sábado, dezembro 12, 2015


Faleceu na madrugada de hoje, dia 12/12/2015, aos 89 anos, minha avó Nydia Licia Pincherle Cardoso

Qualquer um que escrevesse este texto falaria da carreira dela. Eu acho essa uma tarefa ingrata. Frequentemente eu mesmo me cobro de ter que saber tudo a respeito da minha avó e meu avô, por acreditar que só assim eu mostro o respeito devido às lendas que eles foram. E que lendas que eles foram! Leiam as matérias de imprensa, leiam os sites, a Enciclopédia Itaú Cultural, leiam os livros da Coleção Aplauso! Leiam a autobiografia dela. Se é informação que vocês procuram, não peçam pra mim. Eu não vou saber ser objetivo. Eu não sou historiador, e muitas outras pessoas muito mais sérias devem ter feito pesquisas muito mais completas do que o meu conhecimento deles, tendo mais propriedade pra falar da vida deles do que eu. Eu sou só o neto. Mas talvez por isso mesmo, por ter convivido com ela como neto, e por ter um gosto pela escrita, que me escolheram para este texto. Eu mesmo teria exigido estar nesta posição, para poder honrar ela apropriadamente. Porque daqui, dá pra falar da Nydia como pessoa. Uma coisa, por exemplo, que eu jamais vou poder experimentar a respeito do meu avô Sérgio, de quem sobrou para mim apenas a lenda do teatro. E embora seja importante misturar nesse meu texto a memória da atriz Nydia Licia, eu quero falar da minha avó. Eu acho que isso tem mais valor e mais da alma dela pra mim. Vovó Dona Nydia, como passei a chama-la quando pequeno, ao ouvir uma cozinheira chama-la assim.

Vovó Dona Nydia nasceu em Trieste, 30 de Março de 1926. Filha de Giacomo Giuseppe Pincherle, médico especializado no tratamento de tuberculose; e Alice Schwarzkopf, preparadora vocal de cantores de ópera. Vejam bem, uma pessoa ligada à medicina e outra ligada às artes. Talvez daí tenha surgido um padrão na família comparável àquela família do 100 anos de Solidão, um intercalar-se de artistas como nós, netos da Nydia artista, e médicos de tuberculose, como sua filha Sylvia. E talvez por isso que Trieste sempre me pareceu uma terra mística. Onde cantores de ópera meio tísicos ensinavam lendas germanas às crianças através de espetáculos musicais, enquanto tratavam seus pulmões entre o pinheiral da “Pineta del Carso”, o sanatório de meu bisavô. Uma terra que já estava tão ao norte da Itália, quase na fronteira com a Áustria, que havia impresso na vó Dona Nydia aqueles cabelos loiros e olhos claros, o porte e os modos germânicos contidos, e uma infância repleta de um folklore europeu alpino, bem diferente do que eu percebia como italiano. Era a terra do Bora, o vento de inverno que chegava a 200 km/h e gelava apenas um lado das árvores, varrendo pedestres das ruas e dobrando placas. Eu visitei essa Trieste em 2006, passeei pelas colinas e tirei uma foto atendendo ao pedido de minha avó, que me disse para “beijar o mar” dela, o Adriático. Ela não visitava Trieste desde a década de 70 ou 80.
Mais tarde na vida, eu soube de outra Trieste. A que não podia existir no mesmo lugar físico do que aquela terra mística da vó Dona Nydia. Devia ser outra coisa, em uma dimensão paralela na qual nem o Bora ou a ópera chegavam. Da qual trens partiam cheios de italianos para campos de concentração fora do país. E na qual um médico judeu tinha que vender a preço irrisório um dos hospitais mais respeitados da região. Foi dos horrores dessa realidade paralela que eles fugiram para o  Brasil.
Eles largaram tudo na Itália e vieram para este lado do Atlântico. Eu sei que essa história já não é nova, muita gente aqui tem uma história dessas na família. Então eu pulo os pormenores e vou a dois pontos que interessam. Primeiramente, esse lento recomeçar do nada me ensinou quando adulto que bens materiais são só coisas. Que a vida pode ser mais simples. Que importa mais quem você é e não o que você tem. Ela vivia uma vida pacata e simples nestes anos mais recentes, mas vejam o impacto que ela causou. Ela vivia em uma vila pequena e escondida, sem alardes, mas tinha o porte físico, a dicção e a distinção de uma diva. Ela não tinha, ela era. Em segundo lugar, e talvez a ideia que mais me deleite, ela fugiu dos regimes totalitários europeus e, assim como muitos daqueles fugitivos, viveu até quase 90 anos de idade. Sobreviveu a muitos dos que seriam seus captores. E não apenas sobreviveu: ela veio para o Brasil, e com Pietro Maria Bardi, participou do começo do MASP, conhecendo Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Aldemir Martins, Marcelo Grassmann, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia... A lista é enorme. Porém mais importante: foram artistas modernos. E o teatro que surgiu do contato com essa cena cultural era um teatro moderno. Entende? Foram artistas da “arte degenerada” que os regimes totalitários tentaram obliterar. Ela ter vivido até quase 90 anos e contribuído para a solidificação da arte moderna no Brasil foi seu último chute no traseiro do nazi-fascismo.

Mas como eu disse, dessa Nydia Licia para a vovó Dona Nydia, há uma separação tão imensa que eu preciso fazer essa separação até aqui, no texto. Eu conheci uma outra pessoa, que eu queria relembrar pra vocês. A única ligação dela com a Nydia Licia é uma memória distante na minha infância da década de 80, de saber que ela viajava de avião entre o Rio e São Paulo. Eu não sabia o que ela fazia no Rio, sabia apenas que era “coisa de atriz”. Mas ela vinha direto para nosso apartamento do lado do aeroporto, trazendo um punhado de sachês com mel que eram oferecidos no café da manhã do vôo, e dava de colherzinha para mim e para meu irmão João. De volta à casa dela na vila, ela transformava esse hábito de nos adoçar a vida em uma brincadeira doce de esconder chocolates na sala e nos guiar até eles pelo “quente ou frio”. E nossos olhos passeavam por aquela casa! Por estantes lotadas de livros em diversos idiomas, por quadros que fizeram parte de minha educação visual e que anos mais tarde eu saberia serem esboços de cenário, por aquarelas da mãe dela, por móveis ornados de estilos diferentes e às vezes conflitantes. Tudo parecia ter uma história. E tudo, embora de cores diversas, me lembrava um tom de bege meio dourado. Era o tom dela, dos móveis dela, das roupas dela. É difícil explicar sinestesia, mas era o tom até do perfume dela: um daqueles perfumes numerados específicos, 4711. Um perfume que combinava com seu gesto de usar seus casacos por cima dos ombros, sem de fato vestir as mangas. Um perfume que combinava com seus gestos e serenidade meio felinos. Ela adorava gatos, e os da vila a recebiam como uma deles. Como a rainha deles. Acho que vou lembrar dela no olhar de todos os gatos. Na memória infantil de minha mãe, que tantas vezes havia sido colocada para dormir ninada pela canção de Tutu Marambá cantada por minha avó, ela assumia essa identidade deste gato que cantava nos telhados à noite. Não era muito distante da realidade da Nydia Licia que ninava sua garotinha antes de sair para a peça da noite na Companhia Nydia Licia-Sérgio Cardoso. E por essa identificação, sempre a chamava de . A simplificação monossilábica de gato? Ou a corruptela infantil de Tutu Marambá?

Acima de tudo, minha memória mais acessível da vovó Dona Nydia era sua paixão pelo natal. Embora judia, ela adorava o natal. Época em que ela trazia a mim e meu irmão para perto dela e lia os épicos contos de natal da Turma do Mickey que parodiavam o Guerra nas Estrelas, ou a coleção de Asterix que ela adorava. Hoje me pergunto por que ela não lia os contos germanos de sua infância. Nos finais de ano, a casa dela enchia-se da fragrância de pinheiro, quando ela mandava trazer um pinheiro de verdade para colocar no canto da sala dela. Ela o decorava com toda sua extensa coleção de adornos natalinos, de origens e estilo diversos. Na noite após a montagem da árvore, ela apagava as luzes da sala e acendia velas fixadas na árvore. E então eu e meu irmão caçávamos entre as bolotas coloridas os peixinhos de chocolate embrulhados em papel alumínio que ela conseguia das freiras morando perto da casa dela. Havia algo muito adequado para a época de festas e desejos de paz no fato desta judia confraternizar com freiras católicas e montar aquela árvore que enchia sua sala de presença. Nos anos mais recentes, ela delegava funções: meu irmão, o engenheiro, balanceava a árvore amarrando-a com fios de nylon para evitar desastres enquanto eu, o artista plástico, montava o “presépio da lareira”. Dito assim entre aspas porque não era um presépio mesmo. Ela tirava tudo de sua lareira desativada e deixava-me construir alguma cena festiva com os enfeites natalinos antes mesmo de enfeitar a árvore. Meu presépio tinha primazia criativa. Esse mashup de referências natalinas faziam dela uma pessoa que, aos 89 anos, continuava sendo totalmente atual, até mesmo fortemente pós moderna. O pós moderno é esta justaposição descompromissada de referências que, mesmo divergentes, chegam em uma coerência estética. O natal dela era pós moderno.
Ela sempre me incentivou como artista. Talvez tenha lhe faltado pulso para fazer de mim um ator. A família sabe que eu demonstrei interesse. Ou talvez, do jeito dela, ela tenha preferido me dar liberdade para ser o artista que eu quisesse ser. João tornou-se músico e ela foi sua preparadora vocal, seguindo os passos da mãe. Eu tornei-me artista plástico e ela me deu um quarto na casa dela que passou a ser meu ateliê. Já com dificuldade de subir a escada escorregadia até ele, vovó me interrompia no meio da tarde para que eu descesse para uma xícara de cappuccino instantâneo e contos de sua vida épica. Ela sabia, mais do que ninguém e mesmo que o jogo hoje fosse outro, o que era ser um artista jovem, ainda ingênuo, em início de carreira. E talvez aqui esteja condensada toda a falta que ela vai me fazer: avó, referência histórica, mentora artística, mecenas e até merendeira. Que vácuo enorme para preencher...

Quando eu era bem criança, cinco anos de idade, eu tive um sonho do qual ainda me lembro. Por um motivo besta que não convém contar,  eu havia morrido e ido para o céu. O céu do meu sonho era um lugar à meia-luz. Uma coxia de teatro (embora na época eu não soubesse o que ou como era uma coxia), com luzes apagadas e a pouca iluminação vinda de algum lá fora qualquer. A impressão era mesmo de um teatro ocioso, sem peças sendo encenadas. Eu via muitas cordas, madeira e dobradiças, enquanto era levado por alguma presença desconhecida para perto de uma figura sentada lá no canto. Uma figura que eu inexplicavelmente sabia ser o meu avô, sentada em um banquinho em frente a um tabuleiro de xadrez. Como eu já disse, nunca conheci o Sérgio de verdade, que não fosse a lenda do teatro. E portanto desconheço se ele jogava xadrez. Ele me disse para ficar quietinho. Porque ali, todo mundo estava relaxando, ficando quietinho. Na monotonia dos adultos, que as crianças ainda não entendem, eu me distraía observando meu avô. Não seu rosto, que eu não conhecia de verdade no mundo real, mas observando as asas dele. Um par meio mambembe de asas de madeira. Operadas com cordas, polias e dobradiças. Asas de teatro, que ele operava comicamente de vez em quando. E nesse faz de conta gostoso de adulto, de saber que a realidade é outra mas querer brincar de acreditar na fantasia, eu fico visualizando essa imagem da vovó Dona Nydia chegando nessa coxia no céu. Não a vovó Dona Nydia, mas a Nydia linda e capaz da década de 50. Pra sentar junto do meu avô do outro lado da mesa de xadrez e ficar quietinha. Operando vez por outra seu par de asinhas de teatro.


Para sempre Vovó Dona Nydia. Para sempre .

terça-feira, novembro 17, 2015

Por que estudar Arte (Attack on Paris version)

Há uns quatro anos, quando comecei a dar aula no Colégio, um aluno me perguntou por que eles estavam estudando artes, cinema, coisas do tipo. Afinal, não cai no vestibular, né?

Se explicados sob a perspectiva do poder da mídia, os acontecimentos recentes na Europa respondem por mim. Os ataques recentes a Paris mataram 129 pessoas, causando comoção mundial e tingindo o Facebook de fotos de perfil com as cores da França. O impacto desse ataque, em termos de valor simbólico, não chega aos pés do impacto do ataque às Torres Gêmeas nos Estados Unidos em 2001. Até porque morreram mais pessoas nos Estados Unidos (estimativas falam de números superiores a 3000 pessoas entre os terroristas, passageiros dos aviões, ocupantes das Torres, bombeiros e outros funcionários de serviços de emergência).

Tenho dificuldade em estimar a quantidade de árabes (iraquianos, iranianos, ou sírios) mortos por ataques de bombardeio americanos ou franceses. Dificuldade porque não há identificação específica para cada incidente (como em "ataque às Torres Gêmeas" ou "Atentado em París"). Sem delimitar isso, não se pode contar onde começam e onde terminam as mortes (desde o começo das guerras contra os árabes? desde que os franceses começaram a bombardear Raqqa? ou só o bombardeio deste domingo?). Ou seja, não há amostragem do quão grande é a tragédia do lado de lá.

[DISCLAIMER: não considero nenhuma tragédia superior ou inferior à outra. Tudo que tem acontecido é péssimo. Mas há valor didático no modo como essas tragédias estão sendo noticiadas.]

Na mídia, as coberturas são tão diferentes e parciais quanto a mídia daqui é ao falar deste ou daquele partido político. Por lá, a cobertura do incidente na França mostra pessoas em desespero chorando pela violência "inexplicável", propriedades e vidas irremediavelmente destruídas. Sobre os incidentes na Síria, mostram os reluzentes jatos de guerra franceses, como se vendessem o carro do ano. Como se aquilo fosse certo. Jornais proclamam que os bombardeios acertaram acampamentos de treino de terroristas e que nenhum civil morreu no ataque, mas grupos no Twitter comentam que o ataque acertou um estádio, um museu, clínicas, um hospital e prédios do governo. Será que ninguém saiu ferido mesmo?  Em quem acreditar?

Nesse ponto do texto, o garoto que me perguntou a razão de estudar Artes já deve ter parado de ler. Mas caso ele ainda esteja acompanhando, vou resumir a moral da história. Estamos muito bem informados da miséria e da tristeza na França (com “apenas 129 mortos), mas temos apenas uma vaga noção glamourizada da violência na Síria. A imagem das Torres Gêmeas nos chega em gloriosas fotos em HD, mas ninguém lembra do quão lindo era o Iraque antes dos ataques americanos. 

Os EUA e a França entenderam a importância da mídia, das artes e da expressão. Eles entenderam que, usadas corretamente, essas coisas fazem mais efeito do que centenas de bombas. Elas convertem milhares de pessoas no mundo inteiro para o lado de quem souber usá-las. O garoto que me perguntou a respeito vestia Abercrombie e cantarolava músicas americanas: ele nem percebia, mas já tinha sido colonizado através de anos de exposição a filmes de Hollywood e bandas de música pop.

Você estuda arte no Colégio para entender que estão te contando só um lado da história. SEMPRE. É o lado de quem entendeu e investiu na importância da mídia. Você estuda arte para ter consciência de como estão te colonizando. Você estuda arte pra poder escolher se quer aprender a usar essa ferramenta, e para qual finalidade.

Você estuda arte para não ser controlado por ela.


domingo, abril 26, 2015

Sobre Autoridade na Escola

Na Colômbia e um pouco aqui no Brasil, eu peguei um estilo de escola que insistia um tanto em uma disciplina quase militar, que punia quem desobedecia ou se insubordinava sem clemência ou negociação. Jã não existia a palmatória ou qualquer outro tipo de castigo físico. Estes tinham sido abolidos pelos nossos professores, que haviam sofrido bastante com esses tipos de punição e, lembrando da dor, não se sentiam à vontade para aplica-los a nós, seus alunos.

A geração de professores e pais que cuidou da minha havia abolido o castigo físico, mas ainda exercia uma autoridade punitiva e absoluta, que não admitia ser questionada. A autoridade que, ao ser perguntada sobre os por quês, respondia: "porque eu sou seu professor/pai e eu estou mandando". Não negociava e raramente se explicava.

Minha geração ainda achava tudo aquilo muito injusto, relacionando esse tipo de autoridade inquestionável e absoluta aos regimes totalitários que estes mesmos adultos diziam serem deshumanos e cruéis. Minha geração experimentou ser uma autoridade mais clemente e conciliadora, democrática, aberta ao diálogo e à negociação, querendo explicar ao invés de impor.

Nosso experimento gerou filhos e alunos sem limites, pois se limites podem ser negociados, eles podem ser superados. Esta nova geração venceu seus adultos pela insistência e habilidade de negociação superior, conseguindo o que queriam apesar das regras e ameaças.

Alguém me pergunta que tipo de professores esta geração será, se eles não conhecem disciplina e limite. E eu imagino que serão professores extremamente autoritários. Afinal, se eles são acostumados desde pequenos a sempre terem o que querem e a reagirem agressivamente sem serem punidos por isso, eles reagirão autoritários e despóticos a todo aluno que não responder de acordo com a vontade deles. E vamos retroceder para autoridades totalitárias novamente.

A pergunta que permanece é: quando e como voltaremos daí para os castigos corporais?

quinta-feira, março 19, 2015

Surreal revelation XVIII: Petróleo

Aprendi na escola, quando criança, que o petróleo era um "combustível fóssil". Ele era o resultado de um processo da decomposição de seres que haviam morrido há milhares de anos, suas carcaças soterradas sob a pressão de toneladas de rocha sedimentaria. E a ideia principal deste Surreal Revelation é esta: montamos sociedades inteiras fundamentadas por esta substância, este chorume de carcaça.

Montamos sociedades inteiras fundamentadas em morte.

Karl Benz criou o que conhecemos como o carro moderno em 1886 [fonte]. Ou seja, em um piscar de olhos de 130 anos, se comparado com os milênios de existência da raça humana. Mas nesses 130 anos, sociedades inteiras passaram a serem fundamentadas pela economia das montadoras de carro. Estive tentando achar o trecho do documentário do Michael Moore onde ele mostrava uma cidade americana que havia sido montada em volta de uma fábrica da GM, onde todos trabalhavam. Quando a GM resolveu que aquela fábrica específica não estava mais gerando os lucros desejados, a fábrica foi fechada e a cidade morreu com níveis elevadíssimos de desemprego, depressão e suicídio.

No Brasil, tínhamos a chance de usar os caudalosos rios naturais do país para a navegação. Outro ótimo documentário chamado Entre Rios mostrava como a maioria das cidades que "deram certo" eram criadas em torno de uma estratégia de transporte que ia do mais amplo e de maior capacidade, para o mais individual e menor. O começo de tudo eram os portos, onde as mercadorias chegavam de barco e eram carregadas em trens. As linhas férreas levavam tudo para os centros urbanos onde um sistema de transporte público garantia acesso às mais variadas partes da cidade. Finalmente, se você tivesse que ir a um lugar muito específico, podia valer-se do veículo individual: um carro ou moto. Isso garantia que muita gente indo para os mesmo lugares usava pouco combustível, ocupava pouco espaço e causava menos transtorno para todos os envolvidos.

Até que as montadoras americanas resolveram expandir seu mercado para o Brasil. Não vou me alongar neste raciocínio, o documentário faz isso de forma maravilhosa. Mas como resultado, hoje transportamos boa parte das cargas através do país por meio de "veículos individuais", os caminhões dessas montadoras. A construção de algumas das nossas principais cidades subverteu toda essa ordem e passou a privilegiar as estradas para veículos individuais em vez de todas as outras esferas dessa hierarquia. Ainda temos um serviço de transporte público pífio e transitar entre cidades por meio de transporte ferroviário ainda é um sonho com ares de impossibilidade europeia.

A contraparte disso é que muita gente fez muito mais dinheiro. As transportadoras receberam por cada caminhão nas estradas em vez de por uma grande locomotiva. As montadoras receberam por cada veículo para cada família (as vezes dois ou mais veículos por família) em vez de construir veículos de transporte público que carregavam dezenas de pessoas. E principalmente, as entidades ligadas ao petróleo aumentaram seu consumo da substância por cada indivíduo.

E as consequências dessa expansão das montadoras todo mundo conhece: nesses 130 anos, nós destruímos o mundo a tal ponto que se fala em irreversibilidade. As estradas estão abarrotadas de veículos, não existe mais "hora do rush" porque toda hora é do rush. Níveis de stress explodiram. E hoje quando as montadoras mostram resultados abaixo do esperado, todos entram em pânico. O governo corta impostos no setor. O horário nobre é recheado de propagandas de feirões prorrogados porque supostamente "foram um sucesso na semana passada". Diz o meu pai que toda essa algazarra é feita pelo setor automobilístico, enquanto o sucro-alcooleiro do qual minha família descende enfrenta uma das maiores crises da sua história e a mídia nem menciona o fato.

Estou me afastando demais do cerne do assunto. A indústria automobilística responde a uma outra indústria, a petroleira. Se detonamos o mundo em 130 anos com automóveis, isso aconteceu em grande parte porque eles usam derivados de petróleo em sua fabricação e rodam com combustíveis derivados dele também, que emitem todos esses poluentes.

E há alternativas. Há MUITAS alternativas. Mas no ponto em que estamos, o petróleo já gerou fortunas, sistemas e dependência em níveis tão astronômicos, que os envolvidos lutarão para mantê-los funcionando. Lutarão mesmo. Lutarão guerras em países longínquos por motivos fictícios. Tudo para ter mais petróleo para manter tudo girando.

E a cada novo dia, nossa sociedade continua fundamentada em morte.

Há qualquer coisa de perversamente poético ou xamânico nisso. A morte de eras mortas e enterradas é trazida à tona para provocar morte ambiental, morte belicosa e morte moral.