicamente leu até aqui fica pensando "esse cara precisa get a life" ou como diria meu pai em uma metáfora rural, "vê se depois de pegar no cabo da enxada o dia inteiro ele vai ter tempo pra depressão...". Claro. Mas arranjar um trabalho ou a life (o que quer que isso seja...) faz parte do "ter que lutar contra todas as necessidades e dores de um corpo que só irá definhar daqui pra frente, enquanto eu tento dar algum objetivo para minha vida através de uma carreira, em um mundo que cada dia parece mais fadado à auto-destruição devido à imbecilidade humana" que eu escrevi lá em cima. Ou seja, continua não fazendo nenhum sentido.
I wonder if I'll ever be what they call normal.
De qualquer forma, obrigado pela paciência de ler sobre isso mais uma vez. De tempos em tempos eu preciso escrever um destes, pra registrar a evolução do que eu sei sobre essa coisa.
São duas horas da manhã de um domingo. Suponho que seja a melhor hora pra escrever sobre isso. Muitos motivos me levam a escrever isso. Foi ouvir a Lee falando sobre o caso clínico de depressão de uma pessoa próxima a ela e como esta pessoa descreveu o que sentia. Foi eu tentar descrever qual era o meu problema para o Lala's e constatar no final da minha narrativa que tudo aquilo era ridículo e não chegava a explicar um décimo do que eu sentia. Mas principalmente, foi voltar a ter crises mesmo depois de um ano de terapia e de ter adquirido novas compreensões do problema. Goes to show que compreender é parte da solução, mas não é tudo. De fato, fazia tempo que eu não sentia isso e me achei curado. Até semana passada...
Eu chamava isso, no começo do blog, simplesmente de sickness. Não percebi na época que a palavra que eu usava pra designar "enjôo", um dos sintomas, também designava "doença".
Muita gente me perguntou o que eu sinto. Pergunta básica. Tentarei explicar. Bem sabe a Lee que explicar estas coisas psicológicas não é tão simples quanto dizer "sinto dor no joelho" ou "sinto uma queimação no estômago". Mas inspirado pelos relatos que ela contou da pessoa próxima a ela, eu posso tentar conjurar uma imagem do que eu sinto.
Bem no centro do seu peito, unindo as costelas e protegendo órgãos vitais, está um osso chamado esterno (com "s" mesmo...). Sinto como se meu esterno inchasse, estivesse a ponto de explodir do meu peito. Como se o coração de repente contraísse com tal força, mandando sangue altamente pressurisado para o resto do corpo e já começasse a emitir uma dor muito similar a cãibra. A sensação começa então a irradiar para o resto do corpo, como se causada pelo tal sangue pressurisado. O primeiro a ser atingido é todo o aparelho digestivo: um fortíssimo enjôo se instala. É algo fora do comum porque, quando se come algo ruim, o enjôo leva à consequência natural e mecânica do vômito. Neste caso, não há vômito. Apenas o enjôo. Poderia encarar a base de uma privada por horas sem dar-lhe nada. Cena patética, eu sei. Ingerir qualquer coisa está fora de questão. Dependendo da gravidade da situação, não posso sequer mascar algo ou ter algo pendurado no pescoço que o enjôo aumenta. Finalmente, a sensação se alastra para as mãos e pés, causando formigamento, deixando-me trêmulo, e sem muito força. Na verdade essa última parece até meio incoerente, porque seriam os sintomas de baixa pressão, não do tal sangue pressurisado.
Na terapia, a conclusão óbvia foi tratar-se de ansiedade. Relatando as situações em que me acontecia, ficava claro que era desencadeada em situações em que eu sentia não ter controle nenhum: ser levado contra a minha vontade por uma massa dançante de patricinhas em uma balada da Vila Olímpia, ser completamente ignorado ou deixado falando sozinho por uma turma de pessoas que acabei de conhecer, perceber efitos indesejados de uma droga que tomei e que agora devo esperar que passe, até mesmo situações preconceituosas como me embrenhar em lugares de extrema pobreza onde eu suponho não ter acesso a serviços básicos. Enfim, simples ataque de ansiedade.
Mas então por que tenho surtos disso à noite, nessas horas da madrugada como esta em que escrevo? Por que tem dias em que devo ler até cair no sono ou me valer de distrações mais passivas como a TV pra poder enfrentar uma madrugada de vez em quando? Por que ainda há situações onde tudo vai bem e eu estou no controle e de repente meu peito quer explodir daquele jeito? Coisas ainda não explicadas...
No ano passado, eu procurei a terapia porque, durante uma crise severa disso, alguma parte sádica da minha consciência sussurrou para mim a possibilidade de eu ter que viver a vida inteira com isso. A idéia parecia desesperadora: lutar por mais cinquenta anos contra isso, no mínimo. A esse desespero juntaram-se todos os desesperos de um jovem: ter que lutar contra todas as outras necessidades e dores de um corpo que só iria definhar daqui pra frente (o desespero frente ao corpo orgânico), enquanto eu tentava dar algum objetivo para minha vida através de uma carreira (a inexistência de sentido), em um mundo que cada dia parecia mais fadado à auto-destruição devido à imbecilidade humana (a falta de esperança). Não fazia o mínimo sentido. Mais sentido fazia eu arranjar um jeito rápido e indolor de deixar de existir. Se pelo menos isso me garantisse deixar de sentir tanto... o choque de estar pensando seriamente em acabar com a vida me fez procurar ajuda logo.
Hoje vejo também que parte disso funciona como uma ferida recente: você sente o corte e dói muito. E sangra, como sangra! Aí você aguenta a dor e ela diminui até o suportável e o sangramento para. Mas fica aquela borda avermelhada em torno da ferida e aquela dorzinha latejante no fundo. E qualquer coisa que faça alguma pressão na ferida vai fazer ela doer mais e talvez abrir e começar a sangrar de novo. Acontece da mesma forma: algum evento dispara uma crise de ansiedade e ela já é tão profunda que os pensamentos suicidas são mera consequência, como o sangramento após um corte. Mas eu aguento e, como com um corte, procuro qualquer coisa pra distrarir a cabeça e não pensar na dor. A ansiedade diminui bastante e eu continuo a vida, mas sempre fica lá, bem no fundo, como uma borda de ferida inflamada. Presente sempre naquela perguta que gira obssessivamente no fundo da minha consciência: "como eu estou me sentindo?". É cíclico. Se eu conseguisse parar a pergunta, provavelmente pararia o sintoma, que me faria parar de perguntar. E qualquer evento que insinue um enjôo ou um ataque de ansiedade dispara esse mecanismo cíclico. Nas crises mais severas, minha sensibilidade é tanta que qualquer evento relacionado ao corpo e estimulos que ele receba logo dispara a pergunta. E a ferida pode voltar a abrir e a sangrar. Lá se vai meu esterno...
É quase poético, daquele jeito meio cafona clichê: o cara que sente tanto a dor da existência, que teme não suportar a própria existência. Shoot me...
Disciplina sempre foi um bom placebo. Me afundar em trabalho ou arranjar outra preocupação mais prática sempre ajudou até certo ponto. Tira a minha cabeça do ciclo até o próximo evento que abra a ferida. Mas no fim, ela continua lá, no silêncio do meu quarto quando deito pra dormir e não tem nada mais pra ocupar a cabeça. Já diziam: "cabeça vazia é a casa do diabo". So true...
Daí você que heróicamente leu até aqui fica pensando "esse cara precisa get a life" ou como diria meu pai em uma metáfora rural, "vê se depois de pegar no cabo da enxada o dia inteiro ele vai ter tempo pra depressão...". Claro. Mas arranjar um trabalho ou a life (o que quer que isso seja...) faz parte do "ter que lutar contra todas as necessidades e dores de um corpo que só irá definhar daqui pra frente, enquanto eu tento dar algum objetivo para minha vida através de uma carreira, em um mundo que cada dia parece mais fadado à auto-destruição devido à imbecilidade humana" que eu escrevi lá em cima. Ou seja, continua não fazendo nenhum sentido.
I wonder if I'll ever be what they call normal.
De qualquer forma, obrigado pela paciência de ler sobre isso mais uma vez. De tempos em tempos eu preciso escrever um destes, pra registrar a evolução do que eu sei sobre essa coisa.
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