segunda-feira, janeiro 31, 2005

Picasso

Conheço gente que me bateria se eu dissesse em voz alta o que acho do Picasso. Porque já está tão introjetado na cabeça de todo mundo que ele foi o artista mais imfluente do século XX, que essa noção virou kitsch, aquele tipo de coisa que não se questiona. Ninguém se permite uma opinião sincera sobre as pinturas dele.
Não questiono a importância do Picasso. Suponho que tenha realmente sido o artista mais importante do século passado. Não é à toa que surgiram tantos adeptos do estilo (depois que o entenderam e não tinham mais que pensar pra fazer...) mesmo aqui no Brasil, quilômetros longe da Europa. A parte teórica do cubismo é maravilhosa. Sugiro que quem não conheça procure ou pergunte, porque vale à pena. Foi realmente um momento em que se pensou na pintura em si, em tela e tinta e representação bidimensional. E não apenas no que pintar, no tema e suas repercussões. Aliás, falando em repercussões, esse jeito de fazer com que a arte olhasse para a própria arte acabou virando mania durante o resto do século. Assim que realmente não questiono a importância do Picasso.
Mas convenhamos, cada um tem seu gosto e eu não posso me forçar a dizer que sejam pinturas lindas. Não posso dizer que aqueles polígonos duros, angulares e em tons sujos de cinza ou bege (porque cor é um artifício falso e descartável no cubismo fundamentalista...) sejam rostos bonitos. Acho que Picasso inaugurou uma época onde o conceito vale muito mais e a beleza visual já não é tão importante.

Vai... pode bater.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Pronomes, conhece?

Fiquei abismado esses dias constatando a quantidade de gente que não conhece pronomes. Só pra citar alguns exemplos:

Minha chefe entra na sala e comça a falar. "O cliente quer que a gente crie uma pochete de braço pra eles. Você sabe como é pochete de braço? Então, coloca o logo deles na pochete de braço e o da convenção também. Você faz a pochete de braço e manda um JPG pra mim?" Depois do vigésimo "pochete de braço" que ela fala, começo a duvidar da nota de português e redação que ela tirava no colégio.

Daí vou jantar na casa da minha namorada. E a mãe dela procura algo nos armários da cozinha: "Alguem de vocês viu o figo turco por aí? Eu sei que eu comprei figo turco. Eu lembro. Ai, tava com tanta vontade de comer figo turco...." e por aí vai. Depois do centésimo "figo turco" que ela menciona, começo a relembrar que ouvi dizer que o talento pula uma geração, e que é por isso que a filha dela é tão boa profissional de comunicação.

Por último, e isso acontece bastante, a empregada me encontra em casa e resolve me pegar pra Cristo: "Fala pra tua mãe que precisa comprar carne, viu? Porque não tem nenhuma carne no freezer. Aí eu não sei que que eu faço de carne pra janta. Cê avisa tua mãe que tá faltando carne? Porque acabou a carne mesmo. Então precisa comprar carne. Ou deixar um dinheiro que eu vou aqui perto comprar carne." E depois da milésima "carne" que eu ouço, começo a desconfiar paranoicamente que ela faz isso pra criticar o fato de que eu às vezes esqueço de avisar minha mãe dessas coisas. Tirar sarro da minha cara, entende?

Gente, usa um "ele", "ela", "isso", "aquilo", qualquer coisa! Parece lavagem cerebral!

Momentos "cara, com certeza!" do livro do Kundera

Sem dúvida, agora podemos compreender melhor o abismo que separava Sabina de Franz: ele a escutava falar de sua vida avidamente, e ela o escutava com a mesma avidez. Compreendiam exatamente o sentido lógico das palavras que diziam, mas sem ouvir o murmúrio do rio semântico que corria através dessas palavras.

[...]Franz achava irreal sua vida entre os livros. Aspirava à vida real, em contato com outros homens ou outras mulheres andando com ele lado a lado, aspirava ao clamor deles. Não se dava conta de que o que julgava irreal (seu trabalho no solamento das bibliotecas) era sua vida real, enquanto as passeatas que ele julgava reais eram apenas um espetáculo, uma dança, uma festa, em outras palavras: um sonho


Agora, um que eu realmente poderia citar como um tapa na cara a alguém:
Franz balança a cabeça: "Numa sociedade rica, os homens não têm necessidade de trabalhar com as mãos e se dedicam a uma atividade intelectual. Existem cada vez mais universidades e cada vez mais estudantes. Para obter seus diplomas, precisam encontrar temas de dissertação. Existe um número infinito de temas, pois se pode falar sobre tudo. Pilhas de papel amarelado se acumulam nos arquivos, que são mais tristes do que os cemitérios, porque não se vai até eles nem mesmo no dia de Finados. A cultura desaparece numa multidão de produções, numa avalanche de frases, na demência da quantidade. Acredite em mim, um só livro proibido em seu antigo país significa infinitamente mais do que as milhares de palavras cuspidas pelas nossas universidades"..

Eu ia sublinhar as partes mais relevantes, mas acabaria sublinhando boa parte do parágrafo...

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Acho que vai ser um pouco complicado explicar isso sem imagens, mas vamos lá.
O pessoal do Leite Moça resolveu fazer uma daquelas estratégias de marketing bem hipócritas, fazendo uma lata de leite condensado com as formas sinuosas de mulher. Ou seja, pra quem ainda não viu, a lata tem as extremidades mais largas que o meio. A base tem uma porção levemente maior, pra aludir ao quadril feminino, enquanto o topo fica fazendo alusão ao volume dos seios. A estratégia em si já é bem hipócrita: colocar formas de um corpo esbelto em um produto que por si só deve ser uma das coisas mais engordativas da culinária mundial. Tipo de coisa que faz as gordinhas terem ainda mais complexo de culpa ao consumir o produto e que os publicitários acham que é "um design mais moderno, condizente com o nosso público-alvo: a mulher atual".
Beleza. Na histeria designer deles, eles esquecem que a enorme maioria das ditas mulheres atuais ainda tem aquele abridor de lata arcaico, que você engancha na borda da lata e fura com um dente de metal enorme fazendo alavanca. Então eles fazem os "seios" da lata de tal forma que não permite enganchar direito o negócio na borda da lata. E não é só isso: você acha um jeito e finalmente fura a lata com toda força, só pra perceber que, pelo ângulo que você furou (que daria certo em qualquer lata produzida com algum bom senso...), o dente do abridor atravessou a tampa da lata, toda a região dos ditos "seios", e foi sair na área mais fina, fazendo uma ferida que, de acordo com toda a metáfora de corpo humano inerente à lata, estaria localizada nas costelas abaixo do peito. Daí você passa o resto do tempo tentando furar a lata em um ângulo que não permita esse fenômeno, e ao mesmo tempo permita que o abridor enganche na borda da lata. Enquanto isso, um quarto do leite condensado sangra pelos ferimentos abdominais que você fez...

Way to go, Leite Moça!!!!

terça-feira, janeiro 18, 2005

Após mais uma sessão de desenho de modelo vivo ontem, acabei levando a modelo para casa.
Que deliciosamente estranho era esse experimentar uma pessoa em duas fases. Vi-a andando no corredor da casa em roupas cotidanas e não dei muita atenção: eu estava folheando um livro do Lucian Freud. Quando ela apreceu na sala em penumbra e despiu o roupão, subindo no tablado para dar início à sessão, foi que a vi mesmo pela primeira vez. Tinha um rosto bonito, cabelos que me lembravam o corte e cor que a Nana usava quando a conheci (pequeno momento nostalgia descontrol...). Uma pele muito branca e sem manchas, contrastando com uns lábio muito vermelhos. Aí que fiquei a sessão inteira tentando perseguir aquelas cores e aquela suavidade.

Depois ela retirou-se e vestiu-se. Voltou para a sala enquanto conversávamos sobre os desenhos e pela primeira vez falou alguma coisa, para comentar um desenho de alguém. Só então percebi o quão estranho havia sido estar na presença da nudez desta pessoa por mais de uma hora e sequer saber que timbre de voz ela tinha. Jogando conversa fora antes de ir embora, soube ainda que ela fazia aula de artes plásticas na USP. E quis a coincidência que ela morasse perto de casa. Assim que me ofereci para levá-la e conversar um pouco mais. Tinha um jeito estranho de falar, uma jeito devagar e arrastado. Mas falava com uma voz bonita de assuntos inteligentes, misturados com trivialidades como esoterismo. Falava da diferença entre a nossa geração e as gerações passadas e politizadas que frequentaram a USP. Era de Libra e sabia que escorpianos prezam a praticidade.

Voltei pra casa e passei spray fixador nos desenhor a pastel seco ainda maravilhando-me com a sensação gostosa e estranha de ter conhecido aquela garota duas vezes. Acho que arruinei o último desenho, das belas costas dela. It wasn't meant to be... Porque dizem que o artista nunca deve se apaixonar pela modelo.

Besteira, nunca acreditei nisso. Na verdade, é porque não quero mais levar uma vida de decisões guiadas apenas pela beleza.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

"The Dinning Dead"

It was an expression I heard in Eternal Sunshine of the Spotless Mind. At some point, Joel is having dinner with Clementine and he is wondering if they've become one of those sad couples who dine silently and of whom other people in the other tables whisper about. He called those sad couples the Dinning Dead. I didn't give it much thought until I read something in Nana's blog and commented using that same expression.
The Dinning Dead are all the people who have been consumed by routine. Where every weekend is exactly the same as the last one. Every weekday too. And you can't tell if you did a certain thing yesterday or the day before. Where there's actually nothing new to talk about over dinner, no matter what restaurant you go to. People who are unconsciously trapped inside a hell of obnoxious teenage sons who don't listen to them because they never get the iPod earphones out of their ears, wives who are no longer anything they loved when the relationship started and they don't have the courage to divorce, and vacations that allways tire them physically, mentally and spiritually more than work does.
The Dinning Dead plague spreads like a virus, I suppose. A virus of spiritual breakdown. I don't mean "spiritual" in religious terms, but rather in terms of your will to live, your love of life. Like a virus, as one meets Dinning Dead, one becomes infected, later turning into a Dinning Dead also.
You'll recognize a male Dinning Dead because he's the one sitting on the couch drinking beer. He doesn't care anymore about his baldness or about the crack of his fat ass emerging from his underwear every time he bends over to pick something up. Come to think of it, he doesn't care much about anything. The epithome of apathy... The female version sits on some table somewhere. She absent-mindedly turns the pages of a random magazine. Her elbow on the table and her hand sustaining a heavy head. She wonders what to do for dinner, but that's all the wondering she does nowadays. And they often go out or order something anyway, so why bother? It's not that life has lost it's colors, it's meaning... They don't remember it having any of them in the first place...

And they actually have no clue as to why their teenage children despise them so much.

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"Os Mortos que Comem"



Foi uma expressão que eu ouvi em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança. Em certo ponto, Joel está jantando com Clementine e está pensando se eles se tornaram um daqueles casais tristes que jantam sileciosamente e sobre os quais as outras pessoas nas outras mesas sussurram. Ele os chamou de "Mortos que Comem". Eu não pensei muito a respeito até que eu li algo no blog da Nana e comentei usando a mesma expressão.
Os "Mortos que Comem" são todas as pessoas que foram consumidas pela rotina. Onde todo final de semana é exatamente igual ao anterior. Os dias úteis também. E não dá pra saber se determinada coisa foi feita ontem ou no dia anterior. Onde realmente não há nada de novo para conversar durante o jantar, independente de qual restaurante se vá. Pessoas que estão inconscientemente presas dentro de um inferno de filhos adolescentes pentelhos que não os escutam porque não tiram os fones do iPod do ouvido, esposas que não são nada do que eram quando o relacionamento começou e eles não tem coragem de se separar, e férias que sempre os cansam fisica, mental e espiritualmente mais do que o trabalho.
A praga dos "Mortos que Comem" se espalha como um vírus, eu suponho. Um vírus de falência espiritual. Não me refiro ao espiritual religioso, mas à vontade de viver, o amor pela vida. Como um vírus, quando se entra em contato com um "Morto que Come", a infecção toma conta e a pessoa torna-se também um "Morto que Come".
Pode-se reconhecer um "Morto que Come" macho porque ele é o que está sentado no sofá bebendo cerveja. Ele não se importa mais com a calvície nem com seu rego gordo emergindo de dentro da cueca toda vez que ele abaixa pra pegar alguma coisa. Aliás, ele não se importa muito com nada. O ápice de apatia... A versão feminina está sentada em alguma mesa. Ela folhea sem onjetivo alguma revista. O cotovelo apoiado na mesa e a cabeça pesada apoiada na mão. Ela pensa no que fazer para o jantar, mas não pensa muito mais do que isso ultimamente. E eles vão sair ou pedir alguma coisa mesmo, então pra quê se preocupar? Não é que a vida perdeu suas cores, seu sentido... Eles não lembram de ela ter tido nenhum dos dois pra começo de conversa...

E eles realmente não têm idéia de por que seus filhos adolescentes os desprezarem tanto.

domingo, janeiro 16, 2005

A partir desta segunda a lan house que frequento para suprir meu vício por Desert Combat e outros joguinhos legais será fechada. Foi bom enquanto durou (um ano aproximadamente...). Uma ano no qual vi manobras de guerra incríveis e até cômicas, voei de helicóptero para trazer morte de cima, atirei bombas com precião cirurgica com um tanque de artilharia e me infiltrei em bases inimigas como um agente de operações especiais. Tudo isso com o visual da guerra do Iraque (nada mais propício neste ano, certo?) de americanos versus uma legião de soldados bigodudos do Sadan. Vou sentir falta deste lugar. Mas a vida continua, e suponho que seja melhor passar algum tempo me concentrando nas guerras que eu travo na vida real, contra o tédio, contra a burocracia da faculdade, contra a estagnação no emprego, essas coisas.

(Até parece que eu ainda náo procurei uma substituta... vício é foda!)

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Cria juizo, menino!

Sabe toda aquela besteirada sobre os sisos serem os dentes do juizo, porque supostamente eles só crescem depois que você tem uma certa idade e está maduro? Pois deixa eu te contar sobre o tipo de juizo que eu tenho...
Radiografias iniciais mostraram que os meus sisos estavam nascendo em direção aos dentes vizinhos e que, se eu não fizesse cirurgia, eles entortariam todo o resultado de anos de tratamento odontológico. No entanto, eu tinha mais medo de cirurgia de siso e seus aftereffects do que eu tinha de vestibular. Então eu "esqueci" do lance da cirurgia. Meu sisos superiores nasceram em 2003, para os lados. Sim, eu passei algum tempo mastigando minha bochecha, mas foi o único efeito dessa formação estranha. Muito melhor do que os da cirurgia. Depois eu ouvi dizer que os sisos nascem naturalmente para os lados assim. Mas "ouvir dizer" é meio vago, certo? O siso inferior direito começou a escavar a gengiva no ano passado. Como mostravam as radiografia, ele cresceu até encostar no dente do lado, mas graças a uma gambiarra odontológica do meu dentista, nada saiu do lugar. Ele se endireitou e continuou crescendo, até romper a gengiva há alguns meses. Mas depois disso, cansou e parou no lugar. Hoje só tem um toquinho de canto de dente lá atrás. O outro siso inferior deve ter encalhado de alguma forma, porque até agora não há nem sinal dele.

Ou seja, se sisos simbolizam juizo, metade do meu juizo é torto, a outra metade é mal-nascida ou sequer nasceu. O que me configura como uma pessoa sem noção e que nunca vai deixar de ouvir Cazuza, Marina Lima e gostar do lado cáustico e violento do amor...

segunda-feira, janeiro 10, 2005

More on Blade Runner

**SPOILERS AHEAD! See the movie, then read this! You have been warned!**

In the original version, aside from being narrated by Deckard`s voice off-screen, had a happy ending where he excaped with Rachael from his appartment, knocking over a small origami unicorn that meant that Gaff, the oriental detective, was the one who let Rachael into Deckard`s appartment. Nothing more. Deckard later finds out that Rachael, aside from having memories, had a longer life span. And they lived happily ever after.

The Director`s Cut version, issued in the late 90's, added a twist to the plot. In the middle of the movie, Deckard dreams of a unicorn. The dream sequence is actually a scene taken from Ridley Scott's Legend, a fantasy film contemporary to The Neverending Story and Labyrinth (I was shocked at this bit of trivia! How did I miss it?). But the mere existence of this dream gives that final origami unicorn a whole new meaning: if Gaff knew of the dream, he had access to Deckard's memories. Hence, Deckard is a Replicant, an android.

Brilliant, I agree. It takes an artist to come up with such a precise intervention and create so amazing a change.

HOWEVER, I read on the IMDB forums about something Ridley Scott missed copletely. If Deckard is a Replicant, and they only have up to four years to live, how can he be such a great, legendary Blade Runner like his chief implies? Bryant, the chief, says he needs "that old magic". How old can that be? A couple of years? Most unlikely... They seem to have a long history toghether and Deckard seems to be a Blade Runner with decades of experience. So the scene doesn't match the new ending.

But anyway, a great movie.
That is all....

From Blade Runner

There's his scene where Deckard is telling Rachel about one of her memories. It's about a spider that built a web on a bush by her bedroom window. In spring, the spider laid an egg on that web and when it hatched, thousands of baby spiders came out and ate their mother.
The more I thought about it, the more it seemed to hint at what human children do to their parents. Although I do want to have children some day, I can't ignore a feeling that having children means declaring an end to your own life in a way. Obviously I'm being drastic, but that's what the feeling means to me. Having children means you're no longer free to come and go as you please. You're no longer free to spend a month's salary on whatever madness you desire. You must, from now on and for the next fifteen years at least, cater to that child's every need, in detriment of your own needs sometimes. A part of you that is generally associated to youth and living the life is dead...

Yes, I could summon up thousands of other metaphors about how wonderful children are. About the marvel that must be seeing a part of you simply sprout it's own conscience and run around on it's own. About witnessing the formation of a conscience, of a being, of a universe of fantasy within that child's mind. I really do want to have children some day...

But that's not exactly what the metaphor in that movie was about, right?

terça-feira, janeiro 04, 2005

Pequeno momento de medo do futuro distante

Ouvindo Marina Lima. Aquela coisa deliciosamente deprê.

Uma profecia recorrente me vem à cabeça quando penso nela. Alguém escreveu em algum blog que viu ela em um programa de TV e que ela estava atualmente toda mística, esotérica, religiosa. Então penso que as músicas que eu escuto dela são visceralmente mundanas, sobre o lado violento e cáustico do amor, de uma época anterior a isso. E que ela passou algum (longo) tempo recuperando-se de profunda depressão, sem dúvida causada por se aprofundar tanto nesse tipo de estética deliciosamente deprê. A mesma estética que eu adoro, que eu procuro (apesar de 2005 estar apontando para outros rumos...). Então fico pensando se algum dia, o aprofundar-me tanto nessas coisas bizarras e macabras ou nesse lado deprê do amor vai me levar a um desses profundos estados de depressão do qual eu só conseguirei sair se recorrer à irracionalidade religiosa. Tenho medo. Medo de acabar assim. Porque me dá uma pena dessas pessoas que escolheram a ignorância dogmática em detrimento da realidade, por mais psicologicamente suicida que ela seja.

Tenho medo. Medo de acabar assim. Prefiro enlouquecer até ficar inconsciente a fugir das coisas desse jeito.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Sobre 2004

- Me formei da faculdade de artes e coloquei minha carreira de arte em coma.
- Me fiz de completo idiota nas primeiras entrevistas de emprego.
- Aprendi que isso não é o fim do mundo e ainda pode valer bons contatos.
- Aprendi a não ter medo de programas novos de computador e isso abriu toda uma nova gama de possibilidades.
- Aprendi Flash, Quark e InDesign no mesmo ano... E um pouco que Excel também.
- Fiz as pazes com a tecnologia. Hoje nos falamos bastante, mas um ainda desconfia do outro...
- Aprendi assim a viver um pouco mais as possibilidades do "hoje" e não dizer tanto que eu nasci na época errada.
- Graças a tudo isso, me viciei em noites na lan house, Desert Combat e Raven Shield.
- Aprendi que nenhum contato de publicidade dura muito tempo em uma empresa. Principalmente as grandes.
- Aprendi que nem todos os conselhos do meu pai quanto a carreira, empresas e entrevistas são válidos.
- Passei um mês telefonando todo dia para um importante publicitário que minha avó conhecia e sendo passado para o dia seguinte.
- Aprendi que, como diz o Luli, os contatos mais próximos de você não vão te conseguir o primeiro emprego e que a chance é bem maior com contatos superficiais.
- Consegui meu primeiro estágio graças ao Luli.
- Desisti do meu primeiro estágio graças a um chefe falido.
- Tracei todos os paralelos imagináveis e bizarros entre emprego e relacionamentos amorosos.
- Tive meu ego massageado quando um diretor de arte de uma empresa média chamou toda a galera pra ver meu portfólio porque são raros os da minha geração que desenham a mão e sem a ajuda de computadores. Depois ele contratou outra dessas raridades e eu continuei sem emprego...
- Consegui meu segundo estágio e me aliviei ao ver que essa carreira ainda podia ser legal.
- Tive meu ego inflado ao máximo ao ser imediatamente contratado por uma outra pequena empresa sem precisar estagiar graças à mesma capacidade ressaltada pelo diretor de arte da empresa média.
- Tomei os primeiros sustos de lidar com burocracia empregatícia.
- E outros sustos de lidar com ganhos e despesas adultas.
- Me impressionei ao observar as verdades do universo da infidelidade masculina...
- Conheci redatores e diretores de arte incríveis.
- Aliás, percebi que estes dois tipos de pessoa têm estilos bem delineados, quase arquetípicos. Ainda faço um post sobre isso.
- Por meio desses que conheci, descobri os apuros dos quais eu escapei não sendo contratado por aquele diretor de arte da empresa média...
- Tive algumas das aulas mais elucidativas sobre a época atual que já tive na vida.
- Voltei a escrever um pouco
- Voltei à terapia com outra psicóloga incrível
- Voltei a sentir a sickness, mas com muito mais armas para enfrentá-la.
- A sickness voltou porque peguei a maior intoxicação alimentar da paróquia e voltei a prestar atenção em todas as coisas que eu estava conseguindo ignorar.
- Aprendi, graças à psicóloga, como esse negócio funciona e todo o issue que eu tenho com secreções e coisas do corpo.
- Voltei a pensar em suicídio.
- Me curei dos pensamentos suicidas... por enquanto.
- Pensei muito na Lee e morri de saudades. De tudo. Tem dilemas em que, não importa a escolha, você vai pensar em como teria sido a outra possibilidade...
- Conheci Helena Felts graças ao trabalho do meu pai.
- Conheci os amigos da Lena e percebi que o punk/gótico de hoje não é mais violento e destrutivo como era antigamente. Ainda bem...
- Conheci Persephone graças à viagem da Chebel.
- Encontrei vários links bizarros e ótimos de coisas macabras que eu adoro, graças à Persephone
- Desviciei da lan house, Desert Combat e Raven Shield.
- Percebi que preciso aprender MUITO mais sobre design. Que é parecido com desenho, mas menos objetivo.
- Percebi que preciso mudar meu estilo de vestir. Urgentemente.
- Percebi que a Tinkerbel tem uma resistência maior que a minha a coisas relacionadas a tecnologia. Principalmente a internet.
- Vi o fim do blog da Jolina com muita pena.
- Encontrei muitos webcomics interessantes e alguns... bem... nem tanto.
- Mudei o layout do meu blog graças a ter feito as pazes com a tecnologia e inclui um monte de detalhes hi-tech interessantes graças ao Iraê / Thelus.
- Percebi o quão pentelhas são musiquinhas em loop....
- Descobri o MSN e o modo como ele come boa parte do seu tempo livre, mas ainda assim é viciante e um ótimo meio de comunicação.
- Descobri Groove Armada, Moby e Buddha Bar e estou com vontade de procurar outras coisas semelhantes. Lounge music é o que há.
- Percebi que preciso me informar muito mais sobre as coisas pertinentes à minha carreira. Don`t we all?
- Precebi que pra organizar viagens com a turma, tenho que marcar uma data e dane-se quem não puder ir: fica para a próxima vez.
- Acordei minha carreira de arte do coma e prometi pra ela que vou tentar exercê-la durante o ano que vem.
- Voltei a me viciar em lan house, Desert Combat e Raven Shield.
- Aprendi a jogar mexe-mexe.
- Fiz novas considerações não publicadas aqui sobre o amor. Mas isso é só pra mim mesmo.
- Finalmente, descobri o quão ótimas são viagens para o meio do mato.
- Só não recomendo para o reveillon, porque os fogos e a festa realmente fazem falta ("Feliz 2005! Vamos dormir...").

E para 2005?


- Mais viagens para o meio do mato, com quem quiser se aventurar.
- Rapel, arvorismo e tudo que eu puder fazer nessas aventuras.
- Circo. Muito circo. E exercício físico em geral, porque não aguento mais esse corpo de quinze anos de idade e não quero ser um publicitário gordo.
- Mudança de estilo é sempre bom.
- Me preocupar um pouco menos com o que todo mundo acha ou gosta que eu faça/use/diga/seja e ser um pouco mais eu. É um processo gradativo, que têm acontecido ao longo dos anos.
- Chegar a um nível competitivo de habilidade na minha área de trabalho.

Lembre-se: isso não é promessa de ano novo porque esse tipo de promessa comigo mesmo eu nunca cumpro. Digamos que são... possibilidades.

2005: And where does the offspring go from here?

I dubbed 2004 The Year of Awakening. It was a year in which I graduated from one of my university courses and had enough time in my hands to start looking for work. A year to make everything I had been preparing during these 22 years count. And so I got a job and went through all that process of settling in, getting my bearings, and understanding how my new life works. I felt like a small creature hatching from an egg: everything was new, rather dangerous and exremely decisive. I was eager to put my abilities to the test.
Now 2004 is over and 2005 has begun. Having hatched out of the universitary egg and adjusted to the outside world, I look at everything with a strong sense of possibility, expressed in that question the final character in Ghost in the Shell asks: "and where does the offspring go from here?"

If I were to give this year a name, it would be The Year of Metamorphosis. "Change" is merely going from one state to another. "Metamorphosis" implies maturity. It implies becoming something bigger, better, faster and stronger than the present state.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Random Literature

Although they did agree on mostly everything, it was one difference in particular that spawned many a tender moment between them: she was terrified of lightning storms, whereas he found them to be one of the most beautiful phenomena in nature. See, both of them were taken by the sublimeness of it. But where it seemed to be too much for her to bear, it was all he could ask for.

When the summer rain would come upon their home, wrecking havoc on the power lines and leaving them in the dark, she would run to him and burry her face on his chest, listening to his heart beat faster with the exhilataion. She`d try to concentrate on that sound, to make it louder than the booming outside and she`d shut her eyes as tight as possible, trying to ignore the flicker of light that announced another upcoming thunder. and the horrific thought that one of those could actually hit them. He would just stare out the window, at the rain and the cracks in the sky, taking into himself all the raw greatness of it, as if God Himself were entertaining him. He watched it all with an absent-mindedness, as if there wasn`t the slightest chance of them being hit by all that power. As if, somehow, they weren`t even there. It filled him with energy, it marveled him. But above all, it gave him a desire to create something out of it. To marvel others in the same way. There was a sense that this desire to create would be expressed by his hands. His hands as outlets. His hands that held her in those moments. And it was as if this connection acted as a filter for her. A purifier. As if he would take in all the intensity of the storm and feed off of it, and then pass it on to her as a softer thing, a softer sound. Each thunderstrike divided into dozens of beats of his heart. With them, he would offer her the kind of wonder and strange peace he found watching the storm. And she would eventually calm down indeed.

These sessions of stormwatching would last `til the end of the storm, or until they were both overcomed by a forlorn desire to sleep. Possibly the tiresome aftereffect of dealing with so much energy. The`d drift into dreamless unconsciousness and would wake only when the clouds parted.

domingo, dezembro 26, 2004

Mais um daqueles momentos "Ah! Só agora que eu entendi..."

A cena do Matrix virou um clássico. Morpheus senta na cadeira de couro surrado e, na penumbra meio deprê da sala, oferece a Neo duas pílulas: uma azul e outra vermelha. E só agora me vem à cabeça que uma boa quantidade de ansiolíticos são pílulas azuis e que a categoria desses remédios é chamada em geral de pílulas azuis. E o que são ansiolíticos, você pergunta?

*inspirando ar para falar de uma vez...*

Tipo de medicamento usados para combater estados de tensão do paciente. Os ansiolíticos são considerados tranquilizantes e viram drogas ao serem utilizadas por conta própria. Também ativam no cérebro o que os bioquímicos chamam de "Circuito de Recompensa", liberando mais dopamina, o que reforça o consumo. Portanto, viciam.

Ou seja, Morpheus oferece a Neo algo para fazer ele ficar calminho, calminho, esquecer toda a revolta que sente pela "realidade" (e que muitos de nós sentimos...) e viver sua vida na ignorância. Chega a ser cômico, não?

Sim, você já ouviu falar de um ou outro destes. Os mais conhecidos são Valium (que é uma pílular azul bebê...) e o Lexotan (que é rosa).

Não sei o que veio primeiro, a cena do filme ou a denominação para este tipo de remédio... Mas fica claro que um influenciou o outro.