Por ocasião da Risaderia, um evento de comédia que aconteceu na cidade, fui lembrar da TV Pirata. Era o Casseta e Planeta da minha infância, que lançou humoristas como o Luis Fernando Guimarães, a Debora Bloch, o Guilherme Karan e o Diogo Vilela. Tinha um humor pastelão muito bom. Pena que acabou.
Um dos quadros de que eu mais lembro era o da "TV Macho", apresentado pelo Karan. Ele fazia o papel de Zeca Bordoada, um "macho de verdade", daqueles que usava Ray-Ban de pervertido sexual, mastigava palito de dente e falava alto. A truculência do personagem vem completa até com manchas enormes de suor debaixo dos braços. Ele sentava numa mesinha de boteco amontoada de garrafas de cerveja, como se não desse a mínima para o cenário de seu programa ("porque macho que é macho não presta atenção nessas boiolagens", ele diria).
Ainda dei boas risadas com o programa que achei no YouTube. A comédia parece intensificada hoje com as músicas bregas dos anos 80. Mas o que me pareceu interessante hoje sobre o programa foi perceber que já naquela época havia alguém tirando sarro do machismo exacerbado, das bravatas e duelos de masculinidade. O estereótipo encarnado pelo Karan hoje já virou kitsch: o homem que precisa reforçar pra si mesmo que é macho, por ter pavor de descobrir-se feminino nas pequenas atitudes.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
segunda-feira, março 29, 2010
sexta-feira, março 26, 2010
Sobre gestações e ovos
Vejo meus amigos começarem a ter filhos e muita gente comentar sobre os sentimentos envolvidos.
Ontem, no circo, um dos instrutores contava sua experiência quando seu filho (atualmente com dois anos e meio) nasceu. Dizia que, durante nove meses, o foco de sua atenção fora aquela barriga crescente. A mulher era quase um personagem a parte, como se ele se relacionasse com a mulher e com a barriga como dois entes separados. Acho que talvez seja uma coisa tipicamente masculina. Mulheres, em toda a arte e literatura que vi a respeito, sempre lidam com aquilo como se fosse parte delas e somente delas. Dentro delas. Como se o homem sequer estivesse envolvido no processo a não ser como um pagador de contas. Há nos relatos delas o conceito claro da gestação. Os homens lidam com aquilo de forma diferente porque não está no corpo deles. É quase como o relacionamento com um ovo, o chocar de um ovo. O homem vai ao trabalho, depois volta para casa para cuidar, aquecer e proteger aquele ovo. E o faz através da mulher, como se ela fosse a interface dele com o ovo. Eu sei que isso é degradante para a mulher, mas não me importa. Acho que faz mesmo parte das diferentes formas como homens e mulheres encaram a geração de um filho.
Daí então o filho do meu treinador nasceu. Nas palavras dele, "é um divisor de águas: você acha que sabe, mas na verdade não entende de verdade o que é o amor até aquele momento". A frase me tocou bastante. Tenho expectativas sobre a paternidade que não poderiam ser expressas de forma mais contundente do que isso. Imagino meus sentimentos, a necessidade que eu teria pelo toque físico do meu filho. Uma necessidade que tem a intensidade do desejo sexual, mas que não tem em si nada de sexual. A necessidade de beijar-lhe o rosto, sentir sua pele, avaliar seu peso, perceber os movimentos de algo que é parte de mim mas não sou eu. Eu sei que o cansaço e as frustrações de cuidar de uma criança roubam um pouco da mágica disso com o tempo, mas ainda tenho essa ilusão feliz de que cada dia com um filho seja repleto de novidades e maravilhamentos.
Ontem, no circo, um dos instrutores contava sua experiência quando seu filho (atualmente com dois anos e meio) nasceu. Dizia que, durante nove meses, o foco de sua atenção fora aquela barriga crescente. A mulher era quase um personagem a parte, como se ele se relacionasse com a mulher e com a barriga como dois entes separados. Acho que talvez seja uma coisa tipicamente masculina. Mulheres, em toda a arte e literatura que vi a respeito, sempre lidam com aquilo como se fosse parte delas e somente delas. Dentro delas. Como se o homem sequer estivesse envolvido no processo a não ser como um pagador de contas. Há nos relatos delas o conceito claro da gestação. Os homens lidam com aquilo de forma diferente porque não está no corpo deles. É quase como o relacionamento com um ovo, o chocar de um ovo. O homem vai ao trabalho, depois volta para casa para cuidar, aquecer e proteger aquele ovo. E o faz através da mulher, como se ela fosse a interface dele com o ovo. Eu sei que isso é degradante para a mulher, mas não me importa. Acho que faz mesmo parte das diferentes formas como homens e mulheres encaram a geração de um filho.
Daí então o filho do meu treinador nasceu. Nas palavras dele, "é um divisor de águas: você acha que sabe, mas na verdade não entende de verdade o que é o amor até aquele momento". A frase me tocou bastante. Tenho expectativas sobre a paternidade que não poderiam ser expressas de forma mais contundente do que isso. Imagino meus sentimentos, a necessidade que eu teria pelo toque físico do meu filho. Uma necessidade que tem a intensidade do desejo sexual, mas que não tem em si nada de sexual. A necessidade de beijar-lhe o rosto, sentir sua pele, avaliar seu peso, perceber os movimentos de algo que é parte de mim mas não sou eu. Eu sei que o cansaço e as frustrações de cuidar de uma criança roubam um pouco da mágica disso com o tempo, mas ainda tenho essa ilusão feliz de que cada dia com um filho seja repleto de novidades e maravilhamentos.
quarta-feira, março 24, 2010
Random Literature
E então, um dia, aconteceu o previsível.
Culminou às dez da noite de uma quinta-feira em Março. Eu estava no carro, enfrentando a morosidade do trânsito da avenida Brasil. Lembro que passava pela minha cabeça a comparação feita por alguém de que a cidade era um organismo vivo. Quando me disseram isso pela primeira vez, eu tinha imaginado as ruas como veias, os carros como sangue a fluir. Naquele dia, o movimento dos carros me lembrava outra coisa. Tinha o lento e fétido arrastar de fezes por um longo e intrincado intestino. Cada um de nós estava sendo digerido e transformado em escremento ao longo do caminho. Bom, pelo menos eu realmente me sentia uma merda. Esta cidade precisava de uma lavagem intestinal...
Exatamente às dez e vinte e sete, um ônibus tentou atravessar uma das avenidas que cortava a Brasil, porém o trânsito o deixou parado no meio do caminho, fechanddo o cruzamento. A raiva dos motoristas foi expressa a buzinadas. Não que adiantasse muito ter o cuzamento livre: a Brasil continuava entupida do outro lado do cruzamento, assim como a avenida do ônibus.
O fato é que todas as avenidas da cidade, naquele minuto exato, travaram.
O incidente previsível se anunciava há meses. Com o número crescente de carros entrando em circulação e o consequente aumento dos números nas medições do trânsito feitas pelos órgãos (in)competentes, o travamento total se anunciava mais próximo a cada dia. As campanhas pela gentileza no trânsito eram completamente ignoradas pelos motoristas que, depois de três, às vezes quatro horas no trânsito entre lugares relativamente próximos, já não tinham mais gentileza para dispensar.
Naquela noite, quando o último carro entrou em circulação, um nível de saturação foi atingido. No centro da cidade, um motorista que entrara na contra-mão se recusava a voltar e fazer o caminho mais longo (que levaria mais duas horas), por estar já na esquina de casa, enquanto travava o trânsito vindo na direção correta. Em outro bairro, quatro carros se travavam em volta de uma pequena rotatória, ninguém cedendo à passagem do adversário. Nos pontos de ônibus, a grande massa enfartava os veículos, que não conseguiam partir sem fechar a porta e ninguém que já tinha um pé dentro se dispunha a descer. Motos caíam vítimas de motoristas invejosos que lhes negavam a passagem.
Todo mundo só queria chegar em casa. E todo mundo estava travado por outras pessoas que só queriam chegar em casa. Há mais de quatro horas. O nível de frustração era tamanho, que ninguém estava disposto a ceder. Perto da meia-noite o prefeito resolveu decretar estado de calamidade pública, depois que a polícia mostrou-se incapaz de lidar com o enorme número de ocorrências de violência no trânsito.
Três dias depois, a situação continuava a mesma. Com muitos dos motoristas abandonando seus carros trancados no meio da rua, sem se importar com as multas, guinchamentos ou furtos (já que os ladrões também não teriam como levar os veículos), a situação piorou. Mesmo que o trânsito andasse em algum lugar, os carros abandonados não seriam movidos.
Negociações começaram. Pessoas negociavam até judicialmente a cessão de passagem a outros carros. Os acordos eram leoninos. Ninguém queria ceder. Quanto mais estratégica fosse a posição do automóvel, maior era o possível lucro do proprietário se o negócio fosse fechado. 'Cotações de passagem' eram analisadas por especialistas em trânsito, com gráficos detalhados de como cada movimento afetaria o trânsito da região. Informações da direção que este ou aquele veículo estava planejando tomar eram comunicadas com o sigilo de segredos industriais. Ainda assim, ninguém se movia, aguardando ter o melhor negócio em mãos, aguardando o movimento dos outros.
Após algum tempo, a prefeitura desenvolveu um programa de alerta que divulgaria pelos sistemas de rádio e televisão caso alguém se movesse, desatando 'O Nó', como ficou chamado o incidente.
[Não vi um fim decente para este texto. Na verdade, não vejo um fim decente para a situação do trânsito na cidade também. Assim que, talvez não ter fim seja de fato o melhor e mais realista fim para isto.]
Culminou às dez da noite de uma quinta-feira em Março. Eu estava no carro, enfrentando a morosidade do trânsito da avenida Brasil. Lembro que passava pela minha cabeça a comparação feita por alguém de que a cidade era um organismo vivo. Quando me disseram isso pela primeira vez, eu tinha imaginado as ruas como veias, os carros como sangue a fluir. Naquele dia, o movimento dos carros me lembrava outra coisa. Tinha o lento e fétido arrastar de fezes por um longo e intrincado intestino. Cada um de nós estava sendo digerido e transformado em escremento ao longo do caminho. Bom, pelo menos eu realmente me sentia uma merda. Esta cidade precisava de uma lavagem intestinal...
Exatamente às dez e vinte e sete, um ônibus tentou atravessar uma das avenidas que cortava a Brasil, porém o trânsito o deixou parado no meio do caminho, fechanddo o cruzamento. A raiva dos motoristas foi expressa a buzinadas. Não que adiantasse muito ter o cuzamento livre: a Brasil continuava entupida do outro lado do cruzamento, assim como a avenida do ônibus.
O fato é que todas as avenidas da cidade, naquele minuto exato, travaram.
O incidente previsível se anunciava há meses. Com o número crescente de carros entrando em circulação e o consequente aumento dos números nas medições do trânsito feitas pelos órgãos (in)competentes, o travamento total se anunciava mais próximo a cada dia. As campanhas pela gentileza no trânsito eram completamente ignoradas pelos motoristas que, depois de três, às vezes quatro horas no trânsito entre lugares relativamente próximos, já não tinham mais gentileza para dispensar.
Naquela noite, quando o último carro entrou em circulação, um nível de saturação foi atingido. No centro da cidade, um motorista que entrara na contra-mão se recusava a voltar e fazer o caminho mais longo (que levaria mais duas horas), por estar já na esquina de casa, enquanto travava o trânsito vindo na direção correta. Em outro bairro, quatro carros se travavam em volta de uma pequena rotatória, ninguém cedendo à passagem do adversário. Nos pontos de ônibus, a grande massa enfartava os veículos, que não conseguiam partir sem fechar a porta e ninguém que já tinha um pé dentro se dispunha a descer. Motos caíam vítimas de motoristas invejosos que lhes negavam a passagem.
Todo mundo só queria chegar em casa. E todo mundo estava travado por outras pessoas que só queriam chegar em casa. Há mais de quatro horas. O nível de frustração era tamanho, que ninguém estava disposto a ceder. Perto da meia-noite o prefeito resolveu decretar estado de calamidade pública, depois que a polícia mostrou-se incapaz de lidar com o enorme número de ocorrências de violência no trânsito.
Três dias depois, a situação continuava a mesma. Com muitos dos motoristas abandonando seus carros trancados no meio da rua, sem se importar com as multas, guinchamentos ou furtos (já que os ladrões também não teriam como levar os veículos), a situação piorou. Mesmo que o trânsito andasse em algum lugar, os carros abandonados não seriam movidos.
Negociações começaram. Pessoas negociavam até judicialmente a cessão de passagem a outros carros. Os acordos eram leoninos. Ninguém queria ceder. Quanto mais estratégica fosse a posição do automóvel, maior era o possível lucro do proprietário se o negócio fosse fechado. 'Cotações de passagem' eram analisadas por especialistas em trânsito, com gráficos detalhados de como cada movimento afetaria o trânsito da região. Informações da direção que este ou aquele veículo estava planejando tomar eram comunicadas com o sigilo de segredos industriais. Ainda assim, ninguém se movia, aguardando ter o melhor negócio em mãos, aguardando o movimento dos outros.
Após algum tempo, a prefeitura desenvolveu um programa de alerta que divulgaria pelos sistemas de rádio e televisão caso alguém se movesse, desatando 'O Nó', como ficou chamado o incidente.
[Não vi um fim decente para este texto. Na verdade, não vejo um fim decente para a situação do trânsito na cidade também. Assim que, talvez não ter fim seja de fato o melhor e mais realista fim para isto.]
segunda-feira, março 22, 2010
Descompasso
Houve um acontecimento ironicamente vingativo neste sábado: fui convidado a grafitar uma agência. Vingativo tanto no fato de eu estar fazendo "arte de verdade" em um lugar que representa tudo que me manteve escravo nos últimos cinco anos, quanto pelo fato da "arte de verdade" ser o grafite, que até alguns anos atrás eu desprezava como uma forma de arte menor. Espero poder colocar fotos dos resultados por aqui em breve, assim que meu companheiros de crime me passarem as que foram tiradas com uma máquina decente. Tudo que tenho por enquanto são fotos do meu celular, com uma qualidade sofrível.
Em determinado momento da nossa pintura, fui lembrado de questões que tenho tratado recentemente na minha prática de arte e especialmente nas sessões de pintura com o Dudi Maia Rosa, que eu passei a frequentar na quarta passada. Uma das meninas, ao ver que o seu tom de azul para o fundo da pintura estava acabando e ela ainda tinha meia parede para fazer, veio me pedir uma sugestão. A minha sugestão incluía fazer uma linha de outro tom de azul, que ela prontamente misturou e fez, à mão livre e bem torta, antes que eu tivesse tempo de avisá-la para usar uma fita crepe para deixar a linha perfeitamente reta. O truque da fita crepe foi uma trivialidade técnica que eu aprendi cedo vendo o pai da Tarsila pintar. Ele abusava do truque e eu achei bem engenhoso. Hoje o considero algo que qualquer pintor básico conhece. Mas esta minha colega de grafite, aparentemente, não conhecia.
Percebam uma coisa: a pintura dela cobria meia parede, de cima a baixo. Bem ao lado das minhas duas personagens detalhadíssimas que ocupavam um cantinho da sala. E não era só ela. Todo mundo se esparramava pelas paredes em formas coloridas e muito expressivas. As minhas eram gostosas de se ver, mas pouco diziam em sua contenção.
Na sessão de pintura do Dudi, uma cena similar aconteceu: pintoras que estavam esbanjando tinta em telas enormes grampeadas na parede ficavam maravilhadas com alguma técnica bacana que eu tinha usado em uma tela menor. E deixavam bem claro que eu tinha um descompasso não só em relação a elas, mas em relação a boa parte da minha geração de pintores. Esse descompasso era entre a técnica e o sentimento. Esse assunto já é velho por aqui e qualquer um que lê este blog há tempo suficiente para lembrar do que eu escrevia durante a faculdade de arte vai lembrar dessa discussão. E da minha angústia ao perceber que eu de fato não sentia nada. Vasto conhecimento e habilidade técnica e nada a dizer. As outras pessoas, em compensação, tinham muito a dizer e não encontravam os meios.
Eu não havia percebido, mas com o passar dos anos, eu tinha me convencido de que eu era assim: vazio. De que tudo o que eu tinha a dar ao mundo eram belos exercícios técnicos. Dudi, com poucas horas de conversa, já achava que não, e que eu tinha muito mais na cabeça do que eu estava colocando nas telas. E durante muito tempo, foi muito difícil entender o que era essa qualidade inefável que alguns diziam que eu tinha mas não sabia expressar. O que era esse brilhatismo que adormecia em mim e de vez em nunca acordava? Mais do que isso, o que era fazer "boa arte" (se é que esse tipo de qualificação pode ser feito sem ser uma heresia...).
As pistas para isso começaram a surgir no dia em que tia Haydee foi visitar meu ateliê. Estava lá quase toda minha produção de pintura, e cada coisa tinha sua relevância. Mas o que realmente lhe chamou a atenção foram as aquarelas antigas da Alice que eu fizera para o Reserva Cultural antes de ir viajar. Ela chegou até a oferecer-se para pagar molduras decentes para elas, já que haviam sido emolduradas às pressas por mim mesmo para a exposição. Mais tarde, minha mãe apontaria as Alices como um dos meu trabalhos que ela mais gostava e dos poucos que eu tinha feito com essa qualidade misteriosa, trabalhos que tinham "um pouco mais de mim e menos de técnica", embora eu não entendesse exatamente onde estava a tênue linha entre as duas coisas. De fato, as Alices eram provavelmente as favoritas de todo mundo que conhecia meu trabalho.
Passei dias pensando em voltar a fazer Alices, retomar a personagem. Depois outros dias pensando em fazer uma nova personagem que tivesse tanto sentimento quanto ela, mas que fosse minha, não a reinterpretação do trabalho de outra pessoa. Até que cheguei à conclusão de que isso seria outra racionalização. Eu ainda estava entendendo muito pouco. Por que aquela personagem em simples aquarela sobre papel era tão mais interessante do que, digamos, telas de um metro de altura com requintes de técnica de pintura? O que lhe dava esse poder? O que eu estava pensando quando fiz esses desenhos?
Certamente não era a técnica. Ela vinha como complemento do que eu estava pensando.
Olhei para as aquarelas sobre a minha mesa do ateliê por muito tempo. E comecei a lembrar da época em que eu fazia os desenhos. Do modo como eu pegava coisas terrivelmente cotidianas e as transformava em meu proprio universo. Não de uma forma racional, era mais... divertido. Eu detesto usar estas pieguices, mas não há outra forma de dizer: vinha do coração. E talvez eu precisasse aprender a me divertir de novo fazendo arte. Minhas Alices mais belas e poderosas tinham sido feitas durante a viagem. Mas por que? É paradoxal pensar nisso, mas talvez fosse porque na viagem eu sentia mais do que pensava. Claro, era necessária uma boa dose de lógica para entender os lugares e culturas novas, mas essa mesma novidade me despertava uma sensação de maravilhamento que acredito ser fundamental para toda "boa arte". Eu estava mais aberto ao mundo e tudo era encarado como uma novidade. Seria possível reproduzir esse sentimento tão particular daquela viagem aqui, em meio à rotina de uma cidade que eu detesto?
Em determinado momento da nossa pintura, fui lembrado de questões que tenho tratado recentemente na minha prática de arte e especialmente nas sessões de pintura com o Dudi Maia Rosa, que eu passei a frequentar na quarta passada. Uma das meninas, ao ver que o seu tom de azul para o fundo da pintura estava acabando e ela ainda tinha meia parede para fazer, veio me pedir uma sugestão. A minha sugestão incluía fazer uma linha de outro tom de azul, que ela prontamente misturou e fez, à mão livre e bem torta, antes que eu tivesse tempo de avisá-la para usar uma fita crepe para deixar a linha perfeitamente reta. O truque da fita crepe foi uma trivialidade técnica que eu aprendi cedo vendo o pai da Tarsila pintar. Ele abusava do truque e eu achei bem engenhoso. Hoje o considero algo que qualquer pintor básico conhece. Mas esta minha colega de grafite, aparentemente, não conhecia.
Percebam uma coisa: a pintura dela cobria meia parede, de cima a baixo. Bem ao lado das minhas duas personagens detalhadíssimas que ocupavam um cantinho da sala. E não era só ela. Todo mundo se esparramava pelas paredes em formas coloridas e muito expressivas. As minhas eram gostosas de se ver, mas pouco diziam em sua contenção.
Na sessão de pintura do Dudi, uma cena similar aconteceu: pintoras que estavam esbanjando tinta em telas enormes grampeadas na parede ficavam maravilhadas com alguma técnica bacana que eu tinha usado em uma tela menor. E deixavam bem claro que eu tinha um descompasso não só em relação a elas, mas em relação a boa parte da minha geração de pintores. Esse descompasso era entre a técnica e o sentimento. Esse assunto já é velho por aqui e qualquer um que lê este blog há tempo suficiente para lembrar do que eu escrevia durante a faculdade de arte vai lembrar dessa discussão. E da minha angústia ao perceber que eu de fato não sentia nada. Vasto conhecimento e habilidade técnica e nada a dizer. As outras pessoas, em compensação, tinham muito a dizer e não encontravam os meios.
Eu não havia percebido, mas com o passar dos anos, eu tinha me convencido de que eu era assim: vazio. De que tudo o que eu tinha a dar ao mundo eram belos exercícios técnicos. Dudi, com poucas horas de conversa, já achava que não, e que eu tinha muito mais na cabeça do que eu estava colocando nas telas. E durante muito tempo, foi muito difícil entender o que era essa qualidade inefável que alguns diziam que eu tinha mas não sabia expressar. O que era esse brilhatismo que adormecia em mim e de vez em nunca acordava? Mais do que isso, o que era fazer "boa arte" (se é que esse tipo de qualificação pode ser feito sem ser uma heresia...).
As pistas para isso começaram a surgir no dia em que tia Haydee foi visitar meu ateliê. Estava lá quase toda minha produção de pintura, e cada coisa tinha sua relevância. Mas o que realmente lhe chamou a atenção foram as aquarelas antigas da Alice que eu fizera para o Reserva Cultural antes de ir viajar. Ela chegou até a oferecer-se para pagar molduras decentes para elas, já que haviam sido emolduradas às pressas por mim mesmo para a exposição. Mais tarde, minha mãe apontaria as Alices como um dos meu trabalhos que ela mais gostava e dos poucos que eu tinha feito com essa qualidade misteriosa, trabalhos que tinham "um pouco mais de mim e menos de técnica", embora eu não entendesse exatamente onde estava a tênue linha entre as duas coisas. De fato, as Alices eram provavelmente as favoritas de todo mundo que conhecia meu trabalho.
Passei dias pensando em voltar a fazer Alices, retomar a personagem. Depois outros dias pensando em fazer uma nova personagem que tivesse tanto sentimento quanto ela, mas que fosse minha, não a reinterpretação do trabalho de outra pessoa. Até que cheguei à conclusão de que isso seria outra racionalização. Eu ainda estava entendendo muito pouco. Por que aquela personagem em simples aquarela sobre papel era tão mais interessante do que, digamos, telas de um metro de altura com requintes de técnica de pintura? O que lhe dava esse poder? O que eu estava pensando quando fiz esses desenhos?
Certamente não era a técnica. Ela vinha como complemento do que eu estava pensando.
Olhei para as aquarelas sobre a minha mesa do ateliê por muito tempo. E comecei a lembrar da época em que eu fazia os desenhos. Do modo como eu pegava coisas terrivelmente cotidianas e as transformava em meu proprio universo. Não de uma forma racional, era mais... divertido. Eu detesto usar estas pieguices, mas não há outra forma de dizer: vinha do coração. E talvez eu precisasse aprender a me divertir de novo fazendo arte. Minhas Alices mais belas e poderosas tinham sido feitas durante a viagem. Mas por que? É paradoxal pensar nisso, mas talvez fosse porque na viagem eu sentia mais do que pensava. Claro, era necessária uma boa dose de lógica para entender os lugares e culturas novas, mas essa mesma novidade me despertava uma sensação de maravilhamento que acredito ser fundamental para toda "boa arte". Eu estava mais aberto ao mundo e tudo era encarado como uma novidade. Seria possível reproduzir esse sentimento tão particular daquela viagem aqui, em meio à rotina de uma cidade que eu detesto?
sexta-feira, março 19, 2010
Depois da última referência ao Clube da Luta que coloquei por aqui, fiquei com vontade de rever o filme. Tenho o DVD em casa, ganho em algum amigo secreto. Então ontem, quando todos já tinham ido dormir, apaguei as luzes e assisti.
O filme é daquelas coisas que vale a pena ver pelo menos duas vezes. Porque na segunda, você já sabe do desfecho bizarro e toda a sua percepção do que está acontecendo muda. Juro que não tinha percebido que em algumas cenas dos primeiros quinze minutos do filme, imagens de Tyler Durden piscam em lampejos muito rápidos toda vez que o protagonista vê algo que o inspira a criar seu alter ego. Como se o líder do Clube da Luta estivesse tomando forma aos poucos.
Mas pessoalmente, o filme valeu uma terceira assistida. Porque conta vagamente a típica busca masculista por ser um homem mais... homem. E não é só aprender a brigar. É aprender a tomar uma atitude, a largar o emprego que abusa de você gratuitamente (poorque a alternativa no filme é igualmente abusiva, porém tem um propósito) , procurar o que dá sentido e gosto para uma vida que é uma cópia da cópia, ter colhões para falar com uma mulher como se deve. Quem vê o filme e só se atenta à violência está perdendo uma lição realmente inspiradora.
O filme é daquelas coisas que vale a pena ver pelo menos duas vezes. Porque na segunda, você já sabe do desfecho bizarro e toda a sua percepção do que está acontecendo muda. Juro que não tinha percebido que em algumas cenas dos primeiros quinze minutos do filme, imagens de Tyler Durden piscam em lampejos muito rápidos toda vez que o protagonista vê algo que o inspira a criar seu alter ego. Como se o líder do Clube da Luta estivesse tomando forma aos poucos.
Mas pessoalmente, o filme valeu uma terceira assistida. Porque conta vagamente a típica busca masculista por ser um homem mais... homem. E não é só aprender a brigar. É aprender a tomar uma atitude, a largar o emprego que abusa de você gratuitamente (poorque a alternativa no filme é igualmente abusiva, porém tem um propósito) , procurar o que dá sentido e gosto para uma vida que é uma cópia da cópia, ter colhões para falar com uma mulher como se deve. Quem vê o filme e só se atenta à violência está perdendo uma lição realmente inspiradora.
terça-feira, março 16, 2010
Mentalidade Masculina 1: Vergonha
Tenho lido mais um daqueles livros reveladores que a Nana me emprestou há algum tempo. Desta vez, é o Se os Homens Falassem do psicólogo Alon Gratch.
Apesar do título que parece livro de auto-ajuda em sitcom americano, o livro é bom e parece discutir sete aspectos da mentalidade masculina para explicar a dificuldade dos homens para lidar com sentimentos. O primeiro e mais básico deles é a vergonha. Homens têm uma verdadeira fobia da vergonha, passando às vezes a projetar a que sentem de suas próprias falhas de desempenho e vulnerabilidades nos outros. A típica situação onde ele tenta diminuir ou desmoralizar o oponente para parecer (para si mesmo) superior. É um processo mental que acaba sendo responsável por aqueles comentários do tipo "queria que você fosse mais...".
Esta primeira parte do livro me fez pensar a respeito das qualidade que eu estava criticando nos outros por ter vergonha em mim mesmo. Coisas como o excesso de racionalidade por ter vergonha de acabar sendo compreendido como um daqueles artistas viajandões e irresponsáveis que ninguém leva a sério. Ou a vergonha do meu passado nerd e anti-social que a duras penas superei.
Mas uma das partes que mais me chamou a atenção até agora foi a descrição fidelíssima de uma briga genérica de casal:
Quando ele chega em casa depois de um mau dia no trabalho[...], pode se livrar de seu sentimento de vergonha "dando a entender" que o penteado dela está diferente ou "perguntando" por que ela não está usando "aqueles brincos bem mais bonitos que eu comprei pra você".
Infelizmente, a mulher nesse tipo de situação está quase sempre pronta a aceitar e a internalizar a projeção do homem. [...] Mas esse é apenas o começo da briga. Muito embora a mulher diga para si mesma, cheia de vergonha: "Sim, não estou tão bonita", ela também sente raiva do homem que a fez sentir-se assim. Então só resta a ela contra-atacar ou recolher-se ao silêncio.
Isso deixa claro para o homem que ele não agiu bem. Mas, inconsciente de que estava motivado por seu próprio sentimento de vergonha a respeito de outra coisa, ele só pode reagir insistindo que não teve a intenção de criticá-la. A mulher não acredita nisso e, sentindo-se ainda mais ofendida pela negativa dele, o chama de insensível ou estúpido. Sentindo-se atacado, o homem agora revida e diz que ela é sensível demais e vive na defensiva. E é nessa hora que a briga se transforma numa espiral de ataques e contra-ataques, quando frases como "Você sempre..." e "Eu nunca deveria ter..." levam a briga ao terreno destrutivo dos conflitos passados, que nada têm a ver com o atual. [...]
Mas, para que não vejamos as mulheres como as vítimas indefesas aqui, é justo notar que muitos desentendimentos nos relacionamentos baseiam-se na dinâmica da imagem no espelho, na qual a mulher projeta seus próprios sentimentos de inferioridade no homem ao dar-lhe o recado de que ele não é um protetor tão bom assim [e causando nele o sentimento de vergonha que irá disparar todo o resto].
Achei bem relevante para a compreensão da coisa toda. Porque as brigas mais ferrenhas de todos os relacionamentos que tive sempre começaram por uma crítica de desempenho (de um ou outro lado) e terminaram nessa área dos ressentimentos passados que nada têm a ver com o presente.
Apesar do título que parece livro de auto-ajuda em sitcom americano, o livro é bom e parece discutir sete aspectos da mentalidade masculina para explicar a dificuldade dos homens para lidar com sentimentos. O primeiro e mais básico deles é a vergonha. Homens têm uma verdadeira fobia da vergonha, passando às vezes a projetar a que sentem de suas próprias falhas de desempenho e vulnerabilidades nos outros. A típica situação onde ele tenta diminuir ou desmoralizar o oponente para parecer (para si mesmo) superior. É um processo mental que acaba sendo responsável por aqueles comentários do tipo "queria que você fosse mais...".
Esta primeira parte do livro me fez pensar a respeito das qualidade que eu estava criticando nos outros por ter vergonha em mim mesmo. Coisas como o excesso de racionalidade por ter vergonha de acabar sendo compreendido como um daqueles artistas viajandões e irresponsáveis que ninguém leva a sério. Ou a vergonha do meu passado nerd e anti-social que a duras penas superei.
Mas uma das partes que mais me chamou a atenção até agora foi a descrição fidelíssima de uma briga genérica de casal:
Quando ele chega em casa depois de um mau dia no trabalho[...], pode se livrar de seu sentimento de vergonha "dando a entender" que o penteado dela está diferente ou "perguntando" por que ela não está usando "aqueles brincos bem mais bonitos que eu comprei pra você".
Infelizmente, a mulher nesse tipo de situação está quase sempre pronta a aceitar e a internalizar a projeção do homem. [...] Mas esse é apenas o começo da briga. Muito embora a mulher diga para si mesma, cheia de vergonha: "Sim, não estou tão bonita", ela também sente raiva do homem que a fez sentir-se assim. Então só resta a ela contra-atacar ou recolher-se ao silêncio.
Isso deixa claro para o homem que ele não agiu bem. Mas, inconsciente de que estava motivado por seu próprio sentimento de vergonha a respeito de outra coisa, ele só pode reagir insistindo que não teve a intenção de criticá-la. A mulher não acredita nisso e, sentindo-se ainda mais ofendida pela negativa dele, o chama de insensível ou estúpido. Sentindo-se atacado, o homem agora revida e diz que ela é sensível demais e vive na defensiva. E é nessa hora que a briga se transforma numa espiral de ataques e contra-ataques, quando frases como "Você sempre..." e "Eu nunca deveria ter..." levam a briga ao terreno destrutivo dos conflitos passados, que nada têm a ver com o atual. [...]
Mas, para que não vejamos as mulheres como as vítimas indefesas aqui, é justo notar que muitos desentendimentos nos relacionamentos baseiam-se na dinâmica da imagem no espelho, na qual a mulher projeta seus próprios sentimentos de inferioridade no homem ao dar-lhe o recado de que ele não é um protetor tão bom assim [e causando nele o sentimento de vergonha que irá disparar todo o resto].
Achei bem relevante para a compreensão da coisa toda. Porque as brigas mais ferrenhas de todos os relacionamentos que tive sempre começaram por uma crítica de desempenho (de um ou outro lado) e terminaram nessa área dos ressentimentos passados que nada têm a ver com o presente.
Por um "trânsito mais gentil"
Tive que postar isto por aqui porque o Twitter não me dava caracteres suficientes para expressar meu horror.
Há meses que venho observando essa campanha da Porto Seguro por um "trânsito mais gentil". Acho a iniciativa louvável, mas preciso comentar o que tenho vivido.
Na sexta passada, o trânsito da cidade sofreu a infernal trindade do excesso de carros vindos de fora para ver a corrida de Fórmula Indy, o outro excesso de carros vindos pelo show do Guns n' Roses e a besteira descomunal que foi a greve de professores primários (minha mãe é professora universitária e eu - tecnicamente - também sou professor, mas não posso deixar de xingar em alto e bom som à classe...).
No sábado, enquanto trabalhava no ateliê ouvindo o rádio, o locutor apresentou um conhecido seu que trabalhava nas vendas da GM. O rapaz anunciava que o feirão do mês passado estava sendo repetido este mês devido ao sucesso do anterior: tinham vendido mais de 3 mil carros.
Pausa.
Dá pra imaginar isso? Só em Fevereiro, mais três mil carros entraram em circulação. Só da GM. O nível do trânsito já é tamanho, que fazer uma iniciativa por um "trânsito mais gentil" é uma enorme piada pronta.
A imagem que me vem à cabeça é aquela da queimadura química no Clube da Luta: jogue ácido no sujeito e peça pra ele se acalmar.
Dia desses, conversando com minha prima do nordeste que está passando um tempo por aqui conosco, ela comentou como o sistema de metrô na cidade era insuficiente. Apresentei-lhe um pouco da história do país. Nos anos 50, com a possibilidade de ter investido no potencial de transporte dos rios do país e na construção de ferrovias e metrôs nas cidades ou investir nas grandes montadoras americanas para que elas pudesse se estabelecer no país, o governo escolheu as montadoras americanas. Temos vastas rodovias onde muitos caminhões trafegam carregando frações do que um único trêm ou barco carregaria por um décimo da poluição. Temos carros como o Gol, um Volkswagen desenvolvido e produzido exclusivamente no Brasil. Um dos melhores e mais baratos da categoria. Mas o metrô na cidade continua insuficiente quando poderíamos estar comparáveis a Londres, Paris e Nova Iorque. Felizes com o transporte público, estaríamos vivendo melhor e gastando menos. Carros seriam um luxo, não uma necessidade.
Eu sei, vocês que me conhecem estão pensando que eu estou aqui criticando, mas dirijo justamente um Gol. E que só teria propriedade para fazer esta crítica se vendesse meu carro e passasse a me locomover apenas de bicicleta. Bom, imaginem o que vai acontecer quando eu voltar do mestrado em Londres (pago em parte com a venda do meu carro)...
Há meses que venho observando essa campanha da Porto Seguro por um "trânsito mais gentil". Acho a iniciativa louvável, mas preciso comentar o que tenho vivido.
Na sexta passada, o trânsito da cidade sofreu a infernal trindade do excesso de carros vindos de fora para ver a corrida de Fórmula Indy, o outro excesso de carros vindos pelo show do Guns n' Roses e a besteira descomunal que foi a greve de professores primários (minha mãe é professora universitária e eu - tecnicamente - também sou professor, mas não posso deixar de xingar em alto e bom som à classe...).
No sábado, enquanto trabalhava no ateliê ouvindo o rádio, o locutor apresentou um conhecido seu que trabalhava nas vendas da GM. O rapaz anunciava que o feirão do mês passado estava sendo repetido este mês devido ao sucesso do anterior: tinham vendido mais de 3 mil carros.
Pausa.
Dá pra imaginar isso? Só em Fevereiro, mais três mil carros entraram em circulação. Só da GM. O nível do trânsito já é tamanho, que fazer uma iniciativa por um "trânsito mais gentil" é uma enorme piada pronta.
A imagem que me vem à cabeça é aquela da queimadura química no Clube da Luta: jogue ácido no sujeito e peça pra ele se acalmar.
Dia desses, conversando com minha prima do nordeste que está passando um tempo por aqui conosco, ela comentou como o sistema de metrô na cidade era insuficiente. Apresentei-lhe um pouco da história do país. Nos anos 50, com a possibilidade de ter investido no potencial de transporte dos rios do país e na construção de ferrovias e metrôs nas cidades ou investir nas grandes montadoras americanas para que elas pudesse se estabelecer no país, o governo escolheu as montadoras americanas. Temos vastas rodovias onde muitos caminhões trafegam carregando frações do que um único trêm ou barco carregaria por um décimo da poluição. Temos carros como o Gol, um Volkswagen desenvolvido e produzido exclusivamente no Brasil. Um dos melhores e mais baratos da categoria. Mas o metrô na cidade continua insuficiente quando poderíamos estar comparáveis a Londres, Paris e Nova Iorque. Felizes com o transporte público, estaríamos vivendo melhor e gastando menos. Carros seriam um luxo, não uma necessidade.
Eu sei, vocês que me conhecem estão pensando que eu estou aqui criticando, mas dirijo justamente um Gol. E que só teria propriedade para fazer esta crítica se vendesse meu carro e passasse a me locomover apenas de bicicleta. Bom, imaginem o que vai acontecer quando eu voltar do mestrado em Londres (pago em parte com a venda do meu carro)...
quinta-feira, março 11, 2010
Da ausência do pai/mestre
No fim da aula de hoje, meu aluno, um empresário com um filho pré-adolescente, me chamou de lado para mostrar o que estava fazendo para o aniversário do filho na semana que vem. Em um caderno estilo moleskine, ele estava fazendo colagens que contavam da viagem que ele havia programado de surpresa para levar a família toda para Londres por uma semana. Passariam por Oxford e Liverpool, já que o filho é fã dos Beatles. O caderno abria com a famosa frase "All you need is love".
Fiquei emocionado com o gesto do pai. Não que o meu pai não fizesse coisas muito especiais. O próprio fato de eu falar inglês suficiente para lecionar e ter um interesse por arte vem do tanto que viajamos quando eu era criança. Acho mesmo que viagens, conhecimento do mundo, são o melhor presente que um pai pode dar a um filho, porque seus efeitos perduram depois que muitos dos brinquedos já tiverem sido esquecidos ou quebrados. Não poupei elogios ao aluno e ao quanto ele estava sendo um ótimo pai, mesmo trabalhando bastante.
Estou vendo que o próximo caminho a seguir nas pinturas vai ser este. Agora que a série do TBC está chegando ao fim, preciso me distanciar disso e voltar ao tema do masculismo. E a próxima parada, depois do quadro sobre os sentimentos de inferioridade masculina, vai ser tratar do assunto da ausência do pai/mestre. É um assunto que, por algum motivo, tem estado pairando no ar ultimamente. Talvez porque estive procurando artistas que pudessem ser meus mentores. Conversei com o Dudi Maia Rosa, um artista amigo da família e provavelmente passarei a frequentar o ateliê dele. Mas isso é assunto para outro post.
Na tentativa de entender como abordar esse tema por um lado mais sensível e menos racionalizado, acabei obcecando pela história de Alfie Patten. Achava que tinha algo aí na imagem de uma criança gerando outra criança. Como se o homem adulto não existisse. Imagino que a figura dele ainda vá aparecer na pintura, mas não queria focar tão diretamente nele.
Outra imagem tem se formado na minha cabeça. Ainda falta detalhe, mas o começo está aí. Lembrei de uma propaganda que vi há muito tempo contra o abuso sexual de menores. Não lembro se foi na faculdade ou se foi uma campanha mesmo. A imagem era uma pá de verdade, daquelas ferramentas de jardinagem, estraçalhando um baldinho de criança, daqueles que elas levam à praia pra brincar na areia. O título dizia algo sobre como certas coisas não combinam. Gostei muito da simbologia e achei uma coisa forte, porém de um bom gosto muito interessante. Aí fiquei com essa imagem na cabeça. Um garoto usando alguma ferramenta em versão de brinquedo, ao lado da mesma ferramenta em versão "de adulto" não sendo usada por ninguém. Acho que o lance de ferramentas é uma coisa bem masculina (novamente, o boys with toys). Mas ainda não decidi o que será essa ferramenta. Porque não acho que a pá seja a coisa mais adequada.
Sugestões?
Fiquei emocionado com o gesto do pai. Não que o meu pai não fizesse coisas muito especiais. O próprio fato de eu falar inglês suficiente para lecionar e ter um interesse por arte vem do tanto que viajamos quando eu era criança. Acho mesmo que viagens, conhecimento do mundo, são o melhor presente que um pai pode dar a um filho, porque seus efeitos perduram depois que muitos dos brinquedos já tiverem sido esquecidos ou quebrados. Não poupei elogios ao aluno e ao quanto ele estava sendo um ótimo pai, mesmo trabalhando bastante.
Estou vendo que o próximo caminho a seguir nas pinturas vai ser este. Agora que a série do TBC está chegando ao fim, preciso me distanciar disso e voltar ao tema do masculismo. E a próxima parada, depois do quadro sobre os sentimentos de inferioridade masculina, vai ser tratar do assunto da ausência do pai/mestre. É um assunto que, por algum motivo, tem estado pairando no ar ultimamente. Talvez porque estive procurando artistas que pudessem ser meus mentores. Conversei com o Dudi Maia Rosa, um artista amigo da família e provavelmente passarei a frequentar o ateliê dele. Mas isso é assunto para outro post.
Na tentativa de entender como abordar esse tema por um lado mais sensível e menos racionalizado, acabei obcecando pela história de Alfie Patten. Achava que tinha algo aí na imagem de uma criança gerando outra criança. Como se o homem adulto não existisse. Imagino que a figura dele ainda vá aparecer na pintura, mas não queria focar tão diretamente nele.
Outra imagem tem se formado na minha cabeça. Ainda falta detalhe, mas o começo está aí. Lembrei de uma propaganda que vi há muito tempo contra o abuso sexual de menores. Não lembro se foi na faculdade ou se foi uma campanha mesmo. A imagem era uma pá de verdade, daquelas ferramentas de jardinagem, estraçalhando um baldinho de criança, daqueles que elas levam à praia pra brincar na areia. O título dizia algo sobre como certas coisas não combinam. Gostei muito da simbologia e achei uma coisa forte, porém de um bom gosto muito interessante. Aí fiquei com essa imagem na cabeça. Um garoto usando alguma ferramenta em versão de brinquedo, ao lado da mesma ferramenta em versão "de adulto" não sendo usada por ninguém. Acho que o lance de ferramentas é uma coisa bem masculina (novamente, o boys with toys). Mas ainda não decidi o que será essa ferramenta. Porque não acho que a pá seja a coisa mais adequada.
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