domingo, agosto 28, 2005

Restaurantofobia

Napaula pediu que eu escrevesse sobre isso.

Quando eu era pequeno, eu comia muito pouco. Tá bom, eu ainda como muito pouco. O caso é que naquela época a coisa era feia, de deixar comida no prato. Mamãe dizia o que todas as mães dizem, que tem gente passando fome na rua e você aí, desdenhando comida. E eu, em toda a minha amoralidade (diferencie de imoralidade) infantil, pensava baixinho: "então, pega essa comida que eu não estou conseguindo comer porque já tô cheio e dá pra essa gente. Eles vão ficar tão agradecidos...".

Restaurantes eram outro caso complicado. Eu ia pra aquele lugar e comia metade do prato (e olha que eu pedia meia porção...). Isso porque serviam para um pirralho de oito anos, uma porção digna de um gordo de 50 - a meia porção é para esbeltos de 25 e ainda é grande demais... Aí empurrava o resto pra lá e ficava naquele tédio incomensurável enquanto papai e mamãe terminavam a refeição deles. Convenhamos: uma ida ao restaurante dura umas três horas, roughly. Quando era jantar, não tinha jeito: eu acabava dormindo na mesa. As pessoas passavam com aquela cara de "coitado do moleque" e meus pais fingiam não ficarem constrangidos.

Daí que passei algum tempo com uma aversão a restaurantes. Afinal, para mim, eram sempre lugares onde os pratos eram grandes demais, eu ia passar o vexame de deixar metade do que quer que eu pedisse no prato e ainda por cima, as cadeiras eram desconfortáveis demais para eu dormir quando o tédio me vencesse.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Man down!

Falar sobre como e porque eu fui demitido seria, seguindo minhas comparações entre namoro e trabalho, como falar sobre como e porque eu levei um fora. Não é o tipo de lavagem de roupa suja que eu faço por blog. Vocês conhecem minha censura.

Enfim, o fato é que, desde ontem, não estou mais trabalhando naquele lugar. Não guardo rancores (*cof, cof* só alguns...), porque afinal eu estava esperando por isso desde Junho e não achei que eu sobreviveria à mudança de sede. Eu não estava mais sendo útil naquele lugar. Eles não estavam contentes comigo e nem eu estava muito satisfeito com eles. Gente com preparo detesta se sentir inútil.

Pois bem, meus caros leitores... Com esse gentil ponta-pé inicial, eu começo agora o salto no abismo. Tem vários assuntos na minha vida que eu preciso concertar e, se não aproveitar o ensejo, talvez não o faça nunca. Mãos à obra.

Achei muito reveladora a simplificação feita recentemente pelo Lala's em seu blog sobre mim, como personagem:
Um pintor virtuoso aguardando pelo momento propício em que poderá viver uma vida de prazeres e excessos para aí aplacar suas angústias.

terça-feira, agosto 23, 2005

Alice 7



"Believe it or not, Alice wanted to let go from the Edge"
"Acredite ou não, Alice queria se soltar do Limite/Beira"


P.S.: Aos poucos, vou voltando ao normal na postagem, que seria uma Alice a cada segunda-feira.
P.P.S.: Há alguma tradução mais adequada para esse duplo sentido da palavra "Edge"?
P.P.P.S.: Estou começando a gostar mais de pintar do que de desenhá-la. Aqui, um pouco de experimetação no fundo...

quinta-feira, agosto 18, 2005

Alice 6



"Alice had stumbled upon the Circus on the Edge"
"Alice havia encontrado o Circo no Limite"



P.S.: Pra compensar o atraso de uma semana e meia na publicação de Alice, dei uma caprichada nesse. Enjoy!

quarta-feira, agosto 17, 2005

Burrocracia...

Deixei meu carro pra consertar várias coisas (Afinal, o bichinho já é um senhor de cinco anos...). Ficou pronto, pago em quatro vezes no cheque. No banco, nada de cheques. A máquina me sorri uma mensagem daquelas bem sacanas há quase uma semana e não imprime os malditos. E eu sem tempo pra passar no banco. Afinal, que pessoa de bem, com carteira assinada, tem tempo pra passar em sua agência lá onde Judas perdeu as cuecas entre as 10:00 e as 16:00? Liguei pro banco pra saber qual era o problema: cadastro desatualizado. Legal. Podíam ao menos ter avisado, né? "Nós enviamos uma carta ao correntista". Carta my ass! A menos que mamãe tenha feito a proeza de jogar fora, mas duvido muito. E sabe o que é ainda mais legal? No cadastro deles, eu estou estagiando no CIEE desde Novembro do ano passado... Não sabia. É estágio remunerado? Sim, era o meu cadastro que ela estava vendo: tinha até meu endereço correto.

Anyway, mistérios de Arquivos X aparte, o saldo da situação é este:
• Preciso fazer uma média com o chefe, pra que eu possa tirar uma manhã livre pra passar no banco.
• Depois, preciso ir ao banco com o meu holerite atual pra atualizar o meu cadastro (lá vou eu, em toda minha ignorância, levar trinta papéis porque não sei exatamente o que é um holerite... pode rir... eu deixo.)
• Finalmente, imprimo um talão de cheques e vou retirar meu carro do mecânico.

Acho que consigo fazer tudo isso até o final do semestre...
Não sei como essas situações complexas tem essa capacidade de simplesmente acontecer, do dia pra noite, sem aviso nem afago antes do tapa. E depois tem gente que não gosta quando proclamo meu lema com todo seu sarcasmo: "pois é, estamos no Brasil".

segunda-feira, agosto 15, 2005

Mirror, mirror on the wall...

Você viu que lindo que foi?
O amor dele disse que não poderia ir à sua festa de aniversário por causa do namorado ciumento. Não que o dito namorado não tivesse motivos para proibir, mas mesmo assim, torna-se o vilão da história. Ele ficou meio deprê a semana toda porque seu amor não estaria lá. E eis que, no meio da festa, seu amor aparece, contra todas as espectativas, clandestinamente, ocultando o fato do namorado. Gostinho de ilegalidade no ar. Gostinho de que, apesar de todas as oficialidades, eles se amam mesmo e quem sabe um dia...

Viu que lindo? É dessas coisas que faltam na minha vida. Falta desse sabor, desse spice. Você consegue temperar minha vida desse jeito?

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Um artista, independente do meio pelo qual se expressa, aprende a enxergar as coisas pela composição. No caso da pintura, a posição das formas na tela, os antagonismos e analogias entre as cores. No caso de um ator, a posição das pessoas em cena, os antagonismos e analogias entre os personagens. Você começa a ver semelhanças tragicômicas entre as obras, personagens com o mesmo significado, relações similares entre valores de duas pinturas, como se o escritor da nossa peça fosse o mesmo que escreveu a deles.

Acho que vou explodir se não conversar com o aniversariante.

sábado, agosto 13, 2005

How do you fire up a supernova?

Eu fui uma daquelas crianças que não tinha válvula de escape para stress. Conhece? Aquele tipo de aguenta e aguenta toda a provocação das crianças maiores com um sorrisinho bobo, constrangido. Os maiores percebem que um moleque assim não vai reagir e continuam pressionando, porque é divertido e porque o moleque tem aquela cara que pede pra ser zoada. O sorriso bobo some e ele gradualmente fica sério, até ensaia uma reação tímida aqui e alí. Mas como vê que nada adquilo funciona e eles não vão parar, ele explode de uma só vez, consumindo a tudo e a todos em um ataque de fúria, rancor e choro que só para quando a mãe o coloca à força debaixo do chuveiro frio, com roupa e tudo. A mãe sente a mais profunda pena. Ele, a morte lenta e dolorosa da própria auto-estima.

Por que é que eu ainda não consigo falar o que deve ser dito para as devidas pessoas logo no começo?

sexta-feira, agosto 12, 2005

Cuidado ao pisar nos cacos de vida.

• Seis anos de idade, antes de ir morar em outro país. Mamãe mandava na minha lancheira do Rambo um Dantop embrulhadinho. Chocolate com recheio de creme. E uma garota feia (não lembro do rosto dela de fato, mas lembro a repulsa que me causava...) dizia, sorrindo um sorriso malicioso, que o nome popular daquele doce era "teta de negra". De fato, o formato era sugestivo. E desde então eu afundava meus dentes naquele chocolate e não conseguia evitar o pensamento, em imagens bem definidas, de uma mulher negra em algum lugar, sentido uma pontada de dor lancinante no cotoco do seio que perdera.

• Onze anos de idade, antes de voltar ao meu país. Me aventurei pelo bosque na fazenda do meu melhor amigo, com ele ao lado. Cada um carregava uma lança e caçávamos lobisomens depois de ter ouvido gritos vindos da mata. Como o reconheceríamos? - ele me perguntara. Simples: eles têm orelhas pontudas e caninos protuberantes. Pequena pausa. E então meu amigo tomou um passo para trás e mirou a lança em mim. Mais tarde, rimos disso tudo. Porém à noite, antes de dormir, fiquei devaneando sobre como teria sido a emboscada licântropa perfeita: acompanhar minha presa durante alguns anos, fazendo-me passar por seu amigo, e um dia levá-lo até um lugar ermo onde eu poderia saciar minha fome.

• Treze anos de idade, antes do meu tio-avô morrer. Nos fundos da casa dele em Cotia, havia um bambuzal escuro, onde nós crianças nunca entrávamos porque os pais haviam nos instilado o medo de cobras. Naquele dia, resolvemos entrar e explorar. Pulamos o muro e, após um momento pra tomar coragem, entramos na escuridão esverdeada dos bambus, olhando sempre para o chão. Às tantas, meu primo menor encontra no solo do bosque duas folhas rasgadas de uma revista pornográfica. E lá vamos nós, primos maiores, explicar-lhe as diferenças entre homens e mulheres.

• Quinze anos de idade, meu primeiro beijo de verdade. Foi na fazenda da família, em Goiás, tarde da noite, num puxadinho que meu tio construira e forrara com caixas de ovo, pra tocar bateria. Uma amiga das minhas jovens tias, alguns anos mais velha do que eu. Eu estava agindo como um cético, achando que nada daquilo poderia rolar com um cara como eu e já achando que, se eu não havia beijado com quinze anos, não ia beijar nunca mesmo. A primeira tentativa dela, eu só ia perceber que era uma tentativa algum tempo depois. Na segunda, lá estava a língua dela na minha. De manhã (Se nos amamos como dois pagãos / teus seios 'inda estão em minhas mãos / diz com que cara que eu devo partir), não sabia ao certo se me sentia orgulhoso, "homem feito"; ou se me sentia violentado, abusado por aquela garota. Gostava de ambas as hipóteses e comecei a perceber um lado violento do desejo sexual. Na viagem de volta para casa, meu pai comentou como a amiga de minhas tias era bonita. Meu irmão gargalhava por dentro. E eu concordei monossilábico, minha alma gritando que o que meu pai apenas pensava em fazer, eu havia realizado de fato.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Pois é, voltei ao vício...

Sei que ninguém que lê isso dá a mínima para jogos eletrônicos. Mas suponho que os recentes acontecimentos possam dar uma noção do quão sério é o meu vício.

No começo deste ano, a lan house que eu frequentava fechou. Rumores sobre os motivos abundam. Durante um tempo, me vali de uma outra filial da mesma rede de lojas, perto da casa da Tink. Porém esta fechou há alguns meses e assim, dei por encerrada a questão das lan houses, tentando com seriedade me reabilitar do vício pelos games. De fato, mesmo nessa última lan house, o Desert Combat, que me viciara durante um ano inteiro, já não parecia ter a mesma graça de antes. Era como uma droga à qual o corpo já se acostumou: você diz pra si mesmo que está se divertindo, mas só está matando tempo. Nunca vai ter de novo aquela sensação, aquele rush que se tem nas primeiras vezes. Tentei alguns outros jogos, mas nada me cativou. Então, quando a última filial a meu alcance fechou, resignei-me à reabilitação dos video-games.

A vida seguiu seu curso. Planejei um semestre cheio de pequenas aventuras, atividades para depois das horas de trabalho, novas descobertas, talvez um novo hobby. Tudo ia bem.

Isso foi até a sexta retrasada.
Cheguei em casa e não havia ninguém. Na geladeira, nada. O mesmo na TV. Pensei em ligar para alguém e sair, mas não estava em sentindo muito sociável. E então lembrei vagamente, como um eco no escuro, que a Eletronic Arts havia lançado Battlefield 2, a continuação do jogo que deu origem a Desert Combat. Enquanto trancava a casa, bateu aquela certeza de que eu estava cedendo novamente a um vício que só significava perda de tempo. É uma sensação triste de impotência. Mas em se tratando de um jogo e não de uma droga ou outra coisa igualmente destrutiva, essa "tristeza" é encarada até com certo deboche.

Uma vez decidido a experimentar de novo a droga, não há nada que consiga me desviar do caminho. A lan house que achei era mais cara, não havia onde estacionar e eu sequer havia jantado. Mas lá estava eu: correndo pelos campos de batalha com um fuzil de franco-atirador; comandando tropas de soldados cujo Q.I. artificial me surpreendia; experimentando novas maneiras de detonar bases inimigas e algumas novas estratégias; caíndo em novas armadilhas; morrendo incontáveis vezes e continuando a renascer.

Quando voltei para casa, era tarde da noite. Não tarde o suficiente para que meu irmão tivesse chegado, claro. Mas bem tarde. No dia seguinte, tinha que ir ajudar na mudança da sede da empresa: por um momento, pensei em tirar uma horinha, chegar um pouco atrasado, e ir jogar mais uma vez. O movimento frenético da tela de jogo e novos comandos que eu aprendi nos sites especializados ainda estavam na minha cabeça. Mas não. Presta atenção, moleque. Isso é um passatempo. Só um passatempo.

São situações como essa que me fazem compreender que o caso que eu tenho com jogos eletrônicos começa a assumir proporções sérias. Ainda não interferiu de forma grave na minha vida, mas já mostra que o domínio que tem sobre mim é similar ao de qualquer poderoso narcótico. Eu preciso disso.

segunda-feira, agosto 08, 2005

É bom fazer um desses de vez em quando....

Baseado em perguntas feitas pelo Lala's (chique ser entrevistado, não?):

1) Qual sua opinião sobre drogas?
Acho que parecida com a sua: sou a favor da legalização de todas as drogas ou da ilegalização do álcool e tabaco. Esse meio-termo é que fode. Experimento drogas leves, mas sou muito avarento pra bancar um vício. Além disso, minhas psicoses relativas ao corpo orgânico não me permitem...
No entanto, acredito ser verdadeiramente viciado em video-game. Em níveis muito sérios. Ainda escreverei a respeito.

2) Qual sua opinião sobre monogamia?
Besteira inventada por gente insegura que não consegue dissociar a diversão sexual do amor. Saberei que alguém me ama quando ela tiver a liberdade para ficar com outro e, no final das contas, ainda voltar pra mim. Assunto espinhoso: não dá pra responder de forma suscinta...

3) Em que religião acredita ou não, e por que?
Costumava ser ateu e acredito que mesmo o ateísmo seja uma forma de fé. Hoje acredito em uma religião minha, explicada em parte na Surreal Revelation XVI. Sem rituais nem nada. O filosófico religare com a realidade. Mas não vou tentar converter ninguém porque o conceito ainda é meio complexo e eu detesto fanáticos religiosos. Os outros que acreditem no que bem entenderem.

4) Qual seria sua condição ideal de vida (com relação a trabalho, dinheiro, família, amigos)?
Minha condição ideal de vida seria trabalhar com uma equipe de artistas que estimulassem uns aos outros a pensar. Nós ganharíamos bem com projetos de arte que incentivariam novos estilos de vida. O dinheiro seria o suficiente pra colocar meus filhos nas melhores escolas e ter uma casa legal (não muito grande nem muito pequena, mas bem decorada e mobiliada com coisas estilosas). Não tenho megalomanias financeiras além dessa. Teria um filho e uma filha com uma esposa que também fosse artista. Os filhos estudariam em escola Waldorf e eventualmente também se interessariam por arte (musica, pintura, fotografia, you name it- eu incentivaria). Meus amigos iriam variar entre pensadores e libertinos hedonistas.

5) O que acha da família?
Uma das maiores fontes de aprendizado e de trauma de qualquer pessoa. Ou seja, uma convivência necessária, porém cáustica e dolorida como toda convivência entre humanos. Acho que filhos únicos têm um aprendizado incompleto quanto a algumas coisas da vida. Outra questão densa...

6) Quais suas maiores virtudes?
A paciência, a vontade de experimentar, a habilidade com métodos complexos e a introspecção.

7) Quais seus maiores defeitos?
A apatia, diversos falhas de sociabilidade, a quase dependência de métodos e a timidez.
Ou seja, o lado negro das minhas virtudes...

8) O que te impede de meter uma bala na própria cabeça?
A remota possibilidade de que eu esteja errado quanto à questão 3 e que realmente exista um Deus que condena à danação eterna os suicidas. Detalhe: essa baboseira de "os que eu deixaria para trás" não me impede. Uma vez morto, não seria mais o meu problema. Frio, eu sei. Mas é a verdade.

9) O que tem a dizer sobre sexo, sexualidade?
Isso são duas questões.
Acho sexo muito mal-interpretado. Muita gente não consegue dissociá-lo de amor e perde uma boa fonte de diversão. Claro que sexo com amor é melhor, mas não é a única opção. No mais, prefiro quando há alguma situação que torne o simples ato mecânico mais interessante: afinal, o melhor órgão sexual é a cabeça (as duas, no caso masculino...).
Não tenho preconceitos quanto à sexualidade dos outros. De fato, acho que só é "bem resolvido" quem experimentou a outra opção pra tirar conclusões. Do contrário, é o mesmo que dizer que não gosta de sushi sem experimentar. Aliás, nas palavras da Lee: me apaixono por pessoas, não por pênis ou vagina. Detesto o estereótipo que fazem de que todo artista plástico é gay.

Porra, Lala's! Como é que você quer que eu responda de forma suscinta a perguntas tão deliciosas?

10) O que te excita (pode ser mais de 1 coisa)?
Lugares e situações inusitadas.
A primeira vez com uma pessoa.
Mulheres que sabem usar o corpo que têm.
Algumas roupas, nos corpos certos (exemplo: não adianta usar decote se não se tem peitos...)
Diversas perversões sexuais que não vou revelar por aqui.

11) O que te desespera (pode ser mais de 1 coisa)?
Saber que eu vou viver no mínimo mais 50 anos sofrendo as dores e necessidades deste corpo.
Desperdiçar minha vida, chegar aos 80 e ver que eu não fiz quase nada.

12) Qual seu ponto de vista político?
Irrelevante. Não acredito que algum político possa funcionar, sendo honesto ou não, em um país como o Brasil. Analogamente, não acredito que nenhuma filosofia política possa funcionar com seres tão mesquinhos quanto os humanos: vai ter sempre alguém pra ferrar tudo buscando assumir o poder.

13) Revele um grande segredo
Pô, assim? De graça? Nem pensar...

14) O que faria se tivesse hoje 1 bilhão de dólares?
Investiria em qualquer poupancinha de merda que me desse 1% ao mês e com esse dinheiro, criaria uma fundação de mecenato para jovens artistas (viu, você está colocando boas idéias na minha cabeça...). Sendo um pouco mesquinho: atenção especial seria dada a pintores com técnica.

15) Onde este mundo vai parar?
Questão que me divide hoje em dia. Por um lado, acho que em mais ou menos um século, vamos destruir completamente o planeta e, pouco tempo depois, deixar de existir (reflexão interessante sobre isso na Surreal Revelation X). Por outro lado, tenho alguma vã esperança de que, pouco antes disso acontecer, a mídia promoverá a moda do ecologicamente sustentável e os ricos deixarão de favorecer o dinheiro em detrimento do planeta. A tecnologia já existe. Mas dá mais dinheiro usar a tecnologia anterior. Acho que só a mídia teria tamanho poder pra reverter a situação.

16) Critique verdadeiramente alguma/qualquer coisa
É uma contradição evidente que se ensine publicidade em um universidade como a USP. Qualquer profissional da área concordaria. E já quando eu estava pesquisando que carreira iria seguir, no final da década de 90, ouvi a opinião de um publicitário famoso na TV, que dizia que se aprende o mesmo fazendo quatro anos de faculdade de publicidade ou seis meses de estágio em uma boa agência. Minha tendência é concordar com isso. No caso da USP, mais ainda. Como ensinar um ofício eminentemente prático como a publicidade em uma faculdade instrinsecamente teórica como a USP? É ridículo: passamos dois anos etudando teoria da comunicação. Sim, é lindo, é cultura, mas eu não vou usar. Que me importa saber da "teoria da agulha hipodérmica", da Escola de Frankfurt, do McLuhan e outros, quando eu preciso fazer um storyboard para vender talco pra micose de pé?
O próprio sistema do curso da USP é rizível. É lógico, mas totalmente inadequado. Eles pensaram: precisamos dar a nossos alunos uma base sólida em comunicação para depois ensinar as técnicas de publicidade (até imagino os senhores naftalinizados sentados em suas cadeiras de couro carcomidas em salinhas remotas da cidade universitária discutinddo isso...). Mas aí eles recebem uma classe fresquinha de trinta alunos, mais ou menos, que estão loucos pra aprender um Photoshop logo e sair fazendo layouts com idéias mirabolantes e o que fazem? Sentam os trinta em salas mofadas, obrigando-os a ler cinco textos por semana durante dois anos e fazer resenhas de utilidade questionável, que eles não vão absorver porque não lhes interessa naquele momento. Farão trabalhinhos medíocres pra passar o semestre com a esperança de que o tão esperado Photoshop seja ensinado no semestre seguinte. Dois anos depois, as primeiras aulas de fotografia, design, tipologia e etc. Finalmente, os alunos têm uma injeção de ânimo e deixam de pensar que escolheram o curso errado. Um ano de aulas de técnica depois, eles percebem que têm toda a técnica do mundo, mas falta conteúdo, que eles poderíam ter aprendido se tivessem lido aqueles textos do primeiro semestre com mais atenção. Agora seria a hora de ter aquelas aulas...
No fim do curso, o fulano sai da faculdade sem saber sequer alguns detalhes básicos: em que formato de arquivo eu entrego o trabalho ao cliente? Como que eu trabalho com o Pantone? Qual a diferença entre o cara da mídia e da produção? Entre o ilustrador e o diretor de arte? Entre o Photoshop e o Illustrator?

Carreiras práticas são impossíveis de serem ensinadas por chatos acadêmicos.

17) Elogie verdadeiramente alguma/qualquer coisa
Lembro muito bem da colocação de Tink quando começamos nosso namoro atual: dizia que detestava ficar sabendo das coisas pelo blog e não pesssoalmente. Era uma forma fria e impessoal de comunicação. Entendo a opinião dela, mas também me convenço de que ela não tinha noção da maravilhosa capacidade de comunicação dos blogs.
No layout anterior a este, eu colocava uma frase abaixo do título: "coisas que todos ignoram quando eu falo, mas que alguém lê quando escrevo". E era bem assim, incluíndo com a própria Tink. Não é raro as pessoas simplesmente não prestarem atenção no que digo ou me interromperem no meio de uma elocubração qualquer com outro assunto mais mundano. Admito que nem sempre falo de coisas interessantes.
O blog foi um espaço para que eu pudesse falar dessas coisas sem ser interrompido. Passar uma cadeia de idéia inteira, sem que meu ouvinte me interrompesse nos primeiros elos exigindo detalhes de conceitos que eventualmente seriam explicados nos últimos. Esse é um dos trunfos de linguagem escrita: uma conversa entre duas pessoas através das letras não é precisamente um diálogo, mas um conjunto de monólogos. Um espera o outro terminar de falar pra apresentar uma resposta.
O blog também foi um espaço onde eu podia falar de coisas sem que elas precisassem ter conexão com o que estava sendo conversado. Exemplo: imagine nós conversando sobre o escândalo do mensalão (não, eu não converso dessas coisas...), e de repente eu começo a falar da semelhança entre música de orquestra e pintura (em um dos posts abaixo...). Você com certeza ignoraria completamente o comentário. Primeiramente por ser totalmente fora do assunto, e depois por não ser um assunto de seu interesse. E eu ficaria lá, falando sozinho. Acredite: acontece bastante.
Aqui, pode ser que ninguém deixe um comentário (e eu não vou ficar deprimido por causa disso, fique tranquilo), mas ao menos alguém leu e sabe que isso faz parte da minha visão de mundo.

18) Qual dos seus 5 sentidos você abriria mão, se fosse obrigado, e por quê?
Sentiria muita falta, mas acho que abriria mão do olfato. Trouxe-me muito prazer na vida amorosa, mas acho que é o que eu menos dependo no meu dia-a-dia.

19) Por que você não vive seus grandes desejos?
Porque tudo tem seu tempo. Ainda chegará o tempo da maioria deles. Os outros dependem de eu ter dinheiro e tempo suficiente.

20) O que acha do Lala´s? (eheheh - pesquisa de opinião)
Brincou que cê quer que eu responda ISSO de forma curta, né!?
Vou começar de um lugar inusitado: sabe aquela época que todo mundo passa no colégio, em que você percebe que não vale à pena ser bonzinho e seguir as regras, ser correto e ético? Você passa a acreditar que você só vai se dar bem se for mau, cínico, sarcástico e malicioso. Basicamente te vendem a idéia ("quem te vendeu isso?" já me perguntou o próprio Lala's: não sei...) de que você só vai ser respeitado se for perigoso, incorreto, imoral. Lala's conseguiu reverter essa crença. Tá bom, admito que ele também é sarcástico e malicioso. Mas cá temos alguém que tenta pautar a própria vida em ser alguém correto, eficiente, ético.
Não sei se me expressei inteiramente: junto dessa idéia de que o respeito vem pela malícia e imoralidade está imbutida a idéia de que a galera certinha e ética é ingênua, torpe. Terminamos por ter vergonha de sermos corretos. O correto é o CDF, o nerd, o imaturo. Disso temos vergonha.
Não o Lala's. Ele consegue ser ético, ser correto e lutar pra fazer a coisa certa, sem parecer inferior por causa disso. Aliás, pelo contrário, parecendo muito superior por não ter cedido a esse tipo de pressão.
É uma daquelas raras pessoas que make you wanna be a better person.

Enfim, dá pra escrever muito mais sobre isso, mas ele quis que eu fosse suscinto, então...

Lista de compras para proxima visita a Liberdade

• Mais pinduricalhos gótico-punks, que estão mais baratos do que na Galeria do Rock...

• Anime:
- Princess Mononoke
- Porco Rosso
- Totoro

- Aliás, qualquer coisa do Miyazaki
- Akira

• Meias com dedos (não as listadas em cores berrantes, peloamordedeus...)

• Sino zen: é uma barrinha de ferro amarrada por barbantes tensionados a uma armação de madeira. Bate-se no ferro com um martelinho e ele soa uma nota aguda durante uns bons dois minutos, sem parar.

sexta-feira, agosto 05, 2005

The Virgin Suicides

The Virgin Suicides


Não sei como demorei tanto para ver este filme. Teria um impaco positivo na época dos retratos.
Na verdade, não faço mais essa coisa de escrever resenhas de filme aqui, mas quis escrever um pouco sobre o filme, que me chamou a atenção. Afinal, a obssessão dos garotos que narram o filme (e consequentemente do escritor do livro) por aquelas garotas virginais em espiral decadente é muito similar à minha, naquela idade. Suponho que seja muito similar ao sentimento de muita gente.
Um conjunto de meninas de BalthusEscrevo também, porque me apaixonei pelo modo como elas são retratadas. A direção de arte do filme primou em fazer dessas meninas figuras quase etéreas pelas cores amareladas e luz estourada de entardecer. Ao mesmo tempo, deu-lhes a languidez visceral e lasciva das meninas das pinturas de Balthus ([1][2]). São garotas felinas, preguiçosas e mesmo indisciplinadas como qualquer garota dessa idade. Lembro bem de primas minhas e da doce desordem que eram seus quartos, os pertence íntimos espalhados pelo lugar. Entrar num lugar desses era nadar por entre memórias, cortar pela intimidade delas, ser honrado com a experiência de seu universo. E elas, quase sempre deitadas despudoradamente na bagunça.
Cecilia LisbonO cenário é outro trunfo da direção de arte. A casa encarpetada, com os móveis espalhados e os fiapos de poeira iluminados pela luz que entra pelas janelas, causou-me a sensação de sufocamento de estar trancafiado em casa em dias de sol. Aumenta o desespero de vê-las morrendo aos poucos.
O fantasma da pequena Cecilia Lisbon, prostrado no galho de sua árvore favorita enquanto um dos rapazes passa, lembrou-me vagamente a sensação sobrenatural que Rei Ayanami causava em Evangelion, ao aparecer em lugares inusitados em flashes de cena rápidos antes de alguém morrer. Cecilia apareceu em duas ou três cenas, logo no começo, em sua camisola branca. Uma sensação boa de que ela não sentia mais frio, que podia estar em qualquer lugar, visitar quem quisesse. Sempre aparecia com a expressão melancólica e contemplativa de minha Alice. O impacto dessa cena na árvore talvez tenha tornado-a minha favorita no filme.
Vocês vão achar que é outra das minhas comparações bizarras, mas nada me tira da cabeça que o atualmente popularíssimo deputado Roberto Jefferson tem uma semelhança assombrosa com o vampiro Santiago, de Entrevista com o Vampiro. Ainda não encontrei a foto da cena que me vem à cabeça. Vocês fãs do filme talvez lembrem: depois que Louis (Brad Pitt) é tirado da parede onde fora emparedado por Santiago e comparsas, ele vai até o lugar onde Claudia (Kirsten Dunst) morreu, reduzida a cinzas pela luz do sol. Quando ele volta para dentro, arrasado pelo que acaba de ver, da de cara com Santiago, que faz esse mesmo bico do Jefferson na foto, em uma expressão sacana de quem diz "assim é a vida, meu amigo".

As fotos que encontrei do ator (Stephen Rea) mostram alguém com outro cabelo, que não tem nenhuma semelhança com o personagem no filme. Fotos do filme, achei várias. Mas nenhuma dessa cena. É uma pena...

quinta-feira, agosto 04, 2005

Acreditando...

Gente que conheço tem feito com que eu passasse a acreditar em coisas que eu desprezava. E isso é um sentimento estranhamente maravilhoso.
É como Lala's tem feito com que eu acredite que é possível ser ético e correto sem parecer babaca e ingênuo. Coisa que escrevi na entrevista que ele me fez, e que publicarei assim que conseguir responder à maldita pergunta que me resta.
Mais recentemente, tive a mesma deliciosa sensação ao ler um blog que, por hora, não posso colocar por aqui até que o autor me autorize. Este autor, aliás, está rapidamente se tornando um dos meus favoritos, junto com Lee, Nana, Kita ("As três Graças", como as tenho chamado desde que passaram a se comunicar umas com as outras por blogs), Jolina (apesar dela não escrever há algum tempo...) e o próprio Lala's.
Este autor tem escrito sobre amor. O amor dele por outra pessoa. Mas o escreve com tamanha sinceridade e coração aberto, até sobre suas incertezas, que me faz acreditar que se pode ser apaixonado e romântico sem parecer como uma daquelas pessoas ingênuas que acredita em ilusões amorosas, amores eternos e paixões cor-de-rosa. Um pobre coitado que está sendo enganado pela vida. Este autor ainda não tem noção do poder que tem. E de como vai mudar (já mudou...) algumas coisas na minha vida.

É bom poder voltar a sonhar assim.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Aos poucos, a sujeita vem à tona

Então foda-se a censura: pra que vou respeitar um lugar que não me respeitou.

Recentemente fiquei sabendo de tanta sujeira sobre meu último emprego, que suponho tenha sido uma boa coisa sair de lá. Então, mandando minha resolução de não falar do meu trabalho às favas, eis aqui o porque da minha demissão: soube que, para os que ficaram, a notícia corrente (vinda do próprio chefe, aquele das mãos gordinhas) é que eu fui demitido por estar promovendo espionagem. Sim, acreditem, a paranóia chegou a esse ponto.

Explico.
De forma simples, minha entrada na agência foi facilitada pelo Q.I. ("Quem Indica", como se vocês não soubessem). Desde Junho eu não me sentia muito útil por lá e pressentia a possibilidade de ser demitido. Após a mudança para a nova sede, meu Q.I. na agência saiu, sob condições um tanto suspeitas e deixando o chefe muito enfurecido com tudo. Então, aproveitando que eu não estava mais sendo muito útil mesmo e seria uma perfeita forma de vingar-se do meu Q.I., ele me demitiu. Mas precisava justificar de alguma forma, certo? Então inventou uma história de que eu estaria enviando informações de dentro da empresa para meu Q.I., que supostamente estaria trabalhando em outra agência (quando na verdade estava dando consultoria e não tinha mais nada a ver com agências de publicidade). Suponho ser apenas invenção, mas a paranóia dele já mostrara níveis patológicos e seria possível ele realmente estar acreditando nisso... Aproveitou o fato de que eu fora visto perambulando pela área de trabalho da galera de criação, em uma das minhas procuras pelo que fazer pra sair do tédio, e usou isso como uma espécie de "prova" de que eu estava bisbilhotando. Ainda não contente, ainda "revelou", no dia seguinte à minha demissão, que eu havia chegado um pouco mais cedo um dia desses, pra dar uma olhada nos computadores e colher dados para mandar para meu ex-Q.I.
Irônico: eu me preocupava de vez em nunca porque, apesar de a empresa ter horários flexíveis, eu chegava com 40 minutos de atraso todo dia e tinha medo disso ser usado contra mim. E cá estão me acusando justamente de chegar cedo. Outra: eu me preocupava de ficar muito no meu cantinho ocioso enquanto as coisas aconteciam. E cá estão me acusando justamente de estar andando por aí, procurando o que fazer. De fato, a primeira pergunta que me fizeram quando me chamaram para a demissão foi o que eu estava fazendo por lá. Como se esperassem que eu realmente ficasse na minha salinha, fazendo nada e escrevendo em blog o dia inteiro.
Por fim, pergunto: em uma empresa onde todos os computadores são conectados em rede, um dito "espião" precisaria mesmo estar perambulando por aí, mexendo no computador dos outros?
Que vergonha tenho do meu ex-chefe e suas paranóias.
Ao menos ele se salvou de uma vergonha: sempre achei que seria o Lala's a vir demitir-me. Entendam, meu ex-chefe faz pose de bom moço. Ele dá as notícias boas, outra pessoa dá as más. E invariavelmente, é algum bom amigo que tem que demitir o outro. Já soube de um que demitiu a namorada. Pelo menos não passei pela crueldade de ser demitido por um ótimo amigo.

Acredito, no entanto, em um nível mínimo de hipocrisia necessária para sobreviver (poupem-me os comentários contra hipocrisia de garotinhas de sétima série...). Assim que, vou continuar encontrando essas pessoas por aí, sorrindo um sorriso amarelado, fingindo não saber da armação. Nunca se sabe quando pode pintar um trabalho freelance, certo?

terça-feira, agosto 02, 2005

Duplicidade e criptografia

Edward Norton achou que tinha uma vida perfeita, com o que ele queria. Eventualmente percebeu que não estava satisfeito, porque o que ele queria havia mudado. Via nos jogos de palavras dos filmes de Audrey Hepburn uma pressão psicológica deliciosamente irresistível empurrando-o em direção ao abismo. Era uma criptografia íntima entre ele e a garota no filme. A garota em seu sonho. E então ele acordava e olhava para o lado para encontrar Rita Hayworth em vez de Gilda. Ou seria Bette Davis? Suspirava profundamente ao perceber que antes disso havia sido Mel Lisboa ao seu lado, quando ele esperava encontrar Anita. The story of my life. Perguntava-se quando elas perceberiam que ele era apenas Edward Norton e não Brad Pitt.
Fade out, fade in e ele estava fazendo alguma besteira numa noite dessas, fugindo das duplicidades em sua cama, procurando algo que fosse o que parece. Ou um sonho que permanecesse sonho. E não conseguia tirar da cabeça que talvez Audrey o acompanharia nessas aventuras gatunas. Mas nesse ponto ela já estava convivendo entre rapazes do porte de Stanley Holloway e Humphrey Bogart. Edward seria apenas Edward. Do outro lado da tela. Será que Miss Hepburn realmente falava com ele naqueles filmes? E porque será que suas rosas não floresceram?

Kandinsky would agree

Sala São Paulo ontem, com meu vampiros prediletos.
Na volta, Tink reclamando dos pés mutilados pelo sapato (mutilados mesmo, sem brincadeira...) com sua habitual meninice, enquanto eu relembrava detalhes da noite.
Sentamos em um dos balcões de cima, com uma vista privilegiada de todo o espaço. Não podíamos ter escolhido lugar melhor. A majestade da Sala São Paulo acompanhava muito bem a fantástica música da OSESP. Tink debruçava-se em meu ombro e perguntava: "você está gostando?" Mas eu só a silenciava gentilmente, para poder continuar a absorver todo o espetáculo.

Escutar música de orquestra tem suas analogias com apreciar uma boa pintura. Claro que a enorme maioria de nós já se pegou fechando os olhos e imaginando uma história contada visualmente ao sabor da música, um videoclipe. No meu caso, frequentemente imaginei um vôo por alguma paisagem maravilhosa. Porém suponho que, depois de estudar arte por tanto tempo e passar a compreender obras de arte a partir das partes que compõe o todo, minha compreensão de música orquestrada evoluiu para outra coisa. Gradativamente, passei a não precisar mais imaginar uma cena inteira, com personagens específicos. Tudo que importava era o vôo, as curvas, subidas e descidas vertiginosas ao sabor da melodia. Tempos depois, cheguei a uma experimentação de música que mais se assemelhava à da pintura abstrata: prescindindo dos elementos visuais, eu podia então me concentrar no som mesmo. Receber aquele volume enorme de informação compactada, vários instrumentos de uma vez, e dividir, isolar cada som dos outros, perceber suas qualidades e depois reinseri-lo no conjunto, compreendendo seu papel na composição. Era como chegar mais perto de um quadro abstrato, deixar de perguntar a ingênua pergunta "o que isso significa?" e passar a analisar as pinceladas, o contraste entre as cores, a escolha do material. Se eu tocasse algum instrumento, talvez poderia sentir o prazer que sinto na pintura, de me imaginar executando a pincelada, escolhendo a cor. o material.
Na minha experiência da coisa, a diferença entre instrumentos de corda ou sopro era como a diferença entre matizes de cor (vermelho, azul, amarelo, verde, laranja, roxo, etc...). Cada instrumento do conjunto de corda ou de sopro era como um tom (mais claro, mais escuro...). A percussão, por ser mais pontual e focada, era como o traço a lápis feito para guiar a pincelada de cor. Excessão feita ao tambor principal (perdoem minha falta de jargão técnico quanto aos instrumentos...), que o músico fazia soar em um tom contínuo, como um sombreado feito com grafite na pintura, que a transparência da tinta deixa aparecer propositalmente.

Hoje continuo preferindo a pintura figurativa. Porém compreendo e respeito mais a pintura abstrata.

Alice 5



"Before she left, Alice said goodbye to Hermes, the Whale in the Sky"
"Antes de partir, Alice despediu-se de Hermes, a Baleia no Céu"



P.S.: Sim, acho que me empolguei com a pintura desse aqui...