quarta-feira, dezembro 21, 2011

Três da tarde, Avenida Roque Petroni, zona sul de São Paulo. O sol era inclemente, compensando um verão que tardara demais em chegar e agora queria tirar o atraso. O ar seco piorava a poluição dos carros dos quais eu me negara a fazer parte desde que voltei de Londres. Ia a pé, depois de uma curta viagem de trem, encontrar a Nana para dar-lhe o presente que eu comprara para sua filhinha Aurora, um bichinho de pelúcia que eu levava em um saco acinzentado balançando ao lado da cintura, junto a uma garrafa d'água.
No meio do caminho, Nana me ligou para dizer que se atrasara. Tudo bem. Eu mesmo, ainda não acostumado à ineficiência do transporte público paulista e às distâncias dessa cidade que pareciam maiores no calor senegalês, já levava meia hora de atraso. O problema é que eu atendi em um celular caro, encostado no canto da parede de uma loja, aproveitando que aquele trecho da Roque Petroni só era povoado pelos carros e mais ninguém a pé. "Você vem de carro?" Nana perguntara. Não, estou andando.

Mesmo assim, eu não tenho certeza se foi nessa hora que ele me viu.

Coisa de uns dez minutos depois, eu acabara de passar pela frente dos portões amplos de uma multinacional perto da ponte Vereador José Diniz. Lembro que dois homens em uniformes de empregados estavam sentados na porta. Logo depois disso, o rapaz me abordou. No começo, eu percebi a camiseta estilo polo, listrada de azul marinho e branco. Cabelos curtos, cacheados como o meu, e barba feita. Um pouco mais baixo e franzino do que eu. Me estendeu a mão, e pediu licença.
Foi o calor. O calor, a fumaça e a caminhada de quase um quilômetro. Minha cabeça ficou letárgica e eu parei de olhar para os lados. Se não, teria visto o rapaz vindo atrás de mim, como normalmente faço, e teria esperado ele passar ao lado dos empregados da multinacional.
Pego de surpresa, e com a tendência a ser gentil, eu lhe dei a mão. Ele segurou firme, perguntando se podia pedir minha ajuda. Segurou firme. E continuou segurando. Tempo demais. Para que eu não escapasse. Não perdeu tempo: "É o seguinte, isso aqui é um assalto. Eu tô armado, mas fica tranquilo que eu não vou te fazer nada. Me passa tudo que você tem e não tenta correr nem fazer nada. Eu já sinalizei ali pro meu parceiro que você tá de boa". Eu respirei fundo. Senti meu corpo tremer enquanto a adrenalina começava a correr. Acho que soltei um "ai, meu Deus". Nessas horas todo mundo é católico.

Me assegurou que nada ia acontecer, mas falou para ir andando. Eu sabia que, lá adiante, ainda ia passar por baixo da ponte, onde o perigo dobrava. Tudo menos a ponte. Precisava ficar lá.
De repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás do rapaz. De maleta de negócios, careca e de óculos. Levantei as mãos, disse que estava tudo bem, que eu ia cooperar, e comecei a andar a passos lentos. O senhor nos alcançou. A esperança era que eu pudesse andar junto com ele até um ponto mais povoado, onde o rapaz não teria coragem de me agredir. Mas o senhor percebeu algo estranho, tomou a primeira virada antes da ponte e eu tive receio de envolve-lo no problema. "Não tenta nenhuma outra gracinha, viu?" se exaltou o rapaz. "Não tô tentando, nada! Eu tô cooperando!".

Perguntou pela minha carteira. Avisei que estava na mochila, e que eu ia abrir a mochila bem devagar, na frente dele. Sem problemas. Coloquei a mochila no chão. "Não precisa agachar, levanta!" ele sussurrou, olhando para os lados porque aquilo pareceria suspeito. Avisei que, no meu estado, eu não ia conseguir tirar a carteira da bolsa sem colocá-la no chão. Precisava ganhar tempo. Percebi as calças de moletom, o chinelo Havaianas e o dedinho ralado um pouco infeccionado. Um bandido ralé. Será que ele conseguiria correr rápido de Havaianas?
Peguei a carteira para dar a ele, ele apenas pediu que a abrisse. Pegou meu dinheiro, uma nota de libras britânica que ficara por lá, um cheque de presente da minha avó. Avisei que ele não ia conseguir descontar o cheque e ele prestou atenção no que tinha em mãos. Me devolveu o cheque e as libras. Um bandido criterioso. Será que eu conseguiria enrolar ele? Me pediu o celular e o relógio. Tirei o relógio dado de presente por meus pais, mas mencionei que eu trabalhava com aquele celular e que não o podia dar. Uma coisa com a qual bandido simpatiza é gente tentando ganhar a vida honestamente. Talvez fosse vontade de ser assim algum dia. Tudo bem.

Ele insistiu que eu andasse com ele, enquanto me fazia perguntas. No que que eu trabalho? Pra que preciso do telefone? Onde eu estava indo? Estava sozinho? Apesar de constatar que eu realmente precisava do telefone para receber meus trabalhos de tradução, ele queria ver o telefone. Se ele visse, ia querer levar. Se levasse, não ia conseguir fazer nada com ele. Quebraria ou venderia por dez reais o aparelho que eu bloquearia remotamente, dando o comando para apagar a memória.

Já estávamos debaixo da ponte, que para minha sorte, tinha um ponto de reciclagem de lixo funcionando a todo vapor, caminhões e trabalhadores ocupados por lá. Para meu azar, a área logo em seguida era um parque de mata alta, onde ninguém veria nada. Logo que passei da ponte, tive a idéia.
"Meu celular está na mochila também." Fiz uma volta, mantendo o bolso com o celular sempre escondido dele, ou escondendo-o com o saco acinzentado do bicho de pelúcia. Coloquei a mochila no chão. Passei a revirar a mochila, tirando caderno, livro, estojo. Ele se impacientava mais ainda. Com a mochila inteira revirada, passei a dizer alto "Tô sem meu celular!", como se a revelação fosse uma surpresa. "Não mente pra mim! Você tá sendo assaltado, rapaz!"
Controlando os nervos, olhei para ele: "olha, quanto mais tempo você passar aqui comigo, mais a coisa complica pra você e pra mim também". Foi então que ele percebeu. A turma do ponto de reciclagem olhando, o cruzamento aberto com carros parando no semáforo, a minha mochila escancarada no chão e eu agachado aos seus pés. Ele ainda teve um último instante para olhar para meus pertences e ver o tocador de MP3 barato. "Isso é o celular?" Avisei que não, que aquilo era "outra coisa" que não valia nada. Mesmo assim, ele levou.

Cruzou a avenida correndo e subiu a ponte do outro lado. Corria lento por causa das Havaianas. Corria sozinho, sem parceiro. E eu nunca havia visto indício de arma alguma.

A gente se sente idiota. Covarde. Pensa tanto em como agir nessas horas e não tem coragem de fazer. Vai que existe uma arma, que seja um caco de vidro. Vai que existe um parceiro. Vai que aquele aperto de mão forte de um esfomeado demonstra de fato mais força física do que a sua. Pior do que essas sensações e essa dúvida, são as incontáveis instâncias altamente criativas de "E se..." que passam a desfilar pela mente durante o resto do dia.

"...não perdeu tempo: 'É o seguinte, isso aqui é um assalto. Eu tô armado, mas fica tranquilo que eu não vou te fazer nada. Me passa tudo que você tem e não tenta correr nem fazer nada. Eu já sinalizei ali pro meu parceiro que você tá de boa'. Eu respirei fundo. Senti meu corpo tremer enquanto a adrenalina começava a correr.
Respondi: 'meu amigo, fica calmo, eu vou cooperar. É o seguinte, eu sei que um cara esperto como você entende que bacana que nem eu só respeita outro bacana ou cara que anda armado, né? Tu tá me dizendo que tá armado, e se tu só levantar a camisa de leve pra eu ver a arma, uma faca ou um caco de vidro, eu vou te dar absolutamente TUDO que eu tenho e tu pode sair daqui AGORA, sem problema. Assim de fácil. Eu nem resisto, deixo a mochila e as coisas no chão e vou andando. Quando a polícia chegar, você já vai tá longe. Eu não quero problema. Sério. Mas tu entende que se eu não tiver certeza disso, eu posso tentar correr. Se você me mostrar, eu já não tenho o que fazer. Agora, se tu não tem arma, vira e vai pro outro lado, na boa. Eu não vou chamar polícia nem nada. Vai cada um pro seu canto e você tenta pegar outro bacana que não pense nisso.'
De repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás dele. De maleta de negócios, careca e de óculos. Olhei o rapaz nos olhos, com respeito, sem intenção de superioridade. De repente virei e perguntei ao senhor: 'por favor, eu preciso de uma ajuda, eu tô tentando achar a Santo Amaro, será que você pode me indicar pra onde que é?'. O senhor, me apontando para o lado do qual eu viera, se despede e segue adiante. Eu volto à frente da multinacional (na direção do suposto parceiro dele), com uma testemunha no local, impossibilitando o rapaz de qualquer ação. Lá, junto dos empregados da empresa, vejo o rapaz seguir em direção à ponte, achando que a situação já está complicada demais. Com as pernas tremendo, peço aos rapazes da multinacional que me deixem sentar. 'Preciso de ajuda. Eu quase fui assaltado'.
"

"...de repente, meu canto de olho registrou um senhor vindo pela calçada, atrás do rapaz. De maleta de negócios, careca e de óculos. 'Rapaz, tem um senhor vindo pra cá.' avisei o assaltante, olhando-o seriamente nos olhos e começando a caminhar de volta até o portão da empresa com os dois funcionários. 'Presta atenção: você não vai querer complicar mais isso daqui com mais gente envolvida.'
'Fica onde você tá!' comandava o rapaz. Mas eu já estava apressando o passo e andando de costas, quase passando pelo senhor, que já percebi alguma coisa acontecendo.
'Segue andando, cara. Você não escolheu o melhor lugar pra fazer isso.' eu desafiei, tentando não mostrar em momento algum qualquer desrespeito. Ele pareceu inicialmente contrariado como uma criança. Mas depois, percebendo a situação já fora do controle, virou e apressou o passo em direção à ponte.
Da empresa, eu acenei para um taxi na rua, com uma mão trêmula de quem mal conseguia acreditar no que tinha feito.
"

"...coloquei a mochila no chão. 'Não precisa agachar, levanta!' ele sussurrou, olhando para os lados porque aquilo pareceria suspeito. Avisei que, no meu estado, eu não ia conseguir tirar a carteira da bolsa sem colocá-la no chão. Precisava ganhar tempo. Percebi as calças de moletom, o chinelo Havaianas e o dedinho ralado um pouco infeccionado. Um bandido ralé. Será que ele conseguiria correr rápido de Havaianas?

Enquanto ele olhava para os lados, girei o calcanhar, tomei impulso, e num esforço de baixo pra cima, empurrei o rapaz pela cintura, levantando-o do chão, jogando-o na avenida onde os carros vinham em alta velocidade. Ele conseguiu dar dois passos pra trás, para evitar cair de costas, até que o espelho de um Polo cinza o pegou pelo estômago. O carro derrapou em uma parada brusca e eu tomei a mochila e corri como nunca corri na minha vida, deixando o animal de pelúcia pra trás.
"

"...me pediu o celular e o relógio. Sem argumentar, entreguei os dois, o relógio que eu amava, dado por meus pais, e o celular que eu comprara recentemente.
De volta pela Roque Petroni, no Shopping Morumbi, pedi ajuda e entrei em contato com a delegacia de polícia local. "Querem pegar um ladrão fácil?" eu propus da forma mais sedutora que minha frustração permitia. Com uma conexão qualquer de internet, acionei o localizador do celular e apaguei a memória, que poderia ser restaurada com os arquivos de back-up. Policiais mais ambiciosos acharam o rapaz em duas horas. Minha raiva não permitia que eu me importasse com o que aconteceria com ele. A classe média e alta se importam com direitos humanos até terem uma frustração dessas. Claro que eu nunca mais vi o relógio ou o celular. Se os policiais os acharam, ficaram com eles. Nada que eu pudesse fazer quanto a isso.
"

Óbvio que eu dificilmente faria qualquer dessas alternativas. A gente é educado a não reagir diante de bandido, pra não se machucar. A pena é ver que a gente também é educado a não se envolver quando vê alguém não reagindo diante de um bandido.

terça-feira, dezembro 20, 2011

Cabaret Paulista

Como parte da minha tentativa de manter os hábitos e deleites londrinos por aqui, estive ontem no Cabaret Paulista: uma noite de apresentações burlescas que fazem parte do Projeto Luxúria. O Luxúria é idealizado por Heitor Werneck, ex-estilista e atual empresário de entretenimento alternativo em São Paulo. Por aqui, ele é único, alternativo, esquisito. Por lá, ele seria mais um naquele submundo freak.
Andei lendo que ele de fato baseou o Luxúria no famoso Torture Garden de Londres, o projeto a cujas festas eu fui em Brixton. As festas do TG eram divididas em diversos ambientes, com apresentações burlescas em um lado, a discoteca em outro, e muitos divertimentos estranhos espalhados em diversas salas. A impressão que eu tive era de que o Cabaret Paulista era uma versão light do TG, apenas com as apresentações burlescas. Tanto é que o rígido "dresscode" imposto à clientela nem foi seguido à risca, e a maioria do pessoal apareceu de camisetinha polo e calça jeans. Mas justamente por ser uma versão light, achei que seria o adequado para começar, e como uma primeira experiência para levar minha Lexy.

O veredito? Ainda darei uma chance às festas completas do Luxúria, mas o Cabaret me deixou um tanto desapontado. O apresentador, uma drag queen rotunda, fez o que pode para animar a noite, mas sofreu um pouco com a falta de organização e a demora dos performers em se aprontarem. A maioria dos números parecia altamente improvisada, mas não de uma maneira boa, como eu tinha visto improvisarem por lá. É difícil explicar o que incomodou, mas não foram só coisas como o artista de shibari (técnica de amarração e imobilização com cordas) não conseguir desatar sua vítima no fim do número ou o cara da dupla de pole dancing escorregar e cair na cabeça da moça. Números corretamente ensaiados e apresentados como os da performer Mouse e do Equador, the Wizard ainda estão distantes de aparecerem por aqui (prova disso é que eu sequer lembro do nome de nenhum dos performers de ontem...). Mas isso não me incomodaria tanto mesmo se a galera de Londres errasse.
O que faltou foi um pouco mais de seriedade e de gente que acreditasse em si mesma. A questão do "dresscode" já mostrava que ninguém, nem mesmo a clientela, estava levando a coisa muito a sério (tá certo, isto é uma diversão, mas pra que a coisa funcione, precisa de um mínimo de cooperação da galera) e que todo mundo tinha um certo medo de ser julgado, de estar gordo, feio, ridículo. Muitos dos performers pareciam estar tentando imitar algum ídolo em vez de confiarem no próprio corpo e conhecerem seus movimentos. Quiçá a coisa ficasse menos feia (embora também menos pro meu gosto) se alguém aparecesse lá para mostrar uma performance burlesca que misturasse samba, mulatas, forró e outras brasilidades. Pelo menos os performers teriam mais jeito e mais veracidade.

Veracidade. Talvez seja essa a palavra. Em Londres, mesmo em um ambiente tão fantasioso quanto as boates de fetish, havia uma sensação de veracidade. Eles eram de fato aquilo. Por aqui, no meio da noite, quando o performer de tecido agitou os panos para tentar dar um desnecessário efeito dramático, me peguei pensando: "parecemos macacos imitando o homem branco europeu".

Os melhores da noite ficaram por conta de uma garota que, apesar de imitar a antiga "dança dos leques" e não fazer nada de tão original, sabia muito bem vestir e usar o corpo rechonchudo; e o cantor que entoava Elis Regina e Cazuza com uma bela voz (novamente nada de novo), mas sabia mover o corpo esguio e abusar dos trejeitos afeminados.

Ainda estou curioso a respeito da festa do Projeto Luxúria. Curioso pra saber se o pessoal de fato vai vestido como se deve, se os organizadores de fato barram quem não entra na brincadeira, se rolam tantas loucuras quanto as que rolavam em Londres, se há menos macacos e mais pessoas. Mas não vou com muitas esperanças. Como andei escrevendo por aqui, a experiência que eu tenho do meu próprio povo é bem diferente da imagem libidinosa que temos no exterior. E a experiência no Cabaret Paulista só fez confirmar essa percepção.

No entanto, não posso deixar de terminar o post com uma nota favorável para o organizador Heitor Werneck. Como de costume com essas pessoas, o visual intimidante e altamente expressivo esconde uma pessoa amabilíssima, muito solícita, aparentemente muito culta em relação a esse mundo, e que apenas trabalha arduamente para vê-lo florescer aqui, com a mesmaa força que tem por lá. Tomara que consiga.

terça-feira, dezembro 13, 2011

Conversa no chat do Facebook

Sempre, aos 45 do segundo tempo, quando você está quase desistindo da carreira, acontecem umas conversas como esta:

ei pedro

Fala, moça!

quero deixar seus trabalhos no quarto in janeiro pode? sem custo adicional.
pq quem não viu , tem que ver.


Opa! Quer deixar os cartões e o jornal lá em Janeiro?
Tem alguém interessante pra quem você quer mostrar?

isso isso
u celsinhu du mapa perguntou preu la fora de quem e a obra dus cartões du meu quarto

Eba! Maravilha!

yes é nois

Valeuuuuuuu!

imagina euq ue agradeço é bao poder socolocar trabaios bao nu meu quarto pq acordar e dormir com arte é foda

Hahahaha! Certeza!


O "celsinhu" em questão é o Celso Fioravante, organizador do Mapa das Artes, que sai todos os meses com as principais exposições da cidade.
Logo que cheguei de viagem, coloquei os cartões da Filha do Açougueiro na Casa da Xiclet, para uma bem-humorada retrospectiva de 10 anos da casa chamada "10 anos sem sucesso - o fracasso nunca me subiu à cabeça". Nem comentei por aqui, por já estar desiludido com minhas perspectivas como artista.

Minha carreira de artes é aquele paciente na UTI que tá pra morrer, mas ninguém deixa desligarem os aparelhos.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

O Modelo Inception

You are the product being sold Recentemente vi esta piadinha no 9gag, um site que tem virado um vício diário ultimamente. E apesar de eu ter visto outras coisas no 9gag que também me fizeram sentir aquela ponta de culpa por passar tanto tempo anestesiado pelas mídias sociais, essa piadinha do macaco ficou na minha cabeça durante o resto do dia. É que eu tenho que admitir que, vendo desse jeito, eu achei a estratégia do Mark Zuckerberg, criador do Facebook, uma coisa brilhante e com uma pegada pós-moderna à la Inception.
Em um nível simples, o Facebook funciona como qualquer outro serviço proporcionado a nós, que teoricamente somos os clientes. Nós (achamos que) temos uma necessidade, e o serviço supre essa necessidade em troca de algum ganho para o provedor do serviço, que normalmente vem em forma de dinheiro. Só que ninguém paga pelo Facebook, o que complica um pouco essa teoria.
A piadinha me fez pensar bastante nisso: "se você não está pagando por algo, você não é o cliente, você é o produto sendo vendido". Então, quem seria o cliente? Hoje, o Facebook tem links patrocinados. Fica claro que os "clientes" da história acabam virando esses anunciantes, para os quais ele vende um serviço: a visibilidade publicitária com possivelmente a maior audiência do planeta. E dentro desse serviço, o outro serviço que ele presta para nós, "clientes de mentira".
Outra forma de pensar no assunto é que talvez o "produto" dele seja a marca Facebook em si, a empresa. Que, quando ele achar que está pronto, irá vender a quem pagar mais, em uma transação comercial relativamente comum de venda de um bem, no qual está incluído esse serviço que ele presta a nós.

Esse modelo Inception de negócios, que eu digo ser muito pós-moderno, também é posto em prática no mundo das artes por pessoas como a Xiclet, em cuja galeria eu costumava expôr algumas das minhas pinturas. O serviço básico dela é o mesmo de várias galerias, providenciando espaço expositivo para os "clientes" artistas, que acreditam estar exibindo suas obras. Mas pouca ou nenhuma atenção é prestada de fato ao que é exposto na Casa da Xiclet, porque o mais legal são as baladas de abertura e o humor da divulgação, os nomes das exposições. As obras dos artistas lá expostos estão dentro de outra obra maior, que é a própria exposição organizada pela Xiclet, que adquire status de questionadora similar ao de muitos artistas pelo modo como divulga e organiza suas exposições, sempre desafiando o sistema e o mercado das artes. Ou seja, as exposições dela têm uma composição, uma teoria, um valor de entretenimento e uma prática que são mais similares aos de uma performance artística do que aos de uma galeria pura e simples. E ela se promove e adquire exposição no mercado de artes através delas. Mais exposição do que os artistas expostos. O que não acontece nas galerias comuns.
A real relação artista-público acontece entre a Xiclet e os visitantes, não entre os artistas e os visitantes. Da mesma forma, a real relação provedor-cliente acontece entre Zuckerberg e os anunciantes ou compradores do Facebook, não entre ele e os usuários.

E é tão interessante de ver que eu nem consigo me sentir usado por fazer parte desses esquemas...

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Modorra

Já faz um mês que estou de volta.
Infelizmente, ainda vou usar este espaço para desabafar um pouco a respeito das minhas impressões da cidade à qual voltei. Bear with me.

O que mais tem ficado aparente para mim nesse mês que se passou por aqui é a modorra. Ando brincando com a idéia para uma ilustração do novo personagem que tem surgido no meu caderno na ausência da Filha do Açogueiro. A idéia de uma gosma que envolve tudo, deixa os movimentos do personagem mais lentos, mais difíceis. É assim a minha sensação de estar aqui. De que tudo precisa de um esforço maior, para equacionar inteligentemente o trânsito, para atravessar a punho de ferro as burocracias, para gastar eficientemente as 24 horas que aqui dão a sensação de 12. Eu tinha essa impressão por lá? Francamente, não me lembro. Digo que não, mas a verdade é que não me lembro.
Há outra modorra dentro da minha cabeça. Ela é composta de uma avalanche de pequenices a resolver. Eu ainda não liguei para aquela pessoa. Nossa, e não respondi o e-mail que me foi enviado há dez dias. Ai, o prazo para aquele projeto de arte está quase acabando. Eu podia organizar esses papéis na minha mesa.
Na verdade, nada disso é importante ou urgente. Tá, alguns são. Mas de repente eu percebo que a manhã inteira já foi embora e eu não fiz quase nada. E a sensação que tenho é de que eu estou me afogando nesse mar de pequenices pragmáticas, nessa gosma que consome meu dia, e não sobra quase tempo algum para qualquer atividade criativa.

Como era possível lá? Como eu conseguia resolver pequenices, cuidar da casa, participar da vida cultural da cidade, desenvolver um mestrado e ainda por cima criar arte? E olha que eu ainda nem estou precisando cuidar da casa direito, porque estou morando com meus pais até o começo do ano que vem.

Talvez seja esta cidade. O modo como as coisas (não) funcionam aqui. Ela mata minha criatividade. E não é só para as artes, mas para viver também. Eu saia lá nos fins de semana meio sem rumo, pronto para a cidade me surpreender, porque era fácil e seguro andar por lá. Porque as próprias pessoas do lugar me interessavam. Não sinto essa vontade aqui. Eu tinha trezentas idéias artísticas legais por dia, por causa da convivência com artistas e de frequentar museus e galerias nos fins de semana. Eram questões relacionadas a arte, masculinidade e afins. Coisas relacionadas com o meu mestrado. Elas ficavam como um murmúrio no fundo da mente e de vez em quando traziam à tona algo produtivo. Era um murmúrio positivo.

Mas hoje percebi que esse murmúrio tinha voltado a ser o que era antes da minha partida pra lá. E não é nada positivo. Passo o dia escutando discussões acaloradas, situações hipotéticas onde eu estou descontando a raiva e dizendo o que penso para algum infeliz. Eu não sei de onde vem todo esse rancor. Mas eu não consigo calar esse murmúrio incessante.

Eu perdi algo. E me faz falta.

Tranquilizo-me dizendo que é só a combinação entre a época de festas e a bagunça de ter chegado de viagem. E que talvez em Janeiro, quando as coisas acalmarem, eu voltarei a ter sossego, concentração e tempo para fazer alguma coisa.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Nan Goldin e a aceitação do corpo brasileira

O meio artístico está em polvorosa por causa do quase cancelamento da exposição da artista americana Nan Goldin, organisada pela curadora Lígia Canongia e patrocinada pela Oi Futuro no Rio de Janiero. Pelo que eu entendi, e corrijam-me se eu tiver informações erradas, a curadora passou dois anos organizando a exposição e lutando para trazer a obra de fotografia para o Brasil. Por algum motivo, a Oi Futuro só tomou conhecimento do teor das fotos recentemente, mesmo depois de ter aprovado o projeto em concorrências acirradíssimas. Já começa aí o brasileirismo. Quando perceberam que as fotos tratavam da comunidade alternativa LGBT de Nova Iorque, a empresa começou a fazer exigências. Queria que tirassem fotos onde indivíduos apareciam se drogando. Goldin aceitou. Mas quando as exigências continuaram e a empresa pediu que ela removesse as fotos com crianças, ela sugeriu que fossem substituídas por quadros pretos com a legenda "censurado" (a artista comenta que não sabia do peso tão forte que a palavra tem no Brasil por causa da ditadura). A partir daí, as negociações desandaram e a Oi ameaçou cancelar o projeto. Depois de ampla reação da comunidade artística brasileira, a Oi Futuro voltou atrás, e decidiu seguir em frente com o projeto, mas transferi-lo ao prédio do MAM no Rio. A atitude me pareceu uma daquelas em que a diplomacia é tão evidente, que fica até feio. "I'll have none of that filth in my house" ("Não vou aceitar essa imundice na minha casa") diz a empresa, mas ainda financia a coisa para salvar sua imagem na mídia. Do jeito que está, ela já prejudicou sua imagem tanto com o público mais conservador, quanto com os artistas.

Achei relevante a colocação do Agnaldo Farias, crítico que esteve na minha banca no curso de artes, dizendo que a empresa deveria mudar o nome para "Oi Passado" ou "Adeus Futuro".

Porém fiquei muito atento à entrevista que Goldin deu ao Estadão. Em determinado momento, ela se disse chocada com o que aconteceu no Brasil:

Fiquei chocada. O Brasil é percebido como um país socialmente livre, de pessoas sem problemas com o corpo, então foi chocante.

É um estereótipo antigo. Mas a experiência de Brasil que eu tenho é de um país que na verdade tem problemas enormes em relação ao corpo. Onde o culto à forma perfeita é exageradamente escancarado nas praias e na publicidade, mas a exibição de um único mamilo ou (Deus me livre!) de um pênis é uma heresia. Onde sexo é estimulado de forma subentendida e subliminar, mas não pode acontecer a olhos vistos (medo de julgarem a sua performance?). Onde acontece a cada ano a maior parada gay da américa latina (com números a cada ano mais... túrgidos), mas os mesmos gays são espancados na mesma avenida da parada. Onde a diferença sexual é discutida e "tolerada" na novela, mas o país ainda não aceitou o matrimônio entre homossexuais e ainda não sabe como lidar com o cartunista cross-dresser.

E o que é exportado é a imagem da mulata do carnaval, que tem sua roupa produzida pelas bibas da escola de samba. O estereótipo ainda prevalece.