Fora 36 horas intensas. A começar por uma hora de internet. Por causa da minha curiosidade de
stalker, acabei indo parar em revelações que eu não deveria ficar sabendo até a minha volta ao Brasil. Olhei incrédulo para a tela e acabei me forçando a desviar o olhar, achatando-me contra o papel de parede floral da senhora
Sparrow. O que descobri estava acontecendo já há várias semanas, mas como comentei mais tarde com um amigo, meu personagem nessa história era sempre o último a saber.
Mais tarde no dia, tomaria notas a respeito do que senti, para escrever por aqui. Mas agora que estou frente ao computador, sinto que não vale a pena. Deixo o suspense pra vocês e o conceito de que essas 36 horas começaram, como toda montanha-russa, com a maior das quedas.
[Pra quem não sabe, a montanha-russa funciona geralmente sem energia alguma salvo a energia física da gravidade, que é carregada no sistema na primeira queda do percurso, sempre a mais alta de todas.]
Naquela noite, fui ao pub novamente.
Charles tinha me convidado para jantar de graça e aceitei pensando em provar algumas das coisas que tinha servido aos meus clientes por três meses e que me despertavam a curiosidade mas não venciam minha avarice contra gastar dinheiro com elas para mim mesmo. Minha entrada foi
gravadlax, uma espécie de carpaccio de salmão, seguido pela especialidade da casa, o bife com os molhos incríveis do
Simon. Tudo acompanhado de um copo do maravilhoso
Cote du Rhone. De sobremesa, o bolo de polenta do
Carmine. Pena que ele não estivesse por lá naquela noite. Teria agradecido-o pessoalmente pela sobremesa que sempre foi uma das minhas preferidas.
Quem estava lá, no entanto, era uma das novas garçonetes, fazendo seu turno experimental pra ver se a aceitariam ou não. Chamava-se
Eugenia. Era russa e era linda. Era uma dessas garotas altas e esguias que, à primeira vista, me dava a impressão de ser mais alta do que eu (complexo de inferioridade, óbvio...), mas que de fato era quase do meu tamanho. Tinha modos muito delicados, unhas feitas. Esmalte. E um jeito de mexer o corpo que mostrava que ela fazia algo: dança, teatro, circo... algo ela fazia.
Serviu-me, assistida pelo próprio
Charles, e deixou claro que, se ela vinha tomar o meu lugar, não melhoraria em nada o desastre que eu tinha sido. Sabia tanto ou menos de comida do que eu, fazia os mesmos erros e demorava pra pegar o jeito das coisas. Mas era um amor com os clientes.
Quando seu turno acabou mais cedo (turnos experimentais acabavam antes), ela saiu pela porta e passou pela minha cabeça convidá-la pra tomar alguma coisa no bar. Mas eu sabia que eu ia ficar calado, que a covardice frente às garotas como ela ia tomar conta e que eu apenas observaria enquanto ela se despedia timidamente e saia pela porta do pub para nunca mais ver.
Mas algo aconteceu.
Ela saiu, se despediu das pessoas e, como se fosse amiga antiga, sentou-se do meu lado e me perguntou como era a história de que eu estava voltando para o Brasil. E eu que estava quase pronto para voltar para casa, fazer as malas e sair de Londres, repentinamente me encontrei entretido pelas próximas duas horas a falar com esta garota. Sabe quando você percebe que a pessoa está interessada? Passamos para o bar da frente e
Chris, o barman, nos serviu dois shots de
sambuca por cortesia da casa. Ela nunca tinha tomado a bebida e se apaixonou. Eu mesmo a conhecia há poucos dias, de quando um dos rapazes da cozinha me pagou um como gesto de despedida. Parecia aguardente, porém mais cremoso.
A conversa seguia e a bebida também. Ela dizia que era de Rostov e eu lembrei do circo de Rostov, do qual ouvira falar em São Paulo. Pedimos licor de limão. Eu dizia que fiz circo e ela, também conhecedora desses passatempos incomuns, dizia que fazia dança do ventre (eis aí o porque dela se mexer com tanta graça...). O licor já acabando e eu já estava um pouco zonzo. Ela nem se abalava: dizia que a avó produzia vinho na Russia e que, como consequência, ela havia aprendido a beber desde pequena. E eu lhe contei a história do "eu nunca" que eu tinha jogado com a
Lee e amigos, de como eu tinha acordado no dia seguinte para uma das piores ressacas da minha vida e ela acordara lépida e saudável...
Pouco antes do bar fechar, estava lhe contando da origem de seu nome, que ela não conhecia.
Eugenia vem do grego. Eu = perfeito, Genia = nascimento. A bem-nascida, ou nascida perfeita. Ela sorria. Claro que ninguém é perfeito, mas o nome caia-lhe muito bem.
Saímos do pub. Não consegui me despedir do
Charles, que estava no andar de cima fazendo contas. Mas eu voltaria ao pub antes de partir, pra tirar fotos com a turma e me despedir dele. Segui com
Eugenia pela rua, continuando um ritual que tinha se estabelecido desde Perugia (e talvez até antes), de levar as garotas até em casa ou o mais próximo disso (tenham em mente que as distâncias em Londres são sempre gigantescas). Chovia uma garoa fraca, mas o suficiente para molhar e fazer com que ela andasse perto de mim, o braço roçando no meu. Andamos por boa parte de Acton procurando o ponto do 266 que ela tomaria até Willesden. Conversamos bastante, até aquele ponto em que não falta mais nada. E então a covardia retomou o controle e eu não fiz nada. Tomei-a pela mão enquanto ela subia no ônibus e me sorria. E então voltei pra casa na garoa.
Ainda não conseguia tirar da cabeça a enorme queda com a qual essas 36 horas tinham começado, mas ao menos
Eugenia me dava algo no que pensar e sonhar.
No meio do meu caminho para casa, o telefone vibra: uma mensagem de
Eugenia. "
Thank u 4 the drink and 4 the company! It was so much fun, cuz u'r absolutely cool! I'm glad I met u and hope 2 see u again! Have a safe trip 2 Italy! Cheers!". Receber essas mensagens sempre me dera uma sensação muito gostosa.
Meu encontro com
Eugenia tinha algo de um jogo do destino, um jogo de situações. Porque se eu não estivesse indo embora, ela não teria aparecido no pub e não teríamos nos conhecido. Mas a mesma razão que fez nos encontrar-mos é a razão pela qual nosso encontro é breve: vou embora e talvez a veja apenas uma outra vez, quando voltar da Italia. Lembrava-me do dilema e consequências da escolha entre
Lee e
Tais: ter escolhido quem escolhi eventualmente levou ao meu primeiro grande emprego e a ter dinheiro suficiente para esta viagem à Europa. Se tivesse feito a outra escolha, teria vivido um amor talvez mais intenso, mas não sei dizer se estaria aqui agora. Teria sido melhor? Impossível dizer. Impossível prever estas coisas e as consequências.
Cheguei em casa à uma da manhã, tendo que acordar para pegar o avião às 4. Dormi nocauteado pela sonolência pós-embriaguez e acordei em cima da hora, assustado com a possibilidade de perder o vôo. Sai correndo de casa, daquele jeito que frequentemente resulta em esquecer coisas importantes. E de fato, deixei todos os meus mapas das cidades italianas e uma foto que deveria ser devolvida a alguém em Perugia.
Era noite, fazia um pouco de frio. Mas à medida que eu ia caminhando pela Princes Avenue, em direção ao ponto de ônibus, fui sentindo novamente uma coisa que eu não sentia desde que cheguei em Londres e comecei a trabalhar. Era aquela sensação meio irresponsável e inconsequente (e deliciosa justamente por causa disso) de estar com o pé na estrada de novo. Quando cheguei no ponto de ônibus, o céu no horizonte começava a amanhecer. Eram cores maravilhosas ao som de Bush. Sempre Bush ecoando nas ruas de Acton.
Chegando no aeroporto de Stansted, fui talvez a última pessoa e fazer o check-in. E tome detector de metal... tinha esquecido completamente desse detalhe e obviamente, o meu cinto, as botas e os pinduricalhos pseudo-góticos complicaram bastante a situação. Mas ainda teria outra surpresa: o canivete na minha mochila! A inspeção minuciosa inglesa encontrou o ítem e me forçou a voltar, fazer o check-in da minha mochila menor com ele dentro. Mas com o check-in já fechado, a única opção encontrada foi empacotá-lo e enviar para mim mesmo por correio para o Brasil. Medo: e se não chegasse? Aquele canivete tinha o nome de meu pai gravado nele e era uma pequena relíquia pessoal. Até agora não sei se fiz a coisa certa. Fico pensando agora que teria milhares de opções mais inteligentes (e mais... brasileiras) para passar com ele pelos fiscais. Mas no pânico de perder o vôo, não estava pensando direito.
De qualquer jeito, nesta viagem já estava me acostumando ao ganhar e perder as coisas. A não me apegar. Era uma das características de grandes jornadas. As coisas deveriam mesmo serem usadas, gastadas, perdidas, consumidas. Só assim seguia-se em frente.
Subi no vôo da Ryan Air. Aquela coisa de sempre: muito desconfortável. Não dormi, por motivos óbvios. Em vez disso, comecei a ler os primeiros capítulos do segundo livro da
Melissa Pennerello. Seria minha literatura enquanto viajava a Italia, como uma trilha sonora em idioma local, falando de amor e ecoando ainda a energia da primeira queda desta montanha-russa.
Desci em Milão e dormi no ônibus para a estação, sendo acordado por um senhor ao chegar. Murmurei um "
thank you" e me dei conta imediatamente que estava na Italia e que aqui era "
grazie". Mas o automatismo ainda me faria repetir o erro algumas vezes.
A estação de Milano Centrale me recebia pela quarta vez e eu já era viajante veterano. Um desses que sabia que pegar o
intercity em vez do
Eurostar com seus confortos desnecessários saia muito mais barato.
Finalmente, em uma espiral de coincidências, fui comer algo antes de pegar o trem e entrei no McDonald's em frente à estação, lembrando que minha primeira refeição na Italia tinha sido um belo Big Mac... Para confirmar, a Coincidência tocou
Alive and Kicking, do Simple Minds, a mesma música que tocara naquele dia há seis meses.
Feliz por ser abençoado pela Coincidência, subi no trem e parti, tendo a paisagem italiana na janela e re-sentindo sensações gostosas de como tinha sido na primeira vez. Mais do que tudo, era delicioso estar ouvindo o italiano ao meu redor e falar em italiano. Era aquela sensação de encontrar um brinquedo antigo com o qual você não brincava há muito tempo e relembrar o porque você gostava dele.