Li hoje a notícia de que Suzane Louise von Richtofen foi solta graças a um habeas corpus concedido pelo STJ. O fato me interessou tanto que procurei a notícia em diversos jornais, para obter o máximo de informação possível.
Por que o interesse? Diversas razões. Primeiramente, óbvio, pelo meu interesse mórbido por distúrbios mentais: como uma garota planeja e ajuda no assassinato dos pais sem hesitar, sentindo remorso apenas dias depois? Depois também, pelas suposições errôneas da opinião pública, que volta todo seu ódio em direção à garota. Mas... não foram os irmão Cravinhos, um deles namorado dela, que mataram os pais da menina? Ela não é, de fato, a "assassina" que a aglomeração de pessoas na frente do presídio gritava durante sua soltura. Ela não tem as mãos sujas de sangue, nem o trauma psicológico de abrir a cabeça de outro ser humano a pauladas. Ela foi sim uma patricinha ignóbil, levada pela sedução de soluções simples e, na minha opinião, sugeridas pelo namorado. Ela foi a facilitadora, não a assassina. Mas concordo, gritar "facilitadora de assassinato!" enquanto se atira uma pedra no portão do presídio, além de muito longo, não tem o mesmo impacto, certo? No mais, entendo que a revolta da população tem mais a ver com o fato dela ser loira, linda e rica e estar saíndo da cadeia mesmo depois do que fez, enquanto ladras de remédio e comida negras, feias e pobres são mantidas lá. Enquanto o namorado pé-rapado fica atrás das grades. Um advogado dizia, em um dos jornais que li, que ela conseguiu o habeas corpus não por ser rica, mas porque no caso dela, a justica foi aplicada corretamente (caso complexo, mas entendi que a lei diz que ninguém pode ficar encarcerado indefinidamente em prisão preventiva). Respondo dizendo que uma coisa não exclui a outra: a justiça só foi "aplicada corretamente" porque a família dela tinha dinheiro para pagar um bom advogado. Aliás, é impressionante que sequer paguem o advogado para ela, depois do que ela fez...
No entanto, um dos aspectos que mais me fascina, de um ponto de vista igualmente mórbido, é que as diversas peças que compõe o roteiro deste filme de Richtofen podem ser vistas frequentemente na vida de qualquer pessoa de classe média-alta. Sim, há um mínimo de identificação nessa história. Eu mesmo já tive amigos que tiveram em suas mãos armas de fogo similares àquela encontrada dentro do urso de pelúcia da garota. Passei quatro anos em uma faculdade cheia de potenciais Suzanas, facilmente seduzíveis por dinheiro, soluções fáceis e besteiras auto-gratificantes (pra lembrar uma certa suspensão temporária de moral...). Patricinhas que claramente tinham uma noção de valores das coisas completamente deturpada, valorizando futilidades como chapinha, celular e Orkut em detrimento de coisas muito mais relevantes (Pais, por exemplo?). Total e completa falta de noção. Isso sem falar em quantos casos de namoro terminados por causa de pais discordantes (eu mesmo tive um...). Enfim, as peças estão por aí, claras e presentes. Peças que, separadas, não significam muita coisa. Calhou, para Suzana que todas elas se juntassem na mesma história.
Conversando com o Lala's sobre o assunto, ele mencionou como é surreal o fato desta ser a classe social com maior instrução. Chegamos juntos à conclusão de que, embora tenham sim maior acesso à instrução, isso não os torna mais inteligentes. Pelo contrário, de acordo com o fenômeno que já mencionei em outro post, a falta de adversidades, a facilidade da vida, torna-os mais brutos, torpes e mentalmente aberrantes.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
quinta-feira, junho 30, 2005
Sim, pessoas: eu sei desse espaço medonho.
Mas infelizmente, ainda não sei como concertá-lo ou que parte do meu template está errada. Estou vendo isso com a galera que entende do asssunto, mas até agora ninguém conseguiu encontrar uma solução. Tenham paciência...
Hai Kais from the Edge
Preciso da coragem do menino de rua:
Calejado de pedir esmola
Pede o beijo sem medo do fora.
Calejado de pedir esmola
Pede o beijo sem medo do fora.
quarta-feira, junho 29, 2005
Is this the dawn of change?
Neste exato momento, mais um da empresa está indo embora. Friso o fato de ser mais um dos jovens. Friso ainda mais o fato de ser alguém cujo o trabalho era mais relevante, mais produtivo e, porque não dizer, mais "frequente" do que o meu. E obviamente não vai ser a última pessoa antes da nossa mudança de sede. Gostaria de acreditar que é a qualidade do meu trabalho que me mantem aqui enquanto estas pessoas se vão. Mas há muito mais por trás disso.
Confesso: escrevo porque voltei a ter medo e o blog, nesses casos, é meio terapia...
Mas eis que devo ser fiel à minha censura. Então paro por aqui.
Confesso: escrevo porque voltei a ter medo e o blog, nesses casos, é meio terapia...
Mas eis que devo ser fiel à minha censura. Então paro por aqui.
It's Oscar night!
Ontem à noite foi dia das apresentações dos vídeos da minha turma.
Desde Março, nos foi dada a tarefa de produzir um curta-metragem. Tema livre. Não vou me alongar nos percalços, no fato de termos gravado em VHS para evitar depender do equipamento da faculdade e perdemos qualidade, só para perceber que o resto da turma deixou pra gravar no último mês e poderíamos ter usado o equipamento numa boa... C'est Brazil...
Apesar dos erros de principiante, do equipamento de projeção meio capenga e dos trabalhos feitos de última hora, vimos trabalhos muto bons. O Oscar de atuação, na minha opinião, vai para a turma de Flush, um curta sobre gangsters que armam um assalto que dá errado e, num jogo de pôquer, um deles descobre quem do grupo é o traidor que os delatou para a polícia. O Oscar de locação vai para A honra na verdade, filme inspirado nos recentes sucessos de ação chienses, como O Tigre e o Dragão: eles encontraram um templo budista em Cotia, perfeito para a gravação de um filme de época. Aliás, os atores falavam em chinês fluente, e o filme, obviamente, era legendado. Um dos meus favoritos. Essa equipe divide o Oscar de coreografia com outro dos meus favoritos, (Im)pulso, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. No filme, enquanto uma voz em off lê o poema, uma garota dança (espetacularmente bem, aliás), em um palco vazio. Há ainda uma sequência onírica de um tango onde ela faz par com outro dançarino igualmente talentoso. Me atrevo a dar o Oscar de "erros de gravação" para esse grupo também: vários passos de dança errados; equipe cansada xingando, falando pra rasgar o roteiro, a decupagem, tudo; atriz levantando o decote do vestido inúmeras vezes... hilário. Oscar de maquiagem para Hipnose, da turma da manhã, que fez um filme mudo, no melhor estilo pastelão, com influências do impressionismo alemão. Trocaram os atores: homens faziam papel de mulheres, mulheres de homens. Máquiagem exageradamente branca no rosto e bigodes e sobrancelhas de começo do século XX.
E o meu grupo? Modéstia aparte, nosso Obsolescência receberia o Oscar de direção de arte (dividido com a galera do filme chinês...) ou música, embora esse último seja meio subjetivo demais, muito dependente de gosto pessoal. Faria alguma menção ao roteiro, mas havia muitos roteiros bons por lá. Acho que essa estatueta vai ter que ser dividida.
Estou vendo um jeito de disponibilizar o vídeo na internet. Alguém conhece meios?
Desde Março, nos foi dada a tarefa de produzir um curta-metragem. Tema livre. Não vou me alongar nos percalços, no fato de termos gravado em VHS para evitar depender do equipamento da faculdade e perdemos qualidade, só para perceber que o resto da turma deixou pra gravar no último mês e poderíamos ter usado o equipamento numa boa... C'est Brazil...
Apesar dos erros de principiante, do equipamento de projeção meio capenga e dos trabalhos feitos de última hora, vimos trabalhos muto bons. O Oscar de atuação, na minha opinião, vai para a turma de Flush, um curta sobre gangsters que armam um assalto que dá errado e, num jogo de pôquer, um deles descobre quem do grupo é o traidor que os delatou para a polícia. O Oscar de locação vai para A honra na verdade, filme inspirado nos recentes sucessos de ação chienses, como O Tigre e o Dragão: eles encontraram um templo budista em Cotia, perfeito para a gravação de um filme de época. Aliás, os atores falavam em chinês fluente, e o filme, obviamente, era legendado. Um dos meus favoritos. Essa equipe divide o Oscar de coreografia com outro dos meus favoritos, (Im)pulso, baseado na obra homônima de Clarice Lispector. No filme, enquanto uma voz em off lê o poema, uma garota dança (espetacularmente bem, aliás), em um palco vazio. Há ainda uma sequência onírica de um tango onde ela faz par com outro dançarino igualmente talentoso. Me atrevo a dar o Oscar de "erros de gravação" para esse grupo também: vários passos de dança errados; equipe cansada xingando, falando pra rasgar o roteiro, a decupagem, tudo; atriz levantando o decote do vestido inúmeras vezes... hilário. Oscar de maquiagem para Hipnose, da turma da manhã, que fez um filme mudo, no melhor estilo pastelão, com influências do impressionismo alemão. Trocaram os atores: homens faziam papel de mulheres, mulheres de homens. Máquiagem exageradamente branca no rosto e bigodes e sobrancelhas de começo do século XX.
E o meu grupo? Modéstia aparte, nosso Obsolescência receberia o Oscar de direção de arte (dividido com a galera do filme chinês...) ou música, embora esse último seja meio subjetivo demais, muito dependente de gosto pessoal. Faria alguma menção ao roteiro, mas havia muitos roteiros bons por lá. Acho que essa estatueta vai ter que ser dividida.
Estou vendo um jeito de disponibilizar o vídeo na internet. Alguém conhece meios?
Formaturas fora de época
Tanto a dizer, tão pouco tempo.
Tivemos a nossa cerimônia de colação de grau e festa de formatura no sábado passado. Aliás, parabenizo imensamente o pessoal da OCTO Produções pelo ótimo trabalho, a organização, e por fazer desses eventos algo um pouco mais interessante do que aquelas festinhas maçantes que todo mundo já está acostumado a ir. Eles foram incríveis. Se tenho algo a reclamar, talvez, seria pelos poucos convites que eles permitiram a cada formando, e que me causaram um pequeno problema, ao ter que escolher quem da minha turma eu ia "descartar"... Mas compensou, porque a festa não estava lotada, tinha bastante espaço para todos.
Sim, eu estou ciente do paradoxo: ainda tenho no mínimo mais um semestre de faculdade pela frente, e já estamos fazendo colação e formatura. O fato é que são cerimônias mais simbólicas. É que, pelo sistema da USP, que permite adiar algumas matérias, muito não se formam com a turma que entraram na faculdade.
A colação foi ótima. Eles sugeriram que trouxessemos chepéus e coisas engraçadas para colocar na cabeça. Deu um ar mais debochado à solenidade e valeu boas fotos. Eu? Fui de chapéu de guaxinim (aquele com o rabinho listado, usado por caçadores americanos...) e nariz de palhaço. Mas teve menina com chapéu de paquita, um baixinho com um imenso chapéu de pirata, nosso orador com chapéu de malandro e paraninfo que pintou o cabelo de branco porque era muito jovem. Estou tentando conseguir o discurso do nosso orador, que foi maravilhoso, pra postar aqui.
Na festa, tivemos a tradicional valsa, que dancei com minha mãe, namorada e... namorada de novo. Novamente reforço que a organização estava impecável, com atendentes nos mostrando onde era a mesa e dois garçons para nos atender. Comes e bebes à vontade. Cada mesa tinha um balão de hélio como o nome do formando flutuando: forma fácil de achar cada mesa. Daí Piero teve a brilhante idéia de amarrar o balão em mim: forma fácil de não me perder na balada. E não é que funcionava mesmo? Assumi a brincadeira e passei a noite como um Sim (daquele jogo, "The Sims", lembra?), andando por aí com um indicador flutuando acima de mim. No fundo do salão, uma tela com fotos dos formandos. Meu retrato pintado, uma foto de mim quando bebê e alguns momentos memoráveis da USP. Lee apareceu na festa, para meu deleite. Afinal, comemorar meus anos de faculdade sem ela seria não comemorar uma das partes que mais vai ficar na memória. Ela aparecia em uma das fotos, que tiramos em Águas de São Pedro, em uma viagem memorável que fizemos há muito tempo com a Flávia (Blue-Eyed Teddy na época...). Suponho que Tink não tenha gostado muito da presença, mas não reclamou. Ela entendia a importância disso para mim. Nana apareceu (outra presença indispensável) e fotografou a festa (vide blog dela). Encontrei na festa até a Lilian (apelidada Blonde Muse na época...), a garota loira cuja foto tirei sem que percebesse para fazer um dos meus retratos. Enfim, a festa foi ótima! Só queria ter convidado mais gente.
Tivemos a nossa cerimônia de colação de grau e festa de formatura no sábado passado. Aliás, parabenizo imensamente o pessoal da OCTO Produções pelo ótimo trabalho, a organização, e por fazer desses eventos algo um pouco mais interessante do que aquelas festinhas maçantes que todo mundo já está acostumado a ir. Eles foram incríveis. Se tenho algo a reclamar, talvez, seria pelos poucos convites que eles permitiram a cada formando, e que me causaram um pequeno problema, ao ter que escolher quem da minha turma eu ia "descartar"... Mas compensou, porque a festa não estava lotada, tinha bastante espaço para todos.
Sim, eu estou ciente do paradoxo: ainda tenho no mínimo mais um semestre de faculdade pela frente, e já estamos fazendo colação e formatura. O fato é que são cerimônias mais simbólicas. É que, pelo sistema da USP, que permite adiar algumas matérias, muito não se formam com a turma que entraram na faculdade.
A colação foi ótima. Eles sugeriram que trouxessemos chepéus e coisas engraçadas para colocar na cabeça. Deu um ar mais debochado à solenidade e valeu boas fotos. Eu? Fui de chapéu de guaxinim (aquele com o rabinho listado, usado por caçadores americanos...) e nariz de palhaço. Mas teve menina com chapéu de paquita, um baixinho com um imenso chapéu de pirata, nosso orador com chapéu de malandro e paraninfo que pintou o cabelo de branco porque era muito jovem. Estou tentando conseguir o discurso do nosso orador, que foi maravilhoso, pra postar aqui.
Na festa, tivemos a tradicional valsa, que dancei com minha mãe, namorada e... namorada de novo. Novamente reforço que a organização estava impecável, com atendentes nos mostrando onde era a mesa e dois garçons para nos atender. Comes e bebes à vontade. Cada mesa tinha um balão de hélio como o nome do formando flutuando: forma fácil de achar cada mesa. Daí Piero teve a brilhante idéia de amarrar o balão em mim: forma fácil de não me perder na balada. E não é que funcionava mesmo? Assumi a brincadeira e passei a noite como um Sim (daquele jogo, "The Sims", lembra?), andando por aí com um indicador flutuando acima de mim. No fundo do salão, uma tela com fotos dos formandos. Meu retrato pintado, uma foto de mim quando bebê e alguns momentos memoráveis da USP. Lee apareceu na festa, para meu deleite. Afinal, comemorar meus anos de faculdade sem ela seria não comemorar uma das partes que mais vai ficar na memória. Ela aparecia em uma das fotos, que tiramos em Águas de São Pedro, em uma viagem memorável que fizemos há muito tempo com a Flávia (Blue-Eyed Teddy na época...). Suponho que Tink não tenha gostado muito da presença, mas não reclamou. Ela entendia a importância disso para mim. Nana apareceu (outra presença indispensável) e fotografou a festa (vide blog dela). Encontrei na festa até a Lilian (apelidada Blonde Muse na época...), a garota loira cuja foto tirei sem que percebesse para fazer um dos meus retratos. Enfim, a festa foi ótima! Só queria ter convidado mais gente.
terça-feira, junho 28, 2005
Final alternativo para o "Show de Truman"
Isso foi um exercício da aula de redação na faculdade.
Não vou postar o final original. Minha modificação começa na primeira fala de Truman. O começo da modificação ficou péssimo, mas depois fui endireitando...
Me apedrejem depois.
CHRISTOF
Truman, não há mais verdade lá fora
do que no mundo que eu criei para
você – as mesmas mentiras e trapaças. Mas
no meu mundo você não tem o que temer.
Truman parece considerar as possibilidades. Ele olha
para a foto de Sylvia em sua mão.
CHRISTOF
(repentinamente enraivecido)
Fale alguma coisa, droga! Você está na frente das
câmeras, ao vivo para o mundo!
INT. UM QUARTO EM ALGUM LUGAR. NOITE.
SYLVIA olha para a tela de TV como se fosse seu reflexo no espelho.
EXT. CICLORAMA. DIA.
TRUMAN hesita. Talvez ele realmente não consiga faze-lo. A câmera faz um zoom em seu rosto. Ele começa a chorar e deixa a foto de SYLVIA cair no oceano.
TRUMAN
Eu só quero ir para casa e esquecer tudo isso.
INT/EXT. TELESPECTADORES. NOITE
TELESPECTADORES abaixam seus olhos das televisões, visivelmente decepcionados, mas
ainda curiosos para saber o que vai acontecer. A esperança e inspiração que TRUMAN lhes causava parece morrer um pouco naquele momento.
FADE OUT
FADE IN
EXT. CASA DE TRUMAN. DIA.
TRUMAN sai de casa. Na porta, é cumprimentado por seu vizinho como acontece no começo do filme. Ele lança um olhar deprimido ao vizinho, entra no carro e dirige furiosamente para o trabalho.
INT. COMPANIA DE SEGUROS. DIA.
Plano de TRUMAN sentado em sua mesa. Não faz nada, não atende ligações. Pilhas de papel estão amontoadas em sua mesa. Os COMPANHEIROS DE TRABALHO lançam-lhe olhares furtivos mas não dizem nada.
INT. SALA DE CONTROLE. DIA
CHRISTOF senta-se na cadeira, olhando fixamente para a tela, para a expressão no rosto de Truman. Sua própria
expressão não está muito melhor: olheiras proeminentes, cabelo desarrumado e um ar de cansaço.
INT. BANHEIRO. NOITE.
TRUMAN se olha no espelho. Seu rosto está
sério, olheiras notáveis. Ele fica lá por algum tempo, olhando para o espelho como se soubesse da câmera que o observa. Então ele se aproxima ainda mais do espelho.
TRUMAN
(Em voz baixa, sussurrando)
Eu me fiz de idiota o tempo todo nesse espelho, não é?
E agora que eu sei que o que eu fizer aqui vai ser
televisionado para o mundo todo, eu não sei o que dizer.
Sejamos honestos: a ilusão foi quebrada. Não posso mais
ficar aqui e fingir que minha vida é comum, como a de vocês.
Assim que chegamos em um impasse. Eu não posso ficar aqui,
mas ao mesmo tempo...
INT. UM QUARTO EM ALGUM LUGAR. NOITE.
SYLVIA assiste ao monólogo de Truman pela televisão. Seu olhar é angustiado, como se ela soubesse que algo está para acontecer, que ele vai tomar alguma decisão drástica.
TRUMAN
(pela televisão)
... eu tenho pavor da mera idéia de sair daqui. Porque tudo é
tão falso mas ao mesmo tempo tão certo, seguro.
INT/EXT. TELESPECTADORES. NOITE
Diversos TELESPECTADORES em várias partes conversam, continuam seus afazeres. Fica aparente que o respeito e interesse que tinham por Truman acabou no momento em que ele se negou a sair da farsa.
TRUMAN
(pela televisão)
Essa ansiedade esteve me roendo durante este dia que se passou.
Eu não consigo mais fazer isso. Eu espero que vocês me perdoem
pelo que eu vou fazer e entendam. E crianças, não façam isso em casa...
INT. SALA DE CONTROLE. NOITE.
CHRISTOF, que estava vendo o monólogo de Truman, repentinamente levanta-se da cadeira, seus olhos fixos na tela. Não vemos o que ele vê, o que Truman está fazendo.
CHRISTOF
(ansioso)
Entrem na casa, detenham ele!
MOSES
Quem você quer que entre lá?
CHRISTOF
Tanto faz, qualquer um! Meu Deus!
Mandem uma equipe médica, rápido!
EXT. RUAS DE SEAHAVEN. NOITE
Uma ambulância percorre as ruas vazias da cidade em alta velocidade. As sirenes não estão tocando, apenas as luzes estão acesas. Dentro dela, os MÉDICOS conversam.
MÉDICO 1
Vocês são médicos de verdade, certo?
Não são apenas figurantes?
MÉDICO 2
Sim, eu sou. Fica meio difícil de saber depois
de tudo que tem acontecido. Você tem alguma
idéia do que ele fez dessa vez?
MÉDICO 3
Não sei o que foi, mas deve ter sido grave para
que enviassem uma equipe médica do estúdio em
vez dos personagens médicos do show.
INT/EXT. CASA DE TRUMAN. NOITE.
Os MÉDICOS empurram uma maca porta adentro da casa de Truman, a passos apressados. Seguimos a ponta da maca percorrendo o corredor, os médicos abrindo portas até a porta do banheiro de Truman. Marlon está do lado da porta, agachado no chão e encostado na parede. O rosto esconddido nas mãos, em desespero. Quando os médicos chegam, ele levanta o rosto para olhá-los.
MARLON
(lágrimas no olhos)
Vocês demoraram tanto. Tudo sempre foi muito planejado
e executado com precisão. Por que vocês demoraram tanto?
INT. BANHEIRO. NOITE.
A tomada parece ser de alguma câmera colocada em um dos cantos da parede. Como uma câmera de segurança, esta tem uma visão geral do banheiro, vista de cima para baixo. Os MÉDICOS entram a passos lentos, a expressão de quem sabe que errou e que tudo está perdido. No fundo do banheiro, o rosto pálido de TRUMAN aparece, a cabeça encostada na borda da banheira. A água é vermelha. Na pia, uma lâmina de barbear ensanguentada.
INT/EXT. VÁRIOS LUGARES. NOITE.
Os TELESPECTADORES interrompem suas conversas, seus afazeres, e olham fixamente para a TV.
INT. UM QUARTO EM ALGUM LUGAR. NOITE.
SYLVIA agarra com as duas mãos a TV, como se estivesse prestes a mergulhar através da tela para dentro do banheiro de Truman. Ela não quer acreditar no que vê. Com a boca aberta, tentando em vão gritar, ela chora em frente à TV, olhando para o rosto de Truman.
INT. SALA DE CONTROLE. NOITE.
CHRISTOF desaba na cadeira, igualmente boquiaberto. A equipe dentro da sala de controle mostra frustração, tristeza. Jogam seus fones de ouvido no chão em sinal de raiva.
FADE OUT.
FADE IN.
EXT. OCEANO/CICLORAMA. DIA.
A sequência final é uma movimentação de câmera através da porta pela qual Truman nunca entrou. A câmera se aproxima, a porta abre e a visão é envolta na escuridão do outro lado, momentaneamente. Uma luz surge da esquerda e a câmera vira em direção a ela, percorrendo um corredor com paredes de cimento e tubulações diversas. O corredor é logo e, até chegar na luz, ouvimos transmissões de rádio e TV. São repórteres comentando sobre os desdobramentos do ato de Truman.
REPÓRTER 1 (Mulher)
--O surto depressivo de Truman Burbank e sua
consequente morte suscitaram uma avalanche de
dados sobre comportamento humano que estão
sendo analisados por diversos psicólogos pelo país
e no exterior. "Nunca tivemos um acesso tão direto
à psique e ao passado de um indivíduo como no caso
do Sr. Burbank", comentou ontem o Doutor --
REPÓRTER 2 (Homem)
-- debatem hoje se e como processar o criador do
famoso show que cativou a nação por trinta anos.
Estudiosos de direito alegam que o diretor do programa
não podia prever o acontecimento da morte de Truman Burbank,
seu principal personagem. Além disso, questionam as
alegações feitas por alguns advogados de que a equipe
do programa teria orquestrado a morte de seu personagem
depois que ele descobriu a natureza de sua existência.
Finalmente, a câmera atravessa o clarão de luz na outra ponta do corredor e surge em um estacionamento gigantesco, do lado de fora do estúdio contruído para o programa. Lá, uma multidão de fãs e jornalistas está reunida para prestar as homenagens a Truman enquanto ouvimos o último repórter.
REPÓRTER 3 (Mulher)
Milhares de pessoas se reuniram hoje do lado de fora do estúdio
onde foi gravado por trinta anos o show de Truman. Eles vieram
prestar homenagem ao personagem tão querido. A morte de
Truman Burbank dividiu os telespectadores entre os que acreditam
sua decisão foi trágica e exagerada, e os que acham que, dentro da
situação, foi a única opção. A cerimônia do velório acontecerá nesta
quarta-feira, na igreja de --
A camera aponta para o céu limpo, com poucas núvens e para o sol.
FADE OUT.
MONTAGEM /CRÉDITOS
Melhores momentos de "Truman - Regitro Completo de uma Vida Humana" começam a passar.
FADE OUT.
Não vou postar o final original. Minha modificação começa na primeira fala de Truman. O começo da modificação ficou péssimo, mas depois fui endireitando...
Me apedrejem depois.
CHRISTOF
Truman, não há mais verdade lá fora
do que no mundo que eu criei para
você – as mesmas mentiras e trapaças. Mas
no meu mundo você não tem o que temer.
Truman parece considerar as possibilidades. Ele olha
para a foto de Sylvia em sua mão.
CHRISTOF
(repentinamente enraivecido)
Fale alguma coisa, droga! Você está na frente das
câmeras, ao vivo para o mundo!
INT. UM QUARTO EM ALGUM LUGAR. NOITE.
SYLVIA olha para a tela de TV como se fosse seu reflexo no espelho.
EXT. CICLORAMA. DIA.
TRUMAN hesita. Talvez ele realmente não consiga faze-lo. A câmera faz um zoom em seu rosto. Ele começa a chorar e deixa a foto de SYLVIA cair no oceano.
TRUMAN
Eu só quero ir para casa e esquecer tudo isso.
INT/EXT. TELESPECTADORES. NOITE
TELESPECTADORES abaixam seus olhos das televisões, visivelmente decepcionados, mas
ainda curiosos para saber o que vai acontecer. A esperança e inspiração que TRUMAN lhes causava parece morrer um pouco naquele momento.
FADE OUT
FADE IN
EXT. CASA DE TRUMAN. DIA.
TRUMAN sai de casa. Na porta, é cumprimentado por seu vizinho como acontece no começo do filme. Ele lança um olhar deprimido ao vizinho, entra no carro e dirige furiosamente para o trabalho.
INT. COMPANIA DE SEGUROS. DIA.
Plano de TRUMAN sentado em sua mesa. Não faz nada, não atende ligações. Pilhas de papel estão amontoadas em sua mesa. Os COMPANHEIROS DE TRABALHO lançam-lhe olhares furtivos mas não dizem nada.
INT. SALA DE CONTROLE. DIA
CHRISTOF senta-se na cadeira, olhando fixamente para a tela, para a expressão no rosto de Truman. Sua própria
expressão não está muito melhor: olheiras proeminentes, cabelo desarrumado e um ar de cansaço.
INT. BANHEIRO. NOITE.
TRUMAN se olha no espelho. Seu rosto está
sério, olheiras notáveis. Ele fica lá por algum tempo, olhando para o espelho como se soubesse da câmera que o observa. Então ele se aproxima ainda mais do espelho.
TRUMAN
(Em voz baixa, sussurrando)
Eu me fiz de idiota o tempo todo nesse espelho, não é?
E agora que eu sei que o que eu fizer aqui vai ser
televisionado para o mundo todo, eu não sei o que dizer.
Sejamos honestos: a ilusão foi quebrada. Não posso mais
ficar aqui e fingir que minha vida é comum, como a de vocês.
Assim que chegamos em um impasse. Eu não posso ficar aqui,
mas ao mesmo tempo...
INT. UM QUARTO EM ALGUM LUGAR. NOITE.
SYLVIA assiste ao monólogo de Truman pela televisão. Seu olhar é angustiado, como se ela soubesse que algo está para acontecer, que ele vai tomar alguma decisão drástica.
TRUMAN
(pela televisão)
... eu tenho pavor da mera idéia de sair daqui. Porque tudo é
tão falso mas ao mesmo tempo tão certo, seguro.
INT/EXT. TELESPECTADORES. NOITE
Diversos TELESPECTADORES em várias partes conversam, continuam seus afazeres. Fica aparente que o respeito e interesse que tinham por Truman acabou no momento em que ele se negou a sair da farsa.
TRUMAN
(pela televisão)
Essa ansiedade esteve me roendo durante este dia que se passou.
Eu não consigo mais fazer isso. Eu espero que vocês me perdoem
pelo que eu vou fazer e entendam. E crianças, não façam isso em casa...
INT. SALA DE CONTROLE. NOITE.
CHRISTOF, que estava vendo o monólogo de Truman, repentinamente levanta-se da cadeira, seus olhos fixos na tela. Não vemos o que ele vê, o que Truman está fazendo.
CHRISTOF
(ansioso)
Entrem na casa, detenham ele!
MOSES
Quem você quer que entre lá?
CHRISTOF
Tanto faz, qualquer um! Meu Deus!
Mandem uma equipe médica, rápido!
EXT. RUAS DE SEAHAVEN. NOITE
Uma ambulância percorre as ruas vazias da cidade em alta velocidade. As sirenes não estão tocando, apenas as luzes estão acesas. Dentro dela, os MÉDICOS conversam.
MÉDICO 1
Vocês são médicos de verdade, certo?
Não são apenas figurantes?
MÉDICO 2
Sim, eu sou. Fica meio difícil de saber depois
de tudo que tem acontecido. Você tem alguma
idéia do que ele fez dessa vez?
MÉDICO 3
Não sei o que foi, mas deve ter sido grave para
que enviassem uma equipe médica do estúdio em
vez dos personagens médicos do show.
INT/EXT. CASA DE TRUMAN. NOITE.
Os MÉDICOS empurram uma maca porta adentro da casa de Truman, a passos apressados. Seguimos a ponta da maca percorrendo o corredor, os médicos abrindo portas até a porta do banheiro de Truman. Marlon está do lado da porta, agachado no chão e encostado na parede. O rosto esconddido nas mãos, em desespero. Quando os médicos chegam, ele levanta o rosto para olhá-los.
MARLON
(lágrimas no olhos)
Vocês demoraram tanto. Tudo sempre foi muito planejado
e executado com precisão. Por que vocês demoraram tanto?
INT. BANHEIRO. NOITE.
A tomada parece ser de alguma câmera colocada em um dos cantos da parede. Como uma câmera de segurança, esta tem uma visão geral do banheiro, vista de cima para baixo. Os MÉDICOS entram a passos lentos, a expressão de quem sabe que errou e que tudo está perdido. No fundo do banheiro, o rosto pálido de TRUMAN aparece, a cabeça encostada na borda da banheira. A água é vermelha. Na pia, uma lâmina de barbear ensanguentada.
INT/EXT. VÁRIOS LUGARES. NOITE.
Os TELESPECTADORES interrompem suas conversas, seus afazeres, e olham fixamente para a TV.
INT. UM QUARTO EM ALGUM LUGAR. NOITE.
SYLVIA agarra com as duas mãos a TV, como se estivesse prestes a mergulhar através da tela para dentro do banheiro de Truman. Ela não quer acreditar no que vê. Com a boca aberta, tentando em vão gritar, ela chora em frente à TV, olhando para o rosto de Truman.
INT. SALA DE CONTROLE. NOITE.
CHRISTOF desaba na cadeira, igualmente boquiaberto. A equipe dentro da sala de controle mostra frustração, tristeza. Jogam seus fones de ouvido no chão em sinal de raiva.
FADE OUT.
FADE IN.
EXT. OCEANO/CICLORAMA. DIA.
A sequência final é uma movimentação de câmera através da porta pela qual Truman nunca entrou. A câmera se aproxima, a porta abre e a visão é envolta na escuridão do outro lado, momentaneamente. Uma luz surge da esquerda e a câmera vira em direção a ela, percorrendo um corredor com paredes de cimento e tubulações diversas. O corredor é logo e, até chegar na luz, ouvimos transmissões de rádio e TV. São repórteres comentando sobre os desdobramentos do ato de Truman.
REPÓRTER 1 (Mulher)
--O surto depressivo de Truman Burbank e sua
consequente morte suscitaram uma avalanche de
dados sobre comportamento humano que estão
sendo analisados por diversos psicólogos pelo país
e no exterior. "Nunca tivemos um acesso tão direto
à psique e ao passado de um indivíduo como no caso
do Sr. Burbank", comentou ontem o Doutor --
REPÓRTER 2 (Homem)
-- debatem hoje se e como processar o criador do
famoso show que cativou a nação por trinta anos.
Estudiosos de direito alegam que o diretor do programa
não podia prever o acontecimento da morte de Truman Burbank,
seu principal personagem. Além disso, questionam as
alegações feitas por alguns advogados de que a equipe
do programa teria orquestrado a morte de seu personagem
depois que ele descobriu a natureza de sua existência.
Finalmente, a câmera atravessa o clarão de luz na outra ponta do corredor e surge em um estacionamento gigantesco, do lado de fora do estúdio contruído para o programa. Lá, uma multidão de fãs e jornalistas está reunida para prestar as homenagens a Truman enquanto ouvimos o último repórter.
REPÓRTER 3 (Mulher)
Milhares de pessoas se reuniram hoje do lado de fora do estúdio
onde foi gravado por trinta anos o show de Truman. Eles vieram
prestar homenagem ao personagem tão querido. A morte de
Truman Burbank dividiu os telespectadores entre os que acreditam
sua decisão foi trágica e exagerada, e os que acham que, dentro da
situação, foi a única opção. A cerimônia do velório acontecerá nesta
quarta-feira, na igreja de --
A camera aponta para o céu limpo, com poucas núvens e para o sol.
FADE OUT.
MONTAGEM /CRÉDITOS
Melhores momentos de "Truman - Regitro Completo de uma Vida Humana" começam a passar.
FADE OUT.
sexta-feira, junho 24, 2005
E.R.
Atualmente, a única coisa que assisto na TV é E.R.. A série é uma das favoritas da minha mãe, pelo aspecto médico da coisa, mas também pelos personagens. Eu acabo ficando mais com os personagens e os casos bizarros de desvios de comportamento ou toda a estética das mutilações e instrumentos hospitalares.
Escrevi há algum tempo um post fazendo uma das minha famosas comparações bizarras entre o Lala's e o Dr. Greene. Tanto por aspectos visuais e, digamos, "lustrosos", quanto por aspectos da personalidade. Ontem, vendo um dos capítulos, reconheci em Abby Lockhart um pouco de outra colega de trabalho, Mariana. Da mesma forma, em parte por causa do comportamento, em parte por causa da aparência. Há algo similar na boca de ambas e no olhar, que parece sempre exausto. Aí me pergunto: quem sou eu lá dentro? Duvido que Egon Schiele se enquadrasse na história.
No final do capítulo de ontem, após circunstâncias complicadas, Abby terminou o capítulo comprando uma garrafa de whisky no supermercado. Levada pelo stress do desaparecimento do irmão, ela retorna ao velho vício do álcool após meses de abstinência. O olhar que ela lança para a garrafa lembrou-me de mim mesmo. Olhando para o computador em casa, onde instalei há pouco tempo um jogo antigo, voltando para meu velho vício do jogo após meses de abstinência. É um olhar de fraqueza, de saber que o vício, pelo menos nesta noite, vai ser mais forte. Este aqui está me roendo alguns minutos de cada noite, que eu talvez devesse passar trabalhando em coisas mais relevantes. Mas me conheço, vou terminar o jogo em alguns dias e voltar à abstinência. Desta vez, quem sabe, durante mais tempo.
Escrevi há algum tempo um post fazendo uma das minha famosas comparações bizarras entre o Lala's e o Dr. Greene. Tanto por aspectos visuais e, digamos, "lustrosos", quanto por aspectos da personalidade. Ontem, vendo um dos capítulos, reconheci em Abby Lockhart um pouco de outra colega de trabalho, Mariana. Da mesma forma, em parte por causa do comportamento, em parte por causa da aparência. Há algo similar na boca de ambas e no olhar, que parece sempre exausto. Aí me pergunto: quem sou eu lá dentro? Duvido que Egon Schiele se enquadrasse na história.
No final do capítulo de ontem, após circunstâncias complicadas, Abby terminou o capítulo comprando uma garrafa de whisky no supermercado. Levada pelo stress do desaparecimento do irmão, ela retorna ao velho vício do álcool após meses de abstinência. O olhar que ela lança para a garrafa lembrou-me de mim mesmo. Olhando para o computador em casa, onde instalei há pouco tempo um jogo antigo, voltando para meu velho vício do jogo após meses de abstinência. É um olhar de fraqueza, de saber que o vício, pelo menos nesta noite, vai ser mais forte. Este aqui está me roendo alguns minutos de cada noite, que eu talvez devesse passar trabalhando em coisas mais relevantes. Mas me conheço, vou terminar o jogo em alguns dias e voltar à abstinência. Desta vez, quem sabe, durante mais tempo.
quarta-feira, junho 22, 2005
Inexistência
Me surpreendi recentemente, descobrindo na faculdade um colega que também não acreditava no conceito de "vida".
Preciso descobrir qual é a corrente filosófica para basear isso. Se é o nihilismo, o existencialismo, ou o puro ceticismo mesmo. Talvez um pouco de tudo. Falávamos de video game, de inteligência artificial e eventualmente chegamos no conceito de vida.
A idéia por trás dessa negação é bem simples: se não pode ser definido, será que sequer existe?
Muitos outros conceitos entram na jogada. Definir o que é vida é tão complicado quanto definir o que é arte, o que é alma ou mesmo o que é o amor. E embora eu use livremente o termo "arte" aqui, já apontei diversas vezes que hoje arte pode ser qualquer coisa mesmo. O que é similar a dizer que nada é de fato arte. Que não existe arte/alma/vida/amor. Porque, sempre que uma definição para essas coisas for dada, alguém surge com uma excessão à regra. Principalmente na arte onde, desde o movimento punk, só se valoriza o que for questionador, e portanto, qualquer regra postulada pede para ser quebrada. Posso não compreender o bastante de alma (por ser ateu), vida (por não ser biólogo/médico/etc) ou vida amor (por ser jovem demais...). Mas de arte, me arrisco a dizer que saiba o suficiente para esta conclusão.
O problema desses tipos de conceito é a necessidade que as pessoas têm de manter um certo aspecto místico, enigmático e indecifrável deles. Via de regra, as pessoas pedem, mas não querem uma definição para eles. Assim, qualquer definição apresentada (e aqui mesmo já tentei dar diversas definições de vários desses conceitos) vai ser negada veementemente, para manter esse caráter sublime, não importa o quão pertinente e abrangente for a definição. As pessoas não querem que algo tão supostamente "maior do que elas" seja simplificado, reduzido ao ponto do compreensível. Oras, simplificar as pessoas desse jeito as tornaria nada mais do que máquinas orgânicas (fleshcrafts), certo?
O que nos trás de volta à questão: se não pode ser definido, será que sequer existe? "Vida" é o nome que damos a este complexo fenômeno que ainda não conseguimos compreender ou reproduzir. A palavra é uma ferramenta para expprimir a nossa recusa em aceitar definições simplificadas. Pegamos tudo sobre o assunto que não entendemos e guardamos em um compartimento conceitual rotulado com uma palavra, para identificá-lo. E se um dia chegássemos a um ponto de tecnologia onde fosse possível reproduzir uma vida? Minha suposição: muitos duvidariam se de fato aquilo é uma "vida" simplesmente porque foi gerada artificialmente. E se aceitassem, outra suposição é de que a palavra "vida" seria substituída por algum outro nome, o nome do processo científico, talvez. Porque não precisaríamos mais chamar este fenômeno por um nome que significa, de certa forma, incompreensão. Não precisaríamos mais do compartimento conceitual rotulado. Poderíamos chamar as coisas dentro desse compartimento por seus devidos nomes. Complexo?
Preciso descobrir qual é a corrente filosófica para basear isso. Se é o nihilismo, o existencialismo, ou o puro ceticismo mesmo. Talvez um pouco de tudo. Falávamos de video game, de inteligência artificial e eventualmente chegamos no conceito de vida.
A idéia por trás dessa negação é bem simples: se não pode ser definido, será que sequer existe?
Muitos outros conceitos entram na jogada. Definir o que é vida é tão complicado quanto definir o que é arte, o que é alma ou mesmo o que é o amor. E embora eu use livremente o termo "arte" aqui, já apontei diversas vezes que hoje arte pode ser qualquer coisa mesmo. O que é similar a dizer que nada é de fato arte. Que não existe arte/alma/vida/amor. Porque, sempre que uma definição para essas coisas for dada, alguém surge com uma excessão à regra. Principalmente na arte onde, desde o movimento punk, só se valoriza o que for questionador, e portanto, qualquer regra postulada pede para ser quebrada. Posso não compreender o bastante de alma (por ser ateu), vida (por não ser biólogo/médico/etc) ou vida amor (por ser jovem demais...). Mas de arte, me arrisco a dizer que saiba o suficiente para esta conclusão.
O problema desses tipos de conceito é a necessidade que as pessoas têm de manter um certo aspecto místico, enigmático e indecifrável deles. Via de regra, as pessoas pedem, mas não querem uma definição para eles. Assim, qualquer definição apresentada (e aqui mesmo já tentei dar diversas definições de vários desses conceitos) vai ser negada veementemente, para manter esse caráter sublime, não importa o quão pertinente e abrangente for a definição. As pessoas não querem que algo tão supostamente "maior do que elas" seja simplificado, reduzido ao ponto do compreensível. Oras, simplificar as pessoas desse jeito as tornaria nada mais do que máquinas orgânicas (fleshcrafts), certo?
O que nos trás de volta à questão: se não pode ser definido, será que sequer existe? "Vida" é o nome que damos a este complexo fenômeno que ainda não conseguimos compreender ou reproduzir. A palavra é uma ferramenta para expprimir a nossa recusa em aceitar definições simplificadas. Pegamos tudo sobre o assunto que não entendemos e guardamos em um compartimento conceitual rotulado com uma palavra, para identificá-lo. E se um dia chegássemos a um ponto de tecnologia onde fosse possível reproduzir uma vida? Minha suposição: muitos duvidariam se de fato aquilo é uma "vida" simplesmente porque foi gerada artificialmente. E se aceitassem, outra suposição é de que a palavra "vida" seria substituída por algum outro nome, o nome do processo científico, talvez. Porque não precisaríamos mais chamar este fenômeno por um nome que significa, de certa forma, incompreensão. Não precisaríamos mais do compartimento conceitual rotulado. Poderíamos chamar as coisas dentro desse compartimento por seus devidos nomes. Complexo?
segunda-feira, junho 20, 2005
Momentos "The things people say" com o coven de Zion.
Apelidei o coven recém-descoberto de "Coven de Zion", devido à metáfora que eles mesmo usam para falar do assunto, referindo-se à própria realidade como se fosse Zion, e o mundo de aparências como se fosse a Matrix.
Passei o domingo com eles. Interessante desse tipo de gente é que eles soltam as melhores pérolas:
"Então, estou tendo um pseudo-caso com o Fulano lá da editora." diz a pessoa A
"Como assim, 'pseudo-caso'?" pergunta a pessoa B
Pessoa C intervém: "É assim: o 'caso' é dela, o 'pseudo' é do Fulano, que ainda não sabe do caso."
-----=-----
"Ela está se achando a bala que matou o Kennedy" dito por um indivíduo hilário, autor de outras expressões igualmente inusitadas como "voar de bata" (que pode significar qualquer coisa...) e a ainda mais enigmática palavra "Misanplê" (que eu obviamente devo ter escrito errado, mas que também pode significar qualquer coisa...)
-----=-----
"Ah, meu! Vai tomar no cu!" cospe A, em uma discussão.
"Meu bem, nós estamos brigando, não adianta tentar me agradar..." retruca o vampiro B.
Passei o domingo com eles. Interessante desse tipo de gente é que eles soltam as melhores pérolas:
"Então, estou tendo um pseudo-caso com o Fulano lá da editora." diz a pessoa A
"Como assim, 'pseudo-caso'?" pergunta a pessoa B
Pessoa C intervém: "É assim: o 'caso' é dela, o 'pseudo' é do Fulano, que ainda não sabe do caso."
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"Ela está se achando a bala que matou o Kennedy" dito por um indivíduo hilário, autor de outras expressões igualmente inusitadas como "voar de bata" (que pode significar qualquer coisa...) e a ainda mais enigmática palavra "Misanplê" (que eu obviamente devo ter escrito errado, mas que também pode significar qualquer coisa...)
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"Ah, meu! Vai tomar no cu!" cospe A, em uma discussão.
"Meu bem, nós estamos brigando, não adianta tentar me agradar..." retruca o vampiro B.
sexta-feira, junho 17, 2005
Achei Alice!
Quando ele trouxe para o trabalho um dia desses, não resisti e tomei uns minutinhos do dia pra ficar procurando em qual deles estava a menininha. Se você procurar no fotolog, vai ver uns dois desenhos (aqui e aqui) e uma imagem 3D (detalhe da garota aqui) de uma menininha andando por um mundo surreal. Minha Alice. Tem seu cabelo curto, cortado Channel, preto como noite. O vestido é rosa pastel. Ela surgiu inspirada em uma artista do Cirque du Soleil.
Encontrei a garotinha em Quidam, um show gravado em Amsterdam. Vestindo um macacão rosa, o chapéu azul que inicia a trama e com uma voz adulta travestida de pureza. De fato, fiquei na dúvida se tratava-se de uma mulher adulta, com os atributos físicos suprimidos de alguma forma para parecer uma criança, ou uma criança treinada à exaustão para soar como uma adulta. O rosto expressivo maquiado para potencializar ainda mais a expressão. E os trejeitos de doze anos teatrais de idade. Passei o resto do dia lembrando dela. Lembrando da voz. Re-inspirado para desenhar Alice. Até me fez reviver a idéia fixa de talvez começar um webcomic, como os da lista ao lado. Talvez, para não ser algo muito exaustivo, fazer um esquema como o do Bunny, de uma imagem só com algum significado surreal meio fora do alcance do leitor. E fazer uma por semana. Quem sabe...
quarta-feira, junho 15, 2005
Para minha psicologa
Bom psicólogo é aquele que reconhece que, em certos aspectos, você não tem solução. E não é porque ele não seja competente o suficiente. Você apenas é um caso complexo. Um avião sem motor indo direto em direção ao chão, uma granada rolando morro abaixo. Você é o prenúncio de uma possível catástrofe. O bom psicólogo apenas vai endireitar esse avião para o pouso forçado, dar uns toques nesse explosivo para que ele role para longe das criancinhas. O que quero dizer é, algumas situações não têm conserto e seria uma espécie de falsidade placêbica encontrar uma "cura". Mas dá pra pelo menos amenizar os danos e aprender a viver com elas. O bom psicólogo faz você aceitar suas peculiaridades e controlá-las, em vez de as evitar e reprimir.
terça-feira, junho 14, 2005
Dadaist revelation XV:
Em inglês, há uma palavra gostosa, um daqueles pronomes coletivos ("manada", "matilha", "bando") para definir um grupo de vampiros. Não vi até hoje uma tradução decente para o português. Pena. A palavra é coven.
Conhecia até então apenas um coven. No final da semana passada, conheci um segundo. Sem falar em alguns outros indivíduos sem grupo.
Isso merece pintura...
Conhecia até então apenas um coven. No final da semana passada, conheci um segundo. Sem falar em alguns outros indivíduos sem grupo.
Isso merece pintura...
A pedidos: Os Sonhadores
Pediram-me que escrevesse finalmente sobre Os Sonhadores, do Bertolucci, apesar de que, como falei, agora que estou pronto para escrever, a necessidade já passou.
Vale aqui o meu costumeiro aviso: se você não viu o filme, não leia. Considere-se avisado.
Acho que o filme só começa, de fato, depois que os três personagens principais (os irmãos Theo e Isabelle e o estudante Matthew) se conhecem, o que não demora a acontecer.
O relacionamento entre eles, no começo, me fascinou. Encontro muita satisfação em relacionamentos onde se chega a uma intimidade (tanto física quanto mental) muito grande muito rapidamente. E isso acontece muito raramente hoje em dia, quando as pessoas têm um medo transbordante de serem enganadas, traídas, maltratadas ou simplesmente julgadas. Me trouxe à lembrança a velocidade alucinante com a qual me tornei íntimo de Lee e toda a turma de jornalismo da universidade. E em seguida lembro da velocidade igualmente alucinante com a qual me tornei um completo desconhecido...
Há, no filme, uma abordagem toda interessante sobre nudez. Porque sim, choca em um primeiro momento ver atores masculinos em nu frontal e close. Principalmente para nós acostumados com a estética americana, que valoriza excessivamente o nú feminino e esconde com vergonha o masculino. Mesmo para um formado em artes plásticas como eu, que passou quatro anos lidando com essas coisas. É inesperado.
Mas à medida que o filme vai avançando e a nudez dos personagens é desfilada mais vezes, o choque passa e vou ficando um pouco mais confortável. Vou me tornando igualmente íntimo dos personagens. Ótimo recurso usado por Bertolucci. Me lembra do que escrevi aqui sobre nudez. Que pode-se banalizar a nudez de um corpo ao ponto em que ela não importará mais, não terá mais a natureza sexual da primeira vista. Que isso se faz pela utilização excessiva da imagem. Muito do sensual da nudez está naquela sensação de descoberta da primeira vista.
Gostei dos jogos que os irmão jogam um com o outro. Sou meio esnobe e adoro esses jogos de conhecimento. Se o assunto for pintura, melhor ainda. Tenho algum receio dos castigos meio pesados que eles se aplicavam, mas suponho que aumenta a adrenalina da coisa. A questão é: com quem jogar? Meus amigos mais íntimos não têm conhecimento suficiente de pinturas para o jogo, eu não tenho sobre cinema ou similares e as pessoas que conheço que têm conhecimento de pintura, não são suficientemente íntimas para isso... Desejos para o futuro.
Terminando o lado bom destes comentários, preciso falar das homenagens de Bertolucci. Dos pequenos recortes de filmes antigos em preto e branco que ele insere no filme e depois grava cenas idênticas, modernizadas. É como jogar o jogo dos irmãos com os personagens do filme. Perdi várias rodadas, mas consegui identificar o filme de Greta Garbo (Rainha Cristina), o Scarface e sabia do que se tratava o filme com as pessoas de circo deformadas... É uma maneira deliciosa de se fazer uma homenagem ao cinema como um todo.
Passando para o lado das inquietações (ou seja, nem por isso o lado ruim, apenas... perturbador).
Me senti igualmente enganado, traído... (nem palavras eu tenho para definir a sensação) quando, após a primeira transa entre Isabelle e Matthew, descobrimos que ela era virgem. Que entregou sua virgindade como castigo do jogo. É uma violência para mim, que pondero decisões trinta vezes, ver um ato inconsequente assim. Mas suponho que seja opinião pessoal minha mesmo... Depois, comecei a considerar a relação entre os irmãos. E que, embora atraia meu interesse por perversões sexuais pelo caráter incestuoso, Depois de um tempo revela-se apenas como uma imaturidade tremenda mesmo. Por fim, isso me levou a considerar os personagens dos irmãos em geral como personagens dolorosamente imaturos. Cercados de conhecimento e pais cultos e abastados, eles vivem do dinheiro dos pais, discutem futilidades filosóficas e obviamente não farão diferença alguma na história do mundo, passando de sua imaturidade ao esquecimento sem usar todo o potencial que possuem. Recordam-me de boa parte dos meus colegas do curso de artes. E me mostram um reflexo de mim mesmo...
A única atitude política que fazem no final do filme é igualmente inconsequente, trágica e infrutífera. Terminando o filme, tive a mais profunda pena e uma ponta de desdém por estes meus bons amigos.
segunda-feira, junho 13, 2005
For you people who read the newspaper comics...
I love it when the guys at VG Cats do this kind of thing....
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