Último encontro com a
Dora. E ela tentando me explicar o que eu havia conseguido ao pintar
Taís.
Demorou algum tempo para que alguém me dissesse de forma clara e direta o que tinha acontecido alí.
Dora falou-me da discrepância entre uma imagem feita em moldes tão clássicos, figurativos e claros, uma modelo que mais parecia uma simples criança sorridente, e as cores e fatura que pareciam aludir a contaminação, doença. Algo que me deprimiu um pouco. Porque isso relega toda a admiração dada àquele quadro a um erro. É claro que havia também o lance da tela colada por cima e todo o resto. Isso ela também gostou muito. Nosso primeiro encontro foi inteiro sobre isso. Mas voltemos ao erro...
Na pintura de um quadro, há sempre a figura e o fundo. Nos retratos anteriores, desenhava a figura direto na tela branca, pintava a figura e depois o fundo. Este método criava um problema óbvio: vez por outra o fundo invadia a figura ou vice-versa. E então havia o estorvo de ficar corrigindo a figura no final. Para evitar isso, pintei a tela inteira da cor de fundo antes de pintar a figura. Mas esqueci de um detalhe. Tinta a óleo é transparente. E não importava quantas camadas de tinta eu colocasse, aquele verde maldito continuava aparecendo através da pele. Aquela figura estava irremediavelmente contaminada.
Gostei muito de finalmente entender. Compreender o que era a característica misteriosa que ela tanto falava. E não só ela. Outros professores já haviam falado disso. Me deu vontade de lidar com outras contradições desse tipo. Como aquela bem conhecida de usar objetos que simbolizem o universo infantil para falar de terror, homicídio, perversão.
Mas o mais interessante de tudo isso é que notei uma ressonância entre o meu trabalho (ou pelo menos esta pintura em questão) e as pinturas de
Lucian Freud, neto do conhecido
Sigmund.
Lucian pintou pessoas a vida toda. Não exatamente retratos, mas pessoas de qualquer jeito. Mas ele tem um jeito de pintar e uma escolha de cores que deixa tudo tão sujo, hepático, contaminado. Ele exagera nas áreas coradas do corpo como as articulações e os rostos e suas cores são absurdamente brilhantes apesar da profusão de tons acinzentados que deixam a imagem imunda. Não bastasse isso, ele insiste no hiper realismo, ilustrando os corpos exatamente como eles são, sem idealizações, com seus detalhes feios e belos convivendo. Este à esquerda é Freddy, o filho de
Lucian, que serviu como modelo em diversas pinturas.
Esse tipo de pintura tenta comunicar o tipo de noção que eu tive e que muita gente talvez tenha ao assistir a todo o seriado
Evangelion.

Essa noção de corpos como carne, como algo tão físico que pode quase ser moldado, e que escorre entre os dedos como barro se apertado.
Diz-se de retratos que os bons conseguem captar a alma dos retratado. Nas pinturas de
Lucian não há almas naquelas pessoas. São montes de carne em foma de gente. E o que é pior, carne podre. E isso capta perfeitamente toda a sensação que tive no ano passado com a depressão e a história dos pensamentos suicidas. Toda a angústia de estar confinado nesta máquina de carne.