sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Miscelanea anotada no caderno

Pequenas coisinhas que esqueci de escrever:

• O tal Palacio Presuntos era um manicomio antigamente. Fiquei sabendo disso e comentei com alguém que nao tinha mudado muito desde entao...

• Um dia, ainda vivendo nos Seppilli, voltei para casa com um jornal para procurar emprego. Tullio comentou com Chanteung: "Ha comprato un giornale per cercare lavoro" ("Comprou um jornal para procurar trabalho"). Na hora, o que me chamou a atençao foi o automatismo com o qual eles compreendiam o sujeito da frase. Era "ele", o menino, a novidade na vida deles. Ha algo que talvez seja estranho de compreender na traduçao da frase para o portugues, mas no italiano ficava claro pra mim que era como se eu fosse o assunto principal da conversa diaria deles. Sendo assim, nao era necessario especificar o sujeito da frase cada vez que se começava a conversa: ja se sabia automaticamente que o sujeito era eu. O italiano tem uns detalhes de linguagem deliciosos. Suponho que o portugues também tenha, mas nao percebemos.

• Na pequena feira de rua de Perugia na praça XIV Novembre, no final do Corso Vanucci, vejo os belissimos quadros pintados por italianos desconhecidos e me pego revisitando minha convicçao de que jamais serei um artista de verdade nessa época. Os artistas daquela feira tem tecnica melhor que a minha, mais pratica, mais truques. Minha verdadeira vontade é ser como eles, tao bom quanto eles. Pintam a arquitetura da cidade com realismo incrivel e perfeita compreensao da luz local. Mas ser bom como eles nao me tornaria um artista, como nao fez deles mais do que pintores de rua. Foi-se o tempo em que artista era aquele que tinha essa sensibilidade para absorver o mundo e apresenta-lo em pintura. O artista de hoje nao precisa disso. Precisa sim ter alguma "grande idéia", um questionamento, uma perturbaçao. O artista precisa estar insatisfeito com o mundo em que vive e ficar reclamando a respeito. O artista de hoje é um chato, um pentelho, um reclamao.
Eu nao tenho a "grande idéia" e nem uma grande insatisfaçao. Eu so quero pintar o que vejo, da forma que vejo, como os artistas da XIV Novembre.

• As portas no Corso Vannucci sao enormes. Estou acostumado com uma certa proporçao inconsciente entre pessoas e portas. Quando olho para o Corso e minha cabeça tenta aplicar essa mesma proporçao entre os italianos e as portas antigas e pesadas do Corso, as pessoas tornam-se uma populaçao de anoes e as portas parecem mais proximas na perspectiva torta so burgo. Ainda preciso desenhar isso. Mas acho que o resultado seria desinteressante.

Parlando 2

Estou em um continente onde todo mundo fala ao menos duas ou tres linguas e a delicia é passar de uma para a outra quase sem preceber. A comunicaçao vira uma coisa fluida, com menos barreiras. Mas algumas ainda restam.
Pode-se devidir as pessoas em, ao menos, quatro grupos diferentes, no tocante a linguas. O meu é o grupo das linguas latinas, onde encontram-se o italiano, o portugues, o espanhol, o frances, o grego e tantas outras do sul da europa. Um segundo grupo é formado por ingles e alemao, alem de uma ou outra coisa do centro do continente. Um terceiro grupo é formado pelos asiaticos, que embora nao entendam uns as linguas dos outros, tem suas semelhanças: sei que os ideogramas chineses podem ser lidos por japoneses, mas resultam em sons diferentes. Um quarto grupo é formado por todas as linguas do norte da Europa: eles também nao conseguem entender a lingua uns dos outros, mas sabem se a pronuncia esta correta.
No entanto, mesmo com todas essas linguas e tanta gente falando varias delas, podendo transitar entre os grupos, ha momentos em que a comunicaçao é muito dificil. Pra mim, é um desafio maravilhoso, mas tem horas em que é inconveniente.
A exemplo do dia recente em que, sem muito o que fazer, convidei Linnea para tomar um café. Vou deixar no ar o suspense e dizer que conto mais dessa historia mais pra frente...
Outra cena recente foi Soo reclamando. Nao fala muito ingles ou italiano. Chamou todos nos na cozinha e começou a falar que estava um pouco zangado com alguma coisa. Levamos muito tempo sentados na mesa de madeira da cozinha, até entender que ele reclamava que alguém tinha usado alguma coisa que ele comprou para comer e que ele nao tinha gostado. Ficamos cada um olhando para o outro, perguntando com o olhar se o outro tinha entendido alguma coisa, mas sem muito exito. No fim, fechamos um acordo tacito entre os tres que nao entendiam Soo de nao mexermos nas coisas dele até conseguir entender o que pode ou nao ser usado... Alguém ai fala coreano?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

E ainda nao descobri quem é L@ra, minha recém-confessa stalker...
Alguma pista, moça?

La stanza del figlio

Algumas pessoas tem me perguntado como é o quarto.
Moro em uma pequena casa logo fora das muralhas do burgo. Ela fica na encosta da colina, dando-me uma vista privilegiada da paisagem umbra (pra quem nao sabe, Umbria é a regiao onde esta Perugia), salvo por uma arvore pequena na frente da minha janela. De fato, meu quarto tem uma janela enorme, de parede a parede, que deixo sempre com as persianas abertas (mas por motivos obvios nunca abor os vidros...) para ver a paisagem e para deixar o sol esquentar o quarto de manha. Acordo todos os dias com o sol. Mesmo quando esqueço o despertador ou volto a dormir, ele aparece por entre as montanhas para me acordar aquecendo-me mais do que meu sono pode suportar. Escondo-me nas cobertas, mas depois de alguns minutos, ele ja aparece de novo por cima do cobertor que Paula (uma amiga brasileira que esteve em Perugia) me deixou, como um personagem travesso que olha por cima do meu ombro a me dizer "acorde, menino dorminhoco". Minhas paredes sao de um branco amarelado, com muitos pontos descascados onde o habitante anterior havia colado fotos e depois descolou ao partir. A pintura por baixo é um verde esquisito, vivo demais. O rapaz anterior deixou colados na parede um mapa de Perugia, um poster de uma festa do chocolate do ano passado, e dois desenhos de Asterix e Obelix. Tenho uma mesinha (minuciosamente organizada: alguns habitos nunca mudam...) com cadeira, armarios e uma TV, que até hoje nao liguei.
Encostado em um canto de cada sala (de cada edificaçao em Perugia, alias...), tem sempre um sistema de calefaçao. Ja o vira na casa de minha avo Nydia: varios tubos brancos com algum gas que circula dentro deles. O sistema é ativado automaticamente às seis da manha e da noite. Dispensaria a manha: o sol ja é suficiente... Mas sempre que retorno nas noites mais frias, a primeira coisa que faço é colocar as maos sobre o ferro para esquentar um pouco.

O banheiro, muito para meu agrado, é otimo. Em perfeitas condiçoes, com um chuveiro maravilhoso que so nao é melhor que o da casa dos Seppilli. Dentre tantos detalhes insignificantes mas poeticos que percebo por aqui todo os dias, noto que o reservatorio da descarga tem sempre gotas de condensaçao que indicam precisamente até onde o reservatorio esta cheio. E cada descarga que vi neste pais foi diferente até agora. Cada uma leva alguns minutos para entender como funciona. Parece comico: cada vez que vou ao banheiro, ha um pequeno desafio de logica para resolver...

Nunca entrei nos quartos dos outros rapazes. Sequer passei pela porta. Como o meu é o primeiro, logo de frente para a cozinha e banheiro, nao ha necessidade de ir mais para dentro da casa. Mas agora que penso nisso, tenho um pouco de curiosidade.

A cozinha, alias, tem qualquer charme de simplicidade. Uma mesa de madeira simples, quase Bauhauss, quase do tamanho da cozinha. De forma que, quando comemos todos juntos, mal da pra andar por ai. A madeira da mesa mostra sinais do tempo, como em pinturas do Caravaggio. Fogao de quatro bocas que praticamente explode cada vez que acendemos, mas sem perigo... Uma pia na qual a agua esquenta em segundos! E uma dispensa sem porta, onde amontoamos diferentes coisas de diferentes culturas e estilos de vida: o cha de Hillis, o arroz e condimentos estranhos de Soo, o cafe e molhos de macarrao do David, meu cappellini e biscoitos. Todos usam tudo sem pudores e compram quando acaba. David, por ter trabalhado em restaurante, tem um estranho prazer, ou disciplina, de lavar todos os pratos cada noite.

A casa, apesar de pequena por fora, abriga varios "apartamentos", conjuntos de quartos. O meu é o mais de baixo, um andar abaixo da entrada da casa. Contabilizei outros tres, mas acho que so um deles é ocupado por uma turma de estudantes gregos.

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Mesmo depois das poucas semanas que se passaram, ja consigo voltar para o meu quarto todas as noites e ter uma profunda sensaçao de que esta é minha casa. Um familiar conforto de voltar para um lugar que é meu e onde eu estou seguro. Quase nao ha mais aquela sensaçao, em parte gostosa e em parte desconfortavel, de ser o eterno viajante, longe de casa.

Melhor de tudo: desde aquele primeiro dia em Milao, nao voltei a ter nenhuma crise de ansiedade(salvo rarissimas lufadas de panico que duram segundos...) e nesses dias, percebi que estou até perdendo o medo de te-las. Mudanças ocasionadas pela Italia. Mas isso é assunto para outro post, num outro dia.

Celular: quando o barato sai caro

Quando resolvi comprar um celular, obviamente fui procurar o mais barato. Mas resolvi gastar um pouquinho mais com algumas coisas. Procurei uma marca e operadora que me permitisse levar o aparelho pro Brasil e usa-lo la depois da minha aventura por aqui. Em seguida, percebi que a diferença entre o celular mais barato e o mais barato com camera era ridicula. Gastei um pouco mais e comprei o celular com camera. Passei meu numero para toda a galera no Brasil e esperei para ouvir as vozes familiares e confortantes das pessoas que eu nao via ha algumas semanas.
Lala's foi o primeiro a ligar, como eu supunha. Ele nao perde tempo. Em seguida, por motivos obvios, recebi uma ligaçao da Lee. Por ultimo, ontem à noite, uma deliciosa ligaçao da minha familia. Sinto que falo com meu irmao de um jeito que nunca falei na vida.

Hoje de manha, meu celular acordou sem credito. Achei estranho, porque tinha feito duas ligaçoes curtas e mandado cinco mensagens de texto. Na lojinha do celular, enquanto recarregava, o rapaz explicou que ligaçoes recebidas de fora da Europa e mesmo de alguns paises europeus sao pagas por quem liga e quem recebe, metade por cada um... Otimo, nao?

Tem mais: procurei por dois dias um modo de passar minhas fotos para um computador pra poder mandar para voces. Tenho fotos lindas da paisagem, dos lugares, do Duomo de Milao... Ainda nao tirei da turma, mas é porque estou procurando uma luz e lugar legais. E eles sao meio timidos para fotos...
Enfim, fiquei sabendo que minhas duas unicas opçoes para tirar essas fotos do celular sao:
1) Comprar um cabo celular-computador, que custa a bagatela de €35,00 (uns R$80,00 ou mais, metade do preço do celular...) com um software que precisa ser instalado no computador. Detalhe: eu nao tenho computador e nao posso instalar nos computadores das lojas de internet.
2) Mandar por e-mail do celular para o meu e-mail do Yahoo. Otimo. Estou batalhando com a TIM daqui ha dois dias pra conseguir criar minha conta de e-mail do celular. Mas o serviço deles esta sempre convenientemente "indisponivel". Ainda hoje, fiquei sabendo que um unico e-mail com imagem mandado do celular custa algo em torno de €4,00 (uns R$10,00). CADA E-MAIL!

Ou seja, até eu conseguir dar uma de brasileiro esperto e arranjar algum jeito alternativo, voces vao ter que esperar pra ver as fotos deste pequeno paraiso... Sim, rapazes, da Linnea também...

terça-feira, fevereiro 07, 2006

P.S.:

Pessoas, tenho um telefone. O numero:

+39 - 3338244965

Vou deixa-lo aqui por um tempo, depois apago, por medidas de segunrança.

Comunico ainda que o telefone tem uma camera bem ruim, mas que servira para tirar essa névoa que cobre as imagens que voces tem na cabeça de tudo que eu descrevo. Ja fotografei algumas coisas de Perugia, o Duomo de Milao e, claro, a mim mesmo. Mas ainda estou descobrindo como passar as imagens para o computador. Ignorancia tecnologia é fogo...

Fim de semana 1: Milao

Desculpem o hiato desses ultimos dias. Suponho que isso va acontecer frequentemente nos fins de semana.

Percebi que a rotina começou a dar as caras. Passei a falar das pessoas e deixei de lado aquilo que acho ser o mais interessante desses meus relatos: as descriçoes da Italia, das coisas, dos costumes.

No meu primeiro fim de semana aqui, resolvi voltar a Milao para tentar ver a neve de novo e, segundo fiquei sabendo, a exposiçao de Caravaggio (ultimos dias). Dentre os primeiros contatos com a lista de pessoas que minha avo me passou antes de vir para ca, eu ja havia entabulado conversa com o senhor Livio Zeller, em Milao. Escrevia-me em ingles, achando que eu nao falasse nada de italiano (depois fui saber que o fazia por sugestao de minha avo...). Quando me escreveu convidando-me para ficar na casa dele em Milao durante o fim de semana e acompanha-lo a uma festa, isso fechava o momento perfeito para voltar a Milao.
Peguei o trem no sabado de manha. Aprenderia assim que devo sair de Perugia sempre na sexta à tarde: gastei boa parte do dia viajando...
A area ao redor de Perugia nao é exatamente uma planicie. Sao pequenos montes, belissimos, muito menores que a colina onde esta o burgo. A caminho de Milao, no entanto, viajei por uma verdadeira planicie, reta até ver a cadeia de montanhas ao fundo. Passava por campos de trigo e feno, este ultimo enrolado em fardos enormes que pareciam grandes rodas de cortiça perdidas na planicie. As casas, e mesmo os bosques, tinham aquele aspecto de que ja falei: "propositalmente desorganizados", como se fossem direçao de arte de um filme. Tudo aqui parece... estranha, porém deliciosamente artificial. Vi na paisagem pontes de pedra, de arquitetura belissima, muito mais do que meros meios de passar sobre um rio. Vi a teia de estradas de ferro com uma estética particular que eu gostaria de gastar um ano experimentando. E as cidades que ja vi nas outras viagens: por alguma razao, sempre acordo de um cochilo em Arezzo. Alguma força maior talvez esteja me dizendo para ir la.
Na minha cabeça, duas musicas do Historia sem Fim tocavam sem parar. Combinam muito com viagens de trem, suponho. E tem sido minha trilha sonora ultimamente. Queria ter um Kazaa para baixa-las da internet...
Faço uma nota mental de sempre viajar do lado esquerdo do trem: cada vez que outro trem passa na direçao contraria, a lufada de ar golpeia o vidro da janela, dando a impressao de que, qualquer dia, a janela vai explodir. Sei que a possibilidade é nula, mas o susto é sempre enorme.
No trem, tomo pela segunda vez uma bronca do cara que passa checando as passagens. Preciso convalidar a passagem e ainda nao tinha entendido o que era isso. Livio me explicou em Milao. Mas nao vou aborrece-los com isso por aqui. Tenho percebido ainda que muita coisa por aqui acontece sem muita fiscalizaçao. Os europeus, diferente do brasileiro aproveitador, sao ensinados a obedecer as regras e a fiscalizaçao torna-se menos necessaria. De vez em quando, ha alguma coisa. So pra dizer "comporte-se porque estamos olhando". Eu, com minha educaçao espartana, nao sou sacana o suficiente para aproveitar as brechas de fiscalizaçao, com medo de ser pego. Mas que existem, existem. E muita gente economiza com isso, pegando trens sem comprar passagem, metro sem bilhete, essas coisas...

Para minha frustraçao, nao havia mais neve em Milao. Andando pela cidade, encontrei apenas montinhos de gelo sujo derretendo nas ruas. Pareciam-me como restos amarfanhados de confetti, varridos em um montinho depois de uma grande festa. Davam-me, de fato, a sensaçao de que perdi o melhor da festa. A neve dera lugar para uma Milao feia, cheia de paredes pixadas e de tons acinzentados que, em Perugia, faziam parte do video-game, mas que aqui eram a direçao de arte de algum deprimente e tedioso filme frances ou algum romance do Kafka.
Encontrei a casa do senhor Zeller sem muita dificuldade. Era uma vila dessas com um patio no meio. Ele me recebeu na porta: era um senhorzinho pequeno, franzino, com algum problema no olho, mas muito alegre! Sempre sorrindo, sempre com uma piada para fazer. Falava um ingles com sotaque italiano pesado, como desses estereotipos de italianos morando em Nova Iorque.
A casa era uma delicia. Um amontoado de pequenas quinquilharias, boas memorias de uma vida plena. O retrato dele feito pelo pai pintor anos atras, as fotos da neta e do filho, livros de uma vida dedicada à engenharia (estudou muito sobre hidrogenio como alternativa de combustivel! Meu irmao gostaria de falar com ele, suponho!). Tudo com toques de tecnologia européia: Livio mostrou-me, sem muito pudor, a sauna para dois que tinha no banheiro, falando-me de uma garota que tivera... Alias, falar com ele de amores era uma delicia. Mais tarde saberia que foi muito apaixonado pela minha avo quando adolescente, embora nao tenha ficado claro se algo aconteceu entre eles... Seguia ela de longe, sabendo do lançamento do livro dela e de tantas coisas, com a dedicaçao de um verdadeiro stalker pré-internético. Dedicava-se a saber da situaçao atual dela como eu me dediquei a saber da situaçao de todas as minhas ex-paixoes.

Tive pouco tempo para ficar na casa: saimos para a festa dos amigos dele. Uma turma de senhores animadissimos e muito cultos. A conversa girava em torno de dietas, gastronomia, enologia, o Santo Graal e religiao. De fato, fiquei muito interessado em um video que um dos senhores, um antropologo, mostraria mais tarde, de uma expediçao feita à Islandia. Dizia ter estudado pistas escondidas nas obras de Leonardo, Botticelli, Rafael e Dante, todas convergindo para um local especifico do pais gelado, onde, dez metros abaixo da terra, estaria escondida uma camara com documentos secretos da biblia, nunca antes vistos. O proprio Graal do Codigo Da Vinci. Infelizmente, ele ainda precisaria captar recursos financeiros para fazer a excavaçao...
A proposito: comi maravilhosamente bem. O primeiro lugar que estive aqui na Italia onde a comida nao so tinha gosto, como tinha um gosto fantastico! Bebemos varios tipos de vinho, comemos muito queijo, presuntos, pasta (claro...) e conservas das mais diversas frutas.

No dia seguinte, Caravaggio!
O senhor Zeller acompanhou-me até a praça do Duomo de Milao, mas nao entrou na exposiçao pois tinha yoga... O Duomo vale uma nota por aqui. Apesar de estar parcialmente coberto por causa de obras de restauraçao, o pouco que mostrava ja valia a pena. Tamanha era a profusao de detalhes, que de longe parecia daqueles castelos de areia que se faz deixando areia molhada escorrer dos dedos. Cada canto era adornado por uma estatua de um santo, um martir, uma lenda. No topo, uma enorme estatua dourada do que parecia ser um papa.

Uma hora de fila depois, sendo um tanto assediado por africanos tentando vender livros desinteressantes ao pessoa na fila, estava entrando na exposiçao. Tem algo de diverente em comparar o real thing com aquilo que se esta acostumado a ver nos posters e imagens de internet. Imaginava, por exemplo, que um mestre da grandeza de Caravaggio teria encontrado um modo de evitar aquile efeito de pintura rachada das pinturas antigas. Que ele teria descoberto um modo de manter o frescor da pintura. Nao que isso tenha diminuido o maravilhamento! Vi a Madona of the Pilgrims e me detive por um bom tempo a estudar a forma como a saia dela emerge do escuro, sendo vista apenas pelos pontos de luz, ou como o mestre dedica tanta atençao às maos e pés, fazendo cada ruga das juntas dos dedos, mesmo nas crianças. Tipico de Caravaggio sao também as maos brutas dos homens, maos de trabalho pesado que, se tocassem no bebe como a Virgem toca, certamente o machucariam. A Crowning with Thorns é talvez impossivel de ser decentemente fotografada para a internet: no quadro real, a diferença entre o escuro do fundo e a armadura do homem em primeiro plano è sutil, mas perceptivel. O homem sinistro é mais escuro que a escuridao. E porta uma armadura da época de Caravaggio em uma cena da Biblia: a convergencia de tempos é outra coisa tipica do mestre italiano. A exposiçao ainda prosseguia com estudantes do Caravaggio, como os irmaos Gentileschi e Mattia Preti.

Retornei de Milao logo depois da exposiçao. Peguei minha bagagem na casa do senhor Zeller e deixei-lhe um bilhete de agradecimento na porta. Queria passar mais tempo em Milao, talvez para erradicar essa noçao da cidade feia, cheia de graffitti, cinza. Mas tinha um trem a pegar de volta para Perugia e classes para assistir no dia seguinte. A estaçao de Milao, se fosse consciente, teria percebido-me um pouco mais esperto do que quando andei por seu espaço coberto pela primiera vez. Ja era um rapaz que sabia convalidar passagens de trem e achar o trem certo sem hesitaçao.

A volta foi sem grandes acontecimentos. Uma garota chinesa falava no celular (e falou por boa parte das cinco horas de viagem...). Eu entabulei conversa com um cabeleireiro de Prato (sim, é uma cidade a caminho de Perugia...) e uma outra senhora italiana que disse ter achado que eu era frances. Saltei em Perugia e o frio quase me pareceu familiar. Murmurei, para ninguém: “God, it’s cold!” e uma texana simpatica respondeu automaticamente. Chamava-se Bree. Até entao, eu tinha achado que eu estava aborrecendo meus companheiros europeus com o tanto que falava. Até conhecer Bree...

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Alice 15 e 16


A sign in the back of the booth said the admission fee was "all hope"
Uma placa no fundo da cabine dizia que o preço para passar era "toda a esperança"




When she ventured into the Blankness, Alice left behind almost everything she was
Quando ela entrou na Brancura, Alice deixou para tras quase tudo o que era


P.S.: SIM! Achei um Photohop e scanner por aqui e agora da pra colocar em dia a minha produçao de Alices! Hoje tem duas porque eu ja estou atrasado. Agora so faltaria eu achar um tablet. Mas ai ja é pedir demais... Vou pintar em aquarela mesmo.

Taking care of business

Começaram as aulas (na quarta, estou com um pouco de atraso no blog...).
Apesar de termos feito os testes de proficiencia e inscriçoes no Palazzo Gallenga (digam todos comigo: "é la em Gallenga" - agora digam-no mais rapido...), tenho aula em outro prédio, a uma meia hora de caminhada de onde estou morando, chamado Pallazzo Prosciutti (curiosiamente traduzido ao pé da letra para "Palacio Presuntos"). No primeiro dia, so consegui encontrar o lugar graças à ajuda de David, o canadense que faltava apresentar por aqui. Conheci-o faz poucos dias, quando finalmente apareceu em casa. Tem decendencia irlandesa, por isso fala rapido. Como Brad Pitt em Snatch (mas nao tao bonito...) ou o personagem brigao de Trainspotting (Begbie, eu acho...), às vezes beirando o ininteligivel. Ri muito e bebe muito café.
Enfim, tive a primeira aula. Tive aulas de gramatica e de cidadania italiana (um pouco de historia, um pouco de politica, costumes, etc...). Além de meus companheiros de casa (Hillis, Su e David, posso dizer que algumas pessoas da turma do curso ja fazem parte da minha historia por aqui: os personagens foram apresentados.
• Ken Shin (chines): rapaz pequeno, muito amistoso e com um italiano muito bom. Sempre procura conversa.
• Claire (australiana): inteligentissima, com um italiano de sotaque ingles.
• Karen (americana): negra que vive na Europa ha muitos anos, muito dedicada aos estudos e profunda conhecedora da politica do proprio pais.
• Laura (alema): baixinha e com cara de brava, mas é so a aparencia...
• Linnea (suéca): belissima, embora calada devido ao pouco italiano e ingles que conhece. Sempre o centro das atençoes.
• Natalia (paraguaia): mistura o espanhol e o italiano, mas tem um bom nivel da lingua local. Junto comigo, somos os que mais juntam e animam a galera.

Estranho dizer isso, eu sei. No Brasil, normalmente, sou reservado, calado, desinteressante. Aqui, algo aconteceu. Quiz vestir a fantasia do brasileiro alegre, falante, amistoso. Quiz mudar os traços pessoais que tanto estava começando a me incomodar.
E resolvi começar pela galera de casa. Ontem convidei-os todos para jantar em casa, pasta feita por mim. A minha infalivel gorgonzola nao ficou 100%, mas conquistou. O que realmente recebeu elogios foi o molho de salada turbinado que meu pai fazia. Da pra imaginar eu cozinhando por vontade propria?
Depois, sai com Hillis (os outros tinham outros planos para a noite...) para outra coisa inusitada: tinha convidado metade da minha turma da classe para ir ao bar brasileiro de Felipe logo no primeiro dia em que nos conhecemos. Os europeus acharam estranho toda essa intimidade tao cedo. Que bom... Assim sao os brasileiros. Pra mim, estranho era justo eu ter feito o convite, no meio de tanta gente do curso. Jamais teria feito isso no Brasil. Pretendo continuar fazendo quando voltar.

Tive medo que ninguém aparecesse. Que achassem tao estranho essa receptividade toda tao cedo, que desconfiassem. Talvez tivesse até um pouco de trauma das baladas de despedida frustradas. Mas estavam la. Nem todos, mas a enorme maioria. E mais: pontualissimos como bons europeus.

Combinei ainda de encontrar no bar ao Gabriele, filho de um italiano que trabalhou com meu pai. Chegou la com a namorada Federica. Ambos daqui de Perugia, muito legais e engraçados.

Fi-los experimentar a caipirinha (Hillis adorou, Gabriele tomou duas...), a Skol (Linnea experimentou... Mas tem melhor na Suécia...) e o samba. A banda nao era realmente uma banda: apenas um bando de rapazes cariocas se divertindo na Europa cantando pagode, samba e forro. Mas, acreditem ou nao, eu até dancei! E samba, ainda por cima! Afinal, ninguém la sabia dizer que eu estava dançando certo ou errado. Apenas a banda e os funcionarios do bar, que também dançavam mal. Ouso até dizer que, por um momento, eu gostei da musica e cantei junto. Mas se me perguntarem no Brasil, eu nego.

Dormi melhor do que qualquer outro dia dos que estive aqui em Perugia. Nao era so pelo cansaço: era a sensaçao de fazer a coisa certa. A estrategia certa para juntar uma galera, fazer-me ser notado e, quem sabe, impressionar Linnea... XD

Afinal, se o assunto do emprego nao vai bem nessa época, pelo menos posso investir meu tempo em outro business igualmente relevante ao meu espirito.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Parlando

(A pedidos da Nana)

Uma semana depois de chegar na Italia, ja estou falando um italiano respeitavel. Nas lojas e serviços, e mesmo na faculdade, falo com as pessoas e quase ninguém percebe que sou estrangeiro. O que me denuncia, claro, é o vocabulario. No meio de uma sequencia rapida, direta e perfeita de frases, eu paro de repente: cheguei em alguma palavra ou conjugaçao verbal, talvez uma colocaçao de pronome ou expressao, que desconheço. Ai fica aquela coisa: io voglio... er... ah... voglio....
Sabem que a denominaçao "barbaro" surgiu de uma palavra que significa, no romano, gaguejar? Porque é isso que se faz quando nao se conhece um idioma. Aprendi isso nas aulas por aqui. Depois, a palavra passou a denominar simplesmente os estrangeiros. Fico orgulhoso quando me perguntam o que diabos eu estou fazendo em um curso de italiano!

A minha capacidade de blend in (adoro a expressao...) com os nativos no tocante a idiomas vem de uma capacidade minha que estou me divertindo muito ao observar. Parece que eu me adapto ao nivel e à forma de falar da pessoa com quem falo. Em segundos (ainda nao percebi quanto tempo demora...), adapto a minha entonaçao para parecer com a da outra pessoa, e aproximo o nivel do vocabulario. Quando falo com meus companheiros de quarto, todos com um ingles insipiente, pareço realmente um estrangeiro: corto fora conjunçoes, faço concordancias erradas propositalmente, pronuncio com sotaque. Ao encontrar os americanos, falo o ingles do meu nivel, o melhor que posso. Quando conheço um britanico, acabo modulando aquele sotaque maravilhoso. Algo similar acontece com o italiano. Tem gente que fala claro, bem pronunciado como Amina. Tem nativos que falam com um suingue gostoso, languido, um jeito de saborear os "G"s e "D"s, trocar os "C"s por mais "G"s deliciosos. Ainda nao me arrisquei a falar com gente do sul da Italia: esse é o nivel mais alto da coisa...

Fico orgulhoso também ao perceber que ja começo a ter o processo mental necessario pra falar bem um idioma. Porque a maioria das pessoas pensam no idioma nativo e traduzem para o outro. Ou seja, pensam: conceito = palavra no idioma nativo = palavra no idioma desejado. Demora muito. Eventualmente, com pratica, chega-se a um ponto onde conceito = palavra no idioma desejado. Eliminando a etapa do meio, a coisa fica mais rapida, mais natural. Por isso que, às vezes, tenho dificuldade de traduzir uma coisa do ingles para o portugues, minha lingua nativa: no ingles, cheguei nesse ponto.

De fato, uma das coisas mais gostosas aqui para mim é a pluralidade de linguas. Nao so tenho acesso a tres das mais faladas por aqui (italiano, ingles e espanhol), como encontro gente que, como eu, nao tem problema em pular de uma para a outra e às vezes o faz sem perceber. No começo eu quiz organizar na cabeça com quem eu falava que lingua. Mas depois, quando comecei a errar sem perceber e desandava a falar em outra, desencanei. Porque é maravilhoso ter essa possibilidade!
No Brasil, até onde eu sei, isso era visto de uma forma ruim, como alguém que queria se exibir. Ha uma coisa na cultura brasileira que é como um culto à mediocridade mental. Se voce é inteligente ou culto, é CDF. Se gosta das expressoes do ingles, é americanofilo (ou pior, anti-brasileiro). Aqui nao ha barreiras: posso falar quantos idiomas quiser e falar bem. Conquisto respeito com isso.

De uma forma diferente, ha também um profundo respeito pela galera que esta nos primeiros niveis do curso de idioma. Porque, mesmo com todas as adversidades, eles estao começando do começo, ao seu passo. Falei com uma freira indiana por aqui que me inspirou muito. Mal falava qualquer coisa em ingles ou italiano e foi colocada no primeiro nivel. Ainda assim, estava animadissima. Um exemplo de humildade.
Sempre me orgulhei de nao ter medo da solidao. Eu me dava muito bem comigo mesmo e achei que poderia viver sozinho por um bom tempo, porque eu suportava e até gostava dos meus comportamentos bizarros, minha organizaçao, meu modo de pensar.
O problema começa quando Eu e Eu Mesmo começam a discutir. Porque um sabe que temos grana suficiente pra passar uns tres meses, um lugar pra ficar, comida, tudo certo. Mas o outro, obsessivo que é por uma ordem particular das coisas, quer achar trabalho a toda custa e fica desesperado quando nao consegue. Duas ou tres vezes ja me peguei aqui, separando a consciencia em duas e assistindo à briga de uma com a outra. Começo a nao gostar de alguns traços psicologicos meus, aborrecer-me comigo mesmo. Ha quem diga que é o prenuncio de uma mudança. Seria bom.

Ainda assim, ontem percorri o burgo atras de um trabalho. A coisa por aqui se parece cada vez mais aos video-games de RPG que joguei. Zelda, Vampire: the Masquerade, Castlevania... Juro que, às vezes, surge na minha cabeça um pequeno mapa simplificado do burgo: uma flecha verde sou eu, apontando para o lado para o qual estou olhando; diversos pontos vermelhos piscantes indicam onde eu tenho que ir. Meu personagem faz açoes simples: andar, correr, procurar, olhar o inventario. Em algum lugar, a barra de energia indica a fome (a barra sempre cheia por aqui...) e o cansaço (varia com o estado de espirito).
Me dizem em todos os lugares que Fevereiro é um mes morto: poucos turistas, muitos estudantes procurando trabalho. Ainda assim, orgulhoso que sou, quero arranjar emprego mesmo na época dificil, pra facilitar a situaçao financeira e provar pra mim mesmo que eu posso.
Ontem encontrei um bar brasileiro, perdido em uma ruazinha. O dono é um carioca, Felipe. Deu a ultima vaga para uma garota (brasileira também...), mas disse-me que de vez em quando tem saraus onde eles precisam de uma maozinha. Hoje vai ser um deles, mas ja é tarde demais para eu fazer parte da galera.

Sim, eu sei, um bar brasileiro seria a ultima coisa a procurar se eu quero aprender italiano. Mas digamos que, se os italianos montaram na América a cosa nostra, uma mafia para se ajudarem, talvez eu aqui acabe montando a coisa nossa...

Enfim, voltei para casa sem encontrar nada, bastante frustrado, mas feliz de ter feito o esforço. Ia dormir direto, e acordar em um dia melhor. Mas entao chegou o coreano bonachao com quem estou dividindo a casa, trazendo pizza para todos nos. Passei a noite conversando com ele, que se chama Su (for short, porque o nome dele é complicado...) e esta aqui atras de cursos de gastronomia; e Hillis, o holades que esta aqui tentando aprender historia. Conversamos muito sobre futebol, as impressoes que temos da Italia, e comida. Fui para a cama sorrindo. Falta ainda falar com o canadense que nunca aparece...

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

So uma nota de trivialidades do cotidiano:
Tenho seguido as manchetes dos jornais. Falam sobre um caso de um carabiniere (policial, mas para eles é o equivalente, nas piadas, aos portugueses para nos, segundo Tullio) morto por assaltantes. A imprensa fez disso uma verdadeira novela por aqui. Seguem passo a passo a investigaçao atras dos bandidos.

A vida aqui é de fato tao pacifica que um policial morto da todo esse Ibope? Imagine se fosse no Brasil: no dia seguinte, ninguém ia tomar conhecimento do fato...

Mangia che ti fa bene 2: adendos

• Tudo aqui, menos os restaurantes e algumas poucas lojas, fecha entre a uma e as tres e meia da tarde. Apesar de eu achar o costume muito salutar para os trabalhadores, é um porre para os clientes...

• Eis a organizaçao da tipica refeiçao italiana:
PRIMO PIATO: Um farinaceo qualquer. Normalmente é macarrao, mas pode ser arroz ou outras coisas similares.
SECONDO PIATO: Geralmente, uma carne. Pode ser também um macarrao com recheio de carne. Nos brasileiros comeriamos junto com o que seria o primo piato. Eles comem depois, completamente separado.
CONTORNO: Aquilo que, como o nome diz, contorna o secondo piato. Verduras, cremes ou coisas assim que vao junto com a carne.
FRUTA: enough said...
ALGUM DOCE: Minha parte favorita. Se bem que, aqui na Italia, fora o chocolate...
CAFEZINHO: Porque, pra ficar acordade depois de tudo isso...

• A pizza nas pizzarias vem à jato! Faço o pedido e, depois de cinco minutos, ecco qua, a pizza! Acho que as pizzarias brazucas tem MUITO a aprender...

• Para meu profundo desagrado, é dificilimo encontrar um simples suco de frutas por aqui. Logo agora que eu tinha conseguido minha independencia dos refrigerantes... Encontro sucos industrializados, com gosto de suco de aviao.

Due ragazze brasiliane

Ainda é cedo pra dizer quem vai fazer parte da quarta fase dessa historia ( 1-até a compra da passagem, 2-até embarcar no aviao, 3-a descida na Italia e os primeiros dias com os Seppilli, 4-o curso e a nova turma, 5-quem sabe...). No entanto, ja me arrisco a escrever de duas presenças por aqui.

Luciane
Quando fui na agencia que me arranjou a casa para ficar, vi que eles dividiam as coisas por paises. Na lista de brasileiros, apenas o meu nome e o de uma outra garota, Luciane. Guardei o nome e sobrenome na memoria. Tinha ideias de procurar no Orkut, fazer um stalking basico. Hoje, antes de tudo isso, estava sentado no parque em frente à universidade comendo um hamburguer (depois de nao aguentar mais ser estufado de comida a cada refeiçao...). Uma garota senta-se ao meu lado e pergunta em um ingles perfeito por uma rua em particular. Tendo andado bastante esses dias, sabia onde era. Conversa vai, conversa vem, pergunto de onde é. Brasil. Respondo em porgugues: eu também. E mais: é paulista, do Ipiranga. Esta confirmada minha sina. Sempre que viajo, conheço meu vizinho... Ao nos despedirmos, pergunta meu nome. Retorno a pergunta e ela diz que o nome é:
-"Luciane..."
-"...Teixeira" eu completo. Ela fica surpresa, mas explico-lhe o acontecido na agencia. Vejam bem voces que dirao que eu fui procurar: eu estava apenas sentado no parque, e ela que veio ate mim. Nao confundam as coisas!

A outra garota
Na verdade, achei que Luciane era uma outra garota. Na primeira vez que descobri uma lan house por aqui, uma garota entrou junto comigo. Tinha traços bem marcados, sharpness, como eu chamo. A beleza que a Claudia O'Hana tinha nos anos 90 (sim, outra das minhas comparaçoes bizarras, nao riam...). O modo como falou, mesmo em italiano, com a dona da loja, me fez ter certeza, na hora, que era uma brasileira. Havia ouvido Tullio tirar sarro do modo como os brasileiros falam italiano, porque dizia que eu falava direito. O brasileiro fala o italiano com um ritmo lento, bem marcado. E obviamente, troca os "O"s finais por "U"s...
Ainda nao falei com ela, mas pretendo. Ela ja me olha por ai como quem sabe que eu estou observando. Minha primra vitima de stalking na Italia!. Ja sei que faz o curso na universidade, mas começou antes, talvez em Janeiro. Mas ainda nao sei um nome. Cenas do proximo capitulo...

Saindo dos Seppilli

Tullio era um senhor de seus oitenta anos (sou péssimo pra adivinhar idades...). Os cabelos tao brancos que pareciam prateados. O corpo grande mancava, ou parecia andar a passinhos diminutos. Tinha algum problema no olho direito e aquele modo de estar sempre meio agachado. Quanto ao jeito de ser, era o perfeito avo: engraçado, cortes, cheio de piadas e anedotas, e muito carinhoso, mesmo quando eu o importunava no trabalho de vez em quando. Alias, era um antropologo em uma fundaçao e ex-professor da universidade de Perugia. Adorava detalhes de outras culturas e colecionava pedacinhos delas em casa.
Chanteung tinha seus setenta e era a perfeita senhorinha chinesa. Um pouco baixa, com um corpo forte e agil para a idade, fazia de tudo na casa. Tinha um temperamento de mestra chinesa também: nunca satisfeita. Achava que a agencia que me arranjou a casa onde estou agora tinha cobrado caro demais, que a universidade tinha me colocado em um nivel de curso baixo demais para o meu italiano, que o tempo era sempre frio demais e que nenhum dos trabalhos que vi nos jornais ate agora era adequado para mim. Sobre algumas coisas tinha razao: ja vi que se encontram lugares pra morar a preços mais decentes...
Amina, apesar de nao ser filha de Tullio, juntava um pouco dele e da mae. Era uma chinesa pequena e igualmente agil como Chanteung, com um italiano delicioso de se ouvir, um jeito esperto, rapido, e um gosto pela antropologia. Conversamos muito sobre amores: ela estava em um relacionamento com um homem muito mais velho que nao agradava à mae. Contou-me isso antes de sermos assustados por um cachorro no corso Garibaldi, um dia. Eu afugentei o bicho e disse que, assim como eu tinha jeito com caes e gatos, havia namorado uma garota que tinha jeito com os passaros e que nao havia agradado à minha mae tambem. E ao contar-me do "namorado historico" com quem a irma dela tinha namorado por dez anos, contei da minha "ragazza rossa" (garota ruiva), com quem eu passara tres.
A casa deles era ao lado de uma grande mansao onde funcionava a Fundaçao Celli, onde Tullio trabalhava. Ficava fora do burgo, ainda na colina. A sensaçao era a de estar morando no que deveria ser a casa do servo do castelo, fora deste, mas ainda bem perto. A casa era confortabilissima e a ducha foi o melhor banho que tomei na vida... A comida de Chanteung, apesar de ser demais para mim, era otima. Fiquei pensando se seria assim tao bom na casa nova.

Deixei a casa deles hoje pela manha, depois de fazer o exame de proficiencia na universidade (me colocaram no nivel 3 de 5...). Aprontei as malas e disse adeus a Chanteung, que me esperava na casa. Tullio estava trabalhando como de costume, mas passei para dar-lhe adeus tambem. Amina ja tinha voltado alguns dias atras a Firenze, onde mora com o rapaz mais velho. Virei visitar meus primeiros anfitrioes regularmente... Estava quase sentindo-me pertencente a uma familia e sair desta casa foi reviver o episodio nao tao longinquo de deixar meus pais no aeroporto para viajar além-mar.

O quarto no appartamento Gelsomino era... bom. Claro que deixava a desejar se comparado com a casa dos Seppilli, mas era mais proximo da faculdade, na muralha do burgo, com uma vista belissima da planicie la embaixo (nao fosse por uma arvore maldita bem na minha janela...). Tenho agora um quarto so pra mim e ja organizei tudo: tenho o mesmo prazer em organizar o quarto que a Nana, acho-o terapeutico. Quando cheguei, uma senhora enorme com ares de camponesa limpava os banheiros e falava alto com o proprietario porque nao se esntendiam ao tentar trocar uma lampada. Achei a situaçao comica!
De inicio, sei que estou morando com um canadense, um chines e um holandes. Veremos no que resulta isso...

Enquanto trazia tudo para dentro do quarto, nao pude deixar de notar uma sensaçao familiar à que senti quando chegamos na Colombia. Era uma sensaçao de novidade, claro, mas misturada com uma estetica propria de paises onde faz frio. Os tons de marrom, a estética de decomposiçao (Samorost), o proprio frio. A necessidade de se adaptar a um novo idioma, uma nova forma de pensar, novos habitos. Tudo era muito familiar. Mas acho que, se fosse um pais quente, seria uma sensaçao diferente. Nao sei explicar: so quem viveu esse tipo de coisa, sabe do que eu estou falando. Minha familia saberia.