O Clube de Desenho dos Excluídos
"Professor, me dá um assunto para eu desenhar?"
A ideia partiu de Luisa, uma das minhas alunas do 7º ano. Eu tinha percebido a Luísa atrás da classe. Ela era do tipo que se destacava. Grande, cabelo crespo, camiseta preta de banda de heavy metal. E no entanto, uma doçura e timidez incomparáveis. Ela já me mostrara personagens em um caderno e eu acho que tinha mostrado os postais da Butcher.
"Tá. Deixa eu pensar. Mas você me dá um assunto também?"
No fim da aula, havíamos começado algo curioso e muito interessante. Pensando em um outro exercício baseado em um poema das aulas de espanhol, lembrei que os alunos do 8º andavam me perguntando como representar em fotografia uma mentira. Então esse foi o tema que Luisa teria que desenhar para a semana seguinte. O tema que eu desenharia: uma ideia de morte. Luisa estava ficando cada vez mais interessante.
Quantas vezes eu não pensara no assunto? Não como o suicida (tá, desse jeito também, todo adolescente cogita...), mas de um jeito bem pragmático, sem juízo de valor. E eu conhecia o drama desse tipo de adolescente: qualquer menção que se fizesse ao assunto já disparava alarmes nas cabeças de pais e professores, e às vezes você só queria se indagar sobre o assunto. Ou às vezes essa preocupação dos mais velhos só exacerbava um sentimento de isolamento e incompreensão que o adolescente sentia e o mergulhava mais fundo nos pensamentos de morte. Eu vi nisso uma chance dourada. A chance de, como alguém que já havia estado lá, poder dar o espaço para que ela falasse disso até esgotar o assunto, sem julgamento, sem alarme, como apenas um fato da vida. E calejar alguma dor que a estava corroendo.
Luísa me trouxe uma resposta inusitada. Um bom desenho de um palhaço com os dizeres "Palhaços mentem". Eu não soube ao certo o que tirar disso, mas acho que em um primeiro momento, importava mais a resposta que eu lhe daria. E entreguei um desenho em grafite sobre papel preto (o grafite fica claro no fundo escuro) de uma cabeça de um robô separada do corpo, flutuando desligada por esse nada. Os dizeres eram algo do tipo "Onde não há tempo nem espaço, pois não há corpo para os sentir." Tivemos uma breve conversa sobre essa ideia. Uma espécie de paz perene, a libertação do "não ser", depois que a máquina que era o nosso corpo fosse desligada. Sem céu, inferno e deidades julgadoras. Apenas um nada. Pleno e correto.
Na segunda rodada da brincadeira, a Mari apareceu. Uma amiga de outra sala que nos viu entregando os desenhos um para o outro e quis participar. Apesar de tão alta quanto a Luisa, ela não tinha chamado tanto a atenção pessoalmente. Eu a percebera no Facebook por ela ser uma otaku (and proud of it...). E depois, em aula, chamou a atenção pela qualidade da produção acadêmica, o intelecto desenvolvido o suficiente para apreciar abstração e experimentação com materiais. Mas a rigor, era outra garota grande com um temperamento tímido e voz baixa.
Nessa segunda rodada, apareceram temas como "mulher" (meu para a Luisa desenhar), "drogas" (da Luísa para a Mari) e "aparência" (da Mari para mim). E novamente, a Luísa me interessou. Eu lhe pedira para pensar em "mulher" para ver como ela se relacionava com a questão dos padrões de beleza e toda aquela besteira que traumatiza profundamente as adolescentes.
Ela me trouxe o desenho de um travesti e dizeres sobre estar em um corpo errado.
A terceira rodada está em andamento. E com duas participantes novas. Laura é uma terceira menina alta. Com um temperamento mais pesado (porém nunca violento). Revelou-me que é escritora além de desenhar (ah, as memórias da minha época de colégio...). Aparenta um profundo ceticismo em relação à vida, como alguém que já passou por mais do que deveria nessa idade. A outra é a oriental Kellen, a primeira garota pequena do grupo. Me parecia o ponto fora da curva, até lançar despudoradamente o tema de "câncer" para uma das meninas.
Nas reuniões de professores, os outros têm recebido bem a minha iniciativa, apesar de me acautelarem. Dizem que eu preciso ter uma boa noção do meu papel como professor. Eu não sou um terapeuta, eu não sou um potencial pretendente amoroso, eu não sou sequer um melhor amigo. Eu sou um professor. E elas precisam ter isso claro na cabeça. Dizem que há um limite para o quão íntimo eu posso ser delas sem receber nos ombros a responsabilidade pelas questões psicológicas delas.
Eu continuo defendendo que, em um ambiente desses, cheio de pressões (sociais, acadêmicas e biológicas), muita gente precisa ver na arte um espaço para descarregar o peso. Um espaço sem nenhum adulto entrando em pânico ao ouvir adolescente falar das questões brutais da vida (já existe a turma bem treinada do departamento de Orientação Educacional para isso).
Eu vejo principalmente na atitude da Laura que elas precisam de um espaço e uma experiência emocional que faça sentido para elas. Elas querem sentir alguma coisa. E taboadas, regras gramaticais e fatos históricos decorados para ganhar nota só as estão anestesiando mais.
Eu acho que é isso que deveria ser a aula de arte. Expressão irrestrita. Sem medo, sem censura e transgredindo os limites dos temas PG-13.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quinta-feira, junho 28, 2012
sexta-feira, junho 15, 2012
Binge gaming
Tem gente que bebe, tem gente que renderiza.
Do blog da Lu
Pois é... Eu jogo.
Eu falava meio brincando que jogar vídeo game era que nem vício pra mim. Que nem alcoolismo, essas coisas. É um clichê que o bêbado bebe para esquecer da vida. É uma "diversão" que tira sua cabeça de um momento doloroso qualquer. E ele não consegue se livrar daquilo em parte por um imperativo biológico, mas em parte também porque no momento em que ele fica sóbrio, ele tem que lidar com os problemas (às vezes insolúveis) que continuam lá. Em suma, ele bebe para "não ser" por algum tempo.
Nos meses recentes, eu tenho tentado "não ser" um pouquinho também. Eu sempre me policiei bastante no sentido de não ter consoles de games em casa e nem instalar jogos complexos no computador, nada que pudesse me viciar demais ou me tirar da realidade por mais do que alguns minutos (afinal, apesar do vício, todo mundo precisa de algum descanso). Fiquei apenas (e inevitavelmente) com os jogos online em browser, daqueles que não precisa instalar nada no computador. Desde Londres que o meu game para "jogar socialmente" é o Mahjongg Dark Dimensions (dá pra perceber o quanto eu jogo porque eu devo ainda estar na lista de pontuações mais altas do dia...). Dá pra terminar em uns 15 minutos. E como toda droga, tem seus efeitos. No meu caso, é um estimulante. E eu usava em Londres para dar uma acordada durante as traduções que eu fazia de madrugada.
Só que nos meses recentes eu tenho me dado esses intervalos com mais frequência. Mais do que "socialmente". Talvez porque queira "não ser" mais frequentemente, como o bêbado que bebe para esquecer o problema que continua lá. E esses excessos têm seus efeitos nocivos (ou você acha que excesso de vídeo game é só a mãe enlouquecendo porque você não sai do quarto?). Eu percebo a "bebedeira" quando fecho os olhos e ainda consigo ver as pecinhas. O jogo continua na minha cabeça. E ele não vai parar. Há uma infinidade de pecinhas na escuridão, surgindo da névoa para serem clicadas e pareadas. Cubinhos a perder de vista.
No feriado, me apresentaram o Drop-7. Agora eu posso "não ser" nas viagens de metrô também. Patético, não? Pior de tudo é que junta uma droga na outra e eu começo a atribuir valores numéricos para as forminhas bizarras do Mahjongg. Triângulos vermelhos, por algum motivo inexplicável, valem 4 (4 do que?). Pirando legal...
Apesar do nível da coisa estar perigando neuroses, o vício ainda não me incapacitou. Eu não jogo enquanto estou com pessoas, enquanto estou no colégio, enquanto consigo ocupar a cabeça com outras coisas. A vida segue (talvez em um ritmo mais lento do que eu gostaria), apesar da bebedeira. E no entanto, tem os dias de folga, onde não trabalho e não traduzo, em que já passei uma boa porcentagem do dia nos jogos. Me preocupo.
Em inglês, há um termo que se usa quando as pessoas se entregam totalmente ao excesso, perdendo toda a dignidade e o controle. Going on a binge, ou no caso da bebida, binge drinking.
Tenho passado algum tempo binge gaming.
segunda-feira, junho 11, 2012
Pessoas livres
"Psor, você passa base na unha?" me perguntou uma luna da 6ª série. Sem titubear, respondi que sim, que gostava do brilho e que deixava minhas unhas mais fortes. O cuidado com as unhas é um detalhe de uma série de pequenos cuidados aos quais eu me acostumei em Londres, e que eu fazia porque faziam com que eu me sentisse bem. Se tivesse mais tempo, cuidaria de mais coisas, mais detalhes. Depilação e hidratação. Mimos pessoais que com certeza me enquadrariam no rótulo do metrossexual. Eu já não dou a mínima para esses rótulos. Preferia rotular-me "complicado" e viver à margem do que os outros pensam a respeito disso.
Experimento com isso uma sensação única de liberdade. Até de poder. O não me ferir mais com o comentário maldoso, com o desprezo alheio, com o nojo causado pela incompreensão, tem um efeito "aikido" onde eu posso devolver o insulto como provocação. Mais do que isso, é muito libertador não me sentir mais na obrigação de me enquadrar no modelo de masculinidade antigo. Deixar eles que vivam com seu próprio medo de "não ser macho o suficiente". Não há nada mais poderoso do que simplesmente não jogar o jogo. É meio como "trollar" o Patriarcado...
Mas apesar de atualmente ter uma facilidade pra fazer isso em relação à minha sexualidade, andei muito ensimesmado, pensando que eu não tinha essa mesma liberdade com outras áreas da minha vida.
Andei vendo um pouco disso com o novo analista ao contar que eu já fizera terapia para me tratar de problemas com ansiedade. Estes eram derivados da sensação que eu tinha de que "os outros" esperavam coisas de mim. "Os outros" eram pais, família, namoradas, amigos, empregadores, sociedade em geral. Coisas eram comportamentos, moral, conduta. E como eu era incapaz de agir de acordo, eu sentia uma dose de culpa e inadequação que me levavam à ansiedade. Minha primeira terapeuta me ajudou a superar o assunto levando-me a ver que ninguém esperava nada de mim, e que eu era livre para ser eu. Esse ponto de vista funcionou melhor em alguns assuntos do que em outros.
Passei o feriado em Campos do Jordão. Uma cidade que sempre trouxe à tona esses sentimentos de inadequação [1]. Era, em uma cidade, tudo o que me incomodara na minha adolescência no colégio. Os adolescentes ricos (o perfil "balada Vila Olímpia", como eu dizia ao meu analista), as baladas superfaturadas, o jogo de aparências onde todo mundo era igual e eu era diferente, os excessos de toda natureza, a diversão fingida. Eu conseguia gradualmente me sentir menos mal em relação a esse ambiente. Sentia menos necessidade de ir para o centro garimpar entradas para a balada da moda. Menos necessidade de que me notassem. Menos necessidade de "fazer parte".
Na sexta, chegou meu irmão. Alguém teve que ir pegá-lo na rodoviária porque já faz meses que ele vendeu o carro. Anda com as roupas que consegue (muitas vezes, as que meus pais dão...). Continua morando em uma garagem transformada em estúdio de música. Vive com dívidas e problemas relacionados. Não tem perspectivas de melhoras financeiras. E no entanto, como Lexy bem observou, vive feliz. Com o que faz, com a vida que leva, com sua garagem e suas roupas maltrapilhas. Mais do que isso, quando a família tira sarro, ele ri junto e todos ficam com uma sensação de que tirar sarro não o forçará a "fazer parte". Ele vive à margem do que os outros pensam sobre seu estado financeiro como eu vivo à margem do que pensam da minha sexualidade.
Durante uma das saídas para o centro da cidade, conversei com uma das minhas primas, Adriana. Durante a minha adolescência frustrada em Campos, ela liderava a matilha de primas que descolavam VIPs e entradas gratuitas para as baladas superfaturadas. Podiam escolher a dedo com quem queriam ficar, e parecia que nada nem ninguém tinha mais poder do que elas naquele meio, e nenhuma delas tinha mais poder do que Adriana. Essa, claro, era a visão totalmente romanceada que eu tinha delas na época. Conversar com Adriana (realmente conversar com ela...) me trouxe uma outra história. A de alguém que nunca se sentiu como parte da "turminha popular" (será que ALGUÉM algum dia se sentiu?), que camelou para alcançar o status que tinha e nunca se sentiu feliz com o poder que conseguiu. Aos 25, ela aposentou a vida de glamour. Mais adiante, largou o emprego em imobiliárias para abrir uma empresa de doces. Casou-se com um rapaz que não tinha nada do perfil que elas procuravam nas baladas de Campos. Planeja ter um filho em breve. E mais do que tudo, parece feliz vivendo também à margem do que a "turminha popular" pensa sobre ela.
No fim, não pude deixar de pensar em Nana. Porque eu percebera uma coisa similar quando cortamos contato. Ela havia se isolado do mundo, de quem a obrigara a estudar, a ter ambição, emprego, essas coisas prosaicas que a empurraram para a depressão. Quando eu a empurrei em direção a essas coisas, ela me cortou também. Nem eu, um amigo íntimo de mais de uma década, valia ela trair-se desse jeito. O que ela queria me ensinar (se é que se importava comigo para se dar ao trabalho de "me ensinar" alguma coisa), era que ela arranjaria essas coisas quando e se quisesse, não para ter a minha aprovação. Já não tenho contato algum com ela para saber se está feliz, mas não parece minimamente incomodada de viver à margem mesmo do que eu penso dela.
E quanto a mim?
Voltando ao cerne deste post e da questão atual, eu estava cada vez juntando mais bagagem para discutir com o meu analista. O que é que eu fazia de fato para mim? E o que é que eu fazia pela aprovação d'Os Outros? Quanto dessa aprovação era real ou imaginada por mim? Quanto que Os Outros de fato se importavam com o que eu fazia da vida, o que eu vestia, onde eu me divertia?
Do jeito que a questão está na minha cabeça, há alguns pontos-chave. Dentre eles, o meu atual emprego no meu antigo colégio (que vale um posto mais adiante...). Para quem que eu estou fazendo isso? Para ter honra perante a família? Para parecer importante na reunião de 15 anos de formandos do colégio? Para encher a boca e dizer (pra quem?) que eu sou professor com mestrado em artes, por uma questão de orgulho? Será que eu sequer gosto mesmo de arte?
Deu pra ver a extensão do problema, né?
Eu tenho algumas respostas, embora respostas neste terreno pantanoso de dúvida sejam suscetíveis à maré. Eu sei que gosto de idiomas e não me importaria de viver de tradução se isso pagasse o que eu ganho no colégio. Eu sei que gosto de me vestir bem (do meu jeito...) e de morar onde estou morando (mas não mais dos vizinhos...). E que essas coisas não têm tanto a ver com o que os outros acham e sim com um prazer estético meu. Eu sei que gosto de Londres. E por enquanto é só.
O resto ainda está aberto ao debate.
Experimento com isso uma sensação única de liberdade. Até de poder. O não me ferir mais com o comentário maldoso, com o desprezo alheio, com o nojo causado pela incompreensão, tem um efeito "aikido" onde eu posso devolver o insulto como provocação. Mais do que isso, é muito libertador não me sentir mais na obrigação de me enquadrar no modelo de masculinidade antigo. Deixar eles que vivam com seu próprio medo de "não ser macho o suficiente". Não há nada mais poderoso do que simplesmente não jogar o jogo. É meio como "trollar" o Patriarcado...
Mas apesar de atualmente ter uma facilidade pra fazer isso em relação à minha sexualidade, andei muito ensimesmado, pensando que eu não tinha essa mesma liberdade com outras áreas da minha vida.
Andei vendo um pouco disso com o novo analista ao contar que eu já fizera terapia para me tratar de problemas com ansiedade. Estes eram derivados da sensação que eu tinha de que "os outros" esperavam coisas de mim. "Os outros" eram pais, família, namoradas, amigos, empregadores, sociedade em geral. Coisas eram comportamentos, moral, conduta. E como eu era incapaz de agir de acordo, eu sentia uma dose de culpa e inadequação que me levavam à ansiedade. Minha primeira terapeuta me ajudou a superar o assunto levando-me a ver que ninguém esperava nada de mim, e que eu era livre para ser eu. Esse ponto de vista funcionou melhor em alguns assuntos do que em outros.
Passei o feriado em Campos do Jordão. Uma cidade que sempre trouxe à tona esses sentimentos de inadequação [1]. Era, em uma cidade, tudo o que me incomodara na minha adolescência no colégio. Os adolescentes ricos (o perfil "balada Vila Olímpia", como eu dizia ao meu analista), as baladas superfaturadas, o jogo de aparências onde todo mundo era igual e eu era diferente, os excessos de toda natureza, a diversão fingida. Eu conseguia gradualmente me sentir menos mal em relação a esse ambiente. Sentia menos necessidade de ir para o centro garimpar entradas para a balada da moda. Menos necessidade de que me notassem. Menos necessidade de "fazer parte".
Na sexta, chegou meu irmão. Alguém teve que ir pegá-lo na rodoviária porque já faz meses que ele vendeu o carro. Anda com as roupas que consegue (muitas vezes, as que meus pais dão...). Continua morando em uma garagem transformada em estúdio de música. Vive com dívidas e problemas relacionados. Não tem perspectivas de melhoras financeiras. E no entanto, como Lexy bem observou, vive feliz. Com o que faz, com a vida que leva, com sua garagem e suas roupas maltrapilhas. Mais do que isso, quando a família tira sarro, ele ri junto e todos ficam com uma sensação de que tirar sarro não o forçará a "fazer parte". Ele vive à margem do que os outros pensam sobre seu estado financeiro como eu vivo à margem do que pensam da minha sexualidade.
Durante uma das saídas para o centro da cidade, conversei com uma das minhas primas, Adriana. Durante a minha adolescência frustrada em Campos, ela liderava a matilha de primas que descolavam VIPs e entradas gratuitas para as baladas superfaturadas. Podiam escolher a dedo com quem queriam ficar, e parecia que nada nem ninguém tinha mais poder do que elas naquele meio, e nenhuma delas tinha mais poder do que Adriana. Essa, claro, era a visão totalmente romanceada que eu tinha delas na época. Conversar com Adriana (realmente conversar com ela...) me trouxe uma outra história. A de alguém que nunca se sentiu como parte da "turminha popular" (será que ALGUÉM algum dia se sentiu?), que camelou para alcançar o status que tinha e nunca se sentiu feliz com o poder que conseguiu. Aos 25, ela aposentou a vida de glamour. Mais adiante, largou o emprego em imobiliárias para abrir uma empresa de doces. Casou-se com um rapaz que não tinha nada do perfil que elas procuravam nas baladas de Campos. Planeja ter um filho em breve. E mais do que tudo, parece feliz vivendo também à margem do que a "turminha popular" pensa sobre ela.
No fim, não pude deixar de pensar em Nana. Porque eu percebera uma coisa similar quando cortamos contato. Ela havia se isolado do mundo, de quem a obrigara a estudar, a ter ambição, emprego, essas coisas prosaicas que a empurraram para a depressão. Quando eu a empurrei em direção a essas coisas, ela me cortou também. Nem eu, um amigo íntimo de mais de uma década, valia ela trair-se desse jeito. O que ela queria me ensinar (se é que se importava comigo para se dar ao trabalho de "me ensinar" alguma coisa), era que ela arranjaria essas coisas quando e se quisesse, não para ter a minha aprovação. Já não tenho contato algum com ela para saber se está feliz, mas não parece minimamente incomodada de viver à margem mesmo do que eu penso dela.
E quanto a mim?
Voltando ao cerne deste post e da questão atual, eu estava cada vez juntando mais bagagem para discutir com o meu analista. O que é que eu fazia de fato para mim? E o que é que eu fazia pela aprovação d'Os Outros? Quanto dessa aprovação era real ou imaginada por mim? Quanto que Os Outros de fato se importavam com o que eu fazia da vida, o que eu vestia, onde eu me divertia?
Do jeito que a questão está na minha cabeça, há alguns pontos-chave. Dentre eles, o meu atual emprego no meu antigo colégio (que vale um posto mais adiante...). Para quem que eu estou fazendo isso? Para ter honra perante a família? Para parecer importante na reunião de 15 anos de formandos do colégio? Para encher a boca e dizer (pra quem?) que eu sou professor com mestrado em artes, por uma questão de orgulho? Será que eu sequer gosto mesmo de arte?
Deu pra ver a extensão do problema, né?
Eu tenho algumas respostas, embora respostas neste terreno pantanoso de dúvida sejam suscetíveis à maré. Eu sei que gosto de idiomas e não me importaria de viver de tradução se isso pagasse o que eu ganho no colégio. Eu sei que gosto de me vestir bem (do meu jeito...) e de morar onde estou morando (mas não mais dos vizinhos...). E que essas coisas não têm tanto a ver com o que os outros acham e sim com um prazer estético meu. Eu sei que gosto de Londres. E por enquanto é só.
O resto ainda está aberto ao debate.
terça-feira, junho 05, 2012
De volta ao divã
Voltei oficialmente a fazer terapia. Desta vez, análise.Ainda é meio apertado no meu orçamento, que ainda conta com parcelas dos móveis do apê novo. Mas é necessário, com tudo que tem se passado nos meses recentes. Não para resolver questões práticas como crises de ansiedade, mas pra rever como minha cabeça está estruturada, por que eu saboto as coisas que eu saboto, por que tudo vai tão bem e ainda assim há essa sensação de fracasso.
O começo é mesmo uma rotina tediosa de recontar todas as histórias pessoais que eu já contei a terapeutas passados, a infância fora do país, os traumas de colégio, os tropeços dos primeiros relacionamentos, a influência de família, colégio, amigos, classe social. Mas curiosamente, recontando dessa vez, comecei a prestar atenção a outras coisas. Sabe, é como um daqueles filmes que você revê depois de um tempo e começa a perceber uns detalhes da trama que não tinha percebido. Coisas que não mudam o final que você já conhece, mas dão um gosto a mais e uma compreensão a mais para os eventos que acontecem no clímax do filme. Recentemente assisti Hannibal de novo, desse jeito. Revendo detalhes. Como eu gosto desse personagem!
Mais do que tudo, na terapia a gente vai percebendo como fez as coisas errado. Como nos deixamos cair em abismos que cavamos com nossos próprios pés. E como fizemos coisas certas também, mas pra essas não precisa de terapia, né? Não, eu ainda não sou um caso tão perdido e complicado assim. Dessa vez é apenas uma questão de fine tunning.
Acho que a questão agora é: será que o blog já perdeu leitores o suficiente para que eu possa voltar a ser pessoal e íntimo por aqui e escrever o que eu for descobrindo nessa jornada?
Será que eu de fato me importo com isso? Já não sei mais.
O começo é mesmo uma rotina tediosa de recontar todas as histórias pessoais que eu já contei a terapeutas passados, a infância fora do país, os traumas de colégio, os tropeços dos primeiros relacionamentos, a influência de família, colégio, amigos, classe social. Mas curiosamente, recontando dessa vez, comecei a prestar atenção a outras coisas. Sabe, é como um daqueles filmes que você revê depois de um tempo e começa a perceber uns detalhes da trama que não tinha percebido. Coisas que não mudam o final que você já conhece, mas dão um gosto a mais e uma compreensão a mais para os eventos que acontecem no clímax do filme. Recentemente assisti Hannibal de novo, desse jeito. Revendo detalhes. Como eu gosto desse personagem!
Mais do que tudo, na terapia a gente vai percebendo como fez as coisas errado. Como nos deixamos cair em abismos que cavamos com nossos próprios pés. E como fizemos coisas certas também, mas pra essas não precisa de terapia, né? Não, eu ainda não sou um caso tão perdido e complicado assim. Dessa vez é apenas uma questão de fine tunning.
Acho que a questão agora é: será que o blog já perdeu leitores o suficiente para que eu possa voltar a ser pessoal e íntimo por aqui e escrever o que eu for descobrindo nessa jornada?
Será que eu de fato me importo com isso? Já não sei mais.
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