Eu tive um sonho naquele dia. Influenciado pela sensação das semanas anteriores, eu cantava no palco do Little Darling e a voz falhava. Eu estava rouco como antes do M868 e os tons agudos simplesmente não saíam. Eu mantinha a calma e continuava cantando, ciente de que estávamos indo mal, mas sem me importar tanto.
Nosso show no Little Darling lavou a alma da zica que acompanhava as apresentações recentes. Não ganhamos o concurso, mas foi ótimo. Acima de tudo, foi um aprendizado, uma noite de gratas surpresas: a técnica do vocalista da banda da casa, a Splash Rock, cantando What's going on com uma voz feminina perfeita, idêntica ao vocal do 4 Non Blondes (se eu não estivesse vendo, acharia que era playback...); a escolha de músicas da banda vencedora, a Black Heart Blues Band, que, com um grupo de vocais muito bem coordenados, executou The Who e raridades como You Really Got Me dos Kinks e Wild Thing; a repentina condição perfeita da minha voz, que acertou até a subida de Have you Ever Seen the Rain; e principalmente, a hora em que a porta do bar abriu e uma senhora de 80 anos entrou num bar de rock acompanhada de minha mãe: era minha avó, vindo avaliar como eu cantava para continuar minha preparação!
Claro que nem tudo foi fantástico naquela noite. Eu fui com a certeza óbvia de que minha turma de colégio apareceria. Afinal, o Little Darling era nosso reduto nos últimos anos do colegial, quando começamos a fugir do congestionamento da Vila Olímpia nos finais de semana. Exceto pelo Piero, fiel escudeiro nestas situações, ninguém apareceu. E eu devia esperar por isso, visto que apenas dois ou três apareceram também, mui timidamente, na festa surpresa organizada pela Lexy. Não sei o que pensar disso. Se a turma que acabou, se resolveram me ignorar, se eu é que os abandonei, se eu sou tão impopular que nem valho a pena. Fato é que já estou me conformando com o fato de que eles nunca vão aparecer mesmo. Eles mantiveram o estilo herdado do colégio e eu enveredei para esta coisa roqueira que não tem nada a ver com quem eu era naquela época. Chega a ser irÔnico: eles que frequentavam o Madame Satã e outros antros, hoje vestem ternos e escutam jazz, enquanto eu que ouvia Bowie e Annie Lennox hoje canto em inferninhos. Falta de sincronia.
Bits and pieces of my life that everyone ignores when I speak, but someone reads when I write.
domingo, novembro 25, 2007
quarta-feira, novembro 21, 2007
quinta-feira, novembro 15, 2007
It always rains....
Hoje chove, como é de praxe nos meus aniversários. Uma garoa daquelas finas, que tingem o dia daquela melancolia gostosa. Já faz quase uma semana depois da surpresa.
Eu realmente não desconfiei do dia.
Tinha stalkeado algumas coisas. Soube de uma festa através de meus meios. E de uma ou outra surpresa por pistas que ela dava, às vezes sem querer e às vezes sem conseguir se controlar. Mas em dado ponto, me segurei: eu adoro uma surpresa e, embora pudesse saber de tudo, não queria perder aquela euforia do inesperado.
Uma semana antes do aniversário. Foi uma cartada de mestre.
Nana me chamou para outro encontro de blogueiros. Fosse a Lexy a me chamar para sair, eu talvez teria desconfiado. Em vez disso, disse que estava com a mãe e que me encontraria no bar. Pediu que eu ligasse: deslize. Eu sempre esqueço e acabo ligando de lá, depois de chegar.
Subindo as escadas, avistei o Ri pela janela: já fazem meses que ele fechou o blog. O próximo conhecido visto foi o Piero. E a partir daí já estava claro que algo estava fora de lugar.
Nem todo mundo pode comparecer. Outros chegaram algum tempo depois da surpresa, por culpa do trânsito. Sabe-se lá o que estava acontecendo naquele dia, mas a cidade estava mais caótica do que o normal. Senti e falta do Lala's, da Kita e de outras pessoas muito queridas. Mas por outro lado, fiquei surpreso ao ver algumas pessoas que eu já tinha dado como perdidas na névoa do esquecimento.
A banda me deu um microfone. Um investimento que não passará em branco e que marca, de certa forma, um "levar isso a sério": pouco a pouco eu deixo de ser aquele cantor eventual, de fim de semana, pra ser alguém que tem até o próprio equipamento. Mas o principal da noite foi a caixa feita por minha Lexy. A turma do coven surpreendeu-se com a qualidade do artesanato: dentre eles, Bia Schmidt fazia caixas lindas, mas esta era claramente superior em acabamento. Forrada em veludo, a tampa portando dezenas de imagens de leões variados. E os presentes dentro dela... Idéias simples e baratas mas muito impactantes coletadas ao longo do tempo. Bottons com meu símbolo do leão de pedra e desenhos da minha Alice, uma camiseta com a Alice 18 que fiz para as meninas da casa na Itália, a coletânea completa da Annie Lennox (cujo show recente em São Paulo eu perdi) baixada da internet.
Outras pessoas haviam tentado fazer coisas significativas assim. Achavam que eu me comoveria com qualquer presentinho que fizesse referência às artes plásticas. Mas Lexy realmente me viu. Tanto pela festa surpresa, que eu sempre insinuei e ninguém levou a sério, como pelas pequenas surpresas, que tinham a sensibilidade de quem se esforçava para de fato ver o meu mundo, os meus significados. E fazia muito tempo que eu não sentia isso.
Eu realmente não desconfiei do dia.
Tinha stalkeado algumas coisas. Soube de uma festa através de meus meios. E de uma ou outra surpresa por pistas que ela dava, às vezes sem querer e às vezes sem conseguir se controlar. Mas em dado ponto, me segurei: eu adoro uma surpresa e, embora pudesse saber de tudo, não queria perder aquela euforia do inesperado.
Uma semana antes do aniversário. Foi uma cartada de mestre.
Nana me chamou para outro encontro de blogueiros. Fosse a Lexy a me chamar para sair, eu talvez teria desconfiado. Em vez disso, disse que estava com a mãe e que me encontraria no bar. Pediu que eu ligasse: deslize. Eu sempre esqueço e acabo ligando de lá, depois de chegar.
Subindo as escadas, avistei o Ri pela janela: já fazem meses que ele fechou o blog. O próximo conhecido visto foi o Piero. E a partir daí já estava claro que algo estava fora de lugar.
Nem todo mundo pode comparecer. Outros chegaram algum tempo depois da surpresa, por culpa do trânsito. Sabe-se lá o que estava acontecendo naquele dia, mas a cidade estava mais caótica do que o normal. Senti e falta do Lala's, da Kita e de outras pessoas muito queridas. Mas por outro lado, fiquei surpreso ao ver algumas pessoas que eu já tinha dado como perdidas na névoa do esquecimento.
A banda me deu um microfone. Um investimento que não passará em branco e que marca, de certa forma, um "levar isso a sério": pouco a pouco eu deixo de ser aquele cantor eventual, de fim de semana, pra ser alguém que tem até o próprio equipamento. Mas o principal da noite foi a caixa feita por minha Lexy. A turma do coven surpreendeu-se com a qualidade do artesanato: dentre eles, Bia Schmidt fazia caixas lindas, mas esta era claramente superior em acabamento. Forrada em veludo, a tampa portando dezenas de imagens de leões variados. E os presentes dentro dela... Idéias simples e baratas mas muito impactantes coletadas ao longo do tempo. Bottons com meu símbolo do leão de pedra e desenhos da minha Alice, uma camiseta com a Alice 18 que fiz para as meninas da casa na Itália, a coletânea completa da Annie Lennox (cujo show recente em São Paulo eu perdi) baixada da internet.
Outras pessoas haviam tentado fazer coisas significativas assim. Achavam que eu me comoveria com qualquer presentinho que fizesse referência às artes plásticas. Mas Lexy realmente me viu. Tanto pela festa surpresa, que eu sempre insinuei e ninguém levou a sério, como pelas pequenas surpresas, que tinham a sensibilidade de quem se esforçava para de fato ver o meu mundo, os meus significados. E fazia muito tempo que eu não sentia isso.
quinta-feira, novembro 08, 2007
Limites
Sequer cheguei a fazer propaganda do show ocorrido há duas semanas. E também não falei nada, pelos meios virtuais de praxe, da volta ao M868 no sábado passado.
Tive medo.
Queria cantar para uma platéia de desconhecidos que não prestasse muita atenção em mim, esperando a banda dos amigos que toca metal pesado gutural depois da nossa. Queria que as falhas no que deveria ser o filamento suave de notas da minha voz fossem afogadas no burburinho das vozes de punks-de-mentira ou nas notas sempre altas da guitarra de Nando. Queria que ninguém me ouvisse. Ou pelo menos que ninguém prestasse atenção.
Lee, que sempre teve um bom gosto para florear suas frases com detalhes de uma banalidade profundamente verdadeira, escreveu recentemente em seu blog:
Em seguida, uma colega de trabalho a repreendeu por ter virado uma workaholic. Mas tem algo visceralmente humano e jovem nessa frase dela, que chora e suplica e não é atendido. Seu corpo mostrou sinais de stress e ela não quer lidar com isso. É incrivelmente frustrante quando a mente diz "por favor, só mais um pouco, eu quero" e o corpo diz "eu não aguento mais e estou desistindo". Nesta época moderna, rotulam isso de "stress". E como todo rótulo, menosprezam seu significado.
Perdoem a digressão...
Depois da sexta retrasada, onde eu já não estava me sentindo com 100% da capacidade, acordei rouco no dia seguinte. Um acontecimento que aprendi a aceitar como normal este ano. Também era normal a rouquidão passar no próximo amanhecer. E de repente, cinco dias passaram e eu ainda estava ali. Precisando do dobro do ar para emitir qualquer som e tendo metade da amplitude normal. A metade de baixo, a menos usada.
Nando, com todo seu ímpeto que sempre nos levou adiante, convenceu de todas as formas a continuarmos com a agenda. Porqueelepodiacobriraminhavozcomaguitarraetocarsujoealtoerapidoeeuusariapedaisnovocaletudodariacerto. Dias depois e um pouco em cima da hora demais para um cancelamento com mais classe, ele perguntou se eu queria cancelar o show do sábado. Sentia que não era exatamente ele que estava perguntando. Mas então a voz já estava voltando e eu tive coragem para o show do sábado. Isso, e toda a raiva contida pelas semanas de zica astral forte que culminaram com o acidente de carro, me convenceram a prosseguir. Por teimosia. Por um ódio puro, destilado, escorpionídeo que eu precisava exorcizar.
Não foi o melhor dos nossos shows. Também não foi o pior.
No médico da família: garganta um pouco inflamada e uma leve infecção por cândida (calma, é normal e todo mundo tem mas não percebe porque não canta...). Ele enfia uma câmera pelo meu nariz [imaginem, estupro nasal...] e vejo minhas cordas vocais. As paredes da garganta ainda avermelhadas e aquela forma vaginácea que se contrai e vibra quando respondo às perguntas. Ele comenta favoravelmente sobre o amplo espaço que tenho na garganta, e como isso me concede uma voz naturalmente boa para canto mesmo. Porém mostra como contraio a garganta para as notas mais agudas. Com a pressão do ar usada para aumentar o volume nos shows, a violência exercida na garganta nessas notas é brutal. Falta de técnica mesmo. Traído justamente pelas notas altas que sempre gostei.
Uma parte de mim chora e suplica e não é atendida. Especialmente agora que temos mais três shows pela frente até o final do ano. Alguns em sonhos como o Little Darling, no próximo dia 22. Mas a outra parte de mim, essa que é física e que dói, me ensina que é possível pintar um quadro sem técnica, escrever um texto sem técnica ou mesmo interpretar uma tragédia grega sem técnica. Mas cantar sem técnica é mais do que apenas uma violência estética. Preciso de aulas mais específicas do que as de minha avó.
Eu odeio ser uma dessas pessoas fracas, que têm laringite e depois não podem cantar. Preciso aguentar pelo menos mais uns dois shows ainda este ano!
Tive medo.
Queria cantar para uma platéia de desconhecidos que não prestasse muita atenção em mim, esperando a banda dos amigos que toca metal pesado gutural depois da nossa. Queria que as falhas no que deveria ser o filamento suave de notas da minha voz fossem afogadas no burburinho das vozes de punks-de-mentira ou nas notas sempre altas da guitarra de Nando. Queria que ninguém me ouvisse. Ou pelo menos que ninguém prestasse atenção.
Lee, que sempre teve um bom gosto para florear suas frases com detalhes de uma banalidade profundamente verdadeira, escreveu recentemente em seu blog:
Eu odeio ser uma dessas pessoas fracas, que têm tendinite, labirintite e depois não podem trabalhar. Preciso decupar pelo menos mais umas duas fitas ainda hoje!
Em seguida, uma colega de trabalho a repreendeu por ter virado uma workaholic. Mas tem algo visceralmente humano e jovem nessa frase dela, que chora e suplica e não é atendido. Seu corpo mostrou sinais de stress e ela não quer lidar com isso. É incrivelmente frustrante quando a mente diz "por favor, só mais um pouco, eu quero" e o corpo diz "eu não aguento mais e estou desistindo". Nesta época moderna, rotulam isso de "stress". E como todo rótulo, menosprezam seu significado.
Perdoem a digressão...
Depois da sexta retrasada, onde eu já não estava me sentindo com 100% da capacidade, acordei rouco no dia seguinte. Um acontecimento que aprendi a aceitar como normal este ano. Também era normal a rouquidão passar no próximo amanhecer. E de repente, cinco dias passaram e eu ainda estava ali. Precisando do dobro do ar para emitir qualquer som e tendo metade da amplitude normal. A metade de baixo, a menos usada.
Nando, com todo seu ímpeto que sempre nos levou adiante, convenceu de todas as formas a continuarmos com a agenda. Porqueelepodiacobriraminhavozcomaguitarraetocarsujoealtoerapidoeeuusariapedaisnovocaletudodariacerto. Dias depois e um pouco em cima da hora demais para um cancelamento com mais classe, ele perguntou se eu queria cancelar o show do sábado. Sentia que não era exatamente ele que estava perguntando. Mas então a voz já estava voltando e eu tive coragem para o show do sábado. Isso, e toda a raiva contida pelas semanas de zica astral forte que culminaram com o acidente de carro, me convenceram a prosseguir. Por teimosia. Por um ódio puro, destilado, escorpionídeo que eu precisava exorcizar.
Não foi o melhor dos nossos shows. Também não foi o pior.
No médico da família: garganta um pouco inflamada e uma leve infecção por cândida (calma, é normal e todo mundo tem mas não percebe porque não canta...). Ele enfia uma câmera pelo meu nariz [imaginem, estupro nasal...] e vejo minhas cordas vocais. As paredes da garganta ainda avermelhadas e aquela forma vaginácea que se contrai e vibra quando respondo às perguntas. Ele comenta favoravelmente sobre o amplo espaço que tenho na garganta, e como isso me concede uma voz naturalmente boa para canto mesmo. Porém mostra como contraio a garganta para as notas mais agudas. Com a pressão do ar usada para aumentar o volume nos shows, a violência exercida na garganta nessas notas é brutal. Falta de técnica mesmo. Traído justamente pelas notas altas que sempre gostei.
Uma parte de mim chora e suplica e não é atendida. Especialmente agora que temos mais três shows pela frente até o final do ano. Alguns em sonhos como o Little Darling, no próximo dia 22. Mas a outra parte de mim, essa que é física e que dói, me ensina que é possível pintar um quadro sem técnica, escrever um texto sem técnica ou mesmo interpretar uma tragédia grega sem técnica. Mas cantar sem técnica é mais do que apenas uma violência estética. Preciso de aulas mais específicas do que as de minha avó.
Eu odeio ser uma dessas pessoas fracas, que têm laringite e depois não podem cantar. Preciso aguentar pelo menos mais uns dois shows ainda este ano!
sábado, novembro 03, 2007
What if
Of all the things that can gnaw at the mind at bedtime, the most cruel of them is the alternate possibility. The infamous "what if?".
What if Lexy had stayed home that night? What if I had driven the car instead. What if I had told BBK I wasn't going to make it that evening and had taken her where she wanted to go instead? What if that delivery biker had gotten his call a minute later? In a nutshell: what if we all hadn't been there at that exact second?
She smiled at me. I remember that now. And we had been arguing over all the petty things we usually argued about. I had told her I tried so hard to get her to smile because I loved that smile. We were done arguing then and things were settled. She smiled at me and I turned to my telephone to call BBK and tell him we would soon be there. I was dialing. That's why I wasn't, as I usually am, paying attention to her every move, ready to pull the brakes if she made a mistake. I made the worst possible mistake: too much trust.
Then I heard the unmistakeable sound of a motorcycle horn growing louder to our left.
Later I would tell Lexy that I have this somewhat dangerous reaction hard-wired into my brain. That reaction is the lack of emotional response. When other people panic, I dull my senses with apathy. It was programmed into me since childhood, when I learned that bullies would stop bullying me if I didn't cry. Not because they'd think I was tough, but because there was no fun in stimulating someone who didn't respond. It's a dangerous form of reaction, because although it allows you to keep calm, it also numbs your judgement in potentially fatal situations. It's a hard thing to explain.
As I heard the sound growing louder, the reaction kicked in. I was sure he would dodge the car and everything would be fine. I remember feeling the hit and seeing him jump from the motorcycle over the hood of my car. I was sure he would fall to the ground unharmed and everything would be fine. The impact slammed the door against Lexy's left shoulder and pushed my car to the side. She stayed motionless for a while. I was sure she had just fainted momentarily and once she woke up, everything would be fine. However, the car was still moving: we rode for another second or two, heading straight for the building at the corner of the street. A thin, young tree was all that stood in the way. I was sure that it's flexibility would hold the car causing minimum damage and everything would be fine.
Alas, sometimes you're right, and sometimes you're wrong. The car did halt upon hitting the tree. This second impact knocked Lexy back into consciousness and straight into the largest panic attack I had ever witnessed. As she screamed a chain of "Babe, what have I done!?"s, my apathy seemd to be replaced by adrenaline. What had she done? I jumped out of the car and walked around it. I asked her if she was alright and then checked on the biker: still alive. All of us. The biker had a sprained ankle and that was it. And then my attention turned to the car.
At the end of Aerosmith's Living on the Edge videoclip, Edward Furlong drives a car straight into a wall in a very dinamic scene, full of movement and speed and rage. Then they cut to this other view where the car wreck sits motionless as if it had been there for ages.
I stared at my car with that same strangeness, finding it hard to believe we had actually stopped. It was wedged into the tree, almost hugging it. The driver's door was wrecked, the inner plastic shell detached and the outside handle didn't work anymore. Lexy had to open it from the inside.
I believe it began to rain roughly five minutes after it had happened. That hard, miserable rain of horror movies. The rest of this tale is all sirens and bureaucracy and headaches.
I still felt that sense of irreality when I woke up today. It took me a few minutes to remember. But the what if's started buzzing almost instantly. What if I hadn't been on the phone? What if I had pulled the handbrake before hitting the tree? What if...
What if Lexy had stayed home that night? What if I had driven the car instead. What if I had told BBK I wasn't going to make it that evening and had taken her where she wanted to go instead? What if that delivery biker had gotten his call a minute later? In a nutshell: what if we all hadn't been there at that exact second?
She smiled at me. I remember that now. And we had been arguing over all the petty things we usually argued about. I had told her I tried so hard to get her to smile because I loved that smile. We were done arguing then and things were settled. She smiled at me and I turned to my telephone to call BBK and tell him we would soon be there. I was dialing. That's why I wasn't, as I usually am, paying attention to her every move, ready to pull the brakes if she made a mistake. I made the worst possible mistake: too much trust.
Then I heard the unmistakeable sound of a motorcycle horn growing louder to our left.
Later I would tell Lexy that I have this somewhat dangerous reaction hard-wired into my brain. That reaction is the lack of emotional response. When other people panic, I dull my senses with apathy. It was programmed into me since childhood, when I learned that bullies would stop bullying me if I didn't cry. Not because they'd think I was tough, but because there was no fun in stimulating someone who didn't respond. It's a dangerous form of reaction, because although it allows you to keep calm, it also numbs your judgement in potentially fatal situations. It's a hard thing to explain.
As I heard the sound growing louder, the reaction kicked in. I was sure he would dodge the car and everything would be fine. I remember feeling the hit and seeing him jump from the motorcycle over the hood of my car. I was sure he would fall to the ground unharmed and everything would be fine. The impact slammed the door against Lexy's left shoulder and pushed my car to the side. She stayed motionless for a while. I was sure she had just fainted momentarily and once she woke up, everything would be fine. However, the car was still moving: we rode for another second or two, heading straight for the building at the corner of the street. A thin, young tree was all that stood in the way. I was sure that it's flexibility would hold the car causing minimum damage and everything would be fine.
Alas, sometimes you're right, and sometimes you're wrong. The car did halt upon hitting the tree. This second impact knocked Lexy back into consciousness and straight into the largest panic attack I had ever witnessed. As she screamed a chain of "Babe, what have I done!?"s, my apathy seemd to be replaced by adrenaline. What had she done? I jumped out of the car and walked around it. I asked her if she was alright and then checked on the biker: still alive. All of us. The biker had a sprained ankle and that was it. And then my attention turned to the car.
At the end of Aerosmith's Living on the Edge videoclip, Edward Furlong drives a car straight into a wall in a very dinamic scene, full of movement and speed and rage. Then they cut to this other view where the car wreck sits motionless as if it had been there for ages.
I stared at my car with that same strangeness, finding it hard to believe we had actually stopped. It was wedged into the tree, almost hugging it. The driver's door was wrecked, the inner plastic shell detached and the outside handle didn't work anymore. Lexy had to open it from the inside.
I believe it began to rain roughly five minutes after it had happened. That hard, miserable rain of horror movies. The rest of this tale is all sirens and bureaucracy and headaches.
I still felt that sense of irreality when I woke up today. It took me a few minutes to remember. But the what if's started buzzing almost instantly. What if I hadn't been on the phone? What if I had pulled the handbrake before hitting the tree? What if...
domingo, outubro 28, 2007
Lizzy
Encontrei uma nova webcomic que estou acompanhando semanalmente.
Lizzy vive em um futuro apocalíptico daqueles. Ela vem tendo sonhos estranhos com pessoas que a capturam e implantam mecanismos estranhos em seu cérebro, convencidos de que ela seja uma espécie de anjo do apocalipse. Tá, até aí a história não convence. Mas tenho acompanhado esta webcomic não tanto pelo conteúdo, mas pela forma.
A história da arte mostra que o surgimento de um novo meio de expressão (especificamente um meio que surgiu para outra coisa além da expressão artística) sempre passa por fases muito definidas. Ele passa um tempo servindo apenas o seu objetivo pragmático, até que alguém decide usá-lo para a arte. Mas essa primeira forma de arte crua é apenas uma repetição ou reinterpreteção de uma forma de arte anterior. As primeiras fotos eram retratos posados muito similares à pintura. Os primeiros filmes cinematográficos, como a locomotiva dos Lumiére eram projeções de imagens gravadas com uma câmera parada e, fora o movimento dos objetos mostrados, não eram muito diferentes de fotos mais elaboradas. As webcomics, até recentemente, eram também simulacros virtuais das HQs reais: histórias que misturavam ilustração e texto para contar uma história em "frames" estáticos que se relacionavam uns com os outros para dar uma idéia de cronologia da história.
Mas em algum ponto, alguém percebe que não está mais lidando com o meio antigo. Lizzy foi criada para ser uma webcomic no melhor sentido da palavra: apesar da distribuição das imagens em frames, cada uma delas é uma pequena animação em Flash, uma característica que não era possível nas HQs tradicionais.
Lizzy vive em um futuro apocalíptico daqueles. Ela vem tendo sonhos estranhos com pessoas que a capturam e implantam mecanismos estranhos em seu cérebro, convencidos de que ela seja uma espécie de anjo do apocalipse. Tá, até aí a história não convence. Mas tenho acompanhado esta webcomic não tanto pelo conteúdo, mas pela forma.
A história da arte mostra que o surgimento de um novo meio de expressão (especificamente um meio que surgiu para outra coisa além da expressão artística) sempre passa por fases muito definidas. Ele passa um tempo servindo apenas o seu objetivo pragmático, até que alguém decide usá-lo para a arte. Mas essa primeira forma de arte crua é apenas uma repetição ou reinterpreteção de uma forma de arte anterior. As primeiras fotos eram retratos posados muito similares à pintura. Os primeiros filmes cinematográficos, como a locomotiva dos Lumiére eram projeções de imagens gravadas com uma câmera parada e, fora o movimento dos objetos mostrados, não eram muito diferentes de fotos mais elaboradas. As webcomics, até recentemente, eram também simulacros virtuais das HQs reais: histórias que misturavam ilustração e texto para contar uma história em "frames" estáticos que se relacionavam uns com os outros para dar uma idéia de cronologia da história.
Mas em algum ponto, alguém percebe que não está mais lidando com o meio antigo. Lizzy foi criada para ser uma webcomic no melhor sentido da palavra: apesar da distribuição das imagens em frames, cada uma delas é uma pequena animação em Flash, uma característica que não era possível nas HQs tradicionais.
quarta-feira, outubro 17, 2007
Who Killed Bambi
A few months ago, I came upon a nice blog called Who killed Bambi? Apparently updated by a team of girls, they dedicate their patch of virtual space to collecting a variety of websites from artists who revel in the macabre. Their site seems to rebel against the idea that girls are cute, harmless, soft individuals who wince at the mere sight of blood. The very name of the blog hints at the death of cute and furry creatures who aren't taken seriously. Better yet: it relays the message with contemporary art.

Amidst all the blood and gore (yum!), there's quite a lot of painting linked in those pages. As my obssession with patterns goes, I began to see similarities between some of the North American and European painters quoted. Mostly because they reminded me of other contemporary artists who trailled the same paths.
For example, they recently linked Kelly Haigh's paintings, which reminded me of Mark Ryden's earlier, simpler works. On another page, Kathie Oliva's Misery Children made me think of Yoshitomo Nara, because of the eyes and the shape of the heads. Just before that, Yuka Yamaguchi's paintings seemed to be a simpler, not so bold version of Trevor Brown's abused children.
Most of these have a specific content in common: they take the usually harmless universe of children and mix if with an excessive violence or sexual abuse to generate that perverse feeling of shock that has some people like me digging for more. It seems to be the latest trend in painting themes.
Of course, the perception of this pattern might have something to do with the blog's objective of criticizing the cute and cuddly. But the very fact that I've seen the painters that were reminded by the blog before had me thinking about it.
Another thing to note: although I've mentioned a few Asian artists along the way, I'm not entirely sure if this pattern actually relates to painting world-wide. It feels to me as if it only happens in Europe (and consequently in America, following the shockwave...). Asians, it seems to me, have a different evolution regarding their simbology, their notions of aesthetics and composition. The few I've mentioned here (and this post would be incomplete without adding Junko Mizuno's toy art), seem to be based in Europe and influenced by (and influencing) the pattern.
************
Alguns meses atrás, descobri um site chamado Who killed Bambi? Aparentemente atualizado por um grupo de garotas, elas dedicam seu pedaço de espaço virtual à coleção de uma variedade de sites de artistas que lidam com o macabro. Seu site parece rebelar=se contra a idéia de que garotas são indivíduos meigos, inofensivos e suaves que se enojam diante da mera visão de sangue. O próprio nome do blog faz menção à morte de criaturas bonitinhas e felpudas que não são levadas a sério. Melhor ainda: ele comunica a mensagem através da arte contemporânea.
Em meio a todo o sangue e visceras, havia uma boa dose de links sobre pintura naquelas páginas. Minha obssessão por padrões me levou a ver similaridades entre alguns dos pintores norteamericanos e europeus citados. Em grande parte porque eles me lembravam de outros artistas contemporêneos que trilharam os mesmos caminhos.
Por exemplo, eles citaram recentemente as pinturas de Kelly Haigh, que me lembraram dos primeiros trabalhos de Mark Ryden. Em outra página, os Misery Children de Kathie Olivame fizeram pensar em Yoshitomo Nara, pelos olhos e pelo formato dos rostos. Pouco antes disso, as pinturas de Yuka Yamaguchi me pareceram ser uma versão mais simples e não tão corajosa das crianças violentadas de Trevor Brown.
A maioria destes tem um conteúdo específico em comum: eles tomam a geralmente inofensivo universo das crianças e o misturam com violência excessiva e abuso sexual para gerar aquela perversa sensação de choque que tanto instiga pessoas como eu. Parece ser a última moda em assuntos para pintura.
Claro que a percepção desse padrão pode ter algo a ver com o objetivo do blog de criticar o meigo e fofinho. Mas o próprio fato de que eu já vi os pintores lembrados pelo blog antes me fez pensar a respeito.
Outra coisa a mencionar: embora eu tenha mencionado alguns artistas asiáticos ao longo do post, não tenho certeza se este padrão se aplica de fato à pintura em âmbito mundial. Sinto como se só acontecesse na Europa (e consequentemente na América, seguindo a onda de choque...). Os asiáticos, me parece, têm uma evolução diferente da sua simbologia, duas noções de estética e composição. Os poucos que mencionei (e este post não seria completo sem falar também da toy art deJunko Mizuno),
parecem estar atuando na Europa, sendo influenciados (e influenciando) o padrão.
Amidst all the blood and gore (yum!), there's quite a lot of painting linked in those pages. As my obssession with patterns goes, I began to see similarities between some of the North American and European painters quoted. Mostly because they reminded me of other contemporary artists who trailled the same paths.
For example, they recently linked Kelly Haigh's paintings, which reminded me of Mark Ryden's earlier, simpler works. On another page, Kathie Oliva's Misery Children made me think of Yoshitomo Nara, because of the eyes and the shape of the heads. Just before that, Yuka Yamaguchi's paintings seemed to be a simpler, not so bold version of Trevor Brown's abused children.
Most of these have a specific content in common: they take the usually harmless universe of children and mix if with an excessive violence or sexual abuse to generate that perverse feeling of shock that has some people like me digging for more. It seems to be the latest trend in painting themes.
Of course, the perception of this pattern might have something to do with the blog's objective of criticizing the cute and cuddly. But the very fact that I've seen the painters that were reminded by the blog before had me thinking about it.
Another thing to note: although I've mentioned a few Asian artists along the way, I'm not entirely sure if this pattern actually relates to painting world-wide. It feels to me as if it only happens in Europe (and consequently in America, following the shockwave...). Asians, it seems to me, have a different evolution regarding their simbology, their notions of aesthetics and composition. The few I've mentioned here (and this post would be incomplete without adding Junko Mizuno's toy art), seem to be based in Europe and influenced by (and influencing) the pattern.
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Alguns meses atrás, descobri um site chamado Who killed Bambi? Aparentemente atualizado por um grupo de garotas, elas dedicam seu pedaço de espaço virtual à coleção de uma variedade de sites de artistas que lidam com o macabro. Seu site parece rebelar=se contra a idéia de que garotas são indivíduos meigos, inofensivos e suaves que se enojam diante da mera visão de sangue. O próprio nome do blog faz menção à morte de criaturas bonitinhas e felpudas que não são levadas a sério. Melhor ainda: ele comunica a mensagem através da arte contemporânea.
Por exemplo, eles citaram recentemente as pinturas de Kelly Haigh, que me lembraram dos primeiros trabalhos de Mark Ryden. Em outra página, os Misery Children de Kathie Olivame fizeram pensar em Yoshitomo Nara, pelos olhos e pelo formato dos rostos. Pouco antes disso, as pinturas de Yuka Yamaguchi me pareceram ser uma versão mais simples e não tão corajosa das crianças violentadas de Trevor Brown.
A maioria destes tem um conteúdo específico em comum: eles tomam a geralmente inofensivo universo das crianças e o misturam com violência excessiva e abuso sexual para gerar aquela perversa sensação de choque que tanto instiga pessoas como eu. Parece ser a última moda em assuntos para pintura.
Claro que a percepção desse padrão pode ter algo a ver com o objetivo do blog de criticar o meigo e fofinho. Mas o próprio fato de que eu já vi os pintores lembrados pelo blog antes me fez pensar a respeito.
Outra coisa a mencionar: embora eu tenha mencionado alguns artistas asiáticos ao longo do post, não tenho certeza se este padrão se aplica de fato à pintura em âmbito mundial. Sinto como se só acontecesse na Europa (e consequentemente na América, seguindo a onda de choque...). Os asiáticos, me parece, têm uma evolução diferente da sua simbologia, duas noções de estética e composição. Os poucos que mencionei (e este post não seria completo sem falar também da toy art deJunko Mizuno),
parecem estar atuando na Europa, sendo influenciados (e influenciando) o padrão.
terça-feira, outubro 16, 2007
Utopia
Procurando apartamentos para alugar, ocorre-me uma série de pequenas fantasias sobre coisas que gostaria de fazer na casa nova. São aqueles pensamentos utópicos relacionados à qualidade de vida que ainda tenho esperança de poder coordenar, mas que no fundo sei que provavelmente jamais colocarei em prática. Pela falta de tempo, de paciência, de dinheiro. Porque estarei ocupado demais cuidando da vida para vivê-la.
• Pesquisar sobre reciclagem e separar tudo adequadamente em casa, para levar ao centro de reciclagem uma vez ao mês.
• Pegar as manhãs de sábado ou domingo para uma rápida faxina que vai me economizar a contratação da empregada.
• Cozinhar coisas interessantes e saudáveis como eu fazia na Europa, para comer durante a semana e evitar os quilos perto do trabalho.
• Fazer quantidades industriais de chá gelado e sucos pra complementar.
• Me acostumar a usar água e energia de uma forma mais racional.
• Ir trabalhar de ônibus, metrô ou bicicleta e só sair com o carro nos finais de semana.
• Aliás, a bicicleta é uma ótima opção: não poluo, não gasto e ainda cuido do condicionamento físico...
• Separar algum tempo do dia para ler direito o jornal.
• Adotar uma gata.
• Pesquisar sobre reciclagem e separar tudo adequadamente em casa, para levar ao centro de reciclagem uma vez ao mês.
• Pegar as manhãs de sábado ou domingo para uma rápida faxina que vai me economizar a contratação da empregada.
• Cozinhar coisas interessantes e saudáveis como eu fazia na Europa, para comer durante a semana e evitar os quilos perto do trabalho.
• Fazer quantidades industriais de chá gelado e sucos pra complementar.
• Me acostumar a usar água e energia de uma forma mais racional.
• Ir trabalhar de ônibus, metrô ou bicicleta e só sair com o carro nos finais de semana.
• Aliás, a bicicleta é uma ótima opção: não poluo, não gasto e ainda cuido do condicionamento físico...
• Separar algum tempo do dia para ler direito o jornal.
• Adotar uma gata.
terça-feira, outubro 09, 2007
Perdi alguns minutos do dia corrido para observar a pintura. Quando comecei a gostar de pintura mesmo, meu favorito era Renoir. Na verdade, eu não me interessava nem um pouco pelo vanguardismo impressionaista do mestre, mas sim pelo modo como ele pintava pessoas. Os tons das peles e a suavidade virginal com a qual ilustrava garotas. Mas me incomodavam bastante os seus maneirismos, os olhos grandes demais, as bocas sempre muito parecidas. Só fui descobrir Bouguereau na Itália. E então, eu já não tinha predileções por pintores específicos, mas sim por imagens em si. Dorothea Tanning pintou inúmeros quadros, mas só me interessei verdadeiramente por seu Ein Klein Nachtmusik. Mas voltando a Bouguereau, ele substituiu Renoir entre meus favoritos. Embora não fizesse diferença na história da arte (e atualmente isso não define para mim um bom ou mau artista...), pintava seres humanos de uma pureza encantadora. E melhor, dava-lhes rostos que pareciam mais verdadeiros, mais proporcionados. As duas irmãs do quadro pareciam mais reais do que as irmãs D'Anvers que Renoir costumava pintar. E embora andassem por aí descalças e em roupas pouco refinadas, pareciam puras, assépticas, de uma limpeza antibiótica.
Quiçá a pintura mais famosa de Bouguereau tenha sido a do cupido beijando a fada justamente por isso: são avatares de uma pureza sobrenatural.
Lasciate ogni speranza o voi che entrate
Há quem acredite piamente que o inferno astral acontece todo ano, um mês antes da data do nosso aniversário.
[blogterapia mode ON]
Pois bem, vamos ao desabafo.
Pra início de conversa, o que eu achava que seria uma estabilidade financeira decente quando eu começasse a trabalhar na nova agência está voando pela janela. Claro, o salário vem e é muito bom, mas os gastos com os quais eu repentinamente tive que arcar estão corroendo a economia. Eu queria listar aqui todo o rosário de contas a pagar, especialmente em relação ao meu carro (potencializado pelas escolhas nada sensatas de mamãe...). Mas poupo-os do martírio.
E por falar em trabalho, escrevo após a meia-noite, porque já faz uma semana que não chego em casa antes das 11. O último sábado, gastei-o na agência também, fazendo um trabalho que no fim foi completa e totalmente sucateado e não serviu pra nada... Divertido, né?
O fato é que não tenho dormido muito. Aliás, quase nada. O pouco tempo que tenho em casa (e que eu deveria gastar dormindo) é gasto com zilhões de miudezas diárias: aquele vídeo do último show da banda que os rapazes estão me enchendo pra colocar na net, a ilustração para a amiga que hospeda meu site quase gratuitamente, a casa que meu irmão achou para dividirmos e que eu tenho que ver.
Aliás, esse é outro assunto. Começo a perceber que a forte tendência dele ao estilo de vida mundrungo pode ser uma divergência irreconciliável. A casa que vi era um sonho pra ele, mas teria me deprimido nos primeiros meses. Não sei explicar, é o estilo: a tinta descascando das paredes, aqueles ladrilhos com padrões florais de três décadas atrás, os restos de material de construção que provavelmente estão encostados lá há ainda mais tempo do que isso, a dona do lugar com dentes amarelados pelos anos de fumo e o cabelo desgrenhado insinuando insanidade. Eu não pretendo morar em um lugar luxuoso. Mas este, simplesmente não bateu. E desconfio que nenhum dos que ele escolher vai bater. No entanto, eu realmente não tenho tempo de procurar.
Restam-me três opções: acabar em alguma república mundrunga mesmo, ir morar com o Lala's (o que seria terrivelmente fora de mão, mas a compania seria ótima e o lugar bem mais arrumado), ou procurar um lugar como o do Iraê e arcar com os custos sozinho.
A lista deste desabafo continuaria por mais diversos parágrafos. Mas novamente vejo que já é uma hora da manhã e eu preciso ir dormir para aguentar amanhã.
[/blogterapia mode ON]
Kill me.
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Pois bem, vamos ao desabafo.
Pra início de conversa, o que eu achava que seria uma estabilidade financeira decente quando eu começasse a trabalhar na nova agência está voando pela janela. Claro, o salário vem e é muito bom, mas os gastos com os quais eu repentinamente tive que arcar estão corroendo a economia. Eu queria listar aqui todo o rosário de contas a pagar, especialmente em relação ao meu carro (potencializado pelas escolhas nada sensatas de mamãe...). Mas poupo-os do martírio.
E por falar em trabalho, escrevo após a meia-noite, porque já faz uma semana que não chego em casa antes das 11. O último sábado, gastei-o na agência também, fazendo um trabalho que no fim foi completa e totalmente sucateado e não serviu pra nada... Divertido, né?
O fato é que não tenho dormido muito. Aliás, quase nada. O pouco tempo que tenho em casa (e que eu deveria gastar dormindo) é gasto com zilhões de miudezas diárias: aquele vídeo do último show da banda que os rapazes estão me enchendo pra colocar na net, a ilustração para a amiga que hospeda meu site quase gratuitamente, a casa que meu irmão achou para dividirmos e que eu tenho que ver.
Aliás, esse é outro assunto. Começo a perceber que a forte tendência dele ao estilo de vida mundrungo pode ser uma divergência irreconciliável. A casa que vi era um sonho pra ele, mas teria me deprimido nos primeiros meses. Não sei explicar, é o estilo: a tinta descascando das paredes, aqueles ladrilhos com padrões florais de três décadas atrás, os restos de material de construção que provavelmente estão encostados lá há ainda mais tempo do que isso, a dona do lugar com dentes amarelados pelos anos de fumo e o cabelo desgrenhado insinuando insanidade. Eu não pretendo morar em um lugar luxuoso. Mas este, simplesmente não bateu. E desconfio que nenhum dos que ele escolher vai bater. No entanto, eu realmente não tenho tempo de procurar.
Restam-me três opções: acabar em alguma república mundrunga mesmo, ir morar com o Lala's (o que seria terrivelmente fora de mão, mas a compania seria ótima e o lugar bem mais arrumado), ou procurar um lugar como o do Iraê e arcar com os custos sozinho.
A lista deste desabafo continuaria por mais diversos parágrafos. Mas novamente vejo que já é uma hora da manhã e eu preciso ir dormir para aguentar amanhã.
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Kill me.
domingo, setembro 30, 2007
M868
Alguém me explique o que aconteceu no sábado...
Peregrinamos até a Mooca para um show. A casa, de tão nova, nem tinha site na internet ainda. O que me deixou um pouco inseguro, porque sempre gosto de ver as fotos do lugar e sentir o estilo da casa antes de tocar. Estava ainda mais inseguro pelo fato de que não tínhamos ensaiado tudo o que gostaríamos de ensaiar para este que seria nosso primeiro show sem nossa segunda vocal. E fiquei ainda mais inseguro quando chegamos e eu percebi que as pessoas tinham levado a sério o flyer da festa, que propagandeava uma "Glam Hard Night": penteados esfuziantes [procurem no dicionário, é legal] e roupas divertidas. Tudo bem do estilo que eu gosto. Só que eu, com meu estúpido senso do ridículo, viera relativamente normal. Me sentia underdressed.
Seríamos a segunda banda a tocar, mas fomos os primeiros a chegar. O pessoal da casa era de uma certa idade. Com cara de quem não é realmente do ramo do rock, mas resolveu montar a casa porque tinha clientela na região. Do tipo de gente que faz comentários leves de desprezo sobre "essa molecada estranha". A casa era inteira de paredes pretas e lisas, salvo pelo logotipo aqui e ali e uma ou outra decoração. Minúscula: a sala do bar e a sala do palco.
A primeira banda a subir foi um cover de Guns N' Roses. Boa banda, antenada com o estilo da nova formação do Guns e seu vocalista, Scott Weiland. Começaram à meia-noite, uma hora depois do que deveriam, mas realmente animaram a galera. Músicas conhecidas fazem isso. A execução era formidável, a voz e guitarras, idênticas. E o vocalista bebia. E como bebia! Na metade da apresentação, teve a ajuda de outro vocal que subiu da platéia, e que os rapazes reconheceram como um dos vocais de outra famosa banda cover do Guns aqui de São Paulo. Ainda não sou experiente nesse universo pra saber nomes, mas o efeito dessa participação no público foi fantástico.
Como subir ao palco depois de um show desses? Os meninos estavam falando em alterar o setlist, em tocar na fé e sair correndo pra não sermos linchados, em garrafadas na cabeça e chuva de salgadinho e vaia. Comentavam sobre o estilo do público e tinham medo de abrirmos o show com nosso ritualístico Evenflow, porque era música grunge e não cairia bem entre o pessoal punk ou glam ou hard core ou qualquer outra coisa. Me senti desinformado: pra mim, punk já englobava boa parte do público de lá e eu não tinha muita noção de quem gostava do que. Pra mim, qualquer um que curtisse rock adoraria Evenflow. A mesma sensação de ter entrado nas Artes Plásticas e perceber que era, todos artistas, mas que as subcategorias tornavam a todos muito diferentes para se entenderem.
E então foi a hora de subir no palco. A dedicação das meninas em ajudar com toda a parafernalia merece um post em especial algum dia. São vários quilos de guitarras, ferragens de bateria, amplificadores... e a casa não tinha microfone! Por um momento, pânico. Mas me recusei a ser vítima da brasilidade que deixa faltar até o básico: por idéia dos meninos, alcancei o vocalista bêbado do Guns e implorei por um microfone emprestado.
Me acotovelando entre as mais de duzentas pessoas que já estavam na casa naquela hora, senti uma primeira ponta de ansiedade. Não daquela da minha síndrome, mas da ansiedade pré-apresentações. Aquela que até então eu não tinha sentido desde que comecei a cantar na banda. Mas foi só um alarme falso. Um medo momentâneo de não fazer melhor do que a banda anterior. De não ter retorno, não animar a casa cheia. Me desfiz desse pensamento com o placebo de sempre: "Tudo bem, eu não sou cantor profissional mesmo. Nunca estudei e não tenho obrigação de ser bom nisso." Ainda funcionava: a ansiedade passava instantaneamente. Até quando?
Tudo ligado, hora do show. Chamei a atenção do público dizendo que, ao contrário dos rumores, eu não era o D2 e nem o cara dos Titãs. Risadas. Quebrou-se o gelo.
Aquele slide de guitarra, como o momento em que a onda te levanta para depois jogar com velocidade para frente, e na próxima nota estávamos no Evenflow. Os rapazes tocando como quem vira o rosto para o lado antes de apertar um gatilho.
E então, o inesperado.
Um, dois, cinco grunges surgindo da multidão do fundo para cantar o refrão. Nossas meninas engrossando o coro e criando aquele efeito moral que arrebanhou os sem opinião própria. E de repente, a casa inteira estava junto!
Eu nunca tinha visto aquilo. Era nosso quinto show e o mais cheio que eu já fiz. E a platéia respondia maravilhosamente bem a tudo. E mesmo entre músicas, naqueles minutos antes dos próximos acordes, a timidez ficava longe e eu me deliciava com o controle sobre aquela centena de pessoas. Eles cantavam junto, pediam músicas, gritavam. Atravessaram Boy Toy pulando e dançaram com os clássicos. Na beira do palco, um gordo risonho alcançava com dedos gulosos a barra da minha calça, os cabos da guitarra, do microfone, qualquer coisa: comunicava uma interação que era mais que sonora, um querer drenar aquela energia nossa.
A noite esquentava lá dentro, o ar era cada vez mais rarefeito. Passada meia hora de show, em uma nota alta do Have You Ever Seen the Rain, senti os efeitos da falta de ar. O corpo fraquejava, em abocanhava todo o fôlego possível e parecia estranhamente menos do que o normal. Um giro de tontura e dei a próxima frase do refrão para o público, que se degladiava pelo microfone enquanto eu respirava por um segundo.
Anunciamos a última da noite: Put My Leash On, do Nando. Tinha sido maravilhoso. Aquele tipo de coisa que drena todas as energias e você cede tudo voluntariamente. Enquanto me agachava para deixar Lexy dizer a frase que reiniciava a música após a pausa do segundo refrão, me sentia drogado, bêbado de serotonina. Mais do que o vocalista anterior. Cada grito ou reação era outro gole. A voz já não faria o último ataque no fim da música e eu optei pelos tons baixos, mas eu queria mais! Nando aproveitou: pediu pra tocarmos Hey Joe para a saidera. Pastana já estava com os pratos da bateria suando. BBK protestou no baixo por um segundo mas cedeu. E um ótimo fim para uma noite ainda sem precedentes me drogou por mais alguns minutos.
Descendo do palco e dando espaço para outra banda, percebi o corpo destruído. Fraco, dolorido, mas incrivelmente feliz. No caminho de levar as coisas para fora e devolver o microfone emprestado a um vocalista semi-comatoso, fui supreendido pelas pessoas me chamando para dizer o quanto tinham gostado [e perguntar o nome complicado da banda...]. Me chuto até agora por não ter material de divulgação para dar: cartões, site, alguma coisa. Algo a resolver.
Nos dias que se seguiram, ainda flutuando alguns centímetros acima do chão, recebi o telefonema dos rapazes da banda. Meio encabulado, porém radiante, ouvi dizerem o quanto tinham gostado desse show e do meu jeito com o público. E a dúvida persiste: será que somos realmente tão bons?
Peregrinamos até a Mooca para um show. A casa, de tão nova, nem tinha site na internet ainda. O que me deixou um pouco inseguro, porque sempre gosto de ver as fotos do lugar e sentir o estilo da casa antes de tocar. Estava ainda mais inseguro pelo fato de que não tínhamos ensaiado tudo o que gostaríamos de ensaiar para este que seria nosso primeiro show sem nossa segunda vocal. E fiquei ainda mais inseguro quando chegamos e eu percebi que as pessoas tinham levado a sério o flyer da festa, que propagandeava uma "Glam Hard Night": penteados esfuziantes [procurem no dicionário, é legal] e roupas divertidas. Tudo bem do estilo que eu gosto. Só que eu, com meu estúpido senso do ridículo, viera relativamente normal. Me sentia underdressed.
Seríamos a segunda banda a tocar, mas fomos os primeiros a chegar. O pessoal da casa era de uma certa idade. Com cara de quem não é realmente do ramo do rock, mas resolveu montar a casa porque tinha clientela na região. Do tipo de gente que faz comentários leves de desprezo sobre "essa molecada estranha". A casa era inteira de paredes pretas e lisas, salvo pelo logotipo aqui e ali e uma ou outra decoração. Minúscula: a sala do bar e a sala do palco.
A primeira banda a subir foi um cover de Guns N' Roses. Boa banda, antenada com o estilo da nova formação do Guns e seu vocalista, Scott Weiland. Começaram à meia-noite, uma hora depois do que deveriam, mas realmente animaram a galera. Músicas conhecidas fazem isso. A execução era formidável, a voz e guitarras, idênticas. E o vocalista bebia. E como bebia! Na metade da apresentação, teve a ajuda de outro vocal que subiu da platéia, e que os rapazes reconheceram como um dos vocais de outra famosa banda cover do Guns aqui de São Paulo. Ainda não sou experiente nesse universo pra saber nomes, mas o efeito dessa participação no público foi fantástico.
Como subir ao palco depois de um show desses? Os meninos estavam falando em alterar o setlist, em tocar na fé e sair correndo pra não sermos linchados, em garrafadas na cabeça e chuva de salgadinho e vaia. Comentavam sobre o estilo do público e tinham medo de abrirmos o show com nosso ritualístico Evenflow, porque era música grunge e não cairia bem entre o pessoal punk ou glam ou hard core ou qualquer outra coisa. Me senti desinformado: pra mim, punk já englobava boa parte do público de lá e eu não tinha muita noção de quem gostava do que. Pra mim, qualquer um que curtisse rock adoraria Evenflow. A mesma sensação de ter entrado nas Artes Plásticas e perceber que era, todos artistas, mas que as subcategorias tornavam a todos muito diferentes para se entenderem.
E então foi a hora de subir no palco. A dedicação das meninas em ajudar com toda a parafernalia merece um post em especial algum dia. São vários quilos de guitarras, ferragens de bateria, amplificadores... e a casa não tinha microfone! Por um momento, pânico. Mas me recusei a ser vítima da brasilidade que deixa faltar até o básico: por idéia dos meninos, alcancei o vocalista bêbado do Guns e implorei por um microfone emprestado.
Me acotovelando entre as mais de duzentas pessoas que já estavam na casa naquela hora, senti uma primeira ponta de ansiedade. Não daquela da minha síndrome, mas da ansiedade pré-apresentações. Aquela que até então eu não tinha sentido desde que comecei a cantar na banda. Mas foi só um alarme falso. Um medo momentâneo de não fazer melhor do que a banda anterior. De não ter retorno, não animar a casa cheia. Me desfiz desse pensamento com o placebo de sempre: "Tudo bem, eu não sou cantor profissional mesmo. Nunca estudei e não tenho obrigação de ser bom nisso." Ainda funcionava: a ansiedade passava instantaneamente. Até quando?
Tudo ligado, hora do show. Chamei a atenção do público dizendo que, ao contrário dos rumores, eu não era o D2 e nem o cara dos Titãs. Risadas. Quebrou-se o gelo.
Aquele slide de guitarra, como o momento em que a onda te levanta para depois jogar com velocidade para frente, e na próxima nota estávamos no Evenflow. Os rapazes tocando como quem vira o rosto para o lado antes de apertar um gatilho.
E então, o inesperado.
Um, dois, cinco grunges surgindo da multidão do fundo para cantar o refrão. Nossas meninas engrossando o coro e criando aquele efeito moral que arrebanhou os sem opinião própria. E de repente, a casa inteira estava junto!
Eu nunca tinha visto aquilo. Era nosso quinto show e o mais cheio que eu já fiz. E a platéia respondia maravilhosamente bem a tudo. E mesmo entre músicas, naqueles minutos antes dos próximos acordes, a timidez ficava longe e eu me deliciava com o controle sobre aquela centena de pessoas. Eles cantavam junto, pediam músicas, gritavam. Atravessaram Boy Toy pulando e dançaram com os clássicos. Na beira do palco, um gordo risonho alcançava com dedos gulosos a barra da minha calça, os cabos da guitarra, do microfone, qualquer coisa: comunicava uma interação que era mais que sonora, um querer drenar aquela energia nossa.
A noite esquentava lá dentro, o ar era cada vez mais rarefeito. Passada meia hora de show, em uma nota alta do Have You Ever Seen the Rain, senti os efeitos da falta de ar. O corpo fraquejava, em abocanhava todo o fôlego possível e parecia estranhamente menos do que o normal. Um giro de tontura e dei a próxima frase do refrão para o público, que se degladiava pelo microfone enquanto eu respirava por um segundo.
Anunciamos a última da noite: Put My Leash On, do Nando. Tinha sido maravilhoso. Aquele tipo de coisa que drena todas as energias e você cede tudo voluntariamente. Enquanto me agachava para deixar Lexy dizer a frase que reiniciava a música após a pausa do segundo refrão, me sentia drogado, bêbado de serotonina. Mais do que o vocalista anterior. Cada grito ou reação era outro gole. A voz já não faria o último ataque no fim da música e eu optei pelos tons baixos, mas eu queria mais! Nando aproveitou: pediu pra tocarmos Hey Joe para a saidera. Pastana já estava com os pratos da bateria suando. BBK protestou no baixo por um segundo mas cedeu. E um ótimo fim para uma noite ainda sem precedentes me drogou por mais alguns minutos.
Descendo do palco e dando espaço para outra banda, percebi o corpo destruído. Fraco, dolorido, mas incrivelmente feliz. No caminho de levar as coisas para fora e devolver o microfone emprestado a um vocalista semi-comatoso, fui supreendido pelas pessoas me chamando para dizer o quanto tinham gostado [e perguntar o nome complicado da banda...]. Me chuto até agora por não ter material de divulgação para dar: cartões, site, alguma coisa. Algo a resolver.
Nos dias que se seguiram, ainda flutuando alguns centímetros acima do chão, recebi o telefonema dos rapazes da banda. Meio encabulado, porém radiante, ouvi dizerem o quanto tinham gostado desse show e do meu jeito com o público. E a dúvida persiste: será que somos realmente tão bons?
quinta-feira, setembro 27, 2007
Severance 1
Há algum tempo, soube da história de um casal de conhecidos que estava se separando porque ele ia viajar para o Canadá durante algum tempo. Na conversa, surgiu o conceito de que a dor que ela sentia consumia-a como um cancer.
[Não, um cancer não. Uma amputação.]
Anotei no meu caderno esse pensamento que não cheguei a proferir. A idéia me viera daquele jeito condensado que me enlouquece por dias. Como um grande nó que eu tenho que desfazer aos poucos pra entender completamente. A Lettin' the Cables Sleep, uma das minhas telas favoritas, me veio num nó desses e levou quase um ano pra entender.
O cancer é uma adição: células crescem descontroladamente. Esse rompimento era como a amputação, porque ela já estava acostumada com ele. Mas então ele é subtraído bruscamente e ela fica com aquela sensação de vazio. O inglês tem um termo delicioso para essa subtração, a severance. Tem a frieza científica e melancólica do cirurgião e uma sonoridade adequada para uma música.
Na wikipedia, encontrei outros termos adequados. Propriocepção é a capacidade que temos de sentir o próprio corpo, tanto pelos cinco sentidos externos, quanto internamente. Dá uma noção dos limites e condições dos membros. Quem perde um braço ou perna experimenta uma confusão em sua propriocepção, porque o corpo continua acostumado ao membro que não está mais lá. O que leva ao conhecido fenômeno do membro fantasma.
Voltei a pensar no assunto recentemente depois de um sonho nostálgico. Acordar e perceber que a realidade tinha mudado (para melhor ou pior é irrelevante...) e sentir aquele choque de realidade. Era a sensação de sonhar que se está correndo ou manuseando algo e acordar para uma realidade onde o membro em questão foi recentemente extirpado. Experimentei uma fração da sensação que ela deve sentir hoje ao acordar.
[Não, um cancer não. Uma amputação.]
Anotei no meu caderno esse pensamento que não cheguei a proferir. A idéia me viera daquele jeito condensado que me enlouquece por dias. Como um grande nó que eu tenho que desfazer aos poucos pra entender completamente. A Lettin' the Cables Sleep, uma das minhas telas favoritas, me veio num nó desses e levou quase um ano pra entender.
O cancer é uma adição: células crescem descontroladamente. Esse rompimento era como a amputação, porque ela já estava acostumada com ele. Mas então ele é subtraído bruscamente e ela fica com aquela sensação de vazio. O inglês tem um termo delicioso para essa subtração, a severance. Tem a frieza científica e melancólica do cirurgião e uma sonoridade adequada para uma música.
Na wikipedia, encontrei outros termos adequados. Propriocepção é a capacidade que temos de sentir o próprio corpo, tanto pelos cinco sentidos externos, quanto internamente. Dá uma noção dos limites e condições dos membros. Quem perde um braço ou perna experimenta uma confusão em sua propriocepção, porque o corpo continua acostumado ao membro que não está mais lá. O que leva ao conhecido fenômeno do membro fantasma.
Voltei a pensar no assunto recentemente depois de um sonho nostálgico. Acordar e perceber que a realidade tinha mudado (para melhor ou pior é irrelevante...) e sentir aquele choque de realidade. Era a sensação de sonhar que se está correndo ou manuseando algo e acordar para uma realidade onde o membro em questão foi recentemente extirpado. Experimentei uma fração da sensação que ela deve sentir hoje ao acordar.
segunda-feira, setembro 17, 2007
Blended Sunrise
"Me diz, você achava ela perfeita, né?" - ela perguntou. Falava, obviamente, da russa. Todos os meus relacionamentos sempre foram marcados por fantasmas do passado. Acho que Lee foi quem teve a melhor opinião a respeito, dizendo que era impossível superar um desses fantasmas: afinal, como escrevi no post anterior, as memórias são virtualmente perfeitas, enquanto a pessoa-presente-tangível tem seus erros e acertos...
Houve épocas em que eu teria dito que sim, a russa era perfeita. Mas sempre soube que era uma daquelas auto-enganações terapeuticas. Eu não queria pensar nos defeitos dela, porque ela tinha sido um dos fetiches que eu sempre quis e eu não queria denegrir isso. Mas vamos, já passou mais de um ano que ela aconteceu...
Me surpreendi (e suponho ter surpreendido ela também) tendo uma resposta tão pronta para a pergunta. Não, ela não era perfeita. Apesar da aventura carnal, ela trazia toda a frieza e austeridade desse povo do gélido norte europeu. Jamais ouvi e nem pensei algum dia ouvir, segundo contei a Lexy, que a russa me dissesse palavras de carinho daquelas bem clichês. Salvo, é claro, por um "eu gosto de você" bem cordial e dúbio logo que nos conhecemos. E para a breve aventura que foi, essa frieza até deu um tom interessante. Mas eu teria sentido falta disso. Eu ignorei isso por muito tempo, mas é uma verdade gritante em neon garrafal.
No mais, aquele problema recorrente em vários dos meus relacionamentos, de ser um quase-artista atrelado a uma pessoa que percebe a expressão artística apenas como um diletantismo, uma falta do que fazer. Ela dizia, com aquele sotaque lascivo como sexo violento, que minhas Alices eram fantásticas e que eu era talentoso, mas ficava claro que ela sequer arranhava a superfície do que aquilo significava para mim e desconhecia totalmente o deleite de um processo criativo. A longo prazo, desconfio que teria feito a mesma exigência que Taís fez quando éramos alunos de colégio: "ou a pintura, ou eu!"
Houve épocas em que eu teria dito que sim, a russa era perfeita. Mas sempre soube que era uma daquelas auto-enganações terapeuticas. Eu não queria pensar nos defeitos dela, porque ela tinha sido um dos fetiches que eu sempre quis e eu não queria denegrir isso. Mas vamos, já passou mais de um ano que ela aconteceu...
Me surpreendi (e suponho ter surpreendido ela também) tendo uma resposta tão pronta para a pergunta. Não, ela não era perfeita. Apesar da aventura carnal, ela trazia toda a frieza e austeridade desse povo do gélido norte europeu. Jamais ouvi e nem pensei algum dia ouvir, segundo contei a Lexy, que a russa me dissesse palavras de carinho daquelas bem clichês. Salvo, é claro, por um "eu gosto de você" bem cordial e dúbio logo que nos conhecemos. E para a breve aventura que foi, essa frieza até deu um tom interessante. Mas eu teria sentido falta disso. Eu ignorei isso por muito tempo, mas é uma verdade gritante em neon garrafal.
No mais, aquele problema recorrente em vários dos meus relacionamentos, de ser um quase-artista atrelado a uma pessoa que percebe a expressão artística apenas como um diletantismo, uma falta do que fazer. Ela dizia, com aquele sotaque lascivo como sexo violento, que minhas Alices eram fantásticas e que eu era talentoso, mas ficava claro que ela sequer arranhava a superfície do que aquilo significava para mim e desconhecia totalmente o deleite de um processo criativo. A longo prazo, desconfio que teria feito a mesma exigência que Taís fez quando éramos alunos de colégio: "ou a pintura, ou eu!"
Paradise Lost
Em uma exposição sobre poesia concreta, uma frase me chama a atenção:
O único paraíso é o Paraíso Perdido.
Paradise Lost é a obra do escritor John Milton (o mesmo nome do personagem de Pacino em Advogado do Diabo) sobre Satanás tramando para causar a expulsão de Adão e Eva do paraíso.
Mas acima de tudo, a frase faz-me pensar que o paraíso são boas memórias de tempos que já foram, tempos que não voltam porque tudo na vida muda e segue adiante. Nas memórias boas, tudo é perfeito e os defeitos são ignorados. O presente, por outro lado, raras vezes pode se equiparar a um paraíso, posto que leva consigo a perfeição e imperfeição da realidade.
O único paraíso é o Paraíso Perdido.
Paradise Lost é a obra do escritor John Milton (o mesmo nome do personagem de Pacino em Advogado do Diabo) sobre Satanás tramando para causar a expulsão de Adão e Eva do paraíso.
Mas acima de tudo, a frase faz-me pensar que o paraíso são boas memórias de tempos que já foram, tempos que não voltam porque tudo na vida muda e segue adiante. Nas memórias boas, tudo é perfeito e os defeitos são ignorados. O presente, por outro lado, raras vezes pode se equiparar a um paraíso, posto que leva consigo a perfeição e imperfeição da realidade.
sábado, setembro 15, 2007
Strangers when we meet
Babe,
percebi que nunca me dei ao trabalho de pesquisar o suficiente para compreender completamente esta que é uma das minhas músicas favoritas do Bowie. Mas de qualquer jeito, agora que você viciou nela, segue uma tradução meio mambembe da letra, que você não achou na internet. Muito dela não vai ter tanta sonoridade em português e vai parecer meio cafona, mas eu gosto no inglês. E muito dela não vai fazer muito sentido porque são piadinhas internas e críticas que ele escreveu para uma ex-mulher que estava vendendo detalhes sórdidos da vida privada deles para os tablóides. Estou colocando entre "[]" alguns detalhes que pesquisei e outras noções que talvez ajudem a compreender.
All my friends
Now seem so thin and frail
Slinky secrets
Hotter than the sun
No peachy prayers
No trendy rechauffe
I'm with you
So I can't go on
[CHORUS]
All my violence
Raining tears upon the sheet
I'm bewildered/resentful
For we're strangers when we meet
Blank screen TV
Preening ourselves in the snow
Forget my name
But I'm over you
Blended sunrise
And it's a dying world
Humming Rheingold
We scavenge up our clothes
[CHORUS]
Cold tired fingers
Tapping out your memories
Halfway sadness
Dazzled by the new
Your embrace
Was all that I feared
That whirling room
We trade by vendu
Steely resolve
Is falling from me
My poor soul
All bruised passivity
All your regrets
Ride rough-shod over me
I'm so glad
That we're strangers when we meet
I'm so thankful
That we're strangers when we meet
I'm in clover
For we're strangers when we meet
Heel head over
And we're strangers when we meet
=====================================
Todos os meus amigos
Parecem agora finos e frágeis
Segredos sensuais
Mais quentes que o sol
Sem preces suculentas
Sem essa moda de reaquecer [o relacionamento]
Estou com você
Portanto não posso continuar
[CHORUS]
Toda minha violência
Chove lágrimas nos lençóis
Estou encantado / ressentido
Pois somos estranhos quando nos conhecemos.
Tela de TV vazia
Nos arrumarmos na neve
Você esquece meu nome
Mas eu já superei você
Fusão do nascer do sol
E é um mundo moribundo
Murmurando Rheingold [Primeira parte da ópera O Anel dos Nibelungos, do Wagner]
Desenterramos nossas roupas.
[CHORUS]
Dedos frios e cansados
Tamborilando suas memórias
Meia tristeza
Maravilhada pelo novo
Seu abraço
Era tudo o que eu temia
Aquela sala rodopiando
Comercializamos através do "vendue" [??]
Decisões de aço
Partem de mim
Minha pobre alma
É inteira passividade machucada
Todos os seus arrependimentos
Caminham mal-calçados sobre mim
Estou tão contente
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
Estou tão agradecido
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
"I'm in clover" [Aproveitar uma vida abastada]
Pois somos estranhos ao nos conhecermos
Me viro do avesso
E somos estranhos ao nos conhecermos
percebi que nunca me dei ao trabalho de pesquisar o suficiente para compreender completamente esta que é uma das minhas músicas favoritas do Bowie. Mas de qualquer jeito, agora que você viciou nela, segue uma tradução meio mambembe da letra, que você não achou na internet. Muito dela não vai ter tanta sonoridade em português e vai parecer meio cafona, mas eu gosto no inglês. E muito dela não vai fazer muito sentido porque são piadinhas internas e críticas que ele escreveu para uma ex-mulher que estava vendendo detalhes sórdidos da vida privada deles para os tablóides. Estou colocando entre "[]" alguns detalhes que pesquisei e outras noções que talvez ajudem a compreender.
All my friends
Now seem so thin and frail
Slinky secrets
Hotter than the sun
No peachy prayers
No trendy rechauffe
I'm with you
So I can't go on
[CHORUS]
All my violence
Raining tears upon the sheet
I'm bewildered/resentful
For we're strangers when we meet
Blank screen TV
Preening ourselves in the snow
Forget my name
But I'm over you
Blended sunrise
And it's a dying world
Humming Rheingold
We scavenge up our clothes
[CHORUS]
Cold tired fingers
Tapping out your memories
Halfway sadness
Dazzled by the new
Your embrace
Was all that I feared
That whirling room
We trade by vendu
Steely resolve
Is falling from me
My poor soul
All bruised passivity
All your regrets
Ride rough-shod over me
I'm so glad
That we're strangers when we meet
I'm so thankful
That we're strangers when we meet
I'm in clover
For we're strangers when we meet
Heel head over
And we're strangers when we meet
=====================================
Todos os meus amigos
Parecem agora finos e frágeis
Segredos sensuais
Mais quentes que o sol
Sem preces suculentas
Sem essa moda de reaquecer [o relacionamento]
Estou com você
Portanto não posso continuar
[CHORUS]
Toda minha violência
Chove lágrimas nos lençóis
Estou encantado / ressentido
Pois somos estranhos quando nos conhecemos.
Tela de TV vazia
Nos arrumarmos na neve
Você esquece meu nome
Mas eu já superei você
Fusão do nascer do sol
E é um mundo moribundo
Murmurando Rheingold [Primeira parte da ópera O Anel dos Nibelungos, do Wagner]
Desenterramos nossas roupas.
[CHORUS]
Dedos frios e cansados
Tamborilando suas memórias
Meia tristeza
Maravilhada pelo novo
Seu abraço
Era tudo o que eu temia
Aquela sala rodopiando
Comercializamos através do "vendue" [??]
Decisões de aço
Partem de mim
Minha pobre alma
É inteira passividade machucada
Todos os seus arrependimentos
Caminham mal-calçados sobre mim
Estou tão contente
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
Estou tão agradecido
Que sejamos estranhos ao nos conhecermos
"I'm in clover" [Aproveitar uma vida abastada]
Pois somos estranhos ao nos conhecermos
Me viro do avesso
E somos estranhos ao nos conhecermos
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