quinta-feira, janeiro 24, 2008

Virada tardia

Ocorre-me que até agora não fiz o balanço do ano passado, como faço tradicionalmente. Pois bem, ei-lo aqui, com algumas semanas de atraso:

Em 2007 eu:

• Continuei querendo voltar para a Europa e desprezando o modo de pensar americano.

• Entrei para uma banda de rock, que passou a ser parte intrínseca do meu ano. O repentino ingresso no mundo da música ainda serve atualmente para testar minha hipótese de que, no mundo da arte atual, chega mais longe quem tem mais ímpeto e a técnica fica em segundo plano.

• Constatei a quase total erradicação do meu problema de ansiedade quando terminei a primeira apresentação da banda sem sintoma algum.

• Conheci minha Lexy graças à banda. Nossa diferença de idade deu cabo a certo ciúmes antigos que eu sentia.

• Dei fim ao caso da Genka, que hoje está feliz ao lado de um russo.

• Vi minha habilidade de canto decolar com a prática e me surpreendi com o que eu sou capaz. Por outro lado, descobri que pode-se fazer qualquer arte sem técnica, mas o canto sem técnica dói. E não estou só falando em desafinos.

• Vi minha habilidade de artista plástico definhar perante a falta de prática, já que a atividade da banda tomava boa parte do meu tempo livre.

• Vi o resto do meu tempo (uma parcela cada vez maior do meu dia) ser inevitavelmente tomado pela tentativa de ganhar dinheiro suficiente para sair da casa dos pais.

• Vi os rapazes da banda se tornarem as pessoas mais importantes para mim neste ano.

• Arquitetei a sorrateira fuga do trabalho escravo (leia-se estágio) que fazia tão mal para mim psicologicamente quanto financeiramente.

• Comecei a procurar apartamentos para alugar após ser contratado no novo emprego e percebi que a incompatibilidade com meu irmão tornaria o dividir um apê entre nós inviável.

• Encontrei o apartamento perfeito e estava quase assinando o negócio, apenas para ser puxado de volta à realidade do meu salário insuficiente. A saída da casa dos pais vai ter que esperar um pouco.

• Constatei a morte da minha esperança em algum dia encontrar realização pessoal na publicidade: essa carreira não é pra mim e quanto mais eu insistir, mais sofrerei com horas-extras e stress.

• Ainda não encontrei uma carreira substituta ou uma alternativa para me sustentar. Enquanto isso não aparece, continuo semeando uma úlcera com o trabalho de onze horas diárias naquela agência.

• Cogitei virar ator, para testar a outra hipótese sobre o mundo das artes: a de que bons contatos levam ao sucesso e técnica continua sendo secundária. Desisti da idéia por falta de tempo mesmo...

• Tive o aniversário mais animal até agora, com a festa surpresa que eu queria. Poucos apareceram, mas também não dá pra ter tudo...

• Estive em yet another acidente automobilístico, pela primeira vez não sendo o causador dele. E outra vez saí ileso.

• Briguei com meus pais para poder passar um natal com gente que realmente importa em vez de passar a noite sendo ignorado pelas minhas primas.

• Passei a última semana do ano tentando gravar um vídeo sobre uma cidade moribunda em Alagoas. Até que roubaram minha câmera e o complô local não me permitiu fazer nada a respeito.

• Passei um reveillon muito sem graça, se comparado ao precedente: preciso fazer minhas próprias festas sempre...


E em 2008 eu pretendo:

• Arranjar uma alternativa de ganha-pão. Isso é indiscutível e imprescindível.

• Voltar a estudar, aprender e me informar sobre arte. Seria conveniente trabalhar na área. Na verdade, a síntese desta resolução seria "voltar a me considerar um artista". Sair da época negra e torpe que foram os anos após o fim do curso de artes, onde a procura por dinheiro tomou o lugar do crescimento pessoal.

• Voltar ao circo (promessa repetida do ano passado...).

• Concertar a p*rra da minha internet de casa e voltar a ter algum acesso decente a MSN, blogs, fotologs e etc, porque isso aqui tá mais desabitado que a São Paulo do Second Life...

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Assigned languages

There was definitely a difference between my english and hers. She seemed embarrassed by her simpler level, wereas I seemed embarrassed to know more. Ashamed to show off.

After I left her at her place, I made my way back home remembering how it was back in Europe. I didn't consciously understand it back then, but I was assigning specific languages to each person I met. I never actually thought about it back home, because everyone would speak the same language and other tongues were seen as something out of place, a prodigious ability.
My choices of assigned languages were always slim: either my native Portuguese, my dear English, the new and entertaining Italian, or my corroded Spanish. Everyone I met there was assigned one in my head. At times I met so many different people in one day, that I was unsure of which language we had used when we first met. And they might not have minded, but I felt it would be rude of me to address them in another language other than their assigned one. That delicious shift between languages that I enjoyed so much was something we did together, when conversing in a large group.
There was something fun about it though. I never felt that my complete ignorance of German, for example, was an actual limitation. It was more like language-jousting: in a large group, I could suddenly detour into Italian and a few people in the group would be left out of the conversation. Then one of them would regain the conversation by addressing someone in German, and it would be my turn to be left out.

Strange to understand it now, but I felt just as affraid of showing off in Europe, where everyone spoke two or three different languages, as I felt in my own country, where most people would obviuosly be assigned Portuguese as their language and wouldn't understand the vocabulary in this post.

Random Literature

"Ei, ei!" Ela soltava de repente, alto e autoritário, mas em um tom propositalmente pueril. Eu parava de repente, ou acordava de um devaneio desses que me atacam depois de um dia de trabalho, e virava o rosto para olhar para ela. Suas sobrancelhas franzidas brincando de seriedade e a boca em bico, birrenta.

Mas então, percebendo-me atento, as sobrancelhas relaxam, os lábios apertam-se em um sorriso bochechudo de bebê e aqueles olhos maiores que o mundo piscam duas ou três vezes antes dela me dizer: "amo você!".

Apetite

"Você tem apetite pelo trabalho", um dos meus chefes comentou esses dias. Não soube o que responder a isso. Disse ainda que, quando não se tem apetite, deve-se ter ao menos disciplina. Aé fiquei ainda mais perplexo.

Eu, que volta e meia durmo entre um clique e outro do mouse (principalmente depois do almoço...), que não sei o que se passa 80% do tempo naquela agência, que sigo apenas ordens diretas e pontuais sem pensar mais do que isso, que não dou a mínima para o que se passa na publicidade mundial. Eu tenho apetite pelo trabalho.

E como não demonstrar serviço e apetite, sendo que duas pessoas pediram demissão da área de criação quando saímos de férias e continuamos com o mesmo volume de trabalho? Eu mesmo estou encarregado de quase todas as alterações de peças e os e-mails e banners mais simples. Chego e processar cinco peças ao dia, quando antes me via com dificuldade para levar a cabo três.

Já tô até vendo a gastrite que eu vou desenvolver daqui a pouco...

sábado, janeiro 05, 2008

Fim de ano

Natal passado no nordeste, visitando a família.
Para enfrentar o caos do sistema aéreo brasileiro, comprei o volume 4 da série The Dark Tower, do Stephen King. Mal lembrava eu que o volume anterior havia acabado com nossos heróis viajando a fatal velocidade abordo de um trêm dotado de uma inteligência artifical que, após séculos de negligência e desuso, tornara-se suicida. Livro ótimo pra ler abordo de um avião da TAM a 10 mil pés de altura, né?

A cidade de minhas tias continuava lá, de pé naquela terra onde a vegetacão é violenta e a lei inexiste. Cortada pelos trilhos de um trem que, neste ano, passava pintado patrioticamente com as cores da bandeira.
E talvez pela primeira vez senti naquele lugar a passagem dos anos. Estava na ausência de tia Margot, cujo nome agora enfeitava o posto de saúde da cidade; na surdez e confusão da geração de tias solteiras de 80 anos (exceto por tia Tereze, que ainda tem mais saúde do que muito adolescente...), nas cores mais acinzentadas dos seus cabelos e o amarelo brilhoso e levemente senil das suas peles.
A cidade estava acabando. Já era uma noção presente em tudo, como no universo do livro de King, onde o mundo que o protagonista conhecia estava moving on, passando, se deturpando e deixando de existir para dar lugar a outra coisa desconhecida. A cidade de minhas tias estava moving on. A família já estava se reunindo em torno das mesas nos lendários almoços de natal a discutir o destino deste ou daquele membro, das próprias tias, de bens e etc.

No ar, a sensação palpável (tão palpável quanto o calor nordestino) da violência aumentando em direção à nossa família, a aristocracia da região. Da hostilidade tensionando pronta para o bote no olhar dos matutos na estação de trem. No olhar dos vigias vigicobiçando a propriedade. Um leve cheiro de turba ensandecida no ar, misturado aos cheiros comuns de vinhaça da usina de açucar, de maresia das praias, de cajú na mata.

E de fato, a violência explodiu poucos dias depois do natal. Caminhávamos na praia, eu, meus pais e meu irmão. Descuido: trouxera minha câmera para fotografar uma das minhas praias favoritas, onde aprendi a pegar onda quando criança. Eu normalmente não levo câmeras para a praia com medo de que a areia danifique o mecanismo.
A família caminhou pela orla: meus pais pelo exercício, eu e meu irmão pela compania. Conversavam sobre filosofia e eu, sentindo-me seguro quando dobramos pela parte mais desabitada da praia, tirei a câmera da capa e comecei a fotografar e fazer pequenos vídeos de minha família caminhando pela areia, o calor fazendo a imagem bruxulear diante das lentes.
Na volta (tinha acabado de fotografar uma caravela portuguesa, espécie de água viva que andava infestando as praias nordestinas e que encantava pelos tons de violeta e rosa, e colocara a câmera de volta na capa), dois rapazes apareceram do nada. Aliás, seria um eufemismo dizer que apareceram do nada: vemos os vultos de pessoas caminhando pela praia a quilômetros de distância, mas minha atenção estava na fotografia. Antes que pudesse avaliar o perfil dos rapazes e perceber o perigo, já estavam a poucos metros. De um trapo em uma das mãos, um deles tirou um revolver. Trinta e oito, reluzente, bem azeitado. Arma de polícia, porque bandido não mantém um ferro desse jeito. Meu pai diria depois que não viu pontas de bala nos buracos do cilindro, mas vai saber se não tinha uma na agulha (a única necessária pra fazer um estrago)?
-"Senta no chão e não olha"- o outro gritava. O rapaz armado apontava o revolver pra o rosto de meu pai e cobria o rosto com o trapo de onde o tirara.
Tudo ganhou aquele tom de realidade, à medida em que a adrenalina invadia meu sangue. Tudo mais nítido, mais lá. Como se o resto dos meus 26 anos tivesse sido um sonho bom.
Sentamos na areia. Eles recolheram nossos pertences, incluíndo a câmera pendurada no meu ombro. Depois devolveram documentos e a chave do carro. Me levantaram primeiro e disseram que me sentasse mais acima na areia. Depois sentaram meu irmão junto. No medo, estive pronto para ouvir disparos. Mataríam os pais e os filhos, no desespero, não correriam atrás dos bandidos em fuga. Mas logo em seguida meus pais sentaram-se ao meu lado.
Meu irmão, sempre de boa índole, murmurava suave alguma coisa que nos acalmasse, algo sobre bens materiais e prescindíveis. E então eu retruquei: "é, mas lá se vai a minha câmera...".

Todos sabíamos: o ruim não era perder a câmera. Um pouco de dinheiro e eu podia comprar outra. Mas aquele aparelho guardava imagens inspiradas do que talvez fosse o último almoço em família na casa das tias. Aqueles rapazes roubavam boas memórias. Como Alzheimer.

De volta à parte movimentada da praia, procurei a delegacia. Os nativos do lugar diziam até que não me desse ao trabalho: ela estava sempre fechada. Mais tarde, no povoado vizinho, encontramos um comunicado na porta da delegacia dizendo que a polícia estava em greve. Pelo vermelho descolorido da impressão, eu suspeitava no mínimo uns seis meses de greve. O delegado levou meu pai a uma salinha. Quando meu pai descreveu os bandidos dizendo serem dois, o delegado completou: "mulatos?" Ele até sabia quem eram. Não disse, mas era óbvio: policiais encenando crimes para chamar a atenção de um governo que não dava ouvidos à sua greve. Depois deu aquele conselho bem brasileiro: "doutor, vai curtir sua praia".

Digam o que disserem deste pais. Que tem cultura, que é lindo e toda a ladainha. Eu saio dele na primeira chance que tiver de um emprego decente lá fora.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

O gesto

Procurando presentes no shopping, percebo que chegou ao Brasil o We beed to talk about Kevin, de Lionel Shriver. Traduziram-no perfeitamente para Precisamos falar sobre Kevin: raro traduzirem ao pé da letra assim. Comprei a versão original do livro quando estava em Londres. Ele era anunciado em grandes painéis vistos nas paredes do outro lado da linha do metrô.

Mind the gap...

O verso do livro informava tratar-se da história de um daqueles garotos que assassinou seus colegas de colégio. Li o livro às pressas, esperando um ponto de vista interessante e não-maniqueísta sobre o assunto. Foi uma decepção de início ao fim: Kevin era apresentado como um rapaz brilhante, mas maléfico por natureza. Nascera mau, piorou com a idade e cometeu as atrocidades por puro deleite e psicopatia, falta de sentimento de culpa mesmo.
Comparei o livro às reportagens da época, que atribuíam as chacinas aos jogos de tiro em primeira pessoa e ao último CD do Marilyn Manson. Curioso: pouco tempo depois dos rapazes de Columbine entrarem para a história, a nova versão de GTA, muito mais violenta, estourou como um dos jogos de maior sucesso da época. Julgando pelas reportagens, a sociedade ocidental deveria ter sucumbido perante uma horda de adolescentes violentos e psicopáticos, que roubavam carros e espancavam prostitutas. Esses crimes aconteceram, na mesma proporção que acontecem todos os anos.

Levou algum tempo para convencer os rapazes da banda a tocarem Jeremy, do Pearl Jam. A música foi inspirada em um parágrafo em um jornal, falando sobre um incidente em Richardson, Texas, onde um rapaz se suicidou na frente de seus colegas de classe. Embora o gesto tenha sido muito mais relacionado à auto-mutilação do que ao ataque, os motivos permanecem os mesmos.

Eu achava que era do Gaiman, mas na verdade foi o roteirista Warren Ellis que escreveu Shoot em 1999, como parte das histórias de Constantine. A revistinha (número 141) nunca chegou a ser publicada, porque era livremente inspirada nos acontecimentos de Columbine e a editora vetou o roteiro. Ellis na verdade entendeu apenas parte do assunto, e embora tenha conseguido um roteiro extremamente impactante, atribuiu as atrocidades a uma espécie de depressão generalizada, um mal do tempo, um desespero entediado de adolescentes sem futuro.

Anos depois de Columbine, quando eu estava saíndo da faculdade e esses incidentes já eram tristemente rotineiros, comecei a entender meu interesse por eles. Comecei uma história em quadrinhos que nunca teve nome e só durou quatro páginas. No fundo dos quadrinhos, a letra de Jeremy passa enquanto o personagem atira nos colegas e é morto pela polícia, para acordar em um pós-vida que não distingue entre o bem e o mal. Paralelamente, dei tratos à bola sobre fazer uma performance e, combinando previamente com algum colega, entrar um dia na sala de aula com uma arma de paintball e atirar nele. Me interessava a reação dos outros, se alguém iria tentar me desarmar, se alguém iria sequer entender.
Acima de tudo, me interessava o gesto. Sempre foi isso: o gesto. Descontada a questão moral/legal/humana do assassinato, é o gesto mais visceral e expressivo ao qual consigo me relacionar. O gesto de um estudante que aguentou anos de abuso dos valentões de colégio e nunca foi ouvido. Que, quando pediu ajuda aos pais e professores, foi transformado na raiz do problema, por ter "dificuldade de relacionamento", enquanto os valentões eram ditos saudáveis. Um monstruoso grito de uma criança que só que pedir "me ouçam".

Não sei como a conversa surgiu com Lexy hoje. Mas veio naturalmente e isso é sempre bom. Veio ilustrada por detalhes de uma infância e adolescência tão ou mais repletas de abusos quanto as minhas. E mais alguém que não idolatrou os rapazes de Columbine ou os que vieram depois, mas sentiu o deleite macabro de ver um dos nerds finalmente erguer o queixo e dizer "já chega".

Claro, hoje todo o trauma dessa época já não me diz respeito. Valentões são coisa da infância. E no entanto, eu continuo sempre voltando a esse assunto, sempre me interessando por ele. Com o mesmo interesse que eu tenho por alguns desses assuntos que as pessoas não querem discutir sem alarmismos sensacionalistas.

Acho que encontrei um assunto.

terça-feira, dezembro 11, 2007

O anúncio mal acabado, a animação que ainda falta alguns detalhes, a promessa de um longo e tortuoso dia seguinte. Mas consegui sair da agência. Corri em direção ao metrô até que meus pulmões estivessem em brasa. O passar das estações era pura e demorada ansiedade.

Não cheguei a tempo. A missa já tinha acabado e todos estavam partindo, os olhos ainda aguados em homenagem à amiga, colega de trabalho, professora. Na porta, alguém me deu uma foto dela. Ela sempre teve um sorriso fabulosamente alegre. Foi das mãos dela que eu recebi meu diploma. E tinha que ser ela, apenas ela. Acredito já ter escrito isso antes do blog.
Um súbito mal estar. Saí para as escadarias e, diante do anonimato dos motoristas da avenida, aliviei-me em um abafado e agudo choro.
Sim, algumas das lágrimas limpadas no dorso da mãe de homem que não chora eram pela professora, pela amiga, pela alegre. De certa forma sou grato por não ter visto esta mulher enquanto a doença a corroía: fico com as lembranças daquela época, daquele sorriso.
Mas preciso admitir que boa parte das lágrimas era frustração. Eu queria tanto ter estado lá. Outras pessoas daríam de ombros frente à tolice religiosa da missa de sétimo dia. Mas apesar de não ser tão cristão, eu sempre dei importância aos rituais. E agora tinha perdido este, o último para lhe dizer adeus. Eu chorava de frustração depois de um dia horroroso e culpava tudo na publicidade. Naquele emprego que eu ainda teimava em dizer a mim mesmo que era o caminho certo e que me sustentaria. Mas a que preço? Vendo a vida passar lá fora enquanto eu me percebia lerdo demais para cumprir as tarefas dentro do prazo? Sentindo-me culpado por não achar tudo aquilo fantástico e nem saber quem ganhou o recente prêmio Caboré? Perder sabe-se lá quantos outros rituais dos quais eu gostaria de participar?
Outra parte do choro era desamparo. Era perceber-me tão capaz e ainda assim tão inútil. O que eu poderia fazer além da publicidade para a qual eu me preparara por tanto tempo? Eu ainda sou uma criança nua, ingênua e com frio.

domingo, dezembro 09, 2007

Noite de sexta, ainda na agência. Ela desliga o telefone na minha cara porque eu combinei de sair com ela às 20:00 e ainda estava trabalhando uma hora depois. Depois volta a me ligar porque não tem como pegar um ônibus para casa.

Dançando na FunHouse, noite de sábado. Smiths, Smashing Pumpkins e Franz Ferdinand tocando. As luzes estroboscópicas queimando na minha retina os flashes congelados no tempo das expressões de deleite no rosto dela, cantarolando com a música, que se dissolvem no escuro dando espaço para o próximo flash e outra expressão daquelas que só ela faz.

Minha casa, na tarde de domingo. A mesa da cozinha é tomada por ingredientes de um risoto com verduras. Outro domingo gastronômico. Depois vamos ao ensaio da banda e ela não reclama. Talvez só um pouco pela preguiça de sair de casa com um estômago cheio e a sonolência da tarde quente. Mas não me sinto culpado por ter meus hobbies que consomem meu tempo, e isso era impensável para mim há alguns anos, na compania de outras pessoas.

terça-feira, dezembro 04, 2007

That sinking feeling...

Já é quase uma certeza que vou sair da publicidade. Resta-me entender para onde devo ir. Estou começando a pesquisar programas de trainee de grandes empresas.
A publicidade foi uma frustração gigantesca. Por ela, deixei as chances que tinha de procurar uma carreira de artes plásticas quando terminei a FAAP. Eu acreditava que poderia ganhar mais e ter mais estabilidade na publicidade. Mas tanta gente acreditou nessa ladainha, que hoje o mercado está saturado e não comporta pessoas como eu, que não morrem de paixão pelo assunto mas querem sobreviver dele. Os sacrifícios são enormes e eu não estou disposto a fazê-los.
Meu salário hoje não é maior do que o das minhas ex-colegas de FAAP que entraram para a área administrativa de museus e galerias. Já o stress...

Observando meus ex-colegas de colégio, gente que foi para outras áreas, percebo que a publicidade é uma das poucas áreas onde, quanto mais você sobe, mais trabalho você efetivamente tem. Claro, toda promoção envolve um aumento de responsabilidades e de stress, mas vejo meus ex-colegas delegando parte delas aos seus estagiários, assistentes e etc. Vejo-os usando a hierarquia a seu favor. Enquanto isso, minha supervisora na agência se desdobra em dois para absorver o que os estagiários não conseguem e minha chefe já vem à agência todo sábado, como parte da rotina semanal. Outros publicitários confirmam essa tendência.

Há algum alívio nessa crise toda que estou passando: o de perceber que, desistindo dessa área para a qual me preparei por quase uma década e percebendo que minha realização pessoal não virá daí, estou livre para fazer realmente o que aparecer pela frente. Desde que me pague mais, eu topo.

Há uma exclamação indignada que cada vez mais surge na minha cabeça em alto e bom inglês: "I gave up London for THIS!?"
Porque eu efetivamente voltei para terminar a faculdade de publicidade e ter uma carreira melhor do que a de garçom de pub (que aliás, me pagava melhor, se compararmos o custo e qualidade de vida...)
Mas aí eu me dou conta de que tenho Lexy e a banda e vejo que algo de bom surgiu disso tudo. Algo sempre surge.

sábado, dezembro 01, 2007

Atualizando

À medida que eu vou pegando um ritmo mais constante e maduro no trabalho, fica mais difícil pra mim atualizar isso aqui. Normalmente eu escrevo meus posts durante o dia, quando surge aquela idéia entre um trabalho e outro e eu fico pasmando um pouquinho. Mas recentemente, adquiri um hábito saudável de caçar assunto no trabalho, ir atrás de coisas inacabadas. Escrevo cada vez menos.

Mas resolvi fazer um daqueles posts gigantescos atualizando tudo, porque muita coisa importante aconteceu nessa semana. Não que muita gente leia isto, mas eu gosto de ter essas coisas registradas.

A BANDA
Saímos do show do Little Darling de cabeça erguida e achando que talvez tenha sido um dos shows mais gostosos que já fizemos. Ainda acho que o melhor foi aquele primeiro M868, mas esse foi muito mais gostoso.
Sinto a voz dar outro daqueles upgrades. Na verdade, não é como das outras vezes onde eu percebia uma capacidade nova. É mais como um rever habilidades que, com a evolução da voz, eu achei que tinha perdido. Não sei explicar direito, mas no começo eu fazia uns agudos que pareciam meio Placebo. Com os upgrades eu perdi isso e passei a fazer agudos de um jeito que machucava a garganta. Recentemente, reencontrei aquele jeito legal meio que por acaso, mas ainda não consigo controlar.
Há alguns ensaios, um dos rapazes começou a brincar com algumas notas. Os outros entraram na brincadeira. Eu, que estava em uma daquelas épocas de paixãozinha pela Lexy (daquelas que vêm para dar uma levantada no relacionamento de vez em quando...), entrei cantando um refrão que pedia "be my child, drive me wild". Nascia o começo de Be My Child. Com a voz naquele estilo do Placebo, mas a instrumentação mais pesada. Recentemente retomamos esse rascunho no estúdio. Os rapazes estão definindo as notas pra não ficar uma coisa tão improvisada e eu ainda preciso escrever uma última estrofe pra completar a estrutura. Acho que vai ser mais divertida de fazer do que Boy Toy. E isso é apenas uma cena dos próximos capítulos que virão no ano que vem, onde decidimos deixar os shows de lado e passar um semestre tentando escrever coisas legais. Cada um tem várias idéias, só falta tentar coordenar tudo junto.

PROCURANDO CASA
Encontrei um apartamento muito promissor na semana passada. A dois quarteirões da Paulista, uma kitchnet com garagem e lavanderia coletiva. Minha mãe foi ver e eu estava quase fechando o negócio. Daí meu pai perdeu as estribeiras e saiu cuspindo fogo. Porque ele estava a quatro meses pedindo que colocássemos os custos no papel pra entender quanto eu precisaria gastar para sair de casa e me manter. Pessoalmente, eu achei isso meio irrelevante. Depois da Europa, eu tinha aprendido, talvez da forma errada, a simplesmente entrar de cabeça nessas situações e me virar depois que o bonde já estivesse andando.
A discussão foi feia. Não vou colocar tudo por aqui, porque o post ficaria maior do que eu pretendo. Vou resumir dizendo que meu pai tem uma idéia nada realista do que eu vou precisar, aumentando demais os custos. E eu, por outro lado, tenho uma idéia igualmente irreal do que eu vou precisar, subestimando os custos. A verdade está em algum meio termo.

E como que isso afeta os planos?

Bom, abri mão desse apartamento. Vou ficar de olho nesse prédio, porque kitchnets tem alta rotatividade. Mas antes de seguir com o meu plano de mudar de casa, percebi que outras coisas vão ter que mudar.

A CONSEQUENTE QUESTÃO SALARIAL
Fazendo as contas por cima, entendi que eu vou precisar de uma certa quantidade de dinheiro para me manter sem a ajuda dos pais. Meu trabalho ainda não me paga isso e, pelo jeito, não vai me pagar pelos próximos... dois a três anos. E eles podem fazer isso, é perfeitamente normal: se eu não me sujeito a esse salário, tem muita gente querendo tomar meu lugar. Eu vejo a estrada a percorrer: ou eu invisto uma grana pesada em cursos de design (que é meu ponto fraco) e procuro algum jeito de compensar minha lentidão criativa, ou eu continuo ganhando esse salário e complemento isso com freelas que eu ainda não sei caçar direito. Em ambas as escolhas, os níveis de stress serão obscenos e eu temo pelo pouco tempo que tenho para meus hobbies como a banda e mesmo a pintura que voltei timidamente a fazer.
Um terceiro (e por enquanto mais sedutor) caminho é admitir minha derrota na publicidade, coisa que não é muito difícil porque eu não morro de amores pela carreira, e procurar uma alternativa. Dessas que todo mundo que ainda não conseguiu definir o que quer fazer da vida toma. Um programa de trainee de alguma grande empresa onde eu vá fazer uma coisa mais burocrática, que tenha menos a ver com arte, mas que me pague mais. Eu sempre fui meio seduzido pelo ambiente corporativo e sempre tive inveja dos moleques do prédio que, depois de uma certa idade, começaram a sair de casa pela manhã vestindo terno e carregado maletas. Me dá uma idéia de sucesso e estabilidade financeira. Eu sei que eu sou uma de raras pessoas que pensa assim, não precisa comentar...
Começo a perceber que eu sou um pouco como a Kita: eu detesto trabalhar. Não importa no que. Eu não sei procurar minha realização pessoal no trabalho. Ela está nas coisas que eu faço no tempo livre, depois de ganhar o dinheiro do mês. É aí que está o meu verdadeiro e: o pintor, cantor, desenhista, escritor, ator, etc. E essas coisas, neste país, dão muito pouco dinheiro ou exigem um ritmo de trabalho acelerado e incompatível com a boa qualidade. Acho muito triste esse ponto da maturidade onde você se rende ao fato de que você realmente não vai conseguir viver do seu sonho. As concessões são tão dolorosas...

A PINTURA
Como disse, voltei a pintar. Timidamente. Aproveitei uma reforma na casa da minha avó que interditou o ateliê já abandonado e fui organizar as coisas. Remexer nos tesouros daquela época sempre me inspira a voltar a ser o artista que eu era na faculdade (que frase de velho...). Aproveitando, levei várias telas para casa. Quando sobra uma ou duas horas do dia, pinto as linhas do cachorro de meu avô, ou os quadriláteros de cores quentes na tela que prometi há dois anos para dona Eliana, mãe da Taís. No canto do quarto, tenho telinhas pequenas que estou cobrindo de tinta vermelho-sangue para fazer os retratos da galera do coven assim que Bia Schmidt fizer-lhes as fotos: um projeto em conjunto que temos em lento andamento...
Nada de Alice por enquanto. Ela ficou parada no tempo, no único desenho deste ano, onde ela encontra a Butcher's Daughter. Ainda pretendo terminar esse.


E por enquanto é essa a minha vida. Estou saboreando o presente e já prevendo o amargo gosto do ano que vem.

domingo, novembro 25, 2007

Eu tive um sonho naquele dia. Influenciado pela sensação das semanas anteriores, eu cantava no palco do Little Darling e a voz falhava. Eu estava rouco como antes do M868 e os tons agudos simplesmente não saíam. Eu mantinha a calma e continuava cantando, ciente de que estávamos indo mal, mas sem me importar tanto.

Nosso show no Little Darling lavou a alma da zica que acompanhava as apresentações recentes. Não ganhamos o concurso, mas foi ótimo. Acima de tudo, foi um aprendizado, uma noite de gratas surpresas: a técnica do vocalista da banda da casa, a Splash Rock, cantando What's going on com uma voz feminina perfeita, idêntica ao vocal do 4 Non Blondes (se eu não estivesse vendo, acharia que era playback...); a escolha de músicas da banda vencedora, a Black Heart Blues Band, que, com um grupo de vocais muito bem coordenados, executou The Who e raridades como You Really Got Me dos Kinks e Wild Thing; a repentina condição perfeita da minha voz, que acertou até a subida de Have you Ever Seen the Rain; e principalmente, a hora em que a porta do bar abriu e uma senhora de 80 anos entrou num bar de rock acompanhada de minha mãe: era minha avó, vindo avaliar como eu cantava para continuar minha preparação!
Claro que nem tudo foi fantástico naquela noite. Eu fui com a certeza óbvia de que minha turma de colégio apareceria. Afinal, o Little Darling era nosso reduto nos últimos anos do colegial, quando começamos a fugir do congestionamento da Vila Olímpia nos finais de semana. Exceto pelo Piero, fiel escudeiro nestas situações, ninguém apareceu. E eu devia esperar por isso, visto que apenas dois ou três apareceram também, mui timidamente, na festa surpresa organizada pela Lexy. Não sei o que pensar disso. Se a turma que acabou, se resolveram me ignorar, se eu é que os abandonei, se eu sou tão impopular que nem valho a pena. Fato é que já estou me conformando com o fato de que eles nunca vão aparecer mesmo. Eles mantiveram o estilo herdado do colégio e eu enveredei para esta coisa roqueira que não tem nada a ver com quem eu era naquela época. Chega a ser irÔnico: eles que frequentavam o Madame Satã e outros antros, hoje vestem ternos e escutam jazz, enquanto eu que ouvia Bowie e Annie Lennox hoje canto em inferninhos. Falta de sincronia.

quinta-feira, novembro 15, 2007

It always rains....

Hoje chove, como é de praxe nos meus aniversários. Uma garoa daquelas finas, que tingem o dia daquela melancolia gostosa. Já faz quase uma semana depois da surpresa.

Eu realmente não desconfiei do dia.
Tinha stalkeado algumas coisas. Soube de uma festa através de meus meios. E de uma ou outra surpresa por pistas que ela dava, às vezes sem querer e às vezes sem conseguir se controlar. Mas em dado ponto, me segurei: eu adoro uma surpresa e, embora pudesse saber de tudo, não queria perder aquela euforia do inesperado.

Uma semana antes do aniversário. Foi uma cartada de mestre.
Nana me chamou para outro encontro de blogueiros. Fosse a Lexy a me chamar para sair, eu talvez teria desconfiado. Em vez disso, disse que estava com a mãe e que me encontraria no bar. Pediu que eu ligasse: deslize. Eu sempre esqueço e acabo ligando de lá, depois de chegar.
Subindo as escadas, avistei o Ri pela janela: já fazem meses que ele fechou o blog. O próximo conhecido visto foi o Piero. E a partir daí já estava claro que algo estava fora de lugar.
Nem todo mundo pode comparecer. Outros chegaram algum tempo depois da surpresa, por culpa do trânsito. Sabe-se lá o que estava acontecendo naquele dia, mas a cidade estava mais caótica do que o normal. Senti e falta do Lala's, da Kita e de outras pessoas muito queridas. Mas por outro lado, fiquei surpreso ao ver algumas pessoas que eu já tinha dado como perdidas na névoa do esquecimento.

A banda me deu um microfone. Um investimento que não passará em branco e que marca, de certa forma, um "levar isso a sério": pouco a pouco eu deixo de ser aquele cantor eventual, de fim de semana, pra ser alguém que tem até o próprio equipamento. Mas o principal da noite foi a caixa feita por minha Lexy. A turma do coven surpreendeu-se com a qualidade do artesanato: dentre eles, Bia Schmidt fazia caixas lindas, mas esta era claramente superior em acabamento. Forrada em veludo, a tampa portando dezenas de imagens de leões variados. E os presentes dentro dela... Idéias simples e baratas mas muito impactantes coletadas ao longo do tempo. Bottons com meu símbolo do leão de pedra e desenhos da minha Alice, uma camiseta com a Alice 18 que fiz para as meninas da casa na Itália, a coletânea completa da Annie Lennox (cujo show recente em São Paulo eu perdi) baixada da internet.
Outras pessoas haviam tentado fazer coisas significativas assim. Achavam que eu me comoveria com qualquer presentinho que fizesse referência às artes plásticas. Mas Lexy realmente me viu. Tanto pela festa surpresa, que eu sempre insinuei e ninguém levou a sério, como pelas pequenas surpresas, que tinham a sensibilidade de quem se esforçava para de fato ver o meu mundo, os meus significados. E fazia muito tempo que eu não sentia isso.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Limites

Sequer cheguei a fazer propaganda do show ocorrido há duas semanas. E também não falei nada, pelos meios virtuais de praxe, da volta ao M868 no sábado passado.

Tive medo.

Queria cantar para uma platéia de desconhecidos que não prestasse muita atenção em mim, esperando a banda dos amigos que toca metal pesado gutural depois da nossa. Queria que as falhas no que deveria ser o filamento suave de notas da minha voz fossem afogadas no burburinho das vozes de punks-de-mentira ou nas notas sempre altas da guitarra de Nando. Queria que ninguém me ouvisse. Ou pelo menos que ninguém prestasse atenção.

Lee, que sempre teve um bom gosto para florear suas frases com detalhes de uma banalidade profundamente verdadeira, escreveu recentemente em seu blog:
Eu odeio ser uma dessas pessoas fracas, que têm tendinite, labirintite e depois não podem trabalhar. Preciso decupar pelo menos mais umas duas fitas ainda hoje!

Em seguida, uma colega de trabalho a repreendeu por ter virado uma workaholic. Mas tem algo visceralmente humano e jovem nessa frase dela, que chora e suplica e não é atendido. Seu corpo mostrou sinais de stress e ela não quer lidar com isso. É incrivelmente frustrante quando a mente diz "por favor, só mais um pouco, eu quero" e o corpo diz "eu não aguento mais e estou desistindo". Nesta época moderna, rotulam isso de "stress". E como todo rótulo, menosprezam seu significado.

Perdoem a digressão...

Depois da sexta retrasada, onde eu já não estava me sentindo com 100% da capacidade, acordei rouco no dia seguinte. Um acontecimento que aprendi a aceitar como normal este ano. Também era normal a rouquidão passar no próximo amanhecer. E de repente, cinco dias passaram e eu ainda estava ali. Precisando do dobro do ar para emitir qualquer som e tendo metade da amplitude normal. A metade de baixo, a menos usada.
Nando, com todo seu ímpeto que sempre nos levou adiante, convenceu de todas as formas a continuarmos com a agenda. Porqueelepodiacobriraminhavozcomaguitarraetocarsujoealtoerapidoeeuusariapedaisnovocaletudodariacerto. Dias depois e um pouco em cima da hora demais para um cancelamento com mais classe, ele perguntou se eu queria cancelar o show do sábado. Sentia que não era exatamente ele que estava perguntando. Mas então a voz já estava voltando e eu tive coragem para o show do sábado. Isso, e toda a raiva contida pelas semanas de zica astral forte que culminaram com o acidente de carro, me convenceram a prosseguir. Por teimosia. Por um ódio puro, destilado, escorpionídeo que eu precisava exorcizar.
Não foi o melhor dos nossos shows. Também não foi o pior.

No médico da família: garganta um pouco inflamada e uma leve infecção por cândida (calma, é normal e todo mundo tem mas não percebe porque não canta...). Ele enfia uma câmera pelo meu nariz [imaginem, estupro nasal...] e vejo minhas cordas vocais. As paredes da garganta ainda avermelhadas e aquela forma vaginácea que se contrai e vibra quando respondo às perguntas. Ele comenta favoravelmente sobre o amplo espaço que tenho na garganta, e como isso me concede uma voz naturalmente boa para canto mesmo. Porém mostra como contraio a garganta para as notas mais agudas. Com a pressão do ar usada para aumentar o volume nos shows, a violência exercida na garganta nessas notas é brutal. Falta de técnica mesmo. Traído justamente pelas notas altas que sempre gostei.

Uma parte de mim chora e suplica e não é atendida. Especialmente agora que temos mais três shows pela frente até o final do ano. Alguns em sonhos como o Little Darling, no próximo dia 22. Mas a outra parte de mim, essa que é física e que dói, me ensina que é possível pintar um quadro sem técnica, escrever um texto sem técnica ou mesmo interpretar uma tragédia grega sem técnica. Mas cantar sem técnica é mais do que apenas uma violência estética. Preciso de aulas mais específicas do que as de minha avó.

Eu odeio ser uma dessas pessoas fracas, que têm laringite e depois não podem cantar. Preciso aguentar pelo menos mais uns dois shows ainda este ano!

sábado, novembro 03, 2007

What if

Of all the things that can gnaw at the mind at bedtime, the most cruel of them is the alternate possibility. The infamous "what if?".

What if Lexy had stayed home that night? What if I had driven the car instead. What if I had told BBK I wasn't going to make it that evening and had taken her where she wanted to go instead? What if that delivery biker had gotten his call a minute later? In a nutshell: what if we all hadn't been there at that exact second?

She smiled at me. I remember that now. And we had been arguing over all the petty things we usually argued about. I had told her I tried so hard to get her to smile because I loved that smile. We were done arguing then and things were settled. She smiled at me and I turned to my telephone to call BBK and tell him we would soon be there. I was dialing. That's why I wasn't, as I usually am, paying attention to her every move, ready to pull the brakes if she made a mistake. I made the worst possible mistake: too much trust.

Then I heard the unmistakeable sound of a motorcycle horn growing louder to our left.

Later I would tell Lexy that I have this somewhat dangerous reaction hard-wired into my brain. That reaction is the lack of emotional response. When other people panic, I dull my senses with apathy. It was programmed into me since childhood, when I learned that bullies would stop bullying me if I didn't cry. Not because they'd think I was tough, but because there was no fun in stimulating someone who didn't respond. It's a dangerous form of reaction, because although it allows you to keep calm, it also numbs your judgement in potentially fatal situations. It's a hard thing to explain.
As I heard the sound growing louder, the reaction kicked in. I was sure he would dodge the car and everything would be fine. I remember feeling the hit and seeing him jump from the motorcycle over the hood of my car. I was sure he would fall to the ground unharmed and everything would be fine. The impact slammed the door against Lexy's left shoulder and pushed my car to the side. She stayed motionless for a while. I was sure she had just fainted momentarily and once she woke up, everything would be fine. However, the car was still moving: we rode for another second or two, heading straight for the building at the corner of the street. A thin, young tree was all that stood in the way. I was sure that it's flexibility would hold the car causing minimum damage and everything would be fine.
Alas, sometimes you're right, and sometimes you're wrong. The car did halt upon hitting the tree. This second impact knocked Lexy back into consciousness and straight into the largest panic attack I had ever witnessed. As she screamed a chain of "Babe, what have I done!?"s, my apathy seemd to be replaced by adrenaline. What had she done? I jumped out of the car and walked around it. I asked her if she was alright and then checked on the biker: still alive. All of us. The biker had a sprained ankle and that was it. And then my attention turned to the car.

At the end of Aerosmith's Living on the Edge videoclip, Edward Furlong drives a car straight into a wall in a very dinamic scene, full of movement and speed and rage. Then they cut to this other view where the car wreck sits motionless as if it had been there for ages.
I stared at my car with that same strangeness, finding it hard to believe we had actually stopped. It was wedged into the tree, almost hugging it. The driver's door was wrecked, the inner plastic shell detached and the outside handle didn't work anymore. Lexy had to open it from the inside.

I believe it began to rain roughly five minutes after it had happened. That hard, miserable rain of horror movies. The rest of this tale is all sirens and bureaucracy and headaches.

I still felt that sense of irreality when I woke up today. It took me a few minutes to remember. But the what if's started buzzing almost instantly. What if I hadn't been on the phone? What if I had pulled the handbrake before hitting the tree? What if...