Baseado em perguntas feitas pelo
Lala's (chique ser entrevistado, não?):
1) Qual sua opinião sobre drogas? Acho que parecida com a sua: sou a favor da legalização de todas as drogas ou da ilegalização do álcool e tabaco. Esse meio-termo é que fode. Experimento drogas leves, mas sou muito avarento pra bancar um vício. Além disso, minhas psicoses relativas ao corpo orgânico não me permitem...
No entanto, acredito ser verdadeiramente viciado em video-game. Em níveis muito sérios. Ainda escreverei a respeito.
2) Qual sua opinião sobre monogamia? Besteira inventada por gente insegura que não consegue dissociar a diversão sexual do amor. Saberei que alguém me ama quando ela tiver a liberdade para ficar com outro e, no final das contas, ainda voltar pra mim. Assunto espinhoso: não dá pra responder de forma suscinta...
3) Em que religião acredita ou não, e por que?Costumava ser ateu e acredito que mesmo o ateísmo seja uma forma de fé. Hoje acredito em uma religião minha, explicada em parte na
Surreal Revelation XVI. Sem rituais nem nada. O filosófico
religare com a realidade. Mas não vou tentar converter ninguém porque o conceito ainda é meio complexo e eu detesto fanáticos religiosos. Os outros que acreditem no que bem entenderem.
4) Qual seria sua condição ideal de vida (com relação a trabalho, dinheiro, família, amigos)? Minha condição ideal de vida seria trabalhar com uma equipe de artistas que estimulassem uns aos outros a pensar. Nós ganharíamos bem com projetos de arte que incentivariam novos estilos de vida. O dinheiro seria o suficiente pra colocar meus filhos nas melhores escolas e ter uma casa legal (não muito grande nem muito pequena, mas bem decorada e mobiliada com coisas estilosas). Não tenho megalomanias financeiras além dessa. Teria um filho e uma filha com uma esposa que também fosse artista. Os filhos estudariam em escola Waldorf e eventualmente também se interessariam por arte (musica, pintura, fotografia,
you name it- eu incentivaria). Meus amigos iriam variar entre pensadores e libertinos hedonistas.
5) O que acha da família? Uma das maiores fontes de aprendizado e de trauma de qualquer pessoa. Ou seja, uma convivência necessária, porém cáustica e dolorida como toda convivência entre humanos. Acho que filhos únicos têm um aprendizado incompleto quanto a algumas coisas da vida. Outra questão densa...
6) Quais suas maiores virtudes? A paciência, a vontade de experimentar, a habilidade com métodos complexos e a introspecção.
7) Quais seus maiores defeitos? A apatia, diversos falhas de sociabilidade, a quase dependência de métodos e a timidez.
Ou seja, o lado negro das minhas virtudes...
8) O que te impede de meter uma bala na própria cabeça? A remota possibilidade de que eu esteja errado quanto à questão 3 e que realmente exista um Deus que condena à danação eterna os suicidas. Detalhe: essa baboseira de "os que eu deixaria para trás" não me impede. Uma vez morto, não seria mais o meu problema. Frio, eu sei. Mas é a verdade.
9) O que tem a dizer sobre sexo, sexualidade? Isso são duas questões.
Acho sexo muito mal-interpretado. Muita gente não consegue dissociá-lo de amor e perde uma boa fonte de diversão. Claro que sexo com amor é melhor, mas não é a única opção. No mais, prefiro quando há alguma situação que torne o simples ato mecânico mais interessante: afinal, o melhor órgão sexual é a cabeça (as duas, no caso masculino...).
Não tenho preconceitos quanto à sexualidade dos outros. De fato, acho que só é "bem resolvido" quem experimentou a outra opção pra tirar conclusões. Do contrário, é o mesmo que dizer que não gosta de sushi sem experimentar. Aliás, nas palavras da
Lee:
me apaixono por pessoas, não por pênis ou vagina. Detesto o estereótipo que fazem de que todo artista plástico é gay.
Porra,
Lala's! Como é que você quer que eu responda de forma suscinta a perguntas tão deliciosas?
10) O que te excita (pode ser mais de 1 coisa)? Lugares e situações inusitadas.
A primeira vez com uma pessoa.
Mulheres que sabem usar o corpo que têm.
Algumas roupas, nos corpos certos (exemplo: não adianta usar decote se não se tem peitos...)
Diversas perversões sexuais que não vou revelar por aqui.
11) O que te desespera (pode ser mais de 1 coisa)? Saber que eu vou viver no mínimo mais 50 anos sofrendo as dores e necessidades deste corpo.
Desperdiçar minha vida, chegar aos 80 e ver que eu não fiz quase nada.
12) Qual seu ponto de vista político? Irrelevante. Não acredito que algum político possa funcionar, sendo honesto ou não, em um país como o Brasil. Analogamente, não acredito que nenhuma filosofia política possa funcionar com seres tão mesquinhos quanto os humanos: vai ter sempre alguém pra ferrar tudo buscando assumir o poder.
13) Revele um grande segredo Pô, assim? De graça? Nem pensar...
14) O que faria se tivesse hoje 1 bilhão de dólares? Investiria em qualquer poupancinha de merda que me desse 1% ao mês e com esse dinheiro, criaria uma fundação de mecenato para jovens artistas (viu, você está colocando boas idéias na minha cabeça...). Sendo um pouco mesquinho: atenção especial seria dada a pintores com técnica.
15) Onde este mundo vai parar? Questão que me divide hoje em dia. Por um lado, acho que em mais ou menos um século, vamos destruir completamente o planeta e, pouco tempo depois, deixar de existir (reflexão interessante sobre isso na
Surreal Revelation X). Por outro lado, tenho alguma vã esperança de que, pouco antes disso acontecer, a mídia promoverá a moda do ecologicamente sustentável e os ricos deixarão de favorecer o dinheiro em detrimento do planeta. A tecnologia já existe. Mas dá mais dinheiro usar a tecnologia anterior. Acho que só a mídia teria tamanho poder pra reverter a situação.
16) Critique verdadeiramente alguma/qualquer coisaÉ uma contradição evidente que se ensine publicidade em um universidade como a USP. Qualquer profissional da área concordaria. E já quando eu estava pesquisando que carreira iria seguir, no final da década de 90, ouvi a opinião de um publicitário famoso na TV, que dizia que se aprende o mesmo fazendo quatro anos de faculdade de publicidade ou seis meses de estágio em uma boa agência. Minha tendência é concordar com isso. No caso da USP, mais ainda. Como ensinar um ofício eminentemente prático como a publicidade em uma faculdade instrinsecamente teórica como a USP? É ridículo: passamos dois anos etudando teoria da comunicação. Sim, é lindo, é cultura, mas eu não vou usar. Que me importa saber da "teoria da agulha hipodérmica", da Escola de Frankfurt, do McLuhan e outros, quando eu preciso fazer um storyboard para vender talco pra micose de pé?
O próprio sistema do curso da USP é rizível. É lógico, mas totalmente inadequado. Eles pensaram: precisamos dar a nossos alunos uma base sólida em comunicação para depois ensinar as técnicas de publicidade (até imagino os senhores naftalinizados sentados em suas cadeiras de couro carcomidas em salinhas remotas da cidade universitária discutinddo isso...). Mas aí eles recebem uma classe fresquinha de trinta alunos, mais ou menos, que estão loucos pra aprender um Photoshop logo e sair fazendo layouts com idéias mirabolantes e o que fazem? Sentam os trinta em salas mofadas, obrigando-os a ler cinco textos por semana durante dois anos e fazer resenhas de utilidade questionável, que eles não vão absorver porque não lhes interessa naquele momento. Farão trabalhinhos medíocres pra passar o semestre com a esperança de que o tão esperado Photoshop seja ensinado no semestre seguinte. Dois anos depois, as primeiras aulas de fotografia, design, tipologia e etc. Finalmente, os alunos têm uma injeção de ânimo e deixam de pensar que escolheram o curso errado. Um ano de aulas de técnica depois, eles percebem que têm toda a técnica do mundo, mas falta conteúdo, que eles poderíam ter aprendido se tivessem lido aqueles textos do primeiro semestre com mais atenção. Agora seria a hora de ter aquelas aulas...
No fim do curso, o fulano sai da faculdade sem saber sequer alguns detalhes básicos: em que formato de arquivo eu entrego o trabalho ao cliente? Como que eu trabalho com o Pantone? Qual a diferença entre o cara da mídia e da produção? Entre o ilustrador e o diretor de arte? Entre o Photoshop e o Illustrator?
Carreiras práticas são impossíveis de serem ensinadas por chatos acadêmicos.
17) Elogie verdadeiramente alguma/qualquer coisa Lembro muito bem da colocação de
Tink quando começamos nosso namoro atual: dizia que detestava ficar sabendo das coisas pelo blog e não pesssoalmente. Era uma forma fria e impessoal de comunicação. Entendo a opinião dela, mas também me convenço de que ela não tinha noção da maravilhosa capacidade de comunicação dos blogs.
No layout anterior a este, eu colocava uma frase abaixo do título: "coisas que todos ignoram quando eu falo, mas que alguém lê quando escrevo". E era bem assim, incluíndo com a própria
Tink. Não é raro as pessoas simplesmente não prestarem atenção no que digo ou me interromperem no meio de uma elocubração qualquer com outro assunto mais mundano. Admito que nem sempre falo de coisas interessantes.
O blog foi um espaço para que eu pudesse falar dessas coisas sem ser interrompido. Passar uma cadeia de idéia inteira, sem que meu ouvinte me interrompesse nos primeiros elos exigindo detalhes de conceitos que eventualmente seriam explicados nos últimos. Esse é um dos trunfos de linguagem escrita: uma conversa entre duas pessoas através das letras não é precisamente um diálogo, mas um conjunto de monólogos. Um espera o outro terminar de falar pra apresentar uma resposta.
O blog também foi um espaço onde eu podia falar de coisas sem que elas precisassem ter conexão com o que estava sendo conversado. Exemplo: imagine nós conversando sobre o escândalo do mensalão (não, eu não converso dessas coisas...), e de repente eu começo a falar da semelhança entre música de orquestra e pintura (em um dos posts abaixo...). Você com certeza ignoraria completamente o comentário. Primeiramente por ser totalmente fora do assunto, e depois por não ser um assunto de seu interesse. E eu ficaria lá, falando sozinho. Acredite: acontece bastante.
Aqui, pode ser que ninguém deixe um comentário (e eu não vou ficar deprimido por causa disso, fique tranquilo), mas ao menos alguém leu e sabe que isso faz parte da minha visão de mundo.
18) Qual dos seus 5 sentidos você abriria mão, se fosse obrigado, e por quê? Sentiria muita falta, mas acho que abriria mão do olfato. Trouxe-me muito prazer na vida amorosa, mas acho que é o que eu menos dependo no meu dia-a-dia.
19) Por que você não vive seus grandes desejos? Porque tudo tem seu tempo. Ainda chegará o tempo da maioria deles. Os outros dependem de eu ter dinheiro e tempo suficiente.
20) O que acha do Lala´s? (eheheh - pesquisa de opinião)Brincou que cê quer que eu responda ISSO de forma curta, né!?
Vou começar de um lugar inusitado: sabe aquela época que todo mundo passa no colégio, em que você percebe que não vale à pena ser bonzinho e seguir as regras, ser correto e ético? Você passa a acreditar que você só vai se dar bem se for mau, cínico, sarcástico e malicioso. Basicamente te vendem a idéia ("quem te vendeu isso?" já me perguntou o próprio
Lala's: não sei...) de que você só vai ser respeitado se for perigoso, incorreto, imoral.
Lala's conseguiu reverter essa crença. Tá bom, admito que ele também é sarcástico e malicioso. Mas cá temos alguém que tenta pautar a própria vida em ser alguém correto, eficiente, ético.
Não sei se me expressei inteiramente: junto dessa idéia de que o respeito vem pela malícia e imoralidade está imbutida a idéia de que a galera certinha e ética é ingênua, torpe. Terminamos por ter vergonha de sermos corretos. O correto é o CDF, o nerd, o imaturo. Disso temos vergonha.
Não o
Lala's. Ele consegue ser ético, ser correto e lutar pra fazer a coisa certa, sem parecer inferior por causa disso. Aliás, pelo contrário, parecendo muito superior por não ter cedido a esse tipo de pressão.
É uma daquelas raras pessoas que
make you wanna be a better person.
Enfim, dá pra escrever muito mais sobre isso, mas ele quis que eu fosse suscinto, então...