sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Alice 15 e 16


A sign in the back of the booth said the admission fee was "all hope"
Uma placa no fundo da cabine dizia que o preço para passar era "toda a esperança"




When she ventured into the Blankness, Alice left behind almost everything she was
Quando ela entrou na Brancura, Alice deixou para tras quase tudo o que era


P.S.: SIM! Achei um Photohop e scanner por aqui e agora da pra colocar em dia a minha produçao de Alices! Hoje tem duas porque eu ja estou atrasado. Agora so faltaria eu achar um tablet. Mas ai ja é pedir demais... Vou pintar em aquarela mesmo.

Taking care of business

Começaram as aulas (na quarta, estou com um pouco de atraso no blog...).
Apesar de termos feito os testes de proficiencia e inscriçoes no Palazzo Gallenga (digam todos comigo: "é la em Gallenga" - agora digam-no mais rapido...), tenho aula em outro prédio, a uma meia hora de caminhada de onde estou morando, chamado Pallazzo Prosciutti (curiosiamente traduzido ao pé da letra para "Palacio Presuntos"). No primeiro dia, so consegui encontrar o lugar graças à ajuda de David, o canadense que faltava apresentar por aqui. Conheci-o faz poucos dias, quando finalmente apareceu em casa. Tem decendencia irlandesa, por isso fala rapido. Como Brad Pitt em Snatch (mas nao tao bonito...) ou o personagem brigao de Trainspotting (Begbie, eu acho...), às vezes beirando o ininteligivel. Ri muito e bebe muito café.
Enfim, tive a primeira aula. Tive aulas de gramatica e de cidadania italiana (um pouco de historia, um pouco de politica, costumes, etc...). Além de meus companheiros de casa (Hillis, Su e David, posso dizer que algumas pessoas da turma do curso ja fazem parte da minha historia por aqui: os personagens foram apresentados.
• Ken Shin (chines): rapaz pequeno, muito amistoso e com um italiano muito bom. Sempre procura conversa.
• Claire (australiana): inteligentissima, com um italiano de sotaque ingles.
• Karen (americana): negra que vive na Europa ha muitos anos, muito dedicada aos estudos e profunda conhecedora da politica do proprio pais.
• Laura (alema): baixinha e com cara de brava, mas é so a aparencia...
• Linnea (suéca): belissima, embora calada devido ao pouco italiano e ingles que conhece. Sempre o centro das atençoes.
• Natalia (paraguaia): mistura o espanhol e o italiano, mas tem um bom nivel da lingua local. Junto comigo, somos os que mais juntam e animam a galera.

Estranho dizer isso, eu sei. No Brasil, normalmente, sou reservado, calado, desinteressante. Aqui, algo aconteceu. Quiz vestir a fantasia do brasileiro alegre, falante, amistoso. Quiz mudar os traços pessoais que tanto estava começando a me incomodar.
E resolvi começar pela galera de casa. Ontem convidei-os todos para jantar em casa, pasta feita por mim. A minha infalivel gorgonzola nao ficou 100%, mas conquistou. O que realmente recebeu elogios foi o molho de salada turbinado que meu pai fazia. Da pra imaginar eu cozinhando por vontade propria?
Depois, sai com Hillis (os outros tinham outros planos para a noite...) para outra coisa inusitada: tinha convidado metade da minha turma da classe para ir ao bar brasileiro de Felipe logo no primeiro dia em que nos conhecemos. Os europeus acharam estranho toda essa intimidade tao cedo. Que bom... Assim sao os brasileiros. Pra mim, estranho era justo eu ter feito o convite, no meio de tanta gente do curso. Jamais teria feito isso no Brasil. Pretendo continuar fazendo quando voltar.

Tive medo que ninguém aparecesse. Que achassem tao estranho essa receptividade toda tao cedo, que desconfiassem. Talvez tivesse até um pouco de trauma das baladas de despedida frustradas. Mas estavam la. Nem todos, mas a enorme maioria. E mais: pontualissimos como bons europeus.

Combinei ainda de encontrar no bar ao Gabriele, filho de um italiano que trabalhou com meu pai. Chegou la com a namorada Federica. Ambos daqui de Perugia, muito legais e engraçados.

Fi-los experimentar a caipirinha (Hillis adorou, Gabriele tomou duas...), a Skol (Linnea experimentou... Mas tem melhor na Suécia...) e o samba. A banda nao era realmente uma banda: apenas um bando de rapazes cariocas se divertindo na Europa cantando pagode, samba e forro. Mas, acreditem ou nao, eu até dancei! E samba, ainda por cima! Afinal, ninguém la sabia dizer que eu estava dançando certo ou errado. Apenas a banda e os funcionarios do bar, que também dançavam mal. Ouso até dizer que, por um momento, eu gostei da musica e cantei junto. Mas se me perguntarem no Brasil, eu nego.

Dormi melhor do que qualquer outro dia dos que estive aqui em Perugia. Nao era so pelo cansaço: era a sensaçao de fazer a coisa certa. A estrategia certa para juntar uma galera, fazer-me ser notado e, quem sabe, impressionar Linnea... XD

Afinal, se o assunto do emprego nao vai bem nessa época, pelo menos posso investir meu tempo em outro business igualmente relevante ao meu espirito.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Parlando

(A pedidos da Nana)

Uma semana depois de chegar na Italia, ja estou falando um italiano respeitavel. Nas lojas e serviços, e mesmo na faculdade, falo com as pessoas e quase ninguém percebe que sou estrangeiro. O que me denuncia, claro, é o vocabulario. No meio de uma sequencia rapida, direta e perfeita de frases, eu paro de repente: cheguei em alguma palavra ou conjugaçao verbal, talvez uma colocaçao de pronome ou expressao, que desconheço. Ai fica aquela coisa: io voglio... er... ah... voglio....
Sabem que a denominaçao "barbaro" surgiu de uma palavra que significa, no romano, gaguejar? Porque é isso que se faz quando nao se conhece um idioma. Aprendi isso nas aulas por aqui. Depois, a palavra passou a denominar simplesmente os estrangeiros. Fico orgulhoso quando me perguntam o que diabos eu estou fazendo em um curso de italiano!

A minha capacidade de blend in (adoro a expressao...) com os nativos no tocante a idiomas vem de uma capacidade minha que estou me divertindo muito ao observar. Parece que eu me adapto ao nivel e à forma de falar da pessoa com quem falo. Em segundos (ainda nao percebi quanto tempo demora...), adapto a minha entonaçao para parecer com a da outra pessoa, e aproximo o nivel do vocabulario. Quando falo com meus companheiros de quarto, todos com um ingles insipiente, pareço realmente um estrangeiro: corto fora conjunçoes, faço concordancias erradas propositalmente, pronuncio com sotaque. Ao encontrar os americanos, falo o ingles do meu nivel, o melhor que posso. Quando conheço um britanico, acabo modulando aquele sotaque maravilhoso. Algo similar acontece com o italiano. Tem gente que fala claro, bem pronunciado como Amina. Tem nativos que falam com um suingue gostoso, languido, um jeito de saborear os "G"s e "D"s, trocar os "C"s por mais "G"s deliciosos. Ainda nao me arrisquei a falar com gente do sul da Italia: esse é o nivel mais alto da coisa...

Fico orgulhoso também ao perceber que ja começo a ter o processo mental necessario pra falar bem um idioma. Porque a maioria das pessoas pensam no idioma nativo e traduzem para o outro. Ou seja, pensam: conceito = palavra no idioma nativo = palavra no idioma desejado. Demora muito. Eventualmente, com pratica, chega-se a um ponto onde conceito = palavra no idioma desejado. Eliminando a etapa do meio, a coisa fica mais rapida, mais natural. Por isso que, às vezes, tenho dificuldade de traduzir uma coisa do ingles para o portugues, minha lingua nativa: no ingles, cheguei nesse ponto.

De fato, uma das coisas mais gostosas aqui para mim é a pluralidade de linguas. Nao so tenho acesso a tres das mais faladas por aqui (italiano, ingles e espanhol), como encontro gente que, como eu, nao tem problema em pular de uma para a outra e às vezes o faz sem perceber. No começo eu quiz organizar na cabeça com quem eu falava que lingua. Mas depois, quando comecei a errar sem perceber e desandava a falar em outra, desencanei. Porque é maravilhoso ter essa possibilidade!
No Brasil, até onde eu sei, isso era visto de uma forma ruim, como alguém que queria se exibir. Ha uma coisa na cultura brasileira que é como um culto à mediocridade mental. Se voce é inteligente ou culto, é CDF. Se gosta das expressoes do ingles, é americanofilo (ou pior, anti-brasileiro). Aqui nao ha barreiras: posso falar quantos idiomas quiser e falar bem. Conquisto respeito com isso.

De uma forma diferente, ha também um profundo respeito pela galera que esta nos primeiros niveis do curso de idioma. Porque, mesmo com todas as adversidades, eles estao começando do começo, ao seu passo. Falei com uma freira indiana por aqui que me inspirou muito. Mal falava qualquer coisa em ingles ou italiano e foi colocada no primeiro nivel. Ainda assim, estava animadissima. Um exemplo de humildade.
Sempre me orgulhei de nao ter medo da solidao. Eu me dava muito bem comigo mesmo e achei que poderia viver sozinho por um bom tempo, porque eu suportava e até gostava dos meus comportamentos bizarros, minha organizaçao, meu modo de pensar.
O problema começa quando Eu e Eu Mesmo começam a discutir. Porque um sabe que temos grana suficiente pra passar uns tres meses, um lugar pra ficar, comida, tudo certo. Mas o outro, obsessivo que é por uma ordem particular das coisas, quer achar trabalho a toda custa e fica desesperado quando nao consegue. Duas ou tres vezes ja me peguei aqui, separando a consciencia em duas e assistindo à briga de uma com a outra. Começo a nao gostar de alguns traços psicologicos meus, aborrecer-me comigo mesmo. Ha quem diga que é o prenuncio de uma mudança. Seria bom.

Ainda assim, ontem percorri o burgo atras de um trabalho. A coisa por aqui se parece cada vez mais aos video-games de RPG que joguei. Zelda, Vampire: the Masquerade, Castlevania... Juro que, às vezes, surge na minha cabeça um pequeno mapa simplificado do burgo: uma flecha verde sou eu, apontando para o lado para o qual estou olhando; diversos pontos vermelhos piscantes indicam onde eu tenho que ir. Meu personagem faz açoes simples: andar, correr, procurar, olhar o inventario. Em algum lugar, a barra de energia indica a fome (a barra sempre cheia por aqui...) e o cansaço (varia com o estado de espirito).
Me dizem em todos os lugares que Fevereiro é um mes morto: poucos turistas, muitos estudantes procurando trabalho. Ainda assim, orgulhoso que sou, quero arranjar emprego mesmo na época dificil, pra facilitar a situaçao financeira e provar pra mim mesmo que eu posso.
Ontem encontrei um bar brasileiro, perdido em uma ruazinha. O dono é um carioca, Felipe. Deu a ultima vaga para uma garota (brasileira também...), mas disse-me que de vez em quando tem saraus onde eles precisam de uma maozinha. Hoje vai ser um deles, mas ja é tarde demais para eu fazer parte da galera.

Sim, eu sei, um bar brasileiro seria a ultima coisa a procurar se eu quero aprender italiano. Mas digamos que, se os italianos montaram na América a cosa nostra, uma mafia para se ajudarem, talvez eu aqui acabe montando a coisa nossa...

Enfim, voltei para casa sem encontrar nada, bastante frustrado, mas feliz de ter feito o esforço. Ia dormir direto, e acordar em um dia melhor. Mas entao chegou o coreano bonachao com quem estou dividindo a casa, trazendo pizza para todos nos. Passei a noite conversando com ele, que se chama Su (for short, porque o nome dele é complicado...) e esta aqui atras de cursos de gastronomia; e Hillis, o holades que esta aqui tentando aprender historia. Conversamos muito sobre futebol, as impressoes que temos da Italia, e comida. Fui para a cama sorrindo. Falta ainda falar com o canadense que nunca aparece...

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

So uma nota de trivialidades do cotidiano:
Tenho seguido as manchetes dos jornais. Falam sobre um caso de um carabiniere (policial, mas para eles é o equivalente, nas piadas, aos portugueses para nos, segundo Tullio) morto por assaltantes. A imprensa fez disso uma verdadeira novela por aqui. Seguem passo a passo a investigaçao atras dos bandidos.

A vida aqui é de fato tao pacifica que um policial morto da todo esse Ibope? Imagine se fosse no Brasil: no dia seguinte, ninguém ia tomar conhecimento do fato...

Mangia che ti fa bene 2: adendos

• Tudo aqui, menos os restaurantes e algumas poucas lojas, fecha entre a uma e as tres e meia da tarde. Apesar de eu achar o costume muito salutar para os trabalhadores, é um porre para os clientes...

• Eis a organizaçao da tipica refeiçao italiana:
PRIMO PIATO: Um farinaceo qualquer. Normalmente é macarrao, mas pode ser arroz ou outras coisas similares.
SECONDO PIATO: Geralmente, uma carne. Pode ser também um macarrao com recheio de carne. Nos brasileiros comeriamos junto com o que seria o primo piato. Eles comem depois, completamente separado.
CONTORNO: Aquilo que, como o nome diz, contorna o secondo piato. Verduras, cremes ou coisas assim que vao junto com a carne.
FRUTA: enough said...
ALGUM DOCE: Minha parte favorita. Se bem que, aqui na Italia, fora o chocolate...
CAFEZINHO: Porque, pra ficar acordade depois de tudo isso...

• A pizza nas pizzarias vem à jato! Faço o pedido e, depois de cinco minutos, ecco qua, a pizza! Acho que as pizzarias brazucas tem MUITO a aprender...

• Para meu profundo desagrado, é dificilimo encontrar um simples suco de frutas por aqui. Logo agora que eu tinha conseguido minha independencia dos refrigerantes... Encontro sucos industrializados, com gosto de suco de aviao.

Due ragazze brasiliane

Ainda é cedo pra dizer quem vai fazer parte da quarta fase dessa historia ( 1-até a compra da passagem, 2-até embarcar no aviao, 3-a descida na Italia e os primeiros dias com os Seppilli, 4-o curso e a nova turma, 5-quem sabe...). No entanto, ja me arrisco a escrever de duas presenças por aqui.

Luciane
Quando fui na agencia que me arranjou a casa para ficar, vi que eles dividiam as coisas por paises. Na lista de brasileiros, apenas o meu nome e o de uma outra garota, Luciane. Guardei o nome e sobrenome na memoria. Tinha ideias de procurar no Orkut, fazer um stalking basico. Hoje, antes de tudo isso, estava sentado no parque em frente à universidade comendo um hamburguer (depois de nao aguentar mais ser estufado de comida a cada refeiçao...). Uma garota senta-se ao meu lado e pergunta em um ingles perfeito por uma rua em particular. Tendo andado bastante esses dias, sabia onde era. Conversa vai, conversa vem, pergunto de onde é. Brasil. Respondo em porgugues: eu também. E mais: é paulista, do Ipiranga. Esta confirmada minha sina. Sempre que viajo, conheço meu vizinho... Ao nos despedirmos, pergunta meu nome. Retorno a pergunta e ela diz que o nome é:
-"Luciane..."
-"...Teixeira" eu completo. Ela fica surpresa, mas explico-lhe o acontecido na agencia. Vejam bem voces que dirao que eu fui procurar: eu estava apenas sentado no parque, e ela que veio ate mim. Nao confundam as coisas!

A outra garota
Na verdade, achei que Luciane era uma outra garota. Na primeira vez que descobri uma lan house por aqui, uma garota entrou junto comigo. Tinha traços bem marcados, sharpness, como eu chamo. A beleza que a Claudia O'Hana tinha nos anos 90 (sim, outra das minhas comparaçoes bizarras, nao riam...). O modo como falou, mesmo em italiano, com a dona da loja, me fez ter certeza, na hora, que era uma brasileira. Havia ouvido Tullio tirar sarro do modo como os brasileiros falam italiano, porque dizia que eu falava direito. O brasileiro fala o italiano com um ritmo lento, bem marcado. E obviamente, troca os "O"s finais por "U"s...
Ainda nao falei com ela, mas pretendo. Ela ja me olha por ai como quem sabe que eu estou observando. Minha primra vitima de stalking na Italia!. Ja sei que faz o curso na universidade, mas começou antes, talvez em Janeiro. Mas ainda nao sei um nome. Cenas do proximo capitulo...

Saindo dos Seppilli

Tullio era um senhor de seus oitenta anos (sou péssimo pra adivinhar idades...). Os cabelos tao brancos que pareciam prateados. O corpo grande mancava, ou parecia andar a passinhos diminutos. Tinha algum problema no olho direito e aquele modo de estar sempre meio agachado. Quanto ao jeito de ser, era o perfeito avo: engraçado, cortes, cheio de piadas e anedotas, e muito carinhoso, mesmo quando eu o importunava no trabalho de vez em quando. Alias, era um antropologo em uma fundaçao e ex-professor da universidade de Perugia. Adorava detalhes de outras culturas e colecionava pedacinhos delas em casa.
Chanteung tinha seus setenta e era a perfeita senhorinha chinesa. Um pouco baixa, com um corpo forte e agil para a idade, fazia de tudo na casa. Tinha um temperamento de mestra chinesa também: nunca satisfeita. Achava que a agencia que me arranjou a casa onde estou agora tinha cobrado caro demais, que a universidade tinha me colocado em um nivel de curso baixo demais para o meu italiano, que o tempo era sempre frio demais e que nenhum dos trabalhos que vi nos jornais ate agora era adequado para mim. Sobre algumas coisas tinha razao: ja vi que se encontram lugares pra morar a preços mais decentes...
Amina, apesar de nao ser filha de Tullio, juntava um pouco dele e da mae. Era uma chinesa pequena e igualmente agil como Chanteung, com um italiano delicioso de se ouvir, um jeito esperto, rapido, e um gosto pela antropologia. Conversamos muito sobre amores: ela estava em um relacionamento com um homem muito mais velho que nao agradava à mae. Contou-me isso antes de sermos assustados por um cachorro no corso Garibaldi, um dia. Eu afugentei o bicho e disse que, assim como eu tinha jeito com caes e gatos, havia namorado uma garota que tinha jeito com os passaros e que nao havia agradado à minha mae tambem. E ao contar-me do "namorado historico" com quem a irma dela tinha namorado por dez anos, contei da minha "ragazza rossa" (garota ruiva), com quem eu passara tres.
A casa deles era ao lado de uma grande mansao onde funcionava a Fundaçao Celli, onde Tullio trabalhava. Ficava fora do burgo, ainda na colina. A sensaçao era a de estar morando no que deveria ser a casa do servo do castelo, fora deste, mas ainda bem perto. A casa era confortabilissima e a ducha foi o melhor banho que tomei na vida... A comida de Chanteung, apesar de ser demais para mim, era otima. Fiquei pensando se seria assim tao bom na casa nova.

Deixei a casa deles hoje pela manha, depois de fazer o exame de proficiencia na universidade (me colocaram no nivel 3 de 5...). Aprontei as malas e disse adeus a Chanteung, que me esperava na casa. Tullio estava trabalhando como de costume, mas passei para dar-lhe adeus tambem. Amina ja tinha voltado alguns dias atras a Firenze, onde mora com o rapaz mais velho. Virei visitar meus primeiros anfitrioes regularmente... Estava quase sentindo-me pertencente a uma familia e sair desta casa foi reviver o episodio nao tao longinquo de deixar meus pais no aeroporto para viajar além-mar.

O quarto no appartamento Gelsomino era... bom. Claro que deixava a desejar se comparado com a casa dos Seppilli, mas era mais proximo da faculdade, na muralha do burgo, com uma vista belissima da planicie la embaixo (nao fosse por uma arvore maldita bem na minha janela...). Tenho agora um quarto so pra mim e ja organizei tudo: tenho o mesmo prazer em organizar o quarto que a Nana, acho-o terapeutico. Quando cheguei, uma senhora enorme com ares de camponesa limpava os banheiros e falava alto com o proprietario porque nao se esntendiam ao tentar trocar uma lampada. Achei a situaçao comica!
De inicio, sei que estou morando com um canadense, um chines e um holandes. Veremos no que resulta isso...

Enquanto trazia tudo para dentro do quarto, nao pude deixar de notar uma sensaçao familiar à que senti quando chegamos na Colombia. Era uma sensaçao de novidade, claro, mas misturada com uma estetica propria de paises onde faz frio. Os tons de marrom, a estética de decomposiçao (Samorost), o proprio frio. A necessidade de se adaptar a um novo idioma, uma nova forma de pensar, novos habitos. Tudo era muito familiar. Mas acho que, se fosse um pais quente, seria uma sensaçao diferente. Nao sei explicar: so quem viveu esse tipo de coisa, sabe do que eu estou falando. Minha familia saberia.

terça-feira, janeiro 31, 2006

O burgo de Perugia

Alguns me pedem que mande fotos, mas por enquanto nao tenho maquina digital... Nao achei nenhuma com um custo/beneficio que me convencesse a gastar tanto dinheiro antes de viajar. Pra compensar, tome descriçao...

Amina me levou para o centro de Perugia no dia seguinte à minha chegada. De inicio, lembrei-me das aulas de historia e de alguns filmes: o centro de Perugia é como os burgos dos livros de historia, uma cidade dentro de uma muralha circular, no alto de uma colina. Hoje em dia, a cidade se espalhou para além das muralhas, tomando a planicie abaixo da colina de forma mais espaçosa. Dentro das muralhas, as ruas sao apertadissimas (o que às vezes causa cenas engraçadas entre carros que querem ir em direçoes opostas e se encontram no meio do caminho). Os italianos sao muito corteses uns com os outros, mesmo nas situaçoes mais ridiculas. As casas todas tem em media tres andares, o que deixa as ruelas sempre na sombra e umidade. Tudo aqui é feito de pedra. Distingue-se as construçoes medievais das novas, porque as antigas tem o que eles chamam de pedras etruscas, grandes blocos de pedra de tamanhos variados. As novas tem pedras menores e tijolos comuns ou paredes pintadas (massa corrida nao é tao comum a ponto de estar em todas as casas, muitas ficam com os tijolos à mostra - belissimas justamente por isso...). A impressao geral é que a cidade parece aquela Praga medieval do jogo de Vampire ([1] [2][3]). Uma cidade que desconhece a filosofia do less is more (less is bore, na minha opiniao) dos americanos: incrivelmente detalhada, mesmo no modo como a natureza invade e parece conviver com as pedras da cidade (coisa que me lembra um outro jogo, o Samorost. A natureza em volta do burgo é muito similar às imagens do Samorost: as plantas retorcidas, varios tons de marrom e verde-musgo. Suponho que seja o inverno, mas tenho a impressao de que é sempre assim.
O burgo é um labirinto. Andar por ele é como andar em um jogo de RPG: caminhos especificos levam a lugares especificos como que por magica, mera determinaçao do programador do jogo. Nao ha muita logica. Sendo assim, nao basta ter senso de direçao. Aqui, a memoria visual e de como fazer, passo a passo, para chegar a um lugar, vale mais. Certa vez, Amina me mostrou o aqueduto de Perugia, hoje desativado e servindo como passarela por entre as casas altas à sua volta. Demorei uns tres dias para encontrar um jeito de chegar no aqueduto (nao que eu estivesse procurando com muita vontade...) e acabei achando por acaso. A cidade, nas minhas andanças abre-se em claroes onde posso ver a paisagem por milhas, belissima, mas que ao mesmo tempo parece rir da minha confusao, porque nao me oferece nenhuma pista de como chegar aos lugares lindos que vejo la longe. Muitos desses lugares sao catedrais, cujas torres despontam no meio das casinhas de pedra. Outro dia escrevo sobre minha experiencia fantastica na catedral do Corso Vannuchi.

Ainda nao explorei muito fora do burgo (afinal, sendo um claustrofilo por natureza, aqui parece ser o meu lugar...). A paisagem local e o clima me lembram Campos do Jordao com menos dinheiro e mais historia (além da semelhança com Samorost). Menos influencia alema também. Tenho olhado muito as peças publicitarias em busca de traços caracteristicos da cultura italiana que tenham influenciado a publicidade. E acho as placas de transito interessantes, totalmente diferentes.

Amanha, muitas coisas novas acontecerao... Saio da casa da familia Seppilli para o lugar que aluguei. Chanteung acha que fiz mau negocio: de fato, encontrei avisos de estudantes na universidade procurando alguém pra dividir acomodaçoes, por metade do preço. No fim de Fevereiro, talvez procure um desses... Amanha também começarei as aulas na universidade. Ou seja, vou conhecer um bando de gente. Gente da minha idade, finalmente (adoro os Seppilli, mas sinto que estou dando trabalho, sei la...). Sinto também que conhecer gente nova talvez seja uma soluçao para os incomodos que tenho relativos ao quanto me prendo ao passado (a frase ficou estranha, eu sei...). Veremos.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Estratégias para o frio...

Como escrevi, quando desci em Milao, o frio me deu medo. Eu nunca estive em um lugar onde eu nao pudesse ignorar o frio como um fator irrelevante do tempo. Aqui, o frio queimava a pele (contradiçao de termos, eu sei...). Tive que me adaptar rapidamente e descobrir algumas regras basicas.

• A neve gasta energia. Deslocar-se na neve requer mais do corpo do que o deslocamento comum. Assim, leva-se o minimo de peso e passa-se o menor tempo possivel na neve, se nao forem condiçoes muito controladas.

• Neve torna-se agua depois. Tirar a neve das roupas antes de entrar em lugares quentes vai bem.

• Comecei a usar o cachecol de uma forma mais inteligente: sobre o nariz e a boca, o proprio ar quente que eu gastaria respirando forma uma mascara que aquece a face. Simples.

• O gorro esquenta mais do que o necessario as orelhas. Pode ser feio, mas mesmo cobrindo-as pela metade, ja esquenta mais do que o suficiente. Alias, fiz bem em cortar o cabelo...

• Por ultimo, acabei criando o que eu apelidei de Armadura de Viajante. Agasalho de la embaixo de um agasalho impermeavel contra o frio e a neve ou chuva. As mochilas: a pequena que sempre uso vai na frente e a grande (mochilao de acampamento) vai atras, as alças prendendo nos meus ombros as alças da mochila menor. Parece uma armadura de samurai. De fato, acho que as partes de uma armadura de samurai travam umas às outras de modo similar. Minha carteira e outras coisas de valor ficam bem na minha frente, a salvo e ao alcance. O sistema do cachecol completa a armadura, junto com luvas, gorro e as enormes botas que comprei para a neve.

As botas, alias, tem sido um pouco problematicas: o preto das botas risca duas linhas em cada meia branca que coloco, as botas sao muito grandes e eu vivo chutando tudo e levo varios minutos pra conseguir amarrar todos aqueles ganchos. Mas compensam pela beleza e utilidade. Até agora, sem problemas ortopédicos...

• Levo um pouco de dinheiro na carteira, junto com cartoes de fliperama que nao servem pra nada pra parecerem cartoes de credito e dar credibilidade à coisa. O resto, que importa, junto com boa parte do meu dinheiro, levo escondido em dois ou tres lugares na bagagem. Never put all the eggs in the same basket...


E chega de escrever por hoje. I need to be living, not internerding...

Enquanto isso, na Sala de Justiçammmmm....

As coisas andam a passos rapidos no Brasil, pelo que vejo em alguns outros blogs.Coisas que me deixam ao mesmo tempo felicissimo, querendo ver o proximo capitulo da novela; e um pouco dolorido. Sinto-me como o bobo que esta aqui saracoteando pela Europa enquanto coisas decisivas acontecem. Ta, ja calei, nem precisa me repreender. Eu deixo isso pra tras e vou curtir a viagem. Sigo uma das minhas expressoes favoritas: this too shall pass.

Mangia che ti fa bene!

Como comem os italianos!
A vida simples aqui parece passar à espera da proxima refeiçao. De almoço a jantar e de volta ao almoço. E que refeiçoes! O costume italiano inclui muitos pratos na mesma refeiçao, e ja disse a todos por aqui que eu como estranhamente pouco. Assim, ganhei um pouco de tempo ate minha psique se adaptar à novidade e eu poder comer sem ansiedade. E mesmo comendo o que como normalmente, ainda seria muito pouco para os italianos. Tenho um pouco de medo das refeiçoes com compania: sabe-se la o que pensarao de mim, se acharao que eu nao gostei da comida... Aviso a todos sempre que eu sou o modelo economico.

As frutas aqui sao um capitulo a parte. Primeiramente, eles acham incriveis e bellissimas as frutas brasileiras, as mais exoticas. Acham estranho. Dizem que a América do Sul tem uma variedade fantastica de frutas. De fato, tem coisas que nao se pode encontrar por aqui. No entanto, até agora, so de laranjas ja conheci quatro variedades (eles chamam mixirica de laranja também...). As maças sao mais vermelhas, porém mais insossas. Ontem provei algo chamado melograno, primo da granadilla colombiana, porem mais doce, dificil de comer, e com um suco vermelho sanguineo (sim, pensei em vampirismo...). De qualquer forma, acho que vou voltar ao Brasil com um forte goste redescoberto pelas nossas frutas.

Assim como o arroz e feijao no Brasil, aqui a massa é obviamente o prato tipico. Toda refeiçao tem. Acho que finalmente vou engordar... Mas veremos. Até la descubro minha forma de comer na Italia.

Os doces também sao um pouco sem graça. Mas pra quem estava acostumado a doces portugueses, obviamente a coisa fica meio sem graça aqui.

Resumindo, eles comem demais, mas umas coisas com menos gosto do que a comida brasileira. A nao ser pela massa, especialidade deles. E eu estou tendo que ir devagar pra reservar espaço para comer de tudo um pouco.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

A jornada ate Perugia (parte 2)

Perdoem se nao escrevo com frequencia no comeco. Estou na casa de meus primeiros hospedes, a familia de um primo de minha avo. Sao um casal de seus setenta, oitenta anos, e voces sabem que a maioria dessas pessoas tem um pouco de dificuldade com computadores e internet, entao nao os perturbo muito querendo usar o computador...
Acordei no dia seguinte depois de ter sonhado com minha mae e meu irmao. Nao lembro dos detalhes, mas estavamos na Africa do Sul e ela dava a ele um amuleto para protege-lo do voodoo: um dedo de macaco empalhado e ressequido. Acordei e peguei de dentro da minha mochila o crucifixo que minha outra avo me deu antes da minha partida: um que eu lhe havia dado quando fiz minha primeira comunhao. O sonho fazia referencia, alem desse fato do amuleto, ao livro que Laerte me deu para ler durante a viagem. Falo mais dele depois, mas o personagem vem da Africa do Sul para a Inglaterra em busca de algo que o tornara um artista (escritor). Identifico-me muito com o personagem, mas percebo algumas diferencas. E sinto que esse livro e o modo de Laerte fazer-me uma critica ao meu jeito de ser, assim como Lee e Bubka o fazem as vezes, mas um pouco mais suave, sem detonar minha auto-estima.
A neve no dia seguinte era diferente: caia mais rapida e em pequenas esferas um pouco mais densas. Aparentemente, era chuva que juntava cristais de neve em volta das gotas. E percebi que, ate entao na viagem, eu havia prestado mais atencao na neve que nas pessoas e lugares. De fato, ainda nem havia visto muito da paisagem, coberta de branco.
As mulheres andam na Italia muito mais bem vestidas que no Brasil. As garotas tem seu charme maravilhoso, embora seja uma especie de costume que andem despenteadas. Tais sentir-se-ia a vontade... Assim como, lembrando-me agora, minha professora de escultura, Regina Johas, que adorava a Alemanha. Suponho que la seja parecido.
Escrevi antes que os italianos tem um jeito familiarmente amistoso, como o dos brasileiros. Ocorre-me que, se os italianos sao os brasileiros da europa, os franceses devem ser os argentinos...

Esperei quase duas horas para pegar o trem para Firenze, onde depois pegaria um para Perugia. Uma combinacao de neve e greve do sindicato de trens fez com que todos os trens se atrasassem no minimo uma hora e meia. Na estacao, enquanto espero, encontro um espelho e faco um desenho para voces pensando que ainda nao tenho camera digital.
No trem, conheco Marta, uma barceloneta de seus trinta e muitos com quem converso durante a viagem. Acabo descobrindo que conheco mais do Brasil do que eu supunha, e trocamos figurinhas. Ela me conta um pouco de artimanhas de se pegar trens na Europa sem pagar...
Passando por Bolonha, a neve escasseou. Tive medo de que o maravilhamento acabasse. De fato, apesar de ter voltado depois de Bolonha, quando cheguei a Firenze, havia acabado de fato. Nao voltaria a ver neve por um bom tempo. Tudo que e bom dura pouco. Dentre as ultimas impressoes que ficaram na memoria esta o jeito como a neve fica acomodada sobre as coisas, como se alguem tivesse empilhado com a mao mesmo, como se faz com um castelo de areia. Ou como se fixa aos fios de eletricidade com precisao espantosa. Adesao e coesao.
Em Firenze, durmo sobre as malas e perco o primeiro trem... XD
Com o atraso, falo um pouco com uma familia de Florianopolis! Pego o segundo trem depois de duas horas, um local e um pouco mais simples, cheio de paquistaneses, onde um casal de italianos senta-se a minha frente e me ajuda com as malas. A mulher e simples, mas de uma beleza aconcehgante, sem perder o charme. Tipo de pessoa que gostaria de ter. O rapaz parece muito confiavel e prestativo. Quando me despeco deles, dizem-me a expressao "in bocca luppo". Nao sei traduzir ao certo e tem a estranheza da expressao inglesa "godspeed". De fato, tem ate um significado parecido: uma especie de "boa viagem". Fico tao contente de conhecer a expressao que esqueco de responder: "creppe luppo", algo igualmente estranho pra mim...
Finalmente, encontro na estacao o Tullio e sua afilhada Amina, que me levam para a casa. Vejo pouco da paisagem que, para minha profunda tristeza, nao tem neve... A casa e grande e mistura bastante de arquitetura antiga com bugigangas de ultima geracao. De fato, isso parece ser uma constante na Italia. La, conheco Chanteung, a mulher de Tullio e mae de Amina, uma senhora chinesa muito simpatica. De inicio, ja elimino um de meus medos: que meus primeiros anfitrioes europeus fossem um par de velhotes rabugentos com os quais nao me daria bem. Estes dois sao uns amores, obcecados com meu conforto.

Durmo melhor esta noite, absorto no livro do Laerte, sem crises... Fizeram-me um quartinho delicioso e serviram-me uma janta otima. De fato, como comem os italianos! Mas isso e assunto para amanha...

Aqui termina a jornada. O que segue sao minhas primeiras impressoes de Perugia antes do curso, sua gente, a cidade, os costumes. Serao textos mai curtos (eu acho...) e menos cronologicos. Impressoes soltas.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A jornada ate Perugia (parte 1)

Beep!
O aparelho na mao do homem confirmava minha entrada na area de embarque e o comeco do Ano Italiano.
No portao 16, uma garota sentou-se ao meu lado. "Italia?" arrisquei. Nao, Miami. E entao uma atendente com pessima desenvoltura no ingles informou que o aviao ainda estava no Rio por causa do tempo ruim. "Ih, voce ainda vai ficar bastante tempo aqui...", sorriu a garota.
Uma hora de atraso depois e eu entrava no aviao. Minhas companheiras de viagem eram uma modelo de Blumenau com pessima auto-estima e nenhum conhecimento de italiano ou ingles, chamada Franciele; e uma senhora falante com ares de sogra, chamada Santuza. Passei o voo falando com a modelo sobre nossas respectivas ansiedades. Ela me olhava com olhos verdes de pupilas enormes e me contava de outras viagens que fez. Tinha visitado uns quatro paises em dois anos, com despesas pagas pela agencia, e ainda nao estava satisfeita. Fez-me pensar sobre como, nao importa o quao boa e uma situacao, algumas pessoas nunca se satisfazem. Sou uma delas. Santuza so fazia interrupcoes nada relevantes...
Nos despedimos depois de pegar as malas em Milao. Notei os peculiarmente longos dedos de Fran quando ela saudou seus contatos milaneses e se despediu de mim. E entao voltei a ficar so. Desta vez em um mundo novo do qual eu nada sabia e mal me comunicava. Alias, alem do italiano, as pessoas falavam ingles e espanhol por toda parte e eu ficava com uma estranha sensacao de equivalencia entre os idiomas: mudava do italiano para o ingles sem pensar e mesmo o portugues parecia-me mais um idioma estrangeiro a escolher do que minha lingua materna.
O onibus do aeroporto para a estacao de trem, onde eu pegaria um trem ate Perugia, ficou preso no transito causado pela neve por duas horas, fazendo-me perder o trem e ficar em Milao por uma noite. Dormi no onibus durante essas duas horas e sonhei/lembrei de Fran, olhando pela janela do aviao e dizendo que estava nevando. De fato, a paisagem era toda coberta de neve.

Eu ninca havia visto neve de verdade.
Ela cobre tudo como espuma de sabao. Cai do ceu mais lenta que chuva e parecendo migalhas dessa espuma que tem dentro de almofadas vagabundas. Cai na roupa ou mesmo no vidro da jalena e se dissolve ate virar uma gota d`agua com um decimo do tamanho do floco de neve. Me pergunto onde estao os cristais de neve que vemos em desenhos animados, porque ate agora nao vi. Ela cede alguns centimetros sob o peso das minhas botas. Pinica a pele porque e um diminuto ponto gelado na pele quente. A paisagem vista do outro lado das janelas e surrealmente vazia por a neve cobre toda indicacao de estrada, rocha, grama ou cimento. E tudo a mesma espuma branca. Desci do Onibus em Milao e pela primeira vez senti, com um pouco de medo, o quao fria e a temperatura abaixo de zero. Me acalmei: e so uma questao de se proteger e usar a cabeca.
Procurando um lugar para passar a noite, passo por um bar com um punhado de neve na mao, experimentando sua textura. Um garcom fumando la fora me mostra como fazer uma bola de neve e a joga longe. A neve que ele compacta e dura, pesada, porem leve. Como isopor ou papelao. Digo que sou brasileiro e que nunca vi nece antes e ele ja esta jogando a segunda bola nas turistas inglesas que passam, comecando uma guerra que dura ate o patrao chegar. Sainda de la, faco minha primeira bola de neve, prometida a alguem...
O povo aqui e familiarmente amistoso, como os conterraneos. Falam com estranhos, riem muito, mesmo cansados. Encontro um hotel barato e carcomido e um senhor me recebe mais calorosamente que qualquer cinco estrelas. So vou ficar uma noite. Chego ao meu quarto no terceiro andar subindo por um daqueles elevadores de filme> uma claustrofobica jaula de metal que sobe no vao do predio, rodeada pela escadaria. No quarto, ha uma diminuta mesinha de onde anoto tudo isso no meu caderno. Tudo aqui, nesse comeco de viagem, e novo e maravilhoso. Mesma a precariedade do hotel onde passo a noite, as paredes sujas e a tinta descascando nas portas de madeira que me lembram as da casa de tia Suzy no nordeste, parecem-me como uma meticulosa e proposital direcao de arte de um filme. Porque pode ser sujo e carcomido, mas e severamente organizado.

A noite, tenho enfim minha primeira crise de ansiedade ha meses. Demoro-me para dormir, a cabeca um pouco preocupada com os gastos astronomicos que tenho feito ate aqui. No fim, acabo pegando no sono e sonhando... bom, conto o sonho e o resto da jornada ate Perugia amanha.

Deu pra perceber que ainda nao encontrei os acentos nesse teclado, certo? Paciencia...

O letreiro embaixo da foto diz: "Antes"

COUNTDOWN: T - 4 hours

Cortei meu cabelo ontem. Regredi uns três ou quatro anos no tempo com isso, para uma época onde eu era ainda mais control freak. Mas eu gosto dele assim, organizado. Pelo menos dá pra me fazerem cafuné sem causar desastres estéticos...

Levo duas malas e minha mochila de sempre. Pouco material de arte, muita roupa para enfrentar o desconhecido da neve italiana. Aliás, achei as roupas que comprei interessantíssimas.

Vou em boa época. Tanto tem acontecido nos últimos dias por aqui, que acho que vai ser boa, para todos nós, essa minha ausência. Vocês todos têm tempo de se arranjarem, resolverem suas coisas, e eu terei tempo para apertar o "reset" e começar de novo, sem tantas amarras ao passado...
De fato, me surpreende que toda a violência emocional recente não tenha disparado crises de ansiedade devido à fragilidade em que eu estou. Sinal de que, talvez, eu realmente tenha me curado dessa coisa maldita. Penso às vezes que as crises são fruto de uma mente ociosa que, sem nada pra fazer, brinca com questões existenciais e acaba levando tudo muito a sério. Nesse caso, tudo isso em que tenho pensado ultimamente talvez tenha me deixado ocupado o suficiente pra não pensar nas ditas questões existenciais. Enfim, vamos levando.

Não importa quantas baladinhas de despedida, fracassadas ou não, não consigo me livrar da sensação de não ter conseguido me despedir direito de muita gente. Mas acho que esse tipo de sentimento de inadequação é uma constante na minha vida.

Pessoas, estou indo. Não esperem nada por aqui até sexta-feira, provavelmente. Quando voltar, tendo inaugurado de vez o "Ano Italiano", colocarei aqui minhas primeiras impressões sobre neve.

Ci sentiamo...