Acordei bem tarde no sabado: novamente, efeitos da noite anterior no Morlacchi, porque uma mexicana muito querida deixaria Perugia no dia seguinte e ficamos por la até altas horas.
O sabado esvaiu-se em trivialidades e recuperaçao da noite anterior. De fato, todos na casa (excessao feita ao Mimmo, obvio...) tinham aquele aspecto destruido do dia seguinte à festa. Comemos, conversamos muito. Besteiras: o exame de espanhol de Fabiana, o trabalho de Sara no restaurante siciliano, Mary e as novas tintas para pintar o cabelo de roxo. Tudo regado a um pouco de Cure e a pintura da mascara de Rochelle.
E entao caiu a noite e sai de casa em direçao ao Duomo de Perugia (Catedral de S. Lorenzo no começo do Corso Vannucci, numero 14 do mapa). Tinha assistido na quinta passada a um concerto de um coro de americanos evangélicos no Palazzo Gallenga e soube que cantariam naquele sabado no Duomo: supus que a apresentaçao fosse mais sobria, menos humoristica, mas com um som muito mais... divino.
De fato, evitavam algumas das brincadeiras. Senti falta do intervalo que fizeram no Gallenga, com um quarteto de metais que tocou um medley de Hallelujah de Handel com When the saints go marching in enquanto o coro descansava. Mas a orquestra de violinos, harpa e instrumentos de sopro no Duomo compensava. Ah, e os solistas italianos também. A noite foi passada viajando nos acordes do coro enquanto meus olhos viajavam pela pequena coleçao de quadros gigantescos do Duomo (nenhum artista conhecido, mas todos belissimos). Minha memoria voltava aos primeiros dias em Perugia quando, ainda com medo da minha crise de ansiedade depois do ataque em Milao, e tomado pela grandeza e beleza do Duomo, eu entrei na capela para admirar os belos afrescos e pedi por proteçao. Assim, com a gramatica descuidada e rotineira de quem fala com um conhecido que nao ve ha tempos. Até agora, tirando a momentanea crise no Merlin, nada sério. Quem conhece minhas crenças sabe que sou pouco inclinado a toma-lo como um sinal divino, mas vou agradecer muito se voltar ao Brasil incolume.
Depois do concerto, encontrei os coristas na pizzaria de esquina, no Corso Vannucci. Belos como anjos. Os temas, no entanto, eram bem mais mundanos. Compliments on your english, dude!
Domir cedo. No dia seguinte, queria ir para alguma das cidades vizinhas que me haviam aconselhado visitar. Tinha comprado o pacote de viagem para Orvieto, para visitar o cemitério etrusco e outras antiguidades, mas como éramos apenas 12, o passeio foi cancelado. O que me colocava diante da escolha: fazer Orvieto sozinho, ou ir para Assis? A experiencia sacra da noite anterior, os relatos das belas catedrais e a historia de Sao Francisco e Santa Clara me fizeram decidir por Assis. Ah, sim: sendo mais perto, o preço do trem era ridiculamente menor também. €1,65 contra os €7,70 de Orvieto.
Na estaçao, encontrei Natalia, a paraguaia, com uma outra conterranea. Iriam para Assis também e passamos boa parte do dia juntos. Apesar da resistencia de Natalia, acabamos migrando do italiano para o espanhol, com um pouco de dificuldade no meus caso.
Assis era uma cidade pequena na encosta de uma montanha (suponho que seja o Monte Subasio, o mais alto da Umbria). No centro, onde estavam todos os pontos turisticos, dava pra ver a parte expandida da cidade ao pé do Monte, espalhando-se por uma planicie que parecia nao ter fim. Por ser um vista plana, me lembrava o mar (em termos de composiçao, coisa de artista...). E nao podia evitar a comparaçao com a composiçao que eu vi quando estive no Rio, de uma cidade que também ficava ao pé da montanha, com uma vista linda de uma area plana.
O aspecto geral da cidade nao era muito diferente das outras cidades pequenas que eu tinha visto por aqui: tudo feito de pedra, tons de bege e marrom, bela arquitetura e aquele visual Samorost. Mas eu começava a perceber que eles tinham um costume de fazer edificaçoes listradas. E cada cidade escolhia uma cor especifica: lembro que Firenze tinha escolhido o verde (vide o Duomo). Assis escolhera um tom de vermelho meio morto, um bordo apagado. Via o chao das pizzas com listas desse bordo intercaladas com o tom de pedra comum, ou pequenas igrejas com as fachadas listradas. Por um momento, pensei que o costume fosse também responsavel pelas vestes dos gondoleiros venezianos, listradas de vermelho e branco.
A Catedral de S. Francisco (droga, nao achei foto...) ficava em um extremo da cidade. Era um gigantesco complexo que, na verdade, abrigava duas ou mais areas para missas e um convento. A area de cima, cujo acesso era pela frente do complexo, por uma fachada maravilhosamente detalhada, dava para uma area enorme, com afrescos da vida do Santo parcialmente restaurados. Expliquei para as meninas que, quando se restaura uma obra historia, a ética comanda que se faça levemente diferente, com um tom mais claro ou escuro, ou menos detalhes, de modo a salientar que aquela area foi restaurada e respeitar o original do autor. Na parte de baixo, outra area para missas mais sombria, por ser meio subterranea. E do lado, uma escadinha levava para a tumba de S. Francisco.
A catacumba onde S. Francisco foi enterrado parecia algo tirado de filmes de vampiro atuais como Underworld. Era organizado de um modo muito simbolico e especifico. Um corredor pequeno com uma grade de metal no começo abria na outra ponta para uma sala com uma enorme coluna no centro. Em um nicho na coluna, uma arca com, supostamente, as cinzas ou restos do Santo. Um pequeno altar na frente onde as pessoas se ajoelhavam para rezar, ou depositavam longas velas compradas na entrada da catacumba por qualquer quantia simbolica que a pessoa quizesse dar. Ao redor da grande coluna, os cantos da sala tinham cada um uma grade que guardava por tras as cinzas ou restos de quatro companheiros do Santo: Rufino, Agnelo, Masseo e Leone (parente?). Entre uma tumba e outra, pequenas salinhas com bancos para os fieis rezarem. Vista de cima, a catacumba teria o aspecto de uma cruz, o corredor sendo a haste de baixo, mais longa, e a tumba do Santo bem no encontro das hastes. Ninguém falava nada. Ouvia-se apenas o farfalhar do nylon das roupas de inverno e uma espécie de som abafado ininterrupto (um som do silencio, talvez). Sentia-se no ar uma atmosfera de extrema solenidade e eu quase me senti religioso. A sensaçao me deu uma idéia para depois.
Saimos da igreja. Proxima parada, a Igreja de Santa Clara.
Caminhando pela cidade, passavamos por diversas lojinhas de quinquilharias. Vendiam toda sorte de comercializaçao da imagem do Santo, de medalhinhas a sandalhinhas, imagens de Francisco com barba, sem barba, mais caricato, mais ilustrativo. O mais estranho é que essas lojinhas vendiam também uma gama variadissima de armas medievais. Espadas, maças, bestas, arcos, pistolas antigas, arcabuzes, até uma ou outra armadura. Irae teria adorado. Perguntando a um vendedor como é que uma cidade tao sacra vendia tantas armas, ele respondeu que a produçao de Gubbio, cidade proxima, se disseminava por todas as cidades da regiao, independente de serem ou nao religiosas assim.
A Igreja de Santa Clara abrigava também a tumba da Santa. Agora quando me lembro, nao consigo lembrar da estrutura da coisa toda, porque estava muito entretido lendo a historia ilustrada da Santa colocada nas paredes. No fundo da sala, um caixao tinha por cima uma imagem de madeira da Santa, com roupas de verdade. Supostamente em escala real: ela era minuscula!
Na saida, uma vitrine protegida por grades abrigava as vestes de Santa Clara e Sao Francisco, além de alguns pertences pessoais.
Comparando as igrejas menores, a de Santa Clara, e mesmo um pouco da de Sao Francisco, dava pra compreender um padrao: todas contruidas em uma planta em forma de cruz, com o altar na junçao das hastes e imensas redomas sobre ele, que recebiam a luz do sol de forma divina. Detalhe: os altares era, quase sempre, construidos sobre bases circulares. Os fiéis ficam na haste maior e as outras servem para abrigar autoridades seculares, assim como sacristaos e outros servos eclesiasticos.
Havia nesse padrao uma simbologia tacita, que falava de uma época anterior, onde os rituais eram feitos em volta do altar circular e todo mundo era considerado igual abaixo do sacerdote, sem distinçao de posto. Uma época onde o simbolo mais importante era o circulo, porque significava além dessa igualdade em torno de um centro superior, uma idéia de continuidade, infinito. Mas entao as igrejas parecem ter germinado para fora deste circulo principal em quatro direçoes, formando a planta atual, em forma de cruz, com distinçoes hierarquicas.
Na volta para nosso lugar de partida, para pegar o onibus, uma surpresa: nevou de novo! O tempo aqui muda com uma velocidade surreal: quando estavamos em Santa Clara, o sol batia forte e o céu era claro. Mas pouco menos de uma hora depois, em Sao Rufino, o céu era branco e nevava tanto que nao se via a cidade na planicie. Era neve de chuva: pesada, violenta, fustigando as pessoas e se acumulando em uma densa e pesada camada de gelo sobre meu guarda-chuva, que eu precisava chacoalhar de tempos em tempos. Nao me aventurava a cobrir-me dessa neve molhada...
Quando chegamos ao ponto de onibus, as meninas subiram, mas eu disse que ficaria. Perguntei onde era o Ermo del Carcere, o lugar onde Sao Franisco se retirava para rezar na floresta e o motorista disse-me ser a quatro quilometros de la. Muito. Disse às meninas que ficaria mesmo assim. Tinha planos em mente.
Descendo de volta na cidade, passei por uma lojinha onde resolvi comprar alguns presentes para duas pessoas especiais que me ajudaram muito a vir para a Italia. O primeiro, nao posso dizer porque quero fazer surpresa quando voltar. Vi-o em uma vitrine e lembrei muito da pessoa. Gosto de dar presente assim: nao como uma mera formalidade da ocasiao, mas porque passei em frente da loja e vi o presente perfeito. Quando é assim, nem me importo tanto com o dinheiro.
O segundo presente, vi em uma das lojinhas a caminho da Catedral de Sao Francisco. Tinha pensado nisso quando peguei minha carteira para pagar meu almoço: encontrei o crucifixo que minha avo me dera antes de partir. O mesmo que eu lhe dera da minha primeira comunhao. E que ela me dera dizendo-me ser um amuleto para a viagem e para eu vir devolve-lo pessoalmente quando voltasse. Estivera na minha mochila desde entao e nunca o tirei de la. Sempre comigo. Na lojinha a caminho da Catedral, vi em uma vitrine uma bela coleçao de pequenos crucifixos. Entrei e comprei um. Era um crucifixo que vibrava com uma energia que parecia com a minha: era de uma liga metalica negra, reluzente, com uma pequena moeda no centro. As cores mais do que tudo faziam-me ter essa sensaçao de identificaçao. De que eu podia chamar este de meu crucifixo. O vendedor disse tratar-se do crucifixo de Sao Bento, ou da boa morte. Por mais macabro que fosse, nao pude negar que achei o detalhe ainda mais coincidente comigo, que sempre dou uma certa atençao ao fenomeno. Concordo que nao era uma idéia bela para um presente a uma pessoa tao querida, mas me deixei levar pela identificaçao com a peça mais do que por seu significado.
Na Catedral de Sao Francisco, levei o crucifixo à grande coluna. Ajoelhei-me diante dela e, sem uma linguagem muito pomposa, pedi uma beçao. Foi uma sensaçao estranha: minhas crenças me diziam para nao acreditar em preces. Que se havia uma força, ela sequer sabia da nossa existencia. Mas o fato de eu nao ter crises de ansiedade relevantes até entao estava sendo interpretado como uma espécie de proteçao adquirida na noite em que rezei no Duomo de Perugia. E, embora eu nao me permitisse acreditar o suficiente nisso, eu estava jogando o jogo.
Na saida da Catedral, discretamente molhei a cruz na agua benta. Guardo-a em casa com todo cuidado.
A volta para Perugia aconteceu relativamente cedo, comparando aos outros dias. Conheci tres italianas no trem, que perguntaram se eu era da Espanha: efeito no meu sotaque de ter passado o dia inteiro falando espanhol com as meninas.
