sábado, abril 28, 2007

Inverno

Chegou o inverno (apesar de eu saber que Murphy me dará dias de calor intenso só porque eu falei...).

Um afinador de piano veio hoje afinar o piano de meu irmão. Ausente, meu irmão pediu que o recebesse. A casa vazia, silenciosa. Deixei-o fazendo seu serviço na sala e fui para o quarto continuar minha monografia.
O dia e a casa vazia eram estranhamente gostosos. Havia um ar meio antiquado como o piano nessa atitude de deixar o senhor sozinho com seu serviço e retirar-me. E um gosto ainda mais inglês em estar, neste tempo frio, filosofando e escrevendo sobre arte. Uma sensação violentamente européia de ser a metade da geração jovem na casa que lida com artes plásticas e ensaios acadêmicos, enquanto a outra lida com música. Quase como se não nos importássemos com a necessidade americana de trabalhar e fazer fortuna.

O verão é jovem. Estando em Londres um ano atrás, num dos verões mais quentes da história do país, o calor derretia a velhice inerente daquela sociedade e fazia todos ressonarem nos tons joviais de Franz Ferdinand. Agora, o inverno paulista retrai essa jovialidade e faz com que a introspecção tinja tudo desse tom inglês, meio mofado melancólico. Tudo pulsa ao som de Erik Satie.

O senhor foi embora minutos depois da chegada de meu irmão, que terminou as negociações. Agora ele senta-se no piano e corre os dedos pelo teclado selecionando teclas específicas. E mesmo suas notas têm esse som inglês melancólico e invernal.

Repentinamente penso em fazer chá.

segunda-feira, abril 23, 2007

Depois de quase perder a cabeça na semana passada...

"Esse personagem foi feito aqui dentro da empresa? Sério? Vocês estão de parabéns, a campanha está ótima"

"Cara, o jeito como você modula a voz é muito foda! Você tem que explorar mais isso, a música ficou demais!"

"Eu comecei a ler a tua monografia e eu achava que você estava me decepcionando porque você só resumia o que o outro autor disse. Daí você mostra um ponto de vista do cacete ampliando o que ele disse, uns trechos muito fodas discordando dele e prova que a Mona Lisa é um ícone do kitsch. Que alívio!"

"Oi, a Taís me indicou você porque você corrigiu o inglês de uma das publicações dela e ela disse que você é bom. Eu queria te passar um trabalho pra corrigir e quero saber quanto você tá cobrando."

Eu tenho até receio de escrever mais sobre tudo de bom que tem acontecido e os elogios recentes. Tenho esse medo supersticioso de que sempre que eu comento coisas boas por aqui, Murphy me dá aquela cutucada só pra baixar minha bola.

Finge que eu não falei nada...

Your Inner Child

Vou me sentir como o Lala`s escrevendo um post desses. XD

Todo mundo tem sua criança interior. A galera da psicologia que me perdoe se eu estiver usando o termo de forma incorreta. A criança interior é aquele bando de comportamentos correspondentes aos de uma criança de 5 anos de idade, ainda que você já tenha passado dos 20. São comportamentos que você sabe que são errados e prejudiciais, mas que você não consegue concertar e aprender a não fazer.

Pessoalmente, já que eu não consigo concertar, eu isolo a minha criança e a trato como se, de fato, eu estivesse tratando com um molequinho pentelho, o filho de uma outra pessoa. Ou seja, se é impossível resolver o problema, deve-se contorná-lo. A minha criança de 5 anos tem o hábito terrível de esquecer tudo o que tem que fazer, porque ela está 75% do tempo imersa em alguma viagem de ácido ou divagação existencial. Ela esquece dos compromissos, das listas de afazeres, das datas importantes, dos jobs no trabalho. Daí, quando alguma dessas coisas passa do prazo, ela fica se sentindo mal, mas sabe que vai esquecer de novo. Levou muito tempo até ensinar minha criança algumas coisas simples do tipo não esquecer o celular na mesa do restaurante ou deixar o fogão ligado. Então eu tenho que ficar atrás dela, anotando tudo em bloquinhos de anotação, post-its coloridos que lhe chamem a atenção, e-mails inesperados e alarmes de celular. Não é totalmente infalível, mas já resolve boa parte da coisa.
Ela também tem a capacidade mágica de quebrar a maioria dos aparelhos eletrônicos a seu alcance: celulares, aparelhos de música, agendas eletrônicas, o controle da TV, essas coisas. Claro, essas coisas quebram na mão de todo mundo. Mas nas mãos dela, a rapidez com a qual isso ocorre é espantosa. Ainda estou apavorado com a proximidade dela da minha máquina digital, mas não posso fazer nada além das medidas de praxe. Tais medidas incluem criar proteção de todas as formas. Minha pen drive anda constantemente encapsulada em um troço de espuma sintética azul, esculpido de um daqueles brinquedos de piscina. A aparência é bizarra, mas o aparelinho já dura mais do que o do meu irmão e os dos meus pais. A câmera, comprei uma bolsinha daquelas e, ainda não satisfeito, reforcei o acolchoado com mais espuma sintética. Se pudesse, ainda faria isso com o celular também, mas não achei um design eficaz pra isso, que não abafe o som ou fique desconfortável no bolso. Desencanei de celulares com antena ou que abrem, porque esses não duram MESMO.

E você? Qual é a SUA criança interior e como você contorna o problema?

quinta-feira, abril 19, 2007

Almoço com Cintia

Resolvi trazer comida de casa, pra cortar gastos com alimentação. Sei que não vou seguir isso todos os dias, porque é o único horário que tenho para estar com Lexy durante a semana. Mas de vez em quando...

A conversa durante o almoço com Cíntia gira quase exclusivamente em torno de nossos salários insuficientes. Claro, existe aquela coisa natural de ninguém nunca estar satisfeito com o quanto ganha e sempre querer mais, mas a nossa situação é mesmo abaixo da média...
Numa dessas, explicando porque é que eu trouxe comida de casa e de como tenho pego o ônibus porque a gasolina anda cara, ela murmura: "é, tem que cortar gastos onde der". Paro de comer e levanto a cabeça.

"A minha ideologia não é de cortar gastos, Ci. O esperto seria procurar um lugar que pague mais. Não vejo porque eu deveria me conformar em cortar gastos e ter uma vida de merda. Eu não sou muito ambicioso, mas sou um ex-aluno de Bandeirantes com duas faculdades nas costas e quatro idiomas na cabeça. Eu não quero ser dono de empresa agora, só quero um lugar que pague de acordo com a minha formação. Me sujeitei a isso porque eu sabia que tinha uma deficiência que era a total falta de experiência profissional decente e a tranquilidade deste lugar era ótima pra aprender. Mas agora já aprendi a lidar com gráfica, fechar arquivo e falar com cliente. Posso não ser um puta designer, mas também não tô mais no nível do estagiário babaca."

Ontem mesmo a pobrezinha teve que lidar com meu mau humor. Em determinado momento, tendo me passado um trabalho meio complexo desses que só eu tenho paciência pra fazer, ela brincou: "não fica bravo comigo". Disse-lhe que ela era uma de raras pessoas que me viam daquele jeito. Verdade. Quantas vezes você já me viu irado?

quarta-feira, abril 18, 2007

-=Self-destruct sequence activated=-

Calculo que em mais ou menos um mês eu vou estourar.
E engraçado constatar e comunicar isso assim, como se fosse um fato qualquer. Mas é uma cadeia de acontecimentos previsível e inevitável, onde a probabilidade de um desfecho diferente é mínima. Vai acontecer assim da seguinte maneira...

O primeiro núcleo instável dessa bomba começa com um fator muito subjetivo, e é a minha capacidade de aturar o meu presente trabalho. A saída da Loo ainda não foi coberta e eu e Cíntia continuamos absorvendo o trabalho que normalmente seria dividido entre três. Seria uma atividade muito satisfatória e cujos percalços eu aguentaria de bom grado se eu estivesse sendo pago pra isso. Mas continuo sendo um estagiário e essa situação vai continuar até Julho, pelo menos. Enquanto isso, já estou lidando com uma conta bancária no vermelho há um mês e pouco e a minha teimosia em não vender o título do clube e continuar arcando com as despesas com salário de estagiário às vezes me faz ter raiva de mim mesmo.

O segundo núcleo nem tem muito a ver com o trabalho. Há uma tensão cada vez mais crescente no meu tempo livre pós-working hours entre os afazeres da Butcher`s Daughter e a Minha Maldita Monografia. Os meses a seguir vão ser um barril de pólvora prestes a explodir, esquentando a cada dia. Porque a M.M.M. vai precisar ser entregue até o dia 30 de Maio e os açogueiros não vão poder esperar até lá pra continuar a produção deste nosso CD demo (coisa que, aliás, precisa de ainda mais dinheiro...). Eu queria muito fazer o encarte, tratar as fotos que fizemos no fim de semana com nosso amigo Lou (fotógrafo profissional é outra coisa...) e estudar os detalhes de algumas músicas antes das gravações finais (horário de estúdio custa...). Mas se não escrever a M3 agora, vou passar mais um semestre neste suplício. E estou tão perto do fim!

Vejo então que essa bomba tem dois gatilhos: um dia meu chefe vai fazer uma das suas exigências estapafúrdias e contraditórias, ou vai me prender na agência num dia em que eu precisar sair e eu não vou aguentar a pressão. Ou então o trabalho ou a banda vão me impedir de entregar a M3 a tempo, me confinando a mais um semestre de academicismo chato. De qualquer jeito, um dia eu vou estourar e o alvo vai ser meu emprego. Porque se não fosse por ele, eu teria tempo pra resolver todo o resto. E se ele estivesse pagando bem, eu aguentaria e usaria o dinheiro pra facilitar algumas coisas na vida.

Pra quem convive comigo, peço desculpas de antemão: não serei uma compania muito agradável nas semanas vindouras.

segunda-feira, abril 16, 2007

Special K

Reconheço que há um ponto no gostar de alguém quando você passa a fazer de tudo para a outra pessoa, preocupando-se com as necessidades ela, com as vontades, os desejos, as ansiedades. E que há uma qualidade transcendental em chegar a este ponto, porque por um momento, você esquece que você também tem necessidades, vontades, desejos e ansiedades. Dane-se você, o que importa é ela. E por mais que a filosofia de vida americana despreze essa atitude servil, eu prefiro o pensamento europeu e não me envergonho. No mais, para alguém que se sente desconfortável com sua condição humana, esse esquecimento de si mesmo é um alívio.

sábado, abril 14, 2007

Notícias de Genka

Genka quiz falar comigo de repente, estes dias. Escrevia-me apenas e-mails curtos e dizia que queria falar comigo. Calculei a diferença de horário e liguei, ciente de que não poderia falar por muito tempo.
Que saudade que eu tinha daquele sotaque...
Ela mudou-se para Moscou. Tem um trabalho como RP de uma compania que projeta helicópteros e que vai fazer uma exposição no Rio nas próximas semanas. Ela não vem. Está apenas organizando. Contou-me resumidamente as picuinhas do trabalho e das dificuldades de ser do interior em uma cidade grande.
Falamos brevemente da minha banda e ela gostou de saber do CD em gravação. Se eu pudesse entender os garranchos dela tentando escrever as letras russas, talvez lhe mandasse algo.
E então ela foi direto ao assunto, e perguntou quem estava comigo no fotolog, já que eu raramente colocava fotos de outras pessoas. De fato, nem tinha percebido esse padrão. Expliquei: é a produtora da banda. Estamos saíndo há um mês. E pela primeira vez, recebi abertamente a frieza russa dela: riu, comentou como seria complicada a situação e não disse mais nada.
Três frases depois, não contive a curiosidade e perguntei também. Ela começara a sair com um persa há poucas semanas. Igualmente barbudo, igualmente artista, igualmente intelectual. Brinquei que se ele falasse de repente em começar uma banda de rock, a coisa ia ficar estranha...
No fim, ambos culpados por omissão, ninguém ferido.
Keep in touch.
Da.

Fim da nossa Dança. Será que voltarei a ter notícias dela?

sexta-feira, abril 13, 2007

Systems check

Periodicamente, minha mãe me submete a baterias de exames de sangue desde que fui cobaia do Roacutane no colegial. O remédio para casos graves de espinha me rendeu, no quarto mês de tratamento, uma infecção renal monstruosa que me deu um exemplo do que algumas mulheres sentem uma vez por mês e alterou todas as minhas concentrações sanguíneas. Demorou um ano para que os exames mostrassem que eu estava de volta ao normal, mas algumas coisas nunca voltaram.
Dentre elas, o ácido úrico. Em excesso, ele acumula nas juntas e causa a doença conhecida como gota. É a maldição da família de minha mãe e uma boa parte dos homens da família a desenvolvem perto dos cinquenta anos. Meu tataravô morreu da doença, imobilizado em uma cama com cristais de uréia protuberando das juntas e muita dor. Mas com os avanços da ciência, meus tios vivem vidas absolutamente normais graças a medicamentos de controle. Eu, que detesto depender de bolinhas, vou precisar também eventualmente.
O mais grotescamente poético de tudo isso é que eu torno-me assim uma máquina que não só sabe que vai malfunction daqui a algumas décadas, mas ainda sabe como e o porquê. Uma máquina que modestamente se dedicou a desenvolver e aperfeiçoar o movimento e está programada para autosabotar seu próprio progresso.

Eu, que sempre me vangloriei da minha mobilidade, amaldiçoado com uma doença de juntas. Murphy sabe das coisas...

Mas enfim, não vamos sofrer antes do tempo, certo?

quinta-feira, abril 12, 2007

A hole in my soul

Quero que todos vocês que tiveram grana pra pagar os ingressos pro show do Aerosmith vão pro inferno.

Cada vez que alguém canta Crazy em desafino (até agora não achei ninguém que acertasse o tom e eu nem me arrisco...) eu mentalizo o Steven Tyler sentindo uma pontada no baço. Na verdade, em cada uma dessas instâncias eu me lembro que eu sou um estagiário falido de 25 anos que não teve grana pra ir ao show. E o pior de tudo é que tem uma dessas pessoas em cada um dos ambientes que eu vou.

Sim, eu tô com inveja. Muita.

quarta-feira, abril 04, 2007

Ronronando

Na agência até altas horas (já cogitando arranjar um emprego em outra área...).

Repentinamente, no silêncio tenso da finalização de trabalhos, Cíntia ouve aquele som baixinho, meio grunhido, vindo de algum lugar da sala. Ela já ouviu isso várias vezes mas nunca entendeu de onde vinha. Ventoinha de computador? Celular vibrando? Estômago faminto? Ela aguça o ouvido: sou eu.
"Esse barulho é você ronronando?" ela pergunta. Percebo o tique e paro imediatamente, meio constrangido.

Na época da Bia eu fazia algo parecido, inspirando ar com a garganta meio fechada, como um ronco baixo. Ela ficava meio incomodada. Recentemente o tique voltou, desta vez soltando o ar como se vibrasse as cordas vocais na frequência mais lenta possível. Um ronronar quase inaudível que eu projeto de vez em quando por brincadeira, deixando-o ressonar na boca. Mas na maior parte do tempo, o ato é inconsciente, quase uma mania. Vem nas horas tensas onde, em vez de xingar e resmungar, libero essa energia nesse tique. Mas Lexy já o percebeu também com outro sentido: a expressão de prazer de um gato gigantesco sendo acariciado por uma criança.

segunda-feira, abril 02, 2007

E aí, quando eu mais reclamo da minha inaptidão para o design, da minha carreira artística agonizante, da minha pasmaceira com imagens, quando minha auto-estima profissional rasteja, chegam boas notícias. Chega a ser quase cruel, porque aí eu fico todo empolgado pra continuar nesse ramo...

Ontem, no meio do cinema, recebi um telefonema de minha mãe dizendo que o livro dela tinha ganhado um concurso. A Amedeo, uma instituição que organiza concursos para pesquisadores desenvolverem livros sobre assuntos da área médica, organizou há meses um concurso sobre tuberculose. Minha mãe, sendo uma pesquisadora de renome na área, esteve entre os organizadores de um grupo de pesquisadores que estavam concorrendo. Soube que a comissão julgadora prazava uma boa capa e me alistou para fazer o serviço. Freela não-remunerado, mas divertido. Passei alguns dias fazendo isso nas horas vagas, juntando imagens do sanatório em Trieste e outras coisinhas legais. A capa que o grupo escolheu foi a mais cheia do design, sem fotos. Até eu fiquei contente com ela. Quem sabe eu ainda tenha salvação...

quinta-feira, março 29, 2007

My tuesday medication...

Estranho estar dentre tantas pessoas que vestem coisas esquisitas como eu e me sentir o mais normal deles. O público que foi ao show do Placebo na terça era de pessoas que pareciam emanar um mesmo tipo de estranheza que eu pareço causar em muita gente. Um povo que não se define por sexo nem por moda, que usa de tudo um pouco e aceita meninos e meninas. Na múltidão, ao meu lado, um rapaz tinha o rosto inconfundível de homem além dos 20, mas a textura e cor daquela pele pareciam seda. Coisa que mulher sabe fazer, mas raros são os homens que têm essa meticulosidade. Do outro lado, uma menina empurrava os outros, brigando para passar o show do lado "da sua mina". Eu assistia com olhos contornados de preto. Nos meus braços, Lexy debruçava-se na grade diante do palco, sabendo das artimanhas para chegar lá na frente.

E então o show começou. O primeiro a entrar foi o baterista Steve Hewitt, bloqueado de vista por uma das caixas de som. Em seguida, o longilíneo baixista Stefan Olsdal, vestindo botas agressivas e uma coleção de baixos estilosos. Por último, a presença perturbadora e deliciosa de Brian Molko: muito mais baixo do que eu antecipava, mas com um rosto reconhecível a milhas de distância "and a voice that made me cry" [not really]. Impressionei-me com o quão normal estavam vestidos. Hewitt parecia ter vestido a primeira coisa do armário, não muito diferente do que usaria em um ensaio em casa. Molko de camiseta listada e calça jeans, aparentemente tendo deixado o visual um pouco de lado para se concentrar na música.

O resto foi mais sentimento e menos memória. Eles esqueceram de Blind e Post Blue, que eu queria muito ouvir, mas compensaram com Bitter End, a favorita de Lexy. E quando ele resolveu não fazer a verborragia no fim da música, desafiei-a: "quero ver se você sabe o fim". Ela negou com a cabeça e sorriu quando ouviu-me tomar o lugar de Molko:

Everytime we're intercepted
Feels love like suicide
Slow and sad, come in silence
Arise a bitter mine
I love to see you run around
And I can see you now
Full of bees, arms wide out
Come on and reach inside
Grab the gentleness inside
Heard a cry
Six months time
In six months time
Prepare the end



Mais para frente, sussurrei a minha segunda voz quando ele cantou One of a Kind: coisa que inventei preso no trânsito um dia. Pulamos com Drag, Infra Red e muitas outras coisas boas. Teve até minha favorita de sempre, Special Needs: música para sexo.

Fim do show. Lexy ficava por lá, na esperança de pegar algum souvenir que os roadies jogavam do palco: set lists, baquetas, coisas do gênero. Já quase desesperançosa e desesperada. E então um rapaz olhou direto para ela e jogou algo no ar. Contra o escuro do palco, não vi o que era. Voou por cima dela e vi de repente que era uma palheta. Estendi a mão com toda a calma, mas antes dela chegar, dividiu-se em três outras, acertando meus dedos e espalhando por aí. Uma delas ficou na minha mão e dei para ela. Achei outra no chão.

Felizes, voltamos ao estacionamento. Meu carro sozinho, os vidros embaçados pelo sereno. E eu com uma vontade louca de escrever letras de música com a mesma dor, ainda que em uma época feliz. E maior vontade ainda de subir no palco pela segunda vez e comandar o universo com um gesto de voz.

quinta-feira, março 22, 2007

O nome é Lexy

"Quando conto para minhas amigas que você fez almoço para mim no fim de semana, elas suspiram. Me sinto a pessoa mais sortuda do mundo".

Lexy é como eu a chamo. Vim a perceber que ainda não havia escrito isso por aqui, pra manter o suspense a respeito dela.
Lexy tem dezoito anos apenas. A constatação traz muito coisa à cabeça. Porque um relacionamento com uma garota de dezoito me coloca em uma posição privilegiada de ser mais velho, mais maduro, mais vivido. Eu, que sempre me senti ínfimo, inferior, ingênuo ao comparar-me com garotas da minha idade, me sinto bem ao lado dela. Um bem-estar quase paternal de pertencer a uma geração mais velha que a dela (comentávamos que eu vivi os anos 80, enquanto ela apenas ouviu falar...).
Mas no fim das contas, a diferença de sete anos entre nós me causa sensações ambivalentes. Por um lado, sinto que é como trapacear no jogo, porque eu não sou de fato mais maduro ou melhor do que ela: sou apenas cronologicamente mais velho. It's like having a head start. Sabe-se lá como ela será aos 25 (e o que eu terei vivido para manter essa vantagem bizarra...).
Por outro lado, vivo o sonho delicioso e proibido da ninfeta. Que ela mesma mencionou estes dias que parece como algo de um livro de Melissa Pennerello (e eu só pude olhar pra ela incrédulo ao descobrir que ela também tinha um gosto por esse tipo de literatura). O tipo de coisa que os mais conservadores censuram, os pais desaprovam, mas no fim todo homem quer viver.

Num dos nossos almoços, Lexy fez algum comentário e escolheu alguma palavra específica, algum tom de voz exato. E naquele instante me dei conta de que ela tinha os mesmos vícios de fala que Bia. A meninice de Taís, os tons e suavidade de Genka, o despudor de Lee e tantos outros detalhes lascivos de tanta gente. Acho que não vou cansar de anotar por aqui as instâncias nas quais ela vai me lembrar algum detalhe ínfimo e adorável de cada pessoa da qual gostei por entre a personalidade dela mesma. Encontrei uma pessoa que é maravilhosa por ser a amálgama de todas as pessoas que amei e ainda com uma personalidade própria.
"Ai, Leão, você fica tentando reviver os amores passados através dela! Isso é doente". Vai sempre ter gente criticando meu amor pelo meu passado. Não estou revivendo meu passado através dela. Trata-se de usar essas semelhanças para esquecer o passado: gradualmente, estes serão traços dela, não dos ex-amores.
Enfim, o relacionamento é meu, não devo justificativas.

Eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo.
As opiniões alheias podem ir à merda.
[porque aquela coisa de "ir às favas" já não pertence mais a este blog...]

quarta-feira, março 21, 2007

Bonito ver como transformo fraquezas em especialidades.

Quando comecei a desenhar, tive a mesma dificuldade que todo mundo: mãos, pés e rostos. Em grande parte porque são detalhes tão mutáveis e expressivos, que não há regra ou medida para fazer. A proporção se aprende no olho e no instinto. E pratiquei, pratiquei, pratiquei... Anos depois, eu era perito justamente nesses detalhes. Desenhar o resto do corpo veio com o tempo e foi fácil. Mas percebi que eu tinha deixado de praticar coisas importantes que não tinham nada a ver com esses detalhes: os cenários dos meus persoangens, as roupas, esses outros pormenores que as pessoas aprendem a desenhar primeiro. Ainda não levo muito jeito pra essas coisas, mas já ando tendo idéias de arquitetura e minha Alice ganhou vestido novo. Prática, prática, prática...

Detestava tipografia. Podia escrever textos fantásticos e diagramar peças de publicidade decente. Mas na hora de escolher que tipo de letra eu usaria, eu era completamente analfabeto... Daí observei, experimentei, procurei coisas novas. Hoje não me considero perito, mas pelo menos evito as serifadas, as "a"s redondos e sem definição de uma Century Gothic, e prefiro sempre uma Helvetica a uma Arial, por saber dos erros de design de uma tipologia pirateada. Minha caligrafia, fora dos computadores, tem aquele "g" esquisito de uma Times por simples capricho.

Agora me pergunto quanto tempo ainda vai levar pra suprir a minha falta de bom senso com design...