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terça-feira, maio 24, 2011

Mercado vs Academia

Ontem assisti a uma palestra interessante por aqui.
Uma pesquisadora PhD falou um pouco sobre a carreira de artes, de um modo bem direito e sem rodeios ou romantismos. Deu dicas de como se aproximas dos galeristas e colecionadores, do que inspira segurança nesses possíveis investidores e como começar a carreira depois da formatura (a palestra, aliás, era dirigida aos alunos de graduação, mas alguns de nós mestrandos soubemos e achamos interessante).

Achei muito boa a iniciativa. Eu sinto falta desse tipo de palestra na carreira de artes. E aliás, quando saí da publicidade para tentar levar a sério as artes, pensei em dar esses conselhos por aqui, se eu os descobrisse. Até cheguei a falar de algumas coisas. A palestra de ontem teve vários desses insights, mas eu queria falar de um dos mais relevantes.

Essa pesquisadora mencionou que colecionadores e galeristas gostam de uma certa estabilidade na produção. Até aí, a idéia de que quantidade faz mais carreira do que qualidade não é nada novo. Já comentei sobre ela, e acho relevante principalmente em uma época onde as artes admitem o pastiche, a coisa feita nas coxas e a "apropriação" como estratégias criativas. Mas ela comentou sobre outra estabilidade, a da escolha de mídia. Disse que investidores gostam quando o artista tem uma série coesa de pinturas, por exemplo. Ou que tenha feito fotos desde que saiu da faculdade. Dá uma certa insegurança neles quando o artista faz algumas pinturas, um punhado de performances, uns quantos vídeos e se interessa por instalações [Oi? Falando comigo?]. Faz sentido: investir num artista desses é comprar gato por lebre. Se você, galerista, sabe que seus colecionadores de estimação adoram pintura mas não sabem o que fazer com uma performance, você tem que investir especificamente em pintores. Não nos ditos "artistas multi-mídia".
Daí tem o outro lado, o da academia. Uma instituição de ensino das artes não vai te dar esse fato assim, de mão beijada, porque ela corre o risco de você abandonar qualquer reflexão pessoal e experimentação, que gerariam bom conteúdo acadêmico, para correr atrás dos "ítens da lista" das galerias. Correm o risco de seus alunos acabarem montando uma linha de produção de obras todas iguais (que na verdade, depois de alguma pesquisa e desenvolvimento, é exatamente o que as galerias querem). Não, a academia vai te dizer outra coisa: "experimente, tente o que você nunca fez antes". Foi exatamente o que eu ouvi em Chelsea. E é um bom conselho. Foi um bom conselho. Mas cá entre nós, não desenvolve carreira (exceto, claro, a acadêmica). Lembra-me um pouco o jeito que o Dudi Maia Rosa tinha de evitar o assunto do mercado sempre que eu lhe perguntava sobre a carreira: dizia que isso não é importante, eu que não devia pensar nisso, devia pensar na pintura. Concordo até certo ponto, mas além desse ponto, acho tudo meio romantismos artísticos totalmente não-pragmáticos.

Diante dos fatos, estou em uma encruzilhada. Um caminho é desenvolver uma produção constante do que eu sei fazer (pinturas, muitas, com uma identidade comum entre elas, como a série do TBC), para tentar seduzir galerias e colecionadores. O outro é continuar a experimentação e o desenvolvimento de dissertações sobre um tema, independente da produção artística. Ambos tem seus poréns. Eu até posso desenvovler uma série extensa de pinturas, mas não sei fazer a política necessária para as galerias. Eu também posso continuar pesquisando as questões masculistas e escrevendo a respeito (aliás, a área onde eu tenho me saído melhor por aqui), mas para isso ainda preciso descobrir qual é a minha pergunta, o que eu estou querendo saber com a pesquisa. E eu sinto que eu na verdade não estou "querendo saber" nada, apenas procurando um jeito de me sentir bem sendo homem e lidar com os traumas do passado.

O ideal, suponho, seria descobrir um meio termo saudável. Me ego pensando, daquele jeito frio que eu faço às vezes, em planejar o ano que vem para passar seis meses dando ênfase napesquisa e seis meses dando ênfase na produção. Claro que com instâncias de um no outro. Tudo para mim é equilíbrio. E não é à toa que o símbolo de Yin-Yang tem um ponto de cada cor dentro da outra.
Mas sei que, como consequência, andei pensando em voltar à pintura para ter material pra trazer de volta quando o curso acabar. Ontem, no fim do dia, limpei minha parede do estúdio e preguei alguns tantos papéis.

Desenhei furiosamente até fecharem a faculdade.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Gênios, mestres e diluidores

Sessão no Dudi ontem, depois das férias.

Ele mencionou uma definição do poeta americano Ezra Pound, que dizia que há três tipos de artistas (ele se referia a poetas, mas suponho que sirva para artistas em geral): os gênios que criam novas propostas, os mestres que não criam nada novo, mas atingem a mais perfeita execução das propostas dos anteriores, e os diluidores que se prestam apenas a espalhar as boas novas por aí, sem criar nada nem atingir a virtuose.

A discussão estava interessante. Tinha começado com uma pergunta minha que sempre causa uma certa polêmica: se ele conhecia algum artista atualmente que estivesse preocupado em entrar para os livros de história. A pergunta, melhor explicada, é na verdade se alguém está interessado em fazer mais do que apenas vender obras. Se alguém está interessado em de fato propor o próximo passo evolutivo na arte. Ou seja, em ser um gênio poundiano.

Não que vender obras seja um pecado a ser combatido. É algo necessário e eu já passei da fase idealista da faculdade de demonizar as galerias. Mas a arte precisa ser isso e muito mais.

Dudi riu, disse que talvez um ou outro da geração dele tivesse essa preocupação em ser eterno. Demorou-se em seguida em monólogos sobre como isso não pode ser planejado. Não se planeja em determinado dia e hora revolucionar séculos de arte. Simplesmente acontece. O que podemos fazer é viver de forma plena. E terminou por dizer que aspirar ao status de gênio desse jeito era uma espécie de megalomania, prepotência (não usou esses termos, porque ele é educado...).

Certo. Eu no entanto acredito que, embora saiba que sou nada, posso aspirar à grandeza. E o primeiro passo para se aspirar à grandeza seria claro deixar de lado as obviedades artísticas. Dentro do raciocínio todo, não se chega ao gênio artístico poundiano fazendo retratos ilustrativos a óleo sobre tela, por exemplo. Isso já foi feito há séculos e de forma muito melhor. Isso só o torna mais um diluidor.

Há um problema na humildade de achar que aspirar ao gênio é a prepotência. E o problema é que, para não parecermos prepotentes, para sermos mais "realistas", acabamos não tentando. O que me incomoda na minha geração de artistas (e confesso que em mim mesmo) é que não vejo ninguém tentando. Vejo muita gente contente em diluir, às vezes trilhando o caminho para virarem mestres. Mas aspirantes a gênios, não sei... Quando questionados sobre isso, todos riem vagamente incomodados, dizem que isso não é importante. Como não é importante!?

Para concluir o raciocínio, me pego observando o que tenho produzido, mesmo as coisas mais recentes deste ano que me deram tanta satisfação, e só vejo obras de mais um diluidor. Materiais triviais, composições triviais, assuntos talvez um pouco menos triviais. Onde está a trilha de raciocínio e inspiração que pode me levar ao gênio?

segunda-feira, março 22, 2010

Descompasso

Houve um acontecimento ironicamente vingativo neste sábado: fui convidado a grafitar uma agência. Vingativo tanto no fato de eu estar fazendo "arte de verdade" em um lugar que representa tudo que me manteve escravo nos últimos cinco anos, quanto pelo fato da "arte de verdade" ser o grafite, que até alguns anos atrás eu desprezava como uma forma de arte menor. Espero poder colocar fotos dos resultados por aqui em breve, assim que meu companheiros de crime me passarem as que foram tiradas com uma máquina decente. Tudo que tenho por enquanto são fotos do meu celular, com uma qualidade sofrível.

Em determinado momento da nossa pintura, fui lembrado de questões que tenho tratado recentemente na minha prática de arte e especialmente nas sessões de pintura com o Dudi Maia Rosa, que eu passei a frequentar na quarta passada. Uma das meninas, ao ver que o seu tom de azul para o fundo da pintura estava acabando e ela ainda tinha meia parede para fazer, veio me pedir uma sugestão. A minha sugestão incluía fazer uma linha de outro tom de azul, que ela prontamente misturou e fez, à mão livre e bem torta, antes que eu tivesse tempo de avisá-la para usar uma fita crepe para deixar a linha perfeitamente reta. O truque da fita crepe foi uma trivialidade técnica que eu aprendi cedo vendo o pai da Tarsila pintar. Ele abusava do truque e eu achei bem engenhoso. Hoje o considero algo que qualquer pintor básico conhece. Mas esta minha colega de grafite, aparentemente, não conhecia.
Percebam uma coisa: a pintura dela cobria meia parede, de cima a baixo. Bem ao lado das minhas duas personagens detalhadíssimas que ocupavam um cantinho da sala. E não era só ela. Todo mundo se esparramava pelas paredes em formas coloridas e muito expressivas. As minhas eram gostosas de se ver, mas pouco diziam em sua contenção.

Na sessão de pintura do Dudi, uma cena similar aconteceu: pintoras que estavam esbanjando tinta em telas enormes grampeadas na parede ficavam maravilhadas com alguma técnica bacana que eu tinha usado em uma tela menor. E deixavam bem claro que eu tinha um descompasso não só em relação a elas, mas em relação a boa parte da minha geração de pintores. Esse descompasso era entre a técnica e o sentimento. Esse assunto já é velho por aqui e qualquer um que lê este blog há tempo suficiente para lembrar do que eu escrevia durante a faculdade de arte vai lembrar dessa discussão. E da minha angústia ao perceber que eu de fato não sentia nada. Vasto conhecimento e habilidade técnica e nada a dizer. As outras pessoas, em compensação, tinham muito a dizer e não encontravam os meios.
Eu não havia percebido, mas com o passar dos anos, eu tinha me convencido de que eu era assim: vazio. De que tudo o que eu tinha a dar ao mundo eram belos exercícios técnicos. Dudi, com poucas horas de conversa, já achava que não, e que eu tinha muito mais na cabeça do que eu estava colocando nas telas. E durante muito tempo, foi muito difícil entender o que era essa qualidade inefável que alguns diziam que eu tinha mas não sabia expressar. O que era esse brilhatismo que adormecia em mim e de vez em nunca acordava? Mais do que isso, o que era fazer "boa arte" (se é que esse tipo de qualificação pode ser feito sem ser uma heresia...).
As pistas para isso começaram a surgir no dia em que tia Haydee foi visitar meu ateliê. Estava lá quase toda minha produção de pintura, e cada coisa tinha sua relevância. Mas o que realmente lhe chamou a atenção foram as aquarelas antigas da Alice que eu fizera para o Reserva Cultural antes de ir viajar. Ela chegou até a oferecer-se para pagar molduras decentes para elas, já que haviam sido emolduradas às pressas por mim mesmo para a exposição. Mais tarde, minha mãe apontaria as Alices como um dos meu trabalhos que ela mais gostava e dos poucos que eu tinha feito com essa qualidade misteriosa, trabalhos que tinham "um pouco mais de mim e menos de técnica", embora eu não entendesse exatamente onde estava a tênue linha entre as duas coisas. De fato, as Alices eram provavelmente as favoritas de todo mundo que conhecia meu trabalho.
Passei dias pensando em voltar a fazer Alices, retomar a personagem. Depois outros dias pensando em fazer uma nova personagem que tivesse tanto sentimento quanto ela, mas que fosse minha, não a reinterpretação do trabalho de outra pessoa. Até que cheguei à conclusão de que isso seria outra racionalização. Eu ainda estava entendendo muito pouco. Por que aquela personagem em simples aquarela sobre papel era tão mais interessante do que, digamos, telas de um metro de altura com requintes de técnica de pintura? O que lhe dava esse poder? O que eu estava pensando quando fiz esses desenhos?
Certamente não era a técnica. Ela vinha como complemento do que eu estava pensando.
Olhei para as aquarelas sobre a minha mesa do ateliê por muito tempo. E comecei a lembrar da época em que eu fazia os desenhos. Do modo como eu pegava coisas terrivelmente cotidianas e as transformava em meu proprio universo. Não de uma forma racional, era mais... divertido. Eu detesto usar estas pieguices, mas não há outra forma de dizer: vinha do coração. E talvez eu precisasse aprender a me divertir de novo fazendo arte. Minhas Alices mais belas e poderosas tinham sido feitas durante a viagem. Mas por que? É paradoxal pensar nisso, mas talvez fosse porque na viagem eu sentia mais do que pensava. Claro, era necessária uma boa dose de lógica para entender os lugares e culturas novas, mas essa mesma novidade me despertava uma sensação de maravilhamento que acredito ser fundamental para toda "boa arte". Eu estava mais aberto ao mundo e tudo era encarado como uma novidade. Seria possível reproduzir esse sentimento tão particular daquela viagem aqui, em meio à rotina de uma cidade que eu detesto?