quinta-feira, maio 26, 2005

A visit from a tiny ghost...

Deixei que Tink me convencesse a não ir ao JUCA. Em vez disso, fomos a Campos do Jordão. Quer dizer, eu fui. Ela chega amanhã, depois do trabalho. Gosto quando ela dá uma de independente. Escrevo do mesmo cyber café que usei no ano passado para escrever sobre isto. Aliás, já estou virando cliente frequente na temporada... How sad

Cá estamos nós. Os velhos, as primas e os adendos. Por adendos entenda-se amigas (os), namoradas (os) e outros. Getting down to business, a convivência com as primas está um pouco menos excludente este ano. A tradicional vinda para Campos no feriado de Porcos Tristes sempre apresenta o desafio de lidar com as primas. Não sei explicar direito e suponho que seja tema para minha terapeuta, mas lidar com elas é como lidar com todo meu complexo de inferioridade, toda aquela ladainha de mulheres superiores e a minha sempre presente sensação de ser ingênuo e imaturo demais. Não vou elaborar mais no assunto senão você dorme na frente da tela.
Como eu disse, a convivência com elas está um pouco menos agressiva e excludente. Consigo ao menos conversar de coisas inteligentes... Gosto de supor que tenha a ver com todo aquele exercício de olhar nos olhos e se fazer mais presente.
Um dos primos trouxe a namorada, Aline. E ao que parece, o olhá-la nos olhos chamou-lhe tanto a atenção, que ela começou a perceber detalhes de comportamento meus que eu nunca tinha atentado. Ri-se do fato de que eu frequentemente pareço embarcar em devaneios, olhando fixamente para um objeto qualquer. Digo-lhe que não tem a ver com o objeto: é como se, sempre que eu imergisse em pensamentos, eu desligasse o olhar, deixando-o pousado em qualquer coisa. Ela ri um sorriso lindo com olhos expressivos. Primo de sorte que eu tenho.

Ela parece muito mais... mulher nas fotos que encontrei.Estando aqui, fui visitado por três fantasmas neste primeiro dia. Um deles é Calú, amiga das minhas primas e, supostamente, prima distante. Linda e simpática, cativante mesmo. Sempre tive uma admiração por Calú. Admiração daquele jeito de adorar a pessoa, a beleza dela, mas saber que um relacionamento seria completamente desastroso. Durante uma época em que estava solteiro, até tentei. Mas sendo ela quem é, amiga das minhas primas, todos os complexos vêm à tona.
O segundo fantasma foi o sussurro de Marcus, o arquétipo nascido aqui em Campos para personificar o lado racional, social e maquiavélico. O Conselho já se desfez há tempos e não brinco mais com essas coisas, mas não posso negar que o lugar me traga memórias dele.
O terceiro fantasma, que mais me impressionou, foi a visita de um certo fantasminha de olhos verdes. Uma modelo com uma pequenice de fada, que eu conhecera no aniversário do Lala's (foto ao lado). Lembrou-se de mim rapidamente, o que encheu meu ego. Me falou de como estava detestando trabalhar com eventos, enquanto me entregava um flyer de uma balada superfaturada, e depois sumiu no mar de rostos, deixando meu coração pequenino e na boca novamente o conselho para que voltasse à cidade natal e se dedicasse à veterinária. Por um momento, passou na cabeça o clichê sobre destino, sobre nos encontrarmos assim novamente. Afago minha tristeza entregando-me à crença infundada de que, se é assim, vamos nos ver novamente. Quiçá em tempos melhores.

quarta-feira, maio 25, 2005

Do you like bukkake??

Sobre alagamentos e comentarios...

Em primeiro lugar, sim, eu sei que meus comentários sumiram. Estou tentando resolver isso, mas acho que não vai ser tão simples e talvez eu tenha que recorrer a meios extremos. O que é uma pena, porque eu não queria perder os comentários do meu blog. Tem pequenas pérolas sentimentais que eu realmente gostaria de guardar. Em último recurso, suponho que eu poderia abrir outro blog (com um endereço que tenha mais a ver com o nome do dito cujo...) e usaria o sstema de comentários prórpio do blogspot, que tenho visto em blogs recentes. Mas isso significaria fechar este e perder meus comments mesmo. E não acho que seja hora de uma ação tão extrema. Pelo menos não agora. Queria que vocês me mandassem comentários por e-mail talvez. É só clicar no "Contact" lá em cima.

De resto, estou escrevendo em uma agência de publicidade quase deserta, por causa dos alagamentos em massa na cidade que não permitiram que muita gente chegasse no trabalho. Sabe, os alagamentos são uma situação surreal. Há algum tempo, descendo da Paulista em dia de chuva forte, vi que descia tanta água pelas ruas dos lados, que a torrente arrastava carros estacionados. Mas quando cheguei na altura da Estados Unidos, toda aquela água havia sumido, sendo escoada para um limbo inexplicável. Como que metade da cidade ainda fica alagada se existe um sistema de escoamento tão foda? No mais, acho curioso esse sabor de grande catástrofe no ar. Me faz lembrar daqueles filmes de catástrofe americanos ou da sensação de desastre eminente que tive no começo de Madrugada dos Mortos recentemente. Um professor de cursinho meu uma vez disse que, quando as marginais alagam, o Mercosul inteiro para. Achei graça. Hoje acho que talvez seja verdade.

Ontem, saindo da faculdade e correndo pela marginal para devolver o DVD dos Sonhadores antes que a loja fechasse, caí em um ponto de algamento. Aconteceu muito rápido e, quando percebi, meus 90km/h caíram pra 60 e havia água pra todo lado. Cheguei antes do fechamento da loja, mas meu carro morreu na porta. Encharcado, não ligava mais nem por decreto. Se eu fumasse, seria a cena perfeita pra acender um. Blasé depois da missão cumprida, mesmo com o veículo destruído.

Hai kais from the Edge

Cows roam in herds
Perhaps it´s time I did too
Hmm... Moo?

terça-feira, maio 24, 2005

Enquanto isso, em Brasília...

... Zé Dirceu chegou à genial conclusão de que o que atrapalha os planos do PT é a realidade! De acordo com ele, os planos que o PT tem feito ao longo de 25 anos dependem de "condicionantes históricas nacionais e internacionais" e de uma "correlação de forças". Ou seja, ele descobriu, nas palavras do José Simão, o óbvio "lulante"! Que a realidade é infinitamente mais complicada do que a teoria. É exatamente por isso que eu, desde tempos do colégio, não me meto em política nem que me paguem muito bem. O socialismo é lindo na teoria. Só na teoria. O capitalismo tem lá seu lado bom. Mas sua realidade é pessima. Qualquer visão política sofre muito com a realidade por uma simpes razão: sempre vai depender de uma "correlação de forças". E o ser humano é muito autodestrutivo e individualista pra entrar em acordos tão dependentes de "correlações de força". Todo mundo quer ser o dono da verdade e ver as coisas acontecerem do seu jeito. Eu incluso.

segunda-feira, maio 23, 2005

Deixei meu erotismo no outro par de calças.

Épocas da vida onde corpos nus perdem completamente o erotismo. Salvo uma ou outra pessoa específica, sinto talvez que poderia estar no mesmo quarto frente a qualquer um, ambos completamente nus, sem sentir a mínima reação das minhas partes. Corpos tornam-se meros corpos, formas que eu poderia desenhar em uma folha de papel como se desenhasse geometria. Belas formas, concordo. Mas apenas isso. O erotismo verdadeiro, diz o clichê, tem a ver com aquele órgão do corpo que é melhor do que qualquer cacete, peito ou bunda: o cérebro. Preciso que alguém me seduza. Urgentemente.

Estive no ateliê das meninas na quinta-feira. Gisela quis que eu a ajudasse a produzir a versão fotográfica da Banhista de Valpinçon, do Ingres. A banhista turca que, em épocas não tão remotas, era evocada em minha mente ao ver as costas nuas de Lee. No ateliê, Gisela despiu-se após acertarmos a iluminação: nada. Nem excitação, nem desconforto pela colega de quatro anos de faculdade nua diante de mim. Nem vaga lembrança das costas de Lee: a memória só me ocorreu horas depois. E nem era total apatia: havia o riso pelas poses jocosas de alguém tão expressiva quanto Gisela, o orgulho pela maquiagem que ela pediu que eu fizesse em suas costas (um tiro a sangrar copiosamente pelo lado esquerdo enquanto ela fazia caretas de dor teatrais).

No final de semana, a exposição sobre corpos pintados no Ibirapuera. O evento em si foi bom, me deu novas idéias para pensar sobre o corpo. Porém, quanto a erotismos, eu permaneci... dormente. Mas suponho que não seja o objetivo deles mesmo.

Antes disso, Os Sonhadores, do Bertolucci. Mixed feelings sobre o filme. Ainda não estou pronto para escrever qualquer coisa aqui e, provavelmente, quando estiver, o hype já vai ter passado. Afirmo que há alguns conceitos sobre a relação entre os personagens e seus jogos que muito me interessaram, mas incongruências que me fizeram repudiar aquele tipo de pessoas. Ótimo posicionamento de espelhos no filme todo. Mas voltando ao assunto, Os Sonhadores do Bertolucci na TV, e Tink beijando-me como raras vezes o faz. Nao fosse meu irmão em casa, teria feito um sexo burocrático tentando procurar, empiricamente, o erotismo perdido. Onde foi que deixei? Na calça que coloquei pra lavar? Na cama dela? Nos lençóis desarrumados da minha?

Conversando com a Giseladepois das fotos e dizendo-lhe que ela havia escolhido o fotógrafo certo: um rapaz, em grande parte, assexuado. Amigo gay de muitas garotas, daquele que elas contam da vida sexual, das paixões, da menstruação. Sem pudores e com direito a pedir conselho. Daquele que elas jamais vão sequer cogitar qualquer interesse sexual. Que piada.

sexta-feira, maio 20, 2005

The current dilema

At first, I was taught that the goal in life is to find a good job, get married and raise a family, get kids. Obviously, this was in that point in life when I didn't question rules, I just obeyed them because they were rules (read Piaget...). But later on, I began to actualy fall in love with the idea of having kids. Watching as a part of you sprouts it's own conscience and starts moving on it's own, having it's own desires and abilities, sometimes opposite to yours. As with everything else, I'd aim to be a good father and supply this child's every need, education as a main concern there. For all that, I'd need money. Hence the importance of getting a financially stable job.

The problem with this is that most, if not all, financially stable jobs result in amazingly boring lives with little or no time for social endeavors. That is, you must sacrifice your personal life for a stable, well-paying job. Also, stability means routine. It means every day will be just the same as the day before and identical to the following day. And last, but not least, most of these company jobs, save for the small minority of lucky fellows, won't make you a part of history. You'll die leaving nothing relevant for mankind and eventually be forgotten, when your last grandchild dies and there's no one to remember you (I sometimes believe this if my own father's fate: a great career in the companies he worked for, but little or nothing for posterity).

But you will have continued your family, as you were taught to do from the start.

-OR-

You could quit the company job, find a job that pays enough for you to get by but won't consume all your spare time, and spend you non-working hours in more constructive, "history-making" activities like, say, an art career, activism, writting a decent book, teaching at a university, anything that's minimally relevant to the bigger scheme of things.

Of course, this comprises a rather unstable life, be it financially and on most other areas. A life where children would be a nuisance, and you wouldn't exactly have the time or resources to be a decent father and, judging by most girls I know, not a decent husband either (believe me, I've lived time and time again the situation of having a lover complain I spend more time painting that I do with her and I'm not even taking it seriously yet...).

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So the matter boils down to this: what do you want to leave for future generations? Your own future generation? Or something that makes a difference for mankind? Try to do both and you'll end up doing neither.
To put it another way: would you sacrifice your personal life for your children? So that they can grow up with a good education and a chance of getting a job so that they, in turn may sacrifice their own personal lives for their children? Would you neutralize your potential so that you may have children and give them the capacity to neutralize their own potential?

Talking to Lala's recently, I figured it's all the same Fight Club dilema.

I think my priorities in life are changing. Fast.

Synchronicity II

By The Police


Another suburban family morning
Grandmother screaming at the wall
We have to shout above the din of our Rice Crispies
We can't hear anything at all
Mother chants her litany of boredom and frustration
But we know all her suicides are fake
Daddy only stares into the distance
There's only so much more that he can take
Many miles away
Something crawls from the slime
At the bottom of a dark Scottish lake

Another industrial ugly morning
The factory belches filth into the sky
He walks unhindered through the picket lines today
He doesn't think to wonder why
The secretaries pout and preen like
cheap tarts in a red light street
But all he ever thinks to do is watch
And every single meeting with his so-called superior
Is a humiliating kick in the crotch
Many miles away
Something crawls to the surface
Of a dark Scottish lake

Another working day has ended
Only the rush hour hell to face
Packed like lemmings into shiny metal boxes
Contestants in a suicidal race
Daddy grips the wheel and stares alone into the distance
He knows that something somewhere has to break
He sees the family home now looming in the headlights
The pain upstairs that makes his eyeballs ache
Many miles away
There's a shadow on the door
Of a cottage on the shore
Of a dark Scottish lake
Many miles away, many miles away

quarta-feira, maio 18, 2005

Suspensão temporária de moral 3

Essa aqui surgiu em uma conversa com o Lala's...

Acordo pela manhã e percebo que minha família não está em casa. Or quartos vazios, as camas desfeitas já frias. Ligo para os celulares: ninguém atende. Deixo mesagens para meus pais, mas não para o meu irmão. Tomando meu café da manhã, olho pela janela como sempre faço e me detenho por um instante, a xícara a meio caminho entre minha boca e a mesa que temos encostada na janela da sala. Algo estranho lá fora: um Meriva abandonado no meio da rua com as portas abertas, como se o motorista e passageiros tivessem fugido às pressas. Um Welsh Corgi é a única coisa que se mexe lá embaixo, além da sujeira levada pelo vento. A outra ponta de sua coleira, sem ter quem a segure, rasteja atrás dele como um prolongamento do rabo.
Depois do banho, saio para o trabalho. No caminho, desvio de dois ou três outros carros largados na rua em estado semelhante ao que vi da janela e logo percebo que não são os únicos. Em todos os lugares, os carros, bicicletas, ônibus, motos. E nem sinal de pessoas. Todos fugiram ao raiar do dia sem explicação nenhuma e só sobrei eu. Curiosamente, a energia ainda funciona: lembro de tomar o elevador e dos celulares da minha família, que apesar de não serem atendidos, funcionavam como se as centrais ainda estivessem ativas.
No trabalho, ninguém. A esse ponto já não é novidade. Ligo para toda minha família, mas confirmo que só restei eu no país.
Os dias que se seguem não trazem respostas nem pessoas. Pela manhã, sequer me preocupo mais em me vestir. Saio nu e sem relógio pela cidade abandonada sob um sol escaldante, sem pudor nem medo e muito mais confortável. Dias depois, já ostento uma barba negligenciada e não me incomodo mais com meu próprio cheiro.
Na segunda semana, encontro uma base militar e, sem muito esforço, consigo invadir o prédio de armamentos. Saio de lá armado até os dentes para brincar. Detono explosivos táticos no prédio da Assembléia no Ibirapuera. Vingo-me do trânsito da Paulista estourando granadas nos ônibus abandonados. Por diversão, arraso uma BMW a tiros de metralhadora.
Meu cabelo já está incompreensivelmente grande e eu não me importo.
Durmo no gramado do Ibirapuera e passo os dias assistindo a convivência de uma matilha de poodles que já passaram tanto tempo sozinhos que o pelo branco tornou-se cinza e disforme.
Uns três meses depois, e já tendo nivelado boa parte dos prédios importantes da cidade, lembro que tinha um aeroporto perto de onde eu costumava trabalhar. Pego o maior avião que encontro e assim morre o último ser humano da terra, em um desastre aéreo por imperícia que não é noticiado por nenhum jornal, já que não há ninguém que o escreva e muito menos que o leia.

terça-feira, maio 17, 2005

Momento "Falha Nossa"

Acabamos de gravar o curta no domingo.

• Em meio a uma cena singela e emotiva onde eu desenho o rosto da Tinkerbell em uma tela de pintura, ouve-se lá atrás a minha equipe conversando:
-"Meu, queria tirar umas férias assim, tipo num spa."-

• Cena em que eu estou sentado na janela fumando um cigarro. Na terceira tragada, quase boto meus pulmões pra fora. Como é que alguém consegue se viciar nisso?

• Temina uma cena onde, para ficar na altura da câmera, estou sentado em uma escultura de madeira fora do plano de visão da câmera. Meu cameraman comanda: -"corta!"- e eu esqueço que estou sentado em algo que tem uma base meio curvada, me inclino pra trás e vou ao chão. A câmera, infelizmente, estava desligada no exato momento do impacto. Só me pegou perdendo o equilíbrio e depois, tentando me levantar daquela posição ingrata.

• Meu cameraman acertando o ângulo da câmera. Colocamos um tapume para protegê-lo de um sol cáustico. O tapume é encostado contra um cômico adorno: um bidê com terra e flores plantadas dentro. O rapaz diz que está pronto. E é então que bate o vento, o tapume achata-lhe a cabeça e o bidê vai ao chão em pedaços. Casualties of war.

• No final de tudo, tiro a roupa de pintura inteira manchada. Por baixo desta, minha camiseta tem uma estampa de manchas na qual se lê a palavra "SUJO". Coincidência...


Fora tudo isso, acho que descobri uma paixão por direção de filmes. A equipe, se topar gravar comigo de novo, será bem-vinda. Só me falta agora encontrar um roteiro decente. Any ideas?

sexta-feira, maio 13, 2005

Constatação

Eu realmente preciso colocar um daqueles programas de estatísticas no meu blog. Estou me surpreendendo com pessoas que sequer cogitei viessem a ler o que escrevo. Não que isso seja ruim. Só estou curioso pra saber quem mais esteve aqui, na beira do abismo, e não comentou nada.

That is all.

quarta-feira, maio 11, 2005

Falô, Zé!

Trilhei hoje o caminho que não tomava há um ano: meu trajeto para o curso de artes, que fiz todas as manhãs desde 2000 até o final de 2003. Nostalgia gostosa de rever uma época muito boa da vida. No banco do passageiro do meu carro, uma televisão meio velha (daquelas com botões de girar em vez de apertar e aquele plástico imitando madeira, típico de design da segunda metade do século XX). Estava a caminho para entregá-la ao .
Nunca soube o nome completo do . Coisa pela qual me arrependeria até o final da história deste post. Mas vinha a calhar porque é um nome genérico e ele era dessas pessoas que engloba o mundo e parece ser um pouco de tudo. Ele cuidou do meu carro durante os quatro anos de curso de artes. Era um homem com um rosto cômico, meio disforme pelos tantos episódios de uma vida conturbada, mas cheio de expressividade. Pena enorme agora de não ter nunca tirado uma foto dele. Era daquelas pessoas com as quais eu gastaria um rolo de filme inteiro. De 36 poses. No entanto, percebia que era um rosto que podia facilmente assumir uma aparência violenta. Suponho que era por isso que ele era bom no que fazia: afugentar ladrões de carro. Ouvi (às vezes dele, às vezes por terceiros) histórias de como ele literalmente descia a lenha em quem tentava furtar um veículo na zona dele.
Tinha sempre alguma coisa pra contar e eu adorava tomar uns tantos minutos do meu dia só escutando a comédia de sua simplicidade. Lembro até hoje da história do pato que ele roubou quando criança e não conseguiu cozinhar na fogueira que fez na mata. Lembro do fusca que ele comprou e passou um ano reformando até precisar vender. Lembro dele tirando sarro de uma escultura de madeira que fiz e que, para ele, parecia um par de peitos. Lembro de chegar à conclusão, observando-o, de que os vícios, quaisquer que sejam (a bebida e o cigarro para ele, o video game para mim) promoviam rombos financeiros descomunais, centavo por centavo. Lembro dele falando da grana preta que estava economizando quando parou de fumar. Lembro da cara que ele fazia imitando a si próprio bêbado.
Aliás, adorava uma pinga. Contei-lhe sobre o alambique que visitei em Paraty e ele passou o resto de nossa convivência perguntando quando que eu voltava pra lá pra comprar uma pinga daquelas pra ele.

Quando cheguei lá, não estava. A rua estranhamente deserta, os carros estacionados indiferentemente, como se ele de fato fosse apenas outro personagem da minha cabeça e nunca tivesse estado lá de verdade. Aquela luz especial daquela rua que enchia o ar de possibilidade me causava um reflexo condicionado de esperar ouvir a voz do . Mas nada. Mais à frente, um colega dele. Saudei-o um pouco reticente e logo perguntei se o ainda estava por aí. O sorriso no rosto do moço se apagou e ele disse, evidenciando a minha indelicadeza:
-"O faleceu, mano..."-

Pausa.

Pequeno choque seguido de uma sensação estranhamente libertadora. Como se tivesse se diluído pelo mundo e estivesse lá, naquele momento. Lá e em toda parte. Acontece com esse pessoal cheio de vida como ele era. Ninguém sabia ao certo do que ele tinha morrido. Me arriscaria a dizer que de algo relacionado a seus vícios: ele já apresentava alguns problemas na época em que concluí o curso. Morreu pouco tempo depois que eu saí de lá. A mulher (esposa?) desandou pelos becos escuros e escusos da vida depois de dar a notícia e aparece cada vez menos por lá. Não me arrisquei a perguntar da filha.
Saí de lá sentindo aquela sensação familiar de estar compelido a me entristecer mas não conseguir de fato. Zé me trouxe memórias boas e engraçadas demais para isso. Pena sim, isso me deu aos montes. De tudo que não fiz: de não ter ido a Paraty para comprar aquela pinga, de não gastar aquele rolo de filme fotografando seu rosto, de demorar pra entregar-lhe a TV, de passar um ano sem aparecer por lá, de não ter falado pra ele que estou bem e trabalhando. De não saber seu nome completo para poder encontrar seu túmulo. Se eu entrar naquela ladainha de auto-ajudo sobre aproveitar cada momento com a pessoa porque pode ser o último, please shoot me.

Voa, . Para além daquela rua e de catar latinhas pela vida.

segunda-feira, maio 09, 2005

Ritual

Dia das Mães na fazenda da minha avó.
Resolvi que não vou me dar ao luxo de deitar na grama e passar as horas dormindo como faço de costume quando estou lá. As últimas vezes que estive por lá, só fiz isso. O dia que passou eram apenas nuvens no céu ou a programação entorpecente da Sky: lobotomia no conforto daquele maravilhoso sofá vermelho.

Mas na última vez que fui pra lá, resolvi sair do marasmo e caminhar. E desde então, me entregar à pasmaceira têm me parecido um terrível desperdício de dia e de vida. Então, sempre que vou pra lá, obrigo-me a sair e caminhar um pouco. Durmo de vez em quando, mas sempre saio para caminhar. Por que?

O caminhar na estrada de terra da fazenda é uma metáfora violentamente introspectiva. Não se ouve muito além dos meus passos. Se presto mais atenção, percebo um eterno murmúrio de um zilhão de insetos ao mesmo tempo, se diluindo, perdendo o foco, tornando-se apenas um ruído liso, incompreensível e tão baixo, que parece silêncio. Theme song perfeito para o diálogo entre o que restou do Conselho e eu, daquelas músicas que não interferem mas criam o clima.
No primeiro momento só vejo meus próprios passos: medo de pisar errado e cair ou torcer o pé. Depois vejo as pegadas que vou deixando como pistas de que existo. E em seguida, o degradê de cores: o amarelo da estrada fica verde na grama e depois gradualmente torna-se azul no céu. Uma vez falei desta passagem de cores para o Piero, mas ele considerou loucura e prosseguiu classficando os insetos que encontrava no caminho como apaixonado biólogo. Onde o mar de morros encontra o céu, vejo paisagens surrealmente solitárias, gramados infindáveis onde apenas uma árvore sobrevive contra o céu anil que a engole.
As vacas andam em bandos. Quando eu apareço, todas me olham em uníssono, imóveis enquanto avaliam o perigo: se você vier em minha direção eu vou sair correndo. Você vem em minha direção? Se eu faço a mesma coisa, olhando elas por minutos a fio sem me mover, uma delas toma a iniciativa e me da as costas (ou o traseiro...). As outras a seguem imediatamente sem questionar. As vacas andam em bandos. Talvez eu deva começar a fazê-lo também.
O cachorro preto, chamado Preto, vem sempre comigo. Eu sou o emissor, o ponto de foco do qual ele se irradia. Corre a esmo pra lá e pra cá, fareja coisas das quais eu nem desconfio, se embrenha no mato pra espantar o olhar das vacas como se soubesse do meu desconforto com olhares. Quase é chifrado por uma delas. E durante esse tempo todo, sempre me passa uma sensação de estar "comigo". Mesmo estando a quase um quilômetro de distância, lá longe na estrada. Eu sou o emissor do qual ele se irradia.
Na volta, um pôr do sol de cores inverossímeis. Alaranjados de cádmio fluorescentes, núvens rosadas meio amarelo Nápoles e um profundo azul da Prússia nas núvens de chuva lá no horizonte. Há tantos tons de verde que não conheço nomes pra eles. Verde esmeralda, verde Veronese, verde permanente e algum ocre meio clueless, como eu na balada.
Chego em casa completamente suado, fedendo o fedor do Preto e com os pés tão empoeirados que meus calçados mudam de cor. E me sinto bem assim. Me sinto mais em contato com o mundo. É religare. Alimento para a alma.

quinta-feira, maio 05, 2005

Um pedido bizarro a vocês...

< momento awkward do dia >



Já foi comentado aqui vez por outra sobre a minha relativa incapacidade de olhar pessoas nos olhos. Lee havia percebido e comentado sobre isso na nossa época juntos. E ela não tinha pudores em me interromper e dizer para olhá-la nos olhos. E isso fazia incrivelmente bem para mim. Para nós. Explico.

Foi da minha adolescência que percebi o quão fortes eram meus olhos no conjunto do meu rosto -- tanto que, sempre que eu desenhava um personagem com sobrancelhas mais grossas ou um olhar mais incisivo, pessoas achavam que eu havia me desenhado. E percebi, por aquele joguinho infantil de ver quem desvia o olhar primeiro, que eu tinha uma enorme capacidade de intimidação com eles. Comecei a tomar mais cuidado. A evitar que as pessoas achassem que eu estava encarando, ou tivessem alguma noção erronea de mim. Passei a tomar muito cuidado com encontro de olho no olho. Sentia mesmo que, quando acontecia, eu estava invadindo o espaço da pessoa (não comecemos com aquele clichê dos olhos como janelas para a alma, please). E pra não cometer essa indelicadeza, meus olhos vagavam pelo cenário, por detalhes das roupas das pessoas, todos os lugares que evitassem um encontro de olhos.

Minha terapeuta completou o quadro com algumas outras noções (como ela sempre faz...). Em primeiro lugar, que assim como eu me sentia julgado quando me olhavam (minha aparência, meu cabelo, meu rosto...), eu tinha receios de "julgar" outras pessoas. Esse era o ato invasivo: julgar. Também que haviam várias maneiras de olhar para uma pessoa: um olhar significa diversas coisas. E eu tinha receios de que as pessoas entendessem a coisa errada. Louco, não?

Daí vieram as consequências: pessoas, ao perceberem que eu não as olhava nos olhos, sentiam (erroneamente), que eu não estava prestando atenção nelas quando conversávamos, e a conversa acabava. Ou ainda aquele acontecimento muito comum para mim: no meio de algo que eu estou falando --e olhando para qualquer lugar que não o meu ouvinte-- este me interrompe no meio do assunto pra falar com outra pessoa, ou fazer outra coisa. Por vezes, em um grupo de pessoas, sequer me ouvem. É estranho como um detalhe visual relativamente banal tem tantos desdobramentos no âmbito sonoro. Mas o fato é que isso me tornava uma pessoa pouco sociável, digna de desconfiança. Até mesmo um esnobe, dependendo da auto-estima da outra pessoa. Daí parte da minha atual dificuldade social. Aliás, é por issso também que costumo parecer ser mais sociável pela internet do que pessoalmente: não há olhos com os qais lidar.

Assim que, a vocês que me encontram pessoalmente dia após dia, peço que me estimulem a olhá-los nos olhos. Ajudem-me a me desacostumar com este péssimo hábito. Sei: no começo vai ficar uma situação meio chata. Mas não tenham vergonha, eu estou esperando por isso e vou reagir bem.

< / momento awkward do dia >

terça-feira, maio 03, 2005

Falha estratégica

Você vai à escola e se esforça minimamente pra tirar notas boas e não ser reprovado. Você se sai relativamente bem em todas as matérias e se mostra um bom aluno, com um número mínimo de notas vermelhas. Você devora cada pedaço de cultura pra ser uma pessoa inteligente. Você se considera até um apreciador de conhecimento, uma pessoa culta com um vasto vernáculo. Daí você passa a usar todo esse conhecimento em cursos extra-curriculares relevantes à carreira que você escolheu. Sua estratégia é imbatível. O vestibular, apesar de dar medo, passa sem grandes preocupações e você é o calouro mais jovem da sua turma. A faculdade só vem complementar um resto de conhecimento que você precisava e ratificar o seu currículo impecável, invejável, do qual você se orgulha em ter sacrificado tanto para conseguir. Você sente o seu futuro garantido.

Daí você começa a trabalhar e percebe que você faltou em várias aulas de uma matéria crucial, lá na fase inicial da coisa toda. Você só tirou as notas mais baixas e, de fato, foi reprovado diversas vezes sem nem perceber. A matéria era lecionada nas cantinas do colégio, nos pátios. Os horários variavam entre os poucos minutos do recreio, as aulas cabuladas, o tempo passado em casa. E tome lição de casa... Os professores eram seus próprios colegas, aqueles que tiravam notas menores que as suas nas outras matérias. A matéria foi lecionada desde os primeiros dias de colégio até a faculdade, mas você nunca prestou muita atenção.

Agora você não sabe por que você consegue ter toda essa capacidade técnica e fazer coisas incríveis, mas não consegue se relacionar com o pessoal da empresa. Não sabe como pode se dar tão bem com as pessoas da faculdade e passar os finais de semana tão esquecido. Relaciona-se com meio mundo pela internet e não sabe puxar conversa pessoalmente. Não entende como pode ser um profissional tão capaz e ao mesmo tempo uma pessoa tão incompetente.

Na verdade, você entende sim. Mas não quer admitir que a sua estratégia tão "perfeita" desconsiderou algo tão básico e que talvez seja muito tarde pra mudar isso. You can't teach new tricks to an old dog.