Trabalho em uma agencinha pequena. Fica em uma casa tão comum, que se não soubesse de antemão que havia uma agência lá, passaria reto. É uma casinha gostosa, decorada naquele estilo
clean de agência de publicidade. Trabalho em uma sala dos fundos, tão pequena que só cabemos eu, a
Loo, as máquinas e uma mesa de luz. Uma janela dá para um pátio interno meio claustrófilo, mas muito aconchegante.
De tão pequena que é a casa, ouve-se muita coisa acontecer e eu experimento pela primeira vez na vida uma sensação de
awareness em relação ao emprego que não tive nos outros. No meio da retocagem de uma foto, ouço pedaços de uma conversa do
Mr. President com um cliente, dizendo que a galera do estúdio (eu) conseguiu resolver aquele logotipo complicado, ou que eles aprovaram justo aquele layout que eu não gostei. Quando a notícia chega até mim, eu finjo que não sabia, mas já comentei com a
Loo e ela sorri de canto da boca. Não se trata daquela coisa mal-educada que, em inglês, chamam de
eavesdropping: é que não tem como não ouvir em um lugar tão pequeno e decorado com superfícies que não absorvem som.
Porém o mais cômico é ver que meus ouvidos já foram treinados pra isolar no burburinho o som das teclas de telefone. Porque mesmo sendo pequena, a agência tem um ramal para cada um (apesar de que, se eles levantarem o tom de voz, eu já escuto...). E assim que ouço a garota do atendimento digitar três números, minha mão já está sobre o aparelho, esperando o toque. Parece vidência.
Ontem descobri que a garota do atendimento fala italiano. Pouco, visto que aprendeu sozinha e não tem com quem praticar. Mas nos divertimos com isso. Garota com um jeito misturado entre o sério e o divertido, ela vive cantarolando por aí. Tem uma voz boa e já disse ter trabalhado com música antes. Soube, assim como quem não quer nada, que ela também tem seu vício por karaokê. Mas antes que vocês pensem demais nas semelhanças, ela tem seu rapaz e não faz muito meu tipo.
Vou pra casa de ônibus, lendo um livro que já está quase no fim, sobre um daqueles garotos que causou um massacre na escola. Os cobradores no ônibus são sempre os mesmos, na ida e na volta. Já estou ficando íntimo.
No caminho para casa, frequentemente me pego com aquela sensação de ter ficado para trás. Tantos amigos meus que já têm empregos (
empregos, não estágios...) fixos nessa área e ganham relativamente bem. Fosse eu, já teria até saído da casa dos pais. Eles avançaram para a próxima fase da vida e eu ainda estou aqui. Meu instinto competitivo de Bandeirantes não me deixa ignorar esse fato. Me acalmo sabendo que estou aqui porque no ano passado tive um emprego desses. Ou seja, estou invertendo, fazendo agora o que eu devia ter feito lá. Mais importante: estou aprendendo. Muito mais do que aprendi no outro emprego, porque pulei a parte de estagiar, e isso é fantástico.
Essa inversão tem seu paralelo cômico com o modo como eu estou ouvindo
Placebo,
Goldfrapp e
Lacuna Coil; estou usando delineador preto quando saio para as baladas e vestindo minhas roupas esquisitas. São coisas que eu devia ter feito aos dezoito, quando estava mais preocupado em parecer adulto, escutando
Mahler,
Satie e MPB e vestindo roupas comportadas que não me caiam bem, tentando pular essa fase adolescente.